Partilha de perspectivas... tanto quanto atualizadas.



sexta-feira, 16 de agosto de 2019

Qual a conexão entre Assunção e ser padre?


A lista de padres ordenados em 15 de agosto é significativa. Talvez seja a data em que se verificam – desde há longos anos – mais aniversários de ordenação de padres e até de alguns que agora são bispos (6). O número global é de 241… na sua maioria das dioceses de Braga, Viana do Castelo, Coimbra, Porto, Leiria-Fátima e Lisboa…à mistura com alguns de Lamego e de Santarém. Neste ano nota-se a ocorrência de diversas efemérides de jubileu, sobretudo de ‘bodas de ouro’ sacerdotais.

Apesar de esta data ter sido escolhida, sobretudo, na década de 60 do século passado – na maioria dos casos por ocasião do Concílio Vaticano II – haverá alguma simbologia na preferência e no seu significado? Como se pode fazer a correlação entre o mistério celebrado e o ministério exercido? Como poderemos articular as diversas incidências entre a dimensão mariana e a expressão de sacerdócio ministerial?

Deixo aqui a reprodução de um texto medieval sobre o ministério sacerdotal, encontrado em Estrasburgo, França, tentando colocar as linhas essenciais sobre aquilo que, envolto em consonância, poder-nos-á aferir à mais profunda conexão teológica, espiritual e cultural…entre a Assunção de Nossa Senhora e o ser padre.

«Ser padre é ser grande e pequeno

Nobre de espírito como sangue real,

Simples e natural como de húmus camponês.

Um herói na conquista de si,

Um homem que se bateu com Deus,

Uma fonte de santificação,

Um pecador perdoado,

Um homem mestre dos seus desejos,

Um servidor para os tímidos e os fracos,

Que não se humilha diante dos poderosos

Mas se curva diante dos pobres».

Respiguemos, agora, aspetos contidos em mensagem neste texto.

Desde logo o grande mistério de um ser humano ter sido chamado a exercer funções de incidência divina. Com efeito, ser padre é uma graça, um chamamento e uma vocação… onde o mistério divino como que suplanta todas as condicionantes humanas, muitas delas bem mais profundas do que é percetível à compreensão natural. Quantas vezes Deus chama alguém que até nem é o mais dotado – humana, intelectual ou economicamente – e, ao lado, fica outro (ou outros) que teria mais condições de ser isso que se pensava poder preencher os requisitos de tal tarefa… Quantas vezes uma família acolhe esse dom de um filho chamado ao seminário com tantos e heroicos sacrifícios, enquanto outros mais abonados até ao nível financeiro se retraem coartando uma possibilidade de discernimento vocacional a longo prazo… Quantas situações vi, conheci e senti de rapazes bons para poder vir a ser padres e foram ficando pelo caminho, embora fazendo, hoje, em muitas localidades, as referências humanas e culturais…

Efetiva e afetivamente a conexão entre a celebração da Assunção de Nossa Senhora e o ministério sacerdotal faz-se nessa imensa visão de estarmos de olhar voltado para o Além, numa tentativa de sermos nesta condição terrena as sentinelas divinas e os mensageiros da profecia de Jesus Cristo.

O cântico do Magnificat (Lc 1,46-55) resume tanto a vivência de Maria, na sua expressão máxima pela solenidade da Assunção, como é (ou pode ser) projeto de vida para qualquer padre ao longo do exercício do seu ministério. Assim o consigamos entender, viver e testemunhar!    

 

António Sílvio Couto

segunda-feira, 12 de agosto de 2019

O que é a ‘ideologia de género’?


Desde há uns tempos a esta parte – ocidental e, sobretudo, europeia – que temos vindo a assistir à substituição da referência ao sexo (masculino ou feminino) pela palavra ‘género’, parecendo com isso estarmos a falar de algo diferente/igual, misturando-se conceitos, terminologias e vivências com algo mais abrangente e, talvez, menos concreto porque um tanto irreverente.

Para abordarmos este tema vamos servimo-nos de um documento (carta pastoral) da Conferência Episcopal Portuguesa sobre o assunto, com data de 14 de novembro de 2013, intitulado: ‘A propósito da ideologia de género’.

