Partilha de perspectivas... tanto quanto atualizadas.



quinta-feira, 9 de maio de 2019

Chantagem – arma, recurso ou vitória?


Por estes dias vimos, cá pelas terras lusas, certos recursos ‘políticos’ dignos de outras paragens: partindo de suposições nas causas, houve quem criasse cenários de ‘crise’ política, em ordem a fazer valer outras motivações que estariam fora do alcance do público em geral.

De uma reunião à maneira de trabalho de grupos de adolescentes – tais foram as imagens veiculadas, dumas tantas deputadas (eles não figuravam) de quadrantes diversificados – surgiu um toque-a-rebate dos partidos, pois havia quem entrasse nas contas do governo e fosse baralhar o ‘bom’ desempenho orçamental… O que vimos foi um toldar generalizado sobre as consequências de vir a ser aprovada a pretensão de um setor profissional, os professores. Os números de gastos não tinham efeito imediato, mas o alarido foi assaz complexo e um pouco mal explicado.

A espada de Dâmocles da instabilidade pendeu sobre o país, agora que tudo parecia quase uma ‘arca-de-Noé’ em harmonia entre contrários. As interpretações foram, no mínimo, ideológicas entre os favorecidos nas reversões, desde 2015, e os ainda não contemplados, embora do lado da mesma fatia dos votantes e/ou correligionários.

Quando era posta a ter de decidir pela primeira vez, a governança entrou em curto-circuito de elevada rotação. Para quem contestou, há quatro anos atrás, que o responsável do partido tinha ganho por ‘poucochinho’, agora parece que andará no fio da vitória pírrica, pois poderá ganhar sem descolar dos opositores… A hipótese de engendrar uma certa chantagem tinha tentáculos para se mover – qual centopeia de interesses não disfarçados – e bastou um pequeno sinal para que o processo fosse desencadeado.

Ora os servidores oficiais – uma certa comunicação social próxima no espetro partidário e por outras encomendas desembrulhadas – encheram os espaços de comentário, de influência e mesmo de manipulação. Como de costume quem possa opinar de forma discordante dessa oficial já não tem tempo de antena e nem sequer pode exprimir o seu pensamento, perante os democratas de pensamento único, unificado e uniformizado… O recurso à chantagem apareceu sem peias nem rodeios.

Cada vez mais se pode perceber que o ‘delito de opinião’ é a nova forma de censura em tantos dos espaços noticiosos, nas redes (ditas) sociais e mesmo nas interpretações mais ou menos noticiosas. Quando se considerava que a chantagem podia ser uma vertente de vitória poderemos ser confrontados com novas formas de sindicalismo – mais de noventa por cento do mais recente já está fora dos espartilhos das centrais sindicais – e a contestação escapa aos circuitos conhecidos. Concomitantemente vemos que há setores com excesso de ‘representantes’ sindicais, nalguns casos, tirados os dirigentes, não há mais ninguém. Noutras circunstâncias vemos que certos bem-falantes já não exercem a profissão, que dizem representar, há dezenas de anos. Muitos outros – mesmo entre os mais recentes – porque se tornaram mais visíveis, veem escarafunchada a vida privada, numa tentativa de desacreditar aquilo que pretendam reivindicar…

Contrariamente àquilo que disseram alguns comentadeiros: não vale tudo a quem governa e tão pouco durará a mentira que tentam impingir aos eleitores e cidadãos. Quem usa de chantagem para tentar vencer, não merece a mínima consideração nem respeito. Quem usa a posição de privilégio nas informações de que dispõe, não merece qualquer confiança agora nem no futuro. Quem não respeita os opositores, não merece que seja tido como pessoa de bem, antes pode (e deve) ser tido como um energúmeno de mau caráter, má formação cívica e, no mínimo, de deficiente conduta democrática…

A chantagem costuma ser a arma dos ditadores, no terceiro-mundo como noutro lugar qualquer!    

 

António Sílvio Couto

segunda-feira, 6 de maio de 2019

Igreja evangelizada ou sacramentada?


