Partilha de perspectivas... tanto quanto atualizadas.



segunda-feira, 29 de abril de 2019

Ódios sub-reptícios do 25A


Por ocasião das comemorações dos quarenta e cinco anos do ’25 de abril’ escutamos – como nunca anteriormente – vozes a clamarem de resquícios de ódio que perpassaram esses longínquos dias e outros momentos de convulsão…nas hostes militares e não só.

Fuzilamentos e ajustes de contas entre quem fez a revolução e outros oponentes, à mistura com um certo branqueamento que nos foi passado de que na mudança de regime político não tinha havido mortos registados, quando, afinal, houve uma mão cheia de vítimas (quatro civis e um funcionário da polícia política), só mais tarde reconhecidas e lembradas…

Decorridas quatro décadas e meia, ainda foi possível captar nas imagens da (dita) manifestação popular, vozes reclamando da vida de outros que não têm nada a ver com o assunto dos fantasmas com que tantos/as se enfrentam na sua memória. Pretender encomendar a um santo a morte de um chefe de estado estrangeiro não deixa de ser além de esquisito um sinal mais do que evidente de que há pessoas que se reclamam ‘democratas’, mas isso só funciona em circuito fechado para os que são da sua cor, ideologia ou simpatia do lado da barricada. Ainda há gente que fareja as atrocidades de outras paragens e parece querer implantar por cá laivos desses regimes facínoras e praticantes de carnificinas sobre quem não pensa ou não concorda com a sua mentalidade, visão do mundo ou entendimento da pessoa humana.

Mais uma vez poderemos aduzir a estes casos o nosso adágio popular: se queres conhecer o vilão, coloca-lhe o pau (do mando) na mão! Isto é, certas pessoas quando chegam a postos de importância – o tal lugar do mando, seja a instância que for – revelam quem são, tratando os outros da forma que não deixa dúvidas de que por ali há tiques de ditadura, mesmo que sob a capa de ‘democracia’…mal-amanhada. 

= Para além da discriminação em não se viver numa das duas áreas metropolitanas – Lisboa, que vai de Setúbal a Vila Franca de Xira, passando por Cascais, Sintra e Amadora; e do Porto, que abrange concelhos desde a Póvoa de Varzim até Santa Maria da Feira, passando por Gondomar, Valongo e Santo Tirso – temos ainda de suportar alguma petulância de certas figuras que consideram os que não vivem nestes espaços como portugueses de segunda categoria. A AML tem quase três milhões de habitantes, a AMP com quase dois milhões de habitantes, perfazem, deste modo, mais de metade da população do país.

Se a isto acrescentarmos a concentração da maior parte das estruturas, infraestruturas e investimentos, poderemos considerar que bastará pacificar os vivem nestas áreas metropolitanas para manter o país em sossego e numa certa paz social. Veja-se o que aconteceu há duas semanas na ‘crise dos combustíveis’, privilegiando no reabastecimento estas regiões para que não houvesse alarme social… Os ganhos e custos destas áreas metropolitanas percebem nas campanhas publicitárias/políticas, nas apostas de reivindicação e mesmo no nítido favorecimento dos salários para aqueles que ali vivem.

O monstro está a engordar e parece que não há interesse algum em fazê-lo entrar em dieta, pois daí vêm os votos nas eleições e até os cartazes privilegiam quem por aqui mora, dado que podem decidir quem possa continuar a beneficiá-los. As franjas da capital – o Oeste ou a Estremadura, tendo em conta ainda o Alentejo – e do grande Porto – como os distritos de Braga e de Aveiro – continuam à espera que caiam as migalhas das mesas dos ricos, que, embora não produzindo, gerem os impostos que recolhem de espaços bem mais trabalhadores e produtores de riqueza do que as ditas áreas metropolitanas... 

= Neste momento histórico e cultural nota-se que falta horizontes a tantos/as que exercem o poder, nas suas várias formas: político, religioso, de comunicação social, desportivo e mesmo económico. Na maior parte dos casos quem decide olha para o seu umbigo e para a forma de capitalizar – mesmo que alguns se digam combatentes do capitalismo – em influência as decisões que tomam ou as posições em que se colocam… No entanto, esta vertente de ódio com que vemos certas situações serem geradas e geridas podem trazer dissabores ao país em geral e aos menosprezados ou até desprezados em particular.

