Partilha de perspectivas... tanto quanto atualizadas.



sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Até onde poderá ir a gritaria?


Nos últimos tempos, Portugal tornou-se uma espécie de reino da gritaria, onde quem mais alto fala – na maioria dos casos é só gritos e barulho ruidoso... mas, na maior parte dos casos, inconsequente! – pensa que ganha razão. Houve até quem dissesse que a participação em manifestações, gritando de forma ostensiva, era uma espécie de terapia socio-psicológica...

Numa tentativa de darmos alguma ajuda de reflexão sobre este clima crispado em que estamos a viver, servir-nos-emos de alguns adágios populares ou frases-chavão... para incluirmos breves referências a situações delicadas do nosso viver coletivo:

 - “Casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão”.

A austeridade trouxe à luz da consciência muitos problemas, que o recurso ao consumismo foi iludindo, pois enquanto se podia entreter o povo com coisas não se colocaram os verdadeiros problemas das pessoas... muitas delas vazias dos valores mais elementares. ‘Pão e jogos’ foram entretenimento para muitos, deixando a manifesto que não será com coisas meramente materialistas que conseguiremos enganar os mais incautos... por muito tempo. Construiram estádios de futebol, por ocasião do ‘euro 2004’, que agora estão às moscas, farejando o mau cheiro das dívidas... Enquanto houve dinheiro ensinaram-nos – manipulando-nos de forma contundente e sórdida – ter hábitos de gastar e incutindo-nos vícios de pequenos ricos sem cultura nem critérios...

Um fato: num trabalho que temos estado a desenvolver, na paróquia, temos visto imensas situações em que as pessoas trazem para partilhar dezenas e dezenas – não é exagero! – de peças de calçado e  de roupa de crianças que nunca foram usadas... tudo de marca e do melhor. Talvez se tenha verificado, agora, um qualquer arrebato de consciência para que outros possam receber doado o que, antes, foi comprado de forma descontrolada, compulsiva ou mesmo por concorrência para com outros, sejam eles vizinhos, familiares ou até companheiros de trabalho! Havia uma imagem a defender... e as consequências estão à vista!

Questões: Por que será que não nos educaram para saber comprar só o suficiente e necessário? Quando estamos a dar, hoje, a quem nos procura e que precisa de ajuda, temos aproveitado para que as pessoas saibam viver em espírito de pobreza, segundo o Evangelho? Ao atendermos os mais desfavorecidos – hoje eles, amanhã poderemos ser nós – procuramos descobrir as razões, que levaram àquela gravidade do problema ou continuamos a pôr cataplasma sobre as feridas, sem tratarmos as causas mais profundas?
Perante as dúvidas da geração atual como será para as próximas gerações?

- “O bem não faz barulho; o barulho não faz bem”.

É, hoje, recorrente, assistirmos – senão mesmo fazermos o mesmo! – a conversas, que bem depressa redundam em discussões, onde os contendores não se escutam, pois a meio da frase de um já se sobrepõe a conversa do outro... acontecendo, nalguns casos, várias conversas cruzadas e sem qualquer resultado: há muito barulho, mas pouca conversa. Bastará ver as sessões do Parlamento e pouco teremos a aprender, antes veremos o retrato da confusão a que chegamos... rapidamente! A doença tem-se espalhado como epidemia, pois, com normalidade, vemos as pessoas a ‘lançarem bocas’, quando outros falam... e nem o setor eclesiástico tem escapado à moda!

Nesta conjuntura adversa à aceitação da comunicação pela palavra, temos de saber fazer silêncio – mesmo que um telemóvel toque a despropósito! – para respeitarmos quem nos fala, para sermos respeitados quando falamos, pois na medida do que fizermos isso para com os outros talvez sejamos aceites (a bem ou à força) no que tentamos dizer, comunicar e fazer! Também, neste aspeto, se trata de uma questão educacional!

- “Nunca o invejoso medrou nem quem junto dele morou”.

