Partilha de perspectivas... tanto quanto atualizadas.



quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

Dará o ‘carnaval’ sentido à ‘quaresma’?


Há relação entre uma outra realidade: a quaresma segue o carnaval e este antecede – cronológica e espiritualmente – aquela: para haver penitência parece que é preciso verificarem-se exageros!
De facto, na sua longa e sábia pedagogia, a Igreja católica como que ‘criou’ o carnaval – poderá vir de ‘carne valle’, adeus à carne – por forma a que o tempo de rigoroso jejum da quaresma seja precedido dum tempo de alguma festa e, porque não de exageros, que serão corrigidos na penitência quaresmal. Ora, o complexo da questão é que uma boa parte das pessoas vive os exageros e não entra na lógica penitencial, que aqueles tinham associados… Dá a impressão que ficamos pelo mais fácil e não usufruímos do que traz conversão, domínio e controlo sobre nós mesmos…


= Que sentido tem, então, a ‘quarta-feira de cinzas’?


Nesta sociedade algo transversal aos valores religiosos e ao seu significado, será que as cinzas desta quarta-feira serão o restolho dos festejos carnavalescos? Como explicar a alguém o ritual da imposição das cinzas, se não está sintonizado com aquilo que significam estas cinzas? Por outro lado, será que a crescente vulgarização da incineração dos corpos dos defuntos ajuda ou complica ainda mais o entendimento deste dia de ‘quarta-feira de cinzas’?
Diz o Diretório sobre a piedade popular e a liturgia: «O início dos quarenta dias de penitência, no Rito romano, caracteriza-se pelo austero símbolo das Cinzas, que caracteriza a Liturgia da Quarta-feira de Cinzas. Próprio dos antigos ritos nos quais os pecadores convertidos se submetiam à penitência canónica, o gesto de cobrir-se com cinza tem o sentido de reconhecer a própria fragilidade e mortalidade, a qual precisa ser redimida pela misericórdia de Deus. Longe de ser um gesto puramente exterior, a Igreja conservou-o como sinal da atitude do coração penitente que cada batizado é chamado a assumir no itinerário quaresmal. Deve-se ajudar os fiéis, que vão receber as Cinzas, para que aprendam o significado interior deste gesto que dispõe para a conversão e para o esforço de renovação pascal» (n.º 125).

= Receber/acolher as cinzas

Por outro lado, pode perguntar-se: quem pode receber as cinzas? Qualquer pessoa pode receber este sacramental, inclusive os não católicos. Como explica o Catecismo (n.º 1670), «sacramentais não conferem a graça do Espírito Santo à maneira dos sacramentos; mas, pela oração da Igreja, preparam para receber a graça e dispõem para cooperar com ela».
Embora não seja um dia de preceito – isto é, de obrigação em participar na missa – este dia de ‘quarta-feira de cinzas’ é o momento de começo da Quaresma, por isso, deveria ser participado por todos ou no seu maior número possível… Atendendo a certos condicionamentos de tempo e de disponibilidade há quem recorra a este gesto da ‘imposição das cinzas’ no primeiro domingo da quaresma, embora aceitável, talvez seja um tanto desencontrado do espírito do domingo, que não é, nem na quaresma, dia de penitência, mas de festa!

 

António Sílvio Couto

terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

Missiva ao Papa Francisco - TESOUROS EM VASOS DE BARRO…


Ao querido Papa Francisco, que tanto tem feito, nestes quase seis anos de pontificado, para que a Igreja se possa tornar mais e melhor sinal da presença de Cristo no mundo, ouso escreve um sofrido desabafo, que é muito mais do que um mero suspiro desencantado!

No seguimento daquilo que Bento XVI vinha fazendo, o santo Padre tem enfrentado variados obstáculos quanto ao escândalo dos ‘abusos sexuais’ de alguns membros do clero…em muitas partes do mundo.

A catadupa de casos fez do Vaticano uma nova espécie de ‘muro das lamentações’, sobretudo das vítimas individuais ou associadas ao longo da universalidade da Igreja.

