Partilha de perspectivas... tanto quanto atualizadas.



segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

Recordações e resoluções


Uma e outra palavra envolvem o passado (2018) e o futuro (2019), numa tentativa de recordar à mistura com o modo de perspetivar o devir.

Quanto às recordações há as que foram boas e agradáveis, bem como tantas outras com repercussão negativa e ainda com incidências pouco positivas… a curto e a médio prazo. Cada um poderá fazer a sua lista de recordações de 2018, tendo em conta as suas referências, interesses e até facetas de participação.

Houve momentos marcantes da nossa história coletiva: a libertação das crianças tailandesas da gruta inundada, a onda de calor que assolou a Europa (e não só) no verão, as eleições presidenciais no Brasil, a revolta dos coletes amarelos em França… figuras que desapareceram e tendências ideológicas que se foram mantendo ou aferindo segundo as escolhas dos eleitores – isto ao nível internacional.

No espaço português podemos ver e analisar: as agressões a jogadores de futebol, o campeonato do mundo na Rússia, a recuperação da economia, as greves (mais de quinhentas) dos mais diversos setores de atividade, os desaparecimentos de políticos, artistas e mesmo figuras da vida literária…à mistura com tendências de não-mudança na segurança e nas vias de comunicação (cerca de meio milhar de mortos), nas questões de educação, de saúde e mesmo de transportes…

Algo aconteceu em 2018 que não era tão visto nem assumido: a importância dada às ‘falsas notícias’ (fake news): as manobras de desinformação são cada vez mais notadas e, sobretudo através da internet, as redes sociais e alguma comunicação, fazem uma propagação do boato, da notícia que parece verdadeira mas está inquinada de mentiras… A sacrossanta verdade dalgum jornalismo começou a ser posta em questão, pois não se sabe bem quem diz, o que noticia e, particularmente, a quem serve… Por alguma razão a mensagem papal para o dia mundial da paz de 2018 foi sobre as falsas notícias, que, recorrentemente, surgem e se propagam mesmo na Igreja.

Outro aspeto a ter em conta na história do ano que está prestes a terminar é o da ‘idolatria’ dos animais, com discussões acesas e controversas com tomadas de posição fundamentalista por certos setores sociais e políticos, chegando-se ao cúmulo de um só deputado catapultar mais atenção do que o resto dos parlamentares com as suas iniciativas e posicionamentos…alguns deles a roçar o ridículo senão não mesmo o irracional… A poeira há de assentar e o essencial voltará a ter o valor que deve. 

= Que esperar de 2019?

Desde logo que seja mais sereno e pacífico, por dentro e por fora, sejam quais forem os intervenientes. O pretenso ‘sucesso económico’ talvez venha a abrir fissuras e será preciso falar verdade, mesmo que isso possa valer a perda de votos.

Será preciso que não nos continuemos a fiar na bolha do turismo, pois bastará um pequeno abalo – de segurança, de consolidação das terras ou mesmo de recursos económicos – para vermos fugir para outras paragens os fascinados turistas que nos invadem… já foi assim noutros lugares, quando algo fez mudar de destino.

Perante a acomodação de tanta gente à pretensa paz social, será de ter em conta que os recursos estatais não são incomensuráveis e que algo pode fazer perigar os meios de manutenção dos ordenados e mesmo dos empregos. Embora de forma ténue já vemos os primeiros indícios de que há famílias com dificuldades para suportarem as despesas da casa, começando por cortar na assunção do pagamento das rendas, depois virá a eletricidade, a água… e chegará à alimentação. No terreno há sinais preocupantes… Quem tudo prometeu poderá não ser capaz de cumprir!

Será de ter conta ainda que as reivindicações mais recentes poderão criar engulhos na máquina dos votos, pois teremos, por parte de alguns setores, o esticar da corda que talvez não aguente todas as pretensões… mesmo que legítimas e necessárias. Àqueles que tudo prometem e depois não cumprem será preciso lembrar que já vimos esse filme, pagando a fatura sempre os mesmos, isto é, os que vivem dos recursos do seu trabalho.

