Partilha de perspectivas... tanto quanto atualizadas.



quarta-feira, 10 de julho de 2019

Vício do jogo gasta 8,5 milhões por dia


Segundo dados da entidade promotora dos jogos de apostas, os portugueses gastaram três mil milhões de euros em jogos, em 2018, o que se traduz em 8,5 milhões de euros por dia.

As vendas totais dos ‘jogos santa casa’ conferem que houve 1.880 milhões de euros em prémios, ou seja, que os portugueses gastaram 36 milhões de euros por semana.

O jogo mais popular é o da raspadinha com 51% das preferências, seguindo-se as propostas de apostas mútuas (euromilhões, m1lhão, totoloto e totobola), se bem que o ‘placard’ tenha vindo a crescer… Se acrescentarmos a estes jogos as lotarias (nacional, clássica e popular) somos como que induzidos a considerar que vivemos sobretudo à condição do jogo, tanto de fortuna como de azar…dentro ou fora dos locais de jogo autorizado. Surgem já no horizonte as apostas nas corridas de cavalos… Ambição a quanto obrigas! 

= Como sempre este clima social em que vivemos deve levar a questionar-nos: qual a origem desta fome de dinheiro? Quais as consequências atuais e futuras na economia familiar e social? O que leva tanta gente a preferir viver da ‘fortuna-e-azar’ do que do trabalho?

Sabendo que o jogo é um vício, que se entranha na vida das pessoas, torna-se essencial não ficarmos pela mera constatação dos números envolvidos ou pelos resultados (mais ou menos) rapidamente obtidos, mas antes irmos ao fundo da questão e encontrarmos as razões mais fundas deste fenómeno que tem vindo a crescer e a popularizar-se no nosso país.     

É um facto que, só no dicionário, é que ‘sorte’ aparece antes de ‘trabalho’, bem como o dinheiro se ganha sem esforço. Efetivamente foi-se criando a mentalidade de que quem mais preguiça é quem mais sucesso apresenta, deixando à mistura com isto uma sensação de que o dinheiro que não custa a ganhar também não custa a gastar. É bom de ver, nas casas de venda de jogos, que muitos dos reformados investem centenas de euros por semana – há dias alguém me referiu que determinada pessoa gastava, só num local, quarenta euros semanais na raspadinha – na ânsia de ganhar mais e, quando isso acontece, logo é investido, isto é jogado, para aproveitar a onda da sorte…

Quantas e quantas pessoas estragaram a sua vida e da sua família com o vício do jogo. Quantas empresas entraram em falência em razão do fascínio do jogo. Quantas fortunas foram esbanjadas com o recurso à ilusão do jogo. De quantas e tantas formas se foram engendrando artimanhas para fazer cair quem quer ser rico pela opção do jogo rápido, imediato e que, afinal, sai caro…fazendo perder tudo, até o que há de mais sublime que é a dignidade humana. 

= Qual a doutrina da Igreja católica sobre este tema do jogo?

Diz o Catecismo da Igreja católica: «Os jogos de azar (jogo de cartas, etc.) e as apostas não são, em si mesmos, contrários à justiça. Mas tornam-se moralmente inaceitáveis, quando privam a pessoa do que lhe é necessário para as suas necessidades e as de outrem. A paixão do jogo pode tornar-se uma grave servidão. Apostar injustamente ou fazer batota nos jogos constitui matéria grave, a menos que o prejuízo causado seja tão leve que quem o sofre não possa razoavelmente considerá-lo significativo» (n.º 2413).

Certamente que, para muitas pessoas, esta doutrina soa a orquestra desafinada, pois os valores materialistas se sobrepõem aos conceitos humanos de respeito por si mesmo e pelos outros. A crescente materialização da vida, aliada ao viver sem Deus – ou como se Ele não existisse – vai semeando frutos de mal-estar, tanto nas pessoas, como nas famílias e na sociedade em geral…

Talvez seja urgente incluir na educação dos mais novos – na idade e/ou na mentalidade – que não será pelo dinheiro fácil que a vida recompensa quem se quer valorizar humana, profissional, social e culturalmente. Não se pode continuar a querer vender a imagem de que o sucesso é tarefa sem esforço, pois aquilo que se conquista tem mais sabor e melhor significado. É preciso combater o regime de futilidades em que tantas vezes se labora, na medida em que se for acreditando que a melhor fortuna não está nos bens materiais, mas nas armas pessoais de valorização, que se adquirem pelas ferramentas recebidas no esforço e conquistadas no apetrechamento de pensar pela própria cabeça, com critérios mais espirituais do que materiais…      

 

António Sílvio Couto

segunda-feira, 8 de julho de 2019

Pode um católico recorrer à cremação?



