Partilha de perspectivas... tanto quanto atualizadas.



segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

Os cristãos podem ou devem estar na vida política?


Com relativa frequência se ouve a questão se os cristãos em geral – e os católicos em particular – podem ou devem estar na vida política. É um tema recorrente, sobretudo em maré de campanhas eleitorais, e que nos deve ocupar e fazer estar informados sobre os conteúdos, os programas, as propostas, as ideologias…dos partidos políticos, sabendo que não são todos iguais nem todos merecem a confiança, o voto ou a adesão dos cristãos e dos católicos.
O que nos diz o magistério da Igreja – concílios, papas ou outras instâncias da vida eclesial – sobre isto que alguns consideram a ‘arte da política’?
Diz a constituição pastoral ‘Gaudium et spes’ sobre a Igreja no mundo atual do Concílio Vaticano II, n.º 75: «É plenamente conforme com a natureza do homem que se encontrem estruturas jurídico-políticas nas quais todos os cidadãos tenham a possibilidade efetiva de participar livre e ativamente, dum modo cada vez mais perfeito e sem qualquer discriminação, tanto no estabelecimento das bases jurídicas da comunidade política, como na gestão da coisa pública e na determinação do campo e fim das várias instituições e na escolha dos governantes. Todos os cidadãos se lembrem, portanto, do direito e simultaneamente do dever que têm de fazer uso do seu voto livre em vista da promoção do bem comum. A Igreja louva e aprecia o trabalho de quantos se dedicam ao bem da nação e tomam sobre si o peso de tal cargo, em serviço dos homens».
Daqui podemos e devemos inferir que a participação dos cristãos na vida política deve ser decorrente da sua consciência social e cívica, levando os critérios do evangelho a este campo da vida em sociedade, não deixando, pela omissão, que outros se aproveitem das lacunas deixadas pela ausência dos cristãos, podendo correr o risco de na vida política – no âmbito geral e na vida partidária – estarem os incompetentes, os oportunistas ou mesmo os que mais influenciam a vida pública pelas ideologias contra a vida, contra a família e mesmo contra a fé.
* Haverá, segundo a doutrina da Igreja católica, partidos e agremiações ideológicas em que os cristãos/católicos não devem nem podem militar, participar ou mesmo votar?
Desde logo todas as formas associativas que conspirem (o termo técnico usado é ‘maquinem’) contra a fé, que abjurem Deus e que sejam fatores de propaganda de ideias de índole ateia, contra os valores essenciais propostos e defendidos pelo Evangelho e a doutrina da Igreja católica. Aqui entram partidos e ideologias de matiz e matriz materialista, mesmo que possam considerarem-se ‘democráticos’…à luz da sua auto-visão.
Sobre o reconhecimento dos direitos políticos ligados à cidadania refere o Catecismo da Igreja Católica: «Os poderes políticos são obrigados a respeitar os direitos fundamentais da pessoa humana. Administrarão a justiça humanamente, respeitando o direito de cada qual, principalmente das famílias e dos deserdados. Os direitos políticos ligados à cidadania podem e devem ser reconhecidos conforme as exigências do bem comum. Não podem ser suspensos pelos poderes políticos, sem motivo legítimo e proporcionado. O exercício dos direitos políticos orienta-se para o bem comum da nação e da comunidade humana» (n.º 2237). Por seu turno, sobre a intervenção os leigos na vida política, diz o Catecismo, citando a encíclica de João Paulo II, ‘Sollicitudo rei socialis’, n.º 47: «pertence aos fiéis leigos ‘animar as realidades temporais com zelo cristão, comportando-se no meio delas como artífices da paz e da justiça» (n.º 2442).
A título de exemplo da doutrina do magistério mais recente da Igreja católica, o Papa Francisco, citando um cardeal vietnamita, elencou, na mensagem para o 52.º dia mundial da paz (2019), as bem-aventuranças do político, propostas pelo Cardeal vietnamita Francisco Xavier Nguyen Van Thuan, falecido em 2002:
«Bem-aventurado o político que tem uma alta noção e uma profunda consciência do seu papel.
Bem-aventurado o político de cuja pessoa irradia a credibilidade.
Bem-aventurado o político que trabalha para o bem comum e não para os próprios interesses.
Bem-aventurado o político que permanece fielmente coerente.
Bem-aventurado o político que realiza a unidade.
Bem-aventurado o político que está comprometido na realização duma mudança radical.
Bem-aventurado o político que sabe escutar.

