Partilha de perspectivas... tanto quanto atualizadas.



terça-feira, 16 de novembro de 2021

Mudanças ou incongruências?


‘Odiavam ir ao domingo à missa e agora passam horas no yoga. Odiavam abster-se de comer carne na quaresma e agora tornam-se vegans. Odiavam rezar ao Santíssimo Sacramento e agora fazem meditação [transcendental]. Odiavam confessar-se e agora contam as suas misérias a um psicólogo, pagando-lhe’.

Li este texto e considerei que ele retratava – mesmo que de forma simplista – muitos dos ‘nossos’ católicos, que se tornaram fervorosos praticantes de outras ‘religiões’ bem mais atrativas… a seu juízo!

‘Mutatis mutandis’ é como aqueles ‘nossos’ cristãos enfastiados com as homilias e quase avessos a escutarem a Palavra de Deus, em contexto católico, mas que, fascinados pelas testemunhas de jeová, descobrem a Bíblia e tornam-se leitores atentos, estudiosos metódicos e, por vezes, difusores daquilo que, por desconhecerem, desprezavam…

1. Trocar a missa pelo yoga – será algo comparável? – Desde logo estes dois modos de ser e de estar são como que incompatíveis: yoga acentua a centralização no eu – na linha de perceção daquilo que acontece com a pessoa e com o seu corpo – em nítido contraste com a dimensão comunitária fundacional da vivência da missa, isto é, somos muitos (Igreja) unidos pelo mesmo Cristo… Pode haver sessões (com muitas pessoas) de yoga, mas cada um faz o seu percurso, experimenta a sua respiração, mesmo que possa sentir a dos outros…Por seu turno, na missa, mesmo que poucos estamos em condição comunitária, isso mesmo se exprime pela oração do ‘Pai-nosso’, onde cada um reza sempre no plural e não singulariza a sua oração.

2. Mudar para vegetariano? – De alguma forma vemos a incongruência das pessoas quando contestam o jejum como método espiritual e o adotam como atividade estética ou seguindo orientações mais ou menos capciosas da sua mentalização em função de uma tal moda (um tanto aceite e divulgada), isto é, há quem siga o jejum – de aspetos alimentares – como regime e não como sistema de mudança de vida. De facto, há pessoas que se adaptam momentaneamente mas não mudam intrinsecamente…Mais cedo do que tarde voltarão ao ponto de partida, até porque as etapas custam mais do que os resultados.

3. Rezar o quê, a quem e como? – Nas palavras citadas faz-se uma contraposição entre a adoração eucarística e a meditação influenciada por outras propostas religiosas. Como se fossem comparáveis ou mesmo tivessem o mesmo valor…Com efeito, a grande questão é a necessidade de ter tempo de oração, tendencialmente diário. Ora isso falta à maioria das pessoas, que vivem flutuando sem terem tempo de se encontrarem consigo mesmas e tão pouco de darem espaço à escuta de Deus. É essencial que tenhamos tempo e vivência de nos encontrarmos no ‘sacrário do nosso coração’ – como tão belamente se referiu o Concílio Vaticano II, na Constituição pastoral ‘Gaudium et spes’ sobre a Igreja no mundo atual, n.º 16. Na medida em que lermos, meditarmos e rezarmos a partir da Sagrada Escritura teremos algo mais do que comprazimentos de aferição em autoestima…A Palavra de Deus converte, sempre!

4. Reconhecer-se pecador diante de quem? – A crise da confissão é muito mais do que confusão de fé, é, sobretudo, alienação de quem se considera impecável (sem pecado), insensível (às faltas alheias) e, tantas vezes, intratável, dado que não se reconhece nas suas falhas, antes se exalta no seu orgulho e inventa desculpas para não ser normal, isto é, com qualidades e defeitos, com erros e falhas, com virtudes e pecados. Aquilo que é de graça – sem custo e dado por misericórdia – na celebração da confissão sacramental foi dando lugar a umas sessões terapêuticas – pessoais ou em grupo – pagas a bom preço e, quantas vezes, despudoradamente lesivas da dignidade da pessoa humana. Cada um saberá escolher o que mais lhe agrade ou onde se sinta respeitado e respeitador…


= Estes aspetos poderão ser úteis desenvolver com mais simplicidade e exigência…cristãmente em Igreja!



