Partilha de perspectivas... tanto quanto atualizadas.



sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

Sublimes patranhas


Na exposição frenética das notícias diárias vemos alguns setores andarem numa roda-viva: o governo a intoxicar com investimentos de milhões (ferrovia, espaço aéreo, subterrâneo, etc.)…querendo fazer em meses o que esteve cativado em anos; clubes desportivos com dinheiro à fartura para treinadores e jogadores; uns praticantes em final de carreira que se travestem de generosos ao regressarem à pátria porque usufruem de descontos para metade nos impostos; coisas e loisas de boa vontade que encobrem jogadas fabricadas para público (desatento, flácido e manipulado) se enfeitiçar…

Alguns episódios parecem, desde logo, tão inverosímeis, que podem facilmente ser descartados. Outros momentos por tão repetitivos, logo geram desconfiança. Nalguns casos nota-se alguma subtileza nos assuntos, enquanto noutros parece que se capta com facilidade a desconexão entre as pretensões e a realidade.

Estas sublimes patranhas quase parecem ‘falsas notícias’ tal a ténue credibilidade com que aparecem a um público mais atento, exigente e com outros critérios que não sejam a filiação partidária, a ansiedade de protagonismo ou até o insuficiente discernimento sobre aquilo que nos vendem a toda a hora…  

= A máquina das agências noticiosas – essas que fazem e gerem as agendas dos jornais e os alinhamentos televisivos – estão em constante laboração: fabricam factos e trucidam personagens, fazendo com que, quem lhes paga, esteja na crista da onda, qual surfista em maré de campeonato final…

Progressivamente se vai dessacralizando o dogma da comunicação social, essa que permite atingir o poder, prolongar-se nele e arranjar lacaios para que continuem a ser gerados novos militantes. Com que habilidade temos de deixar de ser fiéis do mesmo noticiário, do mesmo canal de rádio ou até do mesmo jornal. Confrontar os critérios de seleção das notícias faz com que tenhamos de saber aferir-nos à diversidade dos pontos de vista, sem nos deixarmos manipular só por uma perspetiva, a de quem noticia ou quer vender o produto informativo. 

= Vejamos exemplos, a partir do enunciado supra citado:

– o tal jogador que escolheu uma equipa portuguesa para vir jogar agora, soube aproveitar o desconto que o governo propôs de cinquenta por cento no IRS, durante cinco anos. Foi isto, generosidade ou habilidade? Porque não se disse (quase) nada sobre o assunto? Quem fica a ganhar com estas habilidades?

 – se o relatório ambiental chumbar o projeto, não haverá aeroporto no Montijo. Era necessária tanta pompa e aparato para algo que pode não passar dum bluff e de ‘fake news’? Havia necessidade de enganar deste modo o povo e de gastar tanto tempo com algo incerto e talvez errático?

– o tempo gasto sobre certos clubes de futebol é excessivo e fastidioso. Porque será que algumas notícias são espremidas até à exaustão, enquanto outros passam incólumes e vão fazendo o seu trabalho de ganhar a todo o custo? Uns vendem, outros dispersam? 

Nota – Aconteceu num canal televisivo, em direto, o abandono de dois (dos quatro) convidados para comentarem um assunto, dando como razão a manipulação duma reportagem – ao que disseram feita à revelia dos intervenientes – e sobre casos pré-pagos. Pena é que um dos participantes se escondesse não no armário mas por trás duma cortina encomendada… Mais uma patranha bem cozinhada, mas bastante mal servida!

Coragem, precisa-se.

 

António Sílvio Couto



quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

Armadilha do ‘azul e rosa’


Vindo do outro lado do Atlântico chegou à nossa sociedade a discussão do ‘azul e rosa’, isto é, a insistência em conotar com estas cores o sexo das pessoas: azul para rapaz e rosa para rapariga. Numa declaração mais fundamentalista – no correto e essencial significado do termo – das cores do sexo masculino e do sexo feminino, respetivamente.

Será este o problema essencial na vida daquele país? Teremos nós de entrar numa discussão que tem tanto de inoportuna quanto de patética? Para ir ao fundo do problema – a ideologia de género – será preciso arranjar fait-divers com perda de tempo e de significado? Trazer novamente este assunto para a praça pública, no contexto geral e nacional, será algo de sério ou de mero folclore sem engenho? 

