Partilha de perspectivas... tanto quanto atualizadas.



sábado, 17 de outubro de 2020

Máscara – antecâmara da mortalha?

 


É hoje adereço (mais do que indispensável, obrigatório) da indumentária de todos e de qualquer um: a máscara, que encobre o nariz e a boca, tentando, assim, evitar a transmissão/receção de possíveis vírus infetocontagiosos…sobretudo do sars-cov-2.

Temos hoje, regra geral, três tipos de máscaras: cirúrgicas, sociais (ou comunitárias) e respiradores. Cada uma delas faz a sua função, desde que proteja a saúde do utilizador e de quem com ele se cruze ou conviva.

Os números significativos de novos infetados, de falecidos e de internados fez com que as autoridades – de saúde, governativas e políticas – introduzissem uma nova etapa de resguardo de todos e de cada um: o estado de calamidade.

Em que consta e quais as medidas deste grau máximo de gravidade, que é a implementação do estado de calamidade? 

Atendendo ao agravamento da situação social da difusão do covid-19 foram postas em prática as seguintes medidas: na rua, em espaços comerciais e restaurantes, não poderão estar mais de cinco pessoas juntas; a partir de agora, meados de outubro, casamentos e batizados só poderão contar com 50 convidados; nos estabelecimentos de ensino, ficam proibidas festas e outros eventos que não tenham a ver com as aulas; os valores das multas para estabelecimentos que não cumpram as regras serão aumentados para um teto máximo de dez mil euros; a fiscalização (pelas forças de segurança e das atividades económicas) será reforçada, tanto para estabelecimentos como para pessoas individuais; será “vivamente recomendado” o uso obrigatório de máscaras na rua quando se justificar, assim como a instalação da aplicação Stayaway Covid em contexto laboral, escolar e académico, nas forças armadas e de segurança e na administração pública.

 

= Se há medidas que são consensuais, também as há menos corretas e quase ditatoriais. Se o uso de máscara parece normal e bem aceite, a tentativa de impor o descarregamento da ‘app stayaway covid’ tem vindo a ganhar foros de controvérsia e coloca-nos sob uma espécie de regime não-respeitador da intimidade das pessoas, tenham sido doentes ou potenciais…atingidos.

Já há mais de um mês me pronunciei contra esta coisa de ‘app’, considerando-a uma intromissão na vida privada das pessoas e fazendo dos ‘doentes registados’ uma espécie de leprosos da tecnologia.

Escrevi a 3 de setembro e está disponível no blogue: aquieagoraeu.blogspot.pt: «Esta ‘aplicação’ não poderá ir nessa onda de subverter os direitos pessoais com interesses coletivos – numa neo-coletivação assaz subtil – expondo as pessoas sem pejo, desde se possa cumprir o objetivo de mostrar que controlamos tudo e todos, à custa da invasão da privacidade e dos direitos mais fundamentais, como a reserva e a confidencialidade da própria doença?

E, se de repente, num aglomerado de pessoas (até pode ser numa missa) – resultado da confluência de várias ‘app’s – se der um afastamento de quem recebeu a informação sobre um infetado, isso será benéfico para a segurança pública?».

Dir-me-ão que é de gosto duvidoso autocitar-se. Sim, mas no princípio de setembro senti a mesma repulsa que agora me invade e se radicaliza: não podemos a todo o custo querer impor – mesmo sem saber se pode ser cumprido – algo que desrespeita as pessoas no mais básico da sua convivência social. De facto, o pior que nos pode acontecer é termos autoridades que não se fazem dignificar pela simples razão de que aquilo que pretendem impor é inexequível ou até mesmo ilegal…Não basta ter poder, é preciso saber exercê-lo!

