Partilha de perspectivas... tanto quanto atualizadas.



sábado, 6 de abril de 2019

Da ataraxia estoica…à paixão silenciosa de Cristo


Por estes dias ouvi alguém que, referindo-se ao seu estado de saúde, dizia que não estava habituado a queixar-se… até porque estamos em tempo de Quaresma.

A capacidade de não-inquietude dos estoicos deixou alguns resquícios na forma como nos foi transmitida uma certa dose de tranquilidade de ânimo ou a ausência de inquietude na paixão de Cristo através dos Evangelhos: o longo, profundo e interrogativo silêncio de Jesus em todo o processo a que foi submetido como foi apresentado aos seus discípulos para quando estivessem em maré de perseguição, de provação ou mesmo de confronto consigo mesmos e/ou com o exterior.  

= Sem querer abusar dos três sinais que caraterizam o nosso tempo – aspirina, micro-ondas e fraldas descartáveis – percebe-se como se torna difícil não reagir ao mais pequeno contratempo e ao constrangimento dos nossos prazeres. Com efeito, a ‘apatia’, que fundamentava o processo de ataraxia dos estoicos, está contraditado ao mais ínfimo pormenor pessoal, social e mesmo cultural. Nada nem ninguém pode afetar a nossa ‘felicidade’, muitas vezes feita de casmurrices se não mesmo de vícios e má-educação.

Quem ousa apresentar a fé cristã onde se contenha pinceladas de sacrifício? Quem tenta referir a dimensão sacrificial da missa, se sentir indícios de comichão no assento dos ouvintes/praticantes? Quem não tenta ‘inovar’ na via-sacra para que esta não nos confronte com os sofrimentos (físicos, psicológicos e morais) de Jesus? Quem não dará voltas à imaginação para que não afugente o resto dos praticantes, se lhes falarmos da entrega dos nossos sacrifícios em vez das reivindicações habituais?

Estas e outras questões se podem levantar quando nos aproximamos da vivência da ‘semana santa’, onde meditamos o mistério pascal da paixão-morte-ressurreição de Cristo. Ele, que tanto sofreu por nós e em cujas chagas fomos curados, continua a ser uma provocação ao nosso melaço de vida, onde nem os mínimos sacrifícios enquadramos nesse Seu mistério de entrega por nós e pela nossa salvação. 

= Escutemos a voz do magistério sobre o modo como devemos conduzir-nos neste tempo, que não é pior do que outros momentos do passado. Temos, sim, de saber compreender os sinais de Deus para connosco.

«É salutar recordar-se dos primeiros cri­stãos e de tantos irmãos ao longo da história que se mantiveram transbordantes de alegria, cheios de coragem, incansáveis no anúncio e capazes de uma grande resistência activa. Há quem se console, dizendo que hoje é mais difícil; temos, porém,de reconhecer que o contexto do Império Romano não era favorável ao anúncio do Evangelho, nem à luta pela justiça, nem à defesa da dignidade humana. Em cada momento da história, estão presentes a fraqueza humana, a busca doentia de si mesmo, a comodidade egoísta e, enfim, a concupiscência que nos ameaça a todos. Isto está sempre presente, sob uma roupagem ou outra; deriva mais da limitação humana que das circunstâncias. Por isso, não digamos que hoje é mais difícil; é diferente. Em vez disso, aprendamos com os Santos que nos precederam e enfrentaram as dificuldades próprias do seu tempo. Com esta finalidade, proponho-vos que nos detenhamos a recuperar algumas motivações que nos ajudem a imitá-los nos nossos dias» - Papa Francisco, ‘Alegria do Evangelho’, n.º 263.

À luz do silêncio de Jesus, na sua paixão, poderemos aprender também nós o modo como Ele nos conduz, verdadeiramente! Não haverá, por aí, muito desperdício de sofrimento que poderia ser redentor e salvador? Não teremos de viver esta continuada entrega de tudo e de quanto nos faz sofre para que haja abertura à graça divina de tantos que precisam de intercessão?

Olhemos a cruz vazia e ofereçamo-nos com Jesus. Adoremos o Senhor que jamais passará pela cruz. Contemplemos a irradiação do Céu, quando soletramos a jaculatória: ‘nós Vos adoramos e bendizemos, ó Jesus, que pela vossa santa cruz remistes o mundo’… ontem, hoje e por toda a eternidade!

