Partilha de perspectivas... tanto quanto atualizadas.



segunda-feira, 10 de junho de 2019

‘Marchas populares’: resquícios do Estado Novo?


Por estes dias serão número de programa de festas à mistura com transmissões televisivas, tanto na capital, como noutros locais onde se vivem festejos ditos populares. As ‘marchas’ exibem-se como se fossem rótulo de qualidade das festas de Lisboa, mas também em paragens tão diversas como nalguns países apelidados de ‘língua oficial portuguesa’.

Com referência ao início mais visível e organizado ao tempo do ‘Estado novo’, em 1932, as marchas populares já se realizariam no século dezoito…em sintonia com as festas ‘sanjoaninas’ ao ritmo do solstício do verão. A partir de 1958, às marchas juntaram-se os ‘casamentos de Santo António’.

De algum modo estas duas componentes – rito de fogo e festa da fertilidade – estão presentes nas ‘marchas populares’ e, nos posteriormente organizados, ‘casamentos de Santo António’, a cuja tutela se entregava alguma da influência e da proteção desta vertente ligada à vida e à família…

Se bem que na sua expressão quase-religiosa os ‘santos populares’ tenham alguns resquícios de paganismo, com a introdução do recurso aos santos do mês de junho – S. António, S. João e S. Pedro – se quis configurar uma espécie de sociedade profana com laivos de cristandade, isto é, onde uma boa parte usufrui daquilo que talvez desconheça, ignora ou mesmo nem queira saber o significado, quedando-se na festa pela festa… 

= Eis algumas questões sobre este tema das ‘marchas populares’. Porque será que se dá tanta importância, ainda hoje, às marchas populares? Que têm elas de tão específico para ser promovidas, organizadas e realizadas com tanta profusão de meios e de adereços? Mesmo em tempo (dito) de democracia porque vinga este género cultural de arte popular? Haverá algo que explica a prossecução das marchas populares quase nove décadas desde a sua implementação? Estarão os participantes nas ‘marchas’ conscientes da origem desta expressão sociopolítica ao longo dos anos? O que faz correr tantos autarcas e políticos profissionais pela visibilidade na oportunidade de difusão das marchas populares?

Outras perguntas se poderão colocar, sobretudo, se sairmos do reduto da origem das ‘marchas’ organizadas e competitivas, que é Lisboa. Muita da imitação da capital se foi alargando em tantas regiões do Portugal colonial, que até podemos ver as ‘marchas’ em Angola ou no nordeste brasileiro.

 

= Tentemos fazer um pouco de história para percebermos algumas das estórias… dos nossos ‘santos populares’, onde as marchas têm espaço e outros interesses se podem misturar com maior ou menor ignorância.

A primeira organização das ‘marchas populares’ deu-se em 1932 através da ação de um jornalista e professor à mistura com o impulso do responsável da propaganda do regime recém-instalado: era preciso arranjar um espetáculo que mobilizasse a atenção dos lisboetas, divertindo-os sem esquecerem as suas raízes. As coletividades dos bairros da cidade foram convidadas a participar, embora só mais tarde a edilidade tenha vindo a assumir a responsabilidade do evento e como forma de salvaguardar as tradições dos respetivos bairros, misturando sabor ruralista com elementos do folclore, servindo nalgumas épocas os intentos do regime, sobretudo em datas simbólicas da nossa história coletiva e particularmente de Lisboa.

Deixamos para outros entendidos a composição das ‘marchas’, desde a configuração musical até à disposição dos trajes, colocando o assento desta questão das ‘marchas’ naquilo que pretendeu ser popular e talvez natural de um povo que precisa de divertir… 

= As marchas populares’ foram transversais à segunda república e nesta terceira república, em que entramos pela revolução do ’25 de abril’, dá a impressão de que é preciso refletir sobre o significado atual das ‘marchas’ por forma a não ficarmos nos estereótipos da ‘canção de Lisboa’ (1933) ou do ‘pátio das cantigas’ (1942), que deram identidade e projeção às ‘marchas’…de Lisboa para o mundo, mas que já não usam aqueles clichés nem linguagens… Como em todas as boas e interessantes iniciativas será sempre preciso ter capacidade de se reinventar, por forma a termos salutares tradições, que preservam a nossa identidade na contínua criatividade de todos pelo respeito de cada um.  

 

António Sílvio Couto

sexta-feira, 7 de junho de 2019

Exercícios de ventriloquismo


Pasme-se: o que temos ouvido e visto, por estes dias, soa a exercício razoável de ventriloquismo, isto é, figuras públicas/políticas dizem tudo e o seu contrário com a mesma serenidade com que se pretende vender o produto que anunciam na ‘feira’ das promoções, retirando custos e concedendo benesses ao maior número possível e talvez imaginário. 

Exemplos: o que se passa na área dos transportes – promovem-se passes sociais a baixo custo, enquanto são retirados assentos nos comboios e nos barcos para que haja mais espaço à custa de menor qualidade.

Tenta-se dar mais espaço às questões de saúde, mas os profissionais (médicos e enfermeiros) não veem crescer a remuneração nem o reconhecimento… passado, presente e futuro.

A transportadora aérea nacional dá prejuízo, em relação ao ano transato de cem milhões de euros, e distribuem-se prémios de milhares por quase duas centenas de ‘dedicados/as’ funcionários/as, sendo alguns até familiares – coincidência apenas! – de autarcas e outros afins à governança em maré de quase fim-de-feira…

Pior ainda é ver a voz embargada com que certos titulares de cargos públicos vem pedir ‘desculpa’ pela incapacidade de melhorar as condições, quando ainda há dias celebraram as vitórias ‘poucochinhas’, mas altissonantes em matéria de ganhos e de sonhos… 

= Confesso a minha admiração pela arte de ventriloquismo em que a mesma pessoa faz (ou pode fazer) várias vozes sem nos apercebermos como o consegue… tal a destreza e a habilidade. No entanto, com a comunicação de imagem em proximidade – dos nossos dias – o ‘artista’ corre o risco de ser, inadvertidamente, denunciado e podendo perigar a sua capacidade de impressionar. Ora, nos tempos mais recentes, parece que isso tem vindo a ser potenciado com mais artimanha, pois os comunicadores políticos conseguem enganar ainda melhor com os jogos de câmaras, de artifícios e de registos…dado que nem sabemos se isso que é dito acontece ‘em direto’ ou, se por ser tão bem feito, a mensagem já não interessa, mas todos se fixam em quem diz ou faz a mais singular patranha…convictamente.

Admito que esta nova fase de ventriloquismo nacional está a superar o espetáculo até agora conseguido. As massas correm atrás do ventríloquo mor, presas pelas ‘contas certas’ e arregimentadas para uma vitória que se anuncia muito mais convincente do que as impressões dos melhores tratadores da bola-no-pé, onde sobressai o nosso melhor e mais premiado jogador. Que essa voz arrasta, seduz e convence até os mais resistentes, isso é facto. Bastou colocar um outro ventríloquo a concorrer às eleições europeias e o fascínio foi cativante. Tal como o ventríloquo artista não mostra os dentes, assim quem foi colocado a candidato fez o mesmo papel… e foi plebiscitado com grande sucesso, auspiciando, desde logo, idêntica maré no início do quarto trimestre do ano em curso… 

= Não se julgue que não há idênticos tiques na maior parte dos campos de atividade social, cultural, desportiva e mesmo religiosa. Quantas vezes os ventríloquos vão imitando as vozes, não sendo fácil distinguir entre os originais e as cópias. Quantas vezes se torna difícil perceber que estamos a ser ludibriados por habilidosos bem preparados para nos levarem a escolher o que não queríamos. Quantos andam por aí, fazendo-se passar por quem não são, até se descobrir as malfeitorias (quase) irreversíveis.

