Partilha de perspectivas... tanto quanto atualizadas.



quinta-feira, 7 de março de 2019

Em dinâmica de Quaresma


Na mensagem para a quaresma deste ano, o Papa Francisco resume, duma forma clara, sucinta e incisiva como devemos viver, de forma renovada, as três dimensões centrais deste tempo favorável de graça pessoal, familiar e eclesial:

«A Quaresma é sinal sacramental da conversão. Ela chama os cristãos a encarnarem, de forma mais intensa e concreta, o mistério pascal na sua vida pessoal, familiar e social, particularmente através do jejum, da oração e da esmola.
Jejuar, isto é, aprender a modificar a nossa atitude para com os outros e as criaturas: passar da tentação de «devorar» tudo para satisfazer a nossa voracidade, à capacidade de sofrer por amor, que pode preencher o vazio do nosso coração. Orar, para saber renunciar à idolatria e à autossuficiência do nosso eu, e nos declararmos necessitados do Senhor e da sua misericórdia. Dar esmola, para sair da insensatez de viver e acumular tudo para nós mesmos, com a ilusão de assegurarmos um futuro que não nos pertence. E, assim, reencontrar a alegria do projeto que Deus colocou na criação e no nosso coração: o projeto de amá-Lo a Ele, aos nossos irmãos e ao mundo inteiro, encontrando neste amor a verdadeira felicidade
». 

Embora cada um de nós possa deixar-se dinamizar por aspetos mais ou menos pessoais ou individuais, encontramos nas linhas da mensagem papal ideias-força que devem colocar-nos numa vivência referencial com os desafios de toda a Igreja e na Igreja toda.

De facto, não deixa de se revelador desse centralismo narcisista reinante que, hoje, o jejum seja um tanto visto como algo condicionador da nossa liberdade para fazer o que nos apetece, mas, por outro lado, se cumpram programas de emagrecimento, desde que isso possa vir a repercutir-se na boa figura, na pretensa imagem e na razoável impressão que se dá através da dimensão do corpo. Á subtileza da abundância como que contrapomos a ditadura da esbelteza, como se esta fosse uma nova dose de viver das aparências e de possamos contentar-nos com o que outros dizem de nós nas redes sociais.

Pelo contrário, o jejum é (ou deve ser) uma aprendizagem sobre o domínio a que devemos submeter a nossa condição de comunhão com quem não tem o suficiente para comer e, em sintonia com esses, tentar viver a minha privação de alimento – ou de algo que nos possa fazer viver dependente – para sentir por algum tempo o que para outros é condição permanente…de privação não-escolhida, embora aceite.

Na oração encontramos o alimento da nossa vida cristã, seja qual for o compromisso vocacional ou de consciência em Igreja. Com efeito, enraizada na Palavra de Deus, a oração é uma necessidade e não uma obrigação religiosa e nem os ritos tradicionais – como a via-sacra, as procissões penitenciais ou dos Passos – podem fazer-nos condicionamento, mas antes poderão ser sinais para acertarmos a nossa vivência com a imensa multidão de outros que se exercitam em tempo quaresmal como nós. Se há tempo espiritual que deve viver ritmado pela misericórdia é a quaresma, tanto a divina como a humana. Na sua mensagem o Papa traçava as etapas desta vivência: arrependimento-conversão-perdão… recebido e dado.

Neste ano litúrgico do ‘ciclo C’, tendo por base o evangelho segundo São Lucas, talvez possa ser útil acertarmos um programa de leitura diária da Palavra de Deus com base neste evangelista.

Por último, encontramos a vertente da esmola, que, no contexto quaresmal, se reveste de uma outra tonalidade: a renúncia quaresmal. Se devemos estar sempre atentos às necessidades dos outros e com eles partilharmos não meramente o que nos sobra, mas o que lhes faz falta, tanto mais na Quaresma devemos atender aos desafios que a nossa diocese nos apresenta para sabermos partilhar com quem possa precisar da nossa ajuda organizada, simples, e por vezes, anónima, mas comunitária.

