Partilha de perspectivas... tanto quanto atualizadas.



sexta-feira, 12 de abril de 2019

No faroeste da pseudomoralidade


Mais uma vez se está a cumprir o ritual: por ocasião da semana santa – Páscoa, surgem na comunicação social ‘factos’, insinuações, episódios, conjeturas, acusações, suspeitas sobre Jesus Cristo – a sua pessoa e o seu mistério – e sobre a Igreja…sobretudo na vertente católica, particularmente dos seus ministros, seja qual for a instância, serviço ou ministério.

Por outro lado, recorrentemente vemos aparecerem no espetro nacional (e não só), uns certos caçadores de prémios – qual faroeste da (dita) sociedade ocidental – a reclamarem prémios de terem descoberto prevaricadores duma tal moralidade que os denunciantes nem praticam. Por agora emergiu uma tal publicação on-line a farejar temas que possam dar-lhe protagonismo sem terem de investir na impressão das suas impressões – que, por vezes, mais parecem imprecisões – com larga difusão dos seus ímpetos pagos a bom preço. Os cartazes com ‘procura-se’ já não são afixados nas paredes dos cafés ou nos lugares de divulgação, mas surgem nas páginas da internet, nos rascunhos do facebook ou mesmo nas partilhas das redes sociais… Aí se pode ver e dizer de quase tudo, desde que o denunciante se esconda sob um anonimato cobarde ou camuflado de anti-herói sem caráter… Isto já para não falar das denúncias anónimas de ressabiados por não conseguirem atingir os patamares dos acusados, julgados e condenados na praça pública sem culpa formada nem qualquer julgamento…   

= Paremos aqui diante desta campanha de moralismo sem ética. Vejamos como funcionam os mecanismos de conquista e as delongas de insinuação. Comparemos atitudes de setores e, com verdade, cuidemos de analisar aquilo que faz correr tanta gente…em ziguezague para não ser atingida com as avaliações mais exigentes, atentas e sensatas.

Desde há alguns anos a esta parte a Igreja católica, na pessoa dos três últimos papas, tem vindo a reconhecer erros, lacunas e pecados, dos quais tem vindo a pedir perdão – quantas vezes o fez o Papa João, antes e depois do jubileu do ano 2000 – a reconhecer as suas falhas e faltas, denunciando, de forma ousada, os prevaricadores, e afastando mesmo os que podem ter feito escândalo…

Alguma instituição fez isto como a Igreja católica, tanto ao nível universal como em cada país. As forças armadas fizeram o seu ‘mea culpa’ por haver quem tenha cometido infrações nas suas fileiras? As polícias alguma vez se retratam das atrocidades praticadas, tanto contra indefesos como para com criminosos? Na política vimos alguém reconhecer os seus abusos e manipulações? Ou, pelo contrário, casos há em que ascenderam aos mais altos cargos da nação de forma promotoria da lavagem por conluios e favorecimentos ignóbeis? No setor do ensino não há nada a modificar? No âmbito da saúde – onde se jogam tantos interesses e lóbis – está tudo acalmado? Nas categorias dos vários desportos, nunca houve atrocidades nem incorreções?  

= Quem está posto em causa em tantos destes episódios colocados a preceito nas redes sociais e na comunicação social mais tradicional? A quem se pretende atingir de forma astuciosa e ardilosa?

Não tenhamos medo de falar do que se quer criticar, afundar e destruir: a família… é esta a entidade que incomoda tanta gente vendedeira duma certa ética mais ou menos republicana, agnóstica e, tendencialmente, anticristã. À família estão ligados tantos dos aspetos que querem combater, de forma mais ou menos assumida.