«Difunde-se cada vez mais a chamada ideologia do género ou gender. Porém, nem todas as pessoas disso se apercebem e muitos desconhecem o seu alcance social e cultural, que já foi qualificado como verdadeira revolução antropológica. Não se trata apenas de uma simples moda intelectual. Diz respeito antes a um movimento cultural com reflexos na compreensão da família, na esfera política e legislativa, no ensino, na comunicação social e na própria linguagem corrente (...) Opõe-se radicalmente à visão bíblica e cristã da pessoa e da sexualidade humanas (...) Trata-se da defesa de um modelo de sexualidade e de família que a sabedoria e a história, não obstante as mutações culturais, nos diferentes contextos sociais e geográficos, consideram apto para exprimir a natureza humana».
* O que é, essencialmente, a pessoa humana?
Perante certos interesses de grupo – comummente chamados de lóbis – como que precisamos de ir ao essencial. O documento da CEP refere «porque a pessoa humana é a totalidade unificada do corpo e da alma, existe necessariamente, como homem ou mulher. Por conseguinte, a dimensão sexuada, a masculinidade ou feminilidade, é constitutiva da pessoa, é o seu modo de ser, não um simples atributo. É a própria pessoa que se exprime através da sexualidade. A pessoa é, assim, chamada ao amor e à comunhão como homem ou como mulher. E a diferença sexual tem um significado no plano da criação: exprime uma abertura recíproca à alteridade e à diferença, as quais, na sua complementaridade, se tornam enriquecedoras e fecundas».
Os tais grupos de interesses, muitos deles bem estruturados no âmbito mesmo transnacional, «afirmam que o ser masculino ou feminino não passa de uma construção mental, mais ou menos interessada e artificial, que, agora, importaria desconstruir. Por conseguinte, rejeitam tudo o que tenha a ver com os dados biológicos para se fixarem na dimensão cultural, entendida como mentalidade pessoal e social
».
A carta pastoral da CEP, resume deste modo aquilo de que consta a ideologia de género: «como uma antropologia alternativa, quer à judaicocristã, quer à das culturas tradicionais não ocidentais. Nega que a diferença sexual inscrita no corpo possa ser identificativa da pessoa; recusa a complementaridade natural entre os sexos; dissocia a sexualidade da procriação; sobrepõe a filiação intencional à biológica; pretende desconstruir a matriz heterossexual da sociedade (a família assente na união entre um homem e uma mulher deixa de ser o modelo de referência e passa a ser um entre vários)».
* Quais os pressupostos da ideologia de género?
Nesse desejo de desconstruir os conceitos, a sociedade e os compromissos alicerçados na cultura judaicocristã, a ideologia de género – no resumo da carta pastoral da CEP – apresenta os pressupostos seguintes:
– parte da distinção entre sexo e género, forçando a oposição entre natureza e cultura. O sexo assinala a condição natural e biológica da diferença física entre homem e mulher;
– o género deve sobrepor-se ao sexo e a cultura deve impor-se à natureza;
 o género não tem de corresponder ao sexo, mas pertence a uma escolha subjetiva, ditada por instintos, impulsos, preferências e interesses, o que vai para além dos dados naturais e objetivos;
– se é indiferente a escolha do género a nível individual, podendo escolher-se ser homem ou mulher independentemente dos dados naturais, também é indiferente a escolha de se ligar a pessoas de outro ou do mesmo sexo... com a equiparação entre uniões heterossexuais e homossexuais;
– deixa de se falar em família e passa a falar-se em famílias... não se fala em paternidade e maternidade e passa-se a falar, exclusivamente, em parentalidade, criando um conceito abstrato, pois desligado da geração biológica.
* Implicações sociais, políticas e culturais
Para ser dado corpo a estes pressupostos foi-se gerando uma mentalidade mais ou menos aceite - a discordância logo faz surgir a rotulagem homofóbico ou conservador - e traduzida em leis que favorecem este ambiente de ideologia de género.
Outro âmbito de difusão da ideologia do género é o do ensino, nomeadamente na educação sexual que pretendem ministrar em meio escolar, confundindo, por vezes de forma acintosa, os conteúdos naquilo que se refere à sexualidade e ao (tal) género. 

A ideologia de género tem tentado impor – mais pela força de alguma comunicação social da sua tendência do que pela convicção de uma grande parte da população – uma certa revolução antropológica, onde o relativismo moral se faz regra de cada um, impondo-se ao geral.

