Partilha de perspectivas... tanto quanto atualizadas.



quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

Voltar a levar Deus ao homem de hoje


«A Igreja é chamada, de facto, a confrontar-se com uma condição eclesial, social e cultural totalmente inédita em relação ao passado. Sabemos que vivemos dentro de um contexto caraterizado pela indiferença e pelo ateísmo prático. O secularismo defendeu a tese de viver no mundo, como se Deus não existisse» - referiu D. Rino Fisichella, nas jornadas de atualização do clero, que estão a decorrer em Albufeira, Algarve.

Subordinadas ao tema: ‘o homem caminho de Cristo e da Igreja’ estas jornadas reúnem mais de uma centena de padres e diáconos das dioceses ao sul do Tejo.

Nos primeiros dias – 28 e 29 de janeiro – teve especial intervenção o responsável do Conselho Pontifício para a promoção da nova evangelização, que apresentou duas conferências – ‘o homem em crise: o desafio das antropologias’ e ‘a autonomia das realidades temporais: secularismo e/ou secularização. Que evangelização para o mundo hodierno’.

Nesta segunda conferência, D. Rino Fisichella salientou que «tendo deixado Deus de parte, o homem do nosso tempo perdeu-se a si mesmo. Deus perdeu o seu lugar central e, consequência disso, também o próprio homem perdeu o seu lugar. É preciso voltar a levar Deus ao homem de hoje. É urgente mostrar a exigência de uma renovada apresentação da fé, que seja capaz de responder à pergunta escondida no mais profundo do coração de cada pessoa: como posso encontrar Deus?».  

= Questões essenciais de antropologia

Partindo da abordagem de questões de antropologia, o presidente do Conselho pontifício apresentou alguns aspetos para a reflexão dos clérigos reunidos em Albufeira.

Respigamos algumas das frases proferidas:

- ‘Não esqueçamos que o contexto cultural em que vivemos se alterou profundamente em relação ao passado. Nas últimas décadas podia falar-se legítima e facilmente de antropologias no plural, porque a visão do mundo era multiforme. O contexto de globalização e a cultura da internet impõem um modelo uniforme em que as diferenças são superadas pela perspetiva de uma antropologia de sentido único’.

- ‘A cultura digital, além de ter relativizado o conceito de verdade, parece que varreu os próprios conceitos de tempo e de espaço… A cultura da internet usa exatamente os nossos [da Igreja católica ]termos, mas com significados diferentes’.

- ‘Já está a caminho uma outra revolução, a individualista. Eliminada cuidadosamente a escatologia demasiado imanente do pensamento socialista, o fenómeno individualista avança com as suas pretensões, que vão impondo nas legislações, sem a mínima perceção do limite que consigo transportam. A escatologia individualista alimenta-se do alargamento da esfera privada, da progressiva erosão do compromisso social, da permanente exigência dos direitos e do desamor por toda a espécie de responsabilidade política’.

- ‘Lado a lado com o egoísmo e o individualismo apresenta-se hoje o fenómeno cultural do narcisismo… O que se está a verificar, de facto, é o cume do individualismo que, no caso do narcisismo, evidencia o nascimento de um traço até agora inédito do indivíduo nas relações consigo mesmo, com o próprio corpo, com os outros, com o mundo, enfim, um recurvar-se do homem sobre si mesmo, numa forma de autorreferencialidade que se torna norma de vida e critério de julgamento’.

- ‘Uma transformação antropológica que contempla a promoção de um puro individualismo que tende apenas para a valorização de si mesmo. Em poucas palavras, o ‘eu’ torna-se o umbigo do mundo, à volta do qual tudo gira… São vários os exemplos que se pode dar para evidenciar a tendência narcisista deste momento cultural. Uma primeira referência pode ser feita certamente à moda da selfie… Não podemos subestimar a elevação do corpo à condição de um verdadeiro objeto de culto… A condição narcisista não exclui o outro, mas deseja vê-lo contruído à sua medida e a seu gosto… As relações deixam de ser interpessoais para passar a ser inter-individuais’.

Numa palavra: ‘a Igreja é chamada a revigorar-se a si mesma naquilo que tem de essencial, como é o caso do anúncio missionário’… O caminho está em aberto, é longo e precisa de ser bem estudado, conhecendo o melhor possível homem/mulher deste tempo, a sua cultura e circunstâncias!

