Partilha de perspectivas... tanto quanto atualizadas.



quarta-feira, 26 de junho de 2019

Passeiam os cãezinhos e fecham os filhos


Por estes dias ouviu-se uma razoável lamentação: muitas das famílias, com a tendência de protegerem os filhos, não os deixam sair nem de casa, contrastando com o ritual de passearem os cãezinhos cada manhã ou pela noite.

Estão aqui enunciados dois problemas: por um lado a cada vez maior tentativa de resguardarem as crianças dos ‘perigos’ a que possam estar sujeitas e por outro a crescente moda de tornarem os ‘animais de companhia’ em parceiros de estimação na vida em família…

Na pior das hipóteses temos famílias a viverem a conduta inversa daquilo que seria razoável: que as crianças não possam ter uma vida normal, com os riscos que lhe estão associados e de fazerem dos animais a substituição de alguns afetos (mais ou menos) recalcados.

De facto é preocupante escutar entendidos na matéria falarem de crianças que são intoxicadas de medicamentos para serem ‘dominadas’ nas diabruras próprias da idade, sendo superprotegidas pelos pais e avós, não deixando que a criança viva a sua vida normal, fazendo-lhes tudo e o resto, sem as deixarem ser pessoas agora e no futuro… Bastará passar ao pé de uma escola em hora de entrada ou de saída e veremos uns tantos adultos a fazerem a figura de ‘burros de carga’ dos mais novos, que de aliviados correm o perigo de tornarem quem assim os trata numa espécie de escravos substitutos e de maus educadores. 

= Perante este panorama nada ‘bucólico’ talvez estejamos a construir uma sociedade fundada mais no medo do que na confiança, levando os adultos a que os mais novos vivam numa espécie de redoma de proteção contra o que possa trazer risco, mesmo de minimamente errar. Com uma posição deste género estaremos a lançar funestas sementes para que ninguém confie em ninguém, tornando-nos – uma parte, alguns e uma razoável maioria – desconfiados quanto baste para que os outros possam ser vistos como adversários, senão de forma direta ao menos na pretensão de interferirem com o nosso ‘mundinho’, feito de arquétipos, de fantasmas e mesmo de novos adamastores em conduta social mais ou menos agressiva.

Muita da possível educação, desde casa, está alicerçada na desconfiança para tudo e com todos, criando nos mais novos a sensação de que uma onda de maldade perpassa o seu mundo, mais virtual do que real. Por vezes podem acontecer insinuações e possíveis acusações dos mais novos sobre os adultos que não passam de efabulações suscitadas pelos medos, entretanto, semeados na imaginação dos mais novos… 

= De pouco adiantará falar às crianças desse tempo em que se brincava na rua, se faziam jogatanas de futebol à semelhança dos clubes grandes na disputa das cores nacionais, se podia deixar uma criança percorrer o caminho da escola sem receios de malfeitores encapuçados...mais virtuais do que reais, de ir e de voltar sem aflições de serem menos cuidadas, de poderem dirimir as diferenças (de força, de opinião ou de conquistas) com lutas sem interferência dos mais velhos protecionistas, de nunca levar para casa ressentimentos dalgum castigo infligido pelo professor/a… numa palavra: os arranhões eram medalhas conquistadas com sabor a vitória, mesmo que disfarçadas de derrotas mais digeridas…

É verdade, esse mundo existiu e não foi inventado para atrair a atenção dos mais velhos ou dos pedagogos menos bem apetrechados nas ciências de estudo. Hoje soa quase a criancice toda uma panóplia de conselhos protecionistas, infantilizantes e com rótulo de infantilizadores: as crianças precisam de se sujarem a brincar, necessitam de construir o seu mundo sem lho inventarem, de crescerem na afirmação de quais são as suas apetências sem precisarem de serem empurradas no escorrega do jardim, já que o quintal está reduzido a uns centímetros de mísera varanda, disputados ao cão ou ao gato…os quais podem configurar um irmão não-aceite nem acolhido em família.  

= Num futuro próximo precisamos de objetivar quais são os valores que pretendemos transmitir aos mais novos, sabendo educá-los a partir do ponto onde estão, rumo a uma meta exequível, equilibrada e capaz de mobilizar quem se sinta preparado para correr riscos. Cremos estar no hora de não continuarmos a infantilizar adolescentes e jovens com medos que não passam de conjeturas dos educadores, pais ou professores…    

 

António Sílvio Couto

sábado, 22 de junho de 2019

A missa começa no final eucaristia?