De pouco adiantará inventarem ‘polígrafos’ que detetam mentiras, se estas estão, desde logo fundadas sobre princípios falaciosos e são avaliadas com critérios falseados. Por agora vamos vivendo ao sabor de exercícios mais ou menos convencionais de ventríloquos que dão sorte ao espetáculo. Mas, um dia, se há de perceber que, afinal, esses bonecos articulados eram mesmo marionetas de um processo bem mais abrangente, mas que só se descobrirá tarde de mais que o logro tem custos muito altos e teremos de pagar todos os erros de alguns mais espertos. De facto, custa a crer que, tanto tempo depois, ainda haja quem conte mais com a sua esperteza e menospreze a inteligência alheia… Assim, não!

Tentemos ler tanto daquilo que nos acontece, por agora, dentro deste quadro de ventriloquismo nacional mais básico, ardiloso e emocional e muito se perceberá em breve!     

 

António Sílvio Couto

quarta-feira, 5 de junho de 2019

Soltem os cães da trela…


A nova onda ecologista – em muitos casos sob a camuflada influência ‘new age’ – tem vindo a exaltar, defender e promover algo que pode ser considerado uma espécie de contrassenso: fazem dos animais umas das vertentes mais difundidas, mas tornam essa propaganda sem significado, pois tiram os animais do seu habitat, colocando-os em casas e prendem-nos como se fossem coisas ou objetos para os humanos.

Com que facilidade vemos os cãezinhos – termo mais do que diminutivo ou pejorativo – serem condicionados pelas trelas dos seus ‘donos’. Ora esta palavra, ‘dono’, contradiz todo o significado de defesa dos animais e até mesmo da sua autodeterminação. Com efeito, fazer de um animal – seja lá qual for ou tenha o porte que tiver – alguém de quem me aproprio para meu bel-prazer ou mesmo para ser ‘bicho de companhia’, é distorcer a mais ínfima consideração pelos animais.

Ainda recentemente, por ocasião dum acontecimento político, víamos dois cães de razoável complexão fazerem parte do cenário, mas estavam aprisionados pelos seus donos ou tratadores. Será isto a dignificação dos animais? Não será, antes, manipulação das ideias pelo contraditório do comportamento? Teremos todos de ficar calados, quando uns se dizem tão defensores dos animais, mas que os maltratam com benesses pouco dignas da condição humana? Será justo e correto – embora possa ser aceite/tolerado – obrigar animais do campo a estarem presos em casas e gaiolas, mesmo que douradas e limpas? Não se estará a usar os animais como substitutos afetivos, quando os tratadores estão a viver em disfunção emocional?

Com o passar do tempo e a campanha insistente, os animais como que foram banidos da maior parte dos espetáculos dos circos e de divertimentos afins. No entanto, não impera a mesma lógica para com quem usa (ou abusa) dos animais de companhias, em tempos ditos ‘domésticos’, condicionando-os, muitas vezes, aos caprichos dos (pretensos) donos, aprisionando-os em andares e casas nem sempre adequadas para a convivência entre humanos e animais, sem as mínimas vivências normais da naturalidade em que deviam viver…  

= Mesmo que de uma forma um tanto difusa, o Papa Francisco, na encíclica ‘Laudato si’ sobre o cuidado da casa comum, de maio de 2015, apresenta alguns aspetos a ter em consideração nesta questão do relacionamento entre ser humano e seres sensíveis não-humanos. «Ao mesmo tempo que podemos fazer um uso responsável das coisas, somos chamados a reconhecer que os outros seres vivos têm um valor próprio diante de Deus e, «pelo simples facto de existirem, eles O bendizem e Lhe dão glória», porque «o Senhor Se alegra em suas obras» (Sl 104/103, 31). Precisamente pela sua dignidade única e por ser dotado de inteligência, o ser humano é chamado a respeitar a criação com as suas leis internas, já que «o Senhor fundou a terra com sabedoria» (Pr 3, 19). Hoje, a Igreja não diz, de forma simplicista, que as outras criaturas estão totalmente subordinadas ao bem do ser humano, como se não tivessem um valor em si mesmas e fosse possível dispor delas à nossa vontade; mas ensina – como fizeram os bispos da Alemanha – que, nas outras criaturas, «se poderia falar da prioridade do ser sobre o ser úteis».
O Catecismo põe em questão, de forma muito directa e insistente, um antropocentrismo desordenado: «Cada criatura possui a sua bondade e perfeição próprias. (...) As diferentes criaturas, queridas pelo seu próprio ser, reflectem, cada qual a seu modo, uma centelha da sabedoria e da bondade infinitas de Deus. É por isso que o homem deve respeitar a bondade própria de cada criatura, para evitar o uso desordenado das coisas» (Laudato si, n.º 69).

Vejamos, então, algumas repercussões deste tema tão ‘ecologista’ na ética/moral, sobretudo tendo em conta a reflexão cristã/católica. Talvez falte uma razoável educação de valores, para que não se gere confusão de prioridades, como tem sido recorrente nos tempos mais recentes, onde se vem dando uma hominização dos animais à mistura com uma outra animalização dos humanos. Certas forças contestatárias da cultura judaico-cristã vão-se aproveitando da visibilidade lobista das suas posições para irem criando esta onda de exaltação dos animais, deixando os humanos num plano de complexa inferiorização…

Não podemos permitir que certas forças anarco-populistas se aproveitem da confusão e do descontentamento sociopolítico para se considerarem mentores de uma nova doutrina sem trela em governo…desumano!

 

António Sílvio Couto



terça-feira, 4 de junho de 2019

Do Pentecostes judaico ao Pentecostes cristão



À semelhança do que aconteceu com a Páscoa, assim o Pentecostes do tempo de Jesus coincidiu com a festa judaica, isto é, a Páscoa de Jesus (paixão-morte-ressurreição) deu-se, cronológica e historicamente, quando acontecia a celebração da Páscoa judaica, assim, cinquenta dias depois, é o que significa ‘Pentecostes’, se celebrava, em Jerusalém, com solenidade, por seu turno, no Pentecostes cristão dá-se a manifestação do Espírito Santo sobre os apóstolos reunidos no Cenáculo.
Vejamos a identidade de cada momento de Pentecostes nestas etapas da revelação na Sagrada Escritura:

* Pentecostes judaico – de festa agrícola à celebração da Lei



Tal como outros momentos de festa entre o povo judaico também o Pentecostes teve início em ritos de natureza agrícola e em vivências do ritmo de vida ligado à terra…portanto, já numa etapa de estabilização do povo de Deus.
O Pentecostes começou por ser uma ‘festa de colheitas’ (Ex 23,16), em que eram oferecidas as primícias dos produtos da terra (Ex 24,32; Num 28.26) e, por conseguinte, uma festa alegre (Is 9,2) e de ação de graças, em que se dava graças a Deus pela colheita do trigo. A esta festa essencialmente agrária, se deu também o nome de ‘festa das semanas’ porque era celebrada sete semanas depois da ‘festa dos ázimos’ (Páscoa), tendo-lhe sido dado um sentido histórico, na qual se celebrava a promulgação da lei moisaica no Sinai… e isso trazia, em peregrinação a Jerusalém, milhares de judeus espalhados pelo mundo… tal se verá na descrição do livro dos Actos dos Apóstolos, já em contexto de celebração do Pentecostes cristão.
* Pentecostes cristão – derramamento do Espírito Santo





Em Act 2,1-11 se relata a manifestação do Espírito Santo, no dia do Pentecostes. Nesta celebração histórica do Pentecostes cristão encontramos breves resquícios da confluência de festas verificadas no Pentecostes judaico: diz dos discípulos (Act 2,13) que estavam cheios de vinho doce, ora este era um dos primeiros frutos da videira e era oferecido na festa judaica em primícia no templo de Jerusalém. Faz-se referência à multidão dos peregrinos (Act 2,9-11) numa espécie de amálgama de pessoas que poderiam trazer confusões, senão fossem bem orientados. Por outro lado, os sinais – línguas de fogo e glossolalia – com que os discípulos são abençoados e como se comunicam, fazem desse momento o cumprimento duma nova Lei – a do Decálogo era suplantada – na força do Espírito Santo.
Digamos: se a promulgação da Lei no monte Sinai foi algo constitutivo do povo de Deus na revelação a Israel, o derramamento do Espírito Santo marca o dia zero da Igreja de Cristo com uma linguagem nova, já não a dos homens, mas a de Deus e com sinais de comunhão pelo entendimento daquilo que é dito na diversidade dos vários povos, línguas e culturas.
Na identidade cristã da Europa, nós, em Portugal, somos dos poucos povos que não verteram em feriado nacional o dia seguinte ao Pentecostes… Falta de tradição ou de consciência de pertença?  