António Sílvio Couto

segunda-feira, 15 de novembro de 2021

Ridículo e ridicularização…

 


Recordo do meu tempo de estudante que um professor nos ditou para o exame a seguinte questão: ‘evidência e evidenciação na teoria do conhecimento’…e, por duas horas rigidamente contadas, tivemos de dedilhar os conhecimentos, as teses, os resumos e as múltiplas conjugações da matéria estudada…
Seguindo o método neotomista, antes de mais, tínhamos de fazer uma exigente definição dos termos para não estarmos a falar de coisas diversas usando idênticas palavras.
Atendendo a esta aprendizagem vamos tentar conjugar os termos filosóficos com as palavras que servem de título a este texto. Será o ‘ridículo’ uma evidência e a ‘ridicularização’ uma evidenciação? Não será o binómio ‘evidência-ridículo’ uma visão demasiado evidente e onde poderemos fazer uma leitura da realidade dos nossos dias? Por seu turno, o paralelo ‘ridicularização-evidenciação’ poderá ser explicativo de tantas subtilezas ainda não compreendidas?

1. Se as coisas televisionadas podem representar – pelo simbolismo ou pela valorização dada – algo da nossa vida, então, somos tentados a conjeturar que o ridículo está em ponto-de-rebuçado, pois vemo-lo desde as notícias até aos programas de entretenimento, passando pelas telenovelas ou mesmo pelos debates. Em múltiplas situações só pelo ridículo se compreende que se gastem horas a falar de assuntos inúteis – veja-se as tricas do futebol e de alguns clubes em particular – e com tal veemência que os mais incautos podem ser ludibriados pelas questões… O valor das matérias em discussão não se mede pelo tempo ocupado, mas pela importância para a vida de quem possa escutar ou estar interessado no assunto…

2. A vertente da ridicularização também é servida a rodos nas conversas, nas ‘comunicações’ das (ditas) redes sociais ou nos espaços de influência sucedâneos das conversas de café... O léxico português tem alguma variedade de palavras para exprimir esta nossa apetência – quase congénita – para fazermos do falar-da-vida-dos-outros um assunto de ocupação do tempo. Quem não identifica bisbilhotice como essa intromissão na vida alheia, recorrendo ao dizer-mal-dos-outros como tema? Noutros lugares usa-se calhandrice, mexeriquice, fofoquice… Há ainda termos regionais para se referir a esta atitude de intromissão, por menos boas (ou más) razões na vida-dos-outros: ‘cabaneira’, termo minhoto que significa alcoviteira e que, à porta da sua casa (cabana), se entretinha a falar da vida alheia…certamente denegrindo quem era falado… Também a palavra ‘sendeiro’, no significado no masculino de trapaceiro e troca-tintas ou que usa o que sabe para entalar os outros, tentando sobressair-se sobre os demais…Que dizer ainda de ‘trampolineiro’ como vigarista ou de fazer muito ‘basqueiro’, como sendo uma forma de armar barulho para confundir as ideias de quem não entende o nosso linguajar? Riqueza não falta. Entendimento, precisa-se!

3. Ora, nos tempos que decorrem, temos de estar atentos ao alcance das palavras, dos gestos e dos sinais daqueles/as com quem comunicamos. Com efeito, se houver desfasamento entre emissor e recetor, a mensagem pode não ser descodificada. Efetivamente, muita da comunicação em curso usa de razoáveis artimanhas, numa tentativa de manipular quem possa estar à escuta: com que habilidade vemos alguns dos comunicadores – em certas situações usando de imagens subliminares (breves, fugidias e quase impercetíveis) – ardilosamente a aparecerem com trejeitos de quem não sabe o que dizer, mas que encobre com artifícios bem montados para distraírem do essencial, fixando-se no secundário e/ou acessório, mas que os intermediários (os vários órgãos de comunicação) se encarregarão de sublinhar, embora o importante possa ficar sem ser visto, dito ou mostrado…A isto não se poderá chamar ridicularização do ridículo?

