Partilha de perspectivas... tanto quanto atualizadas.



quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

Quaresma 2021- significado e vivência


 «A tentação de Jesus manifesta a maneira própria de o Filho de Deus ser Messias, ao contrário da que Lhe propõe Satanás e que os homens desejam atribuir-Lhe. Foi por isso que Cristo venceu o Tentador, por nós: «Nós não temos um sumo-sacerdote incapaz de se compadecer das nossas fraquezas; temos um, que possui a experiência de todas as provações, tal como nós, com exceção do pecado» (Hb 4, 15). Todos os anos, pelos quarenta dias da Grande Quaresma, a Igreja une-se ao mistério de Jesus no deserto» - Catecismo da Igreja Católica, n.º 540.

‘Quaresma’ vem da 40, isto é, faz-nos recordar e memorizar os 40 anos de peregrinação do povo de Israel pelo deserto, os 40 dias que Moisés e Elias passaram em oração antes de iniciarem, respetivamente, o seu ministério e também os 40 dias que Jesus jejuou no deserto, após o batismo.

40 dias é a contagem de tempo que une a 4.ª feira de Cinzas com o domingo de Ramos.
Eis uma pequena ressonância dos domingos da Quaresma deste ‘Ano B’:
1.º – Todos os vossos caminhos, Senhor, são amor e verdade;
2.º – Andarei na presença do Senhor sobre a terra dos vivos;
3.º – Senhor, Vós tendes palavras de vida eterna;
4.º – Se eu não me lembrar de ti, Jerusalém, fique presa a minha língua;
5.º – Dai-me, Senhor, um coração puro.

Sinais da caminhada
Os tempos e os dias de penitência ao longo do ano litúrgico (o tempo da quaresma, cada sexta-feira em memória da morte do Senhor) são momentos fortes da prática penitencial da Igreja. Esses tempos são particularmente apropriados aos exercícios espirituais, às liturgias penitenciais, às peregrinações em sinal de penitência, às privações voluntárias como o jejum e a esmola, à partilha fraterna (obras de caridade e missionárias) - Catecismo da Igreja Católica, n.º 1438.
A caminhada da Quaresma tem diversos sinais, uns mais tradicionais e outros que podem ser um tanto inovadores; uns de âmbito interior e outros de expressão mais exterior; alguns de natureza pessoal e outros mais de expressão comunitária.
- Aspetos mais pessoais: conversão/oração, penitência, jejum - apresentados logo na liturgia da 4.ª feira de Cinzas - Mt 6, 1-6.16-18; o recurso ao sacramento da penitência (confissão) e, claramente, a vivência da eucaristia de domingo e, se possível, à semana...
- Momentos (celebrações) comunitários: desde logo de formação na fé e no compromisso (como retiros, recoleções e tempos de silêncio), celebrações penitenciais (preparatórias da celebração do sacramento da penitência), via-sacra (sobretudo à 6.ª feira, em consonância com a Paixão de Jesus), procissões penitenciais (ou alusivas ao Senhor dos Passos), renúncia quaresmal (na linha das propostas da diocese), partilha com os outros (dando novo significado ao jejum)...
Precisamos de ser inventivos no amor a Jesus. Cada um poderá e deverá encontrar a sua forma e tempo de oração, arranjar algum espaço apropriado e com sinais alusivos à dinâmica quaresmal com uma cruz, a Bíblia, uma vela e algo que possa ajudar a vivenciar o tempo diário de oração.

 

Nota

Atendendo ao estado de confinamento em que nos encontramos e deve prosseguir durante o tempo da Quaresma deste ano, poderemos ter de vivenciar muitas destas propostas em condição mais pessoal/familiar do que em tempo comunitário… Assim não deixemos de viver este tempo de graça.

 

António Sílvio Couto

 

 

 

terça-feira, 9 de fevereiro de 2021

Relação de confiança para o cuidado dos doentes


 No dia 11 deste mês celebra-se, pela vigésima nona vez, o ‘dia mundial do doente’, com o tema: «Um só é o vosso Mestre e vós sois todos irmãos» (Mt 23, 8). A relação de confiança, na base do cuidado dos doentes. 