Tendo celebrado por estes dias a solenidade do Corpo de Deus – em que uma das componentes é essa de ir em procissão para a rua com Jesus presente na hóstia consagrada – ouso deixar um breve reflexão sobre esta temática – a missa começa quando acaba a eucaristia?

Entendamos por ‘eucaristia’ todo o ato celebrativo com as duas partes: liturgia da Palavra e liturgia eucarística, bem como tentemos entender a palavra ‘missa’ com que tantas vezes designamos a própria eucaristia…ao menos no sentido missionário.  

«Recebendo o Pão da vida, os discípulos de Cristo preparam-se para enfrentar, com a força do Ressuscitado e do seu Espírito, as obrigações que os esperam na sua vida ordinária. Com efeito, para o fiel que compreendeu o sentido daquilo que realizou, a Celebração Eucarística não pode exaurir-se no interior do templo. Como as primeiras testemunhas da ressurreição, também os cristãos, convocados cada domingo para viver e confessar a presença do Ressuscitado, são chamados, na sua vida quotidiana, a tornarem-se evangelizadores e testemunhas. A oração depois-da-comunhão e o rito de conclusão – a bênção e a despedida – hão de ser, sob este aspeto, melhor entendidos e valorizados, para que todos os participantes na Eucaristia sintam mais profundamente a responsabilidade que daí lhes advém. Terminada a assembleia, o discípulo de Cristo volta ao seu ambiente quotidiano, com o compromisso de fazer, de toda a sua vida, um dom, um sacrifício espiritual agradável a Deus (cf. Rom 12,1). Ele sente-se devedor para com os irmãos daquilo que recebeu na celebração, tal como sucedeu com os discípulos de Emaús que, depois de terem reconhecido Cristo ressuscitado na «fração do pão» (cf. Lc 24,30-32), sentiram a exigência de ir imediatamente partilhar com seus irmãos a alegria de terem encontrado o Senhor (cf. Lc 24,33-35)» – João Paulo II, Carta apostólica ‘Dies Domini’ sobre a santificação do domingo, n.º 45.
Efetivamente a palavra ‘missa’ vem da expressão de envio, no final da celebração: ‘Ite, missa est’, isto é, ‘ide, sois enviados’. Com efeito, aqui ‘missa’ vem do verbo latino ‘mitto’ que significa enviar, e, na aceção da expressão latina – ‘ite, missa est’, quer dizer alguém que é enviado com uma missão… No caso de quem participou na eucaristia com a missão de fazer Jesus Ressuscitado acontecer no mundo, onde estão os cristãos.
Eis como o Papa Bento XVI, na Exortação apostólica pós-sinodal ‘Sacramentum caritatis’ sobre a a eucaristia, fonte e ápice da vida e da missão da Igreja, explica esta expressão, dando-lhe conteúdo de missão: «Depois da bênção, o diácono ou o sacerdote despede o povo com as palavras «Ide em paz e o Senhor vos acompanhe», tradução aproximada da fórmula latina: Ite, missa est. Nesta saudação, podemos identificar a relação entre a Missa celebrada e a missão cristã no mundo. Na antiguidade, o termo «missa» significava simplesmente «despedida»; mas, no uso cristão, o mesmo foi ganhando um sentido cada vez mais profundo, tendo o termo «despedir» evoluído para «expedir em missão». Deste modo, a referida saudação exprime sinteticamente a natureza missionária da Igreja; seria bom ajudar o povo de Deus a aprofundar esta dimensão constitutiva da vida eclesial, tirando inspiração da liturgia. Nesta perspetiva, pode ser útil dispor de textos, devidamente aprovados, para a oração sobre o povo e a bênção final que explicitem tal ligação» (n.º 51).

Será que é com espírito de missão que saímos da missa?

A missa faz-nos ir em atitude de missão para o mundo?

Não será, por vezes, demasiado molhe a nossa saída em missão da missa em que estivemos?

De verdade, força de missão, precisa-se!


