Partilha de perspectivas... tanto quanto atualizadas.



segunda-feira, 12 de maio de 2025

Problemas dos ‘millenials’ e não só…

 

Numa época em que se vai rotulando os que vivem em cada tempo podemos e devemos descrever (numa espécie de definição) algumas das gerações de pessoas desde o final da década de sessenta do século passado e até à passagem do milénio, há mais de vinte e cinco anos.

Em resumo os epítetos e depois as caraterizações: geração X (de 1965 a 1980), geração Y (de 1981 a 1999), millenials (de 1980 a 2003) e geração Z (nascidos a partir de 2000).

Vejamos as vertentes gerais, tentando que cada um se possa encontrar nessas balizas etárias, analisando como se vê ou ainda como se revê:

* Geração X – A principal característica da geração X é a batalha pelos direitos iguais e pela liberdade, uma vez que muitos vivenciaram períodos de ditaduras ou de governos bastante rígidos em diversos países pelo mundo. Esta geração cresceu com a ideia de que todos devem ter os mesmos direitos e que nenhum poder se pode estabelecer acima da lei. Em relação à tecnologia, eles viram poucas mudanças drásticas em seu cotidiano. A televisão talvez tenha sido o maior impacto na vida dessas pessoas.

* Geração Y – A principal característica da geração Y é o conceito de mudança, principalmente em relação ao mercado de trabalho: aqueles que pertencem a esta geração estão sempre atrás de novos, seja pela questão monetária, seja simplesmente pela possibilidade de aprenderem algo novo. Outra característica marcante dessa geração é a facilidade para se adaptar a tantas mudanças, principalmente nas relacionadas com a tecnologia.

* Millenials – A geração de pessoas que nasceram entre os anos de 1980 e 2003. Os millennials adaptaram-se mais rapidamente às evoluções tecnológicas, como a chegada de smartphones e a presença constante de computadores conectados à internet durante a rotina, Eles são considerados disruptivos (causam rutura ou interrupção) e buscam constantemente por inovação. É, geralmente, considerado o primeiro grupo geracional a lidar com maiores recompensas por curto esforço, em relação aos seus pais que cresceram numa sociedade pautada pelo trabalho.

* Geração Z – Formada por todos que nasceram a partir de 2000, a geração Z já nasceu com uma boa parte das tecnologias que transformaram nossos hábitos, principalmente aquelas relacionadas com o nosso dia-a-dia on-line. São pessoas acostumadas com as redes sociais e que se adaptam facilmente com novas plataformas ou grandes mudanças. São pessoas que costumam ter uma ligação maior com causas políticas, sobretudo as relacionadas com o meio ambiente e a defesa dos seus direitos. Em relação ao mercado de trabalho, são pessoas que não tratam uma carreira profissional dentro de uma empresa como prioridade.

= Feita esta apresentação descritiva das várias ‘gerações’ inter-séculos, há problemas que se colocam mais a umas do que a outras, sobretudo se tivermos em conta o mundo do trabalho, as preocupações com as gerações vindouras e mesmo atendendo às questões – mais acentuadas no após-pandemia – com a saúde psicológica e mental. Têm surgido estudos sobre esta matéria e os dados são algo sombrios.

- Os profissionais da geração millenium (30 a 45 anos) são os que têm maior risco ao nível da saúde mental e os da geração babyboom (nascidos após a segunda guerra), próxima da reforma, têm mais fatores de proteção relacionados com ambiente de trabalho saudáveis.

- As gerações do meio já estão há algum tempo a trabalhar e com casa e filhos ‘ficam mais afetadas na sua saúde mental’. Segundo um estudo de uma entidade nacional, os millenials, ‘além de se preocuparem consigo, têm de se preocupar com os filhos, porque hoje em dia a vida não é fácil, por exemplo, é ver o preço das casas, e também têm de se preocupar em muitos casos já com os pais, que estão a ficar idosos. São os mais sobrecarregados’. E isto deixa marcas em todos.

As várias gerações não são camadas à maneira de cebola, mas etapas onde todos convivem e se ajudam!



António Sílvio Couto

sexta-feira, 9 de maio de 2025

Habitação – quem a não quer ou a não têm?