A cruz não esmaga, pelo contrário, levanta e eleva! A quietude estoica paralisa e embaraça. A cruz é sinal de caminhada, os exoterismos estoicos fazem mergulhar no narcisismo…

Os estoicos serenam-se, os cristãos incomodam-se para que outros acolham a salvação trazida por Jesus. O resto poderá ser pietismo barato ou devocionismo de circunstância. Deixemos entrar Jesus, serenamente!

 

António Sílvio Couto

quinta-feira, 4 de abril de 2019

Para uma pequena mistagogia da ‘semana santa’


Considerada pela tradição católica como a ‘semana maior’ – não pela extensão dos dias, mas pelo significado de cada um deles – a semana santa reveste-se dum significado muito especial.
Nos três primeiros dias – segunda, terça e quarta – algo que nos pode e deve fazer refletir. Referimo-nos ao ‘mistério de Judas Iscariotes’, esse que foi o traidor e que entregou Jesus às mãos dos judeus para ser morto. Com efeito, os textos da liturgia da palavra da missa desses dias são assaz ‘perturbadores’ – Jo 12,1-11: Judas questiona o uso do perfume de Madalena para com Jesus; Jo 13,24-33.36-38: Jesus preanuncia a traição de Judas e as negações de Pedro; Mt 26,14-25: Judas como que negoceia a entrega de Jesus aos chefes judaicos.
* Missa crismal – dom do sacerdócio
Na manhã de quinta-feira santa reúne-se todo o presbitério com o seu bispo, numa expressão de comunhão e de renovação de compromisso. É um momento fundamental de todo o padre e da diocese: não pode haver verdadeiro ministério sem comunhão dos padres uns com os outros e de todos com o bispo diocesano…mesmo que possa ser só padre religioso!
* Celebração da ‘ceia do Senhor’
Na tarde (ou ao final da mesma) da 5.ª feira santa, a Igreja convida-nos a celebrar ‘a missa vespertina da ceia do Senhor’, confluindo para esta celebração o memorial da páscoa judaica e a instituição que Jesus faz da eucaristia, isto é, o memorial do Seu Corpo e Sangue. Tendo o rito dos ‘lava-pés’ como sinal central, esta celebração introduz-nos o centro do mistério da paixão-morte-ressurreição de Jesus. Nela meditamos, agradecemos e nos comprometemos com tudo quanto Jesus fez por nós, pela sua dádiva de amor, de oblação, de entrega… desde fazer do seu Corpo e Sangue nosso alimento até ao sofrimento da paixão – no sentido mais profundo do termo e da vivência – duma vez para sempre.
O tempo de silêncio em adoração ao Senhor não pode parecer uma vigília de velório nem sequer uma espécie de passagem pelo ‘horto das oliveiras’ como esteve o Senhor, mas antes um momento de adoração, ação de graças, intercessão e súplica em união com todos quantos celebram como nós este mesmo mistério espalhados pelo mundo unidos ao todos os cristãos.
* Na força da 6.ª feira santa
Como dia de jejum e de abstinência, este dia de sexta-feira santa faz-nos caminhar em recolhimento e até contensão de palavras, meditando a narrativa da Paixão segundo São João, vivendo a adoração da Cruz – onde nem devia estar a imagem do Senhor para que a cruz fosse sentida como verdadeiro instrumento e sinal de salvação – e sendo alimentados pela eucaristia dos pré-santificados. Neste dia é duma grande beleza e simbologia a longa oração universal, onde, desde tempos imemoriais, se reza por tudo e por todos…até pelos descrentes e ateus.
Segundo alguns costumes, nesta noite de 6.ª feira santa, faz-se a procissão ‘do enterro do Senhor’, termo indevido, pois não levamos ninguém a enterrar e tão pouco a sepultar, antes, pelo silêncio e a meditação – onde a música pode e deve ajudar-nos – caminhamos escutando textos do sepultamento de Jesus. É algo anacrónico que alguém participe na ‘procissão do enterro do Senhor’ se não viveu o resto da liturgia desse dia… Certos folclores precisam de ser purificados e exorcizados, à luz duma formação simples, aceite e crescente…
* Sábado santo: do silêncio à explosão da luz…ressuscitada e ressuscitadora
Num dia sem celebrações litúrgicas, preparamo-nos para a significativa vivência da vigília pascal, que nos coloca diante de quatro grandes dimensões litúrgicas: da luz, da Palavra, batismal e eucarística. Cada uma delas é longa e essencial para a nossa fé cristã. Por isso, a vigília pascal não pode ser feita a correr e talvez seja uma abuso fazer mais do que uma nessa mesma noite.
– na liturgia da luz contemplamos, em forma de oração, o mistério da redenção operada pela ressurreição do Senhor, luz que brilha nas trevas.
– na liturgia da Palavra percorremos os momentos essenciais da história da salvação em ordem à ressurreição do Senhor.
– na liturgia batismal acolhemos novos irmãos e renovamos o nosso batismo.
– na liturgia eucarística damos graças e recebemos o dom do Senhor vivo e ressuscitado para sempre.