O mais recente momento da ‘cimeira’ sobre o assunto, realizada por estes dias, trouxe, novamente, à ribalta acusações, impropérios e suspeitas quase desmesuradas.

Santo Padre, por breves, momentos senti que todos os padres – os prevaricadores e os não-acusados – estavam sob a inexorável espada de Dâmocles sobre as suas cabeças, na medida em que cada um é um potencial acusado… e ninguém – ao que parece – é insuspeito.

Ora, isto é assaz perigoso, pois se pode confundir réu e vítima, tornando-se esta um potencial criador de acusados, senão no conteúdo ao menos na forma… 

Santo Padre, há muitos padres que sofrem e rezam para que esta vaga de pecado dentro e fora da Igreja seja vencida pela força do testemunho.

Com efeito, muitos padres procuram viver a sua entrega a Deus, na Igreja;

muitos – senão a maioria – fazem esforço de fidelidade em serem presença divina neste mundo erotizado;

tantos e tantos viveram a sua juventude e idade adulta numa atitude de missão – não de meros castrados, mas de celibatários pelo Reino de Deus – nem sempre compreendida por todos os que procuraram servir;

por isso, é uma provação e purificação para uma multidão silenciosa de padres verem postos em causa os anos de formação, de encanto e de serviço, pela simples razão de que uns poucos praticaram crimes lesivos de tantas crianças, adolescentes e jovens. 

Santo Padre, lemos, escutamos e aceitamos os ’21 pontos de reflexão’ propostos aos participantes no encontro sobre ‘proteção de menores’;

acolhemos como força de definição os 8 pontos da linha de ação para a Igreja católica, que nos foram apresentados após aquela cimeira.

No entanto, deixamos, com humildade e confiança uma sugestão, tirada dos textos bíblicos: como diz São Paulo – trazemos em vasos de barro o tesouro do nosso ministério (2 Cor 4,7) – e sabemos que esta constatação nos faz acreditar que o dom do sacerdócio ministerial é mesmo dádiva divina, aceitando, discernindo e vigiando para que o mal não nos seduza…nunca!

Por outro lado, recordamos essa passagem tão simbólica do pastor que vai à procura da ovelha que anda dispersa… Só que hoje não é uma, mas noventa e nove, as que se transviaram…

E muitos deles poderão ser padres, ofendidos, maltratados e escorraçados por intransigências de muitos dos seus responsáveis. 

Santo Padre, os que não pecaram – nisto que tem ocupado tanto o foco da Igreja, embora sejam sempre pecadores – precisam de ser acarinhados, para que não se tornem vítimas de discriminação como o foram os ‘abusos’, que tanto reclamam da Igreja católica.

Que a Verdade nos liberte e nos guie, na fidelidade a Deus nesta Igreja que amo e sirvo.

 

António Sílvio Couto

domingo, 24 de fevereiro de 2019

Antes, durante e depois…


A tempestade – sabe-se lá com que designação de tão furiosa que se apresenta – que se tem abatido sobre a Igreja católica é demasiado complexa para ser reduzida a uns epítetos, as umas considerações (mais ou menos acintosas ou menos piedosas), a uns prognósticos de má-formação ou mesmo a uma crise só comparável com a rutura da Reforma no século XVI. Com efeito, os designados ‘abusos sexuais’ de membros do clero – trazidos mais a público depois da viragem do milénio – estão a ensombrar a Igreja católica e o toque a reunir – isto é, a analisar, refletir e mudar – do Papa Francisco é disso mais do que sintomático da humildade que a todos deve envolver e da coragem que deve ser correspondente a este fenómeno social, religioso, espiritual e (quase) cultural.

De pouco adianta trazer para a liça questões laterais – celibato dos padres, lugar das mulheres na Igreja, organização clerical da mesma, riquezas do Vaticano ou outras – para disfarçar o solene incómodo deste problema dentro e fora dos espaços eclesiais, que são muito mais do que meramente eclesiásticos. A resignação de Bento XVI, em 2013, foi disso uma consequência, mais pela dificuldade etária em tratar o problema do que em percebê-lo em muitas das suas implicações – talvez não se tenham detetado ainda todas – na configuração da Igreja católica neste mundo.