= Parece importante tratar esta questão como racionalidade e não reduzi-la a um amontoado de emoções, muitas delas mal digeridas e, sobretudo, vulgarizar uma discussão que devia ser serena e sensata. Num tempo tão marcado por interesses de lóbi, este assunto ‘azul e rosa’ e dos mais fraturantes em certas sociedades e sê-lo-á ainda mais se forem introduzidos acepipes de natureza politica, partidária ou mesmo religiosa…

Este assunto pode até camuflar angústias a quem vive o problema de forma dorida, misturando tudo e o seu contrário para que se vá disfarçando outros problemas e adiando a solução do que é sério. Isto não é uma questão de direita nem de esquerda, é um assunto da personalidade da pessoa humana, no concreto de alguém que tem, vive e sofre consigo mesmo e no relacionamento com os outros. Mal vai o problema, seja ele qual for, se o próprio não se sente parte da solução e entrega esta a outrem que o pode manipular e usar como mais lhe convier. 

= De facto, não será pela cor da roupa que iremos guiar-nos nem ficaremos pendurados na bandeira do ‘arco-íris’ para sermos mais ou menos defensores da igual dignidade das pessoas, tenham elas a orientação sexual que manifestem. Com efeito, esta questão do ‘azul e rosa’ – adstrito ao sexo que se considere – não passa dum falso problema e, por vezes, não é quem muito fala e reclama que mais faz pelo reconhecimento e a aceitação da diferença. Efetivamente, torna-se complicado discernir o que é ou pode ser congénito daquilo que é ou pode ser influência do meio e mesmo da educação. Por isso, não podemos deixar-nos condicionar por ‘modas’ nem por ‘fantasmas’, sejam de que coloração se apresentarem, pois cada pessoa é única e irrepetível e merece ser tratada com respeito, com sensatez e, sobretudo, com o máximo da dignidade…coisa que certos setores não têm deixado que seja feito, tentando impor a tal ‘ideologia de género’, que mais não é do que um género de ideologia, pretensamente progressista, mas manipuladora dos sentimentos e das emoções das pessoas mais fragilizadas e, por vezes, marginalizadas… 

= Valerá a pena reler o que diz o Catecismo da Igreja Católica sobre este assunto: «Um número não negligenciável de homens e de mulheres apresenta tendências homossexuais profundamente enraizadas. Esta inclinação objetivamente desordenada constitui, para a maioria, uma provação. Devem ser acolhidos com respeito, compaixão e delicadeza. Evitar-se-á para com eles todo sinal de discriminação injusta. Estas pessoas são chamadas a realizar a vontade de Deus em sua vida e, se forem cristãs, a unir ao sacrifício da cruz do Senhor as dificuldades que podem encontrar por causa de sua condição» (n.º 2358)

Toda a forma de discriminação é considerada ofensiva. Também neste campo ela é assim… Tudo o resto – o favorecimento em particular – por ser desta forma não será maior discriminação de quem não é dessa forma? Ou será obrigatório deixar de ser normal para se ser exceção? Excecionar em excesso faz disso normalidade?

 

Por favor: haja maior bom senso e superior racionalidade, seja lá a cor de que se vista ou pela qual se tenha preferência, em vestir, despir ou assumir!    

 

António Sílvio Couto

segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

Tontices da (nossa) democracia


Eis senão quando se abriu a caixa-de-pandora da nossa democracia. As reações parecem ser um tanto infantilizadas, pois um órgão de comunicação social levou às suas instalações e fez ouvir as opiniões um tal senhor apelidado de neonazi, com ideias nada-democráticas à mistura com arrebiques xenófobos, racistas e, no seu conceito, mais ou menos nacionalistas…Outros dizem-se ‘patriotas’!

Uns senhores advogados do antirregime que não o deles, querem que seja castigado quem deu voz e som a quem, sendo diferente deles, não tem espaço, em seu entendimento, na sociedade democrática lusitana. Mas a democracia não é para todos, até para com aqueles que pensam, dizem e atuam de forma diferente de mim? Não andaremos a usar as mesmas armas dos ditadores que vislumbramos nos outros? Não será tão legítima a opinião de uns e não a exclusiva dos meus? 