 


Como pode um mentor político falar com propriedade do tema da habitação se a casa (ou casas) que tem lhe foi oferecida pelos pais? Saberá apreciar a casa onde mora? Como será capaz de ajudar outros a tentarem ter casa, se ele não passou por processo algum de risco ou de algum plano para ser autónomo, mesmo através do aluguer? Não andará, por aí muita gente, a encher a boca com a questão da casa, mas não ergueu uma palha para que tal fosse assumido por si? Até onde irá a chantagem de certos setores, que nunca investiram – para além do paleio barato – num assunto tão simples quão melindroso?

1. Façamos o diagnóstico do tema da casa no nosso país e na União Europeia:- Em 2023, cerca de 76% da população portuguesa era proprietária de habitação, o que representa mais de 2,9 milhões de habitações familiares. Este valor é superior à média europeia de 69,1%, onde a maior parte das pessoas vivem em casa própria;- A taxa de propriedade de habitação em Portugal diminuiu para 73,40% em 2024, em comparação com os 76% em 2023. A taxa de propriedade de habitação teve uma média de 75,19% de 2004 até 2023, atingindo o máximo histórico de 78,30% em 2021 e o mínimo recorde de 73,90% em 2019;- De acordo com os dados do gabinete estatístico da UE, a maioria das pessoas na União Europeia (UE) vive em casa própria (69,1%) e apenas 30,9% arrendam a habitação, com Portugal acima da média de proprietários (77,8%) e contra 22,2% que são inquilinos da habitação, colocando-nos no décimo primeiro lugar entre os vinte e sete.

A Alemanha (53,5%) é o único país da UE onde há mais pessoas a viver em casas arrendadas do que em próprias. 52% dos habitantes na UE vivem em moradias, 47,5% em apartamentos e 0,5% noutro tipo de habitação, como caravanas, barcos ou tendas. A maioria dos espanhóis vive em apartamentos (65,6%), seguindo-se os alemães (62,5%) e os estónios (60,8%). Portugal está no 15.º lugar desta tabela, com uma maioria de 53,3% pessoas a viverem em moradias e 46,7% em apartamentos.

2. Perante este panorama geral teremos de saber gerir as questões da habitação e não andarmos a reivindicar soluções onde queremos que sejam os outros a assumirem as nossas responsabilidades. De facto, a deslocação das pessoas do meio rural para as franjas das metrópoles de Lisboa e do Porto criaram problemas que não podem ser resolvidos com promessas eleitoralistas nem servindo os intentos estatizantes dos mais básicos e primários...populistas. Muitas pessoas deixaram-se ir na cantiga da ‘casa para todos’, mas não assumem a sua parte, continuando a viver à custa dos outros e de quem tenha investido a suas economias - como em certas épocas alguns emigrantes - na construção da casa para alugar e agora se sente defraudado pelas tendências coletivistas e de âmbito estatal...

3. Outra questão sobre a casa, que não é de somenos importância, é o arrendamento. Segundo uma entidade de defesa do consumidor, os dados seriam estes: em 2021, 22% dos alojamentos familiares clássicos (cerca de 923 mil) estavam arrendados para residência habitual, sendo, fundamentalmente, propriedade de particulares ou de empresas privadas. Destes, dois terços eram ocupados pelos mesmos inquilinos há menos dez anos. Em contrapartida, 13% dos arrendamentos duravam há 40 ou mais anos. Os restantes alojamentos (22%) eram alvo de arrendamentos com duração entre dez e os 39 anos. O valor médio mensal de renda no país era de 334 euros, mas 29% dos alojamentos estavam associados a rendas superiores a 400 euros mensais, sendo que 2% apresentavam uma renda superior a mil euros. Dois quintos dos alojamentos tinham rendas mensais que oscilavam entre 200 e 400 euros e um décimo encontrava-se abaixo dos 100 euros mensais.

4. O tema da habitação precisa de mais seriedade na discussão pública e disputa política. Tudo o resto soa a manipulação de campanha eleitoral...agora ou no futuro!



António Sílvio Couto

terça-feira, 6 de maio de 2025

Uma em cada três pessoas sofre de misocinesia

 

Bater com os dedos numa mesa, balançar a perna, morder a tampa da caneta ou enrolar o cabelo com os dedos são exemplos de comportamentos repetitivos que podem causar aversão ou irritação intensa a quem os observa. Segundo um estudo recente sobre esta alteração psicológica, realizado numa universidade do Canadá, designada de misocinesia, esta doença afeta uma em cada três pessoas.

