Partilha de perspectivas... tanto quanto atualizadas.



quarta-feira, 1 de setembro de 2021

Libertados do medo

 


O tema do medo, mesmo que capciosamente, percorre muitas das atitudes do nosso tempo, pois alguns dos fatores de relacionamento entre pessoas e estados estão alicerçados no clima de medo. São múltiplas e quase funestas as consequências do medo na nossa vida, desde as mais simples na dimensão física até às de relação emocional ou mesmo espiritual. Os tempos mais recentes da pandemia fez recrudescer sinais de medo nas pessoas e na sociedade, nas famílias ou nas empresas…quanto ao presente e muito mais relativamente ao futuro.

Não se sabe bem como nem porquê surgiu numa certa teologia (católica e também protestante) a contabilidade sobre uma expressão muito singular na Bíblia, tanto no Antigo como no Novo Testamento: diziam que havia, nos textos bíblicos, 365 vezes a expressão ‘não temais’, ou ‘não tenhais medo’… Ora, segundo dados – atendendo às edições da Bíblia católica ou protestantes – mais assertivos, os resultados serão outros, bem distintos, mas não menos importantes. 

Ora, segundo alguns estudiosos bíblicos, a palavra ‘temor’ (yare, em hebraico) aparece 305 vezes nos textos do Antigo e do Novo Testamento. Se a esta palavra acrescentarmos algumas com afinidade poder-se-á atingir a tal cifra relacionada com os dias do ano... numa visão de que haveria na Sagrada Escritura uma vez para cada dia algo a convidar ao não-temer ou ao não-ter medo...
O que encontramos com alguma certeza são expressões que convidam a ‘não ter medo’ (ou equivalentes) de Deus e do divino. Vejamos, sucintamente, a lista:  ‘não temas’: 58 vezes; ‘não temais’: 35 vezes; ‘não temereis’: seis vezes; ‘não temerás’: também em seis momentos; ‘não temerei’: em cinco oportunidades; ‘não temerá’: também em cinco situações; ‘não os temais’: quatro vezes; ‘não os temas’: em três casos; ‘não tenhais medo’: duas vezes; ‘não tenhas temor’: outras duas situações; ‘nada temas’: só uma vez... Por estas contas haverá 127 vezes em que a referência a ‘não ter medo’ ou expressões afins aparecem na Sagrada Escritura. Embora não seja o tão desejado número de uma vez para cada dia, é significativo que esta referência à libertação do medo -- para com Deus, para com os outros (pessoas, coisas ou mesmo forças da natureza) e até para consigo mesmo -- apareça tantas vezes nos textos sagrados.
Vejamos agora sugestões de libertação do medo nos diversos itens enunciados.
* Não ter medo em relação a Deus: por várias vezes se faz um desafio a não ter medo de Deus: “Deus é amor, e em Deus não há medo, receio, temor, antes o perfeito amor lança fora o temor. Deus é amor; e quem está em amor está em Deus, e Deus nele “ (1 Jo 4,16 ). A quem interessa apresentar um Deus de medo? Porque será que ainda se difunde um Deus que cria medo e atemoriza (ou aterroriza) as pessoas? Não será devido à falta da ‘experiência’ de um Deus-amor e do amor de Deus na vida pessoal?

* Sem medo dos outros: que vivemos numa sociedade alicerçada no medo parece não haver dúvida. Com mais facilidade se espalha o medo do que a confiança. Com alguma vulgaridade se noticia o medo do que aquilo que nos faz viver na serenidade, interior e exterior.  Não podemos ver nem viver como se os ‘outros’ fossem nossos adversários e muito menos inimigos. Só sobreviveremos, como sociedade, se a confiança for o nosso modo de ser e de estar... Urge exorcizar tantos dos medos que povoam os nossos comportamentos mais básicos. A quem interessa continuar neste clima de medo e de tristeza? A quem será benéfico tanto medo, por vezes, mais psicológico até do que físico? Precisamos de destrancar o nosso coração, tantas vezes desconfiado, medroso e frio...