De facto, o pontificado do Papa Francisco parece que ficará ligado a esta questão dos ‘abusos sexuais’ na Igreja. Nem outras abordagens o têm feito distrair para a expurga deste problema, talvez se possa dizer da tarefa de exorcizar este demónio entranhado na textura da Igreja católica. À semelhança do que Jesus dizia aos discípulos: este tipo de demónios não se consegue vencer senão à força de muita oração e penitência. 

= Em todo este processo podemos encontrar um antes, um durante e um depois. Nós estamos na etapa do depois, na medida em que o ‘antes’ foi a educação (humana, religiosa ou espiritual) recebida pelos abusadores e que deu as consequências que se podem verificar no ‘durante’, pois esta etapa terá tido, possivelmente, momentos diversos ou nem que tenha sido só um, algo desencadeou o abuso…

* Mutatis mutandis: vejamos o que aconteceu com o aberrante da ‘casa Pia’: nele houve políticos, médicos, diplomatas, pessoas do mundo de televisão, etc e nem todos os médicos, os diplomatas ou os atores foram considerados abusadores só porque um deles possa ter sido apanhado, julgado e condenado… Sobre os do mundo da política, escaparam-se por entre as teias da lei e dalgumas cumplicidades mal explicadas… Isso mesmo queremos aduzir sobre os outros padres ou religiosos que não cometeram os crimes de que alguns dos seus são acusados… Por isso, talvez fosse mais sensato e correto não lançarem – duma forma particular alguma comunicação social ávida de notícias de escândalos – a teia da suspeita sobre todos indiscriminadamente. Não está em causa qualquer reação corporativista, mas a prevenção de acusações futuras!   

+ Antes – esta fase envolve a educação recebida pelos abusadores, num aspeto mais repressivo do que enquadrando as várias dimensões da pessoa humana, de entre elas a sexual. Talvez muitos dos abusadores (dizemo-lo no masculino, embora haja pessoas também do sexo feminino) tenham sido resultado duma sexualidade assaz negativa, à mistura com alguma religiosidade rígida, maquinal e inconsequente. A moral casuística deixou marcas, criou réus e prolongou-se por tempo em excesso… ontem como hoje. 

+ Durante – ao longo das décadas em análise fomos conhecendo centenas ou milhares de casos onde se verificou um misto de ofensa, de exploração e de criminalidade, que terão de ser conjugados em conformidade com os critérios jurídicos de cada país…sem promoção de lóbis ou de grupos anticristãos.  

+ Depois – agora que tomamos conhecimento dos factos – dos réus e das vítimas – temos de viver os valores do Evangelho, atendendo aos mais frágeis e um tanto fragilizados, sem esquecer a reclamação da justiça aliada à misericórdia que carateriza, por excelência, os princípios cristãos.

Nesta fase conturbada da nossa história será preciso que apareçam profetas da boa vontade, acrisolados pela consciência de quanto a Igreja católica fez de bem, conjugando a acusação dos que prevaricam, mas não deixando que a mesma Igreja se torne, agora, servidora dum nova inquisição moralizante…à antiga!  

 

António Sílvio Couto

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

‘Justiça e caridade’ – desafios e consequências



De entre os vinte e um pontos apresentados pelo Papa Francisco na ‘cimeira sobre proteção de menores’, realizada no Vaticano, de 21 a 24 deste mês, inclui-se o seguinte: «fazer uma revisão periódica de protocolos e normas para salvaguardar um ambiente protegido para menores em todas as estruturas pastorais; protocolos e normas baseados nos princípios da justiça e da caridade, integrados para que a ação da Igreja também neste campo esteja em conformidade com a sua missão» (n.º 6).

Efetivamente este tema dos ‘abusos sexuais’ cometidos por membros do clero católico começou a emergir das sombras no início do terceiro milénio, abrangendo, sucessivamente, países como Estados Unidos, Canadá, Brasil ou na Europa: Irlanda, Alemanha, Inglaterra, França, Espanha, Bélgica e mesmo Portugal.