Bem-aventurado o político que não tem medo».

Assim sejamos capazes de comprometer-nos na construção da paz pela boa política e com os melhores políticos…possíveis!


António Sílvio Couto


sábado, 9 de fevereiro de 2019

Na era digital


«A cultura digital, além de ter relativizado o conceito de verdade, parece que varreu os próprios conceitos de ‘tempo’ e de ‘espaço’…A cultura da internet usa exatamente os nossos termos, mas com significados diferentes…A internet é uma cultura antes de ser um instrumento de informação e coloca grandes problemas mesmo do ponto de vista ético» (*)



Vivemos, de facto, numa nova cultura. Depois da designada era de Gutenberg (século XV) ou da era de Marconi (século XX), estamos a viver numa era diferente: a era digital… depois da invenção da imprensa e da telegrafia sem fios, estamos a dar mais um passo na evolução da Humanidade.

No entanto, esta era nova do digital representa, simboliza e traz conquistas, desafios, riscos, perigos e algo mais do que uma mera adaptação do uso destes recursos ainda na sua idade primitiva.



Tecnologicamente estamos a viver aquilo que alguns entendidos consideram a ‘terceira revolução industrial’, criando novas formas de comunicar, de dar suporte às informações e mesmo às produções diversificadas. A rápida interconexão entre as pessoas parece que se faz se nos darmos conta que estamos a usufruir de algo sobre o qual não temos total controlo. Em 2010 havia 1,8 mil milhões de utilizadores da internet. Em 2016 a cifra era colocada em 3,9 mil milhões de utilizadores…

Tal como noutras épocas também nesta ‘era digital’ precisamos de ser mais do que meros utilizadores para sermos consciente e responsavelmente participantes desta nova cultura, por forma a não nos vermos ultrapassados pela tecnologia, podendo virmos a ser escravos da ‘nossa’ possível evolução… 

= Vejamos algumas das caraterizações desta ‘era digital’: «a era digital é caraterizada pela tecnologia que aumenta a velocidade e a amplitude da rotatividade de conhecimento dentro da economia e da sociedade», diz um autor americano.

Atendendo a que estamos dentro do processo da era digital talvez possa ser oportuno perceber prevenções provenientes de quem vê, interpreta e refere esta nova cultura à luz dos valores do Evangelho. Em 2011, o Papa Bento XVI intitulou a mensagem para o 45.º dia mundial das comunicações sociais: ‘verdade, anúncio e autenticidade de vida na era do digital’. Citamos:

«Vai-se tornando cada vez mais comum a convicção de que, tal como a revolução industrial produziu uma mudança profunda na sociedade através das novidades inseridas no ciclo de produção e na vida dos trabalhadores, também hoje a profunda transformação operada no campo das comunicações guia o fluxo de grandes mudanças culturais e sociais. As novas tecnologias estão a mudar não só o modo de comunicar, mas a própria comunicação em si mesma, podendo-se afirmar que estamos perante uma ampla transformação cultural. Com este modo de difundir informações e conhecimentos, está a nascer uma nova maneira de aprender e pensar, com oportunidades inéditas de estabelecer relações e de construir comunhão.
(...) A distinção clara entre o produtor e o consumidor da informação aparece relativizada, pretendendo a
comunicação ser não só uma troca de dados, mas também e cada vez mais uma partilha. Esta dinâmica contribuiu para uma renovada avaliação da comunicação, considerada primariamente como diálogo, intercâmbio, solidariedade e criação de relações positivas».
Esta nova cultura originada e feita na era digital coloca, segundo Bento XVI, várias questões: «Quem é o meu “próximo” neste novo mundo? Existe o perigo de estar menos presente a quantos encontramos na nossa vida diária? Existe o risco de estarmos mais distraídos, porque a nossa atenção é fragmentada e absorvida por um mundo “diferente” daquele onde vivemos? Temos tempo para refletir criticamente sobre as nossas opções e alimentar relações humanas que sejam verdadeiramente profundas e duradouras?».