Se para atingir tais fins for preciso difamar e inventar, ridicularizar ou atraiçoar, subverter e ideologizar, manipular ou mentir…tudo servirá, desde que os feitos sejam sorvidos a conta-gotas para que o veneno seja assimilado tão rapidamente e não rejeitado. Os caçadores de prémios andam por aí e com facilidade podem acrescentar mais presas, desde que andemos em sonolência de boa vontade narcotizada pelas modas de cada tempo e nos mais diversos lugares. Sem entrarmos na caça-às-bruxas, temos de as denunciar, mais pelo que escondem do que pelos aspetos que apresentam. Urge fazer cair a máscara a tantos/as que se apresentam como moralizadores, mas que não passam de juízes em causa própria e beneficiados da conivência de outros, igualmente réus e fazedores de vítimas!

 

António Sílvio Couto

terça-feira, 9 de abril de 2019

Como ‘ser a voz dos sem voz’, hoje?


Está prestes a completar cem anos de existência, o jornal ‘Diário do Minho’, com sede em Braga.

Para além de se dizer, no estatuto de editorial, que é um jornal de ‘informação geral, de expansão regional e de inspiração cristã’, apresenta-se como ‘a voz dos sem voz’, não privilegiando ‘interesses particulares’ nem ninguém, rejeitando os totalitarismos (de direita ou de esquerda), mas estando ‘ao serviço de todo o homem e do homem todo’, construindo ‘uma sociedade cada vez mais justa e mais fraterna’ e opondo-se, pelos seus princípios, a ‘tudo quanto se opõe à vida humana’.

As circunstâncias do seu surgimento, 1919, eram assaz conturbadas…tanto dentro como fora das fronteiras. Em Portugal recuperava-se do assassínio de Sidónio Pais, lutava-se contra a gripe pneumónica…que vitimou, nalgumas regiões, dez por cento da população, num total de 60 mil do nosso país. Na esfera internacional davam-se passos para a consolidação da paz, no final da primeira guerra mundial, com o ‘tratado de Versallhes’. Ao nível da Igreja católica era Papa, Bento XV, que, em novembro desse ano, escreveu, entre outros documentos, a carta apostólica ‘Maximum illud’ sobre a atividade desenvolvida pelos missionários no mundo. Ao tempo era arcebispo de Braga, D. Manuel Vieira de Matos, considerado um grande resistente à lei da separação na primeira república…e introdutor no escutismo no nosso país.

Feito este enquadramento histórico-social-eclesial talvez possa ser útil reporta-nos a algumas das linhas daquele diário de inspiração cristã.

* Rejeitando interesses particulares e totalitários

Este jornal sobreviveu a três repúblicas – a primeira em cujo contexto surgiu; a segunda sob a tutela salazarista; a terceira – pós revolucionária…em vias da pretensa democracia. Uma obra não se mede pela popularidade conseguida, mas pela atitude de caminhar rumo à meta, fazendo das etapas, isso mesmo, degraus que fazem crescer e não os meros lucros a que se deixa enfeudar sem saída… 

* Em defesa da vida

Neste aspeto o jornal define, no seu estatuto de editorial, quais são os campos em que se compromete a lutar pela vida: na sua expressão mais simples e direta – ‘homicídio, genocídio, pena de morte, aborto, eutanásia e suicídio voluntário’; naquilo que pode ser entendido como ofensa indireta – ‘tudo o que viola a integridade da pessoa humana, como as mutilações, os tormentos corporais e mentais e as tentativas para violentar as próprias consciências’; os aspetos atinentes à dignidade humana – ‘tudo quanto ofende a dignidade da pessoa, como as condições de vida infra-humanas, as prisões arbitrárias, as deportações, a escravidão, a prostituição, o tráfico de mulheres e jovens’; e ainda as vertentes sócio-laborais – ‘as condições degradantes de trabalho, em que os operários são tratados como meros instrumentos de lucro e não como pessoas livres e responsáveis’.

De quantas formas este diário tem denunciado, anunciado e proposto este valor inquestionável da vida humana. Em certos momentos – sobretudo na fase dita da democracia – houve tensões, provocações e momentos em que os valores cristãos foram atacados, ofendidos e menosprezados, mas o bom senso e a correção voltaram a fazer caminho… Uns exemplares a menos vendidos não valem a subversão do essencial!   