António Sílvio Couto

quarta-feira, 19 de junho de 2019

Vender pessoas como mercadoria…


Confesso que é uma das coisas que mais me custa ouvir, quando se refere que um jogador de futebol – ou de outro desporto qualquer – ‘foi vendido’ por um valor mais ou menos elevado, tendo em conta as habilidades do artista, a posição no terreno de jogo – um avançado, que rende golos e vitórias, é mais valioso do que um defesa ou do que um guarda-redes – e, sobretudo, as potencialidades (reais, virtuais ou potenciais) no futuro próximo.

Por esta época do ano surgem sempre transferências multimilionárias, envolvendo números verdadeiramente escandalosos perante tantas debilidades humanas, sociais, económicas ou morais. Dizer que um jogador de futebol, com apenas dezanove anos, vai ganhar 800 euros por hora, não é uma afronta a quem nem consegue isso por mês? Ter tal preço, pagarem-lhe tal custo e fazerem negócio de um modo tão provocatório é um atentado ao mais elementar da condição humana, pois tantas pessoas não auferem o mínimo de vida e aqui gasta-se o máximo com apostas suscetíveis de serem imorais e eticamente reprováveis… agora e no futuro. 

= Uma das vertentes mais escabrosas da nossa sociedade é o silêncio cúmplice sobre situações que envolvem tanto dinheiro, pois tentar beliscar o assunto parece uma ofensa a tabus mais ou menos sacralizados. Os negócios do mundo do futebol são desses campos intocáveis que, por envolverem tantos interesses e por confluírem para esta (dita) indústria rios subterrâneos, escondem negociatas, lavagem de dinheiro, subornos, tráfico de pessoas, participação em negócio ilícito, branqueamento de capitais… e muitos mais crimes graves, agravados e agravantes. Se algum destes itens tocasse alguma outra área de atividade humana (económica ou social) estariam sob investigação e talvez fossem a julgamento, mas porque acontecem no âmbito do futebol parece que nada se vê nem investiga, antes se adia o confronto com este submundo cultural que já levou à falência tantas empresas e que criou mais infelizes do que vitoriosos…

Não está aqui subjacente ataque a qualquer mentalidade de clubite, antes vemos que todos, de uma forma ou de outra, se movimentam neste líquido peganhento, que se entranha na mentalidade geral e poucos tentam destoar desta onda mais ou menos envolvente. 

= De entre todas as nuances desta chafurdice do futebol a que mais me repugna é a da compra-e-venda de jogadores: eles são matéria de negócio, vendidos como escravos, segundo os intentos de uma sociedade materialista, onde cada elemento só vale enquanto rende e valoriza, se fizer render ainda mais dinheiro. Pobres seres que entram na engrenagem: tornam-se matéria descartável, se as suas habilidades forem decrescendo e já não renderem o esperado. Quando se pensava que estávamos a evoluir na linha da consciência de que ser pessoas humana não é só mais-valia comercial, vemos que se tem vindo a agravar a comercialização deste tipo de escravatura. Quando se foi retirando dos espetáculos do circo os animais porque podiam não ser tão bem tratados como era desejável, vemos os jogadores da bola – elas também já estão nas lides – serem usados como matéria que vale enquanto rende e faz render ainda mais dinheiro. 

= As massas acríticas de adeptos e de sócios, de simpatizantes e de compradores do produto, continuam a encher os estádios – tal como no declínio do império romano do ocidente – e gritar pelos seus ídolos, que agora jogam pelas suas cores e mais logo podem trocar pela coloração adversária – tornada inimiga por quem manipula – se lhe pagarem mais e os aliciarem com outras regalias e demais benesses.

Desgraçadamente temos vindo a involuir nesta área daquilo que se chegou a considerar como ‘desporto’, pois este em vez de criar harmonia e paz, tem vindo a acirrar o que há de mais animalesco em cada ser humano. Vejam-se as intermináveis discussões televisivas a propósito de nada e de coisa nenhuma, pois se apresentam divergências mais para afastar quem pense pela sua cabeça e não se deixa manipular.

Deixo essa tirada de um treinador ganhador há cerca de um mês: ‘se vocês se unirem e tiverem a força e a exigência que têm com o futebol nos outros aspetos do nosso Portugal, da nossa economia, da nossa saúde, da nossa educação, vamos ser um país melhor’…

O futebol não é tudo na vida!

