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quinta-feira, 12 de setembro de 2019

E se os pobres desaparecessem!


Afirmar que ‘muita gente vive à custa dos pobres’ é tanto mais escandaloso quanto óbvio: retirem os pobres dos discursos dos políticos – dentro ou fora de campanha eleitoral, nas decisões ou nas promessas – e pouco ficará na agenda e nas notícias; cortem o que muitos sindicalistas almejam para com os pobres e sucumbirão as reivindicações e as lutas; promovam, de verdade, tantos dos pobres que estendem à mão às entidades sociais – entre as quais as da Igreja católica – e perderão sentido certas ações de benemerência básica ou mais subtil.

Verdadeiramente os pobres devem ser ajudados, podem ser cuidados e precisam de ser abolidos…desde que haja vontade social, política e até religiosa.

Conta-se que um grupo de senhoras muito ‘caridosas’ se reuniu para dirimirem entre si um problema: andavam a interferir – na sua linguagem a ‘roubar’ – umas com as outras com os ‘seus’ pobres…tinham de voltar a respeitar o espaço de cada uma.

Por muito que nos custe temos de enfrentar este problema humano, que tantas pessoas escraviza: a pobreza… tenha ela a configuração com que a quisermos revestir.

Digamos:

– uns são pobres no sentido mais material, sem meios de sobrevivência mínimos e suficientes, somando milhões em todo o mundo e centenas de milhar em Portugal, sobrevivendo com salários baixos, má condições de emprego e de habitação, resultando isso em pessoas muitas vezes revoltadas, exploradas e à mingua de pão, de compreensão e até de dignidade;

– outros podem ser pobres na dimensão mais psicológica, onde os aspetos de ignorância, de insuficiente educação e de negligência caminham à mistura com a submissão a tentáculos de forças que usam os pobres para tentarem concretizar os seus objetivos menos dignos, recorrentes e até subterrâneos...embora possa não haver um inventário credível, vemo-los a salpicar muitas das nossa ruas, deambulando sem nexo nem perspetivas de futuro;

– quantos outros pobres podemos vislumbrar na dimensão espiritual, que é muito mais do que meramente religiosa. De facto, quanta gente vive à solta ou à deriva, sem nexo nem controlo, titubeando por entre meros interesses de contexto individualista e à mercê de valores nem sempre condignos da conduta humana. Talvez a expressão – ‘viver como se Deus não existisse’ – possa resumir esta pobreza de índole espiritual, desde a mais básica até à mais complexa. Para que servem tantas lutas e sacrifícios, tantos projetos e dedicações… se tudo acabar na condição de sermos entes meramente materiais? Como se pode dedicar uma vida – breve, média ou longa – só para que haja um contentamento em prazeres passageiros, imediatistas e quase fúteis?

Efetivamente tudo é (ou será) mais agravado se estas ‘pobrezas’ confluírem na mesma vivência e em igual conduta. Talvez andemos excessivamente a cuidar em debelar a pobreza material, mas não demos as devidas condições para combater a pobreza psicológica e emocional nem a de incidência espiritual… Seria como que estivéssemos a construir um edifício onde as traves principais estariam deficientes e as pinturas mais ou menos bonitas, mas prestes a abrir fendas pela sua incipiente construção…

Num tempo onde a expressão ‘qualidade de vida’ pretende rotular a vivência de um certo bem-estar material, erradicar os pobres poderá ser para muitos dar de comer e uns trocos de conforto, mesmo que isso não seja acompanhado do necessário equilíbrio emocional e psicológico. Em muitos casos dá-se o peixe pescado, mas não se ensina a pescar e tão pouco são dadas instruções para que não se viva dependente daquilo que é dado em vez de fazer participar na solução e não em prolongar o problema. Estes pobres presos pela boca continuarão a bajular quem lhes alimenta a fome, controla a liberdade e condiciona o existir.

Aquele estribilho – ‘são razões de viver o que nos falta’ – faz mais vítimas do que a fome de alimento corporal, pois não ter razões de viver é bem mas grave do que passar fome, pois esta pode ser debelada enquanto esse outro valor humano não se preenche com papas e bolos…

Será de perguntar com simplicidade: quais são as fomes que eu alimento? Ou ainda: de que forma ajudo os pobres a libertarem-se das suas peias? Quais os enredos de fome me preocupam mais?  

 

António Sílvio Couto

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