* Ser a voz dos sem voz

Parece-me que este aspeto continua a ser um dos mais relevantes da linha editorial, Com efeito, quando tantos se querem fazer ouvir, pelas mais díspares (nalguns casos disparatadas) formas, ser a ‘voz dos sem voz’ é (e continua a ser) um objetivo cada vez mais audaz, pertinente e urgente.

Nem todas as notícias dadas são as mais importantes, algumas ignoradas deviam ter espaço, comentário e análise. Quando tantos se acham no direito de fazerem parte das notícias, será essencial que os profissionais não se demitam nem usem de menos boa conduta, só porque uns tantos se colocam em bicos de pés sem outra intenção de serem figurantes de um episódio de classe inferior…até nas coisas da Igreja.

‘Os sem voz’ precisam de ser atendidos, acolhidos e apresentados na chamada à primeira página, pois eles são o reflexo dos anónimos, dos votantes, dos cidadãos, dos crentes…com dignidade de filhos de Deus!

 

António Sílvio Couto

segunda-feira, 8 de abril de 2019

Haverá (ou não) riscos de islamização da Europa?


Talvez seja uma inquietação dos europeus: já não corrermos o risco de vir a ser criado o ‘grande califado’, como ameaçou o autodenominado ‘estado islâmico’? Com as nossas teorias de abertura e boa convivência, estamos a salvo de tais pretensões de muçulmanos mais exagerados ou fundamentalistas? Por quanto tempo poderemos usufruir da possibilidade de viver festas religiosas cristãs/católicas com a indiferença religiosa crescente deste mundo ocidental? Tanto quanto é percetível entender os ditos valores da democracia não correm perigo, se continuarmos a dormir e a amolecer na vigilância sociocultural?
Quem não se recorda dos tumultos, por vezes graves, que ocorreram após a intervenção do Papa Bento XVI, na universidade de Ratibona, em agosto de 2005? Quem esteve interessado em esticar as más interpretações daquilo que foi dito, de facto e não tirado do contexto do discurso? Até que ponto os muçulmanos são tão ‘intocáveis’ e fazem temer o (dito) ‘mundo ocidental’?
Entretanto, as mais recentes viagens do Papa Francisco a países de incidência muçulmana têm algum significado nesta abordagem à possível islamização da Europa? Como poderemos interpretar factos, palavras, sinais e atitudes do Papa nesta leitura sobre a (possível) islamização da Europa?
Na exortação apostólica ‘Evangelii gaudium’ (Alegria do Evangelho) sobre o anúncio do Evangelho no mundo atual, o Papa Francisco refere-se ao diálogo dos católicos com o islão – n.os 250-254 – dos quais vamos respigar algumas ideias.
* Partindo de ‘uma abertura à verdade’ para que possa haver diálogo inter-religioso, o Papa considera que ‘este diálogo inter-religioso é uma condição necessária para a paz no mundo e, por conseguinte, é um dever para os cristãos e também para outras comunidades religiosas… Um diálogo, no qual se procurem a paz e a justiça social, é em si mesmo, para além do aspeto meramente pragmático, um compromisso ético que cria novas condições sociais’ (n.º 250).
* Uma condição essencial a ter em conta, nesta tarefa do diálogo inter-religioso, é cada um ser o que é e saber respeitar o outro na sua identidade. Segundo o Papa, ‘nunca se deve descuidar o vínculo essencial entre diálogo e anúncio, que leva a Igreja a manter e intensificar as relações com os não-cristãos… A verdadeira abertura implica conservar-se firme nas próprias convicções mais profundas, com uma identidade clara e feliz, mas «disponível para compreender as do outro» e «sabendo que o diálogo pode enriquecer a ambos»…Longe de se contraporem, a evangelização e o diálogo inter-religioso apoiam-se e alimentam-se reciprocamente’ (n.º 251).
* Fazendo um breve enquadramento da presença dos muçulmanos em muitos países de tradição cristã, onde eles têm liberdade de culto – coisa que os cristãos/católicos não têm nos países de cultura islâmica – e muitos deles estão integrados na sociedade, o Papa tenta encontrar pontos de convergência com a fé do islão (n.º 252), traçando depois linhas de condutas. De entre essas linhas, o Papa Francisco refere-se à ‘adequada formação dos interlocutores, não só para que estejam sólida e jubilosamente radicados na sua identidade, mas também para que sejam capazes de reconhecer os valores dos outros, compreender as preocupações que subjazem às suas reivindicações e fazer aparecer as convicções comuns’ (n.º 253). De entre os diversos riscos, o Papa salienta o do fundamentalismo violento, auspiciando que haja bom acolhimento aos cristãos nos países de expressão muçulmana.
Talvez precisemos de não confundir os contatos e as boas intenções dos responsáveis, mas na vertente popular nem sempre será tudo tão arejado como se apresenta quando a liberdade religiosa é (ou não) respeitada! Ainda falta uma purificação da memória de tantos séculos de acusações e de desconfianças! Será preciso respeitar o sangue de milhares (ou talvez de milhões) de mártires cristãos (católicos e/ou protestantes) ainda hoje feitos em tantos dos países muçulmanos!
Ao Ocidente insípido, anódino ou agnóstico isto diz alguma coisa ou provocará mais desdém pelo fenómeno religioso, tenha a expressão que tiver? Os nossos antepassados merecem mais respeito!