Na sua mensagem o Papa Francisco centra a sua atenção ‘nas pessoas que sofrem em todo o mundo os efeitos da pandemia do coronavírus’, tanto as pessoas doentes como as que as assistem nos centros sanitários como no seio das famílias e das comunidades.
Respigamos da mensagem papal alguns dos aspetos tratados: 

1. «O tema deste Dia inspira-se no trecho evangélico em que Jesus critica a hipocrisia de quantos dizem mas não fazem (cf. Mt 23, 1-12). Quando a fé fica reduzida a exercícios verbais estéreis, sem se envolver na história e nas necessidades do outro, então falha a coerência entre o credo professado e a vida real».

De facto, não andará por aí muita gente a gabar-se de fazer algo e de nada mexer de significativo? Quem tem medo daquilo que a Igreja realiza e não publicita? Não será hipocrisia querer ser simpático sem conteúdo nem conexão? Sob a máscara ostentada não andará muita hipocrisia indisfarçável?

2. «A experiência da doença faz-nos sentir a nossa vulnerabilidade e, ao mesmo tempo, a necessidade natural do outro (...) A doença obriga a questionar-se sobre o sentido da vida; uma pergunta que, na fé, se dirige a Deus».
Job é apresentado pelo Papa como a ‘figura emblemática’ deste diálogo e questionamento de si mesmo, pelos outros e para com Deus. Será que, nas nossas fragilidades, descobrimos as causas das nossas fragilizações? Da nossa experiência de doença temos descoberto a solicitude de Deus para connosco? Ajudamos os outros a encontrarem Deus, por ocasião das suas experiências mais questionantes da vida?

3. «A doença tem sempre um rosto, e até mais do que um: o rosto de todas as pessoas doentes, mesmo daquelas que se sentem ignoradas, excluídas, vítimas de injustiças sociais que lhes negam direitos essenciais (...) A atual pandemia colocou em evidência tantas insuficiências dos sistemas sanitários e carências na assistência às pessoas doentes (...) Ao mesmo tempo, a pandemia destacou também a dedicação e generosidade de profissionais de saúde, voluntários, trabalhadores e trabalhadoras, sacerdotes, religiosos e religiosas».
Em todo este processo se destacou o ‘profissionalismo, abnegação, sentido de responsabilidade e amor ao próximo’ em que ajudaram, trataram, confortaram e serviram tantos doentes e os seus familiares. Como não deviam merecer estes ‘heróis’ mais respeito por parte da população. As palmas de aplauso não foram revertidas em ofensas aos que procuraram fazer o seu melhor? Não faltarão sinais de cura pela atenção e não pela simples medicação?

4. «Para haver uma boa terapia é decisivo o aspeto relacional, através do qual se pode conseguir uma abordagem holística da pessoa doente. A valorização deste aspeto ajuda também os médicos, enfermeiros, profissionais e voluntários a ocuparem-se daqueles que sofrem para os acompanhar ao longo do itinerário de cura, graças a uma relação interpessoal de confiança».

Se em tantos setores da vida, a confiança é essencial, muito mais é necessária nas questões de saúde e de cuidado das pessoas carenciadas de proteção. Ainda podemos acreditar em certas ‘boas intenções’ de ideólogos anti-vida?

 5. «Uma sociedade é tanto mais humana quanto melhor souber cuidar dos seus membros frágeis e atribulados e o fizer com uma eficiência animada por amor fraterno. Tendamos para esta meta, procurando que ninguém fique sozinho, nem se sinta excluído e abandonado».

Se atendermos ao caso português que dizer duma sociedade que deixa aprovar no Parlamento a eutanásia, quando tantos profissionais de saúde gastam o seu tempo e esforços a darem a vida? Não seremos um povo, no mínimo esquizofrénico, nas ideias e na ética…dita republicana?

 

António Sílvio Couto

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2021

‘Deus é amor’…nem todo o ‘amor’ é de Deus

 


Afirmar, reconhecer e viver segundo o princípio: ‘Deus é amor’ (1 Jo 4,16), é algo de básico, inovador e de descoberta. De facto, aceitar que Deus é amor e que o manifesta para comigo é algo de grande graça e de dom divino… sobretudo neste tempo de incertezas, numa época de dúvidas e nesta sociedade demasiado horizontal e pouco a olhar para o Alto…

Por entre várias contagens poderemos considerar que a palavra ‘amor’ aparece muitas vezes – sugerimos a contagem nas vertentes que abordamos de seguida – na Bíblia, tendo essa palavra diversos significados, enquadramentos e sentidos, tanto no Antigo como no Novo Testamento.