A mudança está em curso. Será que o cristianismo será capaz de não ser vencido como no dealbar da sua implantação sobre a corrupta sociedade romana? O sal não pode perder a capacidade de continuar a salgar, hoje como ontem!

 

António Sílvio Couto

 

domingo, 11 de agosto de 2019

Pardais com garras de abutre…



Lê-se numa passagem bíblica:
«Foram uma vez as árvores a ungir para si um rei, e disseram à oliveira: reina tu sobre nós. Porém, a oliveira disse-lhes: deixaria eu a minha gordura, que Deus e os homens em mim prezam, e iria pairar sobre as árvores?
Então, disseram as árvores à figueira: vem tu, e reina sobre nós. Porém, a figueira disse-lhes: deixaria eu a minha doçura, o meu bom fruto, e iria pairar sobre as árvores?
Então, disseram as árvores à videira: vem tu, e reina sobre nós. Porém, a videira disse-lhes: Deixaria eu o meu mosto, que alegra a Deus e aos homens, e iria pairar sobre as árvores?
Então, todas as árvores disseram ao espinheiro: vem tu, e reina sobre nós.
E disse o espinheiro às árvores: se, na verdade, me ungis para rei sobre vós, vinde, e confiai-vos debaixo da minha sombra; mas, se não, saia fogo do espinheiro que consuma os cedros do Líbano
» (Jz 9,8-15).
Esta caraterização, procedente de uma leitura religiosa das coisas sociais e políticas, no contexto judaico, como que pode servir de enquadramento de certas figuras que vêm emergindo no nosso tecido político-sindical. Com efeito, se quisermos abordar algumas questões poderemos ver que algumas das ‘aves’ de serviço, que sobrevoam os nossos espaços, nem sempre o fazem com as intenções mais sinceras, honestas e leais… e não interessa o porte da espécie!
A conjuntura deste tempo de férias fez aparecer uma outra confluência de exclusão para com certas reivindicações, porventura mais aceitáveis noutra época do ano. Muitos dos usufruidores das férias consideraram uma espécie de provocação as reivindicações de alguns transportadores de recursos comerciais – matérias combustíveis, artigos de alimentação, trocas e vendas, etc. – que não souberam escolher o timing de protesto, mesmo que isso até possa ser aceitável e correto.
As forças (ditas) trabalhadoras no atual protesto foram como que encurraladas pelos patrões e por quem governa o país. A menos de dois meses de eleições tais desarranjos não vem nada a favorecer  essa tal ‘paz social’, apelidada mas não segura por quem manda... Esta intromissão na engrenagem de sucesso poderá ter efeitos nem sempre previsíveis e tão pouco favorecedores da onda pré-anunciada de vitória.  

= Nesta pasmaceira coletiva de ‘sealy season’ os acontecimentos mais recentes veiculados pela comunicação social fizeram com que deixemos de considerar que tudo é boa gente e que não há exposições públicas de certos figurões das quais não se possa tirar proveito mais ou menos político…Mas seremos todos tão broncos para não percebermos o aproveitamento de certos habilidosos de outras lutas, espraiando-se sobre a miséria alheia? Até onde irá a faltar de memória coletiva para que, por um molho de espinafres murchos, se queira servir com sucesso a refeição inteira? Merecerá confiança mínima quem usa os outros para se promover à custa das suas necessidades? 

= Voltemos à parábola das árvores que foram convidadas para reinarem umas sobre as outras. Algumas recusaram aceitar o título de ‘rei’, pois não queriam prescindir do seu fruto; somente um espinheiro aceitou ser ‘rei’ das árvores, traçando logo com aspereza como ia exercer essa pretensão para a qual foi solicitado.

Olhando as coisas da vida, mesmo pela perspetiva desta parábola, poderemos tentar compreender a jocosidade da vida, onde nem sempre quem reina é o mais eficiente ou mesmo o suficiente…

Agora que se perfilam nas listas os concorrentes para o parlamento, teremos de saber qual o seu valor e não bastará serem figuras na comunicação social, pois já vimos noutras situações desilusões, oportunistas e tantos outros que molestaram quem neles votou… Talvez tenha chegado a hora de renovar as caras e os intervenientes – muitos/as presentes há décadas e sem qualquer capacidade de fazer melhor, antes pelo contrário – bem como de surgirem novas ideias dentro dos velhos partidos. De pouco valerá pulverizar de grupelhos candidatos, se não passarem de egos interesseiros, oportunistas e quase ressabiados…

A vida política – que não só a partidária – precisa mais do que de aves de arribação! Urge seriedade.