 

António Sílvio Couto


terça-feira, 2 de abril de 2019

Pontífice, apontador, apontamento…


No final da ordenação episcopal, no último dia de março, no Porto, D. Américo Aguiar proclamou-se construtor de pontes… isso já desde o tempo da juventude (disse ele, na vertente política), acentuando para o futuro que deseja ser ‘pontífice’ (fazedor de pontes) entre as várias regiões socioculturais do país (Porto-Lisboa) e até na nomenclatura desportiva de rivalidades…

Para quem conheça minimamente o recém-ordenado bispo saberá que é pessoa afável – mesmo na intrincada mescla da comunicação social – e com um sentido de presença da Igreja muito para além das despesas comuns e factuais. Embora não tenha uma idade onde se apensa bastante experiência de vida pastoral, não deixará, certamente, de ser isso mesmo que anunciou tão solenemente: criador de pontes nos campos que enunciou e em tantos outros em que Deus o colocará como presença, instrumento e intérprete.  

* Ser pontífice

Esta nota de criador de pontes costuma ser aduzida ao Papa, a quem comummente se lhe chama ‘sumo pontífice’, elevando à categoria de fazer pontes quem está no (dito) ligar cimeiro da Igreja católica. Embora já usado, na linguagem do mundo, tornou-se no século V da era cristã como que um título dado a bispos notáveis e passou a ser utilizado, especialmente, pelos Papas, depois da rutura entre católicos (Roma) e ortodoxos (Constantinopla) no século IX.

No entanto, a função de fazer pontes sempre foi considerada uma tarefa de grande utilidade humana e cultural, na medida em que era difícil atravessar os rios e as pontes permitiam tal desejo de passar duma para outra margem… Isso ainda é mais valorizado quando se veem a despontar tantos muros entre povos e civilizações, entre culturas e nações…sem esquecer as barreiras psicológicas que os muros arrastam na mentalidade hodierna.

Na linguagem e no comportamentos algo agressivos com que nos temos de confrontar, pretender ser pontífice parece um bom programa de vida, sobretudo para quem terá de estabelecer diálogo com situações onde as boas intenções nem sempre favorecem quem delas se pretenda servidor… 

* Querer ser apontador

Esta outra nota adstrita ao ministério de um bispo – de um padre ou de um leigo – poderá não ser tão desfasada da realidade do que possa parecer, pois ser apontador merecerá ter algo para onde indicar e apresentar meios para tal atingir. Inserido em meios variados, o termo ‘apontador’ poderá ajudar-nos a compreender a missão de alguém que aponta, traça uma diretriz ou que ajuda a fazer caminho numa determinada direção. Ser apontador poderá ainda apresentar ideias correlacionadas ou situações afins, criando nessa função modos de resolver questões, por vezes, um tanto complexas, mas que com ajuda se poderão ultrapassar.

Quem é que não deve ser apontador, na vida, das soluções do Evangelho? Quem não desejará tornar-se apontador de metas e não quedar-se pelas etapas? Quem não descobrirá mais incentivo para caminhar, quando conseguir envolver outros nos projetos?  

* Que apontamento?

Ao longo da nossa vida já tomamos muitos apontamentos, isto é, fomos recolhendo para nossa orientação, instrução e aprendizagem muitos pensamentos, tantas frases e multíplices ideias de outros que connosco tal partilharam, ensinaram ou conviveram. Há apontamentos importantes e notas de rodapé. Há apontamentos que ficam para a vida e outros que esquecemos na voragem dos dias. Há apontamentos quase sagrados porque nos foram ministrados por mestres da sabedoria, da vida e da santidade.