Em certos momentos da nossa condição de Igreja peregrina sobre esta terra ouve-se esta tentativa de distinção: Igreja evangelizada ou Igreja sacramentada, como se uma e outra se excluíssem ou fossem diametralmente opostas.
Por ‘Igreja sacramentada’ entende-se, descritivamente, algo que foi acontecendo em várias etapas da condução da Igreja, isto é, foi-se dando os sacramentos – sobretudo os da iniciação: batismo, confirmação e eucaristia – sem ter havido um processo de preparação mínimo. Ora, desta forma assim descomprometida pela negativa foi-se caindo na criação duma Igreja – paróquias, assembleias, grupos ou comunidades – menos bem preparada e consciente daquilo que se exigiria…suficientemente noutras ocasiões.
Por isso, se faz o contraste com ‘Igreja evangelizada’, isto é, aquela outra Igreja – nas suas diferentes formas de presença – onde foram dados os passos necessários, capazes e sequentes de preparação dos diversos sacramentos, fazendo destes etapas de caminhada e não tanto fatores de festa, mas vivências da fé, que se pretende amadurecida, esclarecida e comprometida em Igreja, como Igreja e para a Igreja.
À fase da ‘Igreja sacramentada’ houve quem a designasse como ‘cristandade’ numa espécie de sociedade cristã, senão nos conteúdos ao menos na forma. Por seu turno, na ‘Igreja evangelizada’ procura-se que haja (ou possa haver) sugestões de caminhada com elementos claros, sérios e sensatos para a progressão de cada pessoa na comunidade onde se insere, caminha e se compromete na vida e com vida.
Digamos que, na ‘Igreja evangelizada’ se pretende gerar e não gerir cristãos que participam e não que assistem, tantos aos ritos como às fases de vivência. Por outro lado, na ‘Igreja sacramentada’ valoriza-se mais o ritual, a tradição (no sentido negativo e meramente humano) e a (possível) rotina, onde os diversos sinais da fé nem sempre têm a expressão pessoal mais adequada e sincera.
No entanto, temos de ir convivendo com estas duas ‘Igrejas’, pois uma não exclui a outra, mas de uma – da meramente sacramentada – temos de ir passando à outra – a pretensamente evangelizada – criando condições para que a celebração dos sacramentos seja feita num espírito de comunhão e não dalguma ignorância sem nexo.
Em que fase acho que está a minha paróquia? Que devo fazer, eu primeiramente, para mudar e me converter? Não depende só dos outros, tem começar por mim, já…

De facto, nesta época do ano litúrgico vemos como que uma etapa de ‘finalização’ de alguns percursos na catequese – termo abusivo aplicado a crianças em idade escolar – de infância e de adolescência: são as primeiras comunhões, nalguns lugares a dita profissão de fé e mesmo o crisma. Ora nenhum destes momentos religiosos poderá ser considerado um momento de finalização, quanto muito etapas de um percurso em evolução.

Se continuarmos a fazer destes episódios de vida religiosa das crianças/adolescentes e das famílias aquilo que muitas vezes é ou se reveste, estaremos a dar continuidade a uma igreja sacramentada não-evangelizada. Restringir esses momentos só para quando estiverem todos bem preparados, isto é, instruídos mas talvez não-evangelizados, poderá ser um comprar de conflitos com uma boa maioria de católicos-praticantes um tanto ignorantes… Talvez se devam aproveitar esses momentos familiares, sociais, cultuais e mesmo culturais para lançar desafios sobre a necessidade de que os pais possam acompanhar os filhos na sua evolução religiosa, propondo àqueles oportunidades de se valorizarem cultural e cristãmente. Há projetos que já conferem alguns resultados, como o ‘curso Alpha’, a catequese familiar, as ‘células paroquiais de evangelização’ e tantas outras sugestões que fazem os adultos reaprenderem a saber estar em Igreja e não a usufruirem das coisas da igreja como se disso fossem dignos e consciencializados frequentadores.

Se em certas regiões já se deram conta do desfazamento entre o que se faz e aquilo que se sabe, noutras dá a impressão que se caminha sem sobressalto para o descalabro total, não se apercebendo dos riscos que correm só porque as igrejas (espaços litúrgicos e de festas) ainda têm bastante gente, embora desmotivada, tradicional e quase rotineira…

É tempo de acordar e de fazer escolhas…para que daqui a cinquenta anos ainda haja fé nas nossas terras e ela seja celebrada por mais velhos e por mais novos. Semeemos já!    