* No Antigo Testamento, a palavra mais comum que traduz amor é a expressão hebraica ‘ahab’ ou na variação ‘aheb’. Elas aparecem cerca de 250 vezes tanto na forma nominal como no modo verbal. O termo denota um sentido de amor amplo, incluindo o amor romântico e legítimo entre pessoas, o amor fraternal e o amor divino. A segunda expressão mais importante para falar de ‘amor’ no Antigo Testamento é ‘hesed’ e manifesta uma escolha deliberada de afeição e bondade, com um forte sentido de lealdade. Nas traduções habituais da  Bíblia, ‘hesed’ normalmente é referido como “bondade”, “graça” e “misericórdia”. O termo ocorre mais frequentemente em Génesis para exprimir o amor humano. No livro do Deuteronómio é comum o sentido de amor a Deus. Também ocorre com alguma frequência nos Salmos e nos Provérbios. Outra palavra usada para exprimir o sentido de amor no Antigo Testamento é ‘haham’, sendo traduzida normalmente por “amor” e “compaixão”, ela ocorre cerca de 26 vezes no texto hebraico. O significado da raiz da palavra é “nascido do mesmo ventre” e representa a ideia e o sentimento do amor entre irmãos.
Para falar de amor, como relacionamento sexual, é usado o termo ‘yada’, que é traduzido como “conhecer” e também a expressão ‘sakab’, que quer dizer “deitar-se”. Essa duas palavras realmente descrevem o “tornar-se uma só carne” e onde está fundamentado o compromisso de fidelidade matrimonial.
* Na literatura grega clássica a expressão mais comum para caracterizar amor é ‘eros’, que é o amor sexual, sensual, impulsivo e, digamos, natural. Essa palavra tem sua origem na mitologia onde o deus do amor, Eros.
* No Novo Testamento não aparece a palavra grega que exprime o amor erótico, com características meramente sexuais. Encontramos duas expressões verbais gregas que se destacam para definir o sentido do verbo amar: ‘phileo’ e ‘agapao’ e as formas substantivas ‘philós’ e ‘agápe’. ‘Philós’ ocorre 30 vezes no Novo Testamento e exprime um relacionamento próximo, amizade, estima e afeto terno. O verbo ‘phileo’ aparece cerca de 25 vezes no Novo Testamento, com vários significados.
No entanto, a palavra mais comum no Novo Testamento para falar de amor é ‘agapao’. Na forma verbal aparece 137 vezes e na forma nominal (amor) é usada 116 vezes. O sentido da palavra é igual ao equivalente hebraico e é usado nos mais variados sentidos: o amor de Deus para com os seres humanos, destes para com Deus e nas relações entre os humanos.
Por influência da Vulgata (tradução latina do texto bíblico em latim), algumas versões mais antigas traduzem ‘agápe’ por “caridade” (do latim ‘caritas’, que significa “afeição”, “amor”, “estima”).

 = Feito este percurso pela cultura judeo-cristã e tentando compreender para além da versão platónica ou de uma mais erotizada, podemos considerar que isso a que se chama de ‘amor’ é (ou pode ser) egoista e interesseiro, pode manifestar algo mais do que maturidade psicológica e espiritual, pode revelar facetas nem sempre assumidas da própria pessoa e para com aqueles com quem se relaciona.

Poderemos considerar nesta abordagem ao tema do ‘amor’ três elementos que o compõem: compromisso (fidelidade), intimidade e dedicação (tempo). Isto poder-nos-á ajudar a avaliar muitos dos ‘amores’ em que nos intercruzamos: humanos (em casal, em família), psicológicos e espirituais.

Como pode alguém amar outra pessoa, se não se ama a si mesmo? Os biliões de sites de pornografia não revelam essa lacuna de amor a si próprio? As ‘ofertas’ de compensação sexual não manifestam lacunas de personalidade em crise? A vulgaridade e oscilação de relacionamentos – hetero ou homossexuais – não contradizem a necessidade de ser amado e de amar, gratuitamente?   