Talvez nos falte o hábito de tomar notas – tirar apontamentos – das coisas simples da vida, mas seria de grande utilidade aprendermos uns com os outros na escola do dia-a-dia, onde o mais pequenos sinal nos possa falar de Deus e os outros possam ser os nossos mestres na interpretação dos mistérios divinos na vida.

Ao novo bispo desejamos que seja pontífice, apontador e apontamento de Cristo em todo o momento… 

 

António Sílvio Couto


sexta-feira, 29 de março de 2019

Ceia-de-natal…em maré-de-páscoa (elegia para um certo nepotismo à portuguesa)


E, se repente, se começassem a escarafunchar as relações familiares entre os membros do governo? Os tentáculos de sangue e os laços sociais de parentesco são muitos, diversos e quase impressionantes…

Mas será tudo isto (e o resto) novidade? Bastará consultar o organigrama da maioria das autarquias – grandes ou pequenas, seja qual for o partido reinante ou tenha o tempo de governança que tiver – para percebermos esta tendência a roçar o nepotismo elevado à potência mais sobrenatural!

Não será para atingir um lugarzito de razoável emprego que muitos (velhos ou novos) se inscrevem nos partidos políticos…que podem aceder ao poder com maior ou menor dificuldade? Não será para proteger os seus que alguns se sacrificam em estarem na vida da política pública? Não será para conquistar protagonismo que uns tantos passam pelo tirocínio de colar cartazes, de figurar em comícios e até serem fiéis ao chefe, seja o geral, o particular ou mesmo o disfarçado de amigo/companheiro/camarada?

É diante deste puzzle de cumplicidades que foram à procura de nomes comuns no atual governo. Assim encontraram muitos apelidos iguais em funções variadas, não disfarçando que um grupo familiar – há quem lhe chame como se fosse ‘uma ceia de natal’ – fiel ao chefe tem tudo e todos na mão, isto é, na obediência às orientações congeminadas, nos antros da reunião de parceiros do mesmo bolo. Costa, Vieira, Marques, Santos, Cabrita, Martins, etc… são apelidos que percorrem vários nomes, num crescendo nas várias remodelações – uma em 2016, quatro em 2017, duas em 2018 e uma em 2019 – fazendo inclusão de mais e mais afetos à mesma linha de rumo e aos vínculos familiares entre si… Por isso, poder-se-á considerar que, atendendo à época pré-pascal, vão sobrevivendo aos conluios em maré-de-páscoa, que, se bem souberem as passagens bíblicas, por lá se incluem traidores, trânsfugas e acobardados…  

= Se olharmos a outros contextos – de governos anteriores e a situações autárquicas conhecidas – quase que somos tentados a reconhecer que nada há de novo sob o ritmo da terra. Outros fizeram idêntico percurso e as coisas foram pagas por todos com o recurso a maus resultados. O pior é que ainda não foi desfeito o novelo de confusões não muito distantes e já estamos a dar os mesmos passos para recebermos os resultados outrora conseguidos…De facto, ainda não aprendemos as lições, algumas delas pagas a peso de grande austeridade – nunca vencida, mas tão-somente dita como aliviada – e com restrições de enorme crise e de contenção de regalias. Mesmo que nos queiram persuadir, que algo vai continuar na senda do (dito) sucesso, vivemos numa bolha artificial, que bastará um pequeno arremedo de instabilidade social, económico-financeira ou mesmo de segurança e tudo desabará como castelo de ilusões…

De verdade faltam-nos critérios de conduta alicerçados nos valores de cidadania, de responsabilidade e na cultura da harmonia entre direitos e deveres. Não será com facilitismos de créditos para serviços secundários que iremos recuperar a credenciação do país, das famílias e das organizações socioeconómicas. Não será com a polarização de benesses para uma parte da população – os cerca de setecentos mil funcionários públicos são pouco mais de 15% dos que estão em vida ativa – sobre os que contribuem com o seu trabalho, os impostos e a criação de riqueza, que iremos ser um país de sucesso, de produtividade e de futuro. Torna-se urgente criar igualdade de direitos e de deveres para todos, particularmente para com os que mais contribuem para que o país não se afunde, nem se faça do miserabilismo uma boa fonte de rendimentos.  