 

= Estamos mais uma vez no fio da confusão e temos de assumir que o vírus é altamente contagioso e perigoso. Todos os cuidados são mínimos. Urge, por isso, consciencializarmo-nos de que devemos cuidar de nós mesmos e dos outros, não aconteça do não-uso, por exemplo da máscara, pode vir a tornar-se a antecâmara da mortalha. O mais pequeno descuido poderá ser irreversível para nós e para os outros. Efetivamente um pouco de humildade poderá valer vidas, isto é, se entrarmos numa convivência que saiba os limites até onde se pode ir, poderemos ajudar a não propagar a infeção, que, tanto quanto já se percebeu, passa pela autodefesa e pelo resguardo no trato social…máximo.     

  

António Sílvio Couto

terça-feira, 13 de outubro de 2020

Igreja-paróquia: puzzle de quintaizinhos?


Sociológica, cultural e até eclesialmente a ‘paróquia’ foi uma realidade que mudou de forma abrupta no último meio século – desde 1970 até agora. Se houve razões exógenas, outras mais endógenas contribuíram para tal mudança.

As caraterísticas das pessoas e das populações, as modificações e movimentações mais recorrentes, a mobilidade e menor estabilidade familiar, social e profissional são alguns dos contributos para que as paróquias territoriais tenham começado a vacilar, tanto na sua composição como na possível continuidade. Por outro lado, vemos que foi crescendo algum do individualismo mais ou menos aceite, tolerado e – sobretudo nesta maré de pandemia – quase cultivado.

Vejamos três visões dos últimos Papas sobre a matéria, como nos é apresentada num documento deste ano da Congregação para o Clero, Instrução ‘A conversão pastoral da comunidade paroquial’ (n.º 12):

* João Paulo II (1978-2005): «a paróquia é aperfeiçoada e integrada em muitas outras formas, mas essa continua sendo um organismo indispensável de primária importância nas estruturas visíveis da Igreja», para «fazer da evangelização a base de toda a ação pastoral, com exigência prioritária, preeminente e privilegiada»;

* Bento XVI (2005-2013): «a paróquia é um farol que irradia a luz da fé e assim vem ao encontro aos desejos mais profundos e verdadeiros do coração do homem, dando significado e esperança à vida das pessoas e das famílias»;

* Francisco (desde 2013): «através de todas as suas atividades, a paróquia incentiva e forma os seus membros para serem agentes da evangelização».

Embora sejam perspetivas complementares cada um deixa-nos, no quadro destes cinquenta anos, algo em que nos devemos cuidar de entender. De facto, desde o pronunciamento de João Paulo II em 1984 até à ‘Evangelii gaudium’ do Papa Francisco, em 2013, decorreram na Europa e fora dela acontecimentos que fizeram mudar o mundo e, consequentemente, a Igreja católica: a queda do ‘muro de Berlim’ (1989), os atentados de 11 de setembro (2001), as modificações políticas sobretudo na Europa de Leste, alguns radicalismos provenientes do mundo islâmico, as alterações climáticas e as consequências geográfico-sociais, um razoável crescimento económico, nem sempre articulado entre todos os povos, nações e culturas, o surgimento, difusão e evolução da internet e do digital…eis alguns dos vetores que foram civilizando mais as pessoas, embora nem sempre socializando-as da forma mais correta e no relacionamento entre todos…

- A paróquia ‘tradicional’ católica foi sendo assaltada por tudo isto e mais o envelhecimento dos seus praticantes à medida ou à mistura com o fenómeno dos mais novos – primeiro os jovens, depois os adolescentes e agora até as crianças – que foram trocando por outras ou nenhumas práticas religiosas.