Desde a primeira hora surgiriam testemunhos de abusados, tanto do sexo masculino, como do sexo feminino, envolvendo desde paróquias, dioceses e ordens religiosas, as instâncias de educação e de catequese, passando por movimentos de adolescentes e de jovens.

Num plano eclesial houve – ao mesmo na linha da intenção – tentativas, por parte dos responsáveis diocesanos e religiosos, de criar condições para que os abusadores fossem tratados ao nível psicológico, médico e espiritual. Mas o que não foi bem avaliado – antes pelo contrário – foi a transferência dalguns dos acusados de espaço em espaço até à confusão generalizada… e mais difusora do malfeito.

É digno de registo que as vítimas foram trazendo à luz do dia os seus casos específicos, assumindo os seus traumas, denunciando muito do silêncio dos bispos e superiores de muitos dos abusadores e clamando por justiça…nalgumas situações envolvendo indemnizações de larga conta, sobretudo em países onde essa prática jurídica tinha suporte para ser realizada…Ao largo dos países foram surgindo associações de molestados no âmbito sexual por membros do clero!

Com o Papa Bento XVI, em 2010, explodiu o assunto nas teias do Vaticano e, numa carta sobre a pedofilia e tudo quanto envolvia a hierarquia católica anteriormente, o mesmo Papa exigiu que se cumprisse mais rigorosamente o Código de Direito Canónico e apresentou a Igreja a estar em colaboração com as autoridades civis e criminais…Aliás, há quem considere que a resignação de Bento XVI, em fevereiro de 2013, terá sido como que um grito lancinante de falta de forças do Papa para enfrentar esta tão delicada questão…dentro e fora da Igreja!

Em muito deste processo foi notório o papel da comunicação social, umas vezes de forma sensata e honesta, noutras vezes mais sensacionalista e pouco independente, noutros casos ainda parecendo mais ao serviço do combate anticatólico do que na busca do serviço e qualidade da verdade…  

= Escrevo este texto no dia litúrgico da ‘cadeira de São Pedro’ e perpassam pela minha mente algumas perguntas que deixo em forma de inquietação, de desafio e numa tentativa de captar as consequências para a Igreja católica…antes, durante e depois desta crise que tanto magoa quem se sinta em Igreja.

* Como se pode conciliar a justiça com a caridade, se ambas não estiverem imbuídas de verdade e de confiança de uns para com os outros e de todos em relação à hierarquia?

* Como se pode enfrentar a delação solicitada, se o conhecimento do caso se deu em contexto do sacramento da penitência?

* Até onde irá o sigilo profissional ou de confissão, se se pretende mostrar serviço a quem nos acuse, conteste e combata, dentro ou fora da Igreja?

* Não será que muitos dos casos conhecidos revelam menos boa atenção na seleção dos candidatos ao sacerdócio?  

* Porque surgem (quase) sempre os mesmos papagaios a falar do assunto – muitos deles com ar ressabiado contra a Igreja – na comunicação social e não aparecem, de facto, os padres que não foram acusados nem têm nada esconder?

* Perante esta nova vaga de ‘caça às bruxas’, será que alguém está a salvo dalguma acusação mesmo que tendenciosa e a roçar a mentira, a suspeita ou a difamação?

Quem ama a Igreja e a serve com dedicação e esperança certamente sofre com estas feridas, sabendo que o ‘corpo de Cristo’ é muito mais do que uma sociedade de interesses ou um saco de conflitos. Creio na Igreja!

 

António Sílvio Couto



 

terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

Acentuado narcisismo coletivo


Se pararmos um pouco para fazermos uma autoavaliação ou uma análise ao comportamento alheio, podemos, com alguma facilidade, ser denunciados por uma caraterística cada vez mais acentuada: uma boa dose de narcisismo, que deixou de o ser na vertente meramente pessoal para se tornar uma ‘doença’ generalizada. Com efeito, o melhor diagnóstico deste narcisismo é consubstanciado na popular ‘selfie’, onde cada um se revê, se admira e como que autocontempla…

Tentemos explicitar, então, alguns conceitos, expliquemos certos recursos e analisemos as consequências numa descoberta mais aprofundada das causas.

