Partilha de perspectivas... tanto quanto atualizadas.



sábado, 13 de março de 2021

200 anos do fim (oficial) da inquisição

 


Rezam os dados da História que, em 31 de março de 1821, foi oficialmente extinta a Inquisição em Portugal.

Esteve em vigor entre nós desde 23 de maio desde 1536… quase três séculos, desde o reinado de D. João III… até ao de D. João VI.

Duzentos anos decorridos que lições podemos e/ou devemos aprender? Não andaremos a correr atrás do prejuízo, sem sabermos inserir a questão na devida proporção histórica e cultural? O desenquadramento histórico não corre o risco de fazer o papel de outros tantos que se acoitam sob a capa anti-inquisição para esconderem as suas nefastas façanhas posteriores? Enquadrar o assunto no contexto histórico é tão importante quão essencial para percebermos o mal da Inquisição, se hoje continuarmos a usar os mesmos métodos (sem religião) para atingirmos os ‘nossos’ macabros fins…

 = Efetivamente, a publicação do decreto de extinção do tribunal do Santo Ofício, no nosso país, aconteceu em 5 de abril desse mesmo ano, dando conta da votação unânime das Cortes constitucionais a 31 de março anterior. A razão evocada para o caso era a de que: “a existência do Tribunal da Inquisição é incompatível com os princípios adotados nas bases da Constituição”. Foram ainda apresentados breves artigos de explicação da decisão de abolição daquele Tribunal, tais como: a revogação de todas as leis e ordens emanadas da Inquisição, a entrega dos processos pendentes à jurisdição dos bispos e a gestão dos seus bens e da sua documentação.

Talvez se deva referir que, desde o ano passado, temos, em Portugal, o ‘dia nacional da memória das vítimas da inquisição’, que ocorre a 31 de março, data-referência à sua extinção no nosso país.
Segundo registos existentes, entre 1536 e 1761 – data da última vítima, por sinal um jesuíta, condenado por heresia – foram queimadas vivas 1.175 pessoas, nos autos-de-fé públicos, enquanto a prisão e tortura atingiu perto de 30 mil pessoas...

= Introduzido no século dezasseis (1536), em Portugal, pelo rei D. João III, o Tribunal do Santo Ofício era um instrumento de vigilância social e ideológica de um país que tinha convertido à força e incorporado na comunidade católica muitos milhares de judeus – designados de ‘cristãos-novos’. Juntava-se ainda a preocupação com as heresias protestantes, numa época em que as diferenças religiosas eram consideradas uma séria ameaça à unidade política e à paz social do reino. A Inquisição estava, deste modo, ao serviço da ortodoxia católica, sempre atenta a práticas e comportamentos considerados como nocivos, digamos, à ideologia e moral dominantes. Contava também a Inquisição/Santo Ofício com proteção da Coroa e consubstanciava, de um modo geral, o apoio da população.
Julgar no contexto da fé e executar a condenação pelo braço político foram aspetos recorrentes nos vários séculos de Inquisição em Portugal. Com o abrandar da ‘perseguição’ aos cristãos-novos, na primeira metade do século dezoito, os tentáculos da Inquisição voltaram-se para outros grupos e setores heréticos, como a maçonaria. Com o tempo do Marquês de Pombal, a Inquisição tornou-se ainda mais um braço politico dos ‘inimigos’ do rei, transformando-se num tribunal da coroa e dos interesses do Estado.

Quando, nos primeiros anos do século dezanove, se discutiu a extinção do Santo Ofício, pareceu que já estava defunto e morto…deixando um rasto de perseguição, de condenação e de morte!

 = É verdade, a Inquisição – como fenómeno cultural, político ou religioso – é uma nódoa na história humana e da Igreja. Pois nunca se deveria usar a vertente da fé para maltratar, ofender ou, pior ainda, matar seja quem quer que seja. Desgraçada crença que usa a força para se impor e vencer quem não partilha da mesma vivência.