- Já há quem considere que a paróquia se foi tornando uma espécie de ‘loja de conveniência’, onde se vai quando é preciso, aproveitando as promoções de ocasião ou fazendo uso dos seus serviços tanto quanto convenha ou não haja outros que realizem idênticos objetivos…

- Até os sacramentos se foram tornando cada vez mais atos sociais e não celebração dos mistérios da fé – e já não é só o casamento na igreja (seria o matrimónio), mas também os batizados (substitutos de festas não realizáveis por razões de índole eclesial, como outro casamento depois de um religioso), as primeiras comunhões e – pasme-se! – até as missas pelos defuntos em datas comemorativas…

- Ainda recentemente pude ver e avaliar um trabalho feito por ocasião do ‘dia da paróquia’ em que foi solicitada uma reflexão/partilha sobre o documento supra citado sobre a paróquia… ‘ao serviço da missão evangelizadora da Igreja’. Dezena e meia de grupos – mais por organização do que por outras razões – foi chamada a pronunciar sobre vários aspetos do que é (ou deve ser) a paróquia hoje. Ora, as respostas andaram quase todas dentro daquilo que cada um era capaz de ver, de fazer ou de entender no seu grupo e não em abertura à dimensão da Igreja-paróquia. Deu para captar mais uma vez que andamos a cuidar do nosso ‘quintal’, indiferentes ao que os outros pensar, fazem ou vivem… Isto já para não referir tantos/as que desertam e nem participam minimamente… A pandemia parece que veio agravar ainda mais a situação!

 

António Sílvio Couto

segunda-feira, 12 de outubro de 2020

Humor...em decadência?


Quando se diz de alguém – aquele/a tem sentido de humor – estamos a falar a sério ou a brincar? Referimo-nos a alguém mais ou menos sério, sem laivos de ser só sisudo ou mais arejado de ideias? Porque será que nos rimos (ou sorrimos) das tiradas – vulgarmente ditas ‘piadas’ – de uns e não temos idêntica reação para com outros, que, por seu turno, podem provocar reações contrárias em outrém? Será o humor um dom ou uma arte? Como poderemos distinguir um comediante de alguém que cria boa disposição à sua volta? Será isso humor ou simplesmente uma maneira de ser?

Confesso a minha incapacidade de entender certos (ditos/apelidados) humoristas. Por vezes desconfio quase da minha inteligência, dado que outros se divertem tanto com as piadas, anedotas ou dichotes de muitos dos nossos humoristas de serviço. Até aqueles programas de ‘stand-up comedy’ (anedotas/humor em pé) escapam à minha compreensão, mas, ao ver salas cheias em aplauso, julgo que sou eu que não entendo a linguagem e tão pouco o seu alcance. Certas programações televisivas usam e abusam de figuras e figurinhas, que aparecem para entreter um tal púbico mais interessado em interpretar o que é dito em jeito conotativo (figurado) do que em ouvir de forma denotativa (literal) aquilo que é proferido. Quantos/as dos cançonetistas vivem em palco este jogo de palavras, podendo considerarem-se também ele/elas humorista da canção...

 

= Nestes dois parágrafos do texto já tentamos abordar duas questões: o tema – humor; e os seus intérpretes; mas ainda nos falta referir quais os assuntos do humor, se é que há ou não campos/setores da vida onde o humor não pode ter lugar ou ainda, se quem escreve ou quem diz os textos, tem a mesma responsabilidade, tanto cívica como até moral.

Quem não se lembra do alarido provocado pelos atentados ao jornal satírico francês – Charlie Hebdo: a 7 de janeiro de 2015, em Paris, foram mortos de rajada doze pessoas e feridas mais cinco gravemente. A razão dos ‘factos’ prende-se com a publicação, três anos antes, por aquele semanário (dito) satírico de desenhos ofensivos – na visão dos perpetrantes das ações terroristas – da figura de Maomé, em jeito de cartoon. Para aqueles cidadãos não havia espaço mínimo de humor, sobretudo se atingia ‘o profeta’. Diante deste episódio, que já foi por várias vezes replicado, surge-nos uma questão simples e significativa: os temas religiosos podem ou não ser objeto de humor? Ou será que, quando os humoristas se socorrem dos temas religiosos, a sua imaginaçõa já bateu no fundo e têm nesse campo algo que pode ainda entreter tantos dos seus ‘laicos’ ouvintes e/ou espetadores?