Narcisismo é o amor de um indivíduo por si próprio ou pela sua própria imagem, tendo uma referência ao mito de Narciso, o qual, segundo a mitologia grega, era um jovem de grande beleza, que nunca se tinha visto a um espelho nem conhecia o seu rosto, ao ver refletida a sua imagem num rio,  apaixonou-se por si mesmo, morreu afogado pela atração por si mesmo.
Em conceitos de psicanálise, narcisismo define um indivíduo que admira exageradamente a sua própria imagem e nutre uma paixão excessiva por si mesmo...
Segundo alguns autores – mesmo na área da antropologia católica – a tendência narcisista da nossa cultura, faz-nos entrar num processo de auto-sedução em que o desejo ocupa o lugar de dono e as relações inter-pessoais se desvanecem: vemo-nos num espelho, mas sem ter uma resposta, à semelhança de Narciso da mitologia...
Uma das referências mais atualizadas deste ambiente narcisista da nossa cultura é a moda ‘selfie’, a qual, numa análise mais psicológica, manifesta o desejo de se auto-fotografar sempre, onde e com quer que seja...desde que o ‘eu’ esteja presente e em destaque... os outros, mesmo que possam ser socialmente mais importantes, não passam do caixilho onde o ‘eu’ aparece e brilha...
Também o uso e abuso dos auscultadores com músicas em altos decibéis, sem esquecer essa outra tendência em exaltar o corpo à condição de verdadeiro objeto de culto...
Repare-se como o Narciso, que anda por aí, lida com dificuldade com as rugas e com os cabelos brancos, manifestando o medo de envelhecer e a obsessão com a saúde e tantos outros cuidados com a estética, a beleza e o uso da cosmética... podendo tornar-se quase ridículo o exagero nesta reciclagem pessoal, inter-pessoal, grupal, social e cultural.
A condição de narcisista não exclui totalmente o outro, mas deseja vê-lo constituído à sua medida e  seu gosto. As relações deixam de ser inter-pessoais para passarem a ser inter-individuais. Nota-se alguma aversão à solidão, mas esta não é combatida pela abertura aos outros, mas estes são, antes, colocados e explorados pela conveniência de cada momento... entrando-se, deste modo, numa independência fictícia, embora com garras de isolamento e medo.
De facto, o narcisismo causa tristeza... Reparemos nos rostos tristes e pesados de tantos/as com quem nos cruzamos.  A tendência para o fechamento de um número significativo daqueles/as com quem nos encontramos no dia-a-dia não é atenuado com as maquilhagens com que tentam disfarçar-se, antes se percebe que por detrás de muitos rostos há apreensão, tédio e confusão. O excesso de tempo que passamos ao ‘nosso’ espelho faz com que não vejamos os outros, mas continuemos centrados em nós mesmos e nos nossos interesses nem sempre os mais altruístas e sinceros. Não será que nos falta tempo, oportunidade e condições para sorrirmos a nós mesmos e para com os outros?

Se atendermos ao ambiente geral em que vivemos, nos movemos e existimos, parece que o narcisismo tomou conta dos critérios, dos valores e dos comportamentos de uma boa parte dos nossos coevos. Com efeito, viemos mais centrados em nós mesmos – apelidar isso de egoísmo é pouco – contando sobretudo com os nossos interesses e suas afetações. Movemo-nos diante da ‘selfie’ com tal destreza que já não há fotógrafo que consiga apanhar-nos distraídos e em pose natural. Existimos como que narcotizados pelos anseios de nos fazermos notar, tanto por boas como por menos boas razões.

Educar para o altruísmo é, hoje, tarefa de grande e essencial necessidade, até para salvaguardarmos o que há de humano em nós e à nossa volta… 

 

António Sílvio Couto

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

‘Objeção de consciência’ – afirmação ou cobardia?


