Partilha de perspectivas... tanto quanto atualizadas.



sexta-feira, 29 de março de 2019

Ceia-de-natal…em maré-de-páscoa (elegia para um certo nepotismo à portuguesa)


E, se repente, se começassem a escarafunchar as relações familiares entre os membros do governo? Os tentáculos de sangue e os laços sociais de parentesco são muitos, diversos e quase impressionantes…

Mas será tudo isto (e o resto) novidade? Bastará consultar o organigrama da maioria das autarquias – grandes ou pequenas, seja qual for o partido reinante ou tenha o tempo de governança que tiver – para percebermos esta tendência a roçar o nepotismo elevado à potência mais sobrenatural!

Não será para atingir um lugarzito de razoável emprego que muitos (velhos ou novos) se inscrevem nos partidos políticos…que podem aceder ao poder com maior ou menor dificuldade? Não será para proteger os seus que alguns se sacrificam em estarem na vida da política pública? Não será para conquistar protagonismo que uns tantos passam pelo tirocínio de colar cartazes, de figurar em comícios e até serem fiéis ao chefe, seja o geral, o particular ou mesmo o disfarçado de amigo/companheiro/camarada?

É diante deste puzzle de cumplicidades que foram à procura de nomes comuns no atual governo. Assim encontraram muitos apelidos iguais em funções variadas, não disfarçando que um grupo familiar – há quem lhe chame como se fosse ‘uma ceia de natal’ – fiel ao chefe tem tudo e todos na mão, isto é, na obediência às orientações congeminadas, nos antros da reunião de parceiros do mesmo bolo. Costa, Vieira, Marques, Santos, Cabrita, Martins, etc… são apelidos que percorrem vários nomes, num crescendo nas várias remodelações – uma em 2016, quatro em 2017, duas em 2018 e uma em 2019 – fazendo inclusão de mais e mais afetos à mesma linha de rumo e aos vínculos familiares entre si… Por isso, poder-se-á considerar que, atendendo à época pré-pascal, vão sobrevivendo aos conluios em maré-de-páscoa, que, se bem souberem as passagens bíblicas, por lá se incluem traidores, trânsfugas e acobardados…  

= Se olharmos a outros contextos – de governos anteriores e a situações autárquicas conhecidas – quase que somos tentados a reconhecer que nada há de novo sob o ritmo da terra. Outros fizeram idêntico percurso e as coisas foram pagas por todos com o recurso a maus resultados. O pior é que ainda não foi desfeito o novelo de confusões não muito distantes e já estamos a dar os mesmos passos para recebermos os resultados outrora conseguidos…De facto, ainda não aprendemos as lições, algumas delas pagas a peso de grande austeridade – nunca vencida, mas tão-somente dita como aliviada – e com restrições de enorme crise e de contenção de regalias. Mesmo que nos queiram persuadir, que algo vai continuar na senda do (dito) sucesso, vivemos numa bolha artificial, que bastará um pequeno arremedo de instabilidade social, económico-financeira ou mesmo de segurança e tudo desabará como castelo de ilusões…

De verdade faltam-nos critérios de conduta alicerçados nos valores de cidadania, de responsabilidade e na cultura da harmonia entre direitos e deveres. Não será com facilitismos de créditos para serviços secundários que iremos recuperar a credenciação do país, das famílias e das organizações socioeconómicas. Não será com a polarização de benesses para uma parte da população – os cerca de setecentos mil funcionários públicos são pouco mais de 15% dos que estão em vida ativa – sobre os que contribuem com o seu trabalho, os impostos e a criação de riqueza, que iremos ser um país de sucesso, de produtividade e de futuro. Torna-se urgente criar igualdade de direitos e de deveres para todos, particularmente para com os que mais contribuem para que o país não se afunde, nem se faça do miserabilismo uma boa fonte de rendimentos.  

= Agora que quase tudo foi revertido em favor das reivindicações como iremos prosseguir na senda do progresso, se os abutres já sobrevoam sobre os cadáveres?

Desculpando a observação: ninguém é como é, sem razões. Isso mesmo nos faz tentar compreender a Nação que somos: de hospitaleiros e asseados parece que entramos na senda do terceiro-mundismo mais primário, onde as famílias se prolongam no poder, como se tivesse sido restaurada uma tal monarquia republicana.