 

António Sílvio Couto

segunda-feira, 17 de junho de 2019

Engordar os dependentes do ‘estado’


A discussão volta a animar a vida política: há quem privilegie os servidores do ‘estado’, dando-lhes regalias, benesses e prometa aumentar-lhes os vencimentos e as oportunidades de emprego, postergando quem não gravite nesse âmbito… isto é, os privados e quem não precisa da proteção da ‘providência’ estatal. Em contraste os milhões de contribuintes esmagados com impostos não têm oportunidade nem defesa contra quem os explora e os faz ser peça de engrenagem para enriquecimento do ‘estado’…totalitário.

Desde já uma declaração de princípios: sou pela iniciativa privada, contribuo para o ‘estado’ naquilo que são os impostos sociais, dele tenho recebido o mínimo e não acredito na boa conduta ou execução dos deveres do tal ‘estado’ sem rosto nem bom senso…naquilo que toca à justiça nem à básica solidariedade!

Recordando: os contribuintes estatais não chegam a vinte por cento da produção de riqueza…nacional. Muitos deles vivem à sombra dos benefícios que lhes criaram as tutelas partidárias. Uma boa parte está dependurada nas benesses encriptadas. Usam e abusam do poder que têm, criando uma penumbra de suspeita sobre a sua honorabilidade (direta ou camuflada) e, sobretudo, seguindo uma forma de conduta pouco aceitável: ‘tal dinheirito, tal trabalhito’! Não acredito, minimamente, nisso a que vão designando, quando convém, de ‘serviço público’, sobretudo, tendo em conta o serviço de atendimento ao público, na maior parte das vezes menosprezado e negligentemente tratado…  

Bastaria um pouco de observação e muitos dos atributos de alguém ser considerado ‘funcionário público’ preencheriam os requisitos mais elementares de que algo não vai muito bem no reinado deste setor fundamental da nossa sociedade. Veja-se a apetência para que alguém possa entrar nesse quadro onde o despedimento está fora de possibilidade, o vencimento mensal situa-se na barreira do garantido e de que as regalias do campo da saúde estão suportadas…sem qualquer dúvida.

Com a promessa de que o quadro vai ser alargado, com a perspetiva de que os que ocupam instâncias superiores vão ser aumentados, vislumbra-se que, quem tal proclama, sabe as linhas com que se cose e que tem meios para afiançar tais pretensões. Será que isto basta para atingir a barreira dos quarenta e tal por cento dos votantes? Irão todos seguir a tendência de segurar-se primeiro e esperar depois ou será o contrário, não se deixarão iludir, pois o passado já cumpriu a desilusão?  

= Os contribuintes privados e fora dos círculos das áreas metropolitanas (de Lisboa e do Porto) ainda são, pelo menos, quarenta por cento dos cidadãos nacionais. Ora, estes são, normalmente, vistos e tratados como de segunda categoria. Veja-se no processo dos passes-sociais e multimodais dos transportes, nas regalias quanto à energia elétrica, à procura dos bens e serviços de comunicação (tanto dos correios, como do setor bancário), às questões de saúde e de segurança…sem esquecer o que envolve muitos dos problemas de educação.

De facto, a sanha persecutória a quem não era do ‘estado’ no ensino está a criar vítimas em catadupa: escolas bem conceituadas e de sucesso fecham só porque os acordos de associação não foram assinados… Com feito, o ‘estado’ agnóstico tem outros interesses e objetivos, desde logo o de asfixiar quem faça diferente da tutela ideológica de sabor dialético-marxista reinante. Certamente alguns rejubilarão com o sucedido, mas os cidadãos ‘privados’ ficam atingidos nos seus direitos, liberdades e garantias… que os proponentes tanto apregoam, mas não praticam…minimamente.

Por quê este manto de silêncio na comunicação social? Será resultado da compra dos direitos de indignação ou faz parte do plano de reduzir tudo ao menor denominador comum da imbecilidade? A quem interessa narcotizar as fontes de reflexão e de questionamento? A maioria das escolas tinha tónica cristã/católica… 

= Como já exprimi anteriormente: ser de esquerda é viver à custa do ‘estado’ e ser de direita pode reduzir-se ao privado? Aquele não se alimenta sugando os impostos deste? Se os privados não pagarem os impostos/contribuições, o tal ‘estado’ terá fundos para distribuir favores aos seus lacaios?

Afinal, quem defende os privados, se os governantes se ancoram, sobretudo, nos favorecidos do ‘estado’?

Diz a experiência que, com dez nos privados, se governa, quem, no ‘estado’, gasta cinquenta. Até quando?      