Recorremos às palavras do Patriarca Atenágoras (1948-1972), onde se faz um solene contraste entre a Igreja/pessoa conduzida pelo Espírito Santo ou quem não se deixa conduzir:

“Sem o Espírito Santo, Deus está distante,

o Cristo permanece no passado, o Evangelho uma letra morta,

a Igreja uma simples organização, a autoridade um poder,

a missão uma propaganda, o culto um arcaísmo,

e a ação moral uma ação de escravos”.
Queremos estar mesmo sob a condução do Espírito Santo? Estaremos aí sintonizados?

Em Igreja deixemos que o Espírito de Deus nos conduza e nos guie sempre mais e, sobretudo, melhor!

 

António Sílvio Couto


segunda-feira, 3 de junho de 2019

Será esquerda – ‘de todos’ e direita – ‘privado’?


Numa espécie de anacronismo histórico-cultural temos vindo a assistir à discussão/ideologização das questões no nosso país. Quando, em tantos países da Europa, surgem novas formas de agrupação ideológica, por cá radicalizam-se as matérias em torno de ‘direita’ e de ‘esquerda’, fazendo crer que esta defende o que é de todos, estatalmente, e que aquela acentua a vertente do privado com os possíveis interesses maquiavélicos que lhe podem estar adstritos…

Pior é que declarar-se – ou ser apelidado – de uma ou de outra das partes faz-nos recuar aos tristemente célebres momentos do ‘prec’ – processo revolucionário em curso, dos anos setenta do século passado. Com efeito, temas como os transportes, a educação, a saúde, o trabalho/segurança social, reformas ou ainda a justiça/corrupção… estão presentes na vida do dia-a-dia e fala-se tanto e resolve-se tão pouco… A crise dos sindicatos – que talvez seja do sindicalismo em mudança – veio ainda acentuar a confusão, pois, alguns dos ‘senhores’ nessas matérias parecem ter sido ultrapassados pelas circunstâncias com as mais recentes tecnologias a baralharem o que se pensa e quanto se faz ou pretende fazer.

Muitos/as do que se perfilam de ‘esquerda’ já não beberam na literatura marxista nem andaram envolvidos em lutas no terreno, mas antes são resultado das tricas de gabinete mais ou menos decorado com simbologias de antanho, mas onde as figuras marcantes foram escondidas porque, entretanto, banidas noutras latitudes.

Na mais jovem disputa eleitoral vimos que certos arquétipos de propaganda estão falidos – arruadas, visitas às feiras, comícios (nunca em espaço livre), sessões de esclarecimento, debates (com os televisivos sendo tolerados, mas nem sempre levados a sério)… as máquinas partidárias já não são o que eram, mas têm vindo a ser antes instâncias de recrutamento para emprego e de lavagem de interesses, senão mesmo de dinheiro…
= A nomenclatura de ‘esquerda’ e de ‘direita’ tem vindo a sofrer a erosão própria de quem não tem sabido interpretar os tempos. Em matérias sociais e ambientais temos estado a fugir de tomar as questões como fundamentais e urgentes: vai-se atirando dinheiro para camuflar os temas como o emprego (direito ou dever), as temáticas das reformas no futuro, iludindo o presente com benesses de cêntimos, assobiando para o lado sobre quem paga o quê a quem, quando e como…

O Estado passou a poder ser visto como uma espécie de ‘pai-natal’ em digressão todo o ano, distribuindo prendas, confetes e prebendas a quem melhor o adular e souber estar do lado da dita ‘esquerda’ social, cultural e (aparentemente) mais rentável.

Há, no entanto, certos tiques de um novo ‘capitalismo de estado’, quando se faz da máquina fiscal a controladora dos desvarios ou dos atrasos no pagamento – veja-se o ‘espetáculo’ recentemente montado à saída de uma autoestrada, tentando apanhar tudo e todos…como infratores – e com isso se vai engordando a possibilidade de mais reversões, se ainda houver oportunidade ou espaço… 

= Ao mito da propaganda das ‘contas certas’ – para europeu ver, apreciar e, sobretudo, elogiar – não se sabe quem vai ser ainda esmifrado na carga fiscal crescente… embora disfarçada pelos impostos indiretos e tantos outros adereços ainda não descobertos totalmente nem denunciados.

De facto, a bolsa de pecúlio da tal ‘esquerda’ com intuitos sociais está ancorada nos impostos cobrados, sobretudo, aos ditos privados/particulares da ‘direita’, acrescentando outros proveitos e rendimentos que desaguam da fonte quase-inesgotável da UE. Não deixa de ser manifestamente risível que os maiores oponentes à integração europeia aufiram bons ordenados e consigam melhores subsídios na serventia que mais valores arrecada. Isto é, a ‘esquerda’ que contesta os fundos europeus enriquece com isso que lhe escalda as mãos e alimenta a conta bancária… Haja moralidade e digam de que lado estão… 

= Não tenhamos dúvida: como o equilíbrio da ‘teoria dos vasos comunicantes’ ou ainda a clássica figuração da balança de pratos-iguais teremos de estar atentos à correspondência entre ‘direita’ e ‘esquerda’ sem endeusar nem anatematizar qualquer uma delas, pois uma crescerá ao sabor da depreciação da outra e vice-versa… o riso de hoje será o choro de amanhã e mais depressa do que se pensa ou julga! 

 

António Sílvio Couto


terça-feira, 28 de maio de 2019

Sucesso do ‘banco alimentar’ denuncia conquistas do governo?