Que 2019 seja um ano de paz, de verdade, de justiça, de fraternidade e de solidariedade para todos!    

 

António Sílvio Couto


quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

Critérios para a paz…


Por entre a turbulência de transição de ano (civil) vamo-nos preparando para acolher o novo ano. Através da mensagem do Papa Francisco para o dia mundial da paz – intitulado: ‘a boa política ao serviço da paz’ – podemos (e devemos) rececionar os desafios ao nosso compromisso de participação nesta tarefa de fazer e de viver a paz.

«A paz é fruto dum grande projeto político, que se baseia na responsabilidade mútua e na interdependência dos seres humanos. Mas é também um desafio que requer ser abraçado dia após dia. A paz é uma conversão do coração e da alma, sendo fácil reconhecer três dimensões indissociáveis desta paz interior e comunitária:

– a paz consigo mesmo, rejeitando a intransigência, a ira e a impaciência e cultivando «um pouco de doçura para consigo mesmo», a fim de oferecer «um pouco de doçura aos outros»;

– a paz com o outro: o familiar, o amigo, o estrangeiro, o pobre, o atribulado…, tendo a ousadia do encontro, para ouvir a mensagem que traz consigo;

– a paz com a criação, descobrindo a grandeza do dom de Deus e a parte de responsabilidade que compete a cada um de nós, como habitante deste mundo, cidadão e ator do futuro».

Este excerto da mensagem papal coloca-nos (ou deve colocar-nos) questões mais profundas do que as ramificações mais ou menos ideologizadas de entender e de viver os problemas.

Tentemos questionar-nos sobre o nosso itinerário para a paz, nessa linguagem de interdependência em que estamos continuamente envolvidos, mesmo sem nos darmos conta:

* A paz consigo mesmo – de facto será quase impossível fazer ou viver a paz se esta não estiver adquirida e não meramente pressuposta. Efetivamente não será com recursos exotéricos – reikis ou yogas, espiritualidades ou sessões de terapia duvidosa – que as pessoas irão conquistar a paz e tão pouco a imporão aos outros como placebo anódino. A paz consigo mesmo vem (ou virá) dum coração perdoado e curado pela graça divina e não por trejeitos duns tantos sobre outros mais fragilizados. Há muitas pessoas que não se amam a si mesmas nem se perdoam, mesmo que os seus erros – na linguagem católica, pecados – possam ter deixado consequências sobre a própria pessoa e os outros, particularmente, os mais próximos…O perdão a si mesmo recupera e dá nova força de vida no presente, sobre o passado e para o futuro!  

* A paz com o outro – esta outra vertente do dom da paz não se esgota em atos de mera cosmética, mas tem de ir ao fundo das questões, vendo o outro como irmão e não como adversário e tão-pouco como inimigo. Há situações em que a não-paz com o outro decorre de mal-entendidos, de interpretações abusivas, de feridas não-resolvidas…nalguns casos na memória do relacionamento entre as famílias. A purificação da memória para viver em paz com o outro exige mais do que boas intenções ou meras palavras de intencionalidade para que outros façam o que nos compete. A paz com o outro pressupõe humildade em que não quer continuar a ser vencedor, mas a aprender a perder para que valores mais significativos se imponham…Enquanto a paz não for prioridade da nossa vida corremos o risco de continuar a enganar-nos com religião e não com vida sincera e aprendida no perdão de mãos dadas a todos, sobretudo a quem nos possa ter ofendido!  

* A paz com a criação – para além duma qualquer cosmogonia panteísta precisamos de ver, sentir e atuar no entendimento da criação como rosto da beleza de Deus…muito para além o que vemos e daquilo que sabemos ou pensamos saber. Muito para além da ‘mãe-terra’ necessitamos de considerar-nos incluídos na obra da criação de Deus, onde todos e cada um dos seus elementos nos falam de Deus e através deles nos configuramos com simplicidade e gratidão. Como cidadãos da cidade terrestre temos de cuidar da ‘casa-comum’ que Deus nos concedeu habitar, estando atentos às circunstâncias que fazem perigar – a curto e/ou a médio prazo – o ambiente de todos e para todos.