Na medida em que o nosso ambiente é algo mais do aquilo que pretendemos, este ditado popular como que nos condiciona, mesmo que de forma inconsciente. O invejoso pode ser da família, alguém com quem nos cruzamos na escada do prédio ou na rua, na convivência profissional ou social, nos espaços de partilha, seja no convívio, seja até na expressão da fé... sobretudo em Igreja. De fato, a inveja – elevada à categoria mais malévola da ruindade – povoa o nosso mundo muito para além daquilo que somos capazes de dominar. Digamos que a situação calamitosa do nosso país retrata uma conjugação de várias invejas... onde os mais preguiçosos tentam reinar, invejando o trabalho leal, sério e aturado de tantos outros, que por sentirem animosidade alheia desinvestem em favor dos outros. Quantos sindicalistas nada mais fazem do que destruir por inveja camuflada e destruidora! Quantos contestários aos gritos nas ruas, mas que não mexem nem uma palha para minorar o o lixo à porta de casa! Quantos salvadores pelo insulto, cuja memória devia estar mais atenta a quem lhes deu a mão... mesmo nas horas de dificuldade.

A gritaria poderá vingar na contestação, na reivindicação e até  no insulto, mas não construirá laços de compromisso para a recuperação do nosso país a curto e a médio prazo. Ó serenidade, tenta dar-nos doses de sensatez, já! 

António Sílvio Couto

(asilviocouto@gmail.com)

domingo, 14 de outubro de 2012

Quando a higiene é negligenciada!


Diz-se – ao que parece com razoável propriedade! – que o nível cultural e de desenvolvimento de um povo se pode medir pelo lixo que produz e pela água que consome... na medida em que estes dois fatores, estando correlecionados, manifestam os gastos de índole económica e os cuidados que cada pessoa (família ou sociedade) tem para consigo... em tempos de crise.
Ora, temos visto em muitos dos nossos contactos, cabelos sebosos, roupas em desalinho (rotas e sujas... e não é por moda!), mau hálito (quantas vezes à mistura com um certo cheiro a tabaco e/ou a álcool), descuido e negligência... porque o custo da água está caro!
Temos visto, por razões mais ou menos continuadas, nos últimos tempos, que as pessoas/famílias, que estão a passar por dificuldades de natureza económico/financeira, vão cortando nos gastos em artigos de higiene – temo-lo visto nas pessoas, mas talvez isso se verifique na situação dos cuidados da casa – pois o dinheiro não estica para tudo!
Não deixa de ser ainda preocupante que as pessoas se vão desleixando e que cuidem menos corretamente de si mesmas, podendo até degradarem-se no trato com os outros. De facto, quem não terá já sido confrontado com menos bom odor junto de certas pessoas... senão mesmo ainda em determinados lugares! Quem não terá já sentido alguma indisposição – o que não significará menor aceitação e mesmo de inferior compreensão – na proximidade de certos casos ou de situações! Quem não terá já vivido momentos de algum desagrado por falta de limpeza e de menor asseio!
A higiene é uma regra mínima do convívio social e nem a exiguidade dos recursos económicos poderá ser uma desculpa para azedarmos o ambiente em que convivemos.

= Limpeza a quanto obrigas!
Vão surgindo campanhas de ajuda (*) para artigos de higiene – tanto ao nível pessoal como na versão da casa – onde nos devemos comprometer, cuidando de que os mais pobres – quantas vezes roçando alguma displicência e (quase) falta de dignidade! – tenham boas maneiras, gerando boa aceitação e criando ambientes de melhor salubridade.
Há, no entanto, quem tente disfarçar os maus odores com perfumes, mas juntando estes com aqueles o ar quase se torna irrespirável... bastando apenas um pouco de água e dum produto adequado à situação para que se crie uma nova disposição em nós e à nossa volta.
- Nesta época de confusão de prioridades talvez seja de investir na educação para a higiene, dando cada um de nós o seu contributo, por mais singelo que possa parecer, para que as pessoas não se deixem perder nos cuidados de limpeza corporal, ao nível psicológico, na dimensão moral e mesmo na vertente espiritual. Será da boa harmonia entre estes vários aspetos que todos teremos a ganhar.
- Por muito difícil que possa tornar-se a custo de vida nas suas diversas ramificações, precisamos de saber investir – familiar e socialmente – nos cuidados de limpeza das nossas casas, nas nossas ruas, nas mais díspares situações populacionais... pois um ambiente equilibrado também faz bem às pessoas, pacificando-as e elevando-as à categoria de seres humanos dignos e dignificados.
- Na medida em que cada um de nós se sentir comprometido em melhorar o espaço em que vive, assim o país há-de melhorar. Pobreza não tem de rimar com porcaria nem com indecência. Por isso, depende de cada um de nós um salutar equilíbrio... sem desculpa nem acusações sobre a austeridade. Talvez o ditado de outros tempos possa voltar a ter oportunidade de ser vivido: pobrezinhos mas asseados, isto é, limpos e bem lavados!
Porque queremos um país cada vez mais bonito, limpo e asseado, temos a obrigação de cuidar da nossa higiene física, mental, moral e afetiva, já!