No mesmo dia em que decorreram as eleições para o parlamento europeu foi desenvolvido o projeto do ‘banco alimentar contra a fome’. Este, como de costume, tentou recolher alimentos para ajudar quase meio milhão de portugueses que passam por dificuldades de alimentação, enquanto aquele ato eleitoral queria receber os votos de mais de dez milhões de eleitores.
= Mas será que o repetido sucesso do ‘banco alimentar’ é assim um acontecimento que deixe o governo em paz e sob apaziguamento? Dizer que, quase meio milhão de famílias, recorre aos préstimos do ‘banco alimentar’ não deveria envergonhar quem se diz fazedor de sucesso e de boas contas? Para quem se diz avesso ao assistencialismo não se estarão a criar condições para a exploração em causa própria das debilidades dos mais desfavorecidos? Porque será que os programas de ‘rsi (rendimento social de inserção)’, de pagamento de desemprego e outros afins se prolongam tanto no tempo e não fazem as pessoas caminharem por si mesmas? Não haverá, em muitos dos programas de ajuda alimentar, uma espécie de menorização dos ajudados e/ou de sobranceria dos que ajudam? Até quando andaremos a prender os outros pela boca, quando devíamos fazê-los crescer pela cabeça, através da valorização educacional e cultural?
= Com quase três décadas de presença em Portugal o ‘banco alimentar contra a fome’ tem sido um razoável balão de sustentação para milhares de portugueses…tanto na época da crise, como nos dias mais recentes…apelidados de sucesso pela governança, com tiques de sucesso à mistura, sobrevoando a diminuição do desemprego e até com a promoção de figurações menos-pobres… se bem que os números digam que ainda há dois milhões de pessoas na linha da sobrevivência mínima, isto é, em risco de pobreza ou de exclusão social.
As pequenas-grandes questões de pobreza vivem ainda sob o manto do encobrimento, do disfarce, da não-assunção dos riscos e mesmo da ‘pobreza escondida’ com que tantos dos nossos contemporâneos vão adiando a sua vivência de pessoas com alguma faceta de carência, se não de elementos materiais, ao menos de componentes psicológicas e até de índole espiritual. Como escutei, um dia de Alfredo Bruto da Costa a pior desgraça é a ‘reprodução da pobreza’, tenha ela os tentáculos que possa apresentar… 
= Já o disse mais do que uma vez: se retirarem os pobres do ‘trabalho’ de tanta gente, ficarão sem emprego e talvez sem razão de ser da sua existência: quem tenta cativar os pobres para as suas causas de reivindicação, muitos dos sindicalistas – por agora acalmados com certas políticas de geringonça – que precisam de ter pobres para neles ancorarem as suas reivindicações, tantos serviços sociais – autárquicos, em regime de segurança social e até de grupos religiosos/da Igreja – que se vão promovendo à custa dos que precisam de pedirem favores, comida, roupa ou atenção…
= Quando ao menos duas vezes no ano – no final de maio e em finais de novembro – o ‘banco alimentar contra a fome’ traz solicitações de ajuda para a rua, as reações têm tanto de controversas, quanto de reveladoras do estado cultural em que nos encontramos. O lema da campanha dos últimos dias foi: ’dar um pouco mais para que falte menos’! Entrar na lógica da partilha para com os outros nem sempre se coaduna com os nossos interesses mais mínimos. A ajuda não se pode esgotar na contribuição com algum género alimentar ou de higiene, pois o quase meio milhão de instituições que auferem das ajudas não podem reduzir os seus recursos àquilo que é recolhido dessa forma audaz, voluntária e cíclica.
Muito mal vai um país – ou qualquer outra instituição – em que os pobres forem usados para a promoção de uma certa política social, explorando os mais vulneráveis com ‘festas’ de benemerência em vez da promoção, da execução e do real compromisso pela sua qualidade de vida.
Enquanto vivermos em ritmos de humanização tão discrepantes continuaremos a ver campanhas do ‘banco alimentar’ onde o presidente da república se vai promover com minutos de voluntarismo, enquanto o governo faz festa com as vitórias da subserviência e da manipulação…aqui e na Europa!     




António Sílvio Couto




segunda-feira, 27 de maio de 2019

Voto obrigatório para combater a abstenção


Depois de mais um desastre social e político com a abstenção na ordem dos 70% nas eleições para o Parlamento Europeu, urge tomar medidas que sejam eficazes e que façam da consulta eleitoral um processo democrático e não meramente alternativo ao ‘tanto-faz’ de uma imensa maioria dos portugueses… Dizem que estamos entre os quatro piores países europeus na taxa de abstenção nestas eleições. 

= Mesmo que de forma um tanto desconexa vem-me à cogitação algumas perguntas. Que leva tanta gente a não ir votar? Será acomodação, desânimo ou a mera ignorância? Que faz com que tantos troquem a praia, a distração ou o simples ‘não querer’? Não se terá dado, aos europeus em geral e aos portugueses em particular, uma Europa que lhes foi oferecida e não-conquistada? Os quase setenta anos de paz – em geral e com a exceção dos Balcãs – no continente europeu não mereciam mais respeito e participação? O (pretenso) nível de vida na Europa poderá ter continuidade, se uma longa maioria se alhear do bem comum, fechando-se nos seus particularismos? Aqueles que se empenharam em construir esta Europa Unida terão falhado nos critérios ou fomos nós que não os interiorizamos, desprezando o seu esforço? Não estaremos a proporcionar aos mais novos aquilo que não pediram, mas do qual usufruem de forma (bastante) ingrata e (quase) desresponsabilizada?  

= Diante da razia da abstenção em Portugal e não só, talvez tenha chegado o tempo de ser questionada a introdução – cá e no resto do continente europeu – do voto obrigatório, que já vigora na Bélgica, no Luxemburgo, na Bulgária, na Grécia e em Chipre… No mundo o voto é obrigatório em treze países da América Latina, em mais sete considerados países subdesenvolvidos ou em vias de desenvolvimento e ainda em Singapura e na Austrália. Na maioria dos países o voto é exercido a partir dos dezoito anos.

Nos casos do voto obrigatório estão previstas sanções. Por exemplo no Brasil – um dos países onde o voto é obrigatório – estão previstas sanções legais, tais como a impossibilidade de entrar nalgum concurso ou de tomar possa de um cargo público, não se pode inscrever nem renovar a matrícula numa faculdade pública, não pode tirar o cartão de identificação nem o passaporte e não pode ainda pedir empréstimo aos bancos públicos… A regularização passa por pagar uma multa para que possa readquirir os direitos eleitorais. 

= Agora que alguns dos partidos mais antigos caíram para menos de metade da votação anterior – sobretudo nas eleições europeias – ou vem declinando a influência social e laboral, talvez se possa colocar a urgência em debater o tema do voto obrigatório para que não haja quem reclame sem se pronunciar ou que tem os mesmos direitos dos que fazem o esforço cívico por votar de forma consciente, atuante e séria.

Defendo há muito tempo esta posição, pois não concordo com a cobardia de uns tantos/as que consideram os deveres como algo a roçar a brincadeira ou que ande a ter benesses quem não participa na decisão que toca a todos, sem qualquer distinção.

Se há momento em que todos somos iguais é na hora de votar, pois ninguém tem mais voto ou o seu tem mais valor do que o do outro, misturando-se o voto esclarecido com o voto oportunista, o voto de participação com o possível voto de protesto ou até ignorante…

Poderemos influenciar na direção do voto, mas não na sua expressão, tenha ela a causa que se lhe possa colar ou mesmo instrumentalizar…

Defendo abertamente cortes nas regalias ou até nos direitos sociais para quem não votar. Talvez, quando lhes mexerem no bolso, as pessoas acordem para esta obrigação que se deve tornar um direito substancial de quem quer viver em democracia.

Basta de andarmos a adiar uma tomada de posição que só serve aos caciques e aos que querem continuar no poder sem a mais expressiva legitimidade do voto, pois, se este for significativo, quem é escolhido terá mais convicção para fazer o que deve e não aquilo que lhe convém.

Quase cinquenta anos de democracia merecem que haja mudanças na forma de recolher a expressão do voto popular. O resto poderá tornar-se o atoleiro para onde todos caminhamos…de forma descomprometida!

 

António Sílvio Couto

quarta-feira, 22 de maio de 2019

Ler nas entrelinhas e falar/escrever nas reticências


A comunicação é uma arte, que tem as suas regras, seja para quem é emissor, seja quanto ao recetor.

Saber comunicar aprende-se, exercita-se e vive-se, nas pequenas como nas grandes coisas. Mais do que a mensagem que é comunicada, é preciso entender o comunicador, pois cada um tem a sua forma e feitio de o fazer e não perceber o método pode não permitir que a mensagem não seja captada…no menor alcance da mesma.

Se há quem seja explícito naquilo que diz e no que quer dizer, há quem use do seu modo próprio – poder-se-á chamar de ‘estilo’, tanto literário como pessoal – para que aquilo que diz e o que fala seja entendível. Há, por isso, um certo jeito de exprimir as ideias, desde que estas sejam claras, corretas e precisas. Por vezes, não entendemos o que é lido ou dito, pela simples razão de que quem lê ou fala talvez não saiba o que dizer e como dizer…ao seu estilo. 

= Muitas vezes é preciso ler nas entrelinhas, isto é, por entre o que se diz e aquilo que é dado a entender, nessa imensa arte de fazer com que o leitor/ouvinte esteja atento àquilo que o comunicador nos quer dizer, fazer pensar e mesmo ‘descobrir’ por entre o que exprime. Tantas vezes é preciso estar inserido no contexto da comunicação para que aquilo que nos é dito tenha o verdadeiro efeito comunicativo.