Em tempo de quase-semana santa poderá ser útil não esquecer os milhões de cristãos – das várias denominações e nos diversas latitudes, a começar pela Terra Santa – que não têm condições mínimas para celebrar com dignidade a sua fé em Cristo Jesus!

 

António Sílvio Couto

sábado, 6 de abril de 2019

Da ataraxia estoica…à paixão silenciosa de Cristo


Por estes dias ouvi alguém que, referindo-se ao seu estado de saúde, dizia que não estava habituado a queixar-se… até porque estamos em tempo de Quaresma.

A capacidade de não-inquietude dos estoicos deixou alguns resquícios na forma como nos foi transmitida uma certa dose de tranquilidade de ânimo ou a ausência de inquietude na paixão de Cristo através dos Evangelhos: o longo, profundo e interrogativo silêncio de Jesus em todo o processo a que foi submetido como foi apresentado aos seus discípulos para quando estivessem em maré de perseguição, de provação ou mesmo de confronto consigo mesmos e/ou com o exterior.  

= Sem querer abusar dos três sinais que caraterizam o nosso tempo – aspirina, micro-ondas e fraldas descartáveis – percebe-se como se torna difícil não reagir ao mais pequeno contratempo e ao constrangimento dos nossos prazeres. Com efeito, a ‘apatia’, que fundamentava o processo de ataraxia dos estoicos, está contraditado ao mais ínfimo pormenor pessoal, social e mesmo cultural. Nada nem ninguém pode afetar a nossa ‘felicidade’, muitas vezes feita de casmurrices se não mesmo de vícios e má-educação.

Quem ousa apresentar a fé cristã onde se contenha pinceladas de sacrifício? Quem tenta referir a dimensão sacrificial da missa, se sentir indícios de comichão no assento dos ouvintes/praticantes? Quem não tenta ‘inovar’ na via-sacra para que esta não nos confronte com os sofrimentos (físicos, psicológicos e morais) de Jesus? Quem não dará voltas à imaginação para que não afugente o resto dos praticantes, se lhes falarmos da entrega dos nossos sacrifícios em vez das reivindicações habituais?

Estas e outras questões se podem levantar quando nos aproximamos da vivência da ‘semana santa’, onde meditamos o mistério pascal da paixão-morte-ressurreição de Cristo. Ele, que tanto sofreu por nós e em cujas chagas fomos curados, continua a ser uma provocação ao nosso melaço de vida, onde nem os mínimos sacrifícios enquadramos nesse Seu mistério de entrega por nós e pela nossa salvação. 