Diz-se com alguma razão: Deus perdoa sempre, o homem perdoa às vezes, a natureza nunca perdoa, isto é, as interferências na natureza pagar-se-ão muito caras, sobretudo quando abusamos no seu usufruto e na ultrapassagem da sua exploração.

A paz tem critérios. Será que os queremos seguir?

 

António Sílvio Couto

quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

‘Ano Novo’: festa pagã ou cristã?


Com o afastamento progressivo dos valores cristãos – fraternidade, partilha, solidariedade e igualdade (a ordem não está trocada) – vemos tantas pessoas cultivarem no Natal, durante e depois dele – como que urge fazer um sério e exigente exame de consciência, questionando-se e interrogando os outros...sobre o sentido destas ‘festas’ e de quem é, de facto, festejado.
Retinindo ainda nos nossos ouvidos os festejos natalícios, entramos com alguma sofreguidão na ‘passagem d’ano’, atendendo ao que isso envolve pessoal, familiar e socialmente.
Nalgumas mentes e, sobretudo, em tantos dos comportamentos, dá a impressão que se pretende exorcizar, dentro e fora, as vivências dum ano vivido... Disso vemos alguns resquícios de paganismo, não vivendo numa linha de sequência o tempo, mas tentando romper com o passado... como se este não nos tenha algo a ensinar para o presente e em relação ao futuro.
Por outro lado, as expetativas lançadas para com o futuro parece que envolvem algo de supersticioso e não tão cristão como seria desejável, pois se lança uma visão do futuro muito egoísta e individualista e não numa abertura à Providência, que cuida e acolhe quem somos, o que vivemos e para onde caminhamos.
Certos festejos de ‘passagem d’ano’ roçam mais um certo paganismo de critérios e de valores do que dum sentido cristão da vida e de quanto nela acontece ou virá a acontecer. Inclusive os cumprimentos e augúrios de ‘bom ano’ sofrem duma atroz cumplicidade com as coisas sem Deus do que permitindo que Ele nos conduza e guie...
Alguns ‘rituais’ de passagem d’ano cristalizaram uma tendência em que se fizer duma determinada forma isso dá-me sorte, mas porque não tem dado, se cumpro os ditos costumes? Não será porque não ouso mudar – permitindo que Deus seja incluído – que não vejo a dita sorte na viragem de cada ano?

Respigamos algumas reflexões/orientações do ‘Diretório sobre a piedade popular’:
- «No dia 1 de janeiro, oitava do Natal, a Igreja celebra a solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus. A maternidade divina e virginal de Maria constitui um acontecimento salvífico singular: para a Virgem Maria, foi pressuposto e causa da sua glória extraordinária; para nós, é fonte de graça e de salvação, porque ‘meio dela recebemos o Autor da vida’» (.º
115).
- «O dia 1 de janeiro é, no Ocidente, um dia de felicitações; é o início do ano civil. Os fiéis, envolvidos pela atmosfera festiva do começo do ano, trocam entre si e com todos, votos de ‘bom ano’» (n.º 116).
- «Entre os bons votos com que os homens e as mulheres se cumprimentam no dia 1 de janeiro, destaca-se o dia da paz. O ‘desejo de paz’ tem profundas raízes bíblicas, cristológicas e natalícias; os homens de todos os tempos reconhecem o ‘bem da paz’, embora atentem contra ele, frequentemente, do modo mais violento e destruidor: pela guerra» (n.º 117).

Desde 1967, no rescaldo do Concílio Vaticano II, que vimos celebrando a paz no primeiro dia do ano civil como desafio e intenção para o resto dos dias do novo ano!