Se nos tempos em que vigorou a Inquisição estávamos sob uma espécie de cesaropapismo, onde religião e política se uniam para tirarem proveito, agora parece que vivemos num tal amorfismo que os responsáveis políticos se comportam como seres a-religiosos, não vá a sua fé interferir nas coisas de governança. Dois séculos decorridos a Inquisição é outra: usa avental e faz do compasso o instrumento de raciocínio…

 

António Sílvio Couto

quinta-feira, 11 de março de 2021

Caixão com vitrina


Dir-se-á que as coisas se adaptam às necessidades ou que procuram ter em conta os desafios, propondo novos produtos e enfrentando diferentes respostas.

O tema que agora trago é algo funesto e talvez tenebroso, mas temos de ter capacidade de refletir sobre assuntos que não nos sejam tão agradáveis quanto desejaríamos.

Por estes dias fui confrontado com uma nova forma de proposta visual de caixão: dado que se foi tornando difícil, senão impossível, de abrir a urna na fase final do enterro, agora ‘inventaram’ um modelo em que se vê somente a parte da face, mantendo ocultação sobre o resto do cadáver…

Esta ‘inovação’ agora difundida torna-se mais importante dadas as condicionantes deste tempo de ‘covid’. Se bem que noutros locais e, segundo as circunstâncias, como o transporte de falecidos por via aérea, tal já era praticado. As novas vivências decorrentes da pandemia, como que obrigam a atenuar a capacidade de luto e a sua expressão em maré de ocorrência de casos fora-do-normal.

Dada a complexidade dos tempos mais recentes, onde este tema do post-mortem tem andado, na minha perspetiva, a ser um tanto mal tratado e em que certas questões mais do que resolvidas têm sido empurradas para fora do nosso ângulo de visão/compreensão, deixamos breves aspetos, entretanto, aflorados.

 * Milhares de mortos sem total dignidade?

Se compararmos os números veremos a aberração daquilo que aconteceu no último ano – março de 2020 a março de 2021 – morreram, em Portugal, afetados (real ou simbolicamente) pelo ‘covid-19’: 16.617 (à data em que escrevo). Se compararmos com dados de outras circunstâncias, veremos como tudo isto é aterrador. Por exemplo, a guerra colonial portuguesa – de 15 de março de 1961 a 24 de abril de 1974 – deixou 8.831 militares mortos, em combate, vítimas de acidentes ou por doença… para além dos efeitos colaterais em feridos e traumatizados de guerra. Por seu turno, os mortos em acidentes de viação, na última década, no nosso país, totalizaram: 6.880 em resultado direto da sinistralidade…

Atendendo a estes dois esporádicos dados, teremos de considerar que a morte por ‘covid-19’ deixou um manto apocalítico atroz e com consequências quase inexplicáveis. Talvez não haja ninguém que não tenha tido alguém falecido – familiar, amigo ou simples conhecido – por esta doença. Quais os resultados práticos para a nossa vida? Já nos apercebemos da fragilidade em que nos movemos e existimos?  

 * Que luto foi feito ou está por fazer?

Com tanta velocidade com que se difundiu este vírus deixou-nos a todos algo aparvalhados, senão intelectual ao menos emocionalmente ou até nas duas dimensões. Depois da estupefação, veio o medo e deste surgir a incapacidade de gerir novos factos e piores situações. Com o devido respeito poderemos considerar que as pilhas de mortos deixaram pouca normalidade para chorar quem partia, tal era a avalanche de funerais – chegou a haver cremações com duas semanas de atraso – acrescentando uma certa paranoia higienista que foi assoberbando, pela negativa, tudo e todos. Quanto luto que ficou por fazer. Quantas lágrimas encalhadas. Quantas despedidas nunca realizadas…E nem a subtileza da fé era lenitivo para os mais crentes ou emocionais.

 * Soluções, respostas ou enganos?

Em todo este contexto humano e social fui vendo pessoas a quebrarem a sua arrogância diante do assalto do vírus e isso ajudou-me a perceber que a melhor forma de sermos mais humanos é a de passarmos pelo crivo da dor e do sofrimento. Mesmo que espreitando para o caixão pela vitrina a descoberto, continuo a considerar que nos falta um razoável percurso para estarmos mais atentos às fragilidades alheias e com isso podermos ser melhor compreendidos nas nossas.

