Partilha de perspectivas... tanto quanto atualizadas.



segunda-feira, 20 de dezembro de 2021

Habitação: casa, morada ou lugar?


 Segundo dados dos ‘Censos 2021’, em Portugal, há um certo desfasamento entre os edifícios destinados à habitação (cerca de 3,5 milhões) e o alojamento (quase 6 milhões de situações). Comparativamente com os censos de há uma década o crescimento do parque habitacional é bastante inferior ao do início do século.

Atendendo a estes números podemos captar que há diferença entre os locais de alojamento e as possibilidades de ter casa própria (proprietário ou arrendatário); de esta pode ser de maior ou de menor dimensão ou ainda de localizar-se no litoral ou no interior do país; ser de primeira habitação ou residência secundária ou sazonal… Nestes diversos itens os resultados dos ‘Censos 2021’ dizem-nos que a tipologia de arrendamento de casa tem vindo a ganhar espaço (22%) ao regime de proprietários (cerca de 70%); que as residências secundárias têm vindo a crescer, sobretudo em regiões de veraneio, no Algarve são cerca de 40% dos alojamentos…

 1. Estamos na época do Natal e, nos textos bíblicos que escutamos alusivos aos momentos socio-religiosos do tempo, lemos: ‘e, quando ali [Belém] se encontravam, completaram-se os dias de ela [Maria] dar à luz e teve o seu filho primogénito, que envolveu em panos e recostou numa manjedoura, por não haver lugar para eles na hospedaria’ (Lc 2, 6-7).  Para além das considerações religiosas desta passagem fica a nota de que Jesus – aquele que foi dado à luz – teve de nascer num curral, sem condições higiene-sanitárias mínimas e onde a privacidade ou mesmo a qualidade da habitação seria do menos capaz. Digamos ainda que a falta de espaço na tal ‘hospedaria’ – coisa de acrescento redaccional e talvez de incidência posterior ao texto original – não passaria de um certo espaço de acolhimento de viajantes, no caso de pessoas que se teriam ido recensear a Belém em cumprimento do édito de César Augusto como se refere em Lc 2,1-2…

A nota de ‘não haver lugar na hospedaria’ pode envolver outras leituras, desde as meramente estruturais – não estavam preparados para ser ‘invadidos’ por tantos deslocados – até às de índole mais espiritual, isto é, podemos não ter espaço para receber Jesus por estarmos cheios ou entulhados de outras coisas… e as pessoas já não cabem…

 2. Quem esteja à disposição do atendimento de pessoas ou quem acolha solicitações de pessoas algo carenciadas receberá – recorrentemente, mas de forma mais acentuada em marés de crise – pedidos para ajudar a pagar a renda da casa e nos gastos – nalguns casos bastante atrasados – de eletricidade, de água, de gás… e até de comunicações… sem esquecer coisas de alimentação.

Recentemente a ‘Caritas’ nacional fez-se eco das dificuldades e das complicações de largos milhares de pessoas que solicitam ajuda nas rendas de casa: entre março de 2020 e fevereiro de 2021, mais de dez mil pessoas (acima de três mil famílias) procuraram ajuda, perfazendo mais de duzentos mil euros…

 3. Este tema da habitação trouxe-me a cogitação pequenos aspetos que poderiam ser úteis incluir na reflexão deste tempo de Natal: o que significa ter casa? Como interpretar viver numa determinada morada? Qual o alcance de dizer que vivo num certo lugar?

* Ter casa – é antes de tudo um espaço onde a pessoa se deve sentir bem, com privacidade e num ambiente que seja acolhedor, sereno e pacífico. Através da casa onde vivemos, mostramos muito daquilo que somos. A nossa casa revela-nos muito para além daquilo que julgamos…

* Viver numa determinada morada – dizer onde se tem a morada chegou a ser um dos itens identificativos da apresentação de uma pessoa perante os outros: quem é, o que faz e onde mora... A rua, o bairro, a zona, a região onde se habita também diz muito daquilo que, em cada um de nós, é feito pelo ambiente e pela cultura circundante… Mais do que uma bolha social, onde moro manifesta-me aos outros.