Portugal merece melhor. O nosso futuro não pode esperar por lições que já deviam ter sido aprendidas. Basta deste incipiente nepotismo…à portuguesa!

 

António Sílvio Couto

quarta-feira, 27 de março de 2019

Censos 2021 – grupos étnicos à descoberta


Está previsto que, em 2021, seja feito um novo recenseamento geral da população em Portugal – o 16.º, desde 1864 – onde, ao que parece por imposição da ONU, deve ser incluída uma pergunta sobre o grupo étnico do inquirido.

Embora essa pregunta não seja obrigatória na maioria dos países europeus – à exceção da Eslovénia, da Itália e do Reino Unido – por cá parece ganhar força a necessidade, conveniência ou interesse em incluí-la no próximo censo à população nacional…se o INE considerar, entretanto, que o tema merece ser anexado aos censos 2021.

A questão – algo complexa – poderá ser formulada de modo a saber-se qual o grupo étnico-racial, podendo apresentar as seguintes variantes para resposta, pretensamente, facultativa: branco, negro, asiático, cigano, misto ou outros.

Quando se pensava que tal abordagem da pertença étnico-racial poderia ser um fator de desestabilidade e de possível foco de racismo, constou que representantes das minorias étnicas – sobretudo de afrodescendentes – consideravam a inclusão desses dados nos censos 2021 como uma forma de serem adotadas medidas de discriminação (dita) positiva, para a introdução de quotas na função pública, nos acessos às universidades e a cargos de funcionalismo público.

À boa maneira de argumentações noutros assuntos mais ou menos tensos (fraturantes, ideológicos e de possível complexidade na sua gestão), quem engendrou o grupo de trabalho sobre o assunto, quis aferir da legalidade da iniciativa sobre a pergunta do grupo étnico e a utilização do assunto em suporte informático, recorrendo ao artigo 35.º da Constituição da República Portuguesa, que refere no n.º 3: «a informática não pode ser utilizada para tratamento de dados referentes a convicções filosóficas ou políticas, filiação partidária ou sindical, fé religiosa, vida privada e origem étnica, salvo mediante consentimento expresso do titular, autorização prevista por lei com garantias de não discriminação ou para processamento de dados estatísticos não individualmente identificáveis». Respaldada nesta interpretação a questão pode ser já abordada nos censos 2021. 

= Independentemente de ser considerado relevante o tema para quem governa, não será algo ofensivo da dignidade humana dividir as pessoas por grupos étnico-raciais? Não será que essa pretensa nivelação antes de igualizar está a dividir? Quando se pretendem combater as razões e os fatores de momentos históricos dramáticos na humanidade, este recurso não cheira a totalitarismo, seja de índole nazi, seja de âmbito dialético-marxista? Iremos voltar a escalonar as raças em categorias, criando clivagens, conflitos e animosidades? Certos grupos, setores ou lóbis raciais, ao concordarem com o método e as técnicas de inquérito, não estarão a favorecer mais os chefes do que os outros fixados, catalogados e, possivelmente, marginalizados?

O pior de tudo isto é ser referido que, quem sopra estas ações de inquérito, são os serviços da ONU, como se este areópago de nações não devesse ser antes o anfitrião da convivência entre todos os humanos, tentando atenuar as divergências e não acirrando as divisões… Sim, porque agrupar as pessoas por raças serve, de forma preferencial, para colocar uns contra os outros, exaltando uns e amesquinhando – quantas vezes de forma subtil e (dita) democrática – tantos outros. Dá a impressão que o exercício do pensamento tem andado arredado dalgumas cabeças ou, então, servem mais as ideologias transnacionais do que os objetivos de humanização de todos os povos, línguas e culturas…seja qual for a raça, a cor da pele ou os trejeitos de penteado!

Sem qualquer prosápia de inovação, mas antes tendo em conta a experiência de séculos de história – mesmo com erros à mistura – o cristianismo tem feito pela igualdade na diferença de todos os povos, culturas, nações, línguas e comportamentos algo que faz olhar para o outro/a mais como pessoa do que enquanto espécimen duma raça, que, com a miscigenação e mobilidade dos tempos atuais, torna estas questões quase ridículas e pouco interessante em discutir…à exceção dos mentores, seguidores e militantes do racismo, xenofobia ou lutas fratricidas de setores populistas, totalitários…de hoje como de ontem.    