  

António Sílvio Couto

domingo, 5 de maio de 2019

Democratas de pensamento único


Por vezes as pessoas como que se atraiçoam na desconexão entre o que dizem e aquilo que fazem ou, pior, entre o que pensam e o modo como o executam. Isso é tanto mais palpável e, irremediavelmente, visível, quando se apregoam de ‘democratas’, mas, na prática, só aceitam aquilo que eles mesmos dizem ou o modo como os ‘seus’ pensam, fazem ou se comportam.

Não será preciso ser exaustivo para vermos nas lides do dia-a-dia tanta gente que se autodefine como ‘democrata’ – deveria sê-lo nas pequenas como nas grandes coisas – mas que depois se torna implacável para com quem pense, divirja ou não concorde com a sua visão das coisas, a perspetiva de entendimento ou mesmo a forma de execução de algo, que, sendo diverso, com dificuldade terá unanimidade de ser visto, olhado ou observado. 

= Tudo isto tem vindo a piorar nos diversos campos de intervenção das pessoas, manifestando-se em múltiplos indícios de que algo não foi bem resolvido, quando for preciso saber confrontar-se com opiniões, visões ou perspetivas diferentes, opostas ou divergentes. O nível de crispação com que certas pessoas falam com os outros denuncia que algo está mal, pois não se pode admitir que um confronto de ideias ou de opiniões se transforme numa verborreia tal que ninguém se entende, se ouve e tão pouco se escuta. Por vezes certos programas televisivos transformaram-se em autênticas algazarras e peixeiradas, em que a mais desconexa feira se parecerá, por comparação, um velório em maré de surpresa da morte do defunto… Isto tudo vem fazendo ‘escola’, sobretudo a partir do exemplo confrangedor do parlamento, onde as pessoas se querem fazer ouvir, mas não se sabem escutar; se querem impor aos outros, mas não se permitem sequer discordar com o mínimo de educação; pretendem sobrepor aos outros o que dizem, mas confundem, em muitas das situações, o falar com berrar ou ainda o discursar com ofender…mas quase nunca se conjuga o verbo dialogar em nenhum dos tempos verbais nem nas formas possíveis. 

= A descoberta mais ‘admirável’ tem sido a de que muitas das forças votadas nas eleições – tendo em conta sobretudo as que ascendem ao parlamento – usam estratégias absolutamente inexplicáveis nas lides com os outros e o resto da população: diante do arranjo conseguido para a governança de 2015 até agora, quem está a mandar, isto é, no poder, acha-se no direito de catalogar quem não faça parte do seu arco de influência, gerando reversões de medidas mais ou menos populares – fogem da escaldadiça designação de ‘populistas’, mas é isso que são, de verdade – e gerindo soluções em que tenham o máximo a ganhar e o mínimo a perder… Mas se a coisa não corre de feição escondem o brinquedo ou fazem birra porque o bonequinho lhes pode ser retirado…a curto ou a médio prazo.

Por exemplo: para fabricar a ‘geringonça’ o parlamento foi o palco – mesmo andando pelos subterrâneos – para celebrar a festança, mas se o parlamento se torna agora ringue de combate – sim a luta é de todas as artes e demais agressividades – já não tem a mesma credibilidade… pelo menos enquanto não for tão favorável como tem sido.

Estes democratas de pensamento único não gostam quase nada nem em coisa nenhuma de serem contrariados e tão pouco que usem para com eles alguns dos sortilégios que eles usaram contra os opositores… São democratas de memória curta e de comportamento cívico ainda mais encurtado! 

= Enquadrados pelas competições eleitorais que se avizinham – umas já fixadas e outras em possível antecipação – vamos ter de aprender a lidar com tantos pequenos ditadores que pululam em muitos desses democratas de pensamento único. De entre as caraterísticas menos apreciáveis nesses democratas de pensamento único destaca-se a incapacidade de se colocarem no lugar dos outros, sem perceberem que nada tem uma só visão e se esta exclusividade for acentuada torna-se uma espécie de radicalismo, que tão bem os qualifica. Seja qual for o que o futuro nos reserva, pelos sinais do passado e do presente, podemos, desde já, considerar que o nosso país está prenhe de ditadores, onde a valor da ideologia se sobrepõe ao respeito pelas pessoas. Assim, não, obrigado!  