Mal vai a nossa perceção do tempo em que vivemos, se ainda não sintonizamos com as potencialidades e os riscos desta era nova digital… O assunto é complexo e merece maior reflexão! 



(*) Das intervenções de D. Rino Fisichella, nas jornadas de atualização do clero das dioceses ao sul do Tejo, que fez nos dias 28 e 29 de janeiro, em Albufeira.



 António Sílvio Couto








terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

Mais uma vítima do processo comunista


Desde há algum tempo que a Venezuela tem sido notícia pelas dificuldades socio-materiais porque vem passando boa parte da população: prateleiras vazias, pessoas esfomeadas, falta de medicamentos, fuga de milhões para o estrangeiro, manifestações e confrontos nas ruas…governo e oposição apoiados (dentro e fora), lutas e situações de desespero…

Em duas décadas o país passou de ‘terra de promissão’ – quantos emigrantes foram para lá em busca de vida melhor – para espaço de convulsão, onde os lucros do petróleo não chegam para suportar uma espécie de classe dominadora, saída do novo regime com traços marxistas e com laivos de ‘nomenclatura’ já vista noutras paragens e situações. 

Se noutros países o processo comunista demorou anos a ser visto e desmascarado, na Venezuela, algo correu muito depressa, pois os apertos dos bens essenciais rompeu com o verniz de sucesso que fascinava tantos outros, mesmo sem terem idêntica orientação ideológica. 

= A coletivização dos meios de produção costuma ser uma das primeiras orientações do processo comunista de caminhada para o poder e de exercer este. Muitas vezes o que antes dava lucro com alguma rapidez se torna em fonte de prejuízo. Aquilo que era produtor de riqueza, no regime comunista, vai-se tornando causa de problemas e de recuo nos lucros…para o Estado-patrão.

Talvez a filosofia dialético-marxista tenha influenciado o pensamento de muitos dos mentores da política no após-segunda guerra mundial, disseminando-se por várias partes do mundo…especialmente nas culturas de pobreza e de miséria. No entanto, com a queda do muro de Berlim, em 1989, ficou mais a manifesto que certas operações do processo comunista estavam eivadas de dados errados e, por conseguinte, com resultados desastrosos. Só quem não foi capaz de fazer o ‘reset’ da sua educação não percebeu que se continuassem a insistir na fórmula, os proveitos seriam ainda piores. Isso mesmo aconteceu já no Brasil com década e meia de regime dito socialista, agora na Venezuela e – como sempre – em Cuba, na Coreia do Norte e um pouco, à sua maneira, em Angola ou Moçambique… 

= O sistema de ditadura e em muitos casos de culto da personalidade torna a leitura de escolhas do processo comunista como uma fórmula de identificar causas e consequências. Se bem que, nalguns casos, se fale do ‘coletivo’ como forma de expressão dum pensamento/práxis de todos, nota-se a presença de uma figura que catapulta as massas e faz com que sigam as suas orientações ‘religiosamente’.

Adstrito a todo este processo comunista é habitual vermos uma forte aposta na militarização do regime, levando, nalguns casos, a que o resto da população passe até fome, mas os guardas pretorianos têm um tratamento especial. Com efeito, tê-los do seu lado é uma espécie de garantia de prolongamento no poder… 

= Há questões de teor mais ou menos amplo que gostaríamos de colocar, sabendo que os visados talvez não leiam estas inquietações.

. Será que ainda não se percebeu que a pessoa humana é muito mais do que consolação da matéria ou promoção do bem-estar efémero?

. Será que as regalias (ditas) materiais suplantam a condição de queremos ser mais do que animais rastejantes e satisfeitos com coisas materiais?

. Será que os servidores do processo comunista não enxergam – ou não querem ver – que a democracia não é só a da sua cor?

. Será que quem conduz ou deve conduzir os povos não aprendeu a conviver com a diferença e só faz da sua opinião a bitola do seu comportamento?

Mal vai um povo, uma nação ou uma cultura se os intervenientes não reconhecerem as perspetivas dos outros, pois estes merecem o mesmo respeito que nós reputamos para nós mesmos. Atendendo aos frutos do processo comunista talvez falte o contraditório para que sejamos todos cidadãos com igualdade de direitos e de deveres…em qualquer parte do planeta Terra!