Há coisas que só a experiência de vida nos ensina e o ‘covid-19’ tem sido uma boa escola de humanismo. Assim nos deixemos educar!

 

António Sílvio Couto

terça-feira, 9 de março de 2021

‘Igreja em saída’: exemplo do Papa


 Após a visita apostólica do Papa ao Iraque – de 5 a 8 de março – poderemos compreender um pouco melhor essa expressão do pontificado de Francisco: ‘Igreja em saída’.

Vejamos uma espécie de definição descritiva disso que o Papa Francisco tanto tem falado e que vimos plasmado na sua atuação.

«A Igreja «em saída» é a comunidade de discípulos missionários que «primeireiam», que se envolvem, que acompanham, que frutificam e festejam. Primeireiam – desculpai o neologismo –, tomam a iniciativa! A comunidade missionária experimenta que o Senhor tomou a iniciativa, precedeu-a no amor (cf. 1 Jo 4, 10), e, por isso, ela sabe ir à frente, sabe tomar a iniciativa sem medo, ir ao encontro, procurar os afastados e chegar às encruzilhadas dos caminhos para convidar os excluídos. Vive um desejo inexaurível de oferecer misericórdia, fruto de ter experimentado a misericórdia infinita do Pai e a sua força difusiva. Ousemos um pouco mais no tomar a iniciativa! Como consequência, a Igreja sabe «envolver-se» (...) Com obras e gestos, a comunidade missionária entra na vida diária dos outros, encurta as distâncias, abaixa-se – se for necessário – até à humilhação e assume a vida humana, tocando a carne sofredora de Cristo no povo. Os evangelizadores contraem assim o «cheiro das ovelhas», e estas escutam a sua voz. Em seguida, a comunidade evangelizadora dispõe-se a «acompanhar». Acompanha a humanidade em todos os seus processos, por mais duros e demorados que sejam. Conhece as longas esperas e a suportação apostólica. A evangelização patenteia muita paciência, e evita deter-se a considerar as limitações. Fiel ao dom do Senhor, sabe também «frutificar». A comunidade evangelizadora mantém-se atenta aos frutos, porque o Senhor a quer fecunda. Cuida do trigo e não perde a paz por causa do joio. O semeador, quando vê surgir o joio no meio do trigo, não tem reações lastimosas ou alarmistas. Encontra o modo para fazer com que a Palavra se encarne numa situação concreta e dê frutos de vida nova, apesar de serem aparentemente imperfeitos ou defeituosos. O discípulo sabe oferecer a vida inteira e jogá-la até ao martírio como testemunho de Jesus Cristo, mas o seu sonho não é estar cheio de inimigos, mas antes que a Palavra seja acolhida e manifeste a sua força libertadora e renovadora. Por fim, a comunidade evangelizadora jubilosa sabe sempre «festejar»: celebra e festeja cada pequena vitória, cada passo em frente na evangelização. No meio desta exigência diária de fazer avançar o bem, a evangelização jubilosa torna-se beleza na liturgia. A Igreja evangeliza e se evangeliza com a beleza da liturgia, que é também celebração da atividade evangelizadora e fonte dum renovado impulso para se dar» – Papa Francisco, Exortação apostólica ‘Evangelii gaudium’ sobre o anúncio do Evangelho no mundo atual, n.º 24.
À luz das caraterísticas realçadas no texto (os sublinhados são nossos), vamos tentar enquadrar esta ‘Igreja em saída’:
* Saber tomar a iniciativa – mais do que esperar que venham, precisamos nós de ir; mais do que secretárias de atendimento (acolhedor, simpático ou apelativo) e ficheiros em computador, precisamos de deixar o conforto para entender os sinais que o mudo emite; mais do que recauchutar iniciativas de antanho com hálito tradicionalista, precisamos de ousadia no Espírito Santo;
* Envolver-se com gestos e sinais – retomando essa expressão do Concílio Vaticano II - ‘gesta verbisque’ (DV 2) - depois da falência do ‘bem prega frei Tomás, olha para o que ele diz e não para o que faz’, somos chamados a vivenciar a experiência do ‘lava-pés’, dentro e fora do contexto eclesial. As distâncias encurtadas pelos novos meios de intercomunicação podem facilitar, mas não substituem o contato humano e pessoal... muita gente continua de mão estendida à espera que a vejamos;
* Acompanhar em proximidade – de pouco adiantarão as palavras de conforto, se isso não traduzir a comunhão de vida, feita de chorar em conjunto, de alegrar-se em comum, de sentir mais do que raciocinar;
* Saber frutificar – à semelhança do semeador que vela os resultados, assim, como Igreja, precisamos de dar tudo sem nada esperar em troca, pois a obra é de Deus e Ele fazer acreditar pelos frutos que dermos;
* Ser capaz de festejar – num tempo mais propício para a lamúria e a tristeza, a nossa liturgia precisa de sinais de festa, pois, estando a ensaiar em condição terrena, havemos de celebrar a liturgia glorioso no Céu!