 

António Sílvio Couto


segunda-feira, 25 de março de 2019

Libertação pelo perdão…recebido e dado


O perdão é umas das caraterísticas mais destacáveis, de entre as vivências mais peculiares do cristianismo. Perdão recebido de Deus, perdão dado a si mesmo, perdão dado aos outros, perdão (até mesmo) a Deus.
De facto, é uma graça de enorme significado, cada um de nós, poder dizer: pequei. Isto só é possível, exatamente, por graça divina, pois, na nossa condição, meramente, humana, seremos tentados a encontrar desculpas para os nossos erros, mais ou menos significativos e com especial expressão para cada um de nós se sentir na vertente de não-assumir a sua fragilidade nem fragilização, que, afinal, o pecado manifesta, faz assumir e leva a reconhecer. Quanta coisa há e que ganha nova leitura, quando temos a graça de perceber que isso foi e/ou é infidelidade para com Deus.
Partindo das palavras do ‘ato de contrição’, através do qual exprimimos o arrependimento por ocasião da celebração do sacramento da penitência, vamos tentar aprofundar aquilo que dizemos de forma orante:

*‘Meu Deus, pesa-me de todo o coração’
O pecado faz-nos pesados, pondo-nos, por vezes, um ar sombrio e triste, não só de arrependimento mas por tristeza em termos ofendido Deus. Isso mesmo exprimimos, após nos confessarmos, ao dizermos a Deus que nos pesa, contrista, cria em nós a vontade de diz a Deus quanto nos entristece e faz arrepender por tê-lo ofendido com o nosso pecado. É de coração contrito e humilhado – como diz o salmo – que nos aproximamos de Deus e de junto dele partimos ainda mais arrependidos de O termos ofendido, Ele que tanto nos ama e de nós, de tantas formas, recebe ingratidão e ofensas.

* ‘e arrependo-me do mal que pratiquei e do bem que deixei de fazer’
Duas facetas muito concretas de arrependimento: o mal feito e o bem não-praticado. Por vezes, podemos correr o risco de só olhar para o mal feito e esquecermos as faltas/pecados de omissão, isto é, devia fazer e não fiz e isso como que inviabilizou a força da graça divina.

* ‘porque, pelos meus pecados, Vos ofendi a Vós, que sois sumo bem, digno de ser amado sobre todas as coisas’
O sumo bem foi ofendido e não-amado, desde as coisas mais pequenas e simples até às mais complexas e significativas. De quantos modos podemos não-amar a Deus, não O colocando acima de tudo e de todos. Esta vertente de ofensa a Deus precisa de ser cuidada muito mais do que fazemos, pois, ainda vivemos na mistura de Deus com outros pequenos deuses, de que eu sou o mais perigoso…

* ‘Proponho firmemente, com o auxílio da vossa graça, fazer penitência’
Para além da penitência, que me é dada pelo confessor para satisfazer as ofensas a Deus, reconheço, em oração, que quero procurar fazer penitência, descobrindo, por graça divina, como isso há de acontecer na fidelidade a Deus nas pequenas coisas do dia-a-dia. Quero fazê-lo e vivê-lo ‘firmemente’, isto é, sem hesitar nem duvidar das inspirações divinas para viver em atitude de penitência, dominando em mim as seduções do mal.

* ‘não mais tornar a pecar e fugir das ocasiões do pecado’
É ousado este propósito: nunca mais pecar. Não menos importante é o compromisso em fugir das ocasiões do pecado. Com efeito, estas são muito subtis e o mal sabe como me pode tentar e fazer cair. Estamos na linha da sexta e da sétima das petições do Pai-nosso: não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal. Fugir das ocasiões do pecado passa pelos lugares, situações, pessoas… exigindo um conhecimento de nós mesmos e daquilo que nos pode fazer pecar mais.

* ‘Senhor, pelos merecimentos da paixão do nosso Salvador Jesus Cristo, tende compaixão de mim’
Invoco sobre este momento de celebração do sacramento da penitência e reconciliação todos os méritos da paixão de Jesus e que quero, que pelo seu sangue derramado, possa aceitar, viver e proclamar a força da paixão-morte-ressurreição de Jesus, hoje, em mim e para mim.