Talvez não seja exagerado seguirmos o que, na sua sábia condução, a Igreja nos propõe: um dia de salário para a nossa renúncia quaresmal. À semelhança do espírito que enforma a vivência do jejum, assim através da renúncia quaresmal devemos facultar aos outros aquilo que nos foi concedido como dom ou bênção nas coisas materiais: a experiência do desapego dos ‘nossos’ bens poderá atenuar as necessidades do essencial para outros, que podemos nem conhecer.

Jejum, oração e esmola: três pilares da caminhada da Quaresma. Que sejamos assim dinamizados, este ano.

 

António Sílvio Couto


terça-feira, 5 de março de 2019

Rideo te ou rideo tibi? (rio-me de ti ou rio-me para ti)


São daquelas expressões que nos ficam após esquecermos tudo – chamam a isto ‘cultura’, o que fica depois de se esquecer tudo! – as que fazem título desta despretensiosa reflexão.

‘Rideo te’ – rio-me de ti; ‘rideo tibi’ – rio-me para ti…fazendo a diferença entre um riso jocoso ou sarcástico e um outro conotado com alguma simpatia e/ou boa disposição.

De facto, o contexto de carnaval pode configurar uma das duas interpretações: rio-me daquilo que fazes de ridículo e com isso te ridicularizo ou exprimo a minha concordância, aceitando as coisas que me fazem rir contigo.

Muito daquilo que vemos, vivemos e sentimos na maré do carnaval pode entrar no anedótico nacional ou pode, quando menos bem entendido, gerar anedotas que, sendo pessoas, se podem tornar algo do agravado…sobretudo se se entrar na (pretensa) máquina daquilo que faz a onda da maledicência e até da malquerença. 

= Diz a voz do povo e com razão: mais vale cair em graça do que querer ser engraçado. Este tem uma duração mínima, enquanto aquele pode flutuar por sobre tropelias e possíveis menos boas intenções, entendimentos e prestações.

Ora, na cotação dos assuntos ditos de âmbito social, podemos encontrar quem pode dizer tudo e o resto quase ofensivo, que lhe acham graça, os aplaudem e como que fazem moda, enquanto a outros pouco mais bastará do um suspiro desajeitado, uma intervenção infeliz ou mesmo inoportuna para lhe caírem em cima todos e os demais, condenando, vituperando e ofendendo sem apelo nem agravo.

É isto que tem vindo a acontecer na nossa configuração sociopolítica, onde há governantes que se prestam para programas de ridículo, de jocoso e de entretenimento barato e não caem em ridicularização; onde uns tais se prestam para selfies e afins e são tidos como populares, embora teçam meças ao mais rasca populismo; onde outros mais se vão travestindo de figuras à medida daquilo que a populaça admira e por aí medem as sondagens que julgam ter; onde (várias, dispersas e, quando se percebe, conjugadas) forças subterrâneas da ideologia de género combatem e manipulam sem apelo nem vergonha factos, situações e suposições, enquanto os consumidores de notícias não conseguem distinguir entre a verdade e a mentira, servindo mais esta e atropelando aquela…  

= Contrariamente ao que se diz: ‘no carnaval ninguém leva a mal’, considero que há questões – na sua maioria do âmbito do bom senso e da mera civilidade – que não podem entrar nesta espécie de forrobodó com que são tratados alguns problemas, desde os mais simples até aos mais significativos da nossa conduta social e cultural…coletivas. Num tempo ávido de escândalos e de casos de fora-da-normalidade, será de todo inexplicável que haja governantes a aproveitarem-se do lugar que ocupam para querem amedrontar quem deles discorda, abusando das informações privilegiadas que possuem e da ascendência sobre dados não-disponíveis para outros. Agora que já estamos em campanhas para votações torna-se desonesto e antidemocrático tudo isso com que certos tiques de sarcasmo percorrem vários comportamentos…

Pior de que tudo isto esteja a acontecer é a conivência com que certa comunicação social cala os abusos e vai camuflando as tentativas de compra dos seus silêncios, no mínimo, cúmplices.

Dá ainda a impressão que, em determinadas situações, os intervenientes já perderam a compostura que se exige a quem está na vida pública, criando-se a sensação de que a desvergonha passou a ser outro passo da conduta em maré de se estar por cima, tanto pela governança como pela deseducação.