1. O que é a misocinesia? Quais os síntomas? Estaremos preparados para detetarmos tal doença de índole psicológica? Como se pode ‘curar’? Será uma doença fácil de conviver? Estas e outras questões vamos tentar atender na abordagem a um tema que pode e deve ser aprofundado, particularmente para quem tem trato com outras pessoas e sobre elas fazer alguma avaliação...

2. Com raízes gregas, ‘misokinesia’ vem de “miso”, que significa ódio, e “kinesia”,que se refere a
movimentos. A misocinesia é a rejeição dos movimentos pequenos e repetitivos de outras pessoas. Eles provocam uma reação de forte intensidade. Segundo especialistas sobre este tema dizem que quem sofre desta perturbação é afetado ‘emocionalmente de forma negativa e experimenta reações como a raiva, a ansiedade ou a frustração, bem como um menor prazer em situações sociais, no trabalho e em ambientes de aprendizagem’. Ainda segundo psicólogos especialistas nesta matéria algumas pessoas ‘chegam mesmo a evitar atividades sociais por causa dessa perturbação’.
Os sintomas da misocinesia podem variar de pessoa para pessoa. No entanto, os principais sintomas são:
- Nervosismo e irritação com os movimentos repetitivos dos outros,
- Desconforto, querer sair do local ou se afastar da pessoa que realiza os movimentos repetitivos,
- Isolamento social como medida para evitar a exposição a movimentos repetitivos,
- Dificuldade de concentração e conclusão de tarefas devido ao desconforto.

3. Sendo esta doença bem mais comum do que se julgava – basta reparar que atinge uma em cada três
pessoas –, talvez seja conveniente olhar para ela com uma visão mais holística e tendo em conta a pessoa toda, isto é, na sua configuração psicológica, somática e mesmo espiritual. Sobretudo neste tempo após a pandemia tornou-se mais acutilante ter em conta as reações das pessoas aos mais díspares movimentos de reação psicológica de todos e de cada um de nós. De uma forma quase sintomática passamos a estar sob a possibilidade de nos desequilibrarmos nas pequenas como nas grandes coisas. Os outros tornaram-se para nós mais do que um espelho da nossa complexidade de trato mas também uma forrma de nos aferirmos uns diante dos outros.

4. Quem não terá já reparado que cada um de nós também reflete o ambiente em que vive. Ora, por vezes, nem sempre esse ambiente é (ou será) tão equilibrado quanto seria desejável. Também as circunstâncias de família ajudam ou complicam as condições para que o nosso desenvolvimento seja salutar.
Sem pretender desviar a atenção do tema que temos estado a refletir, dizia alguém sobre uma senhora que intervém na ‘campanha eleitoral’ sempre – a propósito ou a despropósito – traz a ‘violência doméstica’ à liça, como que dando a entender que, ou foi vítima dessa violência ou das pessoas com quem vive ou habita pode estar sujeita à tal violência... de outra forma não se compreende a fixação no tema a toda a hora e momento.

5. Temos, então, de aprofundar esta misocinesia, na medida em que, estando em condições sociais de interdependência, precisamos de cuidar uns dos outros para que consigamos construir uma sociedade – ambiente social, espaço familiar, nas condições de trabalho e até na vivência em Igreja – mais atenta aos problemas dos outros, dado que interferem com a nossa condição relacional. Seremos capazes de ajudar-nos, assim, fraterna e solidariamente?

António Sílvio Couto

sexta-feira, 2 de maio de 2025

Às mães - símbolo supremo da esperança

 


Convencionaram dedicar-vos um dia no calendário do ano, mas todos os dias são ‘dia da mãe’ e vós sois o símbolo supremo da esperança. Não era desta forma simples - ‘está de esperanças’ - que se vos dirigia quem vos visse em estado de gravidez? Pois, se ainda antes de nascer o/a filho/a eram vistas como sinal de esperança tanto mais o são no resto dos dias para os vossos filhos e para toda sociedade.