 

António Sílvio Couto

sábado, 26 de janeiro de 2019

Corja… quem e porquê?


Segundo vários dicionários em uso na língua portuguesa, ‘corja’ significa um ‘conjunto de pessoas caraterizadas por péssima índole, pelo mau caráter ou má conduta’. Seguindo a linha de ser uma espécie de associação, ‘corja’ pode ser um ‘coletivo de ladrões, vadios, desordeiros’ ou ainda um ‘grupo de indivíduos vis e desprezíveis, canalhada, súcia, malta, ralé, gentalha’…

O uso deste termo ‘corja’ é, nitidamente, considerado depreciativo para com quem é, assim, mimoseado… seja qual for o contexto e/ou o âmbito de intervenção. De facto, daquilo que conhecemos, o uso da palavra ‘corja’ pretende ofender quem com tal adjetivo se vê qualificado. O problema situa-se da perspetiva de quem classifica de ‘corja’ outrem, na medida em que será preciso conhecer os factos que levam a tal referência, podendo, pelo contrário, atirar-lhe com ‘corja’ à personalidade numa espécie de antecipação para que não mereça, por seu turno, idêntico tratamento. Assim se pode compreender a troca de epítetos com que temos sido assaltados, procurando descortinar quem usou primeiro ou se a resposta teve provocação… 

= Dá a impressão que as pessoas começaram um caminho de ofensa, que poderá ser complicado de suster, tais são as etapas de vulgarização e dos meios usados para que tal se possa verificar. Com a larga difusão – sem filtros nem critérios – das redes sociais temos vindo a conhecer um sem-limite para dizer, fazer mal ou ofender seja a quem for, mesmo que se coloquem os ingredientes mínimos: as pessoas têm-se vindo a nivelar, cada vez mais, pela bitola da asneira, num processo de ‘quanto pior, melhor’ e sem olhar a meios para atingir os (seus) fins…mesmo que os mais ignóbeis. 

- O respeito pela integridade moral dos outros deixou de ser valor a preservar ou a defender. Com razoável aceitação dos internautas e/ou frequentadores das redes sociais proliferam insinuações sobre tudo e para com todos… escapar desse tribunal sem juiz será uma façanha de atroz martírio e competição.

- Agora já ninguém é insuspeito, mas terá de provar que não o é, se alguém se lembrar de dizer o contrário. Com efeito, vivemos na inconsistência do contraditório, pois um alguém, até sob o anonimato, poderá lançar uma dúvida, que logo muitos outros se pronunciam sobre isso, mesmo que não conheçam os visados ou nem tenham qualidade para se declararem sobre o assunto… 

= Dada a velocidade com que as notícias, as opiniões, os factos ou as situações se verificam, temos, urgentemente (até parece que entramos em contradição), de serenar as águas turvas, as ideias virulentas, as confusões de querermos tudo depressa e sem maturação suficiente.

Eis um excerto da mensagem do Papa Francisco para o próximo dia mundial das comunicações sociais, que ocorre a 2 de junho:

«O panorama atual convida-nos, a todos nós, a investir nas relações, a afirmar – também na rede e através da rede – o caráter interpessoal da nossa humanidade. Por maior força de razão nós, cristãos, somos chamados a manifestar aquela comunhão que marca a nossa identidade de crentes. De facto, a própria fé é uma relação, um encontro; e nós, sob o impulso do amor de Deus, podemos comunicar, acolher e compreender o dom do outro e corresponder-lhe.

É precisamente a comunhão à imagem da Trindade que distingue a pessoa do indivíduo. Da fé num Deus que é Trindade, segue-se que, para ser eu mesmo, preciso do outro. Só sou verdadeiramente humano, verdadeiramente pessoal, se me relacionar com os outros. Com efeito, o termo pessoa conota o ser humano como «rosto», voltado para o outro, comprometido com os outros. A nossa vida cresce em humanidade passando do caráter individual ao caráter pessoal; o caminho autêntico de humanização vai do indivíduo que sente o outro como rival para a pessoa que nele reconhece um companheiro de viagem  

Esta sugestão do Papa Francisco precisa de fazer caminho, desde logo começando na Igreja católica, fazendo-nos sair do isolamento galopante com que certos/as religiosos/as (não tem a ver só com frades nem freiras) se engordam com as suas devoções e a ‘salvação’ da sua alminha! Os ditos ‘eremitas sociais’ – referidos na mensagem papal – são mais do que pensamos no contexto da nossa Igreja…