 (*) Vimo-lo já em Viana do Castelo com bons resultados e está em marcha uma outra campanha na paróquia da Moita... pelo projeto ‘Famílias com esperança’!

 
António Sílvio Couto (asilviocouto@gmail.com)

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Sinais proféticos da (nossa) república... laica!


As comemorações oficiais – à mistura com outras oficiosas e ainda as pretensamente insidiosas – do dia da implantação da República (5 de outubro) trouxeram, no passado recente, alguns sinais que deveriam ser mais aprofundados... antes mesmo de serem, conjunturalmente, explorados: a posição da bandeira nacional na hora de ser hasteada, o local escolhido para o evento, as notas de partidocracite, as presenças e as ausências... e tudo o mais que, por ser simbólico, não poderá ser tratado como mero combate de forças obscuras e subterrâneas, mas antes deve ser trazido à luz aquilo que da luz precisa de ser iluminado... urgentemente.
= Desde logo Lisboa foi o palco das comemorações. Tudo o que aconteceu é da autoria exclusiva da edilidade. Ora, não foi isto que se viu nem na forma e muito menos no conteúdo. Valha a referência, posterior nos dias e menormente noticiada, às desculpas do presidente da câmara ao assumir que a bandeira nacional foi hasteada invertida: a culpa é dele! Quando quiseram ler naquele incidente uma profecia sobre o estado do país, quem estava bem intencionado ou quem se tornou oportunista do desgraçadismo? De forma invertida muita coisa pode ser convertida, mas, quando há má fé, de pouco adiantará o barulho produzido.. mesmo que seja mais audível a dos animais da guarda de honra oficial!...
= Empurraram as (ditas) comemorações para um designado ‘pátio da galé’ – será preságio de novos embarcados sem regresso? – mas os múltiplos e luzidios comemorantes eram vistos como convidados... onde não faltou quem quis aparecer ou quem esteve ausente e se quis fazer notado. As intervenções foram de teor simbólico: um pelo lugar que ocupa, outro pelo lugar que almeja; um com discurso anódino, outro com os desejos de protagonismo; um sem chama nem futuro, outro flamejante de aspirações... e outrostantos ódios de estimação; um com provocações (pretensamente) ocasionais, outro com aplausos de conspiração; um de corda ao pescoço, qual Egas Moniz da idade atual, outro com colar jacobino de grande edil e com pétalas de herói foragido; um com ar pesado e cúmplice na desgraça nacional, outro com ar sombranceiro de soslaio como quem vai flutuando sobre uns tantos nenúfares da tortulhocracia reinante... agora e num futuro próximo!
= Dizem que foi, por algum tempo, a derradeira comemoração da efeméride da implantação carbonária da república em Portugal. Há quem concorde, há quem discorde... mas a maioria foi usufruindo (ou gozando) de um feriado que já pouco ou nada diz à maioria da população... Nos campos – onde ainda se trabalhava – cuidava-se das últimas colheitas. Nas cidades – onde uns tantos se dizem mais alfabetizados – descansa-se e pouco diz essa tal de ‘república’, pois parece-lhes, antes, uma matrona decrépita e ao sabor da reforma insuficiente para amparar filhos e enteados... Só ainda alguns mais inteletuais – com denominação laica, republicana e ainda socialista – sentem a obrigação de se pronunciarem com uns tantos dislates de ocasião... nem que seja só entre apaniguados e simpatizantes... de circuito fechado e com amplificação encomendada!
Mesmo que de forma simplista, perguntamos:

- Para quando a implantção da IV república? Pois, a primeira caiu de podre e com inúmeros traidores sacrificados, a segunda foi ultrapassada e fez-se perseguidora de certos combatentes fugitivos, a terceira está prenhe de relapsos, sob as oportunidades perdidas e com benefícios e beneficiados em proveito egoísta...