 

António Sílvio Couto

terça-feira, 19 de março de 2019

Passes-sociais ultracongelados


Pela segunda vez no espaço de poucos meses, o governo veio a terreio falar dos novos passes sociais, que entrarão em vigor, brevemente, nas áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto…embora se acene com a extensão da medida ao restante país.

Segundo dados, entretanto, disponíveis a descida dos passes sociais custaria ao Estado e às autarquias mais de 95 milhões de euros, sendo 65 milhões para a AML, 15 a 20 milhões para AMP e 5 a 10 milhões para o resto do país… num total de 946 mil passageiros.

O custo de cada passe social andará, por cliente, em cerca de quarenta euros, sendo ainda aventada a hipótese de haver um passe-social por família, mas este processo parece ainda com algum atraso na sua prossecução.

Apesar de poder ser uma medida muito popular, talvez não se saiba ainda quais os custos diretos e subsequentes que trarão ao país. Com efeito, nesta maré de benesses a que temos estado a assistir nos tempos mais recentes, algo parece cheirar a populismo (quase) eleitoralista, pois não se sabe totalmente o custo nos anos posteriores à implementação desta medida…tão favorável à população que se desloca em transportes públicos. 

= Sem delongas de outra natureza podemos interpretar que o governo deseja que os cidadãos se transportem em modalidades de serviço ao público, tentando retirar das estradas o mais número possível de carros particulares.

Para além das empresas – muitas delas públicas ou ainda nacionalizadas, de capital autárquico e umas tantas privadas – e dos diferentes meios de transporte – rodoviário, ferroviário ou fluvial – teremos de compreender como serão subsidiados os recursos envolvidos na iniciativa. Com efeito, a coletivização dos transportes é um dos resquícios dos tempos revolucionários de há quatro décadas e, ainda hoje, é um forte setor de intervenção sindicalista na contestação, nas greves e nos prejuízos acumulados. 

= Tendo em conta estes itens mais ou menos favoráveis à redução dos custos dos passes sociais, teremos de estar atentos às linhas ideológicas que fazem mover quem tem conduzido o processo. Nota-se um certo combate àquilo que possa soar a privado, criando a sensação de que o coletivismo possa ser a solução para tantos do problemas das populações. Sabemos por experiência de outros momentos e outras tantas latitudes que a coletivização favorece a manipulação e pode criar, em certas ocasiões, o caldo de recurso a engendrar convulsões sociais mais ou menos questionáveis, se atendermos a outras leituras dos factos e das situações. Como será se o governo mudar, ter-se-á capacidade para continuar a suportar a baixo custo os imbróglios não detetados como era devido? Quem irá reverter uma medida tão populista, se os serviços se forem degradando e tornando obsoletos? Os exemplos de outras épocas ainda não ensinaram a prevenir erros posteriores?

Efetivamente, os passes sociais ultracongelados podem ser de utilidade para ludibriar incautos, mas alguém terá de pagar a fatura senão os mentores, os beneficiários/utilizadores, mas também o resto do país, quando entrarmos em colapso e, novamente, sob resgate estrangeiro…

Pena é que sejam sempre os que produzem riqueza no setor privado – com os impostos e outras alcabalas –que terão de voltar a ser sujeitos ao garrote da austeridade – esse fantasma que nunca nos deixou nos últimos anos – e que voltará muito por culpa de medidas populistas como esta do lançamento dos passes sociais em maré de vacas mais ou menos gordas. Se elas encolherem quem suportará as consequências? Já era tempo de tomarmos juízo com tantas e tão disparatadas decisões, que não preveem o futuro, mas que se situam na orla do manto dos executores do poder…

Haja o mínimo de justiça e o máximo de seriedade!