De facto, considero que há áreas do pretenso humor onde cair lá denuncia, de verdade, uma razoável decadência imaginativa, que é muito mais do que meramente imaginária. Como referi o campo das questões religiosas, tanto das ideias como das práticas, é propício para certos clichés que envolvem dichotes/piadas com linguagem conotativa de âmbito religioso – cristão ou não – e que quase nunca deixam de cair na asneira tácita ou explícita.

Outro setor de recurso do anedotismo, das piadas e do humor rasca é aquilo que envolve aspetos de cariz sexual. Da brejeirie à insinuação, das palavras maliciosas às intenções insidiosas, dos trejeitos às provocações, se vai fazendo algum do humor onde a temática do sexo entra ou pode deambular. Mais uma vez o pretenso humor pode roçar as raias até da má-criação. Quem tal usa pode desce suficientemente baixo e fazer rir quem ouça, mas com brevidade será atirado para a latrina social, cívica e cultural.

 

= Porque nos guiamos por valores de índole cristã, será conveniente que encontremos uma orientação sobre o tema do humor. Não será preciso entrarmos em qualquer pietismo nem na abjuração da boa-disposição, temos de perceber de onde provem o humor e quais as consequências que dá na vida.

Deixo em jeito de registo a nota 101, da exortação apostólica ‘Gaudete et exulstate’ do Papa Francisco, de 19 de março de 2018, numa oração atribuída a São Tomás Moro: «Dai-me, Senhor, uma boa digestão e também qualquer coisa para digerir. Dai-me a saúde do corpo, com o bom humor necessário para a conservar. Dai-me, Senhor, uma alma santa que saiba aproveitar o que é bom e puro, e não se assuste à vista do pecado, mas encontre a forma de colocar as coisas de novo em ordem. Dai-me uma alma que não conheça o tédio, as murmurações, os suspiros e os lamentos, e não permitais que sofra excessivamente por essa realidade tão dominadora que se chama “eu”. Dai-me, Senhor, o sentido do humor. Dai-me a graça de entender os gracejos, para que conheça na vida um pouco de alegria e possa comunicá-la aos outros. Assim seja».

‘Ridendo castigat mores’, isto é, a rir se corrigem os costumes!

 

António Sílvio Couto

 

sábado, 10 de outubro de 2020

Nova cultura


Na encíclica ‘Fratelli tutti’, o Papa Francisco refere-se a algo que designa de ‘nova cultura’. Já o temos abordado, tendo em conta a figura do poliedro…por contraste com a esfera.

Citamos o que o Papa nos diz e tentaremos continuar a refletir sobre esta temática, na medida em que possamos encontrar pistas de leitura, espaços de diálogo e mesmo propostas de saída neste tempo mais centrado cada um em si mesmo do que em abertura aos outros.

«A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro na vida. Já várias vezes convidei a fazer crescer uma cultura do encontro que supere as dialéticas que colocam um contra o outro. É um estilo de vida que tende a formar aquele poliedro que tem muitas faces, muitos lados, mas todos compõem uma unidade rica de matizes, porque «o todo é superior à parte». O poliedro representa uma sociedade onde as diferenças convivem integrando-se, enriquecendo-se e iluminando-se reciprocamente, embora isso envolva discussões e desconfianças. Na realidade, de todos se pode aprender alguma coisa, ninguém é inútil, ninguém é supérfluo. Isto implica incluir as periferias. Quem vive nelas tem outro ponto de vista, vê aspetos da realidade que não se descobrem a partir dos centros de poder onde se tomam as decisões mais determinantes» (n. º 215).