 = Quem não viu tudo isto na recente visita do Papa Francisco ao Iraque? Aprendamos com o Papa!...  

 António Sílvio Couto

segunda-feira, 8 de março de 2021

Passado sangrento não ofusca o futuro?


 Por ocasião do centenário do «pcp» emergiram dados e elementos que nos devem fazer refletir.

Assim uma antiga militante e dirigente do dito partido – expulsa em 1988 – reportando-se ao ‘livro negro do comunismo’, editado em 1998, expôs os seguintes números das vítimas da ideologia comunista: «100 milhões de mortos vítimas do comunismo no século XX: China - 65 milhões, URSS - 20 milhões, Camboja - 2 milhões, Coreia do Norte - 2 milhões, África - 1,7 milhões, Afeganistão - 1,5 milhões; Vietname - um milhão; Europa de Leste - um milhão, América Latina – 150 mil»... No contexto (bloco de Leste) soviético houve deportações e genocídio de ucranianos, polacos, tártaros, chechenos, inguches, culaques, moldavos...

Porque há tanto medo de expor esta triste e maléfica realidade? Preconceito, manipulação, confusão ou cobardia? Até onde irá a lavagem vermelha de realidade tão atroz? Como não podemos apresentar estes dados, quando se vê a glorificação de quem matou, só porque não estava de acordo? As vítimas de outros acontecimentos – nazismo, fascismo, tribalismo ou fundamentalismo – e genocídios ofuscam ou servem de vanglória para as conquistas feitas com sangue e atrocidades dos comemorados?

Retomando as palavras supra ditas, vou esmiuçar:

* Do preconceito à manipulação

Vem a ‘talhe de foice’ – expressão popular que significa ‘a propósito’, ‘por acaso’ – contar aqui um pequeno episódio ocorrido com um imigrante ucraniano, quando viu serem colocadas bandeiras a esmo numa avenida, aquando da dita celebração do centenário do «pcp». Saído do carro de repente questionou os que dependuravam as ditas bandeiras/estandartes: não têm vergonha de colocar na rua coisas com essa cor e esse emblema? Sabem o que significa essa cor – vermelha? É o sangue de muitos ucranianos, mortos por essa gente… Esse símbolo é sinal de morte, muita morte… em tantas partes do mundo! Não têm vergonha desses crimes? Os tarefeiros só diziam: é do centenário, é do nosso centenário! Tirem essa porcaria, respeitem a memória de milhões que morreram, mortos por essa gente!

= Será que todos sabem que a cor vermelha/encarnada – sempre me confunde esta distinção regionalista – é mais fruto de morte do que de vitória? Os milhões supra citados pagaram, por vezes, com o sangue e a morte a ousadia de resistir…

= Não lhes pesa na consciência saberem que foram causa de infortúnio para milhões e que atiraram para a miséria milhares com as suas lutas, reivindicações e combates sindicalistas?