Com especial gratidão desejamos àquelas que são mães dizer-lhes um obrigado pela comunicação do dom da vida, claro em consonância com os pais dos vossos filhos. Sois e continuais a ser a visualização mais clara do Deus da vida, feito presença, reconhecimento e desafio: presença de um Deus que comunica a força mais intrínseca da sua essência; reconhecimento por acolherem tal dom com dedicação e cuidado; desafio a que tudo decorra voltado para Ele, senhor da vida e mestre da História.
Queridas mães, não deixeis morrer a esperança que há em vós e que nos comunicais cada vez que sois, de verdade, mães. O mundo precisa do vosso contributo para que a esperança esteja em atualização contínua e permanente. A Igreja correrá perigo sem o vosso testemunho de esperança: com gestos, palavras e sinais difundi ao longe e ao largo a força da esperança...
Saudação e cumprimentos para todas mães, hoje e para sempre!

António Sílvio Couto

terça-feira, 29 de abril de 2025

Do apagão virá a luz?

 


Das 11.33 horas às 20.45 horas do dia 28 de abril estivemos sem energia elétrica em todo o país e extensível a Espanha ainda com parte de França. Foram longas e quase silenciosas nove horas, onde só os aparelhos de rádio-a-pilhas nos davam informações e até a maior parte das redes móveis de comunicação colapsaram.

O chefe do governo só falou ao país – já alumiado nalgumas localidades, sobretudo do norte – onze horas depois, decorridas sobre aquilo que ele classificou como ‘uma situação grave, inédita e inesperada’.

– Sendo uma situação inesperada como reagiram as pessoas? Boa parte de forma serena e civilizada foi esperando as informações – à exceção dos ávidos em tudo querer saber mesmo que forma distorcida – à mistura com atos de corrida aos locais de compra de comida – desta vez foi o açambarcar de água – numa correria o roçar a pilhagem desenfreadamente egoísta. Quando há tempos se falou do ‘kit europeu de sobrevivência’ alguns troçaram da sugestão, mas agora, por breves horas, se pôs a manifesto que precisamos de estar melhor preparados para enfrentarmos mais momentos de crise e de contingência… com a duração mais prolongada.

– Sendo uma situação inédita como se explica este acontecimento? Um tanto aos poucos vão surgindo explicações para o fenómeno, que tem tanto de raro quanto de pouco habitual no nosso contexto europeu. Aqui se viu a teia de influências e de negócios entre os vários países e que todos devíamos saber e ser-nos explicado de forma preventiva e esclarecedora. Uns mais técnicos já esperavam que isto acontecesse há vários anos, até pelas opções tomadas em tempos eivados de um ecologismo populista e que teria de ser pago, quando se devesse, como agora, um apagão. Este acontecimento pode ser ainda a fatura da globalização económica, que uns contestam, mas que usufruem como os outros…nas regalias e comodidades.

– O que houve de grave nesta situação? A gravidade estará mais nas causas do que nas consequências até agora vistas e sentidas, pois não podemos continuar a ser entregues nas costas a interesses cujas malfeitorias se pagam a longo prazo. A emersão dos papagaios do costume logo fizeram perceber que nem tudo era só avaria ou seja qual for a causa: submetidos aos conluios de certas forças podemos irem descobrindo que nem tudo é tão limpo como pretendiam vender da ‘energia limpa’ eu talvez tenha sido mais para limpar os cofre do Estado do que para deixar um ambiente mais saudável como seria aceitável.

= As parcas horas de apagão devem ser refletidas em matéria de eleições…no próximo dia 18 de maio. Quem gerou este problema saiu de cabeça à surfista – asseado e limpo – do outro lado da onda, mas foi o causador – por atos ou por omissões – de que tivéssemos chegado a experimentar esta prova, comparável àquilo que deixámos nos países africanos que estiveram sob a nossa tutela até há cinquenta anos: lá os apagões são constantes, por aqui têm sido ocasionais…

De pouco ou nada adianta fazer barulho para disfarçar com a ausência de energia elétrica, quem nos colocou neste estado decidiu há quinze anos – lembrem-se quem era! – sobre quais as razões que nos fizeram chegar agora a esta situação.