Com razoável desmedida se vê alguma falta de aceitação das opiniões alheias, gerando-se sem grande pejo um ambiente de quase delito de opinião, desde que ela seja contrária à da maioria reinante ou à da ideologia de serviço. Quem conhecer a História saberá que foi deste modo que foram germinando as ditaduras, nunca às claras, mas servindo-se do politicamente aceitável… Afinal, merecemos muito melhor!    

 

António Sílvio Couto

segunda-feira, 4 de março de 2019

Sinais e recursos de caminhada em Quaresma


A caminhada da Quaresma apresenta-nos vários aspetos específicos deste tempo litúrgico de grande intensidade espiritual, tanto pessoal como comunitária/eclesial. De entre os que são mais clássicos encontramos a oração, o jejum e a esmola, mas também algumas práticas devocionais mais ou menos populares como a via-sacra, as procissões de penitência ou do Senhor dos Passos/Nossa Senhora das Dores, bem como os momentos de maior dinâmica de conversão com a celebração do sacramento da penitência e ainda a renúncia quaresmal, normalmente variável segundo cada diocese e como concretização da esmola e do fruto do jejum.
Algo de essencial é preciso ter em conta: a quaresma prepara-nos para celebrar a Páscoa, mas vivemo-lo em tempo pascal, isto é, não uma quaresma histórica mas sob uma vivência de quem sabe que precisa de criar condições – pessoais e comunitárias – para celebrar em memorial o mistério pascal de Jesus, isto é, a sua paixão-morte-ressurreição.
«A Igreja se une a cada ano, mediante os quarenta dias da grande quaresma, ao mistério de Jesus no deserto» (CIC 540).
«Os tempos e os dias de penitência ao longo do ano litúrgico (o tempo da quaresma, cada sexta-feira em memória da morte do Senhor) são momentos fortes da prática penitencial da Igreja. Esses tempos são particularmente apropriados aos exercícios espirituais, às liturgias penitenciais, às peregrinações em sinal de penitência, às privações voluntárias como o jejum e a esmola, à partilha fraterna (obras de caridade e missionárias)» (CIC 1438).
Olhemos, então, cada um dos recursos/sinais para a vivência da Quaresma:
* desde logo será bom e oportuno que haja um tema que polarize, aglutine e dinamize esses quarenta dias de preparação para a celebração da Páscoa, ora, este ano o tema da caminhada da quaresma, na paróquia da Moita, é: ‘quaresma: tempo de conhecer, amar, servir e anunciar mais e melhor Jesus’, usando como simbologia uma cruz com seis corações em volta, tantos como os domingos da quaresma com o domingo de Ramos…incluindo em cada domingo os cinco sentidos corporais;
* o tríptico ‘oração, jejum e esmola’ será incentivado, explicado e  vivido ao ritmo de cada dia, em cada domingo e semanalmente… procurando ter mais tempo para a oração pessoal, familiar e em Igreja… encontrando formas de viver o jejum, particularmente cada sexta-feira, gerando sinais de abstinência e de conversão…a esmola pela participação na renúncia quaresmal, que este ano se destina, ao nível da diocese de Setúbal, para o fundo de emergência diocesano e de ajuda aos refugiados da Venezuela;
* via-sacra – cada sexta-feira, com três momentos de vivência na rua, em conformidade com cada freguesia das que compõem a paróquia… este ano seguimos os textos do evangelho de São Lucas e rezando assuntos relacionados com a temática da juventude;
* um dos momentos com simbologia mais significativa é o da ‘procissão do Senhor dos Passos e de Nossa Senhora das Dores’, que, no caso da Moita, vem sendo realizada no domingo de Ramos, como se fosse uma conclusão da caminhada quaresmal e, colocada, na abertura da ‘semana santa’ num prólogo de vivência do tríduo pascal;
* algo de fundamental na quaresma é a celebração/vivência do sacramento da penitência e reconciliação, devidamente preparado por um aturado exame de consciência – sugerido pelo tema, acrisolado pela reflexão/oração e assumido com implicações eclesiais – vivido comunitariamente, em preparação da celebração pessoal deste mesmo sacramento…Este ano fazemos o ‘exame de consciência aos cinco sentidos corporais’.

