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terça-feira, 10 de julho de 2018

Exploração dos dramas – notícia ou espetáculo?


Quando acontece algo de mais dramático na ‘nossa’ vida coletiva, vemos que a comunicação social – poucos ficam de fora para não perderem audiências – se aproveita do assunto quase até à exaustão, umas vezes de forma séria e sensata, mas, na maior parte dos casos, espremendo o assunto de forma nem sempre humana ou mesmo respeitadora para com quem está a viver – emocional e afetivamente – o assunto.

Os ‘dramas’ tanto podem ser os acidentes rodoviários, aéreos ou de qualquer outro meio, como os episódios de desentendimento entre pessoas, agremiações, coletividades ou entidades mais ou menos públicas, como ainda suposições, boatos, erros ou até acusações sobre figuras, personagens ou personalidades… Quase tudo serve (ou vai servindo) para criar notícia ou fazer dela algo de espetacular que possa prender os leitores, ouvintes, telespetadores ou navegadores da internet…

Apesar da envolvência de algumas vidas, o ‘drama’ das crianças na Tailândia ganhou foros de internacionalização, quase rivalizando com o mundial de futebol na Rússia, sobretudo depois que a seleção nacional regressou a casa. As horas e dias gastos a escarafunchar os interesses dum clube de futebol – esquecendo acintosamente as outras modalidades – tornou-se algo de doentio e a roçar o escabroso, sobretudo para quem possa ter um pingo de vergonha, de bom senso e de honestidade mental e racional.

Agora os ‘dramas’ têm de ser noticiados, preferencialmente, em direto, com direito a imagens sensacionais, sem resguardo da intimidade das pessoas e nem as cortinas colocadas pelas autoridades salvaguardam quem possa estar envolvido – direta ou indiretamente – no assunto. Os folhetins de telenovela passaram a estar sem guião e os ‘atores’ são os que intervém na notícia em que o quanto mais grave for mais atenção chama e merece tempo de antena…

Recordo com alguma ironia a forma como, um dia, um patriarca de Lisboa respondeu a uma jornalista, que lhe fez uma pergunta, que ele considerou inadequada: ó menina, isso é pergunta que se faça! Ou ainda a estupefação com que vi e ouvi um desse novatos na matéria, mas que queria uma reação a quente sobre um assunto, ao perguntar: como é que se sente?... O inquirido calou-se e fez bem, pois a resposta a dar, depois dum acidente grave, não se verbaliza com facilidade e tão pouco com questões inoportunas…

Não deixa, entretanto, de ser preocupante o que um dirigente dum partido político respondeu, por estes dias, a quem o questionava em reação a um título duma entrevista sobre o tema da justiça. Disse o tal responsável partidário: qualquer dia ninguém aceita dar entrevistas, pois distorcem o que se diz e tiram-no fora do contexto em que é dito…

A avidez para querer estar na frente dos concorrentes não pode atropelar quem torna público o que pode interessar à informação dos leitores, ouvintes ou telespetadores. A seriedade da notícia não pode ser vendida à pressa para cativar quem lê, vê ou ouve… Dá a impressão que alguns dos intervenientes se deslumbram com o aparecimento que lhes é permitido, podendo nem sempre estarem preparados para lidar com a visibilidade e, portanto, com as consequências daquilo que dizem, fazem ou como se apresentam. Alguns/algumas como que se deixam explorar até que renda a exposição. Casos há em que se percebe que são esquartejados pelo bisturi do sensacional sem disso se darem conta, permitindo que seja exposta a sua vida privada e confundida a figura com as figurações…

Algo bem distinto é esse outro campo em que algumas instituições se resguardam num certo silêncio e em não ser dito nada ou muito pouco, que, depois, quando algo lhes bate à porta ficam sem capacidade de reação e sem jeito para a comunicação… Apesar de tudo (isto é, de alguma evolução) a Igreja católica – e as suas formas de presença na condição de mundo – ainda não se apercebeu que precisa de aprender esta comunicação, respeitando e fazendo respeitar, o seu tempo e a oportunidade de quem faz a comunicação.

Há uma coisa que em todo este tema é fundamental: viver na verdade, sem tentar esconder ou esconder-se sob a capa de alguma ocultação, seja porque útil ou até como estratégica. Diz o povo com sabedoria: quem não deve não teme…e mesmo que tema não se pode refugiar na meia-verdade ou na subtileza da mentira.

Os ‘dramas’ não podem ser reduzidos a meras notícias e muito menos podem ser fabricados como espetáculo, antes temos todos de respeitar as pessoas envolvidas para nós próprios sermos respeitados naquilo que há de mais sagrado na pessoa humana: o seu mistério, sem fazer disso mistérios!

 

António Sílvio Couto

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