O uso de expressões (mais ou menos) idiomáticas, de trejeitos que fazem lembrar outras situações, de exclamações de outros e trazidas para o contexto de comunicação, a alusão a processos de reflexão – mesmo por antítese – para captar a atenção dos ouvintes/leitores…fazem com que as ‘entrelinhas’ sejam, nalguns momentos comunicacionais, autênticos novos modos de construir a mesma comunicação… não disse, mas deu a entender, embora entenda não possa ser aquilo que foi dito, mas antes suscitado para vir a ser compreendido…

Ler nas entrelinhas pode tornar-se, assim, num processo comunicacional em tantos dos nossos campos de análise, onde mais do que afirmar é preciso interrogar, construir oportunidades de questionamento, estar participativo na arte de comunicar. ‘O que é que quis dizer com aquilo?’ ‘Onde é que quer chegar?’ ‘A quem se dirige esta observação?’… poderão ser algumas das observações para aprender a ler nas entrelinhas. Até o recurso a este método poderá ser exercitado para que não digam que nós dissemos, mas, ao mesmo tempo, para que se possa aprender a refletir sobre o que podemos querer dizer de forma mais ‘inteligente’… 

= Por outro lado, falar/escrever nas reticências é muito mais do que escrever com reticências. Normalmente quem usa este estilo sabe o que quer dizer, mas pretende fazer com que o leitor – como ouvinte será mais pela paragem de silêncio e de momentos interrogativos – complete a frase ou a ideia iniciada a comunicar. Podendo dar a impressão de ser um inseguro, quem usa reticências também poderá tornar-se uma espécie de provocador, que me exige estar participante para completar o que as reticências me querem dizer, mesmo sem disso me aperceber… Embora não seja recomendável o abuso das reticências, estas podem tornar-se uma forma de comunicação que prende o leitor/ouvinte, por forma a entender mais personalizadamente aquilo que me é escrito ou dito… 

= Conta Raul Brandão (in O Vale de Josafat, vol. III das Memórias do escritor): «No julgamento de Júlio de Campos, em Guimarães, [Afonso Costa] quis enfrentar-se com o cónego José Maria Gomes, que tinha fama de piadista e parecia um padre do tempo do Bocage. [Afonso Costa, político depois na 1.ª república] era advogado e o outro testemunha. Afonso Costa, a certa altura do interrogatório, espicaçou-o, dizendo:
– Aí está o senhor a dar uma no cravo e outra na ferradura...
Resposta imediata, com um sorriso do cónego vimaranense:
– É que o senhor doutor não está com o pé quieto!»

Diante de certas atitudes de tantos dos nossos intervenientes públicos – seja qual for a instância ou campo de participação – como que somos desafiados a dizer-lhes o mesmo: não deixem que se lhes dê uma no cravo e outra na ferradura, classificando sem menosprezo o animal… Leiam nas entrelinhas e percebam as…   

 

António Sílvio Couto


segunda-feira, 20 de maio de 2019

O futebol pode alavancar o país?


De entre as múltiplas declarações, por ocasião da recente conquista do campeonato nacional de futebol, destacaram-se as que foram proferidas pelo treinador vencedor, ao afirmar: ‘se vocês se unirem e tiverem a força e a exigência que têm com o futebol nos outros aspetos do nosso Portugal, da nossa economia, da nossa saúde, da nossa educação, vamos ser um país melhor’…

Eis uma altissonante declaração que devia ser colocada como pensamento nas diferentes intervenções de tantos que falam, mas não fazem; que verborreiam, mas sem conteúdo; que dizem o que não sabem e que sabem o que não dizem; que gostam de se (fazer) ouvir, mas não escutam o que não gostam; que juntam frases sem conteúdo e não dão conteúdo ao que podiam dizer nas frases… Numa palavra este ‘desconhecido’ do mundo da política pelo futebol deu lições – profundas, reais e sinceras – de política a propósito de querer falar de futebol!   

= Em tempos mais ou menos recuados – sobretudo na vigência do regime da segunda república – o futebol era como que um dos componentes do tripé nacional: Fátima, fado e futebol… Também nos tempos mais recentes os feitos do mundo do futebol de seleções e de clubes como que se tornaram tábua de salvação do marasmo nacional. Muito para além das quezílias com que somos continuamente matraqueados, temos de aproveitar momentos e declarações como as supra citadas para tentarmos perceber como podemos ser, na Europa da concorrência, algo mais do que laboratórios para ‘vender’ talentos nas habilidades da bola e para catalisarmos as energias recebidas em ordem a fazermos este país/nação mais forte, mais solidário e mais humano. 

= Independentemente da coloração clubística – bem mais profunda e transversal do que qualquer outra na nossa sociedade – pode(re)mos levar a sério o que foi dito por entre eflúvios de comemoração. É verdade: temos de ser tanto ou mais exigentes para com os outros setores da vida pública e social como somos para com o futebol nas suas paixões, gastos e discussões.

Economia, saúde e educação foram os campos que foram referidos pelo treinador vencedor. Sim, se houvesse um mínimo de intransigência nestes aspetos como quanto ao futebol, a nossa vida coletiva estaria muito mais garantida porque não permitiríamos que nos enganassem com promessas nem deixaríamos que nos fossem atirando desculpas quando as coisas não funcionam devidamente.  

= Diante do futebol-desporto temos de saber viver com essa dimensão da vida artística como se fosse uma escola de vida. De facto, o futebol como indústria tem vindo a cavar a sua autodestruição, pois é jogado mais fora do campo da prática, retirando à arte de bem-tratar a bola a componente mais lúdica e saudável. Quantos jovens são aliciados para virem a ser jogadores, como se isso fosse algo que se consegue sem trabalho, disciplina e dedicação. Talvez ainda vivamos no engano dos sucessos e não tenhamos aprendido com os erros e, sobretudo, com a aceitação das vitórias alheias. Estas fazem-nos crescer para que depois tenham respeito pelas nossas próprias conquistas.

Urge ser difundido todo o processo de construção das vitórias, particularmente, quando se alicerçam nas derrotas assumidas, honestas e construtivas. Precisamos de ser ajudados – por quem tem a experiência de conduzir outros – a sabermos distinguir entre as finalidades e os meios, pois, muitas vezes, estes subornam aquelas. No futebol como no resto da vida nem tudo vale para se ser vencedor…  

= É verdade: as lições do futebol podem alavancar o país. Eis breves conceitos que poderão ser transferidos de um para o outro: espírito de unidade ou de equipa, rumo a um objetivo comum; capacidade de escutar e de trabalhar com os outros; respeito pelos adversários para ser respeitado, tanto nas vitórias como nos insucessos; dinâmica de serviço, onde uns se ajudam aos outros e se deixam ajudar; intercomunhão e espírito de solidariedade no dia-a-dia, sobretudo quando se passa por dificuldades… Numa palavra: o país não é só futebol, mas o futebol pode moralizar, nos (seus) aspetos positivos, os meandros do país!

 

António Sílvio Couto

sábado, 18 de maio de 2019

Os outros são o nosso espelho!




Na sua sábia e apurada vivência da vida, os adágios populares podem servir-nos de alavanca de reflexão sobre aquilo que somos, o que desejamos ser ou aquilo que poderemos vir a ser.

Assim o ditado popular – ‘os outros são o nosso espelho’ ou ‘os outros são o espelho do que somos’ – como que nos poderá servir de motivo de análise para algumas das questões mais sensíveis…coletivas e pessoais. Com efeito, têm sido muitas e díspares (nalguns casos disparatadas) as reações degeneradas em catadupa sobre o modo como um tal ‘self-made man’ madeirense, que fez fortuna na África do Sul e encantou com os seus sucessos os governantes, os banqueiros e uma onda da moda nos espaços ligados à compra/venda de obras de arte de grande valor.