- A bem da Nação, cuidemos de defender as possibilidades da república em não ser uma ditadura, onde uns tantos – ideológica e socialmente – ganham sempre, pisando quem não pensa como eles... nem que desgastem os adversários com mentiras e suspeitas... até eles sucumbirem pela exaustão!

- A bem da Nação, cuidemos em cercear com veemência os tentáculos desse polvo que tenta impor-se à custa da perseguição e do aviltamento dos mais frágeis e dos continuamente fragilizados... atendidos em maré de eleições e logo esquecidos na esquina mais imediata!

Será, afinal, esta república democrática ou, antes, uma promoção oligárquica dos medíocres?

 

António Sílvio Couto (asilviocouto@gmail.com)

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Denunciando certos incendiários... sociais


Por estes dias temos ouvido intervenções de certas figuras – da área do governo ou da oposição, dos setores políticos e da comunicação social, nos espaços noticiosos ou na rua, em conversa ou em discussão – que têm servido para acirrar os ânimos (mais ou menos) em tensão entre os cidadãos e também as intituições. Quando se esperava de todos uma certa racionalidade – pelo que se diz e, sobretudo, naquilo que se faz – temos visto, pelo contrário, ser exacerbada uma certa emotividade, criando condições para serem começados conflitos, mas cujas consequências nem sempre poderão ser controladas... quando forem iniciados.
- Há quem cante vitória porque ter conseguido reunir – ou será antes arregimentar? – cem mil manifestantes. Mas que é isso no contexto da área metropolitana de Lisboa: Cerca de dois por cento dos habitantes da região e, no contexto nacional, esse número pouco mais será do que zero vírgula nove por cento da população total! E muitos – segundo dizem – vieram doutras regiões do país... às centenas. Portanto, a capital não aderiu!...
- Há quem invetive os empresários que contestaram as medidas governamentais, classificando-os de ‘ignorantes’... só porque não alinharam acriticamente naquilo que poderia deteriorar as relações laborais a curto e médio prazo. As respostas dos atingidos – particularemnte empresários e patrões – roçaram (quase) o insulto e trouxeram à liça conflitos mal resolvidos noutros campos de intervenção! Não é deste modo insultuoso que serão dados sinais de pacificação aos outros cidadãos e entidades empregadoras nacionais e estrangeiras.
- Sobretudo a cobertura das mais recentes manifestações populares – de 15, 21 e 29 de Setembro – deram-nos a conhecer uma televisão – auto-apelidada de ‘serviço público’ – a RTP, que se exalta e incendeia, que se defende e ataca, que estrebucha e contradiz... pois as intervenções da rua e dos estúdios quase nos fazem crer que estamos em guerra aberta e eles estão dum lado: contra o patrão, que é o governo. Que eles defendam o lugar de trabalho não podemos contestar, agora que o façam duma forma tão acintosa contra quem tem sobre eles a tutela e, indiretamente, lhes paga – pretendendo defenderem o (dito) serviço público – já se torna menos compreensível. Agora podemos ver outros canais menos exaltados. Agora podemos comparar e até escolher. Agora podemos fazer zaping e ir à procura de alguém mais independente e sereno...
- Perante certas posições partidárias e sindicais parece-nos que são apontadas saídas para as condições de austeridade – exgerada e mal explicada – com que temos sido trucidados nos tempos mais recentes. No entanto, quando escutamos melhor não temos visto mais do que algumas intenções sem nexo e propostas a desdizer, embora com razoável cortesia e cobertura... notiociosa. De facto, não podemos continuar a ser enganados nem é aceitável que nos queiram impingir silêncio só porque é assim...e cala. Talvez estejamos a ser governados por gente impreparada e sem conhecimento da vida real. No entanto, não vemos perfilarem-se substitutos com caraterísticas diferentes. Antes vemos imberbes meninos de gabinete e intelectuais de secretária... sem provas dadas em lugar algum! E dos (ditos) batidos nas coisas da contestação – sobretudo duma certa esquerda revolucionária e doutra caviar – o que podemos perceber é que têm experiência no maldizer, mas não se sujam no trabalho da construção do bem comum... de todos. Têm a sua agenda e defendem, particularmente, os seus em clima de protesto!
Digamos com clareza: o país precisa de ideias audazes bem como de protagonistas sensatos. Está na hora de sermos governados pelos mais competentes, sérios e conscientes. Precisamos de comprometer na coisa pública quem tenha vivência dum verdadeiro serviço altruísta e não meramente interesseiro. Basta de vivermos neste regime de partidocracite. Se as ideologias falharam, saibamos criar um clima de solidariedade no bem comum positivo e não só na exaltação da desgraça. Portugal merece melhor!