* Não terei medo de mim mesmo? ‘Amarás o teu próximo como a ti mesmo’ - diz-se em Lv 19,18. Mas a questão é essa: será que eu me amo a mim mesmo? Não será que, muitas vezes, gosto de mim – nessa subtil expressão de autoestima – mas não me amo, de verdade? Será que aceito a minha história como ela foi ou varro para debaixo do tapete da minha consciência coisas, factos e pessoas com os quais não me interessa confrontar? Saberei perdoar-me a mim mesmo, nos erros, falhas e pecados, que cometi? Não ter medo de si mesmo é conhecer-se – como se dizia no templo grego de Delfos – a si mesmo, com dons, qualidades, defeitos e lacunas de personalidade...

 António Sílvio Couto

segunda-feira, 30 de agosto de 2021

Sinais de neo-tribalização

 


Começam a ser preocupantes os sinais de neo-tribalização na nossa sociedade. Num tempo em que se vão digladiando forças antagónicas, torna-se essencial perceber certos fenómenos que estão a ganhar foros de representatividade preocupante.

Detetamos como expressões desta neo-tribalização: os partidos políticos, com as diversas ideologias, símbolos ou lutas; as agremiações desportivas, com as várias colorações, conquistas e tropelias; as associações (ditas) culturais, onde se conglomeram tendências, pretensões ou lóbis; questões fraturantes com incidência ético-social, onde fervilham problemas de poucos em ordem a envolver (teoricamente) muitos…

1. Antes de mais ‘tribo’ é um agrupamento humano unido pela língua, costumes, instituições e tradições. Se fizermos um escalonamento da evolução das pessoas, no sentido mais restrito, até à organização coletiva/comunitária poderemos encontrar o percurso seguinte: pessoa (indivíduo), família, tribo, nação, estado, país ou confederação de países… Deste modo a noção de tribo estará colocada no elo evolutivo entre a ‘família’ – onde as pessoas vivem de forma estável, com vínculos e relacionamento – e a ‘nação’ – onde várias famílias se ligam de forma a defenderem-se, organizadamente e com interesses comuns… Quem conhecer a cultura bíblica poderá encontrar, na designação do ‘povo de Israel’, a composição das ‘doze tribos’, oriundas de uma mesma família e que se foi compondo até irem formando um povo, uma nação, mesmo quando esteve num país estrangeiro…até chegar à sua terra, isto em cumprimento da promessa de Deus a Abraão: terás uma descendência e uma terra onde te estabelecerás.

2. Li há anos atrás que a União Europeia – ao tempo designada de CEE (comunidade económica europeia) – estava entre duas grandes forças em tensão: entre a capacidade de vínculo de todos os país e os particularismos nacionalistas, nalguns dos países conglomerados na agora dita União Europeia (UE). Olhemos o exemplo português, dado que somos uma nação-país com estabilidade em vários aspetos, desde as fronteiras, passando pela língua, a não-existência de conflitos explícitos entre regiões e mesmo numa expressão religiosa maioritária católica e respeitadora de outras expressões religiosas… ao longo de quase nove séculos, enquanto outros países nem sempre tiveram tal condão.

3. Por que será que vemos emergirem sinais de tribalismo em tantas das manifestações da nossa sociedade? Estaremos a involuir culturalmente, dado que estaremos a recuar no processo de afirmação coletivo/comunitário? Aquilo que unia – o ligâmen mais profundo entre todos – estará a desfazer-se ou haverá interesses individuais que se querem impor ao geral? Certas formas de afirmação individuais pretendem ser mais fortes do que o bem comum de todos e para todos?