Até quando haverá um leque de iluminados que se acha dono do ’25 de abril’? Até quando teremos de suportar incompetentes arvorados em chefes? São fracos para serem mandados, quanto mais mandarem!

 

António Sílvio Couto

sexta-feira, 26 de abril de 2019

’25 de abril’ dos sem-voz


Longe da prosápia da macrocefalia da capital – estendida à AML e acrescentada à língua marítima de norte a sul do território europeu – onde está o ’25 de abril’? Essa pretensão dos três ‘d’s’ – descolonização, democratização e desenvolvimento – já chegou aos que continuam a estar ‘sem-voz’, hoje como no passado do regime anterior?

Por muito que certas figuras do poder, nestes 45 anos de revolução abrilina, digam que já foram cumpridos os tais três ‘d’s’, ainda estamos muito longe de criar condições mínimas para que isso seja verdade para todos os portugueses, tanto do litoral como do interior.

Por constituir algo de simbolicamente bizarro vou reportar-me ao ritual da comemoração do 25 de abril na Moita – espaço onde vivo há oito anos, sete meses e vinte e oito dias – num misto de aprendizagem, de reconhecimento e mesmo de aferição…

Durante cerca de uma hora, na manhã de 25A, pode-se ver um certo desfile de forças em conglomeração, como se de pagamento de favores se possa tratar: um misto entre desfile carnavalesco e de procissão mal-amanhada percorre os espaços centrais da povoação. O ritual vai perdendo fogo e os sinais dos intervenientes podem considerar-se desconexos, pois se uns levam os estandartes alçados, outros levam-nos ao ombro – sabe-se lá se conhecem o significado de cada qual das posições – isto já para não falar em vermos outros roçar em terra com os símbolos das coletividades surgidas depois de quarenta anos de novo regime…

Que as forças da dita democracia se achem no direito de ostentarem as causas que as fazem correr, ainda se suporta, mas será, no mínimo, duvidoso que as autarquias – ou quem as suporta ideologicamente – considerem que os espaços públicos possam ser tratados à maneira do seu quintal individualista, onde cada um possa impor-se a quem não pensa nem vota como quem governa…isso, sim, há quase tanto tempo como reinou a terceira república… Terá a ditadura outro nome, se for votada sob manipulação democrática?
Os pagadores do recebimento de subsídios vão-se arrastando numa leitura mais ou menos vangloriosa, desde que passeando-se no veludo da boa harmonia e enquanto vai havendo proventos para flutuarem por mais algum tempo.

E, se, de repente, tudo mudasse de coloração: qual seria a reação – sim, essa que julgam terem exorcizado, mas que continua a reclamar – dos atuais ocupantes dos postos de mando? Talvez seja preciso algum entendimento para se colocar no lugar dos ‘sem-voz’, pois são ostracizados só porque não fazem parte da mentalidade reinante e reinadora…

Até onde irá a arrogância de quem se acha dono-e-senhor de algo que não lhe pertence, mas faz parte indistinta de todo o povo e não de fações, ideologias ou partidos?

Quem ensinará certos mentores ‘urbanos’ a respeitarem os ‘rurais’, silenciados à força ou condicionados por míngua de meios para se fazerem ouvir? 

= Se quiséssemos inventar outros três ‘d’s’, quarenta e cinco anos depois da revolução abrilina, teríamos de conjugar dinheiro-desvergonha-diversão para classificarmos algumas das atitudes atuais de menor denominador comum. Outra hipótese para os três ‘d’s’ poderia ser a de desilusão-disparate-dissonância, numa tentativa de encontrar quem se aproveitou das possibilidades propostas e as fez reverter para si e para os do seu grupo de interesses.