«Não deixemos que passe em vão este tempo favorável! Peçamos a Deus que nos ajude a realizar um caminho de verdadeira conversão. Abandonemos o egoísmo, o olhar fixo em nós mesmos, e voltemo-nos para a Páscoa de Jesus; façamo-nos próximo dos irmãos e irmãs em dificuldade, partilhando com eles os nossos bens espirituais e materiais. Assim, acolhendo na nossa vida concreta a vitória de Cristo sobre o pecado e a morte, atrairemos também sobre a criação a sua força transformadora» - diz-nos o Papa Francisco na sua mensagem para a quaresma deste ano.

 

António Sílvio Couto

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

Dará o ‘carnaval’ sentido à ‘quaresma’?


Há relação entre uma outra realidade: a quaresma segue o carnaval e este antecede – cronológica e espiritualmente – aquela: para haver penitência parece que é preciso verificarem-se exageros!
De facto, na sua longa e sábia pedagogia, a Igreja católica como que ‘criou’ o carnaval – poderá vir de ‘carne valle’, adeus à carne – por forma a que o tempo de rigoroso jejum da quaresma seja precedido dum tempo de alguma festa e, porque não de exageros, que serão corrigidos na penitência quaresmal. Ora, o complexo da questão é que uma boa parte das pessoas vive os exageros e não entra na lógica penitencial, que aqueles tinham associados… Dá a impressão que ficamos pelo mais fácil e não usufruímos do que traz conversão, domínio e controlo sobre nós mesmos…


= Que sentido tem, então, a ‘quarta-feira de cinzas’?


Nesta sociedade algo transversal aos valores religiosos e ao seu significado, será que as cinzas desta quarta-feira serão o restolho dos festejos carnavalescos? Como explicar a alguém o ritual da imposição das cinzas, se não está sintonizado com aquilo que significam estas cinzas? Por outro lado, será que a crescente vulgarização da incineração dos corpos dos defuntos ajuda ou complica ainda mais o entendimento deste dia de ‘quarta-feira de cinzas’?
Diz o Diretório sobre a piedade popular e a liturgia: «O início dos quarenta dias de penitência, no Rito romano, caracteriza-se pelo austero símbolo das Cinzas, que caracteriza a Liturgia da Quarta-feira de Cinzas. Próprio dos antigos ritos nos quais os pecadores convertidos se submetiam à penitência canónica, o gesto de cobrir-se com cinza tem o sentido de reconhecer a própria fragilidade e mortalidade, a qual precisa ser redimida pela misericórdia de Deus. Longe de ser um gesto puramente exterior, a Igreja conservou-o como sinal da atitude do coração penitente que cada batizado é chamado a assumir no itinerário quaresmal. Deve-se ajudar os fiéis, que vão receber as Cinzas, para que aprendam o significado interior deste gesto que dispõe para a conversão e para o esforço de renovação pascal» (n.º 125).

= Receber/acolher as cinzas

Por outro lado, pode perguntar-se: quem pode receber as cinzas? Qualquer pessoa pode receber este sacramental, inclusive os não católicos. Como explica o Catecismo (n.º 1670), «sacramentais não conferem a graça do Espírito Santo à maneira dos sacramentos; mas, pela oração da Igreja, preparam para receber a graça e dispõem para cooperar com ela».
Embora não seja um dia de preceito – isto é, de obrigação em participar na missa – este dia de ‘quarta-feira de cinzas’ é o momento de começo da Quaresma, por isso, deveria ser participado por todos ou no seu maior número possível… Atendendo a certos condicionamentos de tempo e de disponibilidade há quem recorra a este gesto da ‘imposição das cinzas’ no primeiro domingo da quaresma, embora aceitável, talvez seja um tanto desencontrado do espírito do domingo, que não é, nem na quaresma, dia de penitência, mas de festa!