4. Numa avaliação de alguns momentos recentes da nossa vida coletiva como que poderemos considerar uma ridicularização quase sem ridículo, tais como as derrotas do mundo do futebol – da seleção ou dos clubes mais representativos – ou ainda dos insucessos inesperados de outros setores ou de ações (militares ou outras) que já nos deram grande ostentação. Não será que ainda não percebemos que a exceção não faz a regra e que esta nem sempre se conjuga com sucesso sem trabalho… Só no dicionário tal se antecede!

António Sílvio Couto

quarta-feira, 10 de novembro de 2021

‘241’: sangue e escândalo?

 


Começo, hoje, pelo fim neste texto: dão-me nojo, sinto vergonha, onde estiverem quererei estar longe, se forem atendidos mereceremos fechar...ao menos para balanço sério, sereno e santo.

Foi noticiado que um grupo de ‘católicos’ (241) fez chegar à Conferência Episcopal Portuguesa, reunida esta semana, em Fátima, uma pretensão sobre aquilo que, eles mesmos classificaram, de ‘investigação independente sobre os crimes de abuso sexual na Igreja’.

O assunto foi bem divulgado, desde a comunicação social – ávida de sangue e de acusação contra tudo que cheire a Igreja...católica – até às instâncias de proximidade aos bispos, com a temorização em correio eletrónico a cada um...aliando o resto às pretensões de deixar marca pela negativa.

1. Daquilo que nos foi dado conhecer surgem nessa lista de indignados – talvez considerem que os números apurados não se adequam às suas pretensões combativas – aparecem ‘figuras, figurinhas e figurões’, que se dizem (mais ou menos) em comunhão católica: professores da UCP, alguns padres, um deputado (trotskista e bajulado nalguns setores quando se trata de temas contra a vida), responsáveis que foram de serviços sociais da Igreja de âmbito nacional (bem pagos e suficientemente promovidos), sindicalistas marxisto-catolicizantes (deambulando no seu esquerdismo neo-capitalista) , dirigentes de movimentos anarco-cristãos (num operariado sem expressão nem trabalho), jornaleiros do anti-religioso...à mistura (pretensos) considerados juristas ou fabricantes de ideias, procedentes da vida médica ou mesmo (apelidados) artistas...

Segundo as pretensões é manifestado que haja uma «investigação nacional rigorosa, abrangente e verdadeiramente independente, com o arco temporal de 50 anos, a cargo de uma comissão de peritos constituída exclusivamente por leigos católicos, por não crentes, por profissionais das ciências sociais e da justiça, cuja autonomia e independência sejam absolutamente inquestionáveis, ainda que possa, eventualmente, ser assessorada por algum elemento do clero». Será que amam a Igreja ou pretendem afundá-la com as suas ‘verdades’ mais ou menos preconceituosas?

2. Mesmo que de forma desprenciosa parece que esta vaga de acusações pretende ser mais dogmática do que a doutrina assim considerada, pois não reconhecem ‘autoridade’ às comissões diocesanas, entretanto constituídas, e querem instigar à denúncia quem tenha meros indícios. Não estaremos sob uma ‘nova inquisição’ populista, laicista – alguns daqueles 241 parecem ter afinidades à maçonaria e a quejandos marxistas – e anti-católica primária?

Recordo aqui uma conversa particular com Catalina Pestana – antiga provedora da Casa Pia e membro de uma comissão sobre o assunto, já falecida – quando lhe dei a entender que poderia haver situações nalgum setor do clero, ela referiu que lhe dissesse nomes, ao que ripostei, não sou bufo nem posso denunciar coisas abstratas e sob sigilo profissional... investiguem e averiguem... Não encontraram ninguém!