 

António Sílvio Couto

domingo, 17 de março de 2019

Programas televisivos de ‘mercadoria humana’


Duma forma atroz e algo sintomática alguns dos canais televisivos – agora em sistema aberto e já antes em meio codificado – têm vindo a colocar nos écrans programas que exploram – como disseram já alguns críticos da arte – a ‘mercadoria humana’, isto é, colocam as pessoas em estado de exposição a situações um tanto complicadas, numa concorrência sem respeito pelos valores humanos mais básicos e explorando falhas, erros e tudo o resto com que possam vencer ou convencer…

Embora se aduza que tais programas são reprodução, por cá, de formatos internacionais, isso não dá o direito de colocar no ar toda a espécie de enlatado de mau gosto e de questionável qualidade. Será de perguntar: por onde anda a capacidade de invenção, de inovação e de criação dos nossos bem pagos programadores televisivos…muitos eles saltitando de canal em canal à procura de melhor preço e de maior escândalo? A quem interessa nivelar pelos pés o entretenimento do nosso país e, sobretudo, a cultura? Somos todos tão mentecaptos que precisamos de ir ao baú dos estereótipos mais execráveis para mantermos a dar lucro os canais televisivos? O recurso ao ruralismo – num dos programas surgem uns tantos a fazer de agricultores limpinhos de terra e de trabalho – quererá pôr a descoberto uma falsa sociedade, dita urbana? Os casamentos arranjados não trarão à memória raízes de má recordação e do pior comportamento?

Não deixa de ser sintomática a coincidência com o início de exibição destes programas: por ocasião do festejado ‘dia da mulher’! 

= De facto, a pessoa humana está tornar-se mercadoria no mais ridículo sentido do termo, pois, por uns poucos euros, as pessoas se deixam colocar à venda, por uns minutos de exposição pública permitem que percam a sua qualidade de resguardo de vida, por uns passos de (pretensa) mágica se deixam fascinar sem possibilidade de retorno…

Há claramente um programa encoberto para tornar, cada vez mais, as pessoas irreflexivas. Bastará ver como reagem os executores de tais programas, questionando a opinião da discordância. Com que facilidade se colam rótulos a quem não se deixa convencer com tais produtos. Com que agressividade saltam em defesa das suas tropelias – mesmo contradizendo a (dita) liberdade de expressão e os tais direitos constitucionais, que valem para tudo e o seu contrário – os denunciados e manipuladores. Com que artimanhas se unem os que defendem, por exemplo, a ideologia de género ou mesmo certos grupos (pretensamente) feministas e afins… Estamos no melhor da confusão e convulsão coletiva! 

O diapasão pelo qual afinam tais programas fazem acreditar que os mentores de tudo isto – o que se vê e tanta outra coisa subterrânea – leem pela mesma cartilha e instruem-se no mesmo devocionário: tirar às pessoas o que as faz levantar-se, fazendo chafurdar naquilo que manipula, avilta e condiciona. Os valores expostos são mais de índole materialista do que afloram algo que tenha a ver com questões de natureza espiritual. Muito do que faz correr aqueles participantes – não serão antes concorrentes pagos e instrumentalizados? – mede-se mais pela possível conta a auferir do que pela resolução dos problemas abordados, de forma, por vezes, superficial, ignorante e sem nexo. 

= Se atendermos ao guião destes como de outros programas televisivos poderemos encontrar linhas idênticas: a sexualidade/genitalidade, o relacionamento/compromisso entre as pessoas e outros adereços de algum escândalo que possam ser introduzidos a propósito. Haverá assim tanta diferença, na forma, entre estes programas televisivos e o asqueroso mercado de escravos? Poderá parecer mera coincidência do estilo destes programas com algumas feiras de gado? Será que toda a gente se vende, dependendo do valor da mercadoria, do preço e das mais-valias que gera? Tudo pode ser posto em causa, desde que se tenha lucro com isso?

Poderemos fazer pouco contra tais programas, mas podemos tomar posição boicotando os patrocinadores publicitários, evitando comprar os produtos e denunciando as ofensas à pessoa humana, sobretudo quando está em maré de fragilidade…emocional, psicológica e afetiva.

Porque não quero ser conivente com o silêncio cúmplice, deixo esta reflexão, que me fará ainda mais estar atento à exploração a que submetem tantos dos nossos contemporâneos iludidos, manipulados e ofendidos.

 

António Sílvio Couto

sexta-feira, 15 de março de 2019

Não sou hipócrita!



Com alguma regularidade vemos surgirem nas declarações públicas e publicadas afirmações de pessoas sobre a sua auto-idoneidade, deixando transparecer uma espécie de juízo moral sobre si mesmos e, por vezes de forma indireta, sobre os outros.