Se atendermos às mais recentes revelações dos episódios que fizeram a revolução abrilina vemos que muitos dos descendentes do seu incremento não conseguiram libertar-se dos assomos de vingança – em certos momentos reclamando fuzilamento dos opositores – e, para já em forma de verborreia, vão continuando o que antes foi tomado por reivindicação, felizmente, não-concretizada

Hoje continua a haver uma imensa multidão silenciosa e/ou silenciada que vai vivendo fora das categorias de vitoriosos, adiando a possibilidade em serem pessoas com iguais direitos, almejando passar da fase das obrigações. Basta de submissão aos protegidos das classes que têm acesso ao prato, onde a comida é servida com discrepâncias intoleráveis. Não serão denúncias das ‘políticas de casos’ e atoardas anti-cobardia que farão deste país um espaço democrático, tolerante e com futuro… Palavras leva-as o vento!          

 

António Sílvio Couto

quarta-feira, 24 de abril de 2019

Liberdade com misericórdia


De entre os binómios possíveis de agrupar, numa leitura ‘humana/divina’, podemos conjugar e tentar viver este da ‘liberdade – misericórdia’. De facto, é um dos mais complexos nas possíveis leituras da nossa ténue vida, pois nem sempre este binómio se articula com respeito pela condição pessoal e a dimensão comunitária. Com efeito, poderá parecer que a liberdade nos concede como que viver de rédea solta e, por seu turno, a misericórdia nos confinaria a uma visão mais religiosa senão mesmo um tanto pietista. Não há nada de mais enganoso.

A liberdade é essa faculdade que nos capacita para assumirmos as nossas responsabilidades mais básicas, tanto pelo que pensamos, como pelo que decidimos e fazemos. Há gente que vem para a rua clamar pela liberdade, mas que não passa de marioneta em feira de ideologias e das vaidades de quem pouco faz, mas que pretende vender o produto de engano nos saldos da comiseração mal-assumida. Cartazes de liberdade, não, obrigado!

Por estes dias ocorre o 45.º aniversário da (dita) conquista da liberdade, mas quantos vivem ainda aferrados à complexidade da manipulação. Uns tantos ainda se armadilham com artefactos alusivos à reconquista da liberdade, mas por dentro estão aprisionados – desde a boca até à ação política – com grilhões sem cadeias…esses que prendem a consciência até à medula mais profunda.

Embora se tenha desenvolvido no quadro das intervenções católicas a terminologia da ‘misericórdia’, esta não poderá nunca reduzir-se a um sentimento mais ou menos religioso e que não tenha, minimamente, a ver com a vida do dia-a-dia. É aqui neste terreno que é posta à prova a nossa maior ou menor capacidade de nos deixarmos guiar, consolar e comprometer com a misericórdia, desde a mais simples até à mais complexa e sacramental.

Para usarmos uma certa linguagem futebolística, não podemos deixar que a liberdade marque golos na baliza da misericórdia, só porque esta se encolheu na defesa dos direitos dos mais fragilizados e não os lançou na conquista da vitória, se bem que esta possa não sair do terreno do empate, isto é pela complacência menos boa para com aqueles que mereciam ser aplaudidos pelas claques bem organizadas e com amor à camisola…

A capacidade de ser livre mostra-se na vivência em ser compassivo e misericordioso. Efetivamente será necessário fazer a experiência da misericórdia – a divina e mesmo a humana – para que possamos não ter nada a ter, portanto, em sermos livres e disponíveis para seguirmos o nada temer e tão pouco nada ter a esconder. 

Recordando as palavras da Sagrada Escritura: ‘conhecereis a verdade e a verdade vos tornará livres’ (Jo 8,32), será, então, pela libertação operada pelo Espírito da Verdade que seremos capazes de nos irmos libertando de tantas formas e feitios de aprisionamento. Será quando deixarmos que a misericórdia divina venha preencher as lacunas de tantas dimensões de nós mesmos que saberemos apreciar melhor como Deus ama cada um de nós e nos faz ser livres n’Ele. 

= Num tempo em que marcadamente contam mais os direitos do que os deveres, tratar o tema da liberdade será mais útil vê-lo na linha das perguntas do que no campo das afirmações, se bem que aquelas possam ser mais contundentes na subtileza do que estas.

* A liberdade é, para mim, um valor, um critério ou uma reivindicação?

* Aceito as opções de liberdade dos outros ou considero as suas opiniões menos boas só porque não são como as minhas?