De quando em vez vemos surgirem tendências mais ou menos pacifistas. Noutros casos poderemos considerar mais passivistas, isto é, onde a pacificidade tenta revestir a máscara do pacifismo ou mesmo de alguma objeção de consciência. Mas esta será articulável com aquela? Será que a objeção de consciência é (ou pode ser considerada) uma fuga à cidadania? Quem aduz objeção de consciência não será um cidadão comprometido com o bem comum da sociedade em que vive? Para se considerar objetor de consciência será preciso ter coragem para se assumir na diferença ou bastará uma pequena dose de cobardia para esconder-se sob a capa do medo não-assumido?    

Partimos duma espécie de definição descritiva do que é a objeção de consciência, atendendo à doutrina do magistério da Igreja católica.

«O cidadão é obrigado em consciência a não seguir as prescrições das autoridades civis quando tais prescrições são contrários às exigências da ordem moral, aos direitos fundamentais das pessoas ou aos ensinamentos do Evangelho. A recusa de obediência às autoridades civis, quando suas exigências são contrárias às da reta consciência, encontra a sua justificação na distinção entre o serviço a Deus e o serviço à comunidade política, “Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” (Mt 22,21). ‘E preciso obedecer antes a Deus que aos homens” (At 5,29): se a autoridade pública, exorbitando de sua competência, oprimir os cidadãos, estes não recusem o que é objetivamente exigido pelo bem comum; mas é lícito defenderem os seus direitos e os de seus concidadãos contra os abusos do poder» – Catecismo da Igreja Católica, n.º 2242.
Eis a fundamentação no magistério católico para que alguém possa recusar obedecer a leis que sejam ou possam ser contrárias à sua fé e à sua reta consciência. Assim em certos setores de atividade – área militar, vertentes da saúde, campo da educação, matérias de religião, etc. – podem estar abrangidas pela objeção de consciência, isto é, não ser obrigado a cumprir as leis, por estas colidirem com a sua consciência…reta e bem formada.
Mais do que um oportunismo para não participar, fazer ou cumprir a lei, o objetor de consciência sente-se ‘obrigado’ a invocar a sua consciência para ‘desobedecer’ de forma assumida, esclarecida e consequente, isto é, não foge por conveniência, mas por consciência.
De fato, um objetor de consciência não é nem pode ser um cobarde que, por medo ou interesse egoísta, se recusa a participar no bem comum, mas faz essa opção em razão da sua consciência retamente formada.
Por exemplo, se alguém apresenta a objeção de consciência para não cumprir o serviço militar (sobretudo quando era obrigatório ou em tempo de guerra), isso não o exime de prestar serviço cívico aos outros, onde a matéria bélica não esteja presente… o resto dessa objeção de consciência como que se poderá revestir dalguma cobardia, fugindo à defesa da pátria, escudando-se na sua menos boa capacidade de enfrentar os inimigos, sejam eles quais forem!
Se alguém se escusa a praticar o aborto ou outra matéria na área da saúde – como recentemente se discutiu sobre a eutanásia, sobretudo tendo em conta os profissionais desta áera – que possa atentar contra o princípio sagrado da vida, isso deve ser aduzido para que seja sempre pela vida, tanto humana como outra… Efetivamente há matérias que nos obrigam a tomar posição, deixando cair a máscara da ignóbil neutralidade… Não aconteça que em certas matérias se ‘é’ (ou parece) objetor de consciência, como no caso da guerra e do belicismo, mas depois em matérias da vida já se considere progressista porque defensor da morte doce ou assistida…
Daqui decorre que a objeção de consciência não pode ser uma fuga ao compromisso, mas antes uma tomada de posição ativa e atuante sobre uma matéria que exige uma consciência bem formada, mas não anódina e sem princípios…sobretudo se alicerçados nos valores do Evangelho.

Efetivamente torna-se essencial ser lógico e viver na verdade das coisas de Deus, pois será Ele e sempre Ele quem há de conduzir a nossa itinerância nesta terra, sabendo obedecer ou desobedecer às leis, sobretudo quando estas se possam opor à lei natural, bem como aos princípios e valores de humanidade, inscritos como marca divina em cada ser, na natureza e nos sinais da História!  

 

António Sílvio Couto

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Entre marido e mulher não se deve meter a colher?