Quem não ouviu já pessoas a defenderem que são muito frontais nas suas posições, mas, de facto, quando consta de falar nas costas tornam-se bons exemplos e cuidados promotores! Quem não ouviu pessoas a clamarem pela (sua) conjugação da verdade, mas que facilmente são apanhadas nas teias da mentira, senão a ostensiva, ao menos na tácita e mais ou menos subtil! Quem não terá já visto e escutado pessoas a apresentarem-se como pretensamente iguais para todos e com todos, mas que sem rede são apanhadas a ‘venderem-se’ por favores dados e recebidos!

Talvez psicologicamente possamos enquadrar tais situações e episódios na área da incongruência, onde aquilo que se diz servirá como de cortina de fumo para esconder o que não se é, de verdade. Pior ainda quando alguém reafirma isso com que se apresenta e o faz de forma repetida ou ainda como recurso de autoafirmação.  

= Aquela expressão supra citada – ‘não sou hipócrita’ – dá-nos como que um paradigma para tentarmos entender tanto daquilo vivemos como do que daquilo com que somos confrontados na vida quotidiana. Com efeito, o conceito de ‘hipocrisia’ envolve algo de desconjunção entre o que se é e aquilo que se quer dar entender pela imagem apresentada. Segundo um autor francês, do século XVII, ‘a hipocrisia é uma homenagem que o vício presta à virtude’, significando que o hipócrita finge que é aquilo que não é, camuflando comportamentos incorretos sob a capa de algo virtuoso, mas que, de verdade, não o é.

Na nossa cultura do narcisismo em que nos – uma boa parte – vamos desenvolvendo poderemos encontrar no espelho algo que poderia bem tipificar muitos dos nossos laivos de hipocrisia com que vamos entretendo e iludindo os outros. Com efeito, o espelho – recorde-se a influência no narciso mítico – podemos enganar muito mais do que pensamos na medida em que cada um vê, aceita ou exalta o que mais o favorece, mesmo que possa ser real mentira. 

= A expressão citada – ‘não sou hipócrita’ – é tirada das repetidas declarações dum treinador de futebol e enquadram-se na vontade que ele manifesta em pretender ser ele mesmo, sobretudo nas horas da derrota. Aí sobe-lhe a azia ao nariz e vocifera contra tudo e contra todos, deixando cair a máscara da sua não-hipocrisia. Também originalmente ‘hipocrisia’ tinha a ver com a máscara colocada para interpretar, por parte dos atores, os diversos papeis a que eram solicitados. Ninguém duvida que o senhor fique aborrecido com as derrotas, mas não tem de desmascarar-se diante de todos, mesmo daqueles que nada têm a ver com a sua forma rude de reagir às contrariedades…

Sabendo que muito daquilo que acontece no futebol é mais emocional do que racional, torna-se fundamental não misturar o agir com o ser, isto é, o que se faz revela o que somos, mas nós somos muito mais do aquele modo como agimos e reagimos. Embora no palco do jogo muitos atuem com lealdade, não podemos entregar a condução deste mundo aos que só têm educação (mínima) quando ganham… e são vitoriosos.  

= Porque corremos o risco de viver nalguma das facetas de hipocrisia, será muito útil aproveitar este tempo da quaresma para deixarmos denunciar em nós mesmos tantos desses tiques de hipocrisia, aceitando-me como quem falha e sentindo-me necessitado de arrependimento, de conversão e de perdão.

Eis palavras da Sagrada Escritura: «Ai de vós mestres da lei e fariseus, hipócritas! Vós sois como sepulcros caiados: bonitos por fora, mas por dentro estão cheios de ossos e de todo tipo de imundície. Assim sois vós: por fora pareceis justos ao povo, mas por dentro estais cheios de hipocrisia e maldade» (Mt 23,27-28).
Que há ou pode haver em mim de hipocrisia não aceite nem assumida? A imagem que tento fazer passar é a verdade daquilo que sou e vivo? Até onde irá a minha hipocrisia, fugindo de viver na Verdade?     

 

António Sílvio Couto


quarta-feira, 13 de março de 2019

Falar de violência não gerará mais violência?


Algo se está a passar de muito grave na nossa sociedade. Algo aflitivamente complexo está a minar as relações entre as pessoas. Algo demasiado contundente para ser reduzido à frieza dos números de vítimas, à capturar dos réus e, sobretudo, para estarmos reféns dum ambiente atrozmente doentio.