Diz o Catecismo da Igreja Católico sobre o cuidado para com os defuntos: «Os corpos dos defuntos devem ser tratados com respeito e caridade, na fé e esperança da ressurreição. Enterrar os mortos é uma obra de misericórdia corporal que honra os filhos de Deus, templos do Espírito Santo» (n.º 2300). Ora sobre a cremação diz o mesmo Catecismo: «A Igreja permite a cremação a não ser que esta ponha em causa a fé na ressurreição dos corpos» (n.º 2301). Mais recentemente foram aprovados textos e orações para a celebração das exéquias com a possibilidade da cremação…Por vezes não bastará estar atento ao formato do caixão na hora da encomendação, serão precisos mais dados e melhores informações…até sociológicas, culturais e religiosas de tal opção pela cremação.
Com data de 15 de agosto de 2016, a Congregação para a doutrina da fé publicou a Instrução ‘Ad resurgendum cum Christo’ a propósito da sepultura dos defuntos e da conservação das cinzas da cremação. Depois de algum enquadramento teológico à luz da ressurreição de Cristo, o documento lembra a antiga tradição cristã em que ‘a Igreja recomenda insistentemente que os corpos dos defuntos sejam sepultados no cemitério ou num lugar sagrado’.
É partindo desta teologia e práxis secular que a Congregação para a doutrina da fé procura atalhar alguns erros e abusos no que toca ao recurso, entretanto, muito difundido da cremação. A Igreja ‘não pode, por isso, permitir comportamentos e ritos que envolvam concepções erróneas sobre a morte: seja o aniquilamento definitivo da pessoa; seja o momento da sua fusão com a Mãe natureza ou com o universo; seja como uma etapa no processo da reincarnação; seja ainda, como a libertação definitiva da “prisão” do corpo’.
Do mesmo modo se insiste que a ‘sepultura nos cemitérios ou noutros lugares sagrados responde adequadamente à piedade e ao respeito devido aos corpos dos fiéis defuntos, que, mediante o Baptismo, se tornaram templo do Espírito Santo e dos quais, “como instrumentos e vasos, se serviu santamente o Espírito Santo para realizar tantas boas obras’.
– O documento da Congregação para a doutrina da fé salienta que ‘onde por razões de tipo higiénico, económico ou social se escolhe a cremação; [esta] escolha que não deve ser contrária à vontade explícita ou razoavelmente presumível do fiel defunto, a Igreja não vê razões doutrinais para impedir tal práxis; uma vez que a cremação do cadáver não toca o espírito e não impede à omnipotência divina de ressuscitar o corpo. Por isso, tal facto, não implica uma razão objectiva que negue a doutrina cristã sobre a imortalidade da alma e da ressurreição dos corpos’.
– Explicando depois o modo de proceder para com as cinzas, a Instrução refere que ‘as cinzas do defunto devem ser conservadas, por norma, num lugar sagrado, isto é, no cemitério ou, se for o caso, numa igreja ou num lugar especialmente dedicado a esse fim determinado pela autoridade eclesiástica’. Com efeito, ‘a conservação das cinzas num lugar sagrado pode contribuir para que não se corra o risco de afastar os defuntos da oração e da recordação dos parentes e da comunidade cristã. Por outro lado, deste modo, se evita a possibilidade de esquecimento ou falta de respeito que podem acontecer, sobretudo depois de passar a primeira geração, ou então cair em práticas inconvenientes ou supersticiosas’.
– Sobre a conservação das cinzas e outros artefatos com elas praticados, a Congregação para a doutrina de fé salienta que ‘a conservação das cinzas em casa não é consentida... não podendo ainda as cinzas serem divididas entre os vários núcleos familiares e deve ser sempre assegurado o respeito e as adequadas condições de conservação das mesmas’.
– Desejando corrigir certas visões e atuações menos respeitosas para com as cinzas dos defuntos, a Instrução diz que ‘para evitar qualquer tipo de equívoco panteísta, naturalista ou niilista, não seja permitida a dispersão das cinzas no ar, na terra ou na água ou, ainda, em qualquer outro lugar. Exclui-se, ainda a conservação das cinzas cremadas sob a forma de recordação comemorativa em peças de joalharia ou em outros objectos, tendo presente que para tal modo de proceder não podem ser adoptadas razões de ordem higiénica, social ou económica a motivar a escolha da cremação’.
Ao longo da breve Instrução, faz-se uma abordagem da correta celebração das exéquias pelo defunto e a posterior atitude de sufrágios...numa leitura e vivência sem oscilações nem fundamentalismos.
 