No mesmo documento pontifício aparece a referência ao mesmo tema do poliedro já nos números 144 e 145. «O universal não deve ser o domínio homogéneo, uniforme e padronizado duma única forma cultural imperante, que perderá as cores do poliedro e ficará enfadonha»… «Trabalha-se no pequeno, no que está próximo, mas com uma perspetiva mais ampla. (...) Não é a esfera global que aniquila, nem a parte isolada que esteriliza». É o poliedro, onde ao mesmo tempo que cada um é respeitado no seu valor, «o todo é mais que a parte, sendo também mais do que a simples soma delas».

 

Vejamos, então, algumas das linhas-força que o Papa realça, tendo mesmo em conta outras das suas intervenções sobre isto que aqui designa por ‘nova cultura’:

* ‘Fazer crescer uma cultura do encontro que supere as dialéticas que colocam um contra o outro’ – eis uma forma simples de denunciar muitas das capciosas influências marxistas com que nos andamos a entreter, isto é, nas lutas, por vezes, hostis e inúteis, tanto de palavras como de intenções mal resolvidas.

 

* ‘O poliedro representa uma sociedade onde as diferenças convivem integrando-se, enriquecendo-se e iluminando-se reciprocamente, embora isso envolva discussões e desconfianças’ – pela figura cultural do poliedro podemos e devemos aprender a conviver com as diferenças das pessoas, porventura não aceitando acriticamente as suas ideias, mas nunca por nunca abjurando as pessoas, pois essas merecem-nos respeito cada um como é, mesmo nos possíveis erros, falhanços e limitações.

 

* Efetiva e afetivamente ‘de todos se pode aprender alguma coisa, ninguém é inútil, ninguém é supérfluo ‘ – esta configuração de vida faz-nos humildes e verdadeiros para connosco mesmos e uns para com os outros, pois será nesta perspetiva de intercomunhão que haveremos de deixar-nos tocar pelos dons, qualidades e carismas alheios, mais do que pela prosápia da nossa (minha) factual leitura da vida.

Ultrapassado este subjetivismo – por diversas vezes o Papa chama-lhe idolatria do eu, que leva ao isolamento e ao descarte dos outros – poderemos restaurar aquilo que Francisco realça como sendo a ‘amabilidade’:

- ‘O individualismo consumista provoca muitos abusos. Os outros tornam-se meros obstáculos para a agradável tranquilidade própria e, assim, acaba-se por tratá-los como incómodos; e a agressividade aumenta’ (n.º 222);

- ‘De vez em quando verifica-se o milagre duma pessoa amável, que deixa de lado as suas preocupações e urgências para prestar atenção, oferecer um sorriso, dizer uma palavra de estímulo, possibilitar um espaço de escuta no meio de tanta indiferença’ (n.º 224).

Façamos, por isso, surgir, cultivemos e ousemos viver numa nova cultura da amabilidade e vendo os outros em poliedro…de respeito, de desculpa e de partilha.

 

António Sílvio Couto

sexta-feira, 9 de outubro de 2020

Recuperar a amabilidade...humana e cristã


Na sua última carta encíclica – ‘Fratelii tutti’ (n. os 222 a 224) – o Papa Francisco traz para à liça um termo que poder-nos-á ser muito útil refletir: a amabilidade, atendendo às circunstâncias de alguma crispação em que o coronavírus nos tem vindo a confinar, em agressividade, senão explícita ao menos latente.  

«O individualismo consumista provoca muitos abusos. Os outros tornam-se meros obstáculos para a agradável tranquilidade própria e, assim, acaba-se por tratá-los como incómodos; e a agressividade aumenta. Isto acentua-se e atinge níveis exasperantes em períodos de crise, situações catastróficas, momentos difíceis, quando aflora o espírito do «salve-se quem puder». Contudo, ainda é possível optar pelo cultivo da amabilidade; há pessoas que o conseguem, tornando-se estrelas no meio da escuridão» (n.º 222).

Inserida no sexto capítulo daquele documento pontifício – diálogo e amizade social – esta abordagem do Papa sobre a amabilidade situa-nos num contexto cultural muito específico...avesso a tal vivência.