 

António Sílvio Couto

quinta-feira, 2 de maio de 2019

Meandros dum rótulo maldito


Tem vindo a crescer, duma forma concertada e um tanto silenciosa, mas suficientemente crescente para que não se veja, a designação de ‘extrema-direita’, aplicada ao mundo das ideias (políticas ou culturais), aduzindo-lhe ainda o epíteto de ‘populismo’ e um sem-número de adjetivos qualificativos na forma exagerada.

Mas o que é que pode caraterizar alguém para ser considerado de ‘extrema-direita’? Haverá uma definição/descritiva ou antes uma discrição definitória? Depois da falência dos regimes comunistas – com a queda do ‘muro de Berlim’, em 1989 – houve tempo para uma redefinição dos termos ou antes foram colocados outros por contraste e de forma acrítica? Não será que a apelidada ‘extrema-direita’ se pode compreender melhor se atendemos aos ‘ideais’ da considerada ‘extrema-esquerda’? Não será que, na maior parte dos casos, os extremos se tocam pelo contraste e fazem-se explicar pelo inverso das posições? Quando alguém se arroga contra a ‘extrema-direita’ não estará, porventura, a encobrir outros fatores que motivam ser de ‘extrema-esquerda’? Não haverá demasiada conciliação em apelidar de ‘extrema-direita’ quem não se assume em ser de ‘extrema-esquerda’? As pretensas armas de um lado e do outro não são demasiado iguais para que se possa usar algo de arremesso contra quem não faz parte da ‘nomenclatura’ social reinante? 

= Ora, ao consultarmos a wikipédia sobre o assunto podemos encontrar as linhas-gerais disso a que apelidam de ‘extrema-direita’: «A extrema-direita (também conhecida como ultra-direita ou direita radical) refere-se, dentro do conceito da existência de uma esquerda e direita, no espectro ideológico. A política de extrema direita envolve frequentemente um foco na tradição, real ou imaginada, em oposição às políticas e costumes que são considerados como reflexo do modernismo. Muitas ideologias de extrema-direita têm desprezo ou um desdém pelo igualitarismo, mesmo que nem sempre expressem apoio explícito à hierarquia social, elementos de conservadorismo social e oposição à maioria das formas de liberalismo e socialismo. Alguns grupos apoiam uma forte ou completa estratificação social e a supremacia de certos indivíduos ou grupos considerados naturalmente superiores». 

= Tentemos descortinar linhas-mestras sobre a possível ‘extrema-direita’: aceitação, difusão e vivência na linha da ideologia de género; defesa de uma sobreposição das iniciativas estatais aos princípios de iniciativa privada, tanto na economia, como na educação, na saúde e mesmo na visão cultural; colagem de comportamentos morais (vistos como moralizantes com sabor a religião) para com certos critérios éticos, sobretudo se a pessoa for valendo cada vez menos…na linha da produção; exaltação de tudo e o resto que possa parecer ecologista com a marca do holismo da ‘nova era’; escarafunchar (agora, antes e depois) aquilo que possa tornar mais vulnerável quem se oponha aos intentos de salvaguarda de conceitos e de vivências como país, nação ou cultura com valores que possam ainda cheirar a cristão…

Dá a impressão de que, quem falar de temas como a família (no sentido judaico-cristão), a pátria, a concórdia entre pessoas e povos ou possa ter uma opinião que destoe da maioria em regime de pensamento ‘progressista’, é candidato a ser rotulado de ‘extrema-direita’ ou apelidado de populista, com as consequências que advêm de estar sob a mira de certos polícias sociais de ‘moralidade’ a seu gosto… 

= De entre os difusores da mentalidade, que se apregoa de superior para submeter os demais pelo silêncio, o medo ou o constrangimento social, encontramos a comunicação social, que bem e depressa rotula uns tantos de ‘extrema-direita’, se não se enquadrarem na grelha com que veem, leem ou julgam a ‘sua’ sociedade’. Nalguns casos bastará que falhe um dos parâmetros com que apreciam os acontecimentos para fazerem dum simples episódio uma espécie de ‘facto’ de ‘extrema-direita’… Não isso que foi feito no Brasil, nas recentes eleições presidenciais? Não foi também essa a técnica para classificar algumas forças em Espanha? Não é esse o trejeito subtil, capcioso e incisivo com que agrupam os candidatos ao Parlamento Europeu?

