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quinta-feira, 14 de julho de 2016

Inverter o reverter, quando?


Depois da euforia provocada pelas vitórias no futebol. Digeridas algumas vitórias pírricas das forças (partidárias e sindicais) que apoiam o atual governo. Intoxicados pela desinformação sobre as penalizações da União Europeia à superação da taxa de não-cumprimento do défice das contas públicas. Embalados pelos (pretensos) sucessos dalgumas medidas sociais. Desassustados das consequências da saída do Reino Unido da UE… Vivemos na expetativa dos jogos olímpicos. Perguntamo-nos sobre as causas/acontecimentos que irão preencher a silly season, que se aproxima. Como vão ser decretadas e quais as sanções da UE. Como irá o governo dar conta das medidas altissonantemente apregoadas…

Há, no entanto, uma questão de fundo que não aparece nos mais recentes fait-divers à portuguesa: não teremos de inverter o reverter para termos futuro a curto e médio prazo? Quando assumirá quem ocupa a cadeira – às vezes parece mais poltrona ou varanda de espetáculo – do poder as medidas corretas para que Portugal seja um país credível, seja quem for que exerça o poder?

De facto, os nossos políticos falam grosso nos palanques internos onde intervêm, mas jogam pianinho quando estão lá fora. Vemo-los cheios de razão na comunicação social que lhes dá cobertura – sabe-se lá que favores estão a receber ou a pagar! – mas parecem gatinhos amestrados quando enfrentam quem os avalia e escortina… a eles e como a nós, como Nação e Pátria. 

= Já sabemos por experiências anteriores que certos setores ideológicos quando atingem o poder – desde autárquico até regional ou nacional – abrem os cordões à bolsa, que não ajudaram a encher. Também já sabemos, por experiências dos últimos trinta anos, que, após passarem pela governação, é preciso solicitar a intervenção e ajuda de entidades estrangeiras, que capitalizam a economia, mas nos fazem sofrer agruras e sacrifícios. Vimo-lo nos anos mais recentes e nem assim conseguimos aprender a lição…  

= Mesmo que distraídos pelas façanhas do futebol, não perdemos a noção daquilo que tem estado em causa na nossa vida pública e social. Com efeito, podem tentar reverter números e estatísticas. Podem branquear insucessos e erros. Podem fazer retrospetivas mais ou menos acutilantes para com quem governou anteriormente… Devem assumir que, se assaltaram o poder, têm de aguentar com as consequências de agora terem de ser menos agradáveis ou até cúmplices daquilo que antes combatiam. Não foi a assunção – rápida, sem diálogo e à medida dalguém mais subtil – das dívidas de um banco nos últimos dias do ano passado que fez disparar a dívida pública? Não quiseram dar tudo de forma rápida e sem medir o que viria? Então, têm de ter a coragem de arcar com as consequências de serem menos adultos nas decisões que tomam… 

= Como é paciente o nosso povo. Tem uma capacidade de resistência – agora dizem de resiliência – a quase tudo…até daqueles que o engana vezes sem conta.

Por muito que se pretenda por agora louvar os emigrantes, temos de aprender com eles. Perguntem-lhes como interpretam esta bagunça em território nacional. Alguns daqueles que agora os engrandecem foram os mesmos que lhes criaram condições para saírem do torrão-natal. O país tem uma dívida para com esses homens e mulheres que criaram riqueza lá como cá. Muitos vingaram em território estrangeiro e são explorados quando nos visitam.

Os políticos profissionais pouco têm feito pelos emigrantes, embora se banqueteiem nas festas que por cá são feitas e por lá os agregam. Não foram as ideologias reinantes em Portugal que melhor têm compreendido as iniciativas dos nossos emigrantes. A muitos dos nossos políticos falta-lhes ter vivido a experiência de sofrerem para subir na vida, como aconteceu (e acontece) com os cinco milhões de portugueses na diáspora. A sua vivência é digna de ser tomada como exemplo da nossa identidade lusitana. Como temos já citado essa frase dum avô a um neto que reclamava junto do avô que nós fomos aventureiros e fomos capazes de dar novos mundos ao mundo e agora somos tão pobres, ao que o avô respondeu: neto, nós somos descendentes dos que por cá ficaram!   

 

António Sílvio Couto 

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