4. Na intercomunhão entre todos poderemos constatar que uma pessoa pode pertencer a várias ‘tribos’ ao mesmo tempo, isto é, ser de um partido político (fação maioritária ou não), associar-se nalgum clube desportivo ou ser militante de alguma associação…enquanto uma outra pessoa pode ser de outro partido e simpatizar com o mesmo clube ou estar noutra associação diversa da de outros/as…Digamos que a nova tribalização não tem exclusividade nem vincula tanto quanto parece. Numa espécie de autoavaliação valerá a pena, cada um de nós, examinar a quantas ‘tribos’ pertence, umas de forma explícita e outras de modo simpatizante ou ainda tendencial… Se repararmos bem, nalguns casos parece não haver total coerência!

5. Será verdadeiramente honesto dizer: ‘não temos problemas internos’, ao falar de um partido político? Isso não revelará alguma miopia intelectual à mistura com tiques de ditadura, quando se está no poder? Por que será que as mais pequenas divergências em certos clubes desportivos, se tornam casos nacionais e se gasta tanto tempo a debater não soluções mas arrufos de vencidos? Por que leva tanto a aprender que certas discussões éticas de problemas fraturantes só servem desviar a atenção dos problemas sérios?
«Vi uma multidão de todas as nações, tribos, povos e línguas» (Ap 7,9)…

António Sílvio Couto

quinta-feira, 26 de agosto de 2021

Interpretações descontextualizadas...

 


A ‘silly season’ (estação ridícula, na tradução literal) deste ano está a revestir uma versão algo religiosa: a partir da 2.ª leitura da missa do XXI domingo do tempo comum (Ano B) uns tantos/umas tantas quiseram trazer para a liça uma discussão algo sem nexo, tanto pelo conteúdo quanto pelo significado: o pretenso papel da mulher, sobretudo na Igreja…católica.

Citamos excertos do texto da ‘tal’ polémica: «Sede submissos uns aos outros no temor de Cristo. As mulheres submetam-se aos maridos como ao Senhor, porque o marido é a cabeça da mulher, como Cristo é a cabeça da Igreja, seu Corpo, do qual é o Salvador. Ora, como a Igreja se submete a Cristo, assim também as mulheres se devem submeter em tudo aos maridos. Maridos, amai as vossas mulheres, como Cristo amou a Igreja e Se entregou por ela… Assim devem os maridos amar as suas mulheres, como os seus corpos. Quem ama a sua mulher ama-se a si mesmo» (Ef 5, 21-28).

 1. Desde logo se pode colocar uma questão: há três anos atrás (2018) foi lido este texto nas missas. As televisões também transmitiram. Mas ninguém reagiu – pelo menos com este alarido – às mesmas palavras. Estaríamos mais absorvidos pelos eflúvios estivais e isso passou-nos ao lado? Será que agora há mais gente a ver as missas televisionadas? As sensibilidades estarão mais acutilantes e o espírito crítico mais atento? As reações havidas foram de pessoas bem-intencionadas ou de picuinhas com má-língua e pior escrita?Algumas das reações roçaram, de facto, a malcriadez humana e deixaram cair as máscaras de ignorância, senão religiosa, ao menos intelectual…

2. Ainda antes da ‘reação’ da Conferência Episcopal Portuguesa, foi-se ouvindo que os textos – bíblicos e não só – precisam de ser enquadrados/contextualizados segundo uma certa hermenêutica e, no caso da Bíblia, atendendo a uma exegese apropriada. Com efeito, São Paulo fala e escreve num contexto específico, tendo em conta o quadro jurídico-social da família, aqui em duas vertentes especiais: a mútua atenção – dito de submissão – e o cuidado entre os esposos. Mas, para alguns, as palavras usadas estariam desadequadas aos ‘critérios’ dos nossos dias e à luz das pretensões de grupos mais redutivos.

Eis um excerto da nota da CEP de 24 de agosto: «então porque não se muda o texto, para que não se deem interpretações incorretas? A pergunta tem a sua razão de ser, mas é claro para a Igreja e para quem quiser interpretar textos e tradições com origem noutras culturas e noutros tempos: os textos não se mudam, mas educam-se os leitores a entendê-los e a atualizá-los. Por exemplo, não se mudam os versos épicos de Camões, porque não correspondem à mentalidade atual e até, em alguns casos, podem causar escândalo. Isso seria cair na arbitrariedade e na ditadura das modas e na imposição da cultura única. É por isso que se estuda Camões nas escolas, para que todos tenham acesso à beleza dos seus versos, dentro dos condicionalismos da sua época».