* Situar-se num certo lugar – sou aquilo onde nasci, fui educado pelos espaços por onde andei e manifesto, sem me dar conta, a envolvência onde estou…Sem outros filtros revelo-me onde vivo, com quem me relaciono e mesmo pelo faço (ou não). Não sou neutro, mesmo que disso pretendesse disfarçar.

Efetivamente a habitação é a minha melhor identidade, que me faz ser o que sou ou estar onde estou!     

 

António Sílvio Couto

quarta-feira, 15 de dezembro de 2021

Luz terna, suave, leva-me mais longe…

 


Rezamos no ofício de completas da quinta-feira do tempo comum: ‘Luz terna, suave, no meio da noite, leva-me mais longe… Não tenho aqui morada permanente: leva-me mais longe’.
Foi esta a sensação prática que vi retratada, depois de uma visita a uma professora aposentada de teologia e que, segundo as suas próprias palavras, está nos derradeiros momentos da sua vida em condição terrena. Ela que ensinara sobre essas questões escatológicas confessava, agora, estar prestes a ver aquilo que ensinara aos outros…

1. Percorremos mais de duzentos quilómetros, por entre trancos e barrancos, para podermos meditar na prática a vivência do ‘eschaton’ balthasariano não só da visitada como da nossa condição e conduta em tempo da história. Embora doente, a visitada estava consciente e de fina leitura da vida, mesmo que, como referiu por diversas vezes, prestes a terminar. Apesar de breves, foram intensos momentos que nos dão referência, mesmo neste tempo de Advento rumo ao Natal.

2. Deixei passar alguns dias sobre esta experiência recente para agora trazer à partilha/reflexão algo que me fez pensar ainda mais na forma como a maior parte das pessoas vai vivendo estes dias que antecedem a celebração desse encontro de Deus com a história humana pelo nascimento de Jesus, o Verbo encarnado e redentor. Mais do que rotular de futilidade a forma como uma boa parte das pessoas se preenche com coisas materiais, talvez seja de considerar o que é que ocupa e preocupa essa gente; mais do que lançar dúvidas sobre as suas razões, talvez seja útil ver as minhas razões; mais do que olhar isso de um pedestal religioso, talvez seja preferível vê-lo a partir das bases ético-morais, isto é, dos critérios e valores que são a razão profunda de ser das pessoas e dos seus comportamentos.

3. A correria às compras que necessidade preenche, a consumista-materialista ou a de índole psicológica? Se for a primeira talvez baste mudar o chip das necessidades, se for a segunda será bem mais complexo, pois demonstrará que as pessoas precisam de coisas para se afirmarem, se alimentarem e mesmo para sobreviverem. Dizia o Papa Francisco, recentemente, neste tempo de pandemia: «o consumismo, irmãos e irmãs, sequestrou o Natal. O consumismo não está na manjedoura de Belém, ali está a realidade, a pobreza, o amor... Não nos deixemos levar pelo consumismo. ‘Ah, tenho de comprar os presentes, tenho de fazer isto’, o frenesim de fazer coisas, coisas, coisas… O importante é Jesus».

4. Haverá alguma diferença palpável entre os cristãos e os que o não são, por escolha e conduta? Nota-se algum esforço e luta para contradizer as tendências dos nossos dias? Percebe-se que os cristãos – mais ou menos praticantes – atendem a estas advertências do Papa? Não andaremos mais na corrente do consumo do que na linha da contenção cristã e fraterna? Não faremos a mesma figura de culto do consumismo, quando pretendemos partilhar com quem possa precisar?
Por vezes a tendência da partilha, sobretudo nesta época do Natal, parece servir mais para esvaziar o guarda-roupa daquilo de que já não se gosta do que para abrir o coração às necessidades alheias. Roupa e mais roupa saem da circulação pela simples moda de substituir o que nos incomoda do que aquilo que devia fazer amolecer o coração para com quem possa beneficiar com o nosso esbanjamento egoísta e sedutor.