  

António Sílvio Couto

quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

Arroz de atum


Foi há meia dúzia de anos que uma senhora me exprimiu o ‘encanto’ desta iguaria culinária: arroz de atum. Estava ela a falar do apreço que seus filhos, entretanto dispersos do ambiente familiar, tinham por mais esta forma de cozinhar com atum…

Ora, por estes dias foi sucesso à mistura com um certo jocoso, o facto de uma dirigente partidária ter ido a um programa televisivo e cozinhado, de forma simples e provocante, o tal arroz de atum. Houve quem considerasse, que se tal figura recorria a esta forma de preparar o atum – percebeu-se que era denotativo duma certa fase de pobreza – o que aconteceria com elementos de outras ‘classes’ sociais.

Eis como, dum modo simples e rápido, se fez vir à emersão essa profunda caraterística tão lusíada de estratificar em classes as pessoas pela forma como se alimentam e de, através de preconceitos bem mais fundos do que a cor da pele, nos armarmos em defensores de uma moralidade fétida, hipócrita e mentirosa: diz-me o que comes, que te direi quem parece que és! 

= Efetivamente, estamos num tempo onde se vive mais pela aparência do que pela essência, onde a fatiota cataloga mais o estrato do que a condição, quando a carroça (isto é, o carro e demais adereços) onde se anda engana mais do que o real valor…intrínseco, sério e fundamental.

Se alguém surge pavoneando-se num carro de valor fora do normal, logo é lançado suficiente anátema sobre a procedência dos meios para o conseguir… alguma rede de coisas menos claras ou artimanhas de fuga ao controlo dos impostos. Houve fases em que se considerava isso uma exibição de meios de riqueza…não-declarada nem tributada. Por agora vão surgindo mais suspeitas do que acusações, mas a bisbilhotice das vizinhas – agora sob a alçada das postagens no face-book e afins – se encarrega de fazer a triagem mais ou menos do presente, sobre o relativo passado e ao alcance do vulnerável futuro… 

= Atendendo às inúmeras possibilidades que o dito ‘sucesso económico’ – essa miragem que nos vem vendendo nos anos mais recentes – tem trazido, é relativamente fácil vermos os restaurantes ao fim-de-semana abarrotados de clientes, muitos deles numa ostentação algo inquietante, pois muitas pessoas parecem ‘novos-ricos’ sem hábitos sociais e com tiques de algum desajuste na convivência com os outros. Bastará ver/ouvir a forma pouco respeitosa como falam em público – o barulho é denotativo dessa falta de civismo – misturando-se com um certo esbanjamento e excesso de comida, revelador duma incivilidade atroz… Despejaram dinheiro sobre as pessoas, mas não lhes deram critérios de uso, num clima de subdesenvolvimento, que em breve se pagará com nova crise… De facto, o sistema não educa, mas esmaga os incautos e mais orgulhosos! 

= Não deixa de ser sintomático que uma das ideias mais revolucionárias de certos regimes de pensamento único (totalitário e socializante) ponha a insistência no recurso, cada vez mais progressivo, aos refeitórios e cantinas de índole social, obnubilando, assim, a confeção, toma e convívio das refeições em família. Talvez, deste modo, se vá desfazendo a dinâmica do lar, infetando de ideias perniciosas (ao menos na teoria) a base da sociedade e de tudo quanto é precioso para a função da família nas raízes judaico-cristãs. Quantas vezes e de tantas formas vimos famílias unidas, sem grandes recursos económicos, mas que se mantiveram vinculadas por entre tantas dificuldades. Ao invés se foram desmoronando, quando houve mais abundância de recursos e mesmo de meios económicos… Não está em causa o ‘discurso heroico’ da miséria, mas a força que une e vincula, quando todos se respeitam e se amam! 

= De verdade à volta dum arroz de atum se pode criar algo mais do que a lamúria e se pode educar para a comunhão, nos bons como nos maus momentos. Faz lembrar a pequena estória dum casal muito idoso, que se mantinha unido, por entre diversas dificuldades. Ao que a senhora respondeu: no nosso tempo de mais novos, os meios que tínhamos não eram muitos e, quando algo se partia, mandávamos consertar…agora, quando algo se parte, com facilidade, se deita fora e se compra novo…       

   

António Sílvio Couto

segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

Qual o sentido correto do peditório na missa?


