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quinta-feira, 17 de maio de 2018

Clima de violência…social, desportiva e cultural


Nos últimos dias, semanas e meses temos vindo a assistir a um crescendo progressivo de múltiplos sinais de violência – verbal, psicológica, emocional, física e até cultural – na sociedade ocidental no genérico e em particular em Portugal. As pessoas parecem mais irritadiças, por pouco ou quase nada entram de discussão. Já quase não se conversa, mas antes se grita e agride. Uma mera troca de opiniões gera uma convulsão tal, que se percebe mais ou menos como começa, mas não se prevê como poderá acabar.

Dá a impressão que um certo apaziguamento de conflitos bélicos – há mais de setenta anos que não uma guerra que envolva toda a Europa…à exceção de certas escaramuças nos Balcãs e países satélites saídos no bloco de leste – tem vindo a arrolhar nas pessoas sentimentos de violência capazes de serem despoletados – no sentido verdadeiro do termo de tirar a espoleta ou o detonador – em pequenas doses e sorvidas em tragos de intolerância…quanto baste.

Por muito que se pretenda disfarçar, há sinais preocupantes para o nosso futuro próximo, pois certos espaços de atividade humana e com alguma dose de pacificação, como era o desporto (nas várias modalidades), são, hoje, âmbitos de potencial conflitualidade e campos (ringues, pistas ou academias) de batalha, quase como rastilhos para uma sociedade em crise de identidade e sem objetivos comuns. Nalguns casos adeptos, simpatizantes ou associados da mesma agremiação agridem-se como se fossem inimigos figadais e alvos a abater na prossecução de planos mais elaborados…sabe-se lá de quem!

Houve tempos em que o espaço do desporto tentou viver à parte do resto da sociedade. Muitas das leis de âmbito civil nesta esfera não tinham intervenção. Contratos e negócios estavam fora do alcance até das leis de mercado… Como é que se falavam de milhões investidos e se pagavam tostões ao fisco? Como é que havia os contratos registados e fora de mão se ouvia enormidades sem controlo? Como é que certos autarcas eram, em simultâneo, ocupantes do poder e dirigentes do clube mais popular da região? Como é que responsáveis político/partidários se pavoneavam nas tribunas em dias de jogos e se tornavam mãos largas a partir das instâncias de governação? Por que razão tínhamos todos de saber qual a simpatia clubística do chefe do partido – ao nível nacional ou local – como se isso fosse campo de conquista de votos na hora de os angariar e contar?

Mais tarde ou mais cedo – talvez a hecatombe venha daqui a breves anos – o conluio entre política e desporto tinha de ser desmascarado. Não nos venham tentar ludibriar com a colaboração entre as várias forças, pois, quando está dinheiro e poder em jogo, logo se corre o perigo de algum deles vir a perder e, pelo desinteresse já verificado pela política, não faltará muito para que estádios, pavilhões e ruas fiquem vazios pelo desinteresse, a revolta e mesmo a desilusão…

Há urgência em fazer com que o desporto esteja inserido na normalidade da sociedade…dita democrática. Algum crime praticado no âmbito desportivo tem de ser regido pelas leis gerais do país, da União Europeia e da normalidade internacional. Corrupção, violência, fuga aos impostos, contratos de trabalho, fundos de publicidade, transmissões televisivas, ordenados e vencimentos, subsídios e comparticipações (estatais, autárquicas, pessoais e/ou coletivas)…e tantos outros temas… têm de estar sob a alçada da lei e não num mundo aparte e segundo regras sombrias, nebulosas ou quase criminosas.

Diz a sabedoria popular – não basta chorar sobre leite derramado. Ora, é precisamente sobre esse ‘leite derramado’ da incompetência em tratar estes assuntos, que temos todos, como cidadãos conscientes, de fazer cumprir as leis da república, exorcizando quem não queira, não saiba ou lhe interesse cumprir as regras da vida pública.

Enquanto é tempo tentemos atalhar e combater indícios preocupantes de fações subterrâneas que vão sobrevivendo sem serem apanhadas. Os tentáculos mostrados por estes dias não podem ser motivo de continuar neste ‘faz-de-conta’ que nos carateriza, como lhe chamou o presidente da república.

Muitas destas coisas podem ser revelação de que há muita gente – alguns bem novos – que vive sem trabalhar e com proventos capazes de os manter no mundo da marginalidade, senão mesmo da criminalidade. Iremos pagar, com valor acrescentado, estes sinais de violência social e cultural…manifestada no desporto!

 

António Sílvio Couto

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