O que me confunde é que se tentem limpar façanhas de certa ‘extrema-esquerda’ – na Europa e fora dela – em exercício ou no passado. Não há direito a ser faccioso nem a impor uma verdade tão mentirosa…

 

António Sílvio Couto

quarta-feira, 1 de maio de 2019

Mãe – dom, tarefa ou mistério?


Quem não se lembra duns versinhos simples que diziam: ‘com três letras apenas se escreve a palavra mãe, mas é o maior nome que o mundo têm’.

Talvez não sejam palavras muito elaboradas e tão assaz poéticas, mas contêm um significado bem mais abrangente daquela que é a mais profunda das realidades deste mundo: mãe.

Ora, sobre este tema poder-se-á escrever muito elogioso e maldizente, à mistura com lições e outros tantos conselhos que já não pegam. Pela nossa parte vamos tentar abordar a questão em três aspetos: mãe como dom (maternidade), mãe como tarefa (muito mais do que doméstica), mas sobretudo mãe como mistério…de Deus para nós, connosco e em nós, no sentido divinizante desta condição que Deus concedeu, por excelência, à mulher.  

* Dom da maternidade

Segundo números mais especulativos do que confirmados haverá, em Portugal, 15% de casais inférteis, tendo em conta, especialmente, a parte feminina. Não entraremos em esmiuçar as causas e tão pouco a sua evolução crescente na população. Ficamo-nos pela perspetiva de que ‘ser mãe’ é um dom que nunca será totalmente compreendido por mais explicações que se pretendam apresentar. Dá a impressão que o nível de uma sociedade se pode medir pela forma como trata a maternidade, criando condições, cuidando da sua vivência e ajudando com meios (psicológicos, económico-financeiros, educacionais-culturais entre outros) a que a ninguém sejam colocados obstáculos à concretização desta faceta da mulher.

Por contrassenso temos visto o recurso ao aborto – sob o eufemismo de ‘interrupção voluntária da gravidez’, pois ao interromper não se retoma mais o que foi cortado! – como método de coação à maternidade da mulher. Isto é, por um lado há quem anseie ter filhos, concretizando o desejo da maternidade e por outro como que se incentiva a que não os tenham como forma de libertação de algo que só à mulher foi dado viver… Por favor escolham: pela vida ou contra ela! Não podemos lançar as pessoas no labirinto do ‘inverno demográfico’ e ter condições de sobrevivência de muitas das estruturas sociais que dependem do rejuvenescimento da população… 

* Ser mãe – tarefa nunca completa

Atendendo à evolução da inserção da mulher no mundo do trabalho, a tarefa em ser mãe foi sendo revista, colocando desafios a que a mãe possa estar mais próxima dos filhos/as, particularmente nos primeiros tempos de vida. 

Embora tenham surgido respostas sociais para a ausência da mãe em casa, esta continua a ser a referência da família naquilo que ao acompanhamento dos filhos tem precedência.

A mãe continua a ser uma sacrificada naquilo que às suas tarefas respeita, acumulando, na maior dos casos, o trabalho em casa com o emprego… De pouco adiantarão certas medidas envergonhadas, se não se tiver em conta o grande ‘trabalho’ – mesmo sem remuneração – que esse de ser mãe a duzentos por cento! 

* O mistério de ser mãe

Não há dúvida que Deus concedeu à mulher algo que só ela pode manifestar de Deus como mãe: a possibilidade de participar nesse mistério e, por conseguinte, de nos mostrar que Deus é pai e mãe de forma grandiosa, sublime e simples. Deste modo tudo quanto se faça – e muito tem sido feito nos tempos mais recentes – para ofender esta vertente da mulher será uma ofensa a Deus, ao seu poder e mesmo à sua manifestação entre os humanos.

Que não tentem matar no coração das mães a dádiva divina de ser mistério de Deus!

Que as mães sejam sempre e só santuários da vida!

Que sejamos dignos das mães que temos e de tantas que sofrem por sê-lo de verdade!

Que tenhamos mães físico/biológicas/psicológicas, mas sobretudo mães espirituais!

Obrigado a todas as mães, mesmo às que já partiram do nosso convívio humano visível!

  

António Sílvio Couto

segunda-feira, 29 de abril de 2019

Ódios sub-reptícios do 25A


Por ocasião das comemorações dos quarenta e cinco anos do ’25 de abril’ escutamos – como nunca anteriormente – vozes a clamarem de resquícios de ódio que perpassaram esses longínquos dias e outros momentos de convulsão…nas hostes militares e não só.