Atualizando a mensagem da paz, o Papa Francisco intitulou a de 2019: ‘a boa política ao serviço da paz’. Nela se faz uma análise sobre a atuação dos politicos. O Papa enumera os doze vícios da política: ‘a corrupção – nas suas múltiplas formas de apropriação indevida dos bens públicos ou de instrumentalização das pessoas –, a negação do direito, a falta de respeito pelas regras comunitárias, o enriquecimento ilegal, a justificação do poder pela força ou com o pretexto arbitrário da «razão de Estado», a tendência a perpetuar-se no poder, a xenofobia e o racismo, a recusa a cuidar da Terra, a exploração ilimitada dos recursos naturais em razão do lucro imediato, o desprezo daqueles que foram forçados ao exílio’.

Não teremos nada a mudar? Não precisaremos de fazer um exame de consciência sobre a nossa presença política neste tempo?

‘Ano novo’ poderá ser significado de atitudes novas… e temos dois momentos de eleições – em maio para o Parlamento europeu e outubro para a escolha nacional – para nos pronunciarmos. Não deixemos para outros o que nos é devido!

 

António Sílvio Couto



domingo, 23 de dezembro de 2018

‘In memoriam’


Faleceu por estes dias uma figura que reputo de muito importante por entre as pessoas que conheci neste tempo de presença ao sul do Tejo: Catarina Pestana.

Conheci-a por interposta pessoa – ao tempo ocupando um lugar político/governativo de relevância – e tive oportunidade de a escutar e com ela conversar em momentos de valorização – religioso-cultural – das paróquias de Sesimbra e da Moita.

Na primeira localidade vi-a depois em celebrações com o marido (algo alquebrado) e em conversas de rua e não só. Recordo a forma incisiva como falou no ciclo de conferências quaresmais sobre o tema da eucaristia…ao ponto de os que a escutavam perguntarem se estava a falar da sua ou daquela paróquia, tal era a incidência crítica sobre a forma de estar na celebração e fora dela…

Depois da turbulência do processo da ‘casa pia’ em que esteve envolvida, vi-a a sair duma doença que a afetou fisicamente, mas, não ao nível psicológico: estava igual a outros momentos, tendo-me referido que havia coisas que levaria para a tumba sobre tantas situações…sobretudo daquele caso tão mediático quanto controverso.

Anos mais tarde convidei-a para se deslocar à Moita onde abordou a relação dos cristãos no mundo, tendo salientado etapas da sua vida – chegou a viver no concelho quando criança e adolescente – e viveu momentos de compromisso socio/político antes da revolução de abril.

Catalina é/era resultado dum tempo onde a dinâmica do Concílio Vaticano II estava muito viva, por entre desafios nem sempre percebidos nos dias mais atuais.

Quando, um dia, a encontrei na rua, junto ao mar, referi-lhe que ela fora escolhida para a tarefa de enfrentar o fenómeno ‘casa pia’ por ser mulher, católica e, tendencialmente, socialista… Isso revelou muito do que pode e deve ser uma cristã na vida política. Com efeito, como dizia o Papa Bento XVI, em Fátima, em 2010, há muita gente que tem as mãos limpas porque não faz nada… Creio que não foi nem é a situação de Catalina Pestana.

Como ela acentuava algumas vezes: não precisamos tanto de cristãos/ãs de rendinhas…dentro ou fora da liturgia.

Paz à sua alma!

 

António Sílvio Couto

sábado, 22 de dezembro de 2018

Narcotizados por um certo ‘sucesso económico’?


Atendendo às lições de vida que vamos aprendendo com os factos pessoais e dos outros, poderemos ir tecendo a nossa avaliação mais ou menos credível, pois feita de episódios nem sempre bem interpretados.

Dizem por aí que estamos melhor economicamente. Com verdade ou sob simulação os números apresentados querem-nos fazer crer que tal terá alguma consistência…a curto prazo.