= Escutemos a voz do magistério sobre o modo como devemos conduzir-nos neste tempo, que não é pior do que outros momentos do passado. Temos, sim, de saber compreender os sinais de Deus para connosco.

«É salutar recordar-se dos primeiros cri­stãos e de tantos irmãos ao longo da história que se mantiveram transbordantes de alegria, cheios de coragem, incansáveis no anúncio e capazes de uma grande resistência activa. Há quem se console, dizendo que hoje é mais difícil; temos, porém,de reconhecer que o contexto do Império Romano não era favorável ao anúncio do Evangelho, nem à luta pela justiça, nem à defesa da dignidade humana. Em cada momento da história, estão presentes a fraqueza humana, a busca doentia de si mesmo, a comodidade egoísta e, enfim, a concupiscência que nos ameaça a todos. Isto está sempre presente, sob uma roupagem ou outra; deriva mais da limitação humana que das circunstâncias. Por isso, não digamos que hoje é mais difícil; é diferente. Em vez disso, aprendamos com os Santos que nos precederam e enfrentaram as dificuldades próprias do seu tempo. Com esta finalidade, proponho-vos que nos detenhamos a recuperar algumas motivações que nos ajudem a imitá-los nos nossos dias» - Papa Francisco, ‘Alegria do Evangelho’, n.º 263.

À luz do silêncio de Jesus, na sua paixão, poderemos aprender também nós o modo como Ele nos conduz, verdadeiramente! Não haverá, por aí, muito desperdício de sofrimento que poderia ser redentor e salvador? Não teremos de viver esta continuada entrega de tudo e de quanto nos faz sofre para que haja abertura à graça divina de tantos que precisam de intercessão?

Olhemos a cruz vazia e ofereçamo-nos com Jesus. Adoremos o Senhor que jamais passará pela cruz. Contemplemos a irradiação do Céu, quando soletramos a jaculatória: ‘nós Vos adoramos e bendizemos, ó Jesus, que pela vossa santa cruz remistes o mundo’… ontem, hoje e por toda a eternidade!

A cruz não esmaga, pelo contrário, levanta e eleva! A quietude estoica paralisa e embaraça. A cruz é sinal de caminhada, os exoterismos estoicos fazem mergulhar no narcisismo…

Os estoicos serenam-se, os cristãos incomodam-se para que outros acolham a salvação trazida por Jesus. O resto poderá ser pietismo barato ou devocionismo de circunstância. Deixemos entrar Jesus, serenamente!

 

António Sílvio Couto

quinta-feira, 4 de abril de 2019

Para uma pequena mistagogia da ‘semana santa’