Quem participa habitualmente na missa – de domingo ou mesmo de semana – está acostumado a ver que, por ocasião do (designado) ofertório, alguém passe reconhecendo as ofertas – particularmente em dinheiro – daqueles que estão presentes na missa.
Ora, sendo este costume uma forma de participar na missa, qual é o significado profundo e primeiro desta atitude? Será uma recolha de fundos para a gestão da igreja? Poderá ser entendido como um modo de participar nas despesas da igreja, da paróquia ou do ‘pagamento’ dalgum serviço prestado pela igreja ou pelo padre?
Noutro aspeto mais relevante e que precisa mesmo de ser educado: esse peditório serve para dar o contributo pelas intenções da missa, seja pelos defuntos ou por outra qualquer intenção? Não haverá, na cabeça de muitas pessoas, uma certa ligação entre o peditório e o ‘pagamento’ (mesmo que gracioso e sem estipular o montante) pelas intenções enunciadas no decorrer da celebração da missa? Não será preciso corrigir e educar para a partilha por ocasião da entrega e da recolha do peditório na missa?
Pois bem, antes de tudo o dito ‘peditório’ é uma partilha entre irmãos na mesma fé e não um pagamento de serviços. Estes podem ser recebidos de outra forma e noutras instâncias, que não por ocasião da celebração da missa. Esta não tem preço e colocar, seja o que for na missa sob a forma de pagamento, é incorrer em simonia, isto é, compra/venda de ações sagradas, logo um pecado contra Deus e ofendendo a comunhão entre os irmãos. O correto será dizer partilha ou oferta por ocasião da celebração dos sacramentos e, duma forma especial, da missa.
Se é oferta e esta inserido por ocasião do ofertório, esse momento em que cada um de nós é chamado a oferecer-se a Deus, podendo o contributo económico ser um deles, mas haverá tantos outros que envolvam a oferta de mim mesmo, pela apresentação dos dons – simbolizados por excelência no pão e no vinho apresentados – ao altar, onde, por excelência Jesus se dá e se nos dá todo a todos.
Como a capacidade de oferta se educa, se esclarece e se amadurece, temos que o peditório na missa poderá representar mais do que a simples dádiva/entrega de moedas ou notas de dinheiro para envolver sempre mais e melhor a disposição para a partilha, o reconhecimento e a oferta do que somos e do que temos…a Deus, na e pela eucaristia.

Deixamos a finalizar uma citação da Instrução Geral ao Missal Romano, n.º 73, onde se insere com maior propriedade aquilo que desejamos abordar:
«A iniciar a liturgia eucarística, levam-se para o altar os dons, que se vão converter no Corpo e Sangue de Cristo.
Em primeiro lugar prepara-se o altar ou mesa do Senhor, que é o centro de toda a liturgia eucarística; nele se dispõem o corporal, o purificador (ou sanguinho), o Missal e o cálice, salvo se este for preparado na credência.
Em seguida são trazidas as oferendas. É de louvar que o pão e o vinho sejam apresentados pelos fiéis. Recebidos pelo sacerdote ou pelo diácono em lugar conveniente, são depois levados para o altar. Embora, hoje em dia, os fiéis já não tragam do seu próprio pão e vinho, como se fazia noutros tempos, no entanto o rito desta apresentação conserva ainda valor e significado espiritual.
Além do pão e do vinho, são permitidas ofertas em dinheiro e outros dons, destinados aos pobres ou à Igreja, e tanto podem ser trazidos pelos fiéis como recolhidos dentro da Igreja. Estes dons serão dispostos em lugar conveniente, fora da mesa eucarística».
Queira Deus que assim vivamos o sentido das coisas e a digna celebração dos mistérios divinos.

 

António Sílvio Couto

domingo, 20 de janeiro de 2019

Discriminações não-justificadas


Quem tenha tempo e possa ver os programas televisivos, em canal aberto, sobretudo aos sábados e domingos, poderá ver uma espécie de romaria em competição para fazerem sobressair os espaços que pretendem mostrar.

Normalmente, nessa amostragem regional, aparecem diferentes ingredientes mais ou menos soprados por quem convida ou por quem suporta (o mesmo quererá dizer por quem paga) a efabulação da cidade, vila ou lugarejo em destaque… Raramente vemos surgir na pantalha referências ao substrato cultural do cristianismo nessas abordagens. Instituições ou agremiações associadas à Igreja católica muito poucas vezes são referidas e, sobretudo, a ação das paróquias é como que obnubilada ostensiva, clara e categoricamente. 