Acima de tudo o que está em causa é a rotura de comunicação que se tem vindo a fabricar fora dos circuitos tradicionais dos jornais impressos, das rádios estabelecidas, das televisões licenciadas… Agora a comunicação faz-se sem controlo, sem grelha e (talvez) sem estatuto de editorial. Quando deram crédito às informações veiculadas por telemóveis, a partir de gente sem critério, mas onde a necessidade de chegar primeiro ultrapassou o bom-senso, estava-se a abrir a porta para todos e mais que fossem os populismos, as posições díspares e sem consequências…

Estes são os custos da evolução da informação, que escapa à censura das maiorias políticas/ideológicas, votadas ou legalizadas, com expressão ou ridículas…Os velhos e anquilosados esquemas de campanhas eleitorais – com comezainas e discursos longos, com militantes arregimentados em camionetas à pressa e tudo o que de certinho estava adquirido – acabaram! Agora sem sair de casa um qualquer ‘iluminado’ pode fazer chegar a sua mensagem a milhões pelas redes sociais. Ora, o povo que assim é doutrinado será mesmo ignorante como alguns nos querem fazer crer? O Brasil tem tantos milhões de ignorantes…só porque votaram fora do esquema dominante em década e meia? 

= Nota-se que as ‘novas tecnologias’ – novas só para quem for sexagenário e mais velho…de mentalidade – ultrapassaram o regime de censura em que uma parte dos políticos profissionais e outros ‘senhores’ quiseram amordaçar uma longa e farta maioria silenciosa do nosso país. Os critérios de conduta mudaram rapidamente e os barões/baronesas da democracia estão a ver-lhes fugir o (pretenso) prestígio. As mordomias estão a acabar e o reinado de quem se perpetuava no poder está prestes a cair. Por isso, de pouco adiantará tentar controlar quem discorda neste pântano, pois os meios postos à disposição de todos farão terminar a ditadura com que nos têm feito viver…em quase cinco décadas ‘democráticas’.

Deixem aparecer as novas formas de expressão da vontade popular e cuidem-se para que, no essencial, estejamos de acordo, pois o individualismo para o qual nos empurraram, esse sim, é preocupante. Agora que estamos nesta outra fase cultural e temos de aprender a lidar com a diferença, mesmo que essa seja mais presumida do que real. De pouco adianta gritar pelo socorro, se já metemos em casa o ladrão. Torna-se urgente deixar de culpar os outros, mas cada um deve assumir as suas culpas e questionar-se sobre que tipo de democracia vive e faz… 

= Não deixa de ser revelador da confusão – resultado da perda em valorização que achavam ter – que alguns dos ditos servidores do povo continuam a manifestar: ainda não sabem que valem tão pouco e esbracejam como náufragos para sobreviverem na complexidade do mundo, onde perderam o protagonismo…embora com as mesmas regalias na letra e nos proventos.

Algumas das associações e mesmo das personalidades protestantes no ‘caso’ em presença não passam de servos duma gleba falida e/ou arrebanhadores de benesses por informação privilegiada. Basta de protegidos e de enteados nesta democracia, que já devia ser mais adulta, senão pela maturidade ao menos pela idade! Basta de protecionismo para uma certa corrente ideológica, que se esconde por trás da defesas das suas democracias, consideradas ditaduras noutras latitudes, tanto do passado como no presente…

   

António Sílvio Couto

Qual a idade ‘ideal’ para ser batizado?


Atendendo a que, no próximo domingo (13 de janeiro), se celebra a festa litúrgica do Batismo do Senhor, e com ela se encerra o tempo celebrativo do Natal, pareceu que podia ser oportuno colocar algumas questões sobre tema e aflorar aspetos deste sacramento básico da fé cristã.