 3. Diz-se em jeito de enquadramento – ou será de desculpa? – de certas declarações (orais ou escritas) mais ou menos fundamentalistas: foi a coincidência com o que se está a passar no Afeganistão que exacerbou certas posições. Veja-se como os talibans tratam as mulheres. Repare-se nalguma da linguagem dos escritos paulinos lidos. Atente-se a um envolvimento social, político e ideológico propício para atiçar contra a Igreja católica. Olhe-se com mais atenção para todo o processo de afirmação da mulher na (dita) sociedade ocidental, onde quase sempre se tenta fazer imitar a mulher o desempenho dos homens… e isso parece ser razão de evolução das mentalidades…

À guisa de anedótico: já só falta varrer da possibilidade de apresentação dos homens – na cultura ocidental e europeia em particular – o uso da barba, pela simples razão de que os talibans ostentam tal artefacto por motivações religiosas e culturais! Pessoalmente já fui vítima de especial revista, em aeroportos no estrangeiro, por usar barba e, atendendo ao contexto sociopolítico, se me poder assemelhar com tais indesejáveis.

 4. De uma discussão sobre este tema veio-me uma sugestão – mais na linha intelectual e teórica do que como proposta teológica ou eclesiológica…urgente. Por que não refletimos já sobre as incidências do sacerdócio no feminino? Por que teremos de ter só como quadro de comparação o desempenho masculino do sacerdócio na Igreja católica? Não haverá, de entre as várias facetas do ministério sacerdotal, algum aspeto que seria mais benéfico e talvez apropriado à sensibilidade feminina? Não será um erro grave continuar a querer fazer coincidir as posições teóricas com as possibilidades e/ou potencialidades humanas, psicológicas ou afetivas?

Seria algo salutar refletir sobre as questões sem as discutir em defesa ou ataque de nada nem de ninguém. Nem sempre é isso que temos visto nesta questão do sacerdócio no feminino…

Já agora: que dizer de certas formas de música – fado em particular – que ainda hoje estão vedadas às mulheres, na sua cantoria? E dizem-se do meio intelectual… Não se andará a acusar outros para que se não vejam erros idênticos?           

 

António Sílvio Couto

Charlatão, digo eu!

 


De há uns tempos a esta parte é recorrente ouvirmos um certo tipo de jornalismo usar a construção de que importa contar uma boa história – talvez se devesse usar antes o outro termo ‘estória’ – por forma a falar de coisas da vida, que prendam as pessoas e as faça serem envolvidas pelas situações dos outros…

Se esta tendência tem vindo a ganhar forma e corpo num certo jornalismo escrito e narrativo, tanto vai sendo servido e sorvido em programas televisivos, que nos apresentam – sobretudo em figurinos das tardes – também estórias, que têm tanto de sério quanto de mirabolante, à mistura com heróis saídos do nada e guindados a um certo estrelato…ao menos enquanto duram as ilusões, seja do contador, seja dos proponentes…

É neste quadro quase simbólico que leio, entendo e interpreto o caso de um rapaz que se apresentou muito próximo do Papa Francisco, autoconsiderando-se confidente do mesmo, num ‘tu-cá-tu-lá’ quase arrogante, senão for mesmo confrangedor. Quem conduzia a narrativa deixou-se enlevar pelos feitos apresentados, mais parecendo uma avozinha ao pé da lareira do que uma pessoa com formação jornalística minimamente credível.

Quem conhece a personalidade dos charlatães sabe que laboram em efabulações contínuas, criando personagens, onde a sua figura emerge como um interlocutor bem-falante e sobrevoando sobre os pobres mortais, que o devem admirar e até bajular. Já vi – e de alguma forma vivi por arrastamento – casos destes que se faziam passar por professores universitários, usando o estratagema de lhe ser comunicado por telefone a colocação fictícia… Isto pode durar algum tempo – semanas ou meses – e na duração, o dito como que se torna um alguém importante, mas vazio…com medo de ser descoberto.