Uma boa parte dos reacionários – os que reagiram – ao tal senhor não conseguiram perceber que ele tipifica um tempo/época, um país/nação, um estilo/modo de estar de tantos/as portugueses/as. De facto, a forma (quase) meteórica como ele venceu cá pelas terras do continente tornou-se um caso de estudo, pois à sua sombra e à sua volta muitos subiram também… esses mesmos que se sentem incomodados por constarem das fotografias e dos vídeos com ele, atacando certos trejeitos do seu feitio como se fossem arrepios por se verem denunciados em idênticas lacunas…

Alguma comunicação social promove, incentiva e ataca o tal senhor, mas foi a mesma que o engrandeceu, beneficiou e se regalou com festas e vernissages de uma sociedade do faz-de-conta à mistura com resultados de outra dimensão não-assumida. Como é recorrente também aqui se passou de ‘bestial a besta’ num ápice, bastando, agora, que se arvorem em moralistas da chafurdice não lavada. Efetivamente, muita da comunicação social apadrinhada pelas redes sociais desempenha visivelmente a sua função de abutre banqueteando-se com os destroços ainda não incinerados…

Numa leitura ética/moral – pelo menos o que se sabe e/ou se vai dizendo – o que tem aparecido, esta figura tão malquista põe-nos a todos à radiografia do que somos ou que vamos disfarçando enquanto é possível. Eis alguns aspetos que considero poderem ser lidos e analisados:

- Sucesso antes de trabalho – esta leitura algo recorrente nos tempos mais próximos (para trás e para a frente) parece que cada português está fadado para ser uma reprodução do tal senhor de sucesso, sem grande esforço e, se possível, sem trabalho. Ora só no dicionário é que ‘sucesso’ aparece antes de ‘trabalho’…

- Reinar quanto baste – nos anseios de muitos de nós, portugueses, é preferível aproveitar o que dá enquanto dura, antes que se esgote a fonte do que prevenir, poupando, para quando possa vir a faltar. O consumismo tornou-se a nova e mais seguida religião…popular.

- Chama-lhe antes de que te chamem – como em certas discussões de bairro é preferível colocar em causa a honorabilidade dos outros, antes que reparem na nossa desfaçatez. O anátema lançado sobre o tal senhor como que parece exorcizar muitos dos nossos fantasmas de incongruência e de mentira encoberta…  

= Este senhor é uma espécie de bode expiatório de tantos dos erros de políticos, de jornalistas, de autarcas, de governantes, de fazedores de opinião, de homens/mulheres da rua, pois enquanto olham para ele e invetivam o seu comportamento poderão corrigir as manhas de tantas situações graves e gravosas. Não basta exigir justiça sobre um caso, quando tantos outros – mais culposos e culpáveis – parecem continuar impunes, senão no juízo ao menos no julgamento no lugar correto.

Ao espelho daquilo que podemos ver, exige-se-nos que aprendamos as lições daquilo em que podemos ter prevaricado. Quantos ‘berardos’ se pavoneiam nos carros de alta-cilindrada, se banqueteiam nos restaurantes caros, fazem compras nos espaços mais exotéricos, emitem comentários pelos posts mais efusivos ou se escondem até que os descubram envergonhados das façanhas menos recomendáveis!...

Deixamos um pensamento do Evangelho: cuidai de conseguir amigos com o vil dinheiro para que eles vos acolham na hora da dificuldade… Todos temos telhados de vidro bem mais quebráveis e esburacados…do que pensamos.   

 

António Sílvio Couto

quinta-feira, 16 de maio de 2019

Iniciativa privada gera riqueza


‘É a iniciativa privada quem cria riqueza em Portugal. São os empresários privados os fatores de crescimento e de justiça social. São eles o fator decisivo do progresso do país, é assim e será sempre assim’.

Esta afirmação foi proferida pelo Presidente da República por ocasião da condecoração de uma associação empresarial a celebrar cento e setenta anos de trabalho e dedicação.

Vivendo numa Europa onde se tentam impor os interesses das várias nações, este rasgo do PR pode deixar amargos de consciência a tantos dos intervenientes na distribuição dos dividendos, que nem sempre são ou foram resultado do reconhecimento da iniciativa privada.  

= Bastará olhar para o ar sobranceiro e minimamente totalitário com que certas forças da governança – prestes a expirar, assim o queremos e desejamos – falam e atuam, amesquinhando tudo o que possa ser resultado da iniciativa privada. Campos como a saúde, a educação ou mesmo a cultura estão reféns das tomadas de posição anti-privados. A imposição dos tentáculos estatais percorrem muitos dos âmbitos de intervenção nas políticas atuais, pois a sanha persecutória dos trotskistas tem vindo a fazer as suas vítimas, já na linha do anti-particular da época do período revolucionário de 75.

- Para quando se fará a criminalização das forças que destruíram os milhares de postos de trabalho em terras conquistadas pelos símbolos marxistas e seus correligionários?

- Para quando se dará voz aos explorados pelas forças (ditas) defensoras das ‘classes operárias’, mas que as fizeram desaparecer sem rasto nem feitio?

- Para quando a libertação da ditadura das autarquias subjugadas pelas conveniências dos eleitos, mas sem capacidade de sobreviverem, se a torneira partidária for fechada?

- Quem são esses tais autoapelidados de ‘patriotas’, que se deixam vender por protagonismos baratos, em saldo e sem nexo, mesmo que servem mais a ideologia do que os interesses nacionais? 

= Pior do que a nacionalização dos ‘meios de produção’, para usarmos a linguagem de tantos do anti-privado, é a consonância negativa em torno de questões culturais, onde só vale quem se enquadra na bitola do regime, ao qual convencionaram chamar de democrático, mas que é mais autoritário do que qualquer outra ditadura e que faz do menor-denominador-comum o critério para ser bem ou mal aceite, popular ou rejeitado, de interesse ou mesmo manipulado… A comunicação social é de entre tantos artífices um dos melhores veículos para fazer proliferar a mediania, que é uma outra forma de dizer mediocridade!

Não tivesse proferida em direto a afirmação supracitada do PR e aquela frase, algo essencial neste tempo de reversões em favor das nacionalizações, teria ficado esquecida, como pensamento não expresso ou até como intenção de menor apreço pelo investimento da iniciativa privada… 

= Se atendermos aos números podemos ter outra perspetiva do problema da contraposição entre funcionários públicos e trabalhadores privados. Têm como emprego nas administrações públicas (central, regional, local e fundos de segurança): 683.459 pessoas, sendo que dois terços destes o fazem na administração central e em percentagem da população ativa ocupam 13,1%... Teremos, então, que 89,9% não é atingida, beneficiada nem reivindica o que uma imensa minoria aufere…

Pior quem suporta esta clique da nossa população são os privados com os seus impostos e nem sempre remunerados em razão da riqueza que criam, geram e fazem crescer. Por isso, ver certas intervenções faz com que pensemos, se os funcionários estatais são tão bons ‘trabalhadores’, porque andam ao sabor da corrente que lhes advém de quem faz com que os impostos sejam a fonte de rendimento de tantos dos beneficiados…

Quem tem esticado a corda para o lado dos funcionários públicos vai ter de se explicar, muito em breve, sobre a rutura de meios para que possam ser suportadas tantas benesses a quem não produz em conformidade com aquilo que recebe. De facto, os baixos salários servem para manter a penumbra da miséria, mas os que ultrapassam as possibilidades fazem crer que a crise vai voltar sem dó nem piedade…para todos!

  

António Sílvio Couto


terça-feira, 14 de maio de 2019

Quem ‘suporta’ quem?



Num destes dias, após acirrado debate parlamentar, disse um dos intervenientes: o partido ‘A’ não suporta o partido ’B’!

Por entre surpresa e ironia – ainda no ato – foram surgindo as reações…mais ou menos questionáveis e/ou aceitáveis. Que quer dizer ‘suportar’ num contexto destes? Será de exclusão e corte de relações ou de não-aceitação de acordos e concordância? Poderá ser ainda entendido ‘suportar’ como articulação entre os intervenientes ou pelo não-suporte ver nisso algo que rejeita colaboração e participação nas iniciativas alheias? 