Se tivermos em conta as várias circunstâncias da vida atual poderemos perguntar: será conveniente batizar uma criança? Até que idade poderá ser batizada uma criança sem se exigir maior preparação? Que tempo pode e deve um adulto dedicar para receber o batismo?
Num tempo algo anódino sobre questões de fé, será que é desprezível batizar uma pessoa – particularmente se for criança – mesmo que os pais não sejam casados catolicamente ou até que nem sejam batizados? Será de recusar a semente do batismo em quem crepita uma ténue de luz de fé ou de desejo por Deus? Não teremos andado a cometer ‘muitos erros’ – excluindo, afastando ou escandalizando – pelas (nossas) exigências para que possam existir as condições ideais para alguém ser dado o batismo? Não terá havido, nalgumas situações, mais coração de madrasta do que de mãe na Igreja com tais atitudes e regras…tão exigentes?
Diz um padre da Igreja, S. Gregório de Nazianzo, no século IV depois de Cristo: «O Batismo é o mais belo e magnífico dos dons de Deus [...] Chamamos-lhe dom, graça, unção, iluminação, veste de incorruptibilidade, banho de regeneração, selo e tudo o que há de mais precioso. Dom, porque é conferido àqueles que não trazem nada: graça, porque é dado mesmo aos culpados: batismo, porque o pecado é sepultado nas águas; unção, porque é sagrado e régio (como aqueles que são ungidos); iluminação, porque é luz irradiante; veste, porque cobre a nossa vergonha; banho, porque lava; selo, porque nos guarda e é sinal do senhorio de Deus».
Precisamos de renovar em nós – mesmo quando participamos na celebração dalgum batismo – a graça deste sacramento e de consciencializar as exigências dessa graça e dom recebidos.
Temos por costume dar alguma importância à data do nosso batismo? Se a data de nascimento é (ou pode ser) um tanto convencional, dadas as circunstâncias em que pode ter acontecido, a data do batismo é algo de concreto e sério…Assim saibamos vivê-lo e celebrá-lo condignamente.
= Mistagogia dos sinais batismais
(*) Tentemos fazer uma leitura dos ‘sinais’ do batismo, procurando discernir o significado de cada um deles, no desenrolar da celebração e no seu progressivo desenvolvimento:
«O sentido e a graça do sacramento do Batismo aparecem nos ritos da sua celebração. Seguindo, com a participação atenta, os gestos e as palavras desta celebração, os fiéis são iniciados nas riquezas que este sacramento significa em cada batizado»
(Catecismo da Igreja Católica (CIC), 1234). * Sinal da cruz – «O sinal da cruz, no princípio da celebração, manifesta a marca de Cristo impressa naquele que vai passar a pertencer-Lhe, e significa a graça da redenção que Cristo nos adquiriu pela sua cruz» (CIC 1235). * O anúncio da Palavra de Deus – «O anúncio da Palavra de Deus ilumina com a verdade revelada os candidatos e a assembleia e suscita a resposta da fé, inseparável do Batismo. Na verdade, o Batismo é, de modo particular, o ‘sacramento da fé’, uma vez que é a entrada sacramental na vida da fé» (CIC 1236). * Unção com o óleo dos catecúmenos – «E porque o Batismo significa a libertação do pecado e do diabo, seu instigador, pronuncia-se sobre o candidato um ou vários exorcismos. Ele é ungido com o óleo dos catecúmenos ou, então, o celebrante impõe-lhe a mão e ele renuncia expressamente a Satanás. Assim preparado, pode professar a fé da Igreja, à qual será «confiado» pelo Batismo» (CIC 1237). *Água batismal – «A água batismal é então consagrada por uma oração de epiclese (ou no próprio momento, ou na Vigília Pascal). A Igreja pede a Deus que, pelo seu Filho, o poder do Espírito Santo desça a esta água, para que os que nela forem batizados «nasçam da água e do Espírito» (Jo 3, 5)» (CIC 1238). * O rito do batismo – «O batismo propriamente dito, que significa e realiza a morte para o pecado e a entrada na vida da Santíssima Trindade, através da configuração com o mistério pascal de Cristo. O Batismo é realizado, do modo mais significativo, pela tríplice imersão na água batismal; mas, desde tempos antigos, pode também ser conferido derramando por três vezes água sobre a cabeça do candidato» (CIC 1240). * Unção com o óleo do crisma – «A unção com o santo crisma, óleo perfumado que foi consagrado pelo bispo, significa o dom do Espírito Santo ao novo batizado. Ele tornou-se cristão, quer dizer, ‘ungido’ pelo Espírito Santo, incorporado em Cristo, que foi ungido sacerdote, profeta e rei» (CIC 1241). É pela participação nestas três funções de Cristo, que o cristão/ungido assume as responsabilidades de missão e de serviço que delas resultam.
* Imposição e explicação da veste branca – «A veste branca simboliza que o batizado ‘se revestiu de Cristo’: ressuscitou com Cristo»
(CIC 1243). * Vela acesa – «A vela, acesa no círio pascal, significa que Cristo iluminou o neófito. Em Cristo, os batizados são ‘a luz do mundo’» (CIC 1243). A conclusão do rito batismal – na celebração de crianças – com o Pai-nosso faz-nos reconhecer que o recém-batizado é agora filho de Deus Pai no Seu Filho Jesus e pelo Espírito Santo, a quem ele ousa rezar comunitariamente, a oração dos filhos e dos irmãos. O recém-batizado deixa de ter só uma família humana para fazer parte da grande família da fé, que é a Igreja na qual foi acolhido, aceite e integrado!
 (*) Cf. António Sílvio Couto,
Nesta Igreja que amo e sirvo, Prior Velho: Paulinas 2018, pp. 123-131.