= Agora que quase tudo foi revertido em favor das reivindicações como iremos prosseguir na senda do progresso, se os abutres já sobrevoam sobre os cadáveres?

Desculpando a observação: ninguém é como é, sem razões. Isso mesmo nos faz tentar compreender a Nação que somos: de hospitaleiros e asseados parece que entramos na senda do terceiro-mundismo mais primário, onde as famílias se prolongam no poder, como se tivesse sido restaurada uma tal monarquia republicana.

Portugal merece melhor. O nosso futuro não pode esperar por lições que já deviam ter sido aprendidas. Basta deste incipiente nepotismo…à portuguesa!

 

António Sílvio Couto

quarta-feira, 27 de março de 2019

Censos 2021 – grupos étnicos à descoberta


Está previsto que, em 2021, seja feito um novo recenseamento geral da população em Portugal – o 16.º, desde 1864 – onde, ao que parece por imposição da ONU, deve ser incluída uma pergunta sobre o grupo étnico do inquirido.

Embora essa pregunta não seja obrigatória na maioria dos países europeus – à exceção da Eslovénia, da Itália e do Reino Unido – por cá parece ganhar força a necessidade, conveniência ou interesse em incluí-la no próximo censo à população nacional…se o INE considerar, entretanto, que o tema merece ser anexado aos censos 2021.

A questão – algo complexa – poderá ser formulada de modo a saber-se qual o grupo étnico-racial, podendo apresentar as seguintes variantes para resposta, pretensamente, facultativa: branco, negro, asiático, cigano, misto ou outros.

Quando se pensava que tal abordagem da pertença étnico-racial poderia ser um fator de desestabilidade e de possível foco de racismo, constou que representantes das minorias étnicas – sobretudo de afrodescendentes – consideravam a inclusão desses dados nos censos 2021 como uma forma de serem adotadas medidas de discriminação (dita) positiva, para a introdução de quotas na função pública, nos acessos às universidades e a cargos de funcionalismo público.

À boa maneira de argumentações noutros assuntos mais ou menos tensos (fraturantes, ideológicos e de possível complexidade na sua gestão), quem engendrou o grupo de trabalho sobre o assunto, quis aferir da legalidade da iniciativa sobre a pergunta do grupo étnico e a utilização do assunto em suporte informático, recorrendo ao artigo 35.º da Constituição da República Portuguesa, que refere no n.º 3: «a informática não pode ser utilizada para tratamento de dados referentes a convicções filosóficas ou políticas, filiação partidária ou sindical, fé religiosa, vida privada e origem étnica, salvo mediante consentimento expresso do titular, autorização prevista por lei com garantias de não discriminação ou para processamento de dados estatísticos não individualmente identificáveis». Respaldada nesta interpretação a questão pode ser já abordada nos censos 2021. 

= Independentemente de ser considerado relevante o tema para quem governa, não será algo ofensivo da dignidade humana dividir as pessoas por grupos étnico-raciais? Não será que essa pretensa nivelação antes de igualizar está a dividir? Quando se pretendem combater as razões e os fatores de momentos históricos dramáticos na humanidade, este recurso não cheira a totalitarismo, seja de índole nazi, seja de âmbito dialético-marxista? Iremos voltar a escalonar as raças em categorias, criando clivagens, conflitos e animosidades? Certos grupos, setores ou lóbis raciais, ao concordarem com o método e as técnicas de inquérito, não estarão a favorecer mais os chefes do que os outros fixados, catalogados e, possivelmente, marginalizados?

O pior de tudo isto é ser referido que, quem sopra estas ações de inquérito, são os serviços da ONU, como se este areópago de nações não devesse ser antes o anfitrião da convivência entre todos os humanos, tentando atenuar as divergências e não acirrando as divisões… Sim, porque agrupar as pessoas por raças serve, de forma preferencial, para colocar uns contra os outros, exaltando uns e amesquinhando – quantas vezes de forma subtil e (dita) democrática – tantos outros. Dá a impressão que o exercício do pensamento tem andado arredado dalgumas cabeças ou, então, servem mais as ideologias transnacionais do que os objetivos de humanização de todos os povos, línguas e culturas…seja qual for a raça, a cor da pele ou os trejeitos de penteado!