 

António Sílvio Couto

terça-feira, 6 de agosto de 2019

Porque querem excluir a Igreja da vida política?


Foi parangona de jornal de razoável tiragem: ‘portugueses querem a Igreja afastada de questões políticas’… Embora o tema seja, no texto do artigo, secundado, ele pode servir de chamariz para quem possa ver os títulos e por eles se deixar cativar.

Eis a citação do referido texto: «a interferência da Igreja em assuntos mundanos desagrada. Para metade das pessoas, deve limitar-se a temas religiosos e, para um décimo, pode pronunciar-se sobre tudo, menos política».

Dada a importância do tema – sobretudo pela proximidade às eleições legislativas de outubro – talvez isto possa parecer uma ameaça aos membros da Igreja – é abusivo dizer no sentido lato, pois hoje há muitas Igrejas em serviço e com propostas – tanto do clero como dos leigos ou ainda quem viva integrado nalgum dos partidos concorrentes.

Fazendo parte de uma sondagem – os portugueses e a religião – as considerações de natureza opinativa deixam um tanto a desejar, mas pelo preconceito do que pela leitura dos diferentes itens em análise. Com efeito, meter no mesmo âmbito a frequência dos sacramentos com a ritualidade, o leque de praticantes com as instruções morais à mistura com leituras exógenas da frequência dos santuários… pode servir para denegrir a vivência religiosa, mas não afiança da qualidade anticristã com que muita da comunicação social olha, observa e rotula a Igreja, digamos, católica, sem pretensão de defesa nem de favorecimento social. 

= Dos dados apresentados decorrentes da tal sondagem podemos respigar: 17% dos portugueses vão à missa todas as semanas; 36% vão, pelo menos, uma vez por mês; os sacramentos – de conotação mais social: batismo, casamento e funeral – fazem com que 34% dos portugueses vão à igreja com regularidade…

Diante destes números de prática religiosa (87%) será ainda mais inquietante aquela observação supra citada de que não querem que a Igreja tenha intervenção na vida política. Será porque os milhões de praticantes podem influenciar os resultados, quando certos valores vão fascinando os mais incautos? Será porque do anódino de tantos se poderá continuar a explorar a ignorância do resto? Será porque os votos dos devotos podem sacudir a consciência de mistura, de conveniência e de confusão entre a vida e a fé? Porque querem condicionar a intervenção da Igreja na vida política, será por medo ou por incapacidade de continuar a manipulação de alguma comunicação social e duns tantos interesses ideológicos subjacentes? 

= A intervenção da Igreja católica na política – enquanto designação da vida em público sem a conotação redutiva de natureza partidária – é decorrente do compromisso dos cristãos na sociedade. Restringir, condicionar ou obstaculizar essa intervenção é coartar uma das facetas de identidade da missão dos cristãos no mundo. A ‘polis’ (cidade) é a organização da vida de todos, tendo em conta os outros e conjugando-se todos no bem comum.

O Catecismo da Igreja católica diz-nos:

«A Igreja, que em razão de seu múnus e de sua competência, não se confunde de modo algum com a comunidade política, é ao mesmo tempo sinal e salvaguarda do caráter transcendente da pessoa humana. ‘A Igreja respeita e promove a liberdade política e a responsabilidade dos cidadãos’» - n.º 2245.
«Faz parte da missão da Igreja “emitir juízo moral também sobre as realidades que dizem respeito à ordem política, quando o exijam os direitos fundamentais da pessoa ou a salvação das almas, empregando todos os recursos - e somente estes - que estão de acordo com o Evangelho e com o bem de todos, conforme a diversidade dos tempos e das situações» - n.º 2246.

É diante do Evangelho que temos de aquilatar da nossa intervenção política, seja qual for a vocação ou a missão de um cristão. O resto poderá ser considerado deserção, medo ou cobardia…agora e no futuro.

Não queiram amordaçar a mensagem do Evangelho. A mim não atemorizam, pois tenho tanto direito de me pronunciar sobre um assunto qualquer, quanto um outro cidadão, pois tenho os impostos em dia e todos os outros encargos de cidadania, votando sempre, de forma consciente, clara e pensando nos outros. A política –já dizia Aristóteles – é a mais sublime das artes…

 

António Sílvio Couto

sábado, 3 de agosto de 2019

Estar ‘de pé atrás’… desafio ou atitude?