 

António Sílvio Couto (asilviocouto@gmail.com)

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Num país de cigarras e de formigas!

Recentemente, um (ainda) ministro do atual governo proferiu que Portugal não pode ‘ser um país de muitas cigarras e poucas formigas’. Talvez influenciado pelo espaço em que estava – na região de Viseu – o governante, segundo palavras posteriores, quis enaltecer ‘os trabalhadores por conta de outrém e os pequenos e médios empresários, comerciantes e agricultores, que, pelo trabalho de formiga que todos os dias fazem, criam riqueza, mantém empregos e ciram postos de trabalho’...

Não deu para perceber a reação de certos ‘intelectuais’ àquelas palavras. Dá a impressão que se sentiram ofendidos e denunciados, sobretudo, os recentes manifestantes urbanos. Será que conhecem a fábula?

Vejamos, então, alguns indícios desta psicologia de cigarra neste retângulo à beira-mar plantado a que se dá, há mais de oitocentos anos, o nome de Portugal.

- Logo que aparecem uns raios de sol, corre tudo para a praia... pouco importando o trabalho a fazer, inventando as mais díspares situações para o descanso! Contesta-se a precariedade do trabalho, mas é de ver as praias cheias e os locais de veraneio com lotação esgotada, sem olhar a custos!

- Enquanto se faz o combate a incêndios – onde se reduz a cinza muita da nossa riqueza natural e do sustento florestal – vemos a correria aos supermercados – adquirindo produtos que nos impingem e para os quais não trabalhamos – e a participação em manifestações reivindicativas... pois os tais incêndios não lhes dizem respeito!

- Faz-se fila para procurar emprego, mas enjeita-se a possibilidade de participar na prevenção dos fogos nos nossos montados e campos... cuidando de tratar da sua ‘vidinha’ sem olhar a meios, atropelando, quantas vezes, os fins!

- Cuida-se de usufruir do subsídio em vez de procurar trabalho, pois a remuneração deste, nalguns casos, é bem inferior àquele, que não custa a ganhar, mas que pode viciar os beneficiários... cigarrando, isto é, pelo fumo do cigarro e na preguiça!

- Que dizer ainda daquelas situações em que se discute mais o futebol – empresa e indústria, ideologia e mística, sentimento e quase irracionalidade – do que a sua real prática? Temos, por agora, semanalmente, na segunda-feira à noite, três canais televisivos a discutir à mesma hora, apaixonadamente, as conjeturas, os erros, as táticas de bancada... cigarrando do alto do púlpito sapiente! Por breves momentos aquelas diatribes futebolísticas entretêm os (seus) adeptos e fazem esquecer as agruras do trabalho, que deveria acontecer não fosse a hora tardia em que acabam de arengar aqueles senadores da treta.

- O Parlamento português tornou-se numa espécie de campo de cigarras em grande estilo, subvertendo a função de ‘casa da democracia’ e, pior, acabada sinfonia discursiva logo são dissecados os cantos das cigarras por outras mais sábias, que, nos estúdios televisivos, tentam descortinar nas entrelinhas façanhas de duvidoso gosto...

- De alguma forma soa a canto de cigarra o que certas forças politico/partidárias disseram ao afirmarem votar contra um orçamento de Estado que ninguém conhece e até ameaçando com moções de censura sobre factos não reconhecíveis, enquanto reclamam vitória por recuos – sensatos ou oportunistas! –  de quem tem de governar... De fato, as cigarras têm poder de influenciar e as formigas de calar... até ver!
Sem pretensão de fechar a discussão, antes pretendendo provocá-la, deixamos breves perguntas:

. Até onde irá a nossa capacidade de aturar tanto barulho e pouco trabalho?

. Como poderemos criar um clima de silêncio, que leve à reflexão e ao questionamento pessoal?

. Será possível inverter este ambiente de supercialidade, criando condições para a descoberta do sentido da vida, olhando mais os outros do que, meramente, a nós mesmos?

. Como poderemos calar certas cigarras, valorizando o trabalho de muitas ignoradas formigas?