- Na estória em apreço, que envolve o Papa Francisco, percebe-se que há lacunas e incongruências. Ao ser perguntado ao entrevistado se o Papa usar a internet, aquele respondeu que só lê jornais e ele até seria a sua fonte de informação para o referido Papa…contando-lhe o que se passa no mundo e influenciando tomadas de posição papais… Teve o bom senso de não especificar nenhuma. Ora, o Papa Francisco escreve todos os dias no twitter. Fá-lo numa lousa antiga e outros passam a limpo as ideias? Que sentido tem dizer de um Papa tão versado nas coisas da tecnologia, referir que não usa as ferramentas da internet?

- Dirá alguém que foram exibidas imensas fotografias onde se vê aquele que eu apelido de charlatão e o Papa. Mas isso será confirmação de que tais momentos aconteceram? Como bons manuseadores da manipulação, os charlatães são peritos na arte do photoshop, isto é, da montagem (limpeza e edição) onde quase sempre colocam quem lhes interessa ou retiram quem não os beneficia. Se tivéssemos acesso a tais fotos poderíamos conferir a montagem, sem grande dificuldade, pois há quase sempre lacunas, falhas e erros.  

- Outra tendência dos charlatães é a de incluírem situações, episódios, circunstâncias só favoráveis, escondendo ardilosamente nomes (de pessoas ou de instituições), de datas ou de lugares que podem desconstruir a estória congeminada. Por vezes, conseguem conquistar cúmplices para o que desejam…No caso em apreço um tanto tenuemente poderemos sentir a alusão aos pais… Não foi dito nome da congregação onde ingressou e nada foi referido das universidades onde estudou… Lapso ou esquecimento propositado?

- Uma outra faceta dos charlatães é tomarem um ar muito sério e grave, por forma a que a estória que estão a querer vender – será mais impingir – pareça capaz de convencer… Não era (é) essa a figura do dito?

- Numa palavra: o canal de televisão, que anda à procura da verdade no polígrafo, não estará a precisar de ir ele mesmo à avaliação dos seus programas de entretenimento? 

 

= Daquilo que vi, refleti e acabo de escrever, ouso propor que seja feita queixa – por alguém responsável da Igreja católica (Santa Sé, nunciatura ou qualquer crente – deste charlatão, que está a usar o Papa Francisco para se promover. Não precisamos de quem venha trazer mais confusão à Igreja.

Espero e estimo não estar a faltar à caridade, mas esta só é boa e benéfica, se for servida com verdade.

 

António Sílvio Couto

domingo, 22 de agosto de 2021

Simbolizados no espinheiro-rei

 


Lemos nas Sagradas Escrituras a seguinte passagem:

«Isto foi comunicado a Jotam. «Ouvi-me, senhores de Siquém, e que Deus vos oiça! As árvores puseram-se a caminho para ungirem um rei para si próprias.
Disseram, então, à oliveira: 'Reina sobre nós.' Disse-lhes a oliveira: 'Irei eu renunciar ao meu óleo, com que se honram os deuses e os homens, para me agitar por cima das árvores?'
As árvores disseram, depois, à figueira: 'Vem tu, então, reinar sobre nós.' Disse-lhes a figueira: 'Irei eu renunciar à minha doçura e aos meus bons frutos, para me agitar sobre as árvores?'
Disseram, então, as árvores à videira: 'Vem tu reinar sobre nós.' Disse-lhes a videira: 'Irei eu renunciar ao meu mosto, que alegra os deuses e os homens, para me agitar sobre as árvores?'
Então, todas as árvores disseram ao espinheiro: 'Vem tu, reina tu sobre nós.' Disse o espinheiro às árvores: 'Se é de boa mente que me ungis rei sobre vós, vinde, abrigai-vos à minha sombra; mas, se não é assim, sairá do espinheiro um fogo que há-de devorar os cedros do Líbano!'
» (Jz 9,7-15).