= No dia 19 de janeiro o canal público de televisão esteve nove horas em emissão da Moita, tendo como pano de fundo o edifício da edilidade. Por ali desfilaram coisas e loisas, num aparente cardápio encomendado, cifrado e/ou rotulado… Das coisas da Igreja talvez tenha havido algumas referências alusivas – vi muito pouco e de raspão – onde o sujeito das notas ficou subentendido, embora usado como possa ter sido conveniente.

Fique claro: nada me move quanto aos critérios de programação nem tão pouco me sinto preterido na discriminação, mas torna-se algo abjeto ignorar a ação cultural da Igreja católica, mesmo que não se tenha nenhuma afinidade com ela. Muitas das instituições que agora – isto é, há pouco mais quatro décadas – se acham donas e senhoras da condução das populações ainda são suficientemente imberbes para ombrear com a história da paróquia e mesmo da diocese. Há coisas e situações que democracia alguma pode pretender ofuscar e será de muito mau tom e pior conduta pretender confrontos com quem não tem nada a provar nem tão pouco a temer. Pelo contrário, quem assim se comporta manifesta razoável ignorância, pouco sentido de respeito e, sobretudo, incapacidade de criar sinergias de bom serviço às populações…que dizem defender! 

= Em jeito de reflexão ouso colocar algumas questões…mais para ajudar do que para denunciar:

* A Moita seria o que é (mal ou bem) sem a sua padroeira (religiosa e cristã), que é Nossa Senhora da Boa Viagem?

* Não haverá certos preconceitos, nem sempre assumidos, de medo para com a força da ‘santa’, que inquieta e amedronta (bastante) alguns espíritos?

* A energia subjacente da Mãe de todos não incomodará certos comportamentos impacientes de poderem perder a força que não têm ou estão a verem esvair-se?

* Não haverá ainda fantasmas de antanho que perturbam a leitura da mudança dos tempos e das escolhas sem rótulo nem encomenda?  

= Uma cultura e uma sociedade ancorada em preconceitos e vão temores não evoluirá…e a Moita é disso um exemplo… e no dia 19 de janeiro de 2019 mostrou-o sem máscaras nem disfarces. Assim, não!   

 

António Sílvio Couto

terça-feira, 15 de janeiro de 2019

A ‘fidelidade’ daquele cão…


Foi notícia por estes dias: um homem paraplégico morreu carbonizado na sua própria casa. O facto é de per si trágico e confrangedor. Por entre os destroços daquilo que foi uma habitação sobressai – dizem as reportagens – um cão que não abandona o local, farejando e esperando o regresso do dono falecido. Houve quem se oferecesse para adotar o animal, levando-lhe comida e bebida, mas nem assim o fiel cão sai de estar ao pé do lugar onde viveu, tanto quanto se pode perceber, com o dono…

Embora haja a expetativa de que, com o passar do tempo, possa trocar aquilo que foi uma casa por outro lugar mais confortável, podendo haver quem cuide dele, este episódio faz-nos – ou deve fazer-nos – refletir sobre vários aspetos, desde o relacionamento entre as pessoas e os animais, passando pelo trato que lhes damos e até àquilo que pode distinguir os sentimentos humanos – por estes tempos algo confusos e baralhados – e os nítidos sentimentos dos animais na sua base mais significativa. 

= Já há dias se ouviu relatar que alguns cães percorreram quilómetros atrás da ambulância que levou um sem-abrigo para o hospital. Foi no Brasil: o homem teve um colapso cardíaco e os seus seis cães – devidamente vacinados e tratados – estiveram à porta do hospital até que ele saiu passados uns dias, voltando à rua onde vive há vinte anos.

Quando se fala tanto da proteção aos animais, estes exemplos podem tornar-se reveladores do que há (ou pode haver) de vinculativo entre os humanos e os outros animais, seja qual for o porte ou mesmo a sua expressão mais ou menos doméstica. 

= Não estamos nessa onda de aparente superiorização dos animais sobre os humanos, que certas forças andam por aí a fomentar, a divulgar e a promoverem-se... Os animais têm a sua caraterística no processo da obra da criação divina, continuando os humanos a serem aqueles que, segundo as Sagradas Escrituras, foram criados ‘à imagem e semelhança de Deus’, portanto como os interlocutores essenciais e privilegiados para com Deus.  