3. Pela minha parte considero algo surrealista que, estando nós em caminho sinodal, nos venham precisamente agora distrair com questões nem sempre tão graves como noutros países... Pelo que vi em doze anos de seminário – entre 1969 e 1983 – e padre desde há trinta e oito anos considero que nunca por nunca percebi essas nebluosas sombras que a tantos afligem. Talvez tenha sido negligência da minha parte ou aquilo que pintam ultrapassa a linha do razoável. Não haverá fantasmas que não passam de projeções das mentes e das psicologias de tantos dos novos inquisidores? Se têm dados porque não os apresentam? Ficariam ‘bem cotados’ na esfera dos combatentes a esta – inquestionável e malfadada – podridão da Igreja... ontem como hoje!

4. Atribui-se ao Papa Bento XVI a frase de que muitos que sairam da Igreja nem sairam, pois não tinham chegado a entrar... Não estarão neste role alguns dos 241 manifestantes?

António Sílvio Couto

terça-feira, 9 de novembro de 2021

Magusto: carnaval do outono?

 


Por estes dias – entre a festa de São Simão e São Judas (28 de outubro) e a festa de São Martinho (11 de novembro), sem esquecer a data de Todos-os-Santos (1 de novembro) – é costume fazer-se o magusto, a que se associa uma fogueira com castanhas assadas…numa vivência festiva de confraternização entre os participantes.
Colocamos algumas perguntas que podem ser feitas ou que seriam úteis para quem deseja tentar discernir o significado das coisas, tanto no sentido humano como religioso. Haverá alguma relação entre as festividades do magusto – fixado na celebração do São Martinho – e o Natal? Poderemos fazer alguma correlação entre as ‘brincadeiras’ do magusto – onde alguns se enfarruscavam, disfarçando-se – e as máscaras de carnaval? Poderemos situar alguma semelhança entre o festejar do carnaval para viver a quaresma e a celebração do magusto/S. Martinho com o tempo de Advento, que prepara a vivência do Natal?

1. Contemos o tempo que medeia entre o São Martinho (1 de novembro) e o Natal (25 de dezembro): são quarenta e quatro dias. Se verificarmos também ocorrem quarenta e seis dias entre o carnaval e a Páscoa, daí o termo ‘quaresma’, relacionado com quarenta… Será mera coincidência?

2. Parece que, tal como antes da quaresma, isto é, no carnaval (intervalo para carne) se aliviou o jejum para vivê-lo com maior intensidade no período quaresmal, também se faz o mesmo para viver a preparação do Natal em Advento, se bem que este esteja reduzido, liturgicamente, a umas míseras semanas… Claro que podemos estar a falar, quanto à preparação natalícias, num contexto monacal e não numa vivência popular e, sobretudo, popularizada.
Diz-se nas decisões do primeiro Concílio de Mâcon (581-583): «Desde as férias de São Martinho até ao Natal do Senhor, deve jejuar-se nas segundas, quartas e sextas-feiras e nos sábados e celebrar-se, por ordem, os sacrifícios quaresmais» (Antologia litúrgica, Fátima, Secretariado Nacional de Liturgia, 2003, n.º 5191).

3. Se usássemos uma argumentação algo fundamentalista poderíamos considerar que, à semelhança do que acontece com o carnaval, vivemos mais a preparação do que aquilo que é central, isto é, usufruímos da festa, mas não entramos no jejum, vivemos o que prepara e não participamos na verdadeira preparação. Também aqui, na ‘celebração’ do magusto estamos mais sintonizados com o convívio – humano e salutar depois dos constrangimentos recentes da pandemia – do que com a autêntica preparação do Natal, esse sim central e essencial.