Estamos em campanha eleitoral para os órgãos autárquicos – câmaras municipais, assembleias municipais e assembleias de freguesia… em finais de setembro.

Desde já fique claro sobre quanto vou tentar colocar por escrito: quando era ignorante, sentia-me mais feliz do que agora que vou conhecendo situações, casos, circunstâncias e demais vicissitudes decorrentes da condição humana. Qualquer coincidência com comportamentos vistos pode parecer simples coincidência com o texto bíblico. Com efeito, quantas segundas e outras subsequentes escolhas foram feitas até que aparecessem os candidatos assumidos, atirados ou possíveis.  

1. Caciquismo – para quantos consideravam que o regime anterior vivia na base do caciquismo, que dizer de autarquias que vivem sob a mesma preponderância político-social? Com efeito, há municípios que vivem quase há um século em ditadura – 48 anos de fascismo e 47 de partido único a mandar, na dita democracia – trinta e um casos, desde 1976: 11 do PSD; 11 do PS; 9 da CDU… foram sempre do mesmo voto. A que se deverá esta fidelização do eleitorado? Estabilidade ou acomodação, inoperância ou manipulação, coerência ou falta de alternativa? Se dissermos que, em muitas destas autarquias, o município é o principal empregador, estará dada a resposta ou manifesta que a ignorância também é um fator de convencimento e coação?

2. Independentes – essa nova nomenclatura, algo camuflada, para designar uns tantos que, na sua sede de protagonismo, foram esbordando dos partidos ou por pretensões, nem sempre claras, se consideravam com alguma importância a seus próprios olhos… Alguns ainda mais ou menos bem-intencionados foram levando de boa mente a pretensão em que se votava na pessoa e não naquilo que ela tinha por suporte. Certos ‘independentes’ mais parecem cobardes do que heróis; mais podem ser vistos como trânsfugas do que dinamizadores de algo novo; mais dão a impressão de que querem estar na crista da onda do que a sorverem as agruras da derrota… Numa palavra: não acredito minimamente em ‘independentes’!

3. Servir sem se servir. Na gestão dos poderzinhos dos caciques ou na tolerância dos independentes fica-nos quase sempre a mesma questão: estarão a servir o povo, que os elegeu ou a servirem-se do posto para se promoverem? De facto, esses postos de ‘governo’ autárquico não podem ser considerados correia de transferência de dinheiros para os apaniguados nem poderão tais lugares serem oportunidades de pagamento de favores à mistura com novas benesses…agora e no futuro. 

4. Questões que se podem/devem colocar: quem está nos lugares de decisão autárquica serão os melhores, os mais competentes ou mesmo os mais indicados? As escolhas dos partidos ou os escolhidos independentes saberão resolver os problemas ou precisam de ajuda, estando a enfeitar? As forças em disputa jogam para ganhar a sua terra ou servem para angariar adeptos para o partido-chefe? Com tantos conluios já denunciados como ainda não aprenderam a sacudir a ligação com o futebol, a construção civil ou mesmo os bombeiros? Não haverá , por isso, interesses subterrâneos que não deixam as autarquias serem mais livres, sem peias nem compromissos suspeitos?

No texto bíblico supra citado foi o menos bem preparado que aceitou a escolha…de chefia. Não seria isso que acontece, tantas vezes, nas propostas de eleições autárquicas? Assim será difícil de fazer mais ou melhor!