 

António Sílvio Couto

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021

Pandemia: arco-íris da tal ‘nova era’?

 


Dá a impressão que nunca como agora algo aconteceu com dimensão tão global e em simultâneo em toda a face da Terra. A pandemia do ‘coronavírus’ tornou-se um fenómeno que atingiu dimensões, para além de catastróficas a vários níveis, também algo transversal às culturas, aos povos, às línguas, aos sistemas políticos e ideológicos, nas diversas expressões religiosas… é um facto transnacional de largo, profundo e alto alcance.

Para além do manto do medo que se estendeu sobre tudo e todos, haverá algo que nos condiciona e que ainda não fomos capazes de descobrir. Estamos hoje mais desconfiados e medrosos do que ontem. O futuro pessoal, familiar, social, coletivo (de nações e regimes) está em suspenso. O ‘mito de Sísifo’ parece caraterizar o nosso comportamento, desde as coisas mais básicas até às mais complexas: chegados ao topo do monte, carregando o saco de pedras, rebolamos para o sopé e reiniciando a caminhada, mais em forma de castigo do que com perspetivas de saída…

– Nota-se uma quase-banalização da morte, tal a quantidade diária e absorvente de falecimentos. A curvatura pesada do efeito desta pandemia não nos deixa levantar os olhos para o Alto e como que ficamos esmagados pelo nosso destino. Há algo novo: Deus não conta ou parece ter-se ofuscado em todo este processo e nem os cultivadores da dimensão espiritual e religiosa da pessoa humana têm dado conta daquilo que se está a passar. Os responsáveis religiosos – de forma indistinta e um tanto acrítica – tornaram-se obedientes e submissos às forças sanitárias e estatais. Dá a impressão que perpassou por este núcleo de pensadores da fé uma nuvem de esquecimento e/ou de obscurantismo não assumido.

– Sente-se uma sensação de que ‘alguém’ – sem rosto nem nome, sem identidade nem configuração – manobra tudo isto. Atendendo à dimensão holística de todo este processo se pode conjeturar que ‘alguém’ gerou e está a gerir tudo isto com subtileza. Recorramos a conceitos e tentemos explicar incidências.

Antes de mais o que é a ‘new age’ (nova era) e como poderemos enquadrar isto que estamos a viver neste tempo de pandemia? A ‘nova era’ situa-se no enquadramento de um movimento assaz abrangente, que não poderá ser reduzido a uma expressão exotérico-religiosa, mas envolvendo também correntes filosóficas e ecologistas, económicas e desportivas, sem esquecer a dimensão político-social, em ordem a uma nova visão de sociedade e mesmo de cultura.

Partindo da divisão das grandes etapas da Humanidade, servindo-se dos signos do zodíaco – referem-se as ‘eras’ na divisão de dois mil anos e acentuam-se as três últimas como: a ‘era de touro’ (4001 a 2000 a.C.) – na cultura egípcia; a ‘era de carneiro’ (2001 a. C. a 0) – na religião judaica; a ‘era de peixes’ (ano 0 a 2012) – no tempo do cristianismo; a ‘era de aquário’ (desde 2012 e por mais dois mil anos) – como essa ‘nova era’, onde confluem múltiplos aspetos de índole pessoal – veja-se o tema da ‘autoestima’ – com referências à relação planetária e às incidências na natureza – as questões ecológicas – com outros aspetos de âmbito social – as questões fraturantes de exaltação da liberdade pessoal autónoma…

– Como podemos, então, enquadrar os tempos que estamos a viver neste conceito de ‘nova era’? Há sinais, nesta pandemia, de que a ‘nova era’ estende aqui os seus tentáculos? Até onde irá a capacidade dos cristãos – os principais visados na cultura da ‘nova era’ – aos desafios pandémicos?

Desde logo o acentuar a dimensão individualista da pessoa – cada um pode salvar-se a si mesmo, desde que se autoconvença e use certos meios de introspeção, de meditação, rejeitando quem lhe dê orientações – à exceção de algum guru ou guia – pois possui em si mesmo capacidade de autorregeneração. A supressão de ações litúrgicas comunitárias – específicas do cristianismo – não soa a rejeição e a manipulação? A exaltação da moral ‘à la carte’ – veja-se a panóplia de movimentos amorais e sincréticos em difusão – cresce e pulula numa repulsa às orientações cristãs. O aparecimento do ‘arco-íris’ no contexto de pandemia talvez não se possa considerar de todo inocente, pois é usado como símbolo de alguns movimentos de contestação sexual.