No linguajar português há expressões que revelam muito daquilo que nós somos, mesmo que nem sempre o consigamos atingir na totalidade.

A expressão em análise – ‘de pé atrás’ – pode traduzir-se por sinónimos como: estar desconfiado, com medo, inseguro… tanto nas questões pessoais, como nos aspetos sociais, sem negligenciar o que se possa referir às incidências culturais mais ou menos assumidas ou até subterrâneas…

Atendendo à época em que nos exprimimos teremos subjacente essa espécie de metamorfose que percorre muitos dos comportamentos visíveis… de tanta gente (já) em férias, sem esquecermos alguns outros assuntos da vida política do passado, no presente e para o futuro.

 

= Coisas e loisas de férias: dá para perceber, nesta sociedade de papel de lustro – isto é, do faz-de-conta, do julgar os outros pela marca que vestem (ou não), de ter imagem à custa do engano – há quem se arvore em julgador pela aparência que tenta ostentar. Traduzido com a expressão ‘estar de pé atrás’ quererá significar que estaremos perante alguém que talvez seja muito mais (ou menos) do que aquilo que tenta parecer.

Neste tempo de veraneio devemos exercitar como atitude o ‘estar de pé atrás’ perante tantas e tão diversificadas situações que podemos ver nos outros – e por eles questionar-nos a nós mesmos – desde logo pelo lugar onde se diz ter ido de férias: será real, ficcionado, concreto ou virtual… pois há locais que não passam de palcos de vaidade, onde ser visto por lá como que parece dar estatuto social em maré de ‘détente’!  

= Absurdo dos absortos: na imensa incongruência da vida em política à portuguesa assistimos, nos últimos tempos, à discussão em volta dumas golas que se inflamaram mais pela palavra – dita, mal dita ou menos bem escrita – do que pelas consequências que se pretendiam obviar… Com tantas conjeturas sobre a lei em vigor houve uns tantos mais absortos – distraídos, alheados, sonhadores – que, fazendo parte da ideologia reinante e reinadora, pouco se incomodaram com aquilo que impendia sobre as cabeças dos prevaricadores, qual espada de Dâmocles do mito grego… Com efeito, será de boa recomendação que nos coloquemos de ‘pé atrás’ sobre algumas das peripécias da nossa vida partidária, pois aquilo que seria um chinfrim de contestação, agora tornou-se uma espécie da ressalva de opinião; aquilo que deveria provocar a queda dos usufrutuários, agora serve para flutuar na boa onda de reinação; aquilo que daria para que o protesto dos mais defensores do regime de estado absoluto, agora cingem-se à mudez num manto de absoluto silêncio cúmplice, concordante e hipócrita.

Porque será que alguns, quando estão no poder, se acham acima da lei, da legislação e mesmo da justiça? Porque será que se verificam tantas coincidências nas prevaricações e quase nunca há castigos nem sancionamentos? Porque será que os executores das leis se consideram fora da abrangência das mesmas e atiram para fora da sua governação os malefícios que lhes deviam ser imputados?

Este é um filme – ou mesmo uma série – ‘dejá vu’ na nossa sociedade tão complacente quando tem dinheiro para gastar, mesmo que não saiba de onde lhe veio…2011 foi há pouco tempo! 

= ‘Sealy season’ em campanha eleitoral: a dita época de descanso em que pouco acontece de relevante, este ano tem um novo figurino, pois, no início de outubro, haverá eleições e os candidatos andarão numa roda-viva a disputar a atenção dos eleitores pouco interessados nas ‘promessas’ de ontem, recauchutadas para amanhã. Temos de saber estar ‘de pé atrás’, isto é, na desconfiança com aquilo que nos querem impingir, pois a maior parte das questões são rançosas de novidade, parcas de compromisso e negligentes de sentido. Bastantes dos figurinos estão gastos de inutilidade e ainda continuam a apostar no seu contributo. Muitos dos estribilhos de propaganda estão esfarelados de conteúdo. Bastantes dos intervenientes estão fora de validade, mas, porque não há melhor, continuam a apostar nesses menos credíveis, aceitáveis e verossímeis.