5. ‘Luz terna, suave, leva-me mais longe: basta-me um passo para a Ti chegar’. Esta súplica com que termina este hino, pode servir-nos como desejo de vivência do Natal deste ano, mais uma vez ritmado pela contenção social, pelos estados psicológicos gerados pela pandemia, aferido aos medos de contaminação e, sobretudo, acrisolado pela sensação quase-espiritual de que ainda não conseguimos discernir as verdadeiras razões de tudo quanto nos tem estado a acontecer desde há quase dois anos…
É, de facto, uma luz ténue, essa que nos guia. Deixemo-nos conduzir por ela com humildade, com carinho e em dinâmica de verdadeira conversão a Jesus, o Menino-Deus.

António Sílvio Couto

sexta-feira, 10 de dezembro de 2021

Nada (nem ninguém) deve ser levado a sério?


 Seguindo um princípio básico da comunicação – social e não só – ‘aquilo que não é mostrado não existiu’. Ora, será que aquilo que é noticiado é o mais necessário e conveniente? O que é escrito é, de facto, verdade? Quanto aparece na televisão é válido para a vida – social, económica, política ou religiosa – mais essencial? Até onde podemos levar a sério aquilo que nos mostram? Não haverá muita efabulação – no sentido de exagero ou mesmo de quase-mentira – naquilo que aparece nas redes sociais? Até onde irá o resguardo das pessoas quanto àquilo que são ou que pretendem fazer os outros crer?  

 1. Não sou consumidor de telenovelas e tão pouco acho que possam fazer algo de válido pela ‘educação’ do povo, mas que podem fazer-nos correr alguns riscos, estou minimamente consciente. Poderemos inserir isso a que pretendem chamar de ‘entretenimento’ nalgumas linhas-força para uma possível reflexão: retratam a sociedade ou influenciam-na? Servem os interesses ideológicos ou veiculam ideias subliminares posteriores? Criam dependências ou fazem pensar? São emocionais ou do âmbito intelectual?

Por ser um retrato algo burlesco de algumas figuras da vida social, que dizer de ‘Festa é festa’…antes ou agora? Os políticos serão todos como os que por lá deambulam, num misto de parvo e quase-mentecapto? Os padres são aquilo que ali mostram, numa espécie de bonacheirão sem coluna? Os médicos reveem-se naqueles ali apresentados, sem qualidade nem mérito? As famílias serão todas tão ignóbeis e insanas? Os jovens não mereciam outro tratamento menos anódino? Os comerciantes ou vendedores usarão todos dos mesmos artifícios? Os velhos e anciãos serão dignificados com tais figuras rasteiras e oportunistas?

Dá a impressão que nada nem ninguém é sério (honesto ou leal) nem pode ser levado a sério (vive numa representação), mas a vida normal não é aquilo…nem será.

 2. Neste tempo assaz caraterizado pelo ‘faz-de-conta’ e ainda pelo espreitar pela fechadura nas redes sociais da vida alheia, podemos e devemos questionar os valores e os critérios com que tantas pessoas se conduzem. - Aquilo que os jornais regionais e de âmbito local faziam, está, hoje, como que posto em causa pelos ‘repórteres’ populares, enxameando de populismo pequenos episódios, alguns acontecimentos e quase-ridículos atores…

- Aquilo que era feito pelos jornais regionais, há trinta ou quarenta anos atrás, como que tem sido varrido para debaixo do tapete da informação avalizada como suspeitas, conjeturas e acusações, lançando o labéu sobre quem não alinha em tais artimanhas.

- Com que facilidade vemos emergirem certos ‘patos-bravos’, que de microfone em riste, tentam que lhes digam aquilo que foi encomendado – até para manter o share – ou que lhes foi soprado por algum mais ressabiado que pode colocar de atalaia outros incautos. Certos temas cheiramo-los a quilómetros como matéria suscetível de flutuar durante uns dias, sem honra nem glória… De ‘nação valente’ temos ali muito pouco e de ‘imortal’ mesmo nada.

 3. Decorridos mais de seiscentos dias (igual ou superior a vinte meses) de vigência da pandemia nota-se uma conglomeração de fatores que fazem deste tempo algo apreensivo, inquietante ou à procura de paz.

- Parece que o ‘covid-19, afetou a moleirinha de uma parte significativa das pessoas, tornando-as apreensivas sobre o seu teor de saúde e um pouco não-recomendável sobre a apreciação das situações pessoais e coletivas…simples ou mais complexas.