 

António Sílvio Couto



sábado, 5 de janeiro de 2019

Indícios de censura…


44 anos depois a censura está mais viva em Portugal do que nunca. Quem não é da cor dominante – esquerdista, laica e amoral – logo é rotulado de populista, apelidado de não-democrata, defensor de ideias perigosas e fautor de convulsão social…

É deste modo ‘democrata’ que uns tantos iluminados, mas bem protegidos pelas sequelas dialeto-marxistas, olham os outros e quem deles discorda e/ou não se cala nem deixa intimidar.

Órgãos que deviam ser independentes de trejeitos preconceituosos – sindicato dos (ditos) jornalistas, entidade de regulação comunicativa e mesmo certos fazedores de opinião com conotação arrevesada – não conseguem esconder ou dissimular quem, de verdade, os comanda: uma ‘escola’ transnacional que vai manobrando até que possa reinar, manipulando as massas e vivendo à custa da ignorância amorfa das maiorias…consumistas.

Se amordaçarem quem pensa de forma diferente da deles terão explosões (reais, virtuais ou psicológicas) bem mais mortíferas do que as meras palavras de circunstância… sejam lá os programas ou intervenções que forem. Se não deixarem manifestar-se quem pensa (a inteligência não é exclusivo daqueles que pensam só como nós) de forma diferente da deles, em breve serão sacudidos por fenómenos que não dominam. Se não atenderem ao que dizem esses tais que destoam da normalidade (dita) democrática, nunca saberão onde estão os tais ‘inimigos’, pois ao tentarem varrê-los para debaixo do tapete, não os liquidarão pela convicção…antes dar-lhes-ão (mais tarde ou mais depressa) uma espécie de estatuto de heróis perseguidos! 

= Portugal ainda não aprendeu a digerir que a diferença é o constitutivo essencial da democracia. A caminho de cinco décadas da apelidada ‘revolução de abril’ pululam por aí muitos pequenos ditadores – senão reinantes ao menos presumidos – ao seu nível e saltitando em maré de crise. Muitos deles advogam modos de estar e de comportamento que, se vistos pela perspetiva contrária, seriam considerados ofensivos da dignidade dos outros e do respeito mínimo e necessário. 

= Salvo a devida distância – tantos dos termos quanto das atitudes – não podemos continuar a viver sob o signo de certas ‘vacas sagradas’ da nossa democracia. Não há ninguém impoluto nem inatacável. Mais ou menos todos, duma forma ou de outra, têm aspetos reprováveis na execução da vida política e partidária. Só os ditadores se consideram incólumes, pois cada um se vê e vive numa certa circunstância e, por vezes, à luz duma determinada época.

Felizmente, na vivência do cristianismo, há algo que nunca nos envergonha nem deixa de não nos tornar iguais: somos suscetíveis de falhar, de errar, de arrepender-nos e de pedirmos perdão. Esta faculdade humana é um dom do cristianismo, que muitos outros não têm, não aceitam nem usam. A graça de não ser ‘senhor da verdade’ faz-nos (ou devia fazer-nos) muito mais humildes do que presunçosos, criando laços de comunhão e de fraternidade, onde cada um não julga o outro, mas fá-lo grande sem medo de ser ultrapassado pelas suas convicções e conveniências. 