= Se os maus tratos perpetrados contra os animais denunciavam uma fase mais ou menos desumanizante dos humanos, não será que este excesso de dedicação para com eles reproduz uma outra fase não menos desumana para com os humanos? Não será que certas dedicações aos animais (de companhia e não só) revelam que estaremos a entrar numa etapa desafetiva para com os humanos e carinhosa para com os animais?

De facto, não alinho nessa tendência, um tanto crescente, de substituição dos filhos pelos animais, e com tais cuidados que algo parece revelar qualquer outra dimensão que tem a ver com uma menos boa ou não-razoável integração psicológica e/ou emocional. Certas manifestações exteriores de carinho e de afeto para com os animais poderão significar que algo se perverteu na ordem natural das coisas, na medida em que os filhos parecem não-ser mais do que meros adornos e/ou acidentes de percurso.

Faz-me lembrar, na linha dum certo anedótico, essa situação em que, uma família tendo ido ao restaurante, sobejou comida no final. Ora, não querendo desperdiçar o que não foi consumido, o pai pediu ao empregado se podia colocar isso numa caixa para levar para casa ‘para o cão’…Ouvindo isto, a filha mais nova, sabendo que não tinham cão algum, regozijou-se, dizendo: vamos ter um cão, vamos ter um cão!

Não precisando os cães (e outros animais do círculo familiar) das sobras, fica-nos desta estória que não se pode mentir às crianças, mesmo que não se tenha ideia de vir a ter um cão ou, pior, os animais, que circulam pela casa, têm, hoje, quase melhor estatuto do que as crianças. 

= Inseridos na complexidade do ambiente familiar torna-se, cada vez mais importante, saber que lugar ocupam (ou devem ocupar) os animais no tecido da família, pois, se não nos acautelarmos, teremos animais tratados de forma principesca e os humanos de forma tendencialmente descartável, como tão sabiamente nos vem prevenindo o Papa Francisco, para dentro e para fora do espaço eclesial…      

   

António Sílvio Couto


segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

‘Remar e cavar…hoje como ontem’


Com este título - Remar e cavar...hoje como ontem - saiu, por estes, um pequeno livro, com cento e oitenta páginas, tornado público na área da paróquia da Moita.
Como se lê na contra-capa: «Na primeira parte são coligidos 60 pequenas estórias, que foram publicadas na folha da Paróquia da Moita entre setembro de 2017 e novembro de 2018, nas quais se tenta fazer um percurso de reflexão sobre vários aspetos desta paróquia, percorrendo as povoações que a compõem..
Em forma de apêndice é apresentado um percurso como se fossem umas ‘memórias’ sobre os momentos mais significativos dos 60 anos de vida»... de António Sílvio Couto.
Este é o trigésimo sétimo título publicado pelo autor.
‘Remar e cavar...hoje como ontem’ tem como subtítulo: 60 estórias e memórias, marcando desde logo um âmbito datado, pois com esta publicação se quis assinalar sessenta anos de vida do autor, apresentando estórias que têm a Moita - paróquia, que, por seu turno, abrange três freguesias - espaço geográfico e abordando questões um tanto especificas de cada lugar...onde as ‘cenas’ são inventadas e as ‘personagens’ fictícias, embora não meramente ficionadas.
Naquilo que é considerada uma espécie de ‘apêndice’ é feita uma retrospetiva de sessenta anos de vida, onde, como se diz na nota explicativa «é apresentado um percurso como se fossem umas ‘memórias’ sobre os momentos mais significativos dos 60 anos de vida, desde o berço (que não foi de ouro, antes pelo contrário) até à vida de padre (tanto no tempo de ‘jornalista’ como mais recentemente como pároco), passando por essa razoável etapa de formação desde a escola primária até ao seminário, sem esquecer o que foi gasto na formação intelectual, cívica, moral, teológica e espiritual... em diferentes lugares e tempos.(...) Aqui são colocadas em registo aspetos e visões muito pessoais, nalguns casos adjetivando as situações... Nada há de muito restrito, embora não se possa esquecer que algo se pretende dizer ao colocar, muitas vezes, reticências (...) por entre as frases e, sobretudo, a terminar as diferentes avaliações. 60 anos não é muito tempo, hoje, mas já é algum... Eis tão somente uma leitura»...
De referir que esta publicação tem a chancela da Paulinas Editora, embora com tiragem dedica à Paróquia da Moita.

ASC