- Quem ontem parecia equilibrado, hoje precisa de consulta urgente no psicólogo. Quem há meses entendia os problemas, hoje fá-los tão graves ou quase-irresolúveis. Quem ontem nos dava segurança, hoje precisa de se sentir seguro ou, pelo menos, segurado.

- Como sempre em maré de crise é preciso que surjam pessoas capazes de saberem transmitir a paz, não como questiúncula de equilíbrio dos medos, mas como participação na confiança de todos para com todos, sem discriminações nem abandonos ou fugas.

Levar a sério os outros poderá ser a melhor forma de sermos construtores de um tempo mais cristão, já.

 

António Sílvio Couto      

quinta-feira, 9 de dezembro de 2021

Ó céus do alto rociai

 


Escutei, há dias, este cântico:

Ó céus do alto rociai. / O justo, ó nuvens chovei.

Germine a terra o seu Deus. / O Adonai, nascei, nascei’.

 Embora seja apresentado, nos meios da internet, como de autor desconhecido e com sabor popular, recordo-me de escutar este cântico em contexto litúrgico e sendo atribuído a um autor bracarense.

Como expressão orante do tempo do Advento pode servirnos para reparar nalguns aspetos nesta preparação em ordem ao Natal.

Desde logo o que significa: ‘rociai’? É uma palavra de origem latina (roscidare, roscidus) e significa: cair orvalho, orvalhar...numa súplica voltada para o Alto e em atitude de abertura à condução divina...na terra.

 1. Por vezes ouve-se de algumas pessoas uma observação que tem tanto de interessante quanto de esquisita: vou ao menos à ‘missa da galo’... no resto do ano não tenho tempo e nem sempre me apetece. Quem tal refere poderá ter as suas convicções religiosas, mas talvez não assentem em alicerces cristãos. Quem tal se considere ‘praticante’ poder-se-á iludir com rituais, mas sem fundamentação cristã. Quem tal faz será crente ou meramente religioso, à sua maneira?

 2. Por outra perspetiva vou constatando que alguns dos nossos fregueses – no sentido etimológico do termo, da procedência do latim: ‘filius ecclesiae’ (filho da igreja) – frequentam as celebrações do Natal, mas não fizeram com os outros a preparação do mesmo, pela caminhada do tempo do Advento, esse mesmo colocado na dinâmica liturgico-eclesial para ser preparação da ‘vinda do Senhor’. Efetivamente muitos dos nossos ritos, ainda sociais de cristandade, parecem ter pouco a ver com aquilo que se poderá designar de compromisso, isto é, cada um vai ou não, conforme lhe dá jeito; cada um vai aqui ou ali à missa (de domingo ou outra) mais em conformidade com os seus interesses do que com o vínculo que sente e que vive com aqueles com quem celebra a fé; cada um – e são tantos – usa das coisas da Igreja mais em função da sua conveniência do que em razão de uma caminhada comprometida...

3. Os ecos e repercussões deste tempo de pandemia como que vieram agravar o razoável descompromisso de uma boa parte dos nossos fregueses. Estamos a pagar a fatura de termos andado a dar sacramentos a pessoas não-evangelizadas. Muitas das celebrações do batismo são realizadas mais em razão da festa do que em consonância com a fé mínima e suficiente. A maior parte dos casamentos são feitos na igreja, mas muito pouco em sintonia com a Igreja. Uma percentagem dos crismados são aceites mais no termo de um tempo de ‘catequese’ do que pela catequização desenvolvida... o sinal vê-se nos dias seguintes à cerimónia – quando devia ter sido celebração – na ausência à assembleia celebrante...

 4. De que adianta haver uns tantos que se dão ao cuidado de denunciar, de esgrimirem razões ou de se empenharem em soluções, senão houver um plano diocesano no qual todos se comprometam? Está em desenvolvimento o processo sinodal em toda  a Igreja e nas igrejas particulares (dioceses e paróquias), mas quem leu os textos de preparação emanados da Santa Sé? Quem quis refletir sobre as dez questões preparatórias do Sínodo? Quem já designou os dinamizadores dos grupos sinodais?