De facto, estar de ‘pé atrás’ tem de ser uma atitude para com tanta gente que continua a empestar a nossa cultura com arranjos de classe ‘b’ e a promover figurinhas secundárias, sabe lá até quando. Precisamos de escolher com a cabeça e não só com o estômago…de ricos falidos!

 

António Sílvio Couto

terça-feira, 30 de julho de 2019

Porque morre tanta gente nas nossas estradas?


Os dados são incríveis e despudoradamente tristes: em 2018 morreram nas estradas portuguesas 513 pessoas, em 132.378 acidentes…verificando-se um crescendo contínuo desde 2016 com 445 vítimas mortais e em 2017 verificou-se um total de 510. De referir ainda o crescimento progressivo de peões atropelados de forma fatal: 105 em 2018 num aumento de 4% em relação ao ano transato.

Com estradas melhores e com uma pretensa maior segurança rodoviária como se podem entender estes números? Atendendo à significativa melhoria das viaturas, onde está, então, o maior risco? Como de pode explicar que, tendo regredido nos anos anteriores, esta ‘batalha’ nas estradas esteja novamente a ceifar mais vidas? Os fatores humanos não serão mais importantes do que as condições materiais? Cada utente das estradas – condutor, peão ou noutra circunstância – já terá interiorizado que a possível desgraça não está dependente dos outros mas de si mesmo? Apesar de todas as regras, códigos ou sanções, já teremos conseguido transpor para a estrada a mais elementar educação cívica, social e ética? 

= Sem qualquer pretensão de apresentar ‘lições’ deixo a citação do decálogo dos condutores, num documento da Santa Sé, de 20 de junho de 2007:

«1. Não matarás;

2. A estrada seja para ti um instrumento de comunhão, não de danos mortais;

3. Cortesia, correção e prudência ajudar-te-ão;

4. Sê caridoso e ajuda o próximo em necessidade, especialmente se for vítima de um acidente;

5. O automóvel não seja para ti expressão de poder, de domínio e ocasião de pecado;

6. Convence os jovens e os menos jovens a não conduzirem quando não estão em condições de o fazer;

7. Apoia as famílias das vítimas dos acidentes;

8. Procura conciliar a vítima e o automobilista agressor, para que possam viver a experiência libertadora do perdão;

9. Na estrada, tutela a parte mais fraca;

10. Sente-te responsável pelos outros». 

Em qual destes ‘pecados’ mais incorro em infração? Em que é que tenho de corrigir-me, quando ando na estrada, tanto como condutor ou como peão? Como poderemos, na estrada, manifestar-nos mais do que bons cumpridores do código respetivo? Já nos apercebemos que é na estrada que manifestamos muito daquilo que somos, mesmo sem nos darmos conta? 

= Efetivamente no nosso país conduz-se mais ou menos mal e até admira que não haja mais acidentes. Muitas das vezes o carro não passa do prolongamento de algum complexo ou de algum trauma mal resolvido ou até revela a pessoa que está em conflito no/a condutor/a. Certas atitudes na estrada revelam que há muitos/as condutores/as que se acham no dever de impor aos demais as lutas interiores em diversos âmbitos, desde os mais facilmente detetáveis até à complexa dimensão fálico-psicanalítica. O poder de ter um volante nas mãos como que se torna uma conquista sobre os seus medos ou recalcamentos. À agressividade tantas vezes manifestada deve reportar-se a condução defensiva, isto é, em que antes de provocar algum acidente devemos preveni-lo ou evitá-lo…com sabedoria, arte e engenho. 

Ainda recentemente percorri mais de mil e seiscentos quilómetros em estrada e não vi nenhum acidente. Considero uma sorte nem sempre fácil de vivenciar, pois, noutras situações, bastará sair à rua para vermos a amálgama de erros, de infrações e mesmo de transgressões graves… de condutores e mesmo de peões.

Neste tempo que alguns reputam em termos conseguido um maior ou menor sucesso económico é bom de ver quantas máquinas poderosas em mãos nem sempre bem preparadas para as conduzirem. A velocidade é, na maior parte dos casos, inimiga da segurança, assim como a falta de destreza pode ser um engulho para quem se cruza com algum inepto na arte de guiar.

Será que me conheço ou dou a conhecer quando ando na estrada? Um pouco mais de atenção não faz mal!