De entre os adágios portugueses este tem vindo a manifestar a necessidade urgente de correção. Outros quiseram fazer idêntica recauchutagem com os alusivos aos animais, mas este – ‘entre marido e mulher não se deve meter a colher’ – tem cada vez mais um imperativo moral, social e cultural.

De facto, a apelidada ‘violência doméstica’ tinha neste adágio uma espécie de desagradável suporte no linguajar português. Embora o que se diz não tenha tanta influência sobre aquilo que se faz, este adágio foi como que uma espécie de tolerância capciosa para muitos dos comportamentos de não-intromissão nos casos de violência doméstica, tanto clara como presumida ou mesmo desculpada.

O fenómeno de violência doméstica – entre marido e esposa e vice-versa; entre pais e filhos e o contrário; entre os mais novos e os mais velhos e o inverso – tem vindo a criar mais e mais vítimas, muitas delas inocentes, não só pela idade mais também em razão das causas que as fizeram perecer.

Entretanto, para entender, estudar e explicar este fenómeno sociocultural da violência doméstica foram surgindo imensas associações em ordem a serem elencados os temas da violência doméstica, tendo em conta as vítimas e os tipos de crimes: entre homens e mulheres (casados ou não), para com os idosos, envolvendo crianças e jovens, discriminações, crimes sexuais, homicídios…numa imensa rede de estruturas e tentáculos com outros assuntos, práticas ou situações. 

= Antes de prosseguirmos a abordagem desta questão poderemos apresentar breves questões: será a violência doméstica um fenómeno preferencial de pobres e de pessoas sem instrução? Os episódios de violência manifestam as pessoas que temos em família ou põem a nu a família que não somos? Porque vem agora a público tantas notícias de violência doméstica, antes não existiam ou eram escondidos com outros subterfúgios socioculturais mais sublimares? Que papel tem ou teve a religião na violência doméstica, de aceitação, de tolerância ou de denúncia, de tratamento ou de combate? Esta vaga noticiosa de casos de violência doméstica favorece a estabilidade familiar, atual e futura? Quais as causas mais profundas deste fenómeno, agora tão preocupante mais pelas consequências do que pelas razões, que têm vindo a levar esta caraterização da nossa sociedade?  

= Parece não ser de difícil verificação que a sociedade está cada vez mais violenta. Ora esta sociedade é constituída por pessoas/cidadãos, famílias, associações/coletividades, igrejas, partidos, clubes… onde essa mesma violência está patente não só nas palavras como nos atos, ações e comportamentos. Por isso, a violência doméstica como sendo aquela que se dá em casa, no âmbito privado e particular, recebe e influência a violência em geral. Com efeito, como se podem criar leis que combatam a violência doméstica, se os políticos nos espaços de intervenção – parlamento, autarquias, ações políticas, na comunicação social – são agressivos, intolerantes e violentos…uns para com os outros e cultivam um ambiente de crispação quase incontrolável?

Apesar da consciencialização deste problema com tantas vítimas físicas, psicológicas, emocionais, económicas… continua-se a falar do assunto como se ele fosse algo alheio ao nosso comportamento, mentalidade ou mesmo dimensão cultural. Será sempre inconsequente abordar o assunto culpando os outros e acusando-os de serem os causadores deste mal, quando a violência tem de ser gerida e digerida por cada um de nós a começar por si mesmo, sem atirar aos outros as razões que não lhes pertencem.

Certas caraterísticas dos nossos dias podem ser mais propícias e fomentadoras da violência, seja ela doméstica, profissional ou mesmo ambiental. Assim, o agravante egoísmo com que nos regemos nas relações com os outros; uma boa dose de narcisismo quase-intocável da minha personalidade; o fechamento aos outros e o empolamento do meu ‘eu’, por vezes, agressivo, intolerante e abusivo; o desrespeito para com a liberdade alheia, as intromissões na esfera do privado e a excessiva exposição da intimidade em casos que deviam ser mais reservados… Isto e muito mais podem favorecer alguma da violência com que nos tratamos diariamente, a começar por casa, que devia ser o santuário da nossa mais profunda conduta e o lugar, por excelência, da convivência com os que nos são mais próximos, a quem conhecemos e damos a conhecer…    

 

António Sílvio Couto