4. Magustamente falando devemos vivê-lo até como festa marcadamente portuguesa, dando-lhe o verdadeiro sentido de partilha, de convívio entre as pessoas, de alegria e mesmo de atenção aos outros. Tudo isto podemos e devemos fazer, sem esquecermos a dinâmica de preparação para a celebração do Natal, onde o centro não são as coisas – simbolizadas mais nas prendas do que nos presentes – mas o verdadeiro festejado, Jesus, verbo encarnado.

5. Embora seja assaz conhecida deixamos a lenda de São Martinho…como provocação às nossas preocupações tão mundanas. Certo dia, um soldado romano de nome Martinho, estava a caminho da sua terra natal. O tempo estava muito frio e Martinho encontrou um mendigo, que lhe pediu esmola. Martinho, não tendo outra coisa para dar, rasgou a sua capa em duas metades e deu uma parte ao mendigo. Nessa noite apareceu-lhe Jesus, agradecendo o gesto... Coisa acrescentada diz ainda que, quando Martinho deu parte da capa ao mendigo, de repente o frio parou e o sol apareceu... Acredita-se que esta mudança no estado do tempo tenha sido a recompensa por Martinho ter sido generoso para com o mendigo…

Façamos festa sem perder o horizonte da caminhada…nossa e dos outros!

António Sílvio Couto

domingo, 7 de novembro de 2021

Rotulagem inadequada (direita – esquerda)

 


É comum ouvirmos, na linguagem política, esta distinção: direita – esquerda… num antagonismo quase esquizofrénico, sobretudo, em certos momentos de exacerbação do debate, como este que estamos a viver, por agora.

- De onde vem e qual é o real significado desta oposição: direita-esquerda? Será ainda adequada? Que valores ou critérios servem para que se continue a usar esta denominação? Haverá ‘pureza’ de terminologia e, sobretudo, de comportamentos em cada setor? Estes contraditórios serão assim tão díspares e inconciliáveis? Como entender, então, que disputem quase sempre um eleitorado algo cinzento e tão volúvel?

- Que dizer de uns tantos, autoapelidados de ‘esquerda’ que se pavoneiam em carrões de capitalistas? Como entender a visão de (dita) esquerda em que certas autarquias compram veículos por milhares de euros? Isso não os constrangerá, minimamente, perante os ‘trabalhadores’ de quem se dizem representantes e lídimos eleitos? Como entender um tal capitalismo de estado (social ou socialista), em que situações de miséria grassam entre os seus inócuos ou fiduciários votantes? Como poderá a ‘esquerda’ distribuir favores e subsídios se não sabe, desgraçadamente, gerar riqueza? A ‘direita’ será toda assim tão capitalista e insensível aos pobres a quem dá emprego e tenta pagar, justamente, os salários?

1. Vejamos como se podem definir – apelidar, acusar ou rotular – os mentores, adeptos e seguidores de ‘direita’ e de ‘esquerda’ e quais as matérias de que se servem para tal distinção. Daquilo que conseguimos aferir sobre o tema podemos considerar que os termos ‘esquerda’ e ‘direita’ apareceram durante a Revolução Francesa, em 1789, e o subsequente Império de Napoleão Bonaparte, quando os membros da Assembleia Nacional se dividiam em partidários do rei à direita do presidente e simpatizantes da revolução à sua esquerda.
No contexto do tempo da ‘guerra fria’ – confronto simbolizado entre os EUA e a URSS – podemos encontrar quatro dimensões – política, económica, religiosa e temporalidade – que mais definem os elementos da divisão ideológica entre ‘esquerda’ e ‘direita’. Como traços periféricos da divisão entre direita e esquerda temos ainda: para o primeiro o setor político, o passado, o status quo, a livre empresa e os EUA; para a segunda a orientação ideológica, o futuro, a mudança, a intervenção do Estado na economia e a URSS. A direita será mais conservadora e mais contínua nas suas ideias, enquanto a esquerda parece conviver um tanto melhor com a descontinuidade.
Após a queda do muro de Berlim, em 1989, os partidos de ‘direita’ e de ‘esquerda’ sofreram mutações conceptuais. O que era bastante claro num mundo polarizado – de um lado o modelo liberal/democrático/capitalista americano, e do outro o modelo social/autoritário/comunista soviético – passou a ficar confuso após a ‘queda do muro’ e do fim da União Soviética. Muitos ditos de ‘esquerda’ migraram para concepções mais democráticas e progressistas, enquanto outros ditos ‘direita’ começaram a ser identificados como pessoas mais reacionárias. A verdade é que os rótulos ‘direita/esquerda’ já são muito limitados para definir a diversidade política do século XXI, sendo talvez mais interessante a abrangência do discurso, definindo-se de forma mais clara a concepção política de cada um…