 

António Sílvio Couto

quarta-feira, 24 de julho de 2019

Irritações por causa dos incêndios


Bastaram dois dias de incêndios, em três concelhos da região centro/interior do país, para subirem de tom as trocas de acusações sobre a taxa de responsabilidade – real, presumida ou conveniente – sobre o que já correu mal.

É cíclico este filme: uns dizem que fazem tudo, outros argumentam que se verifica o seu contrário e outros ainda sentem-se agastados com as culpas aduzidas à mistura com a incontornável falta de meios.

O verão ainda é uma criança e o espetáculo vai-se alimentando à custa de milhares de hectares de floresta ardida. Se tivermos em conta os números referidos envolvidos no combate às chamas como que poderemos considerar que algo vai bastante mal: milhares de pessoas – entre bombeiros, outras forças e muitos coordenadores – surgem nas notícias, mas, de facto, custa a crer em tal mobilização, pois as chamas crepitam sem haver quem as detenha. Aviões, helicópteros, carros de bombeiros e de forças da ordem, da (dita) proteção civil e de segurança…e os efeitos custaram a aparecer. Briefings e comentários, diretos e declarações, análises e projeções…e as consequências são as mesmas dos anos transatos.

O que mais custa a aceitar é que ninguém assuma as suas culpas: uns estão no piso superior da imputação; outros sentem-se sem capacidade de assunção de responsabilidades, tais são os meandros da fuga, da inoperância e mesmo da incompetência; alguns preferem apontam o dedo aos de baixo, pois sabem que parecem superiores à vulgaridade dos poucos que ainda habitam naquelas paragens atingidas; muitos dos que perderam materialmente tudo – para já ainda a vida escapou – não conseguem ter a coragem de se insurgirem contra quem os abandonou como cidadãos dum país de classe inferior; poucos, muito poucos, se assumem como voz tribunícia da denúncia profética e de serem capazes de não se deixarem amordaçar por interesses nem sempre claros nem assumidos… 

= Numa espécie de provocação valeria a pena traçar uma linha vertical entre Chaves e Faro – colocando dentro dessa mancha cidades como Vila Real, Bragança, Guarda, Castelo Branco, Covilhã, Portalegre, Évora e Beja – e veríamos a forma como este interior do país tem sido tratado pelas mais diferentes entidades públicas e privadas, académicas ou associativas, empresariais ou laborais… para vermos que esta faixa interior é esquecida, ofendida e ultrajada por tantos que deviam gerar a inclusão e não o ostracismo…

Sem qualquer empolamento poderemos considerar que as estruturas ligadas à Igreja católica – dioceses e paróquias – são das poucas que resistem em votar ao abandono tais populações por muito poucas que ainda sejam… Nessa região abandonada porque não dá muitos votos e só lembrada quando há tragédias, há pessoas que merecem respeito, dedicação e capacidade de igualdade de oportunidades, de viverem como os do litoral e de serem cidadãos com direitos não-espoliados.

Façamos um exercício de cinismo: se vendêssemos (ou meramente cedêssemos) esta faixa de território à vizinha Espanha, certamente os que agora ali vivem seriam melhor cuidados, teriam mais atenção e poderiam considerar-se europeus de corpo-e-alma, coisa que até agora não parece sentirem. 

= A pior das constatações é essa de que muitos dos agora litoralistas têm raízes nessa região do país e hipocritamente dizem regressar às origens, quando querem viver as festas mais rituais do natal e das coisas populares mais ancestrais. É vergonhoso que uma boa parte dos dirigentes da capital se esqueçam com tanta facilidade das suas raízes e se tornem a descrença daqueles que os viram nascer.

Cada ano, pelo verão, os incêndios fazem lembrar, ao resto do país, que há muitos portugueses que são esquecidos, embora sejam tanto ou mais dignos do que os habitantes das áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto. Cada ano, quando emergem os incêndios, vemos que há pessoas que amam a sua terra, mas que não merecem dos políticos da capital mais do que considerações de negligência para com as suas dificuldades em terem saúde, educação, segurança (social e de policiamento), justiça…iguais os que cativam os votos e fazem barulho reivindicativo.

Senhores da capital – políticos, legisladores, dirigentes partidários, militantes dos partidos, sindicalistas ou mesmo bombeiros – não se esqueçam. O Portugal profundo não pode ser afundado por incúria ou por má-fé!

    

António Sílvio Couto