5. Por estes dias soube do estado de saúde de duas pessoas que muito estimo: o Padre Francisco de Jesus Graça e a Professora doutora Manuela Carvalho. Por interposto amigo escutei o desprendimento de ambos desta face da vida: um e outra sentem-se a ir para o Natal eterno da ressurreição. Não será isto o orvalho de Deus a espargir-se sobre a Terra?

 

António Silvio Couto

segunda-feira, 6 de dezembro de 2021

Estará o Natal em risco?

 


Soube-se, há dias, que circulava nos meandros burocráticos da União Europeia (Bruxelas e Estrasburgo) uma proposta de linguagem de onde seriam retirados os termos alusivos ao Natal e àquilo que isso representava. Sabido tal intento, o Secretário de Estado do Vaticano fez saber da reprovação de tais desejos e – ao que parece – o ‘documento de trabalho’ foi retirado de circulação.
Este mais do que episódio fez emergir a consciencialização de que há forças – pretensamente democráticas – que não sabem lidar com a história e tão pouco a memória da Europa com raízes cristãs fundadas no cristianismo, sem esquecer o contributo de outras ‘religiões’, embora mais recentes e menos representativas.
Apesar de ser incomodamente unitivo da identidade deste continente é recorrente surgirem ‘iluminados’ que pretendem ignorar tudo isso, augurando fazerem-se capazes de construir ‘uma’ nova história, reescrita com os seus critérios e ao sabor dos seus intentos subterrâneos.
Partindo da palavra ‘Natal’ construímos uma frase com as iniciais dessa mesma palavra –‘Nasceu aqui tanta aprendizagem da liberdade’ – que desenvolveremos nalgumas ideias simples e algo básicas:

* Nasceu – celebramos por excelência no Natal a manifestação da vida, esse valor de tantas formas questionado na letra e na forma por instâncias europeias e por muitos dos seus cidadãos. Com efeito, o Natal denuncia o aborto, a eutanásia e tantas outras formas atentatórias da vida, o principal valor e critério de conduta humana e civilizacional. Por que será que custa a tanta gente aceitar a vida como dom? Se retirarmos a vida que nos ficará de essencial? Certos gestos de fechamento à vida não denunciam a ética de tantos sem moral?

* Aqui – é nesta parte do planeta Terra, de entre os seis continentes, que se tem construído uma civilização tão antiga quão questionável e necessitada de ser revista. A Europa como continente tem as seguintes caraterísticas: área de 10.480.000 Kms2; população: 762,1 milhões; 49 países, dos quais 27 fazem parte da União Europeia e destes 19 têm o euro como moeda única. É neste continente, ‘aqui’, que se continua a fazer civilização, com o confronto de ideias, onde muitos usufruem das regalias da UE, embora a contestem!

* Tanta – perante os sucessos nos diversos campos da atividade, os europeus devem, hoje, saber respeitar também os valores dos povos de outros continentes. Embora se note uma certa estagnação espiritual e religiosa na Europa, precisamos de aprender a revalorizar as expressões culturais de outros povos, onde também o cristianismo tem força de fé e de vida. Efetivamente vemos, de tantos modos e vivências, que o anúncio do Evangelho tem ganho nova expressão cultural com que ardor e motivação.

* Aprendizagem – ao longo dos séculos, podemos constatar como o Natal foi sendo vivido sem se descentrar. Sobretudo após a refontalização de S. Francisco de Assis, no século XIII, o Natal passou a ser ainda mais cristão: o presépio fez ganhar nova vivência o mistério da encarnação do Verbo, pois é Jesus-Menino o centro da festa, isto é, o festejado. Com o consumismo em crescendo, Ele foi quase sendo obnubilado pelas coisas, chegando-se, agora, à sobreposição das prendas sobre o verdadeiro presente, que é Ele. Esta aprendizagem faz-nos caminhar para não perdermos o essencial com adereços de circunstância…

* Liberdade – como valor inestimável sempre norteou o comportamento, sobretudo, na Europa. Percorridos tantos séculos de história podemos compreender um tanto melhor que a liberdade de pensamento, de ação ou de expressão foram cultivados por boa parte dos europeus e, mesmo quando isso não aconteceu, sempre surgiram vozes e personalidades a reclamarem dessa ausência. Não podemos excluir dos nossos dias a possibilidade de termos de fazer com que a liberdade seja sempre um valor que nos trazido pelo mistério do nascimento de Jesus, no tempo e na história.
Hoje como ontem, é em Jesus, por Jesus e com Jesus – senhor da vida e da morte – que poderemos viver em fraternidade, pela igualdade e com liberdade… o resto soará a falso e/ou a manipulação ideológica.