2. Perante este percurso histórico-ideológico parece confrangedor o espetro dos partidos em Portugal e das tentativas de se qualificarem sem classificação. Usam-se chavões desadequados da evolução social e tecnológica. Pretende-se dar a entender que questiúnculas como o ‘estado social’, problemas de saúde ou casos de educação/instrução… se resolvem pelas pretensões ideológicas quase medievalescas, como se a saúde das pessoas tivesse ascendente de melhor trato se praticada só nos hospitais públicos, por sinal em menor número do que os outros; as escolas não-públicas fossem de menor qualidade, por sinal classificadas melhor no ranking geral; o ‘estado social’ terá de manter e suportar subsidio-dependentes ‘profissionais’?

3. As tomadas de posição do Papa João Paulo II revestiram-se de grande significado: umas vezes era progressista de esquerda, quando intervinha nas questões laborais e sociais; outras era conservador de direita, quando abordava temas de índole moral, como a vida… Afinal, poder-se-á ser lido conforme as perspetivas de quem vê, lê ou ouve? Coerência, a quanto obrigas, ontem como hoje!



António Sílvio Couto

quarta-feira, 3 de novembro de 2021

... Em razão das circunstâncias



O título completo deste nosso fraseado é: será verdade, em razão das circunstâncias?

Isso mesmo queremos referir a diversas situações, tanto mais alargadas, quanto aquilo que nos pode tocar de mais próximo: factos e situações, episódios ou acontecimentos, figuras e personagens, pessoas ou associações, casos e conjeturas, perspetivas ou opiniões...

1. Será verdade, em razão das circunstâncias, que corremos um sério risco de colapsar, como dizem lá na cimeira de Glasgow, na Escócia? Esta COP26, a decorrer de 1 a 12 deste mês, pretende atalhar sobre vários perigos quanto ao futuro do Planeta Terra. Dá a impressão que todos estão conscientes sobre as alterações climáticas... a muito curto prazo. Em razão das circunstâncias chegou a hora de decidir de verdade!

2. Será verdade, em razão das circunstâncias, que o nosso país caminha para a ingovernabilidade, seja qual for o resultado das eleições antecipadas, dentro de mais ou menos dois meses? Talvez tenhamos de questionar, de verdade, aqueles que fizeram desenvocar esta crise numa confusão ainda mais atroz. Não é que estivéssemos bem, mas o que se perfila no horizonte, em razão das circunstâncias, parece ainda mais radical nos fundamentos e nas possíveis consequências... O voto é a arma do povo!

3. Será verdade, em razão das circunstâncias, que os fazedores da comunicação social – seja qual qual for a sua expressão ou dimensão – se tornaram mais jornaleiros (do poder e dos seus tentáculos) do que jornalistas (isentos, sagazes e capazes)? De facto, temos vindo a assistir a uma tal corrente de orientação de que, quem escreve – dizer ou publicar é consequência do pensamento, da escrita e na responsabilidade de ambas – tem de difundir ‘boas histórias’ (estórias), mesmo que os factos e as narrativas possam ser ofuscados, isto é, os (pretensos) jornalistas não correrão o risco, em razão das circunstâncias, de se tornarem croniqueiros de efabulações ao sabor de quem faz, paga e/ou vende, lê/vê/ouve... A mentira costuma ter perna curta!