 

António Sílvio Couto

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

O dom como paradigma...do voluntariado


«Contra a cultura do descarte e da indiferença, cumpre-me afirmar que há-de colocar-se o dom como paradigma capaz de desafiar o individualismo e a fragmentação social dos nossos dias, para promover novos vínculos e várias formas de cooperação humana entre povos e culturas», considera o Papa Francisco na sua mensagem para o 27.º dia mundial do doente, que se celebra a 11 de fevereiro.
Tendo por espaço emblemático da celebração deste ano, Calcutá (Índia), o Papa faz uma espécie de teologia do voluntariado, atendendo à santa que nesta cidade se tornou um sinal, um exemplo e um testemunho, Santa Madre Teresa.
Explicando o significado cristão de dom, o Papa Francisco, explicita que «como pressuposto do dom, temos o diálogo, que abre espaços relacionais de crescimento e progresso humano capazes de romper os esquemas consolidados de exercício do poder na sociedade... O dom é um reconhecimento recíproco, que constitui o caráter indispensável do vínculo social. No dom há o reflexo do amor de Deus que culmina na encarnação do Filho Jesus e na efusão do Espírito Santo».
= Gratuidade voluntária à semelhança de Santa Teresa
«Aproveitando a circunstância desta celebração solene na Índia, quero lembrar, com alegria e admiração, a figura da Santa Madre Teresa de Calcutá, um modelo de caridade que tornou visível o amor de Deus pelos pobres e pelos doentes», realça o Papa Francisco na sua mensagem, onde traça as linhas-mestras daquilo que se pode considerar gratuidade do voluntariado, associado à solicitude da Igreja pelos direitos dos doentes.
Eis algumas das frases expostas na mensagem papal:
- ‘A gratuidade humana é o fermento da ação dos voluntários, que têm tanta importância, quer no sector social, quer no da saúde’;
- ‘A vossa presença expressa a solicitude da Igreja é o da tutela dos direitos dos doentes, sobretudo de quantos se veem afetados por patologias que exigem cuidados especiais, sem esquecer o campo da sensibilização e da prevenção’;
- ‘Revestem-se de importância fundamental os vossos serviços de voluntariado nas estruturas de saúde e no domicílio, que vão da assistência ao apoio espiritual’;
- ‘O voluntário é um amigo desinteressado, a quem se pode confidenciar pensamentos e emoções; através da escuta, ele cria as condições para que o doente deixe de ser objeto passivo de cuidados e se torne sujeito ativo e protagonista duma relação de reciprocidade,’;
- ‘O voluntariado comunica valores, comportamentos e estilos de vida que, no centro, têm o fermento da doação. Deste modo realiza-se também a humanização dos cuidados’;
- ‘As estruturas católicas são chamadas a expressar o sentido do dom, da gratuidade e da solidariedade, como resposta à lógica do lucro a todo o custo, do dar para receber, da exploração que não respeita as pessoas’.
À semelhança daquilo que o Papa Francisco apresenta como a experiência da nossa fragilização – ‘não devemos ter medo de nos reconhecermos necessitados’ – assim a celebração deste dia mundial do doente, sob o tema ‘recebestes de graça, dai de graça’, nos possa fazer a todos experimentar a comunhão com os nossos irmãos doentes que são uma graça e um desafio à nossa condição de doentes mais ou menos praticantes, isto é, que estamos umas por outras vezes em condição de recebermos cuidados, sabendo-os dar aos outros com carinho e ternura.
Na doença não há muitas lições a dar nem a receber, talvez haja é experiências a partilhar... com humildade e simplicidade diante de nós mesmos e relativamente aos outros.

Na doença experimentamos facetas da nossa fragilização e isso confronta-nos, constantemente, com termos de assumir, de forma consciente e amadurecida, tantas das lacunas que tentamos camuflar, esconder ou maquilhar…

Na medida em que nos deixarmos ajudar, mesmo por ocasião de algum achaque de doença, poderemos permitir aos outros serem para connosco figuração do ‘bom samaritano’ em ato…

António Sílvio Couto

quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

Voltar a levar Deus ao homem de hoje


«A Igreja é chamada, de facto, a confrontar-se com uma condição eclesial, social e cultural totalmente inédita em relação ao passado. Sabemos que vivemos dentro de um contexto caraterizado pela indiferença e pelo ateísmo prático. O secularismo defendeu a tese de viver no mundo, como se Deus não existisse» - referiu D. Rino Fisichella, nas jornadas de atualização do clero, que estão a decorrer em Albufeira, Algarve.