 

António Sílvio Couto

quarta-feira, 12 de junho de 2019

‘Ser professor’: profissão ou vocação?


Há dias ouvi uma observação de uma mãe sobre o futuro de sua filha ainda adolescente em que esta terá referido que nunca quereria ser professora… Diante desta referência de alguém ainda novo poder-se-á questionar se a profissão de professor/a estará em risco e com isso a possibilidade de aprender.

Pelo que temos visto, ouvido e lido esta área profissional dos professores/as está a passar por alguma convulsão e não são só os protestos em defesa das suas regalias ou direitos, mas também aquilo que poderá ser o futuro da educação no nosso país.

Atendendo à sublime importância dos professores na vida de qualquer cidadão considero urgente encetar um processo reflexivo sobre aquilo que se está a passar no presente, tentando acautelar o futuro.

Desde logo fique claro que esta arte de ser professor é bem mais importante do que pela forma como dela se fala ou mesmo pela consideração que se lhe possa atribuir.

Ao longo da minha vida de estudante – desde os 6 até aos 24 anos, acrescido posteriormente dos 33 aos 35 – tive dezenas de professores, nos vários graus de ensino e de estudo, mas muito poucos deixaram marca de referência. De alguns colhi a lição de aprender a estudar – procurando ter um método próprio, adequado e pessoal – mas outros não deixaram sequer resquícios de gosto pela matéria, como por exemplo na matemática, pois o professor sabia do assunto, mas não era capaz de ensinar nem de motivar a aprendizagem…uma boa parte conhecia os assuntos e conseguiu que aprendêssemos as matérias, mas tantos outros estudaram-nas, mas não sabiam como ensiná-las… De facto, não basta ter de prestar provas diante de quem se antecipou a aprofundar os assuntos, será sempre preciso ser cativado, positivamente, pela vocação de ensinar… seja qual for a idade do ensinado.  

= Dar aulas ou ensinar?

Ontem como hoje podemos encontrar quem ministra conhecimentos, mas nem sempre ensina a pensar. Há dias o professor premiado, este ano, com o ‘global teacher prize’ dizia que, na sala de aula, não podia ser só ele a pensar, também os alunos deviam estar a pensar ou, então, estariam todos a perder o tempo.

Diante desta declaração como que se torna essencial vermos se a escola é um lugar onde se aprende ou se, pelo contrário, por desmotivação, não se consegue criar condições entre todos os intervenientes para que o processo educativo se torne uma ferramenta cultural e não só um espaço de ocupação do tempo em sala de aula…com a posterior prestação de provas/conhecimentos.

Mesmo que forma simplista poderíamos distinguir entre ‘dar aulas’ e ‘ensinar’, na proporção entre ganhar a vida na escola como noutra profissão qualquer e a arte de fazer crescer os estudantes, tornando-os mais do que meramente alunos, isto é, ‘crianças a alimentar’…com novos conhecimentos.

Quem não terá já ouvido a frase: o acabar de um curso, com o possível grau de licenciatura, é a autorização para começar a estudar e não como etapa de chegar, pelo contrário, a uma nova fase de caminhada…com outros meios e recursos. 

= Questões de sobrevivência…no presente e para o futuro

Com o decréscimo da natalidade temos vindo a ver a diminuição da ‘matéria-prima’ dos professores: sem crianças não terão, naturalmente, emprego. Há casos em que são os próprios professores que não têm filhos, coartando eles mesmos a possibilidade de sobreviverem profissionalmente.

Embora se comecem a vislumbrar ténues sinais de recuperação – as creches estão sobrelotadas, enquanto os jardins-de-infância perdem gente – isso só será notado daqui a dez anos e aí talvez venha a faltar um leque de professores disponível para exercer a profissão condignamente. De facto, as escolhas para vir a ser professor/a é cada vez menor nas opções dos estudantes universitários… bastará dizer que menos de metade das vagas para os lugares de cursos ligados ao ensino foram preenchidas no concurso do ano passado.

Uma questão percorre este tema ligado à educação: os professores/as são-no por vocação ou servem disso para exercerem uma profissão? Pelo que temos visto e sentido em muitos dos professores/as parece que a segunda vertente pesa mais do que a primeira… Queira Deus que a menor quantidade apure a qualidade!     

 

António Sílvio Couto

segunda-feira, 10 de junho de 2019

‘Marchas populares’: resquícios do Estado Novo?