Vendem-nos a mercadoria do ‘sucesso económico’ mais ou menos imediato feito à custa de distribuir sem trabalhar e, com alguma facilidade, vamos sendo levados a acreditar que o fundo não se esgotará… 

- Mas que dizer da recente, inopinada e (quase) inepta revolta dos ‘coletes amarelos’ à portuguesa? O fiasco aliviou quem manda e, sobretudo, quem manipula? Não houve nada que tenha feito temer? Ora, com milhares de polícias na rua, algo se previa de catastrófico? Não teremos estado na expetativa de que poderia correr qualquer coisa mal, mesmo sem haver a quem pedir contas dos prejuízos?

Com as consequências que poderão advir do insucesso, não teremos de questionar a efabulação dos números nas redes sociais? Dá a impressão de que é mais fácil participar virtualmente do que de dar a cara e o tempo para se incomodar com as ideias de anónimos…mais ou menos desorganizados.

Este episódio revela a nossa mentalidade de ‘treinadores de banca’, mas nunca jogadores do campo! 

- Na arte de bem enganar temos vivido como se tudo, pelo estalar de dedos, tenha passado do difícil ao exequível, pois revertendo as contas se fez com que já não haja austeridade, nem crise e tão pouco dificuldades de qualquer ordem…

Sabendo conduzir quem se torna acrítico e seja mais levado pela boca do que pela razão, temos estado a viver um tempo de razoável paz social, se bem que os dados contradigam tais notícias. Um tanto a custo se vai reconhecendo que o atual executivo nacional já enfrentou mais greves do que o anterior, mas que é isso para o ‘sucesso económico’ fabricado à escala do bolso de cada um? O derramamento de dinheiro sobre as situações tem vindo a ser uma arte de bem gerir enquanto há, pois depois alguém cobrará as ilusões surgidas e mal sustentadas…  

- A mentalidade reinante – tanto nas bases como na cúpula – parece ser mais a de ‘O capital’ do que da Bíblia. Nesta aprende-se a partilhar, trabalhando e colocando ao serviço dos outros os dons e os bens, naquele alimenta-se a reivindicação contra quem tem e, sobretudo, criando um ambiente odiento sobre os demais, mesmo que nem se conheçam.

Embora uma boa parte dos seguidores das doutrinas expostas n’ O capital talvez nunca tenha lido nada do texto, esta obra do século dezanove continua a conduzir muitas das posições de gente que anda na vida política. À revelia da evolução dos tempos ainda há quem use termos dessa época e não saiba a abrangência das lutas que vão percorrendo alguns dos episódios dos nossos dias.

Há coisas que terão alguma dificuldade em serem implementadas senão se souber a real fundamentação dos comportamentos. Aprender a conversão da Bíblia é muito mais exigente do que acicatar as animosidades de classes. O confronto com a Palavra de Deus é muito mais exigente do que semear laivos de igualitarismo em dialética. Colocar na vida as lições da Bíblia é muito mais salutar do que preencher as lacunas psicológicas com vitórias sobre os exploradores.

Embora um tanto idealista, prefiro a sociedade preconizada pela Bíblia do que as propostas tentadas a partir da ideologia de ‘O capital’: aquela ensina o perdão mesmo reconhecendo os erros, enquanto este azeda as pessoas e já deixou marcas suficientes de mal-estar na história do mundo… 

- Em ambiente de Natal é sublime perceber que houve um Deus – para isso será preciso o razoável dom da fé – que nos veio libertar a partir de dentro, isto é, assumiu a nossa condição humana para nos divinizar cada vez melhor. O ‘sucesso económico’ não basta para nos irmanar, antes poder-nos-á diferenciar pelo consumismo. Por isso, será pela verdade que haveremos de vencer as discrepâncias deste mundo!