Subordinadas ao tema: ‘o homem caminho de Cristo e da Igreja’ estas jornadas reúnem mais de uma centena de padres e diáconos das dioceses ao sul do Tejo.

Nos primeiros dias – 28 e 29 de janeiro – teve especial intervenção o responsável do Conselho Pontifício para a promoção da nova evangelização, que apresentou duas conferências – ‘o homem em crise: o desafio das antropologias’ e ‘a autonomia das realidades temporais: secularismo e/ou secularização. Que evangelização para o mundo hodierno’.

Nesta segunda conferência, D. Rino Fisichella salientou que «tendo deixado Deus de parte, o homem do nosso tempo perdeu-se a si mesmo. Deus perdeu o seu lugar central e, consequência disso, também o próprio homem perdeu o seu lugar. É preciso voltar a levar Deus ao homem de hoje. É urgente mostrar a exigência de uma renovada apresentação da fé, que seja capaz de responder à pergunta escondida no mais profundo do coração de cada pessoa: como posso encontrar Deus?».  

= Questões essenciais de antropologia

Partindo da abordagem de questões de antropologia, o presidente do Conselho pontifício apresentou alguns aspetos para a reflexão dos clérigos reunidos em Albufeira.

Respigamos algumas das frases proferidas:

- ‘Não esqueçamos que o contexto cultural em que vivemos se alterou profundamente em relação ao passado. Nas últimas décadas podia falar-se legítima e facilmente de antropologias no plural, porque a visão do mundo era multiforme. O contexto de globalização e a cultura da internet impõem um modelo uniforme em que as diferenças são superadas pela perspetiva de uma antropologia de sentido único’.

- ‘A cultura digital, além de ter relativizado o conceito de verdade, parece que varreu os próprios conceitos de tempo e de espaço… A cultura da internet usa exatamente os nossos [da Igreja católica ]termos, mas com significados diferentes’.

- ‘Já está a caminho uma outra revolução, a individualista. Eliminada cuidadosamente a escatologia demasiado imanente do pensamento socialista, o fenómeno individualista avança com as suas pretensões, que vão impondo nas legislações, sem a mínima perceção do limite que consigo transportam. A escatologia individualista alimenta-se do alargamento da esfera privada, da progressiva erosão do compromisso social, da permanente exigência dos direitos e do desamor por toda a espécie de responsabilidade política’.

- ‘Lado a lado com o egoísmo e o individualismo apresenta-se hoje o fenómeno cultural do narcisismo… O que se está a verificar, de facto, é o cume do individualismo que, no caso do narcisismo, evidencia o nascimento de um traço até agora inédito do indivíduo nas relações consigo mesmo, com o próprio corpo, com os outros, com o mundo, enfim, um recurvar-se do homem sobre si mesmo, numa forma de autorreferencialidade que se torna norma de vida e critério de julgamento’.

- ‘Uma transformação antropológica que contempla a promoção de um puro individualismo que tende apenas para a valorização de si mesmo. Em poucas palavras, o ‘eu’ torna-se o umbigo do mundo, à volta do qual tudo gira… São vários os exemplos que se pode dar para evidenciar a tendência narcisista deste momento cultural. Uma primeira referência pode ser feita certamente à moda da selfie… Não podemos subestimar a elevação do corpo à condição de um verdadeiro objeto de culto… A condição narcisista não exclui o outro, mas deseja vê-lo contruído à sua medida e a seu gosto… As relações deixam de ser interpessoais para passar a ser inter-individuais’.

Numa palavra: ‘a Igreja é chamada a revigorar-se a si mesma naquilo que tem de essencial, como é o caso do anúncio missionário’… O caminho está em aberto, é longo e precisa de ser bem estudado, conhecendo o melhor possível homem/mulher deste tempo, a sua cultura e circunstâncias!

 

António Sílvio Couto

sábado, 26 de janeiro de 2019

Corja… quem e porquê?