4. Será verdade, em razão das circunstâncias, que, por ocasião da transferência de poder nalgumas autarquias houve mais má-fé do que colaboração, deixando o terreno minado e lançando confusão num futuro próximo? Pelo que se foi conhecendo houve situações dignas de países do terceiro mundo, desde limpar todas as ofertas às instituições como se fossem aduzidos aos ocupantes dos cargos até à mistura das chaves para atrapalhar as funções, passando ainda pelo esvaziamento dos cofres com subsídios, benesses e favores a destempo... Percebe-se que há gente com mau perder, mas o futuro se encarregará, em razão das circunstâncias, de julgar os mentores, fautores e executores!

5. Será verdade, em razão das circunstâncias, que se começa a notar nalguns espaços eclesiais um certo estrebuchar contra a proposta do Sínodo dos Bispos, na medida em que o chamamento à participação de todos – muito mais do que só dos clérigos – obriga a novos critérios e à mudança de hábitos? Num tempo que se deseja de participação de todos, deixar-se ficar para trás ou ser colocado à margem seriam duas atitudes pouco aceitáveis e muito menos recomendáveis. Precisamos de aprender a caminhar juntos, dando cada um o seu contributo e acolhendo as aportações dos outros. Em razão das circunstâncias todos temos algo a aprender e minimamente um pouco a dar...

6. Será verdade, em razão das circunstâncias, que virá, em breve uma nova vaga de covid, com todas as consequências, anteriormente, vivenciadas? A medo se fala da possibilidade, dizendo as conjeturas que poderemos atingir milhar e meio de infetados por dia. Em razão das circunstâncias já deveríamos ter aprendido as lições. Que falta para que seja mais humildes e honestos uns para com os outros?

António Sílvio Couto






terça-feira, 2 de novembro de 2021

Significado de ‘rezar pelos defuntos’


 «Desde os primeiros tempos, a Igreja honrou a memória dos defuntos, oferecendo sufrágios em seu favor, particularmente o Sacrifício eucarístico para que, purificados, possam chegar à visão beatífica de Deus. A Igreja recomenda também a esmola, as indulgências e as obras de penitência a favor dos defuntos:


«Socorramo-los e façamos comemoração deles. Se os filhos de Job foram purificados pelo sacrifício do seu pai por que duvidar de que as nossas oferendas pelos defuntos lhes levam alguma consolação? […] Não hesitemos em socorrer os que partiram e em oferecer por eles as nossas orações» (Catecismo da Igreja Católica, 1032).

Estamos a viver comunitariamente este tempo de oração pelos defuntos, nisso a que a Igreja chama de dia ‘dos fiéis defuntos’, rezando conjuntamente por todos quantos partiram deste mundo e ‘dormem agora o sono da paz’.

Apesar de nem todos darmos o mesmo significado a este dia e estando em atitude de oração pelos defuntos, vamos abordar a questão em três níveis: humano-afetivo, eclesiológico-litúrgico e escatológico.

1. Na dimensão humano-afetiva

É natural que eu tenha recordação, saudade – neste termo tão português e quase cristão – e tristeza para com alguém que faleceu e a quem eu estava unido por razões de consanguinidade, parentesco, afinidade psicológica (amizade ou laços sociais) e mesmo em razão da fé.

Cada um poderá ter a sua forma pessoal, de grupo e/ou social de exprimir essa ligação/recordação a quem partiu. Se há quem o faça de forma discreta, outros tornam-se mais exuberantes nessa expressão afetivo-emocional. Por vezes certos rituais podem exprimir o modo de entendermos a vida e aquilo que se dará depois da morte. Sem desejarmos distrair do essencial poderíamos recordar um diálogo entre pessoas de culturas diferentes ao observarem os gestos de outros…para com os defuntos. A um que via outro colocar arroz sobre a sepultura, disse: esperas que o teu morto venha comer do teu arroz? Ao que o visado ripostou: e tu pensas que ele vem cheirar as tuas flores?