Sem qualquer prosápia de inovação, mas antes tendo em conta a experiência de séculos de história – mesmo com erros à mistura – o cristianismo tem feito pela igualdade na diferença de todos os povos, culturas, nações, línguas e comportamentos algo que faz olhar para o outro/a mais como pessoa do que enquanto espécimen duma raça, que, com a miscigenação e mobilidade dos tempos atuais, torna estas questões quase ridículas e pouco interessante em discutir…à exceção dos mentores, seguidores e militantes do racismo, xenofobia ou lutas fratricidas de setores populistas, totalitários…de hoje como de ontem.    

 

António Sílvio Couto


segunda-feira, 25 de março de 2019

Libertação pelo perdão…recebido e dado


O perdão é umas das caraterísticas mais destacáveis, de entre as vivências mais peculiares do cristianismo. Perdão recebido de Deus, perdão dado a si mesmo, perdão dado aos outros, perdão (até mesmo) a Deus.
De facto, é uma graça de enorme significado, cada um de nós, poder dizer: pequei. Isto só é possível, exatamente, por graça divina, pois, na nossa condição, meramente, humana, seremos tentados a encontrar desculpas para os nossos erros, mais ou menos significativos e com especial expressão para cada um de nós se sentir na vertente de não-assumir a sua fragilidade nem fragilização, que, afinal, o pecado manifesta, faz assumir e leva a reconhecer. Quanta coisa há e que ganha nova leitura, quando temos a graça de perceber que isso foi e/ou é infidelidade para com Deus.
Partindo das palavras do ‘ato de contrição’, através do qual exprimimos o arrependimento por ocasião da celebração do sacramento da penitência, vamos tentar aprofundar aquilo que dizemos de forma orante:

*‘Meu Deus, pesa-me de todo o coração’
O pecado faz-nos pesados, pondo-nos, por vezes, um ar sombrio e triste, não só de arrependimento mas por tristeza em termos ofendido Deus. Isso mesmo exprimimos, após nos confessarmos, ao dizermos a Deus que nos pesa, contrista, cria em nós a vontade de diz a Deus quanto nos entristece e faz arrepender por tê-lo ofendido com o nosso pecado. É de coração contrito e humilhado – como diz o salmo – que nos aproximamos de Deus e de junto dele partimos ainda mais arrependidos de O termos ofendido, Ele que tanto nos ama e de nós, de tantas formas, recebe ingratidão e ofensas.

* ‘e arrependo-me do mal que pratiquei e do bem que deixei de fazer’
Duas facetas muito concretas de arrependimento: o mal feito e o bem não-praticado. Por vezes, podemos correr o risco de só olhar para o mal feito e esquecermos as faltas/pecados de omissão, isto é, devia fazer e não fiz e isso como que inviabilizou a força da graça divina.

* ‘porque, pelos meus pecados, Vos ofendi a Vós, que sois sumo bem, digno de ser amado sobre todas as coisas’
O sumo bem foi ofendido e não-amado, desde as coisas mais pequenas e simples até às mais complexas e significativas. De quantos modos podemos não-amar a Deus, não O colocando acima de tudo e de todos. Esta vertente de ofensa a Deus precisa de ser cuidada muito mais do que fazemos, pois, ainda vivemos na mistura de Deus com outros pequenos deuses, de que eu sou o mais perigoso…

* ‘Proponho firmemente, com o auxílio da vossa graça, fazer penitência’
Para além da penitência, que me é dada pelo confessor para satisfazer as ofensas a Deus, reconheço, em oração, que quero procurar fazer penitência, descobrindo, por graça divina, como isso há de acontecer na fidelidade a Deus nas pequenas coisas do dia-a-dia. Quero fazê-lo e vivê-lo ‘firmemente’, isto é, sem hesitar nem duvidar das inspirações divinas para viver em atitude de penitência, dominando em mim as seduções do mal.

* ‘não mais tornar a pecar e fugir das ocasiões do pecado’
É ousado este propósito: nunca mais pecar. Não menos importante é o compromisso em fugir das ocasiões do pecado. Com efeito, estas são muito subtis e o mal sabe como me pode tentar e fazer cair. Estamos na linha da sexta e da sétima das petições do Pai-nosso: não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal. Fugir das ocasiões do pecado passa pelos lugares, situações, pessoas… exigindo um conhecimento de nós mesmos e daquilo que nos pode fazer pecar mais.