Fuzilamentos e ajustes de contas entre quem fez a revolução e outros oponentes, à mistura com um certo branqueamento que nos foi passado de que na mudança de regime político não tinha havido mortos registados, quando, afinal, houve uma mão cheia de vítimas (quatro civis e um funcionário da polícia política), só mais tarde reconhecidas e lembradas…

Decorridas quatro décadas e meia, ainda foi possível captar nas imagens da (dita) manifestação popular, vozes reclamando da vida de outros que não têm nada a ver com o assunto dos fantasmas com que tantos/as se enfrentam na sua memória. Pretender encomendar a um santo a morte de um chefe de estado estrangeiro não deixa de ser além de esquisito um sinal mais do que evidente de que há pessoas que se reclamam ‘democratas’, mas isso só funciona em circuito fechado para os que são da sua cor, ideologia ou simpatia do lado da barricada. Ainda há gente que fareja as atrocidades de outras paragens e parece querer implantar por cá laivos desses regimes facínoras e praticantes de carnificinas sobre quem não pensa ou não concorda com a sua mentalidade, visão do mundo ou entendimento da pessoa humana.

Mais uma vez poderemos aduzir a estes casos o nosso adágio popular: se queres conhecer o vilão, coloca-lhe o pau (do mando) na mão! Isto é, certas pessoas quando chegam a postos de importância – o tal lugar do mando, seja a instância que for – revelam quem são, tratando os outros da forma que não deixa dúvidas de que por ali há tiques de ditadura, mesmo que sob a capa de ‘democracia’…mal-amanhada. 

= Para além da discriminação em não se viver numa das duas áreas metropolitanas – Lisboa, que vai de Setúbal a Vila Franca de Xira, passando por Cascais, Sintra e Amadora; e do Porto, que abrange concelhos desde a Póvoa de Varzim até Santa Maria da Feira, passando por Gondomar, Valongo e Santo Tirso – temos ainda de suportar alguma petulância de certas figuras que consideram os que não vivem nestes espaços como portugueses de segunda categoria. A AML tem quase três milhões de habitantes, a AMP com quase dois milhões de habitantes, perfazem, deste modo, mais de metade da população do país.

Se a isto acrescentarmos a concentração da maior parte das estruturas, infraestruturas e investimentos, poderemos considerar que bastará pacificar os vivem nestas áreas metropolitanas para manter o país em sossego e numa certa paz social. Veja-se o que aconteceu há duas semanas na ‘crise dos combustíveis’, privilegiando no reabastecimento estas regiões para que não houvesse alarme social… Os ganhos e custos destas áreas metropolitanas percebem nas campanhas publicitárias/políticas, nas apostas de reivindicação e mesmo no nítido favorecimento dos salários para aqueles que ali vivem.

O monstro está a engordar e parece que não há interesse algum em fazê-lo entrar em dieta, pois daí vêm os votos nas eleições e até os cartazes privilegiam quem por aqui mora, dado que podem decidir quem possa continuar a beneficiá-los. As franjas da capital – o Oeste ou a Estremadura, tendo em conta ainda o Alentejo – e do grande Porto – como os distritos de Braga e de Aveiro – continuam à espera que caiam as migalhas das mesas dos ricos, que, embora não produzindo, gerem os impostos que recolhem de espaços bem mais trabalhadores e produtores de riqueza do que as ditas áreas metropolitanas... 

= Neste momento histórico e cultural nota-se que falta horizontes a tantos/as que exercem o poder, nas suas várias formas: político, religioso, de comunicação social, desportivo e mesmo económico. Na maior parte dos casos quem decide olha para o seu umbigo e para a forma de capitalizar – mesmo que alguns se digam combatentes do capitalismo – em influência as decisões que tomam ou as posições em que se colocam… No entanto, esta vertente de ódio com que vemos certas situações serem geradas e geridas podem trazer dissabores ao país em geral e aos menosprezados ou até desprezados em particular.

Até quando haverá um leque de iluminados que se acha dono do ’25 de abril’? Até quando teremos de suportar incompetentes arvorados em chefes? São fracos para serem mandados, quanto mais mandarem!