= O apagão – felizmente – não cobriu a noite e pudemos ser informados, ouvir os comentários e quase delirar com as declarações de alguns dos intervenientes, onde para além da fraca seriedade sobre o problema destilaram o que lhes vai na alma: azedume, oportunismo e, porque não, aproveitamento das fragilidades de toda a Nação, desde que isso lhe permita tentar conquistar votos… Brevemente saberemos a verdade do apagão e de quem foi apagado com ele! Assim se faça luz.

 

António Sílvio Couto

sábado, 26 de abril de 2025

Liberdade – mito, direito ou dever?

 


Mais de meio século depois da revolução de 25A parece que estamos na estaca zero do conceito e da vivência de algo tão sagrado como a liberdade. As imagens da macrocefalia da capital deixaram-nos um travo amargo sobre o modo como essa tal liberdade é exercida, promovida e celebrada: exercida como algo exaltado pela ditadura do eu; promovida em razão dos que estão do mesmo lado, sem respeito pelos outros; celebrada como se fosse um absoluto sem retorno.

1. Cinquenta e um anos depois sinto vergonha por haver uns tantos deste país que acham que são donos da liberdade, que foram só eles que a recuperaram, que aquilo que não seja da sua cor ou ideologia já não é considerado liberdade. Que tendo sofrido os seus antepassados para que haja liberdade não pode menorizar os que pensam de forma diferente, levando a que quase sejam considerados inimigos da dita liberdade. O monopólio sobre este direito cheira a ditadura tanto pior quanto se reclama de ‘democrata’ em contraste com quem não pensa nem age como eles…

2. Na habilidade da manipulação da liberdade podemos ver este ano de forma clamorosa que uns tantos só consideram estarmos em ambiente de liberdade se se cumprirem certos ritos que mais parecem rituais de uma defuntês anunciada. Disseram que foram suspensos os atos festivos da efeméride. Mas o que foi adiado foi tão-somente um concerto de um cantor a roçar o pimba e a abertura dos palácios à população, dado que a sessão (dita) solene aconteceu, o desfile na avenida foi realizado e as corridas locais de atletismo tiveram lugar. Outros consideram que a música do Zeca foi trocada pelo choradinho do Tony e que isso constituiu uma adulteração ao cerimonial. Se pensarem bem houve um razoável ridículo da festança deste ano… à exceção dos distúrbios e contendas entre fações, reivindicando protagonismo barato e barulhento.

3. Quem tenha menos de cinquenta anos só conhece do 25A aquilo que lhe mostram sob a lente ideológica do exibidor: muitos dos militares operacionais já desapareceram e os que estão vivos já treslem na memória, alguns deles servem de trucida que ainda fumega do tempo revolucionário. Cinco décadas de liberdade são pouco tempo para haver maturidade democrática, mas pior, o mundo mudou e os saudosistas do regime pós-revolucionário não passam de fantasmas, em contrapartida com os riscos da exacerbação dos extremismos populistas, que não olham a meios para atingirem os seus fins, mesmo que arrastando tudo e todos para o lamaçal mais fedorento.

4. Nas comemorações deste do 25A pairou uma figura que, ora ensombrou, ora foi exaltada e porque não dizê-lo manipulada sobre o conceito de liberdade e da forma de a viver. O defunto Papa Francisco foi citado a propósito e despropósito – nalguns casos de forma abjeta e tendenciosa – sobre questões atinentes à liberdade… normalmente sob o sinete mais do social do que do espiritual e na visão holística da pessoa humana. Citamos o Papa: «Esta é uma regra para desmascarar qualquer liberdade egoísta. Aqueles que são tentados a reduzir a liberdade apenas aos próprios gostos. A liberdade guiada pelo amor é a única que liberta os outros e a nós mesmos, que sabe ouvir sem impor, que sabe amar sem forçar, que constrói e não destrói, que não explora os demais para a sua conveniência e que pratica o bem sem procurar o próprio benefício. Em suma, se a liberdade não estiver a serviço do bem, corre o risco de ser estéril e de não dar frutos. Por outro lado, a liberdade animada pelo amor conduz aos pobres, reconhecendo no seu rosto o de Cristo» (audiência de 20.10.2021).

Quem quis instrumentalizar o Papa para as suas ideias, será que alguma vez leu alguma coisa que ele disse? Basta de hipocrisia!

5. A liberdade não pode continuar a ser um mito, mas deve ser um dever que nos faz testemunhar o direito…até para com aqueles que não respeitam a nossa liberdade!