 * Em confusão ou por cobardia?

Muitos dos ‘crentes’ do partido foram catequizados na benevolência daquilo que lhes era apresentado, mais como discurso heroico do que como leitura da realidade objetiva. É com grande impaciência que não vejo o reconhecimento total ou parcial dos malefícios da ideologia comunista.

É verdade que, enquanto membro e participante da Igreja católica, também reconheço que houve erros, falhas e até crimes em nome da fé. Não esqueço a famigerada ‘Inquisição’ – sistema jurídico-espiritual de combate à heresia, à blasfémia e à bruxaria, a partir do século doze…em Portugal esteve em vigor de 1536 até 1821 – com os seus métodos, argumentos e consequências. Não podemos ainda esquecer as ‘cruzadas’ ou o processo dos ‘descobrimentos’ e a imposição dos interesses colonizadores, a escravatura… e tantas outras situações onde a propósito da fé se derramou sangue e, tantas vezes, se causou morte.

A 12 de março – no contexto do jubileu do ano 2000 – João Paulo II pediu pública e humildemente perdão pelos pecados da Igreja ao longo da história da Humanidade, reconhecendo erros, más opções e até contradições entre fé e vida.   

= Por que será que a ideologia comunista nunca teve esta atitude, antes se vangloria, desfradando ao vento sinais de sangue e de morte?

= Embora o pedido de perdão não faça reverter as vidas ceifadas, não será mais honesto e sério intelectualmente reconhecer as falhas do que entrincheirar-se nas certezas dogmáticas desconexas?

 

António Sílvio Couto

 

sábado, 6 de março de 2021

… E o partido terá futuro?

 


Ocorre por estes dias o centenário do ‘partido comunista português’. Cidades, vilas e aldeias foram invadidas por milhares de bandeiras a assinalar a data. Conjuntamente foi semeado mais um slogan daquela formação partidária: ‘centenário – liberdade, democracia, socialismo – o futuro tem partido’.

Para quem não se identifica, minimamente, com o projeto, torna-se necessário consultar fontes que nos possam elucidar. Foi isso que fiz. Vasculhei os estatutos do partido. Nos setenta e três artigos, resumo os oito primeiros, naquilo que é dito sobre a identidade, natureza, objetivos e finalidade do mesmo (o itálico é citação dos estatutos)…

* Natureza e composição: partido político do proletariado, o partido da classe operária e de todos os trabalhadores portugueses... organiza nas suas fileiras os operários, os empregados, os pequenos e médios agricultores, os intelectuais e quadros técnicos, pequenos e médios comerciantes e industriais, homens e mulheres, que lutam contra a exploração e a opressão capitalistas, pela democracia, pelo socialismo e o comunismo (artigo 1);
* Ideologia: tem como base teórica o marxismo-leninismo: concepção materialista e dialéctica do mundo, instrumento científico de análise da realidade e guia para a acção (artigo 2);
* Os membros: educa os seus membros e orienta a sua actividade no espírito da fidelidade à causa da classe operária, dos trabalhadores e do povo português e à defesa dos interesses nacionais... Orienta os seus membros e a sua actividade no espírito do internacionalismo proletário, da cooperação entre os partidos comunistas e entre as forças revolucionárias e progressistas (artigo 3);
* Método: a força do partido assenta essencialmente numa correcta orientação política, na coesão ideológica, política e orgânica, na actividade organizada dos seus membros, na democracia interna e no trabalho colectivo (artigo 4);
* Ação e identidade: objectivos supremos a construção em Portugal do socialismo e do comunismo... e assegurar ao povo português o efectivo poder político, o bem estar, a cultura, a igualdade de direitos dos cidadãos e o respeito pela pessoa humana, a liberdade e a paz (artigo 5);
* Objetivos: regime de liberdade no qual o povo decida do seu destino... desenvolvimento económico...liberto do domínio dos monopólios... política social que garanta a melhoria das condições de vida dos trabalhadores e do povo... política cultural que assegure o acesso generalizado à livre criação e fruição culturais... uma pátria independente e soberana (artigo 6);
* Revolução de abril: a luta em defesa das conquistas...pelo socialismo (artigo 7);
* Democracia e socialismo:
na luta em defesa e pelo aprofundamento da democracia...empenha-se na criação de uma vasta frente social, [e] se traduza na convergência e unidade das forças democráticas e patrióticas (artigo 8).