= Temos de limpar estes ignóbeis censores – mais com lápis vermelho do que com adereço azul – da nossa vida coletiva. Abjuramos os donos das consciências e os gurus incontestáveis. Não é mais tempo de tanta tutela para com quem é cidadão como eles. Felizmente na votação não há sócios com votos mais categorizados: o voto, expresso por um analfabeto e o de um catedrático, só vale um. Por isso, quem se julgar senhor ou suserano da democracia está uns séculos atrasado e quase fora de prazo de validade.

Senhores do sindicato dos jornalistas, membros da ERC ou comentadores televisivos (à mistura com membros do governo) quem não seja socialista, trotskista-marxista e afins… ainda não foi expulso de Portugal. Todos temos direito de exprimir a nossa opinião, assumindo as consequências antes, durante e depois! Quando o quiserem fazer – cortarem-nos os direitos básicos – avisem-nos para emigrarmos a ‘bem da nação’! Os velhos dos restelo não morreram todos… nem os adamastores foram exorcizados totalmente!      

 

António Sílvio Couto

sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

48 casas penhoradas por dia


Segundo dados publicitados recentemente, até final de novembro, a autoridade tributária já tinha penhorado, por dívidas fiscais, mais de dezasseis mil imóveis…o que dá, em média, a soma de quarenta e oito casas penhoradas por dia.

As ditas ações de penhora incidem não só sobre a casa de habitação/morada da família, mas também sobre lojas, armazéns, quintas e terrenos para construção.

Ao que parece – dado que há interpretações diferentes sobre o articulado da lei de 2016 – não se proíbe que a casa de família seja penhorada pelos serviços fiscais, mas que a casa seja vendida em hasta pública com o despejo consequente dos seus ocupantes…

Para além das casas penhoradas pelos serviços fiscais temos também as casas penhoradas pelos bancos e ainda pelos serviços da segurança social…envolvendo tanto pessoas singulares como empresas. 

= Será digno e justo subtrair a uma pessoa ou a uma instituição a sua casa, seja de morada, seja de exercício da sua atividade profissional ou social? As penhoras – algumas delas já sobre o vencimento ou sobre os bens e mesmo as contas – serão justas ou criam, aquando da sua execução, mais injustiça do que a que tentam resolver? Não estaremos a criar uma nova classe social que são penhorados sem meios de recurso à sua sobrevivência? Porque se chegou a este estado: houve incúria, negligência ou falta de sentido da realidade e das responsabilidades? O polvo tentacular dos interesses consumistas não estará a inferiorizar quem não sabe conduzir-se segundo os seus meios, mas antes fomentando a procura, a ambição e mesmo a capitulação pessoal, familiar e social? Não será uma nova ditadura do faz-de-conta querer passar por rico, deixando por vergonha a incapacidade de gerir o mínimo da sobrevivência?

O carrocel do sensacionalismo da imagem continua a fascinar tantos/as, que, nem depois de vários episódios de fracasso, aprendem a viver de forma sensata, comedida e avisada… 

= ‘Todos têm direito, para si e para a sua família, a uma habitação de dimensão adequada, em condições de higiene e conforto e que preserve a intimidade pessoal e a privacidade familiar’ – Constituição da República Portuguesa, artigo 65.º, n.º1.

Perante este princípio teremos de questionar as penhoras – fiscais, bancárias ou da segurança social – pois, se executadas, podem colocar em risco este direito, mesmo que não se apontem totalmente as condições de obrigação para que tal possa prosseguir. As rendas controladas e compatíveis com o rendimento familiar são algumas das sugestões, entretanto, introduzidas na legislação.

É notório que uma certa política de ‘bairros sociais’ quase só serviu para guetizar alguns setores da população, tornando certos espaços habitacionais propensos à delinquência e à propagação da marginalidade duns tantos contra outros. Com efeito, não basta dar casa, é preciso educar para o seu correto uso, fomentando a aquisição de princípios básicos de convivência social e até do modo como ocupar os espaços da habitação. 

= Se quisermos conhecer alguém precisaremos de entrar na sua casa, com respeito e sem intromissão na privacidade do lar, mas tornando-se bom observador de tudo quanto está visível ou não nos vários compartimentos da habitação. Não será por uma pessoa ter muitos ‘santinhos’ em casa que se pode concluir que é mais cristã do que outra um tanto sóbria, mas podendo apresentar sinais relevantes do seu compromisso cristão. Quase que poderíamos parafrasear: mostra-me como vives na tua casa, que direi, afinal, quem tudo és…

Assim sendo é algo atroz e um tanto desumano privar – de forma temporária ou mais definitiva – alguém da sua habitação/casa/lar, pois será despersonalizar essa pessoa ou tal família, na medida em que se torna vulnerável e suscetível de marginalização.