António Sílvio Couto

terça-feira, 22 de abril de 2025

‘Agora que nos fazias falta, vais-te embora’

 


Esta frase lia poucos minutos após o anúncio do falecimento do Papa Francisco, na manhã do dia 21 de abril, segunda-feira da oitava da Páscoa.

Deste modo nos ficou a sensação de orfandade com que lemos e podemos interpretar a partida do ‘mundo dos vivos’ do Papa Francisco no exercício do seu ministério petrino.

De 13 de março de 2013 a 21 de abril de 2025, Jorge Mario Bergoglio assumiu a tarefa de ser bispo de Roma e Papa da Igreja católica. Com a vetusta idade de 88 anos, Francisco partiu para a ‘casa do Pai’, elogiado por muitos (quase maioria) e criticado por outros (uma ínfima minoria), mais por razões de (alguns) costumes do que do plano da fé… Sobre esta introduziu temas que perdurarão na vida e na conduta da Igreja, dado que já estavam enunciados no Concílio Vaticano II, terminado há quase sessenta anos.

Vinda do outro lado do mundo – como referiu no dia da sua eleição – aportou à Igreja coisas novas e situações velhas – para usarmos a expressão bíblica – à mistura com problemas sangrentos para a vida e a missão da Igreja: sobretudo o tema dos abusos – durante muito tempo incidindo sobre os de teor sexual, mas que agora emergiam outros talvez mais gravosos para tudo e envolvendo muitos mais… Não podemos esquecer que foram essas temáticas que levaram Bento XVI a resignar, em 2013, com a marca da surpresa dolorosa e sob a penumbra do escândalo.

Por agora pode confundir-se poeira com lamúrias e admiração com elogios baratos. Em breve tudo assentará e poderemos perceber quem captou a mensagem trazida por este Papa, cujos gestos e sinais precisam de ser descodificados, mas não de forma preconceituosa ou enlameada de ideologia, seja ela económica, ético/moral ou mesmo teológico-doutrinal… Na rica subtileza de um homem de Deus, o Papa Francisco pode ser interpretado por diversos prismas, podendo confundir-se leituras com sensibilidades mais ou menos subtis e quase interesseiras de um certa luta pseudo-dialética… A esperança não nos engana, seja qual for a perspetiva por onde queiramos introduzir o Papa para ser apreciado.

* Encíclicas
- Lumen fidei (Luz da Fé), assinada em 29 de junho de 2013, publicada em 5 de julho de 2013. Primeira encíclica do seu pontificado, que havia sido iniciada pelo seu antecessor, Bento XVI;
- Laudato si' (Louvado Seja), publicada em 18 de junho de 2015, apela à ação contra o aquecimento global e a degradação do meio ambiente;
- Fratelli tutti (Todos irmãos – sobre a fraternidade e a amizade social), publicada a 3 de outubro de 2020;
- Dilexit nos (Amou-nos - sobre o Amor humano e divino do coração de Jesus), publicada a 24 de outubro de 2024.
* Exortações apostólicas
- Evangelii Gaudium (Alegria do Evangelho), publicada em 24 de novembro de 2013. Exortação Apostólica sobre o anúncio do Evangelho no mundo atual;
- Amoris laetitia (Alegria do Amor), publicada em 8 de abril de 2016. Exortação Apostólica sobre a alegria do amor na família;
- Gaudete et exsultate (Alegrai-vos e exultai!), publicada em 19 de março de 2018. Exortação Apostólica sobre o chamamento à santidade no mundo atual.

Embora não viajando tanto como alguns dos antecessores, fez cerca da quarenta viagens apostólicas, tendo-se deslocado duas vezes a Portugal, por ocasião do centenário das aparições em Fátima e das JMJ 2023… Viveu, como todos nós a provação da pandemia, interpretando melhor do que ninguém a angústia de todos.

Nos últimos anos clamou pela paz na Ucrânia e na Palestina e não esqueceu tantos dos conflitos em África e da desumanidade dos refugiados e das vítimas dos conflitos armados.



= A Igreja sempre foi cuidada por Papas adequados aos tempos em que vivemos. Assim cremos e desejamos que aconteça a quem venha substituir na cátedra de Pedro, Francisco… O Espírito Santo sabe!



António Sílvio Couto