António Sílvio Couto

sábado, 6 de julho de 2019

Vai, estás perdoado!


Nos tempos mais recentes fomos percecionando situações que vem podem ser catalogadas nesta expressão: ‘vai, estás perdoado’! Com isto queremos significar que os sujeitos – por vezes enfaixados de predicados, a seus olhos – em causa podem seguir o seu caminho, que bem depressa sairão do horizonte em que têm andado a flutuar…

Ainda sem irmos aos casos, poderemos considerar que algumas figuras (mais ou menos conhecidas, vistas ou divulgadas) se acham quase-insubstituíveis e encenam a sua partida como se fosse um fim dramático, caindo um tanto no ridículo e numa escusada vulgaridade. Dá a impressão que, por muito que tenham conseguido, não foram suficientemente agradecidos e/ou agraciados. Nota-se, afinal, algum infantilismo e imaturidade de quem, tendo feito o que lhe era devido, usa as armas do imprescindível, mesmo que bizarro e nefasto a si mesmo e aos demais. 

Vejamos alguns episódios:

* Um tal chefe de governo que se anunciou a si próprio como candidato putativo, sem se tenha percebido logo para que cargo europeu em concreto ou convidado quem o tinha indigitado… Fica mal pôr-se em bicos de pés, sobretudo, se os ditos são de barro e sem alicerces…razoáveis.

A quem almejava tais pretensões dizemos: vai, estás perdoado… pelas ilusões que vendeste e pelas patranhas em que nos fizeste entrar… Pode-se enganar muito tempo, mas não o tempo todo e, sobretudo, aos papalvos todos!  

* Por vezes há trabalhos – humanos, sociais, pastorais e culturais – que conseguem destoar da vulgaridade, tanto pelo que foi operado como pelo espaço onde foi implementado. Isso, normalmente, é conseguido pelo empenho, o compromisso e o laboral de pessoas, que vivem no tempo certo e na ocasião oportuna. Saber interpretar as condições favoráveis é algo que nem todos conseguem realizar.

Quando tal acontece é bom e salutar saber – dizemo-lo no contexto dos valores do Evangelho – como desenvolver os dons, as qualidades e os carismas de cada um em favor de todos. Será, no entanto, questionável que se pretenda deixar essa tarefa, dando a entender que se quer sair, mas que ainda há uma réstia de vontade de se prolongar, embora a pedido… Talvez este jogo não seja honesto nem tenha as regras cifradas no verdadeiro.

Agora que em tantas das dioceses há mudanças de agentes da pastoral, será que tudo será tão claro quando visto ou leal quanto dito? A qualidade de quem parte pode entender-se pelos frutos de continuidade em quem fica e quem recebe deverá saber acolher quem substitui!  

* Nas deambulações das coisas da vida vemos tantos episódios que chamuscam a integridade da maior parte dos intervenientes, umas vezes por incúria dos sujeitos, outras vezes por incapacidade dos predicados e noutros casos por ignorância dos complementos. Com que facilidade alguns se pretendem fazer passar por competentes, quando não passam de oportunistas, enganando os mais incautos e sobrepondo-se a quem lhes pode fazer frente ou sombra. Com infeliz naturalidade vemos que o facto de serem de ‘certas famílias’ ou por pertencerem a cliques reinantes – políticas, ideológicas ou de género – conseguem postos de poder, que mais não passam de correias de interesses múltiplas vezes subtis.  