Segundo vários dicionários em uso na língua portuguesa, ‘corja’ significa um ‘conjunto de pessoas caraterizadas por péssima índole, pelo mau caráter ou má conduta’. Seguindo a linha de ser uma espécie de associação, ‘corja’ pode ser um ‘coletivo de ladrões, vadios, desordeiros’ ou ainda um ‘grupo de indivíduos vis e desprezíveis, canalhada, súcia, malta, ralé, gentalha’…

O uso deste termo ‘corja’ é, nitidamente, considerado depreciativo para com quem é, assim, mimoseado… seja qual for o contexto e/ou o âmbito de intervenção. De facto, daquilo que conhecemos, o uso da palavra ‘corja’ pretende ofender quem com tal adjetivo se vê qualificado. O problema situa-se da perspetiva de quem classifica de ‘corja’ outrem, na medida em que será preciso conhecer os factos que levam a tal referência, podendo, pelo contrário, atirar-lhe com ‘corja’ à personalidade numa espécie de antecipação para que não mereça, por seu turno, idêntico tratamento. Assim se pode compreender a troca de epítetos com que temos sido assaltados, procurando descortinar quem usou primeiro ou se a resposta teve provocação… 

= Dá a impressão que as pessoas começaram um caminho de ofensa, que poderá ser complicado de suster, tais são as etapas de vulgarização e dos meios usados para que tal se possa verificar. Com a larga difusão – sem filtros nem critérios – das redes sociais temos vindo a conhecer um sem-limite para dizer, fazer mal ou ofender seja a quem for, mesmo que se coloquem os ingredientes mínimos: as pessoas têm-se vindo a nivelar, cada vez mais, pela bitola da asneira, num processo de ‘quanto pior, melhor’ e sem olhar a meios para atingir os (seus) fins…mesmo que os mais ignóbeis. 

- O respeito pela integridade moral dos outros deixou de ser valor a preservar ou a defender. Com razoável aceitação dos internautas e/ou frequentadores das redes sociais proliferam insinuações sobre tudo e para com todos… escapar desse tribunal sem juiz será uma façanha de atroz martírio e competição.

- Agora já ninguém é insuspeito, mas terá de provar que não o é, se alguém se lembrar de dizer o contrário. Com efeito, vivemos na inconsistência do contraditório, pois um alguém, até sob o anonimato, poderá lançar uma dúvida, que logo muitos outros se pronunciam sobre isso, mesmo que não conheçam os visados ou nem tenham qualidade para se declararem sobre o assunto… 

= Dada a velocidade com que as notícias, as opiniões, os factos ou as situações se verificam, temos, urgentemente (até parece que entramos em contradição), de serenar as águas turvas, as ideias virulentas, as confusões de querermos tudo depressa e sem maturação suficiente.

Eis um excerto da mensagem do Papa Francisco para o próximo dia mundial das comunicações sociais, que ocorre a 2 de junho:

«O panorama atual convida-nos, a todos nós, a investir nas relações, a afirmar – também na rede e através da rede – o caráter interpessoal da nossa humanidade. Por maior força de razão nós, cristãos, somos chamados a manifestar aquela comunhão que marca a nossa identidade de crentes. De facto, a própria fé é uma relação, um encontro; e nós, sob o impulso do amor de Deus, podemos comunicar, acolher e compreender o dom do outro e corresponder-lhe.

É precisamente a comunhão à imagem da Trindade que distingue a pessoa do indivíduo. Da fé num Deus que é Trindade, segue-se que, para ser eu mesmo, preciso do outro. Só sou verdadeiramente humano, verdadeiramente pessoal, se me relacionar com os outros. Com efeito, o termo pessoa conota o ser humano como «rosto», voltado para o outro, comprometido com os outros. A nossa vida cresce em humanidade passando do caráter individual ao caráter pessoal; o caminho autêntico de humanização vai do indivíduo que sente o outro como rival para a pessoa que nele reconhece um companheiro de viagem  

Esta sugestão do Papa Francisco precisa de fazer caminho, desde logo começando na Igreja católica, fazendo-nos sair do isolamento galopante com que certos/as religiosos/as (não tem a ver só com frades nem freiras) se engordam com as suas devoções e a ‘salvação’ da sua alminha! Os ditos ‘eremitas sociais’ – referidos na mensagem papal – são mais do que pensamos no contexto da nossa Igreja…

  