 

António Sílvio Couto

terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

Missiva ao Papa Francisco - TESOUROS EM VASOS DE BARRO…


Ao querido Papa Francisco, que tanto tem feito, nestes quase seis anos de pontificado, para que a Igreja se possa tornar mais e melhor sinal da presença de Cristo no mundo, ouso escreve um sofrido desabafo, que é muito mais do que um mero suspiro desencantado!

No seguimento daquilo que Bento XVI vinha fazendo, o santo Padre tem enfrentado variados obstáculos quanto ao escândalo dos ‘abusos sexuais’ de alguns membros do clero…em muitas partes do mundo.

A catadupa de casos fez do Vaticano uma nova espécie de ‘muro das lamentações’, sobretudo das vítimas individuais ou associadas ao longo da universalidade da Igreja.

O mais recente momento da ‘cimeira’ sobre o assunto, realizada por estes dias, trouxe, novamente, à ribalta acusações, impropérios e suspeitas quase desmesuradas.

Santo Padre, por breves, momentos senti que todos os padres – os prevaricadores e os não-acusados – estavam sob a inexorável espada de Dâmocles sobre as suas cabeças, na medida em que cada um é um potencial acusado… e ninguém – ao que parece – é insuspeito.

Ora, isto é assaz perigoso, pois se pode confundir réu e vítima, tornando-se esta um potencial criador de acusados, senão no conteúdo ao menos na forma… 

Santo Padre, há muitos padres que sofrem e rezam para que esta vaga de pecado dentro e fora da Igreja seja vencida pela força do testemunho.

Com efeito, muitos padres procuram viver a sua entrega a Deus, na Igreja;

muitos – senão a maioria – fazem esforço de fidelidade em serem presença divina neste mundo erotizado;

tantos e tantos viveram a sua juventude e idade adulta numa atitude de missão – não de meros castrados, mas de celibatários pelo Reino de Deus – nem sempre compreendida por todos os que procuraram servir;

por isso, é uma provação e purificação para uma multidão silenciosa de padres verem postos em causa os anos de formação, de encanto e de serviço, pela simples razão de que uns poucos praticaram crimes lesivos de tantas crianças, adolescentes e jovens. 

Santo Padre, lemos, escutamos e aceitamos os ’21 pontos de reflexão’ propostos aos participantes no encontro sobre ‘proteção de menores’;

acolhemos como força de definição os 8 pontos da linha de ação para a Igreja católica, que nos foram apresentados após aquela cimeira.

No entanto, deixamos, com humildade e confiança uma sugestão, tirada dos textos bíblicos: como diz São Paulo – trazemos em vasos de barro o tesouro do nosso ministério (2 Cor 4,7) – e sabemos que esta constatação nos faz acreditar que o dom do sacerdócio ministerial é mesmo dádiva divina, aceitando, discernindo e vigiando para que o mal não nos seduza…nunca!

Por outro lado, recordamos essa passagem tão simbólica do pastor que vai à procura da ovelha que anda dispersa… Só que hoje não é uma, mas noventa e nove, as que se transviaram…

E muitos deles poderão ser padres, ofendidos, maltratados e escorraçados por intransigências de muitos dos seus responsáveis. 

Santo Padre, os que não pecaram – nisto que tem ocupado tanto o foco da Igreja, embora sejam sempre pecadores – precisam de ser acarinhados, para que não se tornem vítimas de discriminação como o foram os ‘abusos’, que tanto reclamam da Igreja católica.

Que a Verdade nos liberte e nos guie, na fidelidade a Deus nesta Igreja que amo e sirvo.

 

António Sílvio Couto

domingo, 24 de fevereiro de 2019

Antes, durante e depois…


A tempestade – sabe-se lá com que designação de tão furiosa que se apresenta – que se tem abatido sobre a Igreja católica é demasiado complexa para ser reduzida a uns epítetos, as umas considerações (mais ou menos acintosas ou menos piedosas), a uns prognósticos de má-formação ou mesmo a uma crise só comparável com a rutura da Reforma no século XVI. Com efeito, os designados ‘abusos sexuais’ de membros do clero – trazidos mais a público depois da viragem do milénio – estão a ensombrar a Igreja católica e o toque a reunir – isto é, a analisar, refletir e mudar – do Papa Francisco é disso mais do que sintomático da humildade que a todos deve envolver e da coragem que deve ser correspondente a este fenómeno social, religioso, espiritual e (quase) cultural.