 

= O que é  a amabilidade?

Responde a encíclica: «São Paulo designa um fruto do Espírito Santo com a palavra grega ‘chrestotes’ (Gal 5, 22), que expressa um estado de ânimo não áspero, rude, duro, mas benigno, suave, que sustenta e conforta. A pessoa que possui esta qualidade ajuda os outros, para que a sua existência seja mais suportável, sobretudo quando sobrecarregados com o peso dos seus problemas, urgências e angústias. É um modo de tratar os outros, que se manifesta de diferentes formas: amabilidade no trato, cuidado para não magoar com as palavras ou os gestos, tentativa de aliviar o peso dos outros. Supõe «dizer palavras de incentivo, que reconfortam, consolam, fortalecem, estimulam», em vez de «palavras que humilham, angustiam, irritam, desprezam» (n.º 223).

De facto, não vivemos numa sociedade onde se cultiva  a amabilidade, pelo contrário, antes vivemos em azedume, más falas/palavras, em aspereza e conflitualidade. Precisamos de ser educados para a amabilidade, desde a família até ao trato social e mesmo eclesial...

 

= Como implementar, hoje, a amabilidade?

Esclarece a encíclica: «A amabilidade é uma libertação da crueldade que às vezes penetra nas relações humanas, da ansiedade que não nos deixa pensar nos outros, da urgência distraída que ignora que os outros também têm direito de ser felizes. Hoje raramente se encontram tempo e energias disponíveis para se demorar a tratar bem os outros, para dizer «com licença», «desculpe», «obrigado». Contudo de vez em quando verifica-se o milagre duma pessoa amável, que deixa de lado as suas preocupações e urgências para prestar atenção, oferecer um sorriso, dizer uma palavra de estímulo, possibilitar um espaço de escuta no meio de tanta indiferença. Este esforço, vivido dia a dia, é capaz de criar aquela convivência sadia que vence as incompreensões e evita os conflitos. O exercício da amabilidade não é um detalhe insignificante nem uma atitude superficial ou burguesa. Dado que pressupõe estima e respeito, quando se torna cultura numa sociedade, transforma profundamente o estilo de vida, as relações sociais, o modo de debater e confrontar as ideias. Facilita a busca de consensos e abre caminhos onde a exasperação destrói todas as pontes» (n. º 224).

Mais uma vez o Papa Francisco traz à colação das coisas do dia-a-dia a presença de três expressões que lhe são tão queridas: com licença, desculpe e obrigado... que manifestam a amabilidade de uns para com os outros.

Amabilidade precisa-se, já!

 

António Sílvio Couto

 

quinta-feira, 8 de outubro de 2020

Poliedricidade (II) – outra visão cultural…pluralista?


O Papa Francisco referiu-se a esta terminologia da ‘poliedricidade’ em dois momentos do seu magistério em finais do ano de 213: uma na exortação apostólica pós-sinodal ‘Evangelii gaudium’ (EG), com data de publicação de 24 de novembro e outra numa intervenção vídeo enviada ao 3.º festival da doutrina social da Igreja, que decorreu em Verona (Itália), de 21 a 24 de novembro desse mesmo ano… De referir que nestas datas ocorreu a solenidade de Cristo Rei, logo um momento eclesial de grande significado.

Eis as citações:

* «O modelo não é a esfera, que não é superior às partes, onde cada ponto é equidistante do centro e não há diferenças entre um ponto e o outro. O modelo é o poliedro, que reflete a confluência de todas as partes que nele mantêm a sua originalidade. Tanto a ação pastoral como a ação política procuram reunir nesse poliedro o melhor de cada um. Ali entram os pobres com a sua cultura, os seus projetos e as suas próprias potencialidades. Até mesmo as pessoas que possam ser criticadas pelos seus erros têm algo a oferecer que não se deve perder. É a união dos povos, que, na ordem universal, conservam a sua própria peculiaridade; é a totalidade das pessoas numa sociedade que procura um bem comum que verdadeiramente incorpore a todos» (EG, n.º 236).