* Na linha das escolhas partidárias/ideológicas respeito as escolhas alheias com toda a legitimidade como desejo que aceitem as minhas?

* Procuro esclarecer-me das tomadas de posição dos outros ou embarco com facilidade naquilo que uns certos ‘fazedores de opinião’ me impingem de forma acrítica e, tantas vezes, preconceituosa?

* Terei evoluído nas minhas opções, critérios e votações ou fixei-me em arquétipos de há décadas sem ter estudado as possíveis incongruências dos mentores de tais correntes?

Ser livre custa muita liberdade…interior e exterior.

 

António Sílvio Couto

terça-feira, 23 de abril de 2019

Tradições pascais…em maré de laicismo


Com alguma facilidade e divulgação vemos, em certas regiões do país, aparecer a expressão ‘tradição pascal’ como forma de classificar algo que se faz por ocasião da Páscoa e é apresentado como habitual e próprio desta época. O leque de assuntos/temas é um tanto diversificado, abrangendo desde a gastronomia até às (apelidadas) atividades culturais, passando por aspetos regionais ou mais difusos e atingindo vertentes religiosas, mais ou menos tradicionais até à inclusão de ‘tradições’ de outros países ou culturas.

O que mais me intriga é que tudo isto parece ser vivido sob um (diáfano ou tenebroso) manto de laicismo, onde uma boa parte dos intervenientes/usufruidores parecem fazê-lo de forma acrítica mais pelo benefício do que pela consciencialização das coisas, do sentido das mesmas e das implicações que elas trazem, de verdade. O laicismo coloca a suas regras ou nem as tem para ser mais laico ainda?

Tomemos por exemplo alguns ingredientes da gastronomia das ‘tradições pascais’, onde se usa o borrego, cabrito, cordeiro; os doces, entre os quais as amêndoas, o pão de ló, a bola do folar ou os ovos pintados; momentos de convívios entre famílias, vizinhos, associações ou comunidades… muitas vezes à volta da mesa e por mais tempo do que é habitual nos outros dias do ano…

Mas será que todos sabem o significado do uso de tais ingredientes como ‘tradições pascais’? Se abordássemos muitos dos nossos contemporâneos ficaríamos admirados com a falta de resposta adequada, no entanto, continuam todos a usufruir das coisas como se elas lhe dissessem alguma coisa ou coisa alguma…

Desde logo a inclusão do ‘borrego/cabrito/cordeiro’ tem raízes na celebração judaica da páscoa, como lemos nas narrativas do livro do Êxodo, onde se relata a libertação do povo israelita do cativeiro do Egito e que tiveram de comer à pressa o cordeiro que prepararam, pois o anjo de Deus passava nessa noite – vide Êxodo 12. Inclusive ‘páscoa’ quer significar ‘passagem’, tanto de Deus que passa e liberta o seu povo, como do povo que é libertado e passa para uma nova etapa da sua história e identidade…

O uso de ovos – desde a sua existência mais simples até ao seu uso na confeção de doces e outras iguarias – tem a ver com um sinal da vida… Talvez muitas crianças sejam levadas a pensar que dos ovos nascem coelhos ou que os coelhos dão ovos. No ovo está contida, em semente, a vida e os coelhos simbolizam também eles a reprodução em vida, tornando-se ambos sinal da vida que renasce em tempo de primavera…ao menos no hemisfério norte…

Porque as pessoas, em tempos de vivência rigorosa da quaresma, não usavam os ovos na alimentação, podiam, em maré da páscoa, confecionar doces e outros sinais de festa que eram partilhados uns com os outros e dados, particularmente, aqueles sobre os quais tinham alguma responsabilidade…espiritual. Daqui advém o costume, nalgumas regiões, de os padrinhos darem o folar por ocasião da páscoa, onde os ovos tinham maior significado e presença como sinal de amizade e de reconciliação… 

= Até agora percorremos algumas ‘tradições pascais’ que valem para crentes e não crentes, com estes a darem a impressão que nem sempre se questionam com as razões mais profundas de tais costumes. Agora vejamos outras ‘tradições pascais’ com marca mais cristã como as limpezas das casas, a visita pascal ou o compasso, as flores em abundância, os sons de sinos e música, procissões festivas…onde tem realce o ‘aleluia’, que não foi cantado na liturgia durante a quaresma.