* Na sabedoria popular encontramos adágios que nos comunicam muito daquilo que é experiência feita. Assim neste capítulo ‘do sair e do entrar’, seja daquilo que for, diz-nos essa escola de vida: ‘atrás de mim virá quem bom de mim fará’ ou ainda ‘a qualidade do mestre revela-se naqueles que vem depois dele’, podendo serem (até) melhores do que ele…Se as sementes eram de qualidade, os frutos ver-se-ão!

Deste modo certos apegos aos lugares ou considerando que tudo acaba se eu partir, para além de não ser verdadeiro, pode servir para perceberemos a quem servimos: se a nós mesmos, se aos outros ou se Deus nos outros, que Ele coloca no nosso caminho…em cada etapa da história. 

 

António Sílvio Couto

sexta-feira, 5 de julho de 2019

Qual o lugar do silêncio nas (nossas) celebrações?


Será o silêncio uma ‘forma de participação’ ativa na celebração da liturgia e da eucaristia em particular? Até que ponto é que o silêncio, observado no devido tempo e na correta proporção, é fator de oração de todos os que participam na eucaristia? Haverá, nas nossas celebrações silêncio a mais ou a menos? O nosso silêncio é mesmo um tempo sagrado, na comunhão dos mistérios divinos?
Os documentos da Igreja, sobretudo os que têm incidência na liturgia, dizem: «Também se deve guardar, nos momentos próprios, o silêncio sagrado, como parte da celebração. A natureza deste silêncio depende do momento em que ele é observado no decurso da celebração. Assim, no ato penitencial e a seguir ao convite à oração, o silêncio destina-se ao recolhimento interior; a seguir às leituras ou à homilia, é para uma breve meditação sobre o que se ouviu; depois da Comunhão, favorece a oração interior de louvor e ação de graças. Antes da própria celebração é louvável observar o silêncio na igreja, na sacristia e nos lugares que lhes ficam mais próximos, para que todos se preparem para celebrar devota e dignamente os ritos sagrados» – Instrução Geral ao Missal Romano, 45.

Há quem considere que a ‘qualidade’ das nossas celebrações se mede, particularmente, pela intensidade e pela vivência do silêncio. Todos sabemos o que é o silêncio e o que é esse outro espaço vazio em estar calado. Este, tantas vezes, é tanto ou mais barulhento do que o trepidar dum comboio antigo em marcha ou de uma multidão em maré de feira.
De facto, hoje, as pessoas têm uma grande dificuldade em estarem em silêncio. Um exemplo (quase) banal: podem estar caladas, mas não conseguem desligar do telemóvel, nessa ânsia do ‘sempre contactável’, como se não houvesse tempo de espera em momento algum. Assim vemos (ou melhor ouvimos) retinir os sons mais variados nas nossas celebrações e nos momentos mais dispensáveis para que desfilem os toques mais execráveis, perturbando tudo e todos, à exceção de quando é o próprio o visado...
À luz dos momentos supra citados de silêncio na eucaristia, quais são (ou devem) as caraterísticas do nosso silêncio celebrativo? Um silêncio de encontro consigo mesmo e com Deus tanto na escuta da Palavra como na contemplação/adoração eucarística. Um silêncio em que se aprecie o ‘kadosh’ divino, isto é, a glória, a santidade e o poder de Deus para nós e connosco. Um silêncio onde as palavras cessam e fica só a capacidade de querer mergulhar em Deus, tudo e eterno.
Precisamos, com urgência, de aprender a fazer silêncio, a desejar o silêncio, a amar o silêncio, a apreciar o silêncio…como um dom divino e mesmo como qualidade humana. Com efeito, o equilíbrio humano estará posto em causa se não vivermos um tempo mínimo de silêncio diário, mergulhando no mistério de nós mesmos e – como cristãos – recolhendo-nos no sacrário íntimo da pessoa que somos, escutando a Palavra de Deus – vide o processo da ‘lectio divina’ – e recompondo a textura da nossa condição humana e cultural...para que não sejamos seduzidos pelas propostas à maneira da ‘new âge’, na versão ‘reiki’ e afins.
Saber fazer silêncio é uma arte e exige, hoje, muito engenho!