António Sílvio Couto

quinta-feira, 2 de dezembro de 2021

‘Memórias do rio’


 Decorreu, no passado dia 1 de dezembro, na biblioteca municipal da Moita, um colóquio intitulado – ‘Memórias do rio’ – sobre vivências de antanho em ligação ao Rio Tejo. Escutaram-se testemunhos de homens com larga e longa história de vida e ainda ressonâncias de uma delegação dos avieiros de Santa Iria da Azóia, bem como leituras e interpelações do pároco da Moita.

Foram intensos momentos de partilha e onde se notou mais do que laivos de revivalismo, sendo, no caso dos avieiro, destacado o papel da mulher no contexto das atividades ligadas ao rio e à gestão da família.

O quadro evolutivo de um dos participantes, hoje com mais de noventa anos, na relação com o trabalho no rio, a depuração das ostras ou a ‘emigração’ dos avieiros para a zona norte do Tejo bem como a arte de construção das velas para os barcos típicos do rio, foram aspetos escutados por algumas dezenas de interessados, sobretudo procedentes das freguesias do Gaio-Rosário, Moita ou Sarilhos Pequenos.

Foi abordada ainda a ‘religiosidade com sabor a sal’, na linha do ‘Stella maris’ ao nível internacional e nacional. Nesse contexto foi feita uma observação sobre o brasão do município da Moita, onde não consta nada alusivo à relação concelhia com o Tejo (só aparecem referências ao mundo rural: sobreiro e uvas), enquanto as ‘armas’ das três freguesias da paróquia da Moita realçam esse aspeto de forma clara (barcos, utensílios marítimos e alusão à água)... Afinal, como se diz numa inscrição na zona do cais da Moita: ‘nesta terra quem não cava, já cavou; quem não rema, já remou’!

Como conciliar mentalidades?

A realidade socio-cultural da Moita talvez não tenha apreciado, valorizado nem favorecido devidamente a sua relação com o rio. Se em tempos foi factor de trabalho e de sobrevivência para alguns setores – diga-se, os mais pobres – nas últimas décadas o desfasamento parece mais acentuado. Se bem que aquela frase epiteto supra citada como que conglomera as duas vertentes socio-económicas – o campo (cavar) ou o rio (remar) – não foi tido o cuidado necessário e suficiente para com a dimensão marítima. Talvez seja digno de registo – atendendo às pessoas presentes no colóquio efetuado – e deva ser dito que se nota um razoável hiato geracional: bastante velhos e gerações na barreira de menos de vinte anos, sem esquecer os filhos daqueles que viveram das coisas do rio.

É neste sentido de recolocar o rio como ponto de referência na cultura da Moita que o emergente grupo do ‘Stella maris’ pretende acolher, motivar e dinamizar as pessoas para com este amigo nem sempre bem tratado, que é o Rio Tejo.

Como se dizia num panfleto difundido por ocasião deste colóquio que «são âmbitos de ação do Stella Maris – Moita do Ribatejo as pessoas e organizações ligadas ao mar e aos rios, seja ao nível profissional (marinha mercante ou pesca) bem como às atividades desportivas, lúdicas e de lazer e ainda as agremiações de defesa e conservação do mar e dos rios, ajudando a promovendo uma maior sensibilidade ecológica. O atendimento às famílias das pessoas envolvidas nestes sectores. A promoção e o acompanhamento das atividades com aplicações culturais e religiosas de índole marítimo e fluvial».

Este primeiro colóquio promovido pelo ‘Stella maris’ da Moita prosseguirá em breve com outros temas ligados ao rio, onde a ecologia, o ambiente e os desportos náuticos e de recreio poderão estar em análise.