Verificando-se tantas pessoas a ficarem, por dia, em média, sem casa, estaremos a viver num país feliz, pacífico e com futuro?

 

António Sílvio Couto

quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

Celebrar, hoje, a ‘epifania’


Ao designarmos cristãmente este dia de ‘epifania’ o que queremos, de facto, dizer?
‘Epifania’ significa ‘manifestação, revelação’, sendo esse momento em que Jesus se revelou aos gentios, isto é, aqueles que não faziam parte do povo de Deus, do povo de Israel.    
Vulgarmente se diz que celebramos, a 6 de janeiro, ‘os reis’, como se os ‘magos que vieram do Oriente’ fossem alguns reis ou aparentados com isso. A narrativa de Mt 2,1-12 apresenta-nos uns tais ‘magos’, que se apresentaram em Jerusalém em busca dum rei que tinha nascido, mas eles não se apresentavam com tal epíteto.
À boa maneira ocidental logo se quis dar nome aos ditos ‘magos’, criando com isso uma função a cada um dos que ofereceram os presentes trazidos ao Menino. Melchior, Baltasar e Gaspar foram identificados já tarde na tradição religiosa cristã e no contexto da Idade Média… atribuindo a cada a entrega dum presente a Jesus: ouro – Ele é rei; incenso – Ele é Deus; mirra – Ele é humano, pois a mirra era usada na arte de embalsamar os corpos após a morte…
Quando vemos certas manifestações folclóricas à volta deste dia – normalmente fixado a 6 de janeiro – não se estará (mais uma vez) a tirar proveito das coisas religiosas para o nosso mundo tantas vezes sem Deus? Os presentes dados e recebidos não serão mais interesseiros e menos despojados de cariz materialista?
Se atendermos à antífona do magnificat das vésperas da solenidade da Epifania diz-se – recordamos neste dia três mistérios: hoje a estrela guiou os Magos ao presépio; hoje, nas bodas de Caná, a água foi mudada em vinho; hoje, no rio Jordão, Cristo quis ser batizado para nos salvar.
Temos, assim, que na celebração da Epifania somos chamados a contemplar três momentos de revelação de Jesus: aos magos (gentios), aos judeus no batismo e aos discípulos, nas bodas em Caná.
= Qual foi a linguagem que usaram os ‘magos’ para se entenderem com Jesus e Maria, na visita ao presépio? Sendo de nações diferentes e com culturas diversas, como terão ‘falado’ uns com os outros? As palavras trocadas entre eles foram captadas numa linguagem humana ou no sentido das coisas divinas?
Dado que estamos nos primórdios do cristianismo e em que os sinais carismáticos estão muitos vivos, muito presentes (sensíveis e audíveis) na comunidade dos irmãos, talvez não seja difícil de caraterizar com algum canto em línguas – essa linguagem dos pequeninos em Deus – que, duma forma tão simbólica, representam os ‘magos vindos do Oriente’. Eles foram em busca de Jesus e ao encontrá-Lo terão ficado radiantes de alegria, exprimindo-se duma forma simples, sincera e humilde. Com efeito, é isso mesmo que se pretende com a celebração da ‘epifania’ do Senhor: desmontar a complexidade duma religião que estava ao sabor mais das leis e preceitos do que servindo o Deus verdadeiro.
Também nós, hoje, precisamos de desmontar alguns artifícios religiosos, que se vão acumulando na vivência dalguma liturgia, mais saudosista doutros tempos e menos atenta aos sinais dos nossos tempos. Tal como os ‘magos’ precisamos de sair das nossas certezas de fé para entramos na aventura da esperança, segundo o Espírito Santo. Tal como os ‘magos’ é chegada a hora de abrir os nossos tesouros e de oferecermos a Jesus os presentes que Ele espera e precisa.
Queira Deus que, na condução do Espírito Santo, vivamos a epifania deste ano de forma nova e renovada na Igreja católica.

 

António Sílvio Couto