* ‘Senhor, pelos merecimentos da paixão do nosso Salvador Jesus Cristo, tende compaixão de mim’
Invoco sobre este momento de celebração do sacramento da penitência e reconciliação todos os méritos da paixão de Jesus e que quero, que pelo seu sangue derramado, possa aceitar, viver e proclamar a força da paixão-morte-ressurreição de Jesus, hoje, em mim e para mim.

 

António Sílvio Couto

terça-feira, 19 de março de 2019

Passes-sociais ultracongelados


Pela segunda vez no espaço de poucos meses, o governo veio a terreio falar dos novos passes sociais, que entrarão em vigor, brevemente, nas áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto…embora se acene com a extensão da medida ao restante país.

Segundo dados, entretanto, disponíveis a descida dos passes sociais custaria ao Estado e às autarquias mais de 95 milhões de euros, sendo 65 milhões para a AML, 15 a 20 milhões para AMP e 5 a 10 milhões para o resto do país… num total de 946 mil passageiros.

O custo de cada passe social andará, por cliente, em cerca de quarenta euros, sendo ainda aventada a hipótese de haver um passe-social por família, mas este processo parece ainda com algum atraso na sua prossecução.

Apesar de poder ser uma medida muito popular, talvez não se saiba ainda quais os custos diretos e subsequentes que trarão ao país. Com efeito, nesta maré de benesses a que temos estado a assistir nos tempos mais recentes, algo parece cheirar a populismo (quase) eleitoralista, pois não se sabe totalmente o custo nos anos posteriores à implementação desta medida…tão favorável à população que se desloca em transportes públicos. 

= Sem delongas de outra natureza podemos interpretar que o governo deseja que os cidadãos se transportem em modalidades de serviço ao público, tentando retirar das estradas o mais número possível de carros particulares.

Para além das empresas – muitas delas públicas ou ainda nacionalizadas, de capital autárquico e umas tantas privadas – e dos diferentes meios de transporte – rodoviário, ferroviário ou fluvial – teremos de compreender como serão subsidiados os recursos envolvidos na iniciativa. Com efeito, a coletivização dos transportes é um dos resquícios dos tempos revolucionários de há quatro décadas e, ainda hoje, é um forte setor de intervenção sindicalista na contestação, nas greves e nos prejuízos acumulados. 

= Tendo em conta estes itens mais ou menos favoráveis à redução dos custos dos passes sociais, teremos de estar atentos às linhas ideológicas que fazem mover quem tem conduzido o processo. Nota-se um certo combate àquilo que possa soar a privado, criando a sensação de que o coletivismo possa ser a solução para tantos do problemas das populações. Sabemos por experiência de outros momentos e outras tantas latitudes que a coletivização favorece a manipulação e pode criar, em certas ocasiões, o caldo de recurso a engendrar convulsões sociais mais ou menos questionáveis, se atendermos a outras leituras dos factos e das situações. Como será se o governo mudar, ter-se-á capacidade para continuar a suportar a baixo custo os imbróglios não detetados como era devido? Quem irá reverter uma medida tão populista, se os serviços se forem degradando e tornando obsoletos? Os exemplos de outras épocas ainda não ensinaram a prevenir erros posteriores?

Efetivamente, os passes sociais ultracongelados podem ser de utilidade para ludibriar incautos, mas alguém terá de pagar a fatura senão os mentores, os beneficiários/utilizadores, mas também o resto do país, quando entrarmos em colapso e, novamente, sob resgate estrangeiro…

Pena é que sejam sempre os que produzem riqueza no setor privado – com os impostos e outras alcabalas –que terão de voltar a ser sujeitos ao garrote da austeridade – esse fantasma que nunca nos deixou nos últimos anos – e que voltará muito por culpa de medidas populistas como esta do lançamento dos passes sociais em maré de vacas mais ou menos gordas. Se elas encolherem quem suportará as consequências? Já era tempo de tomarmos juízo com tantas e tão disparatadas decisões, que não preveem o futuro, mas que se situam na orla do manto dos executores do poder…

Haja o mínimo de justiça e o máximo de seriedade!

 

António Sílvio Couto