Considerada pela tradição católica como a ‘semana maior’ – não pela extensão dos dias, mas pelo significado de cada um deles – a semana santa reveste-se dum significado muito especial.
Nos três primeiros dias – segunda, terça e quarta – algo que nos pode e deve fazer refletir. Referimo-nos ao ‘mistério de Judas Iscariotes’, esse que foi o traidor e que entregou Jesus às mãos dos judeus para ser morto. Com efeito, os textos da liturgia da palavra da missa desses dias são assaz ‘perturbadores’ – Jo 12,1-11: Judas questiona o uso do perfume de Madalena para com Jesus; Jo 13,24-33.36-38: Jesus preanuncia a traição de Judas e as negações de Pedro; Mt 26,14-25: Judas como que negoceia a entrega de Jesus aos chefes judaicos.
* Missa crismal – dom do sacerdócio
Na manhã de quinta-feira santa reúne-se todo o presbitério com o seu bispo, numa expressão de comunhão e de renovação de compromisso. É um momento fundamental de todo o padre e da diocese: não pode haver verdadeiro ministério sem comunhão dos padres uns com os outros e de todos com o bispo diocesano…mesmo que possa ser só padre religioso!
* Celebração da ‘ceia do Senhor’
Na tarde (ou ao final da mesma) da 5.ª feira santa, a Igreja convida-nos a celebrar ‘a missa vespertina da ceia do Senhor’, confluindo para esta celebração o memorial da páscoa judaica e a instituição que Jesus faz da eucaristia, isto é, o memorial do Seu Corpo e Sangue. Tendo o rito dos ‘lava-pés’ como sinal central, esta celebração introduz-nos o centro do mistério da paixão-morte-ressurreição de Jesus. Nela meditamos, agradecemos e nos comprometemos com tudo quanto Jesus fez por nós, pela sua dádiva de amor, de oblação, de entrega… desde fazer do seu Corpo e Sangue nosso alimento até ao sofrimento da paixão – no sentido mais profundo do termo e da vivência – duma vez para sempre.
O tempo de silêncio em adoração ao Senhor não pode parecer uma vigília de velório nem sequer uma espécie de passagem pelo ‘horto das oliveiras’ como esteve o Senhor, mas antes um momento de adoração, ação de graças, intercessão e súplica em união com todos quantos celebram como nós este mesmo mistério espalhados pelo mundo unidos ao todos os cristãos.
* Na força da 6.ª feira santa
Como dia de jejum e de abstinência, este dia de sexta-feira santa faz-nos caminhar em recolhimento e até contensão de palavras, meditando a narrativa da Paixão segundo São João, vivendo a adoração da Cruz – onde nem devia estar a imagem do Senhor para que a cruz fosse sentida como verdadeiro instrumento e sinal de salvação – e sendo alimentados pela eucaristia dos pré-santificados. Neste dia é duma grande beleza e simbologia a longa oração universal, onde, desde tempos imemoriais, se reza por tudo e por todos…até pelos descrentes e ateus.
Segundo alguns costumes, nesta noite de 6.ª feira santa, faz-se a procissão ‘do enterro do Senhor’, termo indevido, pois não levamos ninguém a enterrar e tão pouco a sepultar, antes, pelo silêncio e a meditação – onde a música pode e deve ajudar-nos – caminhamos escutando textos do sepultamento de Jesus. É algo anacrónico que alguém participe na ‘procissão do enterro do Senhor’ se não viveu o resto da liturgia desse dia… Certos folclores precisam de ser purificados e exorcizados, à luz duma formação simples, aceite e crescente…
* Sábado santo: do silêncio à explosão da luz…ressuscitada e ressuscitadora
Num dia sem celebrações litúrgicas, preparamo-nos para a significativa vivência da vigília pascal, que nos coloca diante de quatro grandes dimensões litúrgicas: da luz, da Palavra, batismal e eucarística. Cada uma delas é longa e essencial para a nossa fé cristã. Por isso, a vigília pascal não pode ser feita a correr e talvez seja uma abuso fazer mais do que uma nessa mesma noite.
– na liturgia da luz contemplamos, em forma de oração, o mistério da redenção operada pela ressurreição do Senhor, luz que brilha nas trevas.
– na liturgia da Palavra percorremos os momentos essenciais da história da salvação em ordem à ressurreição do Senhor.
– na liturgia batismal acolhemos novos irmãos e renovamos o nosso batismo.
– na liturgia eucarística damos graças e recebemos o dom do Senhor vivo e ressuscitado para sempre.

 

António Sílvio Couto


terça-feira, 2 de abril de 2019

Pontífice, apontador, apontamento…


No final da ordenação episcopal, no último dia de março, no Porto, D. Américo Aguiar proclamou-se construtor de pontes… isso já desde o tempo da juventude (disse ele, na vertente política), acentuando para o futuro que deseja ser ‘pontífice’ (fazedor de pontes) entre as várias regiões socioculturais do país (Porto-Lisboa) e até na nomenclatura desportiva de rivalidades…

Para quem conheça minimamente o recém-ordenado bispo saberá que é pessoa afável – mesmo na intrincada mescla da comunicação social – e com um sentido de presença da Igreja muito para além das despesas comuns e factuais. Embora não tenha uma idade onde se apensa bastante experiência de vida pastoral, não deixará, certamente, de ser isso mesmo que anunciou tão solenemente: criador de pontes nos campos que enunciou e em tantos outros em que Deus o colocará como presença, instrumento e intérprete.  