Resumido o que pode ter interesse para quem não seja – nem pretenda nunca ser – militante, ouso colocar questões sobre o tal futuro.  

Atendamos aos resultados eleitorais do partido em celebração centenária:

- Legislativas: 2011 – 441.852 votos (7,9%); 2019 – 332.473 votos (6,3%);

- Autárquicas: 2013 – 552.690 votos (11,06%); 2017 – 489.189 votos (9,4%);

- Presidenciais: 2016 – 183.009 votos (3,9%); 2021 – 180.518 (4,3%)

Podemos considerar que há queda em cada ato eleitoral…tenha o intervalo que tiver (oito anos nas legislativas ou quatro nas autárquicas e presidenciais) nota-se descida. Será isso futuro ou tendência de desaparecimento?

Ainda não se percebeu que a ideologia coletivista está esgotada? As mudanças serão resultado de esclarecimento ou de desmotivação social e cultural?

Porque se escondem tantos fantasmas sob o manto de conquistas? Será de somenos que não se conheçam divergências, mas antes purgas? O pensamento único-coletivo revela força ou manifesta fraqueza?

Porque seremos, no nosso país, um caso de estudo, quando na Europa todos caíram a pique, aqui temos de ser mais melancólicos? Ou será manipulação prolongada com métodos usados pelos combatidos?   

 

António Sílvio Couto

quarta-feira, 3 de março de 2021

Desmascarando…sob máscara

 


Adereço ou peça essencial no nosso convívio e trato com os outros no dia-a-dia, a máscara trouxe muitos convenientes: nalguns casos escondeu o que nem sempre era tão bonito quão desejável; reduziu ao essencial o que seria visualizável; defende e serve-nos de defesa para que não haja contaminação viral; tem sido motivo de moda para desviar as atenções, criando outras intenções…

Poderemos, por outro lado, elencar ainda uns tantos inconvenientes nesta mascarada vigente e/ou necessária: deixamos de reconhecer com facilidade os nossos interlocutores; sem nos darmos conta corremos o risco de sermos indelicados, dado que não reconhecemos nem somos reconhecidos com quem nos cruzamos; o recurso à máscara talvez denuncie uma falta de respeito mútuo, pois facilitando vimos os números de infetados a crescer à mistura com tantos falecidos que se podiam ter evitado.

Se, anteriormente, ver alguém de máscara nos colocava de sobreaviso quanto a quem tal exibia, agora cruzar-nos com alguém sem máscara torna-se um risco, um perigo perante um potencial prevaricador a ser multado…

Ora, atendendo às leituras e interpretações deste ano de pandemia, questiono: por que não advertiram já a titular da pasta da saúde de que o seu ar prazenteiro e simpático não condiz nada com a gravidade dos números de infetados e de falecidos, que apresenta? Por que ainda temos de aturar algo que soa a mentira, mesmo que desejem vender outro produto?

  = Carta aberta às televisões generalistas nacionais

Andava entretido nestas lucubrações de saldo, quando foi publicado, num jornal diário, uma espécie de manifesto subscrito por 42 ‘personalidades’, que exigem «uma informação que respeite princípios éticos, sobriedade e contenção. E, sobretudo, que respeite a democracia».