* «’Menos desigualdades, mais diferenças’ é um título que evidencia a riqueza plural das pessoas como expressão dos talentos pessoais e distancia-se da homologação que mortifica e, paradoxalmente, aumenta as desigualdades. Gostaria de traduzir o título numa imagem: a esfera e o poliedro. A esfera pode representar a homologação, como uma espécie de globalização: é lisa, sem lapidações, igual em todas as partes. O poliedro tem uma forma semelhante à esfera, mas é composta por muitas faces. Gosto de imaginar a humanidade como um poliedro, no qual as multíplices formas, exprimindo-se, constituem os elementos que compõem, na pluralidade, a única família humana. Esta é a verdadeira globalização. A outra globalização – a da esfera – é uma homologação».

 

= Tentemos encontrar as linhas-força desta matéria da ‘poliedricidade’ como conceito socio-teológico na leitura da nossa realidade humana, cultural e até religiosa, bem como das implicações práticas na vida em sociedade e na própria Igreja.

Por contraponto com a esfera, o Papa acentua as potencialidades do poliedro, que ‘reflete a confluência de todas as partes que nele mantêm a sua originalidade’, pois ‘a esfera pode representar a homologação, como uma espécie de globalização: é lisa, sem lapidações, igual em todas as partes’, enquanto ‘o poliedro tem uma forma semelhante à esfera, mas é composta por muitas faces’.

Feita a distinção entre os conceitos de ‘esfera’ e de ‘poliedro’ temos de nos confrontar com aquilo que somos e quanto precisamos de saber ser. Por vezes dá nítida impressão de que nos custa a aceitação da diversidade dos outros, preferindo vê-los numa certa uniformidade planisférica, analisando-os desde a nossa limitada perspetiva e tantas vezes numa visão deturpada…  

Outro aspeto relevante nesta terminologia da poliedricidade é da envolvência plural da cultura, aquilo que nas palavras do Papa é referido: ‘ali entram os pobres com a sua cultura, os seus projetos e as suas próprias potencialidades’. De faco, algo vai demasiado redutor na linguagem hodierna, na medida em que se entende ‘cultura’ desde um parâmetro excessivamente intelectualizado ou na dimensão do ‘instruído’. Veja-se os que se reclamam de mentores, promotores, difusores ou patrocinadores da ‘cultura’: uns tantos que se arrogam de fazerem uns teatrinhos/comédias/farsas/tragédias, umas musiquinhas de sabor ressabiado e conteúdo arrevesado, uma tiradas jocosas em formato dejá vu…numa qualidade à maneira das campanhas de alfabetização de há quatro décadas atrás… Então, o povo não tem cultura nem sabe do que gosta? O povo que lhes paga tem de engolir as patranhas com que é intoxicado? O povo tem de suportar que ofendam as suas raízes para que outros pululem de fama e de sucesso? O povo terá de continuar a ser uma espécie de cobaia das invetivas malcriadas dos seus ‘artistas’ e ‘atores’ de classe algo duvidosa.

Temos de aprender esta poliedricidade em gestos, palavras e comportamentos de vida de uns com os outros!   

 

António Sílvio Couto

sábado, 3 de outubro de 2020

‘Trabalhadores e o povo’ – redundância ou exclusão?


É slogan de uma formação político-partidária: ‘os trabalhadores e o povo’! Numa tentativa dialética de criar, difundir e aproveitar conceitos de outros, apropriando-os ao seu contexto mais ou menos em regime de luta de classes, promovendo os fatores que possam vir a atingir a ‘ditadura do proletariado’…

 

* Será que eles e só eles se podem arrogar como senhores dos trabalhadores e donos do povo? Já terão reparado que certos conceitos já não estão na data da sua origem? Como poderemos ainda confiar em quem tenta, pela dialética marxista, configurar o pensamento já menos ideológico e não tão manipulável?