António Sílvio Couto

quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

Arroz de atum


Foi há meia dúzia de anos que uma senhora me exprimiu o ‘encanto’ desta iguaria culinária: arroz de atum. Estava ela a falar do apreço que seus filhos, entretanto dispersos do ambiente familiar, tinham por mais esta forma de cozinhar com atum…

Ora, por estes dias foi sucesso à mistura com um certo jocoso, o facto de uma dirigente partidária ter ido a um programa televisivo e cozinhado, de forma simples e provocante, o tal arroz de atum. Houve quem considerasse, que se tal figura recorria a esta forma de preparar o atum – percebeu-se que era denotativo duma certa fase de pobreza – o que aconteceria com elementos de outras ‘classes’ sociais.

Eis como, dum modo simples e rápido, se fez vir à emersão essa profunda caraterística tão lusíada de estratificar em classes as pessoas pela forma como se alimentam e de, através de preconceitos bem mais fundos do que a cor da pele, nos armarmos em defensores de uma moralidade fétida, hipócrita e mentirosa: diz-me o que comes, que te direi quem parece que és! 

= Efetivamente, estamos num tempo onde se vive mais pela aparência do que pela essência, onde a fatiota cataloga mais o estrato do que a condição, quando a carroça (isto é, o carro e demais adereços) onde se anda engana mais do que o real valor…intrínseco, sério e fundamental.

Se alguém surge pavoneando-se num carro de valor fora do normal, logo é lançado suficiente anátema sobre a procedência dos meios para o conseguir… alguma rede de coisas menos claras ou artimanhas de fuga ao controlo dos impostos. Houve fases em que se considerava isso uma exibição de meios de riqueza…não-declarada nem tributada. Por agora vão surgindo mais suspeitas do que acusações, mas a bisbilhotice das vizinhas – agora sob a alçada das postagens no face-book e afins – se encarrega de fazer a triagem mais ou menos do presente, sobre o relativo passado e ao alcance do vulnerável futuro… 

= Atendendo às inúmeras possibilidades que o dito ‘sucesso económico’ – essa miragem que nos vem vendendo nos anos mais recentes – tem trazido, é relativamente fácil vermos os restaurantes ao fim-de-semana abarrotados de clientes, muitos deles numa ostentação algo inquietante, pois muitas pessoas parecem ‘novos-ricos’ sem hábitos sociais e com tiques de algum desajuste na convivência com os outros. Bastará ver/ouvir a forma pouco respeitosa como falam em público – o barulho é denotativo dessa falta de civismo – misturando-se com um certo esbanjamento e excesso de comida, revelador duma incivilidade atroz… Despejaram dinheiro sobre as pessoas, mas não lhes deram critérios de uso, num clima de subdesenvolvimento, que em breve se pagará com nova crise… De facto, o sistema não educa, mas esmaga os incautos e mais orgulhosos! 

= Não deixa de ser sintomático que uma das ideias mais revolucionárias de certos regimes de pensamento único (totalitário e socializante) ponha a insistência no recurso, cada vez mais progressivo, aos refeitórios e cantinas de índole social, obnubilando, assim, a confeção, toma e convívio das refeições em família. Talvez, deste modo, se vá desfazendo a dinâmica do lar, infetando de ideias perniciosas (ao menos na teoria) a base da sociedade e de tudo quanto é precioso para a função da família nas raízes judaico-cristãs. Quantas vezes e de tantas formas vimos famílias unidas, sem grandes recursos económicos, mas que se mantiveram vinculadas por entre tantas dificuldades. Ao invés se foram desmoronando, quando houve mais abundância de recursos e mesmo de meios económicos… Não está em causa o ‘discurso heroico’ da miséria, mas a força que une e vincula, quando todos se respeitam e se amam! 

= De verdade à volta dum arroz de atum se pode criar algo mais do que a lamúria e se pode educar para a comunhão, nos bons como nos maus momentos. Faz lembrar a pequena estória dum casal muito idoso, que se mantinha unido, por entre diversas dificuldades. Ao que a senhora respondeu: no nosso tempo de mais novos, os meios que tínhamos não eram muitos e, quando algo se partia, mandávamos consertar…agora, quando algo se parte, com facilidade, se deita fora e se compra novo…       

   

António Sílvio Couto