Diz essa carta aberta, após enunciarem alguns ‘saberes’ sobre a doença, as vacinas, as regras sociais e até as crises dos ‘media’: «assinalamos a excessiva duração dos telejornais, contraproducente em termos informativos. Não aceitamos o tom agressivo, quase inquisitorial, usado em algumas entrevistas, condicionando o pensamento e a respostas dos entrevistados. Não aceitamos a obsessão opinativa, destinada a condicionar a receção da notícia, em detrimento de uma saudável preocupação pedagógica de informar. E não podemos admitir o estilo acusatório com que vários jornalistas se insurgem contra governantes, cientistas e até o infatigável pessoal de saúde por, alegadamente, não terem sabido prever o imprevisível – doenças desconhecidas, mutações virais – nem antever medidas definitivas, soluções que nos permitissem, a nós, felizes desconhecedores das agruras do método científico, sair à rua sem máscara e sem medo, perspetivar o futuro».
Contestam o uso de termos como ‘caos’ nos hospitais, ‘catátrofe’ ou ‘rutura’... e que se mostrem filas de ambulâncias, que se exibam agulhas, ventiladores, para concluirem: «sabemos que há uma pandemia causada pelo SARS-CoV-2, mas também sabemos que há uma diferença entre informação, especulação e espetáculo. E entre bom e mau jornalismo».

Seguem-se as ditas assinaturas, onde encontramos, entre tantos: oito professores universitários, três outros docentes, dois jornalistas, seis médicos, quatro escritores, cinco ligados às artes de representação... numa razoável lista de pessoas ‘capitalistas de esquerda’, isto é, que gravitam pela capital e estão conotadas com forças ideológicas do arco da atual governabilidade. Parecem ter deixado cair a máscara de quem querem proteger e atacar, dando a entender que não sabem lidar lá muito bem com a tal democracia que apregoam, mas que nem sempre (como agora) praticam... Pena é que alguns e algumas só emerjam em maré tão fétida.

Será que o governo já bateu tanto no fundo que precisa destes aios e aias para flutuar? Se há tanta competência, como insinuam, por que temem o poder dos particulares, na comunicação social? É verdade que esta anda de rastos, mas querer calá-la só depende de quem a compra ou visualiza, não de quem a pretende impingir ou silenciar!

Liberta que foi a classificação do livro das sevícias entre 25 de abril de 1974 e 25 de novembro de 1975, vemos com estupefação estas tomadas de posição ‘democráticas’, que mais parecem do tempo da ditadura!

 

António Sílvio Couto

segunda-feira, 1 de março de 2021

Enésima ‘praga do Egito’

 


Com alguma regularidade se ouve a alusão às ‘pragas do Egito’ para falar de algo complicado, de difícil interpretação e mesmo de estar sob suspeita de quem é a culpa ou se será castigo.

Muitos e diversos factos e acontecimentos foram acrescentados às ‘dez pragas do Egito’. Como não podia deixar de ser também esta pandemia do ‘coronavírus sars-cov-2’ – ‘covid19’ entra na já longa lista de ‘pragas’ continuadoras das ‘dez do Egito’.

Antes de mais façamos uma apresentação das ‘dez pragas do Egito’ suas causas e implicações e quais serão os sinais de leitura religiosa subjacentes.

 = As dez pragas: castigo ou modo de Deus se revelar?

Na Sagrada Escritura encontramos as pragas no livro do Êxodo capítulos 7 a 12, como sinais de Deus para a libertação do seu povo. Segundo alguns autores as ‘pragas’ podem ser um encadeado de fenómenos naturais que foram entendidos pelos israelitas como formas de Deus se revelar, ou dito por outras palavras e servindo-nos de uma linguagem usada no Concílio Vaticano II, os ‘sinais dos tempos’ (Constituição pastoral ‘Gaudium et spes’ sobre a Igreja no mundo atual, n.º 4) em contínua atualização.

Vejamos, então, as ‘pragas’, seu encadeado e, possível, julgamento dos deuses egípcios:

1) águas do Nilo convertem-se em sangue (cf. Ex 7,14-25) – será resultado de um fenómeno da mudança de clima e do aumento de temperatura em que se deu uma proliferação de algas e toxinas, avermelhando o rio; seria uma forma de colocar em causa o deus ‘hápi’, aquele que protegia o Nilo, como sinal de vida;

2) rãs cobrem a terra (cf. Ex 7,26 - 8,11) – em resultado da falta de oxigenação das águas do grande rio, as rãs subiram às margens e espalharam-se pela terra; seria uma forma de questionar a deusa ‘heqet’, símbolo da fertilidade;