A limpeza das casas, nalgumas regiões por dentro e por fora, com a caiação das mesmas, refere a consonância entre a casa de habitação e a purificação dos pecados na pessoa pela reconciliação sacramental… tudo isso para que Jesus ressuscitado seja bem recebido por cada um.

A visita pascal ou o compasso é esse momento de anúncio às pessoas e às famílias da alegria de Jesus ressuscitado…Em tempos muito conotado com a visita do pároco/padre às famílias tem vindo a renovar-se pela inclusão de leigos/as nesta tarefa de Igreja católica… Quem já tenha vivido isso perceberá que é um tempo de festa muito intenso, interessante e vivido. Após a contenção penitencial da quaresma, as flores, que abundam em tempo de primavera, dão um ambiente festivo e alegre, sendo, nalguns casos associada a música, os cânticos e os ‘aleluias’. Às procissões penitenciais e de Passos são contrapostas, durante o tempo pascal, momentos de procissão com motivos de alegria no âmbito mais social e exterior…      

 

António Sílvio Couto

sábado, 20 de abril de 2019

Incêndio de Notre-Dame…cumpre profecias de La Salette?


 
Por ocasião do recente incêndio na catedral de Notre-Dame, em Paris, circulou na internet uma estampa, de 1956, em que era apresentada, ao estilo do tempo, uma pintura do Sagrado Coração de Jesus, tendo nos cantos superiores do mesmo a representação de algo parecido com a catedral de Paris e a catedral de São Pedro, no Vaticano, ambas em chamas…

Tal figuração seria alusiva às ‘profecias’ dadas pelos videntes Maximin e Mélanie, na manifestação de Nossa Senhora em La Salette…uma povoação nos alpes franceses. Com efeito, percorridas as ‘profecias’, do final do século dezanove, aí se referia que, um dia, Notre-Dame e o Vaticano seriam consumidas pelas chamas… Para além de alguns castigos de efeito mais ou menos imediato nos campos e na saúde das populações, as ‘profecias’ de La Salette são algo tenebrosas não só pelas consequências, mas em razão das causas. Pior: muitas destas continuam ativas e atuais, podendo ser remanso para extremistas tanto religiosos, como sociopolíticos… estenderem as suas garras, conjeturas e suposições.

Mas será que o incêndio da catedral de Notre-Dame pode ser lido como o cumprimento de alguma das ‘profecias’ de La Salette? Poderemos querer confirmação de algo que poderá ser mais do que um mero acidente? Até que ponto mais de cento e cinquenta depois poderemos ver, neste incêndio, o cumprimento de tais ‘profecias’? Será correto, histórica e sensatamente, atribuir algum nexo de causa-efeito, entre as ‘profecias’ de La Salette e o trágico incêndio de abril de 2019?

Se, porventura, dermos crédito a tais ‘profecias’ teremos de, agora, esperar que as chamas atinjam a catedral de São Pedro, no Vaticano, corroborando a interpretação de que o ‘mal’ tomara posse do governo da Igreja católica. Será isto sério, sensato e aceitável? Teremos de andar a escarafunchar os meandros da Santa Sé para confirmar tais teorias da conspiração? Será tudo isso justo, correto e honesto?

Dá a impressão de que, quanto mais caminhamos na senda de nos sentirmos participantes da história deste mundo, mais surgem uns certos ‘intelectuais’ e uns tantos ‘devocionistas’ a puxarem para trás, isto é, confundirem os outros, dado que eles mesmos estão confusos, baralhados e saudosistas em terem as pessoas presas pelo medo e não pela capacidade de lerem, interpretarem e viverem de forma livre, consciente e responsável… 

= Mutatis mutandis: a quem interessa continuar a insistir na ‘missa tradicional’ se vamos perdendo clientela na missa do Vaticano II? A quem interessam certas roupagens, para além do espavento de tempos idos e de ideias em paragem no cortejo da vida? Não se andará em excesso a encadernar gente, que precisava de sujar mais as mãos e não de as ter limpas de não fazerem nada?