De pouco adianta trazer para a liça questões laterais – celibato dos padres, lugar das mulheres na Igreja, organização clerical da mesma, riquezas do Vaticano ou outras – para disfarçar o solene incómodo deste problema dentro e fora dos espaços eclesiais, que são muito mais do que meramente eclesiásticos. A resignação de Bento XVI, em 2013, foi disso uma consequência, mais pela dificuldade etária em tratar o problema do que em percebê-lo em muitas das suas implicações – talvez não se tenham detetado ainda todas – na configuração da Igreja católica neste mundo.

De facto, o pontificado do Papa Francisco parece que ficará ligado a esta questão dos ‘abusos sexuais’ na Igreja. Nem outras abordagens o têm feito distrair para a expurga deste problema, talvez se possa dizer da tarefa de exorcizar este demónio entranhado na textura da Igreja católica. À semelhança do que Jesus dizia aos discípulos: este tipo de demónios não se consegue vencer senão à força de muita oração e penitência. 

= Em todo este processo podemos encontrar um antes, um durante e um depois. Nós estamos na etapa do depois, na medida em que o ‘antes’ foi a educação (humana, religiosa ou espiritual) recebida pelos abusadores e que deu as consequências que se podem verificar no ‘durante’, pois esta etapa terá tido, possivelmente, momentos diversos ou nem que tenha sido só um, algo desencadeou o abuso…

* Mutatis mutandis: vejamos o que aconteceu com o aberrante da ‘casa Pia’: nele houve políticos, médicos, diplomatas, pessoas do mundo de televisão, etc e nem todos os médicos, os diplomatas ou os atores foram considerados abusadores só porque um deles possa ter sido apanhado, julgado e condenado… Sobre os do mundo da política, escaparam-se por entre as teias da lei e dalgumas cumplicidades mal explicadas… Isso mesmo queremos aduzir sobre os outros padres ou religiosos que não cometeram os crimes de que alguns dos seus são acusados… Por isso, talvez fosse mais sensato e correto não lançarem – duma forma particular alguma comunicação social ávida de notícias de escândalos – a teia da suspeita sobre todos indiscriminadamente. Não está em causa qualquer reação corporativista, mas a prevenção de acusações futuras!   

+ Antes – esta fase envolve a educação recebida pelos abusadores, num aspeto mais repressivo do que enquadrando as várias dimensões da pessoa humana, de entre elas a sexual. Talvez muitos dos abusadores (dizemo-lo no masculino, embora haja pessoas também do sexo feminino) tenham sido resultado duma sexualidade assaz negativa, à mistura com alguma religiosidade rígida, maquinal e inconsequente. A moral casuística deixou marcas, criou réus e prolongou-se por tempo em excesso… ontem como hoje. 

+ Durante – ao longo das décadas em análise fomos conhecendo centenas ou milhares de casos onde se verificou um misto de ofensa, de exploração e de criminalidade, que terão de ser conjugados em conformidade com os critérios jurídicos de cada país…sem promoção de lóbis ou de grupos anticristãos.  

+ Depois – agora que tomamos conhecimento dos factos – dos réus e das vítimas – temos de viver os valores do Evangelho, atendendo aos mais frágeis e um tanto fragilizados, sem esquecer a reclamação da justiça aliada à misericórdia que carateriza, por excelência, os princípios cristãos.

Nesta fase conturbada da nossa história será preciso que apareçam profetas da boa vontade, acrisolados pela consciência de quanto a Igreja católica fez de bem, conjugando a acusação dos que prevaricam, mas não deixando que a mesma Igreja se torne, agora, servidora dum nova inquisição moralizante…à antiga!  

 

António Sílvio Couto

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

‘Justiça e caridade’ – desafios e consequências



De entre os vinte e um pontos apresentados pelo Papa Francisco na ‘cimeira sobre proteção de menores’, realizada no Vaticano, de 21 a 24 deste mês, inclui-se o seguinte: «fazer uma revisão periódica de protocolos e normas para salvaguardar um ambiente protegido para menores em todas as estruturas pastorais; protocolos e normas baseados nos princípios da justiça e da caridade, integrados para que a ação da Igreja também neste campo esteja em conformidade com a sua missão» (n.º 6).