De referir que o grupo do ‘Stella maris’ da Moita tem por patrono São Pedro Gonçalves Telmo (São Telmo), protetor dos navegantes.



António Silvio Couto

quarta-feira, 1 de dezembro de 2021

Competência e lealdade

 


Recentemente ouvi de um político a conjugação destes dois termos numa tentativa de definir quais seriam, na sua perspetiva, os critérios de escolha dos candidatos a deputados.

Tentando, na medida possível, despojar de incidência ideológica o assunto, aceito tomar estas duas palavras para fazer um percurso humano-cultural onde estes dois fatores podem e devem estar (mais) presentes do que aquilo que parece ter acontecido.

 1. Definição de termos. ‘Competência’ significa ‘capacidade decorrente do profundo conhecimento que alguém tem sobre um assunto’… essa capacidade advém-lhe da conjugação dos seus conhecimentos, habilidades, atitudes e valores, que lhe permitem desempenhar eficazmente, no desenvolvimento de várias situações, numa área específica… ‘Lealdade’  é um ‘valor humano relacionado com a capacidade de uma pessoa ser plenamente confiável, manter a sua retidão moral, honestidade e honrar os seus compromissos’… manifestando-se na plena confiança entre os intervenientes e no cumprimento do compromisso assumido…

 2. Atendendo a estas definições descritivas poderemos abordar aspetos mais práticos, onde a teoria não poderá ser esquecida e onde a prática possa ser a melhor prova de competência e de lealdade. Seria quase trágico que tivéssemos pessoas que são competentes mas não leais ou que se dissessem leais mas não são competentes. Com efeito, dos ‘competentes, mas não leais’ poderíamos esperar a qualquer momento um golpe de habilidade que romperia a confiança entre as pessoas que seriam enganadas, mas que só o descobririam tarde de mais. Por outro lado, os ‘leais não competentes’ poder-se-ão tornar lacaios e aduladores que mais tarde ou mais cedo poderão tornar-se traidores e até incapazes de desempenhar alguma função para a qual não estariam preparados, mas a que acederam por mera simpatia a gosto…

3. Por que será, então, que vemos tantos incompetentes a ocupar lugares para os quais não estavam, minimamente, preparados? Por que temos de aturar o clientelismo e não a meritocracia? Por que andamos a encobrir os incompetentes, quando os devíamos denunciar e de lhes tirar as regalias dos seus postos? Não haverá deslealdade ao pactuarmos, em silêncio, com certas tropelias de quem nos governa, antes governando-se? Por que será que a incompetência é tão atrevida e se faz pagar com benesses e prebendas?

 4. Parece que estamos num tempo onde (quase) tudo é escrutinado, desde as coisas mais mesquinhas até às ações mais hediondas. Dá a impressão que nada escapa, à exceção da incompetência. Por isso, como que somos tentados a pensar que esta letargia de incompetência em quem a cuide e deseje prolongar, pois talvez possa beneficiar com tais desgovernos. Na política de trazer por casa podemos ver a situação da (pretensa) transportadora aérea nacional: é o exemplo máximo de incompetência e até de deslealdade, pois nela têm sido enterrados rios de dinheiro e nada muda, pelo contrário mais se afunda. Para quando uma solução radical como a encontrada para os estaleiros navais de Viana do Castelo: fecha e dá lucro! Talvez falte vontade de solucionar o problema a sério…

 5. Agora que caminhamos a passos lestos para o próximo ato eleitoral será de questionar seriamente se vamos ter de votar nos mesmos, que já deambulam pelo Parlamento à sombra dos direitos adquiridos, se nos vão apresentar novas figuras – competentes e leais mais ao país do que ao partido… isto já para não referir, se será ao lóbi, à tendência ou à ideologia. Haverá inda quem se queira sujeitar ao escrutínio nem sempre respeitador da pessoa e mesmo da família? Não teremos muita gente competente que não está para ser confundida com algum chafurdar obscuro e menos leal?

Seja qual for o campo de atividade em que nos poderemos colocar, talvez se possa resumir a consonância entre estes dois valores: competência sem lealdade pode gerar proselitismo… Lealdade sem competência pode fomentar adulação.

  

António Sílvio Couto