= Se consultarmos os vários dicionários veremos como definição – nos diversos âmbitos e circunstâncias – de ‘suportar’: ter sobre si, aguentar, ser a base ou o suporte, suster o peso, permitir, tolerar, sofrer, estar à prova…resistir, ter capacidade, arcar com…

Misturando as diferentes vertentes poderemos encontrar em ‘suportar’ aspetos do foro físico, na dimensão psicológica e mesmo na referência moral e espiritual.

É diante desta multiplicidade de recursos da palavra ‘suportar’ que desejamos fazer esta breve reflexão. 

= Na convivência das pessoas umas com as outras – seja qual for o alcance ou mesmo o interesse – podemos ir descobrindo que nem sempre é fácil essa articulação, dado que muitos/as dos intervenientes atuam de forma preconceituosa, defeituosa ou mesmo insidiosa; explicando: quantas vezes as pessoas se toleram mais do que se aceitam como cada um é e não como se desejaria que fosse; quantas vezes corremos o risco de olhar, avaliar e julgar os outros a partir do nosso ‘eu’ marcado por experiências negativas e/ou traumatizantes…há mais ou menos tempo; quantas vezes nos podemos servir dos outros para deles tirarmos proveito, seja de promoção e de oportunismo, seja de alguma forma de egoísmo mais ou menos explícito…

Diante destes aspetos ‘suportar’ poderá parecer mais um jeito de enganar do que de conviver, de usar os outros do que com eles confraternizar, de torná-los mais descartáveis do que possíveis ‘amigos’… 

= Na caraterização dos nossos dias – que não são piores nem melhores do que os do passado – podemos ainda encontrar situações e circunstâncias, pessoas e associações que tentam servir de suporte aos mais fragilizados, não só cuidando deles como ajudando a que outros possam fazer esse serviço de cuidadores – quantas vezes sem reconhecimento merecido – nas oportunidades de fragilização. As pontas da vida humana – infância e velhice – são dos momentos mais necessitados de suporte, desde a família até às dificuldades mais ou menos percetíveis. Certas afetações – mesmo económicas – não conseguem colmatar as debilidades nem as agruras de tantos dos ‘nossos’ grandes-idosos carentes de atenção, de carinho e de presença… Isso é, positiva e ativamente, suportar, semeando hoje para poder vir a colher amanhã.  

= Por último, uma abordagem sucinta sobre alguns conceitos bíblicos onde o conceito ‘suportar’ e as atitudes dele decorrente estão presentes.

Na abordagem que São Paulo faz ao tema da caridade, na 1.ª carta aos Coríntios, capítulo 13, diz-se no versículo 7: ‘tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta’…numa profunda e simples declaração a que a caridade tudo suporta dos outros para consigo e de si para com os outros…sendo a referência com que todos podem contar, sem nunca se esquivar ao compromisso e à confiança.
Noutro texto Paulo, na linha de viver a unidade entre os discípulos de Jesus, refere: ‘exorto-vos a que procedais de um modo digno do chamamento que recebestes; com toda a humildade e mansidão, com paciência: suportai-vos uns aos outros no amor, esforçando-vos por manter a unidade do Espírito, mediante o vínculo da paz? (Ef 4, 1-3). Por seu turno, na carta aos Colossenses 3,13 diz-se: ‘suportando-vos uns aos outros e perdoando-vos mutuamente, se alguém tiver razão de queixa contra outro’.

Quer dizer, então, que ‘suportar’ implica amor, perdão e unidade para com os outros e mutuamente. De quantas e tão variadas formas poderemos suportar mais do que ser suportados…

 

António Sílvio Couto

quinta-feira, 9 de maio de 2019

Chantagem – arma, recurso ou vitória?


Por estes dias vimos, cá pelas terras lusas, certos recursos ‘políticos’ dignos de outras paragens: partindo de suposições nas causas, houve quem criasse cenários de ‘crise’ política, em ordem a fazer valer outras motivações que estariam fora do alcance do público em geral.

De uma reunião à maneira de trabalho de grupos de adolescentes – tais foram as imagens veiculadas, dumas tantas deputadas (eles não figuravam) de quadrantes diversificados – surgiu um toque-a-rebate dos partidos, pois havia quem entrasse nas contas do governo e fosse baralhar o ‘bom’ desempenho orçamental… O que vimos foi um toldar generalizado sobre as consequências de vir a ser aprovada a pretensão de um setor profissional, os professores. Os números de gastos não tinham efeito imediato, mas o alarido foi assaz complexo e um pouco mal explicado.

A espada de Dâmocles da instabilidade pendeu sobre o país, agora que tudo parecia quase uma ‘arca-de-Noé’ em harmonia entre contrários. As interpretações foram, no mínimo, ideológicas entre os favorecidos nas reversões, desde 2015, e os ainda não contemplados, embora do lado da mesma fatia dos votantes e/ou correligionários.

Quando era posta a ter de decidir pela primeira vez, a governança entrou em curto-circuito de elevada rotação. Para quem contestou, há quatro anos atrás, que o responsável do partido tinha ganho por ‘poucochinho’, agora parece que andará no fio da vitória pírrica, pois poderá ganhar sem descolar dos opositores… A hipótese de engendrar uma certa chantagem tinha tentáculos para se mover – qual centopeia de interesses não disfarçados – e bastou um pequeno sinal para que o processo fosse desencadeado.

Ora os servidores oficiais – uma certa comunicação social próxima no espetro partidário e por outras encomendas desembrulhadas – encheram os espaços de comentário, de influência e mesmo de manipulação. Como de costume quem possa opinar de forma discordante dessa oficial já não tem tempo de antena e nem sequer pode exprimir o seu pensamento, perante os democratas de pensamento único, unificado e uniformizado… O recurso à chantagem apareceu sem peias nem rodeios.

Cada vez mais se pode perceber que o ‘delito de opinião’ é a nova forma de censura em tantos dos espaços noticiosos, nas redes (ditas) sociais e mesmo nas interpretações mais ou menos noticiosas. Quando se considerava que a chantagem podia ser uma vertente de vitória poderemos ser confrontados com novas formas de sindicalismo – mais de noventa por cento do mais recente já está fora dos espartilhos das centrais sindicais – e a contestação escapa aos circuitos conhecidos. Concomitantemente vemos que há setores com excesso de ‘representantes’ sindicais, nalguns casos, tirados os dirigentes, não há mais ninguém. Noutras circunstâncias vemos que certos bem-falantes já não exercem a profissão, que dizem representar, há dezenas de anos. Muitos outros – mesmo entre os mais recentes – porque se tornaram mais visíveis, veem escarafunchada a vida privada, numa tentativa de desacreditar aquilo que pretendam reivindicar…

Contrariamente àquilo que disseram alguns comentadeiros: não vale tudo a quem governa e tão pouco durará a mentira que tentam impingir aos eleitores e cidadãos. Quem usa de chantagem para tentar vencer, não merece a mínima consideração nem respeito. Quem usa a posição de privilégio nas informações de que dispõe, não merece qualquer confiança agora nem no futuro. Quem não respeita os opositores, não merece que seja tido como pessoa de bem, antes pode (e deve) ser tido como um energúmeno de mau caráter, má formação cívica e, no mínimo, de deficiente conduta democrática…

A chantagem costuma ser a arma dos ditadores, no terceiro-mundo como noutro lugar qualquer!    

 

António Sílvio Couto

segunda-feira, 6 de maio de 2019

Igreja evangelizada ou sacramentada?