Outro aspeto não menos relevante é uma espécie de anonimato de quem conduz. Não se sabe quem é o guia essencial da ‘nova era’. Nesta pandemia quem pode arrogar-se de protagonista? Qual a sede ou os mentores, tanto da doença, quanto da (pretensa) cura? O surgimento das vacinas – tão rápido, barato e universal – não terá por detrás alguma ‘ordem mundial’ comandatária disto tudo?

 

António Sílvio Couto

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021

Esculpir sobre material rijo

 


Por estes dias tenho recordado essa pequena estória da visita de um grupo de alunos a um atelier de escultor, onde um dos visitantes questionou o artista pela forma como ele ia fazendo as peças que tinha ali expostas, ao que o mestre-escultor respondeu: eu só tiro da pedra aquilo que está a encobrir a estátua…

Vem isto a propósito da forma como, muitas vezes, vamos entendendo as pessoas, que se vão manifestando, isto é, revelando naquilo que há de mais encoberto ou não antes percebido, mas se põe a manifesto quando menos contamos.

Por estes dias acompanhei, telefonicamente – bem gostaria que tivesse sido mais de forma presencial, mas o confinamento não o tem permitido – um padre amigo, que, no espaço de quinze dias, perdeu a mãe e o pai, tendo, no intervalo, estado em quarentena devido ao ‘covid-19’. Tanto que me pediu para celebrar a missa do funeral. Foi interessante escutar aquilo que estes pais viveram, a forma como educaram os filhos e, sobretudo, os valores transmitidos.

Recolhendo da partilha ficou-me que, se a mãe tinha e estava em espírito cristão, o pai vivenciou, em tempos recuados de há quatro décadas, os fervores revolucionários dialético-marxistas, mesmo nas terras latino-americanas. Com o caminhar para o poente da vida, estes pais foram-se apegando mutuamente com um casamento de mais de meio século. A prova de afinidade está, claramente, manifesta na curta distância de falecimento entre ambos.

Se sobre a mãe o padre não tinha dúvidas da sua intrínseca fé, quanto ao pai, apesar de tudo, sempre o viu algo remitente nas questões religiosas. No entanto, a surpresa emergiu após o passamento da esposa. Os tempos últimos – cerca de quinze dias apenas – foram de apelo ao divino, tendo sido – como se dizia dos cristãos mais tradicionais em terras de cristandade – reconciliado e ‘confortado com os sacramentos da Santa Madre Igreja’…

A avaliação deste filho-padre, feito seminarista à revelia do pai há cerca de quarenta anos, foi simples: ele era duro, mas Deus tinha-o tocado lá no fundo e agora emergiu a semente lançada…

 

= Perante esta lição de vida considero que posso colocar algumas questões bem mais simples e exigentes do que considerações piedosas ou lamentos de circunstância:

* Do material rijo e duro se faz algo de significativo – de facto, não é de coisa mole, inerte ou fácil que se constrói seja o quer for, muito menos a personalidade de alguém. Efetivamente nos tempos que correm onde tudo parece mais melífero do que virtuoso (no sentido etimológico do termo: ‘vir, viris’, homem, força), torna-se essencial olhar para quem soube acrisolar-se na escola da vida, aprendendo com as dificuldades e ensinando mais com os gestos do que com palavras… e, estas se tiverem de ser usadas, que o sejam para explicar o que se vive…

 * Educar pelo testemunho – numa época em que se ouvem em excesso tantos ‘mestres’ de pedagogia – mesmo ao nível da fé – escasseiam aqueles que dão espaço e preferência ao seguimento pessoal. Parece que tornamos certos aspetos da vida – mesmo a fé e a sua prática – numa espécie de ideologia, que se usa ou manipula conforme convém, se é útil ou se compromete no mínimo.