De facto, o recrudescimento de muitas das devoções, nos nossos dias, manifesta uma crise profunda de identidade, tanto de quem as promove, como de tantos outros que nelas se refugiam, tentando salvar a sua ‘alminha’, mas pouco se importando com atanazar os demais com recursos de pouca valorização humana, emocional e espiritual.

Pior: muitas dessas devoções têm de ser alimentadas com proventos económicos nem sempre claros e tão-pouco aceitáveis. Há casos em que pessoas de parcos recursos passam mal só porque se acham na obrigação de corresponderem ao fluxo de ‘convites’, anúncios e produtos perfeitamente escusados para quem queira ser cristão normal e não deseje pertencer a qualquer grupo ou tendência mais ou menos exotérica… em uso. É um abuso e violência da consciência tanta coisa que faz por aí, explorando a ignorância das pessoas de boa fé ou em estado de debilidade não recomendável para não respeitar…condignamente.  

= A Páscoa tem de trazer novas formas de viver a fé, despindo-a de folclores que já não refletem a vivência que certos ritos pretendiam propor. Será numa Páscoa que celebra a Vida e que faz dessa celebração um nexo de compromisso que haveremos de deixar que o lume novo consuma o que de velho há em cada um de nós. Precisamos de nos deixarmos espantar com a novidade da Páscoa de Jesus, deixando os pingarelhos das nossas certezas no túmulo do sepultamento de Jesus. Precisamos de sair homens/mulheres novos pela dinâmica da Páscoa da Ressurreição…

  

António Sílvio Couto

quarta-feira, 17 de abril de 2019

‘Portugal é Lisboa… o resto é (mesmo) paisagem’


Há quem deduza esta frase duma obra de Eça de Queirós. No entanto, do lamento à realidade não estamos tão longe assim, seja lá qual for a área de intervenção, o campo de trabalho ou mesmo o setor de atividade… humana, económica, cultural ou mesmo espiritual/religiosa.

De que adianta os ‘rurais’ protestarem, se na capital se distribui o dinheiro, as promessas, as contas e as prebendas. De que adianta dizerem que isso está a mudar, se vemos que, numa singela decisão para repor os níveis de combustíveis acessíveis ao público, se privilegia Lisboa, a seguir vem o Porto e talvez mais tarde, se sobrar alguma coisinha, o resto da paisagem será contemplado…

Até já os estrangeiros concluíram desta (nossa) enfermidade e dizem que só dez por cento da despesa pública é gasta com a administração local. Podem as universidades da ‘paisagem’ apresentarem níveis de investigação, de qualidade de ensino, de boa relação instrução-emprego, que nada acontece sem o beneplácito lisboeta… agora mais alargado às fronteiras entre Setúbal e Vila Franca de Xira, no circuito de área metropolitana…

A macrocefalia da capital vai amedrontando a ‘paisagem’ e uma certa menorização de quem não faz parte dessa tal elite – política, económica, intelectual, religiosa, social e cultural – estende-se em aval de desconfiança e, por vezes, de subjugação para ainda conseguir recolher algumas migalhas que caiam da mesa dos ricos senhores, que nem sempre são senhores ricos.

Bastará sair desta bolha complexa – às vezes é mais complexada – da área metropolitana da capital para perceber que muitos, que vivem na ‘paisagem’, ainda não se aperceberam do ostracismo a que estão votados. Por estes dias vivi uma dessas experiências ao ter ido participar na celebração do centenário do jornal ‘Diário do Minho’ e não ter visto rastos de qualquer órgão de comunicação social de imagem, fazendo ignorar uma efeméride de realce para a região, a cidade e mesmo a Igreja católica. E não vi qualquer desconforto no ato, por parte dos responsáveis, não tendo sequer percebido se tal aconteceu por opção, por lacuna ou por mera coincidência ou já por hábito em se ver ignorado, sem voz/imagem e, por isso, fora das notícias…dado que aquilo que não se mostra não existiu! 