Falamos da apelidada ‘violência doméstica’, naquilo que tem de visível, de noticiado e mesmo de explorado com cores excessivamente funestas. Será que, de repente, os casados passaram todos a estar desavindos e à pancada entre si? Será que as discussões se tornaram mortíferas e criminosas sem olhar a quem e em qualquer espaço? Será que, anteriormente, as coisas se passavam mais em surdina e pela calada do silêncio cúmplice e amordaçado? Este ‘boom’ de casos e de mortes não terá algo mais profundo a dever ser refletido por todos? Até que ponto é que a divulgação, a normalização das situações e mesmo a exploração dos dramas não é comandada por um guião que deseja, sobretudo, desacreditar a família e tudo o que ela representa ainda? Não será que algo descontrolou as reações das pessoas, tanto das propensas à agressividade como às outras sujeitadas à influência nefasta do ambiente em que nos vamos desenvolvendo?

Muitas outras questões poderiam ser levantadas, atendendo aos objetivos com que podemos e devemos analisar esta onda de violência manifestada no contexto familiar, tanto o dito normal como qualquer outro em que as pessoas se relacionam entre si.

Ninguém está fora das causas e tão pouco das consequências da dita ‘violência doméstica’: aquelas são multíplices e estas ainda não foram totalmente diagnosticadas. Com efeito, como será o comportamento de futuros adultos que viveram num quadro explícito ou tácito de violência entre pais? Como será a reação dos agora mais novos quando tiverem de criar laços com outros: não serão desconfiados e temerosos à mistura com sinais de agressividade latente e prestes a ser despoletada? De facto, a violência é uma espécie de granada ofensiva a quem já tiraram a espoleta e que poderá explodir ao mínimo contacto com outros e em idêntico panorama psicológico, social e cultural…  

= Perante o clima de agressividade com que temos de saber estar, viver e conviver, torna-se essencial – dizemo-lo duma visão cristã da vida, dos valores e da família – lançar sugestões sobre o modo como será desejável que tudo isto com que fomos confrontados diariamente possa encontrar pistas para se modificar. Desde logo é fundamental colocar Deus nestas convulsões. Sobretudo se atendermos à sua ausência compreender-se-á que falta respeito das pessoas entre si. O outro/a pode ser visto mais como adversário, concorrente ou até inimigo e, por isso, algo – quando deveria ser ‘alguém’ – a abater, senão física ao menos psicologicamente. Quem ousará fazer frente a quem não respeita o semelhante? Este, com facilidade, pode tornar-se obstáculo às pretensões e, por isso, será derrubado, dependendo das armas que possam usar e dos fins a atingir, sem olhar a meios.

Aquilo que antes era exceção, agora tornou-se regra, fazendo com que as pessoas se vão materializando e coisificando. Deus não norteia nem condiciona os comportamentos, mas poderá guiá-los e ser o sujeito que nos faz respeitar para ser igualmente respeitado. A exclusão de Deus da consciência e da vida de tantos dos os contemporâneos não explica, mas pode responder, à amoralidade com que se conduzem e mesmo vivem. Já nos dizia, de forma confrangida o Papa Bento XVI: ‘o pior do nosso tempo é as pessoas viverem como se Deus existisse’ e acrescentamos: fazendo de conta que não precisam d’Ele nunca!  

= Tendo como ponto de referência a teologia da casa na cultura judaica – infelizmente nem sempre seguida e vivida na dimensão cristã – será muito importante que façamos da casa de família esse espaço sagrado de convivência, de fraternidade e de comunhão, coisa que as notícias da dita ‘violência doméstica’ contradizem e denunciam. Como é importante sentir a casa como esse santuário da vida em família, como ‘igreja doméstica’ e ainda como o melhor lugar para aprender, viver e testemunhar o respeito entre todos – cônjuges, pais e filhos, irmãos e demais família – numa aprendizagem desde a mais tenra idade e até aos momentos últimos da vida terrena. Para quem tem boas experiências disso será de desenvolver novas oportunidades. Do resto, precisamos de emendar o vivido e modificar o que vamos vivendo…        

 

António Sílvio Couto