 * Confiar nas pessoas – quando, de tantas e tão díspares formas, se manifesta a descrença nos outros, torna-se essencial acreditar que todos e cada um merece, ao menos, o benefício da dúvida, pois, se a semente – como se diz nas Sagradas Escrituras – é boa, só precisamos de cuidar do terreno, esse sim, nem sempre de boa qualidade.

* Saber investir mais do recolher resultados – neste tempo em que vivemos nessa ‘cultura’ da máquina de coca-cola (passe a publicidade), onde se coloca a moeda e sai o produto, torna-se fundamental saber que o melhor dos patrimónios não se confina às coisas materiais, mas naquilo em que se investe: as pessoas e essas continuam a ser dignas da todas as apostas e quanto pode cada ser capaz de capacitar os outros para serem sem meramente parecerem.

Esculpir sobre material rijo implica conhecer quem se quer educar, saber quem o vai fazer e quais os resultados que se deseja atingir. Estaremos conscientes deste percurso sem querermos queimar etapas?

 

António Sílvio Couto

Que luz brilhará ainda?

 


Ao fim deste dia de ‘Nossa Senhora das Candeias’, versão popular da festa litúrgica da Apresentação do Senhor, sinto como que uma certa tristeza por não poder celebrar comunitariamente este terminus das festividades natalícias. Com efeito, os números e a gravidade, o confinamento e as precauções, o cuidado e a atenção… do tempo de pandemia fazem de tudo isto algo envolto em mistério não de Deus, mas humano… demasiado obscuro, confuso e apreensivo.

Deixo um texto de luz, desde os tempos mais remotos do cristianismo, com algumas observações na direção daquilo que Deus nos está tão codificadamente a falar…nos tempos mais recentes.

 Luz esplendente da santa glória

Do Pai celeste, imortal,

Santo e glorioso Jesus Cristo!

Sois digno de ser cantado a toda a hora e momento

Por vozes inocentes,

Ó Filho de Deus que nos dais a vida.

Dissipais as trevas do universo

E iluminais o espírito do homem,

Vencendo a noite com a luz da fé.

Luz da Luz sem ocaso,

Imagem clara do esplendor divino:

O céu e a terra proclamam a vossa glória.

Chegada a hora do sol poente,

Contemplando a luz do entardecer,

Cantamos ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo.

 Na Liturgia das Horas encontramos um hino que consubstancia alguns dos aspetos mais relevantes da revelação de Jesus como luz do mundo. O hino do lucernário – rezado nas vésperas I de domingo no tempo comum – é atribuído à Igreja primitiva, sendo enriquecido com o contributo de S. Gregório de Nazianzo do século IV.

Este belo hino, enraizado, na longa e profunda Tradição da Igreja, tem mais forte expressão na oração de vésperas da Igreja. Com efeito, as Vésperas celebram-se à tarde, ao declinar do dia a fim de agradecermos tudo quanto neste dia nos foi dado e ainda o bem que nós próprios tenhamos feito. Com esta oração, que fazemos subir como incenso na presença do Senhor e em que o erguer das nossas mãos é como o sacrifício vespertino, recordamos também a obra da Redenção.

E, num sentido mais sagrado, pode ainda evocar aquele verdadeiro sacrifício vespertino que o nosso Salvador confiou aos Apóstolos na última Ceia, ao inaugurar os sacrossantos mistérios da Igreja, quer aquele sacrifício vespertino que, no dia seguinte, no fim dos tempos, Ele ofereceu ao Pai, erguendo as mãos para a salvação do mundo inteiro. Finalmente, no sentido de orientar a nossa esperança para a luz sem crepúsculo, oramos e pedimos que sobre nós brilhe de novo a luz, imploramos a vinda de Cristo, que nos virá trazer a graça da luz eterna. Nesta hora, unimos as nossas vozes às das Igrejas orientais, cantando: ‘Luz esplendente da santa glória do Pai celeste e imortal, santo e glorioso Jesus Cristo! Chegada a hora do sol poente, contemplando a estrela vespertina, cantamos ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo’... Quando a Igreja católica reza, celebra a fé acreditada… hoje como ontem e em união com todos quantos o viveram.

De facto, precisamos de acreditar que algo de novo e de diferente vai surgir após esta provação. Assim sejamos dignos de ler, de entender, de interpretar e de viver em consonância com os desafios apresentados.