= Repare-se na ausência de figuras que surjam de fora de tal circuito – por vezes, queiram desculpar, mais parece um circo – onde quem se diverte como público-alvo faz parte do elenco de quem se exibe. Veja-se o campo da política, onde se vai fechando o leque das escolhas nas mesmas famílias – como a história se repete com tanta facilidade! – e se vai arregimentando do mesmo caldo quem há de depois favorecer os que agora governam. Que dizer ainda das opções para lugares de responsabilidade na Igreja católica. Uns promovem os outros para que (quase) tudo continue na mesma e não se façam ondas que destoem da mentalidade reinante. Porque será que algumas dioceses já há vários anos não têm escolhas reconhecidas por quem apresenta os candidatos? Será por inépcia dos responsáveis, por falta de qualidade dos possíveis servidores ou por incapacidade de os fazer valer nas instâncias de decisão? Neste campo em concreto algo vai mal para certos círculos de intervenção, enquanto outros – talvez mais sagazes e habilidosos – estão quase sempre na linha de chegada… Mesmo assim cresce o número dos despromovidos à escala do país e da intervenção reflexiva, teológica e pastoral.  

= Somos um país pequeno em dimensão territorial, mas apequenamo-nos ainda mais quando uns tantos se acham no direito de menosprezar quem não faça parte do seu âmbito de influência, privilegiando mais o clientelismo do que a qualidade, favorecendo mais a partidarite do que a competência, relegando para fora da corrida quem não alinhe na vulgaridade, na superficialidade e, mais recentemente, no nepotismo descarado. Caminhamos a passos largos para meio século da revolução abrilina e os tiques de ditadura só mudaram de cor, pois algumas autarquias estão em ditadura quase há mais tempo do que o regime anterior: todo o resto da população não evoluiu na mentalidade, quando as ideologias que tais suportavam já claudicaram há três décadas!

O mais grave é quando os que vieram da ‘paisagem’ se acomodam à capital e fazem pior do que antes!

 

António Sílvio Couto

Porque não se viu nenhuma TV?


Por ocasião da gala do centenário do jornal ‘Diário do Minho’, no passado dia 15, não vi nem vislumbrei nenhuma câmara de televisão, nem das habituais em atos de tal significado nem as mais pessoais e correntes… como agora se diz, do público fazedor de notícias. E questionei-me: foi esquecimento de quem organizou ou descuido de quem costuma estar presente ao mais pequeno sinal de notícia importante? Tal efeméride não será algo de tão relevante assim nem sequer para os meios de comunicação social da Igreja católica? Terá havido algo que desmereça ser noticiado ou não haverá algo mais neste falhanço, por sinal, transversal a tantos dos meios de comunicação?

Que o facto era considerado importante viu-se pela presença dum número significativo de autarcas dos distritos de Braga e de Viana do Castelo? Que o episódio foi considerado marcante viu-se no elevado número de presenças – ‘convidados’, diga-se – no ato solene e na refeição subsequente. Que não foi um episódio de somenos notou-se pela presença de tantos dos colaboradores (de trabalho e em opinião), onde humildemente me inclui.

Ainda no decorrer da festa/gala dei conta da estranheza aos responsáveis, tanto da arquidiocese como do jornal e ficou-me um amargo de desconsideração para com uma espécie de boicote por parte dos órgãos de comunicação social em massa. Não que se deva achar estranheza nos critérios de notícias em tantas das televisões, pois ali não havia um escândalo nem um acidente e tão pouco um desses filões que agora fazem ganhar leitores/ouvintes/anunciantes, mas tão-somente a comemoração de cem anos de um jornal feito com base na região Norte, no Minho mais precisamente, que procura veicular valores – como foi referido por alguns dos intervenientes – e de inspiração cristã. Será que é esta que se torna nó górdio da compreensão daquilo que não se compreende e, por isso, se contesta, ignorando, silenciando e censurando?

Seja lá qual tenha sido a razão de não ter estado nenhuma televisão a reportar o primeiro centenário do ‘Diário do Minho’, aqui fica a minha honesta, singela e despretensiosa observação, denúncia e quase protesto.

Com um redobrado sentimento de gratidão realço: parabéns, mais uma vez, pelo centenário deste jornal.

 

António Sílvio Couto