. Teremos capacidade de nos regenerarmos, dando novo significado ao trabalho e não à promoção de certa preguiça?

 Tal como na fábula, tentemos trabalhar sem nos deixarmos provocar por algumas nefastas cigarras... pois, só no dicionário é que o ‘sucesso’ aparece antes do ‘trabalho’!

 António Sílvio Couto

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Em pé de igualdade... ontem, hoje e no futuro


Em breve, a 1 de Outubro, ocorrerá o ‘dia mundial do idoso’ e, em muitas autarquias, todo o mês será mesmo dedicado a este largo e complexo sector da nossa população, que, em 2050, poderá atingir um terço dos habitantes em Portugal.

Por estes dias presenciei, num bairro da cidade de Braga, uma situação que teve tanto de simples quanto de simbólico: à hora de almoço foram chegando vários/as comensais, que, na saudação, se iam inteirando da saúde e da disposição de cada um/a... notava-se que aquilo era um ritual diário, onde a refeição servia de convívio e de presença (mútua e múltipla) em lenitivo para as agruras de uns e para os outros... Esta relação de vizinhança e de proximidade é, hoje, em muitas situações, supletiva dos laços familiares, que, nalguns casos, são ténues ou até inexistentes. Quantas vezes os vizinhos são a melhor família, tanto para o bem como para a (possível) intromissão na vida uns dos outros! Ainda vamos tendo baluartes de boa vizinhança!

1. Força na debilidade — Por entre luzes e sombras, a história de muitos (dos nossos mais) velhos está cheia de casos mais ou menos assumidos de vivências, onde o crescente abandono de uns tantos faz sofrer quem possa estar sensível à sua vulnerabilidade... De facto, quantos velhos são abandonados, por ocasião, das (pretensas) festas sociais – sejam de índole coletiva, como no Natal ou na passagem d’ano ou de natureza familiar e mesmo regional – ‘esquecidos’ nos hospitais e/ou prolongando a ‘baixa clínica’ muito para além do tempo suficiente e necessário... Diante da frieza de certos cuidados como que sentimos arrepios sobre o modo como nos poderão tratar daqui a pouco tempo... pois, em breve, podemos necessitar de tais serviços. E nem as razões de índole mais ou menos religiosa nos facultará melhor atenção ou cuidado!

2. Enquadramento familiar, precisa-se – Cada vez mais os nossos mais velhos têm de sair de casa para passarem o resto dos seus dias colocados em lares, que em tempos mais ou menos distantes tinham o rótulo de ‘asilos’. De facto mudou a definição, mas, nalguns casos, continua a mentalidade, não dos funcionários que prestam os serviços, mas dos parentes de quem lá coloca os seus mais velhos... porque mais fragilizados e, desgraçadamente, quase conformados com o seu destino.

Quando a família falha, tudo o resto capitula em cadeia e sob um regime de insensibilidade atroz. Quando o elo mais fraco se quebra, tudo o resto como    que o explora sem dó nem piedade. Quando os laços de sangue são suplantados pelos interesses (mais ou menos) materialistas, todo o velho – rico ou pobre, remediado ou pensionista – se torna (ou pode tornar) descartável e (quase) indesejável...ao perto ou ao longe.

3. ‘Filho és, pai serás... como semeares, assim recolherás’ – Este adágio traça o nosso projeto a curto e médio prazo. Se os pais que hoje são colocados nos ‘lares’ ainda cuidaram, presencial e atentamente, dos seus filhos, o que será dos pais cujos filhos foram despejados numa espécie de lugar anódino do jardim de infância e da creche... lançados nessa espécie de purga de quem não olha para a frente e que nem se distrai sobre quem vem atrás?  Por vezes as instituições ligadas – teórica e prazenteiramente, ao menos em princípio – à Igreja católica pactuam com idênticos comportamentos de outros que, não se reclamando dos valores cristãos, fazem negócio com as necessidades alheias... As (ditas) ‘respostas sociais’ tratam os seus utentes de ‘clientes’, gerando e gerindo os mais díspares interesses, cobrando os serviços e as prestações de ajuda... atuais e futuras, seja qual for a duração do serviço!
Agora que vemos a sombra a projetar-se no seguimento da nossa própria imagem como que vamos já sentindo que é preciso que coloquemos os mais velhos em pé de igualdade com aquilo que agora vivemos, pois no futuro receberemos – em esperança de bom agradecimento! – o que semearmos, tanto nos mais novos como no compromisso em favor dos mais vulneráveis. Queira Deus abençoar-nos em conformidade com aquilo que tivermos feito pelos outros... mesmo sem esperar recompensa!