 

António Sílvio Couto

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

O calote…sempre a crescer

 


Parece fazer parte da nossa identidade nacional, colado à nossa pele, marcando o presente e condicionando o futuro: a dívida que vimos a acumular para com o exterior era, em 2020, de 137,2% do produto interno bruto, contabilizando cerca de 270 mil milhões de euros…

Se atendermos que, em finais de 2019, os números andariam pelos 250 mil milhões de euros, percebe-se que, só num ano, a dívida subiu vinte mil milhões de euros.

Se estes números impressionantes pela negativa juntarmos ainda a capacidade de produção de riqueza, no ano de 2020, poderemos constatar que as cifras são também desastrosas, isto é, passamos de 213 mil milhões de euros, em 2019, para 200 mil milhões no ano transato… e este panorama não inclui a dívida comercial, a dívida das empresas públicas e as dívidas das autarquias…

Estes dados foram fornecidos pelo organismo nacional que superintende estas matérias, o Instituto Nacional de Estatística.

 = Diante destes números cada um de nós poderá e deverá questionar-se sobre o nosso futuro coletivo. Frases como – ‘o país consome mais do que produz’, ‘Portugal está penhorado ao estrangeiro’, ‘cada português deve, ao estrangeiro, quase dezanove mil euros’, ‘para limparmos a dívida precisa, cada português, de trabalhar um ano e quarenta e dois dias’ – ouvem-se e leem-se. Mas seremos todos responsáveis por igual deste estado calamitoso, perigoso e quase-irreversível? A culpa não tem autores ou os custos têm de ser pagos todos por igual? Quem decidiu fazer que pensássemos que somos todos ricos, não terá mais culpa do que o povo simples e ignorante das consequências? Por que será que, quem nos dirige – governar é mais do que gerir e iludir – não ousa falar verdade? Será que os problemas se resolvem atirando dinheiro para cima ou camuflando as razões do descalabro social, económico e quase-cultural? Pela enésima vez estamos a caminho da ‘banca rota’ – e não é a rutura da banca – com os mesmos intervenientes. Quando vamos acordar e sairmos do fosso em que são especialistas em conduzir-nos? Por que será que uma certa ‘esquerda’ é boa a distribuir e nunca a amealhar?

 = É um facto incontestável: o Estado não gera riqueza, embora a tente gerir, mas para isso é preciso que haja produção, estabilidade e confiança entre todos. Ora, pelos anos mais recentes temos visto que, quem diz governar sofre de uma doença congénita: tudo o que não seja estatal é inimigo e deve ser combatido, trucidado e quase-desfeito… seja qual for o setor, mas particularmente aqueles que possam fazer parecer que fornecem regalias sem esforço e bem-estar sem condicionamentos.

Vemos, então, uma razoável maquia de dividendos a serem repartidos por cerca de quinze por cento da população, isto é, os funcionários públicos: temos mais de setecentos mil, disseminados pela administração central ou local, ensino, saúde, segurança (social e pública). O valor de remuneração médio mensal cifra-se em mil e quinhentos euros a que são acrescentados outros subsídios…

 = Em todo este processo de tentativa de compreensão do país, que somos e para onde caminhamos, sinto que há um aspeto que deveria ser melhor cuidado, tanto ao nível pessoal como familiar e até institucional, seja a qual for a instituição. Como fomos/somos educados na e para a poupança? Teremos espírito de esbanjamento ou de subsidiodependência? Já advertimos que o nosso futuro está em risco, se continuarmos a manter o mesmo estilo de vida e de ética?

Tive a felicidade de ser educado numa aprendizagem de saber poupar, dentro de um princípio básico, traduzido em pequenos flashes para o dia-a-dia: não tens não gastas; que não tem dinheiro, não tem vícios; não viver do emprestado; saber honrar os compromissos; não sabemos o dia de amanhã…

Claro que estas notas práticas foram-me comunicadas por quem viveu o racionamento da segunda guerra mundial, de quem sempre quis andar de cabeça levantada sem dever favores e, pior, de ter aprendido que o melhor do nosso património é ser honrado, mesmo que os bens materiais possam escassear. É verdade: o que há de mais salutar é poder pensar pela própria cabeça e de ter meios de valorização que não terminem com o mero prazer materialista…em consumo.

 

António Sílvio Couto