* Ser pontífice

Esta nota de criador de pontes costuma ser aduzida ao Papa, a quem comummente se lhe chama ‘sumo pontífice’, elevando à categoria de fazer pontes quem está no (dito) ligar cimeiro da Igreja católica. Embora já usado, na linguagem do mundo, tornou-se no século V da era cristã como que um título dado a bispos notáveis e passou a ser utilizado, especialmente, pelos Papas, depois da rutura entre católicos (Roma) e ortodoxos (Constantinopla) no século IX.

No entanto, a função de fazer pontes sempre foi considerada uma tarefa de grande utilidade humana e cultural, na medida em que era difícil atravessar os rios e as pontes permitiam tal desejo de passar duma para outra margem… Isso ainda é mais valorizado quando se veem a despontar tantos muros entre povos e civilizações, entre culturas e nações…sem esquecer as barreiras psicológicas que os muros arrastam na mentalidade hodierna.

Na linguagem e no comportamentos algo agressivos com que nos temos de confrontar, pretender ser pontífice parece um bom programa de vida, sobretudo para quem terá de estabelecer diálogo com situações onde as boas intenções nem sempre favorecem quem delas se pretenda servidor… 

* Querer ser apontador

Esta outra nota adstrita ao ministério de um bispo – de um padre ou de um leigo – poderá não ser tão desfasada da realidade do que possa parecer, pois ser apontador merecerá ter algo para onde indicar e apresentar meios para tal atingir. Inserido em meios variados, o termo ‘apontador’ poderá ajudar-nos a compreender a missão de alguém que aponta, traça uma diretriz ou que ajuda a fazer caminho numa determinada direção. Ser apontador poderá ainda apresentar ideias correlacionadas ou situações afins, criando nessa função modos de resolver questões, por vezes, um tanto complexas, mas que com ajuda se poderão ultrapassar.

Quem é que não deve ser apontador, na vida, das soluções do Evangelho? Quem não desejará tornar-se apontador de metas e não quedar-se pelas etapas? Quem não descobrirá mais incentivo para caminhar, quando conseguir envolver outros nos projetos?  

* Que apontamento?

Ao longo da nossa vida já tomamos muitos apontamentos, isto é, fomos recolhendo para nossa orientação, instrução e aprendizagem muitos pensamentos, tantas frases e multíplices ideias de outros que connosco tal partilharam, ensinaram ou conviveram. Há apontamentos importantes e notas de rodapé. Há apontamentos que ficam para a vida e outros que esquecemos na voragem dos dias. Há apontamentos quase sagrados porque nos foram ministrados por mestres da sabedoria, da vida e da santidade.

Talvez nos falte o hábito de tomar notas – tirar apontamentos – das coisas simples da vida, mas seria de grande utilidade aprendermos uns com os outros na escola do dia-a-dia, onde o mais pequenos sinal nos possa falar de Deus e os outros possam ser os nossos mestres na interpretação dos mistérios divinos na vida.

Ao novo bispo desejamos que seja pontífice, apontador e apontamento de Cristo em todo o momento… 

 

António Sílvio Couto


sexta-feira, 29 de março de 2019

Ceia-de-natal…em maré-de-páscoa (elegia para um certo nepotismo à portuguesa)


E, se repente, se começassem a escarafunchar as relações familiares entre os membros do governo? Os tentáculos de sangue e os laços sociais de parentesco são muitos, diversos e quase impressionantes…

Mas será tudo isto (e o resto) novidade? Bastará consultar o organigrama da maioria das autarquias – grandes ou pequenas, seja qual for o partido reinante ou tenha o tempo de governança que tiver – para percebermos esta tendência a roçar o nepotismo elevado à potência mais sobrenatural!