 

António Sílvio Couto

sexta-feira, 26 de abril de 2019

’25 de abril’ dos sem-voz


Longe da prosápia da macrocefalia da capital – estendida à AML e acrescentada à língua marítima de norte a sul do território europeu – onde está o ’25 de abril’? Essa pretensão dos três ‘d’s’ – descolonização, democratização e desenvolvimento – já chegou aos que continuam a estar ‘sem-voz’, hoje como no passado do regime anterior?

Por muito que certas figuras do poder, nestes 45 anos de revolução abrilina, digam que já foram cumpridos os tais três ‘d’s’, ainda estamos muito longe de criar condições mínimas para que isso seja verdade para todos os portugueses, tanto do litoral como do interior.

Por constituir algo de simbolicamente bizarro vou reportar-me ao ritual da comemoração do 25 de abril na Moita – espaço onde vivo há oito anos, sete meses e vinte e oito dias – num misto de aprendizagem, de reconhecimento e mesmo de aferição…

Durante cerca de uma hora, na manhã de 25A, pode-se ver um certo desfile de forças em conglomeração, como se de pagamento de favores se possa tratar: um misto entre desfile carnavalesco e de procissão mal-amanhada percorre os espaços centrais da povoação. O ritual vai perdendo fogo e os sinais dos intervenientes podem considerar-se desconexos, pois se uns levam os estandartes alçados, outros levam-nos ao ombro – sabe-se lá se conhecem o significado de cada qual das posições – isto já para não falar em vermos outros roçar em terra com os símbolos das coletividades surgidas depois de quarenta anos de novo regime…

Que as forças da dita democracia se achem no direito de ostentarem as causas que as fazem correr, ainda se suporta, mas será, no mínimo, duvidoso que as autarquias – ou quem as suporta ideologicamente – considerem que os espaços públicos possam ser tratados à maneira do seu quintal individualista, onde cada um possa impor-se a quem não pensa nem vota como quem governa…isso, sim, há quase tanto tempo como reinou a terceira república… Terá a ditadura outro nome, se for votada sob manipulação democrática?
Os pagadores do recebimento de subsídios vão-se arrastando numa leitura mais ou menos vangloriosa, desde que passeando-se no veludo da boa harmonia e enquanto vai havendo proventos para flutuarem por mais algum tempo.

E, se, de repente, tudo mudasse de coloração: qual seria a reação – sim, essa que julgam terem exorcizado, mas que continua a reclamar – dos atuais ocupantes dos postos de mando? Talvez seja preciso algum entendimento para se colocar no lugar dos ‘sem-voz’, pois são ostracizados só porque não fazem parte da mentalidade reinante e reinadora…

Até onde irá a arrogância de quem se acha dono-e-senhor de algo que não lhe pertence, mas faz parte indistinta de todo o povo e não de fações, ideologias ou partidos?

Quem ensinará certos mentores ‘urbanos’ a respeitarem os ‘rurais’, silenciados à força ou condicionados por míngua de meios para se fazerem ouvir? 

= Se quiséssemos inventar outros três ‘d’s’, quarenta e cinco anos depois da revolução abrilina, teríamos de conjugar dinheiro-desvergonha-diversão para classificarmos algumas das atitudes atuais de menor denominador comum. Outra hipótese para os três ‘d’s’ poderia ser a de desilusão-disparate-dissonância, numa tentativa de encontrar quem se aproveitou das possibilidades propostas e as fez reverter para si e para os do seu grupo de interesses.

Se atendermos às mais recentes revelações dos episódios que fizeram a revolução abrilina vemos que muitos dos descendentes do seu incremento não conseguiram libertar-se dos assomos de vingança – em certos momentos reclamando fuzilamento dos opositores – e, para já em forma de verborreia, vão continuando o que antes foi tomado por reivindicação, felizmente, não-concretizada

Hoje continua a haver uma imensa multidão silenciosa e/ou silenciada que vai vivendo fora das categorias de vitoriosos, adiando a possibilidade em serem pessoas com iguais direitos, almejando passar da fase das obrigações. Basta de submissão aos protegidos das classes que têm acesso ao prato, onde a comida é servida com discrepâncias intoleráveis. Não serão denúncias das ‘políticas de casos’ e atoardas anti-cobardia que farão deste país um espaço democrático, tolerante e com futuro… Palavras leva-as o vento!          

 

António Sílvio Couto