Para além de pedagógico, o silêncio é uma necessidade para o nosso equilíbrio emocional, psíquico e espiritual. Com efeito, será através do silêncio que ouviremos Deus, que escutaremos os outros e que poderemos ser escutados…

 

António Sílvio Couto

quinta-feira, 4 de julho de 2019

Crescem os sem-religião na ‘grande Lisboa’


Os dados estão aí: 55,2% daqueles que se afirmam ‘sem religião’ vivem na área metropolitana de Lisboa (AML), que abrange dezoito municípios numa população de cerca de três milhões de pessoas.

Embora uma boa parte ainda se considere católica – 54,9 % ao menos de tradição – muitos daqueles que se afirmam sem-religião são procedentes de famílias com alguma identidade católica.

Estes dados foram apurados através de um estudo intitulado – ‘identidades religiosas e dinâmica social na área metropolitana de Lisboa’ – e que foi apresentado por estes dias, em resultado da auscultação a mais de mil e cem inquiridos ao longo do ano passado.

Deste estudo podemos respigar:

* budistas e muçulmanos têm idêntica franja social, cerca de quinto por cento para cada uma das expressões religiosas;

* apesar de crescente o grupo ‘sem-religião’ não é homogéneo na sua composição;

* os setores evangélicos têm vindo a crescer, nalguns casos à custa da deserção dos católicos… noutros casos os evangélicos enquadrados em contextos urbanos, com uma nova linguagem no âmbito musical, vão crescendo no setor jovem da sociedade;

* naquilo que toca à militância, os muçulmanos são dos que menos consideram mudar à semelhança daquilo que acontece com as testemunhas de Jeová, com uma percentagem de 20% dos seus membros situada na área geográfica da AML. 

= Se este estudo lança algumas pistas sobre a complexidade da vivência religiosa no nosso país, não poderemos enjeitar os dados que nos devem fazer refletir. De facto, a dimensão religiosa da pessoa humana é cada vez menos tida em conta, mesmo que questões de índole espiritual sejam transversais à análise dos problemas deste tempo. Mais do que o vínculo a uma Igreja vemos crescer o interesse, que pode ser volúvel, para com alguma espiritualidade, em muitos casos mais com sabor sincrético do que comprometido e claro. Isso mesmo era apontado, naquele estudo, para com uma certa vaga de simpatia pelo budismo, na medida em que este valoriza a experiência da interioridade à mistura com uma outra capacidade de atrair principalmente indivíduos urbanos e escolarizados.  

= Quem estiver atento às manifestações ‘religiosas’ dos nossos dias pode ir penetrando numa apetência de um número significativo de pessoas por temas mais ou menos exotéricos, sejam cristãos ou não. Às vezes é mais fácil mobilizar pessoas para uma ‘peregrinação’ a uma manifestação religiosa – temos em mente a ‘senhora da bondade’ e outras mais sigilosas – suspeita do que em conseguir que possam participar, regularmente, na missa paroquial de domingo. Por vezes nota-se, em certos movimentos de incidência ‘espiritual’, alguma capacidade (tempo e gastos económicos) de receção para fenómenos a roçar quase o bizarro e, por outro lado, não há tempo para uma qualquer reunião mensal que seja de formação mais serena, sensata e progressiva. 

= Apesar de tudo creio que os dados revelados pelo estudo citado exigem de nós, como cristãos, uma reformulação de muitos conceitos e mais dos comportamentos. Com efeito, se continuarmos a refugiar-nos em certos tiques tradicionalistas não conseguiremos ver que estamos a perder o comboio – ou seja lá o transporte que acharmos melhor! – da refontalização dos valores cristãos aos princípios do Evangelho, que nos fazem reconhecer os erros, nos levam a corrigi-los e a mudar de proposta, pois o que seguimos até agora falhou…

Bem razão tinham os filósofos gregos que consideravam o ‘homem, um animal religioso’. Nem as doutrinas marxistas ateias conseguira coartar esse princípio sagrado. Teremos, no entanto, de saber qual o modo de concretizar esse anseio. Ora, os cristãos, não podem demitir-se da tarefa que lhes está confiada. Inspiremo-nos na forma como foi feita a primeira evangelização e tudo mudará…    

 

António Sílvio Couto

segunda-feira, 1 de julho de 2019

Missiva a Salvini…pseudocristão


Um tal senhor Matteo Salvini – vice-primeiro ministro e ministro do interior italiano – surgiu, mais uma vez com esse ar de caudilho fascista, a contestar a receção de emigrantes/refugiados àquele país.