 

* Visto o assunto por outro prisma, não será que as duas palavras – trabalhadores e povo – envolvem a mesma realidade prática e idêntico contexto social? Onde está tanto a distinção, no ‘povo’ por contraste com outras classes – se é que elas existem? – ou nos ‘trabalhadores’, que já não são só os operários e o pseudo-proletariado?  Não haverá um razoável anacronismo linguístico, quando se pretende colocar o ‘povo’ como fator revolucionário, sem perceber que os ‘trabalhadores’ são mais do que aqueles que produzem mais-valias e são (os eternos) explorados pelo capital? Não será que a pretensa consonância entre ‘trabalhadores’ e ‘povo’ é (e deve ser) muito mais do que fórmula de uma tese para iludir quem não se apercebeu ainda que está a ser manipulado por algo sobre o qual não refletiu?

 

* Fique claro que não embarco na teoria de definir seja o que for pela discrição ‘daquilo que não é’. Um simples exemplo: para saber e formular que sou homem não será correto que seja definido por não ser mulher! Sobre ‘ser trabalhador’ não se pode dizer que é quem ganha salário, pois há tanto trabalho sem preço e com muito custo, que salário algum pagaria! Quanto ao conceito de ‘povo’, todos somos povo na essência, embora haja quem queira continuar a viver num feudalismo (clero, nobreza, burguesia e povo) de classes… suficientemente antiquado!

Não concordo com essa visão preconceituosa de que, quem possui bens – muito para além dos meramente materiais – é (ou pode ser) explorador ou, quando tiver responsabilidade de gerência, possa pertencer a algumas das ‘classes’ malditas para muitos outros que, na linguagem marxista, ‘vendem a força do seu trabalho’, auferindo um salário. Sou defensor da propriedade e da iniciativa privada, vendo-a como muito mais produtora de riqueza do que a estatização da economia ou pela ‘democratização’ dos bens de produção colocados sob a alçada de uma nomenclatura antiga ou recauchutada, mas com proveitos de classe sem uma razoável explicação… Para mim a História não se constrói só nem essencialmente pela luta, mas pela concordância feita a partir de dentro e não imposta, como ditadura, desde fora. Por muito que desejem legitimar certas tropelias, no atual estado da economia, inseridos neste clima de pandemia, condicionados pelo medo do futuro, não será pela acintosa desgovernação estatizante que iremos conseguir desenvolver o nosso país… A economia não tem cor, mas a qualidade ganha sobre a mediocridade…reinante.

 

* O trabalhador é uma pessoa, com direitos e deveres, com família e numa sociedade, inserido num contexto humano e cultural, vivendo num corpo, sustentado por uma alma e guiado pelo espírito. Numa visão cristã/católica vamos ver certos aspetos inerentes à nossa condição de trabalhadores num povo, que é mais do que um mero coletivo. Desde logo toda a pessoa é trabalhadora, na medida em que colaboramos no processo cocriador de Deus em tudo quanto fazemos. Por isso, não há trabalho mais digno ou menos correto e não podemos considerar que possa haver quem não tenha o mínimo e suficiente para a sobrevivência da sua vida pessoal e familiar. Deste modo considero injusto e provocador o tal princípio neomarxista de ‘salário igual a trabalho igual’, pois alguém poderá precisar de um salário diferente perante as obrigações familiares que tem de suportar. A pretensa justiça social poderá parecer um canto de exploração para quem tenha de ser parte nas tarefas de âmbito familiar. Afinal, o ‘povo’ não é um abstrato de índole utópica, mas tem um rosto, uma história e um processo de afirmação, enquanto o ‘coletivo’ não passa de uma peça da dialética ditatorial, ontem como hoje. Acordem, trabalhadores de todo o mundo: quem vos diz defender-vos, explora-vos!    

 

António Sílvio Couto