Não será para atingir um lugarzito de razoável emprego que muitos (velhos ou novos) se inscrevem nos partidos políticos…que podem aceder ao poder com maior ou menor dificuldade? Não será para proteger os seus que alguns se sacrificam em estarem na vida da política pública? Não será para conquistar protagonismo que uns tantos passam pelo tirocínio de colar cartazes, de figurar em comícios e até serem fiéis ao chefe, seja o geral, o particular ou mesmo o disfarçado de amigo/companheiro/camarada?

É diante deste puzzle de cumplicidades que foram à procura de nomes comuns no atual governo. Assim encontraram muitos apelidos iguais em funções variadas, não disfarçando que um grupo familiar – há quem lhe chame como se fosse ‘uma ceia de natal’ – fiel ao chefe tem tudo e todos na mão, isto é, na obediência às orientações congeminadas, nos antros da reunião de parceiros do mesmo bolo. Costa, Vieira, Marques, Santos, Cabrita, Martins, etc… são apelidos que percorrem vários nomes, num crescendo nas várias remodelações – uma em 2016, quatro em 2017, duas em 2018 e uma em 2019 – fazendo inclusão de mais e mais afetos à mesma linha de rumo e aos vínculos familiares entre si… Por isso, poder-se-á considerar que, atendendo à época pré-pascal, vão sobrevivendo aos conluios em maré-de-páscoa, que, se bem souberem as passagens bíblicas, por lá se incluem traidores, trânsfugas e acobardados…  

= Se olharmos a outros contextos – de governos anteriores e a situações autárquicas conhecidas – quase que somos tentados a reconhecer que nada há de novo sob o ritmo da terra. Outros fizeram idêntico percurso e as coisas foram pagas por todos com o recurso a maus resultados. O pior é que ainda não foi desfeito o novelo de confusões não muito distantes e já estamos a dar os mesmos passos para recebermos os resultados outrora conseguidos…De facto, ainda não aprendemos as lições, algumas delas pagas a peso de grande austeridade – nunca vencida, mas tão-somente dita como aliviada – e com restrições de enorme crise e de contenção de regalias. Mesmo que nos queiram persuadir, que algo vai continuar na senda do (dito) sucesso, vivemos numa bolha artificial, que bastará um pequeno arremedo de instabilidade social, económico-financeira ou mesmo de segurança e tudo desabará como castelo de ilusões…

De verdade faltam-nos critérios de conduta alicerçados nos valores de cidadania, de responsabilidade e na cultura da harmonia entre direitos e deveres. Não será com facilitismos de créditos para serviços secundários que iremos recuperar a credenciação do país, das famílias e das organizações socioeconómicas. Não será com a polarização de benesses para uma parte da população – os cerca de setecentos mil funcionários públicos são pouco mais de 15% dos que estão em vida ativa – sobre os que contribuem com o seu trabalho, os impostos e a criação de riqueza, que iremos ser um país de sucesso, de produtividade e de futuro. Torna-se urgente criar igualdade de direitos e de deveres para todos, particularmente para com os que mais contribuem para que o país não se afunde, nem se faça do miserabilismo uma boa fonte de rendimentos.  

= Agora que quase tudo foi revertido em favor das reivindicações como iremos prosseguir na senda do progresso, se os abutres já sobrevoam sobre os cadáveres?

Desculpando a observação: ninguém é como é, sem razões. Isso mesmo nos faz tentar compreender a Nação que somos: de hospitaleiros e asseados parece que entramos na senda do terceiro-mundismo mais primário, onde as famílias se prolongam no poder, como se tivesse sido restaurada uma tal monarquia republicana.

Portugal merece melhor. O nosso futuro não pode esperar por lições que já deviam ter sido aprendidas. Basta deste incipiente nepotismo…à portuguesa!

 

António Sílvio Couto