Embora desta vez não tenha surgido de terço em punho – qual amuleto escusado – logo anatematizou quem quis ajudar pessoas indefesas em busca de um presente menos duro e de um futuro que possa ser não tanto sofrido e perigoso

Ora, diante das imagens e das declarações de outros apaniguados de Salvini fica-me uma preocupação: para quando a expulsão Papa Bergoglio também ele filho de emigrantes italianos, que retornou a Itália para governar a Igreja Católica a partir do Vaticano…enclave no território da capital italiana?

De facto, este senhor Salvini tem memória muito curta, pois milhões de italianos – dizem que mais de setenta, entre 1880 e 1960 – se espargiram pela Europa (Alemanha, França e Suíça), a América do Sul (Brasil, Argentina e Uruguai), a América do Norte (Estados Unidos e Canadá) e mesmo a Austrália… Claro que todos estes italianos foram difundindo a sua cultura, a típica maneira de ser, a inconfundível gastronomia e tudo o resto que está contido na mentalidade transalpina.

Se fizermos comparação com a população de quase 60 milhões daqueles que vivem no espaço territorial de Itália como que se torna ridículo que temam que lhes afetem o palácio dourado, que já foi, mas que está, nitidamente, em ruína como qualquer outra civilização que se fecha e que rejeita comparações ou mesmo intromissões no seu egoísmo social e económico…

De referir que desde 2007 a população italiana está na barreira dos quase-sessenta milhões sem nunca a atingir… e que vai, segundo as projeções, decrescer de forma progressiva nas próximas duas décadas… até 56 milhões.

Que fará, então, estrebuchar, Salvini e os seus lacaios… dentro e fora de Itália? Que valores estarão em causa para que um povo que é feito de emigração e não se deixa renovar pelos migrados? Onde se situam os critérios dos cinquenta milhões de cristãos registados? Será a ínfima parte de islâmicos (quase 4%) que cria tais obstáculos à receção de quem chega? Ou serão os quase 13% que se declaram ‘sem religião’ que engendram tais fenómenos xenófobos, ridículos e desumanos? 

= É preciso distinguir com urgência as atitudes de dirigentes insanos de tudo quanto é normal e faz acontecer as ocorrências da História: as mudanças, mutações e transferências de populações sempre aconteceram e fizeram com houvesse evolução de povos, de nações, de culturas e de civilizações. As razões sempre foram muito variadas. Umas vezes feitas de forma pacífica e progressiva, enquanto noutros casos se geraram guerras e conflitos, com estragos e mudanças mais rápidas, agressivas e mesmo violentas.

Normalmente quem resistiu à mudança foi vencido, derrotado e teve de pagar as custas de não se saber adaptar ou compreender os factos na devida proporção. Mesmo quando as razões eram de procura de melhores condições de vida – passando das dificuldades para a melhoria menos má – os emigrantes foram quase sempre os vencedores, pois além de terem o desejo de conquista ainda combatiam contra a acomodação dos resistentes, que nem sempre estavam de atalaia para com as suas falhas e fraquezas.  

= Os tempos próximos vão-se encarregar de desmistificar os slogans de Salvini e quejandos, pois não se pode fazer do medo uma atitude política nem se pode tornar a agressão aos outros uma forma de crescer sobre as suas fragilidades. Do mesmo modo que mentir, iludindo a verdade, depressa será descoberto, assim querer enclausurar-se nas suas inverdades capciosas não conseguirá sobreviver todo o tempo.

Mais do que construir muros, urge levantar pontes, sejam materiais ou espirituais, sejam nos espaços políticos, sociais e religiosos.

Tenho vergonha de ver Salvini de terço na mão e de faltar à caridade mais simples e sincera, assim como tenho uma sensação de ser abjeto ver combatentes materialistas (ditos ateus, agnósticos e marxistas) de vela na mão, pois ambos ofendem sinais da nossa fé cristã mais básica…Efetivamente, Cristo merece mais respeito!