 

António Sílvio Couto

sábado, 21 de agosto de 2021

Para uma visão cristã nos acidentes


 Será que Deus está nos acidentes que nos acontecem? Os acidentes são resultado do quê: falha humana, erro ou descuido? Deus permite ou somos nós que provocamos os acidentes? Haverá uma forma cristã de interpretar os acidentes – de viação, de trabalho, domésticos – assumindo cada um as suas responsabilidades? Estas e outras possíveis perguntas poderão ajudar-nos a fazer uma leitura cristã de quanto nos acontece, mesmo quando isso é (ou pode ser) perturbador, dramático ou traumatizante…
 
1. ‘Definição’ descritiva de ‘acidente’ – Um acidente é um evento inesperado e/ou indesejável, que causa danos pessoais, materiais (patrimoniais) ou financeiros e que ocorre de modo não intencional... Os acidentes podem revestir a forma de colisão ou queda, lesão ou ingestão de veneno... 
Se os resultados dessas negligências eram previsíveis e não tenham sido tomadas as respetivas precauções, quem tal causou pode ser responsabilizado por eventuais consequências.

2. Atendendo aos vários campos de ocorrência, os acidentes deixam marcas nos intervenientes, nas famílias e, mesmo, na sociedade em geral. Vejamos alguns espaços/campos/situações de ocorrência de acidentes:
- na última década registaram-se, em Portugal, cerca de sete mil mortos em acidentes rodoviários… ao nível europeu os números são algo elevados: faleceram nas estradas europeias quase vinte e duas mil pessoas, o equivalente a sessenta vítimas por dia e 1,09 milhões de feridos, dos quais 179 mil com gravidade…
- os acidentes de trabalho ocorridos em 2019, no nosso país, totalizaram quase duzentas mil situações, com mais de uma centena de óbitos… Segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT) há mais de 337 milhões de acidentes no trabalho, cada ano, resultando com as doenças profissionais mais de 2,3 milhões de mortos por ano…
 
3. Que respostas podemos encontrar no âmbito católico?
Sobretudo tendo em conta a intervenção dos movimentos católicos ligados ao mundo do trabalho podemos encontrar propostas de simples e ousadas, à mistura com outras algo ideologizadas (por exemplo as procedentes da pastoral operária), tendo em conta quem intervém e quais os alvos que pretende atingir. Desde logo a celebração do ‘dia mundial em memória das vítimas de acidentes do trabalho’, a 28 de abril de cada ano. Embora não seja de iniciativa da estrutura da Igreja católica, ela participa na comemoração do ’dia mundial em memória das vítimas das estradas’, que ocorre no terceiro domingo de novembro de cada ano e no qual se pretende lembrar os que partiram, apoiar os que sofrem e agir para impedir mais desastres.
Se atendermos à nossa condição de fragilidade – continua, crescente e em maturação ao longo da nossa vida – poderemos perceber e enquadrar ainda melhor o mistério da Encarnação do Verbo, que é a expressão básica e suprema da nossa condição humana… e todos os acidentes da vida serão vistos com olhos novos, centrados em Jesus e amados, por antecipação para connosco.
 
4. Cada cristão é investido em ser presença de Jesus cuidando das mazelas dos seus irmãos, estando atento as traumas dos acidentes, sendo a terapia da compaixão, suportando quantos d’Ele precisam através de nós… Hoje continuamos a ser o seu cuidado ativo: pelo cuidado das mazelas deixadas pelos acidentes, entre as perdas de vidas e os perdões não-dados, passando pela escuta e o silêncio sem lições escusadas; pela atenção aos traumas prolongados no tempo e na história recontada, vezes sem-conta; pela terapia da compaixão, onde a vítima recosta a sua vivência, sem tempo para lições nunca aprendidas…
Os acidentes podem ser oportunidades de conversão ou de revolta, onde o Deus de Jesus se pode (e deve) fazer o novo samaritano, sem outro interesse que não seja a pessoa ferida no corpo, na alma ou até no espírito… Se o vivemos, demos disso testemunho!
 
António Sílvio Couto
 

terça-feira, 17 de agosto de 2021

Descendentes de quem?


 Conta-se, numa espécie de anedótico, que um neto questionou o avô: dizem que nós, portugueses, demos novos mundos ao mundo, que fomos por esse mar fora à descoberta de outros povos… mas agora estamos neste canto da Europa como dos mais pobres…

À questão algo incómoda, o avô respondeu: é verdade, neto, muitos foram por esse mar afora e descobriram coisas, trouxeram riquezas e outros até fizeram fortuna… mas nós somos do que ficámos…

Desde já valerá a pena inquirir de que lado estivemos: dos que foram ou dos que ficaram?  