Por estes dias serão número de programa de festas à mistura com transmissões televisivas, tanto na capital, como noutros locais onde se vivem festejos ditos populares. As ‘marchas’ exibem-se como se fossem rótulo de qualidade das festas de Lisboa, mas também em paragens tão diversas como nalguns países apelidados de ‘língua oficial portuguesa’.

Com referência ao início mais visível e organizado ao tempo do ‘Estado novo’, em 1932, as marchas populares já se realizariam no século dezoito…em sintonia com as festas ‘sanjoaninas’ ao ritmo do solstício do verão. A partir de 1958, às marchas juntaram-se os ‘casamentos de Santo António’.

De algum modo estas duas componentes – rito de fogo e festa da fertilidade – estão presentes nas ‘marchas populares’ e, nos posteriormente organizados, ‘casamentos de Santo António’, a cuja tutela se entregava alguma da influência e da proteção desta vertente ligada à vida e à família…

Se bem que na sua expressão quase-religiosa os ‘santos populares’ tenham alguns resquícios de paganismo, com a introdução do recurso aos santos do mês de junho – S. António, S. João e S. Pedro – se quis configurar uma espécie de sociedade profana com laivos de cristandade, isto é, onde uma boa parte usufrui daquilo que talvez desconheça, ignora ou mesmo nem queira saber o significado, quedando-se na festa pela festa… 

= Eis algumas questões sobre este tema das ‘marchas populares’. Porque será que se dá tanta importância, ainda hoje, às marchas populares? Que têm elas de tão específico para ser promovidas, organizadas e realizadas com tanta profusão de meios e de adereços? Mesmo em tempo (dito) de democracia porque vinga este género cultural de arte popular? Haverá algo que explica a prossecução das marchas populares quase nove décadas desde a sua implementação? Estarão os participantes nas ‘marchas’ conscientes da origem desta expressão sociopolítica ao longo dos anos? O que faz correr tantos autarcas e políticos profissionais pela visibilidade na oportunidade de difusão das marchas populares?

Outras perguntas se poderão colocar, sobretudo, se sairmos do reduto da origem das ‘marchas’ organizadas e competitivas, que é Lisboa. Muita da imitação da capital se foi alargando em tantas regiões do Portugal colonial, que até podemos ver as ‘marchas’ em Angola ou no nordeste brasileiro.

 

= Tentemos fazer um pouco de história para percebermos algumas das estórias… dos nossos ‘santos populares’, onde as marchas têm espaço e outros interesses se podem misturar com maior ou menor ignorância.

A primeira organização das ‘marchas populares’ deu-se em 1932 através da ação de um jornalista e professor à mistura com o impulso do responsável da propaganda do regime recém-instalado: era preciso arranjar um espetáculo que mobilizasse a atenção dos lisboetas, divertindo-os sem esquecerem as suas raízes. As coletividades dos bairros da cidade foram convidadas a participar, embora só mais tarde a edilidade tenha vindo a assumir a responsabilidade do evento e como forma de salvaguardar as tradições dos respetivos bairros, misturando sabor ruralista com elementos do folclore, servindo nalgumas épocas os intentos do regime, sobretudo em datas simbólicas da nossa história coletiva e particularmente de Lisboa.

Deixamos para outros entendidos a composição das ‘marchas’, desde a configuração musical até à disposição dos trajes, colocando o assento desta questão das ‘marchas’ naquilo que pretendeu ser popular e talvez natural de um povo que precisa de divertir… 

= As marchas populares’ foram transversais à segunda república e nesta terceira república, em que entramos pela revolução do ’25 de abril’, dá a impressão de que é preciso refletir sobre o significado atual das ‘marchas’ por forma a não ficarmos nos estereótipos da ‘canção de Lisboa’ (1933) ou do ‘pátio das cantigas’ (1942), que deram identidade e projeção às ‘marchas’…de Lisboa para o mundo, mas que já não usam aqueles clichés nem linguagens… Como em todas as boas e interessantes iniciativas será sempre preciso ter capacidade de se reinventar, por forma a termos salutares tradições, que preservam a nossa identidade na contínua criatividade de todos pelo respeito de cada um.  