Efetivamente este tema dos ‘abusos sexuais’ cometidos por membros do clero católico começou a emergir das sombras no início do terceiro milénio, abrangendo, sucessivamente, países como Estados Unidos, Canadá, Brasil ou na Europa: Irlanda, Alemanha, Inglaterra, França, Espanha, Bélgica e mesmo Portugal.

Desde a primeira hora surgiriam testemunhos de abusados, tanto do sexo masculino, como do sexo feminino, envolvendo desde paróquias, dioceses e ordens religiosas, as instâncias de educação e de catequese, passando por movimentos de adolescentes e de jovens.

Num plano eclesial houve – ao mesmo na linha da intenção – tentativas, por parte dos responsáveis diocesanos e religiosos, de criar condições para que os abusadores fossem tratados ao nível psicológico, médico e espiritual. Mas o que não foi bem avaliado – antes pelo contrário – foi a transferência dalguns dos acusados de espaço em espaço até à confusão generalizada… e mais difusora do malfeito.

É digno de registo que as vítimas foram trazendo à luz do dia os seus casos específicos, assumindo os seus traumas, denunciando muito do silêncio dos bispos e superiores de muitos dos abusadores e clamando por justiça…nalgumas situações envolvendo indemnizações de larga conta, sobretudo em países onde essa prática jurídica tinha suporte para ser realizada…Ao largo dos países foram surgindo associações de molestados no âmbito sexual por membros do clero!

Com o Papa Bento XVI, em 2010, explodiu o assunto nas teias do Vaticano e, numa carta sobre a pedofilia e tudo quanto envolvia a hierarquia católica anteriormente, o mesmo Papa exigiu que se cumprisse mais rigorosamente o Código de Direito Canónico e apresentou a Igreja a estar em colaboração com as autoridades civis e criminais…Aliás, há quem considere que a resignação de Bento XVI, em fevereiro de 2013, terá sido como que um grito lancinante de falta de forças do Papa para enfrentar esta tão delicada questão…dentro e fora da Igreja!

Em muito deste processo foi notório o papel da comunicação social, umas vezes de forma sensata e honesta, noutras vezes mais sensacionalista e pouco independente, noutros casos ainda parecendo mais ao serviço do combate anticatólico do que na busca do serviço e qualidade da verdade…  

= Escrevo este texto no dia litúrgico da ‘cadeira de São Pedro’ e perpassam pela minha mente algumas perguntas que deixo em forma de inquietação, de desafio e numa tentativa de captar as consequências para a Igreja católica…antes, durante e depois desta crise que tanto magoa quem se sinta em Igreja.

* Como se pode conciliar a justiça com a caridade, se ambas não estiverem imbuídas de verdade e de confiança de uns para com os outros e de todos em relação à hierarquia?

* Como se pode enfrentar a delação solicitada, se o conhecimento do caso se deu em contexto do sacramento da penitência?

* Até onde irá o sigilo profissional ou de confissão, se se pretende mostrar serviço a quem nos acuse, conteste e combata, dentro ou fora da Igreja?

* Não será que muitos dos casos conhecidos revelam menos boa atenção na seleção dos candidatos ao sacerdócio?  

* Porque surgem (quase) sempre os mesmos papagaios a falar do assunto – muitos deles com ar ressabiado contra a Igreja – na comunicação social e não aparecem, de facto, os padres que não foram acusados nem têm nada esconder?

* Perante esta nova vaga de ‘caça às bruxas’, será que alguém está a salvo dalguma acusação mesmo que tendenciosa e a roçar a mentira, a suspeita ou a difamação?

Quem ama a Igreja e a serve com dedicação e esperança certamente sofre com estas feridas, sabendo que o ‘corpo de Cristo’ é muito mais do que uma sociedade de interesses ou um saco de conflitos. Creio na Igreja!

 

António Sílvio Couto