 1. Temos mais de dois milhões de portugueses emigrados, isto é, 20% da população total … São pessoas com baixas ou muito baixas qualificações… A maioria dos emigrantes está em França (cerca de 600 mil), Suíça (cerca de 200 mil) e com mais de cem mil: EUA, Canadá, Brasil, Espanha, Alemanha e Reino Unido… As diferentes vagas de emigrantes foram deixando a nu a má qualidade do nosso país. Depois da grande vaga das décadas de 60 e 70 do século passado fomos sendo confrontados com etapas de procura de tanta gente – muita dela procedente das regiões rurais do norte e do centro do país – que ousou procurar condições de vida melhores, muitos deles fixados na obsessão do trabalho, sem horários que não fossem para ganhar dinheiro, muito dinheiro com sangue, suor, lágrimas e em condições degradantes… Quem não se envergonha ao ver retratados os bidonvilles dos arredores de Paris? Quem não sente tristeza – como fui testemunha em Zurique – de famílias jovens coartadas das suas raízes e adiando ter filhos, antes de ter meios para os sustentar?

 2. Foram milhões e milhões, as verbas enviadas do estrangeiro para suportar a débil economia do país. Associando a saudade à exploração da vaidade, muitos dos nossos emigrantes foram sendo ludibriados até por bancos insolventes ou falidos. Lá exploraram o cabelo, aqui tiraram-lhes o pelo…Foram estrangeiros em pátria alheia e, por cá, indesejados em solo ingrato… Alguns contribuíram para esta situação de bipolaridade pessoal e social: muitos fecharam-se nas suas associações (pretensamente) culturais, numa primeira geração abjurando quase a língua de acolhimento; tantos outros até fintaram a Igreja para depois virem festejar coisa que lá nunca celebraram… Foi como que uma fé a gosto para enfeitar em agosto… Nalgumas situações até a Igreja católica andou a reboque dos casos e nem sempre soube integrar lá fora, quando por aqui pretende ir corrigindo erros do passado…

 3. Outro fenómeno sacudiu o nosso país, em finais da década de 90 do século findo. Hoje temos milhares de imigrantes que nos ’invadiram’ em busca de melhores condições de vida. Mais de 700 mil, da Ásia e da África ocidental, sem esquecer os países de língua oficial portuguesa e Europa…trabalham, normalmente, como mão-de-obra na agricultura, na hotelaria e na construção…Em certas condições os imigrantes vem fazer tarefas que os portugueses já não querem, mas que os ‘nossos’, quando emigrados, desempenharam.

 4. Há circunstâncias de mobilidade humana, que marcam os tempos atuais. Hoje será difícil encontrar alguém que nasceu, viveu e fez toda a sua vida no mesmo lugar. Isto desconstruiu algumas das certezas de antanho e condiciona a nossa forma de pensar, de agir e mesmo de ser. Tudo se relativiza e, certos bairrismos, além de anquilosados, são bacocos e de má cultura. Há, no entanto, princípios que devem ser ainda cultivados: a relação com a terra – esse torrão onde nascemos e adquirimos identidade – e tudo quanto possa valorizar o compromisso em trabalhar pelo desenvolvimento dos ‘nossos’ espaços de referência.

 5. A mensagem cristã, embora de teor universalista, não pode deixar de participar na construção e na mudança dos ambientes – como dizem certos grupos cristãos. Se cada pessoa é (ou pode ser) alvo da mensagem evangélica, então teremos de saber também denunciar quando se aproveitam do nosso trabalho, no âmbito social, para menosprezar o que os crentes fazem e os arrecadadores de impostos manipulam para favorecer os ‘seus’ apaniguados. Seremos descendentes de quem: dos agiotas ou dos patriotas?    

 

António Sílvio Couto