 

António Sílvio Couto

sexta-feira, 7 de junho de 2019

Exercícios de ventriloquismo


Pasme-se: o que temos ouvido e visto, por estes dias, soa a exercício razoável de ventriloquismo, isto é, figuras públicas/políticas dizem tudo e o seu contrário com a mesma serenidade com que se pretende vender o produto que anunciam na ‘feira’ das promoções, retirando custos e concedendo benesses ao maior número possível e talvez imaginário. 

Exemplos: o que se passa na área dos transportes – promovem-se passes sociais a baixo custo, enquanto são retirados assentos nos comboios e nos barcos para que haja mais espaço à custa de menor qualidade.

Tenta-se dar mais espaço às questões de saúde, mas os profissionais (médicos e enfermeiros) não veem crescer a remuneração nem o reconhecimento… passado, presente e futuro.

A transportadora aérea nacional dá prejuízo, em relação ao ano transato de cem milhões de euros, e distribuem-se prémios de milhares por quase duas centenas de ‘dedicados/as’ funcionários/as, sendo alguns até familiares – coincidência apenas! – de autarcas e outros afins à governança em maré de quase fim-de-feira…

Pior ainda é ver a voz embargada com que certos titulares de cargos públicos vem pedir ‘desculpa’ pela incapacidade de melhorar as condições, quando ainda há dias celebraram as vitórias ‘poucochinhas’, mas altissonantes em matéria de ganhos e de sonhos… 

= Confesso a minha admiração pela arte de ventriloquismo em que a mesma pessoa faz (ou pode fazer) várias vozes sem nos apercebermos como o consegue… tal a destreza e a habilidade. No entanto, com a comunicação de imagem em proximidade – dos nossos dias – o ‘artista’ corre o risco de ser, inadvertidamente, denunciado e podendo perigar a sua capacidade de impressionar. Ora, nos tempos mais recentes, parece que isso tem vindo a ser potenciado com mais artimanha, pois os comunicadores políticos conseguem enganar ainda melhor com os jogos de câmaras, de artifícios e de registos…dado que nem sabemos se isso que é dito acontece ‘em direto’ ou, se por ser tão bem feito, a mensagem já não interessa, mas todos se fixam em quem diz ou faz a mais singular patranha…convictamente.

Admito que esta nova fase de ventriloquismo nacional está a superar o espetáculo até agora conseguido. As massas correm atrás do ventríloquo mor, presas pelas ‘contas certas’ e arregimentadas para uma vitória que se anuncia muito mais convincente do que as impressões dos melhores tratadores da bola-no-pé, onde sobressai o nosso melhor e mais premiado jogador. Que essa voz arrasta, seduz e convence até os mais resistentes, isso é facto. Bastou colocar um outro ventríloquo a concorrer às eleições europeias e o fascínio foi cativante. Tal como o ventríloquo artista não mostra os dentes, assim quem foi colocado a candidato fez o mesmo papel… e foi plebiscitado com grande sucesso, auspiciando, desde logo, idêntica maré no início do quarto trimestre do ano em curso… 

= Não se julgue que não há idênticos tiques na maior parte dos campos de atividade social, cultural, desportiva e mesmo religiosa. Quantas vezes os ventríloquos vão imitando as vozes, não sendo fácil distinguir entre os originais e as cópias. Quantas vezes se torna difícil perceber que estamos a ser ludibriados por habilidosos bem preparados para nos levarem a escolher o que não queríamos. Quantos andam por aí, fazendo-se passar por quem não são, até se descobrir as malfeitorias (quase) irreversíveis.

De pouco adiantará inventarem ‘polígrafos’ que detetam mentiras, se estas estão, desde logo fundadas sobre princípios falaciosos e são avaliadas com critérios falseados. Por agora vamos vivendo ao sabor de exercícios mais ou menos convencionais de ventríloquos que dão sorte ao espetáculo. Mas, um dia, se há de perceber que, afinal, esses bonecos articulados eram mesmo marionetas de um processo bem mais abrangente, mas que só se descobrirá tarde de mais que o logro tem custos muito altos e teremos de pagar todos os erros de alguns mais espertos. De facto, custa a crer que, tanto tempo depois, ainda haja quem conte mais com a sua esperteza e menospreze a inteligência alheia… Assim, não!

Tentemos ler tanto daquilo que nos acontece, por agora, dentro deste quadro de ventriloquismo nacional mais básico, ardiloso e emocional e muito se perceberá em breve!     

 

António Sílvio Couto