Em certos momentos da nossa condição de Igreja peregrina sobre esta terra ouve-se esta tentativa de distinção: Igreja evangelizada ou Igreja sacramentada, como se uma e outra se excluíssem ou fossem diametralmente opostas.
Por ‘Igreja sacramentada’ entende-se, descritivamente, algo que foi acontecendo em várias etapas da condução da Igreja, isto é, foi-se dando os sacramentos – sobretudo os da iniciação: batismo, confirmação e eucaristia – sem ter havido um processo de preparação mínimo. Ora, desta forma assim descomprometida pela negativa foi-se caindo na criação duma Igreja – paróquias, assembleias, grupos ou comunidades – menos bem preparada e consciente daquilo que se exigiria…suficientemente noutras ocasiões.
Por isso, se faz o contraste com ‘Igreja evangelizada’, isto é, aquela outra Igreja – nas suas diferentes formas de presença – onde foram dados os passos necessários, capazes e sequentes de preparação dos diversos sacramentos, fazendo destes etapas de caminhada e não tanto fatores de festa, mas vivências da fé, que se pretende amadurecida, esclarecida e comprometida em Igreja, como Igreja e para a Igreja.
À fase da ‘Igreja sacramentada’ houve quem a designasse como ‘cristandade’ numa espécie de sociedade cristã, senão nos conteúdos ao menos na forma. Por seu turno, na ‘Igreja evangelizada’ procura-se que haja (ou possa haver) sugestões de caminhada com elementos claros, sérios e sensatos para a progressão de cada pessoa na comunidade onde se insere, caminha e se compromete na vida e com vida.
Digamos que, na ‘Igreja evangelizada’ se pretende gerar e não gerir cristãos que participam e não que assistem, tantos aos ritos como às fases de vivência. Por outro lado, na ‘Igreja sacramentada’ valoriza-se mais o ritual, a tradição (no sentido negativo e meramente humano) e a (possível) rotina, onde os diversos sinais da fé nem sempre têm a expressão pessoal mais adequada e sincera.
No entanto, temos de ir convivendo com estas duas ‘Igrejas’, pois uma não exclui a outra, mas de uma – da meramente sacramentada – temos de ir passando à outra – a pretensamente evangelizada – criando condições para que a celebração dos sacramentos seja feita num espírito de comunhão e não dalguma ignorância sem nexo.
Em que fase acho que está a minha paróquia? Que devo fazer, eu primeiramente, para mudar e me converter? Não depende só dos outros, tem começar por mim, já…

De facto, nesta época do ano litúrgico vemos como que uma etapa de ‘finalização’ de alguns percursos na catequese – termo abusivo aplicado a crianças em idade escolar – de infância e de adolescência: são as primeiras comunhões, nalguns lugares a dita profissão de fé e mesmo o crisma. Ora nenhum destes momentos religiosos poderá ser considerado um momento de finalização, quanto muito etapas de um percurso em evolução.

Se continuarmos a fazer destes episódios de vida religiosa das crianças/adolescentes e das famílias aquilo que muitas vezes é ou se reveste, estaremos a dar continuidade a uma igreja sacramentada não-evangelizada. Restringir esses momentos só para quando estiverem todos bem preparados, isto é, instruídos mas talvez não-evangelizados, poderá ser um comprar de conflitos com uma boa maioria de católicos-praticantes um tanto ignorantes… Talvez se devam aproveitar esses momentos familiares, sociais, cultuais e mesmo culturais para lançar desafios sobre a necessidade de que os pais possam acompanhar os filhos na sua evolução religiosa, propondo àqueles oportunidades de se valorizarem cultural e cristãmente. Há projetos que já conferem alguns resultados, como o ‘curso Alpha’, a catequese familiar, as ‘células paroquiais de evangelização’ e tantas outras sugestões que fazem os adultos reaprenderem a saber estar em Igreja e não a usufruirem das coisas da igreja como se disso fossem dignos e consciencializados frequentadores.

Se em certas regiões já se deram conta do desfazamento entre o que se faz e aquilo que se sabe, noutras dá a impressão que se caminha sem sobressalto para o descalabro total, não se apercebendo dos riscos que correm só porque as igrejas (espaços litúrgicos e de festas) ainda têm bastante gente, embora desmotivada, tradicional e quase rotineira…

É tempo de acordar e de fazer escolhas…para que daqui a cinquenta anos ainda haja fé nas nossas terras e ela seja celebrada por mais velhos e por mais novos. Semeemos já!    

  

António Sílvio Couto

domingo, 5 de maio de 2019

Democratas de pensamento único


Por vezes as pessoas como que se atraiçoam na desconexão entre o que dizem e aquilo que fazem ou, pior, entre o que pensam e o modo como o executam. Isso é tanto mais palpável e, irremediavelmente, visível, quando se apregoam de ‘democratas’, mas, na prática, só aceitam aquilo que eles mesmos dizem ou o modo como os ‘seus’ pensam, fazem ou se comportam.

Não será preciso ser exaustivo para vermos nas lides do dia-a-dia tanta gente que se autodefine como ‘democrata’ – deveria sê-lo nas pequenas como nas grandes coisas – mas que depois se torna implacável para com quem pense, divirja ou não concorde com a sua visão das coisas, a perspetiva de entendimento ou mesmo a forma de execução de algo, que, sendo diverso, com dificuldade terá unanimidade de ser visto, olhado ou observado. 

= Tudo isto tem vindo a piorar nos diversos campos de intervenção das pessoas, manifestando-se em múltiplos indícios de que algo não foi bem resolvido, quando for preciso saber confrontar-se com opiniões, visões ou perspetivas diferentes, opostas ou divergentes. O nível de crispação com que certas pessoas falam com os outros denuncia que algo está mal, pois não se pode admitir que um confronto de ideias ou de opiniões se transforme numa verborreia tal que ninguém se entende, se ouve e tão pouco se escuta. Por vezes certos programas televisivos transformaram-se em autênticas algazarras e peixeiradas, em que a mais desconexa feira se parecerá, por comparação, um velório em maré de surpresa da morte do defunto… Isto tudo vem fazendo ‘escola’, sobretudo a partir do exemplo confrangedor do parlamento, onde as pessoas se querem fazer ouvir, mas não se sabem escutar; se querem impor aos outros, mas não se permitem sequer discordar com o mínimo de educação; pretendem sobrepor aos outros o que dizem, mas confundem, em muitas das situações, o falar com berrar ou ainda o discursar com ofender…mas quase nunca se conjuga o verbo dialogar em nenhum dos tempos verbais nem nas formas possíveis. 

= A descoberta mais ‘admirável’ tem sido a de que muitas das forças votadas nas eleições – tendo em conta sobretudo as que ascendem ao parlamento – usam estratégias absolutamente inexplicáveis nas lides com os outros e o resto da população: diante do arranjo conseguido para a governança de 2015 até agora, quem está a mandar, isto é, no poder, acha-se no direito de catalogar quem não faça parte do seu arco de influência, gerando reversões de medidas mais ou menos populares – fogem da escaldadiça designação de ‘populistas’, mas é isso que são, de verdade – e gerindo soluções em que tenham o máximo a ganhar e o mínimo a perder… Mas se a coisa não corre de feição escondem o brinquedo ou fazem birra porque o bonequinho lhes pode ser retirado…a curto ou a médio prazo.

Por exemplo: para fabricar a ‘geringonça’ o parlamento foi o palco – mesmo andando pelos subterrâneos – para celebrar a festança, mas se o parlamento se torna agora ringue de combate – sim a luta é de todas as artes e demais agressividades – já não tem a mesma credibilidade… pelo menos enquanto não for tão favorável como tem sido.

Estes democratas de pensamento único não gostam quase nada nem em coisa nenhuma de serem contrariados e tão pouco que usem para com eles alguns dos sortilégios que eles usaram contra os opositores… São democratas de memória curta e de comportamento cívico ainda mais encurtado! 

= Enquadrados pelas competições eleitorais que se avizinham – umas já fixadas e outras em possível antecipação – vamos ter de aprender a lidar com tantos pequenos ditadores que pululam em muitos desses democratas de pensamento único. De entre as caraterísticas menos apreciáveis nesses democratas de pensamento único destaca-se a incapacidade de se colocarem no lugar dos outros, sem perceberem que nada tem uma só visão e se esta exclusividade for acentuada torna-se uma espécie de radicalismo, que tão bem os qualifica. Seja qual for o que o futuro nos reserva, pelos sinais do passado e do presente, podemos, desde já, considerar que o nosso país está prenhe de ditadores, onde a valor da ideologia se sobrepõe ao respeito pelas pessoas. Assim, não, obrigado!  

 

António Sílvio Couto