Nota: Reparemos na intensa vivência de Alex Ferguson – treinador de futebol do Manchester United há cerca de 25 anos – que revela uma razoável capacidade de superação das derrotas e das vitórias. Vencer é e pode ser um conceito que se acrisola com a nossa estória de vida numa sempre maior maturidade e compromisso!

 

António Sílvio Couto

(asilviocouto@gmail.com)

 

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

E depois de 15 de Setembro?


Pelo significado social, político e histórico, o dia 15 de Setembro de 2012 vai marcar os próximos tempos, sejam quais forem os resultados... na condução da nossa vida coletiva. De fato, as manifestações em várias cidades do país quiseram dizer que algo vai mal no subterrâneo da nossa democracia. E nem as diabruras de uns tantos infiltrados para criarem incidentes nos podem distrair do que está – e possivelmente continuará a estar por largos meses – em causa.

Numa análise ainda um tanto incipiente parece-nos que devemos encontrar prós e contras – numa espécie de paralelo – naquilo que aconteceu... e, tal como em tudo na vida, podemos e devemos encontrar leituras diversas, questionando-nos e sendo questionados.

 = Sinais em favor

As dificuldades economico/financeiras das pessoas, das famílias e das empresas são graves. O silêncio sepulcral em esta(va)mos a viver tinha de ser sacudido. Quem cala nem sempre consente!

A diversidade de intervenientes, desde crianças até famílias inteiras, percorrendo um largo espetro de desempregados e de jovens à procura de emprego... num leque diversificado e atento ao (seu) futuro a curto e médio prazo.

Muito para além dos números dos sem rostos – tais foram já outros falhanços das convocações via redes sociais – houve que tenha tido a ousadia de sair de casa, acreditando que todos temos uma palavra a dizer sobre o nosso futuro coletivo.

Num país pouco politizado para defender os interesses comuns, vimos pessoas que estão atentas ao futuro das gerações vindouras, trazendo-as também à liça da participação mais consciente.

= Leituras de apreensão

Mais do que o número de pessoas que veio para a rua foi um tom algo exaltado – mesmo por entre ‘elogios’ medíocres para o bom comportamento (dito) cívico dos manifestantes – e revivalista do tempo do prec... no distante verão de 75. Até algumas palavras de ordem soavam àquela época!

Vimos muita gente mais interessada nas suas regalias e obejtivos do que pessoas preocupadas com o futuro do país, pois podemos deitar a perder com a multiplicação de iniciativas idênticas a credibilidade conseguida junto dos nossos emprestadores... internacionais.

De algum modo foi triste – e talvez preocupante para novos protestos – vermos agressividade semeada por gente que se esconde por trás de caras encobertas e à sombra gera barulho, provocação às autoridades e propensa à destruição... A Grécia pode repetir-se em Portugal! Seria desagradável e incontrolável...

Numa espécie de associação na desgraça não havia necessidade de vermos certos aproveitamentos – sindicais, partidários, grupais e de lóbi – por entre os que se quiseram manifestar, pois nem sempre a desgraça alheia pode servir de cobertura aos protagonismos mais interesseiros.

= Que futuro?

Cremos que já basta de culparmos os outros – embora haja quem seja culpado e não o assuma! – para nos desculparmos pelos nossos insucessos pessoais e coletivos, familiares ou profissonais, pois da assumpção da culpa poderemos encontrar o caminho a seguir.

Ainda não vimos – cristamente falando – quem tente fundamentar nos valores dos Evangelho, clara e distintamente, a solução dos nossos problemas mais sérios. Vamos ouvindo frases e chavões de teor mais reivindicativo do que profético, pois denunciar não basta, se não nos comprometermos na solução... proposta.

Temos de aprender a viver na simplicidade – evangelicamente diz-se ‘pobreza’ – de vida escolhida e não no azedume contra a austeridade. Esta é-nos imposta, enquanto aquela pode fazermos viver com o essencial sem esbanjamento nem consumismo de faz-de-conta.

Verdade a quantos nos obrigas!

 
António Sílvio Couto (asilviocouto@gmail.com