3) piolhos (ou mosquitos) atormentam homens e animais (cf. Ex 8, 12-15) – em resultado da possível seca e das más condições das águas do rio e com as insuficientes condições de higiene surgem os piolhos e os mosquitos; seria uma forma de denunciar a incapacidade do deus ‘tot’, o inventor da escrita;

4) moscas escurecem o ar (cf. Ex 8, 16-28) – estas surgem em razão da morte das rãs que as comeriam, tendo ainda a ver com a falta de higiene devida a escassez de água do Nilo, que tinham sido contaminada; seria este fenómeno uma espécie de humilhação do deus ‘ptah’, criador do universo, aqui incapaz de suster a estabilidade:

5) morte dos animais (cf. Ex  9, 1-7) – dada a quantidade de mosquitos e moscas, bem como as alterações das águas do Nilo, os animais começaram a ficar doentes, sendo as primeiras vítimas do complexo estado infetocontagioso; vários deuses são questionados, pois não protegem aqueles a quem lhes seria devido: ‘hator’, deusa da beleza e da felicidade e ‘nut’, deusa-céu, criadora do universo;

6) pústulas cobrem homens e animais (cf. Ex 9,8-12) – essas erupções cutâneas poderiam ser resultado das infeções transmitidas pelos piolhos e as moscas; era colocada em causa ‘nete’, deusa da caça e da guerra;

7) chuva de granizo e fogo (cf. Ex 9,13-35) – as plantações são destruídas, em resultado da erupção do vulcão Thera (ilha no mar Egeu – de que há notícias em meados do segundo milénio antes de Cristo), misturando-se fortes chuvas com a lava incandescente; os deuses que controlam os elementos da natureza (água – ‘íris’ e fogo – ‘osíris’) são postos em causa;

8) gafanhotos (cf. Ex 10,1-20) – em razão das alterações climáticas (chuva de granizo e erupção vulcânica), com o solo húmido criou-se um ambiente propício para aparecerem milhares de gafanhotos, que atacaram as culturas; o deus do ar – ‘xu’ e o deus-crocodilo, protetor do Nilo – ‘sobek’ são questionados por não salvaguardem as plantações;

9) as trevas (cf. Ex 10, 21-29) – uma tempestade de areia ou as cinzas da erupção vulcânica, que encobriram o sol, podem explicar as densas e palpáveis trevas de três dias; o deus principal do Egito – ‘Rá – deus sol’ é colocado em causa e à prova;

10) morte dos primogénitos (cf. Ex 12,29-32) – seguindo uma tradição os filhos primogénitos eram os primeiros a comer, quando a comida era escassa, estes terão ingeridos alimentos contaminados com fezes de gafanhotos e morreram durante o sono; todos os deuses claudicaram, dado que não conseguiram livrá-los como ‘filhos dos deuses’, na designação dos egípcios sobre si mesmos.

Que lições podemos colher destas dez pragas? É uma forma de manifestar a grandeza e o poder do Deus de Israel, que foi derrotando e destruindo os deuses em quem os egípcios punham a sua confiança. Moisés e Aarão, como servos do Deus vivo, provam que Ele vence e está com o seu povo amado.

 = E, hoje, nós?

Quando algo se torna mais complexo de entender ou algum fenómeno da natureza questiona os entendidos (cientistas ou crentes) emerge a possibilidade de ser uma ‘praga do Egito’, nesse caso a 11.ª ou mais…As alterações climatéricas, em especial a poluição, os terramotos ou os tsunamis, questões relacionadas com a vida… poderão ser, hoje, sinais de ‘pragas do Egito’ atualizadas…

Que dizer ainda desta pandemia que tem varrido a Humanidade. Não será ela uma versão muito refinada do espírito das ‘pragas do Egito’? Os nossos deuses não estarão a ser submetidos à prova nesta enésima praga?

Para quem tenha um mínimo de fé, algo tem de nos questionar, inquirindo o nosso Deus…

           

António Sílvio Couto