 

António Sílvio Couto

quarta-feira, 26 de junho de 2019

Passeiam os cãezinhos e fecham os filhos


Por estes dias ouviu-se uma razoável lamentação: muitas das famílias, com a tendência de protegerem os filhos, não os deixam sair nem de casa, contrastando com o ritual de passearem os cãezinhos cada manhã ou pela noite.

Estão aqui enunciados dois problemas: por um lado a cada vez maior tentativa de resguardarem as crianças dos ‘perigos’ a que possam estar sujeitas e por outro a crescente moda de tornarem os ‘animais de companhia’ em parceiros de estimação na vida em família…

Na pior das hipóteses temos famílias a viverem a conduta inversa daquilo que seria razoável: que as crianças não possam ter uma vida normal, com os riscos que lhe estão associados e de fazerem dos animais a substituição de alguns afetos (mais ou menos) recalcados.

De facto é preocupante escutar entendidos na matéria falarem de crianças que são intoxicadas de medicamentos para serem ‘dominadas’ nas diabruras próprias da idade, sendo superprotegidas pelos pais e avós, não deixando que a criança viva a sua vida normal, fazendo-lhes tudo e o resto, sem as deixarem ser pessoas agora e no futuro… Bastará passar ao pé de uma escola em hora de entrada ou de saída e veremos uns tantos adultos a fazerem a figura de ‘burros de carga’ dos mais novos, que de aliviados correm o perigo de tornarem quem assim os trata numa espécie de escravos substitutos e de maus educadores. 

= Perante este panorama nada ‘bucólico’ talvez estejamos a construir uma sociedade fundada mais no medo do que na confiança, levando os adultos a que os mais novos vivam numa espécie de redoma de proteção contra o que possa trazer risco, mesmo de minimamente errar. Com uma posição deste género estaremos a lançar funestas sementes para que ninguém confie em ninguém, tornando-nos – uma parte, alguns e uma razoável maioria – desconfiados quanto baste para que os outros possam ser vistos como adversários, senão de forma direta ao menos na pretensão de interferirem com o nosso ‘mundinho’, feito de arquétipos, de fantasmas e mesmo de novos adamastores em conduta social mais ou menos agressiva.

Muita da possível educação, desde casa, está alicerçada na desconfiança para tudo e com todos, criando nos mais novos a sensação de que uma onda de maldade perpassa o seu mundo, mais virtual do que real. Por vezes podem acontecer insinuações e possíveis acusações dos mais novos sobre os adultos que não passam de efabulações suscitadas pelos medos, entretanto, semeados na imaginação dos mais novos… 

= De pouco adiantará falar às crianças desse tempo em que se brincava na rua, se faziam jogatanas de futebol à semelhança dos clubes grandes na disputa das cores nacionais, se podia deixar uma criança percorrer o caminho da escola sem receios de malfeitores encapuçados...mais virtuais do que reais, de ir e de voltar sem aflições de serem menos cuidadas, de poderem dirimir as diferenças (de força, de opinião ou de conquistas) com lutas sem interferência dos mais velhos protecionistas, de nunca levar para casa ressentimentos dalgum castigo infligido pelo professor/a… numa palavra: os arranhões eram medalhas conquistadas com sabor a vitória, mesmo que disfarçadas de derrotas mais digeridas…

É verdade, esse mundo existiu e não foi inventado para atrair a atenção dos mais velhos ou dos pedagogos menos bem apetrechados nas ciências de estudo. Hoje soa quase a criancice toda uma panóplia de conselhos protecionistas, infantilizantes e com rótulo de infantilizadores: as crianças precisam de se sujarem a brincar, necessitam de construir o seu mundo sem lho inventarem, de crescerem na afirmação de quais são as suas apetências sem precisarem de serem empurradas no escorrega do jardim, já que o quintal está reduzido a uns centímetros de mísera varanda, disputados ao cão ou ao gato…os quais podem configurar um irmão não-aceite nem acolhido em família.  

= Num futuro próximo precisamos de objetivar quais são os valores que pretendemos transmitir aos mais novos, sabendo educá-los a partir do ponto onde estão, rumo a uma meta exequível, equilibrada e capaz de mobilizar quem se sinta preparado para correr riscos. Cremos estar no hora de não continuarmos a infantilizar adolescentes e jovens com medos que não passam de conjeturas dos educadores, pais ou professores…    

 

António Sílvio Couto