Mais do que estes ritos ‘culturais’ quase etnográficos, será perigoso o caminho por onde vamos: o esquecimento e quase total abandono da lembrança dos mortos por aqueles que receberam ‘educação’ em vida… Esta privatização da morte vai trazer-nos consequências graves, profundas e nefastas…

2. Na perspetiva eclesiológica-litúrgica

Inseridos na vivência de Igreja – referimos sobretudo na dimensão católica – recordamos, rezamos e intercedemos pelos que partiram ‘antes de nós marcados com o sinal da fé’.

Respigamos, agora, momentos de oração pelos defuntos nas quatro orações eucarísticas mais usadas:
* Oração eucarística I ou cânone romano
Lembrai-vos, ó Pai, dos vossos filhos e filhas N. N. que partiram desta vida, marcados com o sinal da fé. A eles, e a todos os que adormeceram no Cristo, concedei a felicidade, a luz e a paz. Por Cristo, Senhor nosso.
* Na oração eucarística II
- ‘Missa pelos defuntos’: Lembrai-vos do vosso servo/a N., que (hoje) a quem chamastes para Vós. Configurado com Cristo na morte, com Cristo tome parte na ressurreição
Lembrai-vos também dos (outros) nossos irmãos que adormeceram na esperança da ressurreição e de todos aqueles que na vossa misericórdia partiram deste mundo: admiti-os na luz da vossa presença.
* Na oração eucarística III
- ‘Na missa pelos defuntos’: Lembrai-vos do vosso servo (da vossa serva) N., que (hoje) chamastes para Vós: configurado/a com Cristo na morte, com Cristo tome parte na ressurreição, quando Ele vier ressuscitar os mortos e transformar o nosso corpo mortal à imagem do seu corpo glorioso.
Lembrai-Vos também dos nossos irmãos defuntos e de todos os que morreram na vossa amizade. Acolhei-os com bondade no vosso reino onde também nós esperamos ser recebidos, para vivermos com eles eternamente na vossa glória, quando enxugardes todas as lágrimas dos nossos olhos; e, vendo-Vos tal como sois, Senhor nosso Deus, seremos para sempre semelhantes a Vós e cantaremos sem fim os vossos louvores, por Jesus Cristo nosso Senhor.
* Na oração eucarística IV
Lembrai-Vos também dos nossos irmãos que adormeceram na paz de Cristo e de todos os defuntos cuja fé só vós conhecestes.
Estes exemplos em ritmo orante, fazem com que nos sintamos unidos aos que, pela fé e na fé, celebraram connosco e nós, agora, na transmutabilidade de condição corporal queremos associar-nos a eles, quando ainda estamos em condição terrena…

3. Referência escatológica
Nada daquilo que podemos propor e de viver, na linha de uma autêntica fé católica, se pode dissociar deste aspeto de relacionamento com os defuntos em que apontamos para a vivência escatológica, isto é, daquilo que haveremos de viver na condição de glorificados: nós vivemos ainda em circunstância terrena, eles já viram Deus face-a-face.
De facto, a nossa liturgia celebrada aponta para algo mais transcendente: ensaiamos em condição terrena aquilo para o qual aponta a nossa fé. Rezar pelos defuntos é, então, algo mais do que metafísico, é, essencialmente, transformador da nossa vivência em assembleia orante, celebrante ou peregrina: é, em mistério, força de vida que suporta a nossa condição de Igreja.
Como dizemos na aclamação após a consagração: ‘anunciámos, Senhor, a vossa morte, proclamámos a vossa ressurreição. Vinde, Senhor Jesus’!
Queira Deus que sejamos dignos de quantos nos precederam na fé e no testemunho… esses que, agora, são defuntos, não como mortos, mas como orientadores da nossa caminhada, tanto na força que nos dão como na correção que merecemos…

António Sílvio Couto