 

António Sílvio Couto

quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

Dos vícios da política … às ‘bem-aventuranças do político’


‘A par das virtudes, não faltam infelizmente os vícios, mesmo na política, devidos quer à inépcia pessoal quer às distorções no meio ambiente e nas instituições’ - diz o Papa Francisco na sua mensagem para o 52.º dia mundial da paz.
Tendo como tema: «a boa política ao serviço da paz», o sumo Pontífice traça alguns dos vícios da política, segundo o qual, ‘tiram credibilidade aos sistemas dentro dos quais ela se realiza, bem como à autoridade, às decisões e à ação das pessoas que se lhe dedicam’, na medida em que ‘enfraquecem o ideal duma vida democrática autêntica, são a vergonha da vida pública e colocam em perigo a paz social’
Eis os doze vícios elencados pelo Papa: ‘a corrupção – nas suas múltiplas formas de apropriação indevida dos bens públicos ou de instrumentalização das pessoas –, a negação do direito, a falta de respeito pelas regras comunitárias, o enriquecimento ilegal, a justificação do poder pela força ou com o pretexto arbitrário da «razão de Estado», a tendência a perpetuar-se no poder, a xenofobia e o racismo, a recusa a cuidar da Terra, a exploração ilimitada dos recursos naturais em razão do lucro imediato, o desprezo daqueles que foram forçados ao exílio’.
Citando o cardeal vietnamita Van Thuan, falecido em 2002, o Papa Francisco apresenta, por seu turno, aquilo que designa pelas bem-aventuranças do político:
Bem-aventurado o político que tem uma alta noção e uma profunda consciência do seu papel.
Bem-aventurado o político de cuja pessoa irradia a credibilidade.
Bem-aventurado o político que trabalha para o bem comum e não para os próprios interesses.
Bem-aventurado o político que permanece fielmente coerente.
Bem-aventurado o político que realiza a unidade.
Bem-aventurado o político que está comprometido na realização duma mudança radical.
Bem-aventurado o político que sabe escutar.
Bem-aventurado o político que não tem medo
’.


= Confronto salutar... pela paz a vários níveis interligados

Num tempo em que, tanto pelos exemplos como pelas deformações exploradas, vemos colocar em causa quem está na vida política, precisamos de ter em conta que quem exerce a função política é fruto do seu tempo, do lugar onde está e mesmo das raízes mais fundadas dos seus valores, critérios, propostas e fatores mesmo ideológicos.
Atendendo a que o Papa Francisco insere estas observações no contexto da sua mensagem para o ‘dia munidal da paz’ de 2019, precisamos de saber ler e interpretar as suas referências não só para com os políticos profissionais, mas também para com todos os outros cidadãos, que escolhem, validam, criticam ou ignoram quem os governa...mal ou bem.
Dado que é da paz que estamos a falar, o Papa considera que ‘a paz é fruto dum grande projeto político, que se baseia na responsabilidade mútua e na interdependência dos seres humanos. Mas é também um desafio que requer ser abraçado dia após dia. A paz é uma conversão do coração e da alma’ ... consigo mesmo, oferecendo um pouco de doçura a si mesmo e aos demais, com o outro, seja ele quem for (familiar, amigo, estrangeiro, pobre, atribulado) e com a criação, como dom de Deus.

Será que a nossa política consegue estes objetivos para a paz? A nossa participação na política constrói a paz? Os politicos, que temos, não exercem mais os vícios do que as bem-aventuranças, aqui enunciadas? Cristãmente teremos sido fomentadores de bons politicos ou limitamo-nos a criticá-los sem lhes darmos ajuda e suporte na fé? 
Não podemos exigir aos outros – políticos em particular – aquilo que não somos capazes de fazer! Em razão da nossa fé cristã temos de ajudar a surgir uma nova geração de políticos que se guiem mais pela Bíblia (sem fundamentalismos) do que pelo ‘Capital’ (odiento)…

 

António Sílvio Couto


terça-feira, 18 de dezembro de 2018

A palavra do ano… está em votação


Como vem sendo habitual, por esta ocasião do ano civil, surgem as propostas/candidatas à ‘palavra do ano’ de 2018. Na lista encontramos (por ordem alfabética, que não de graduação votada): assédio, enfermeiro, especulação, extremismo, paiol, populismo, privacidade, professor, sexismo e toupeira…

Pela minha parte já votei na palavra de 2018: populismo.

Reportando-nos a um certo arquivo podemos encontrar como ‘palavra do ano’ de 2009 – esmiuçar; de 2010 – vuvuzela; de 2011 – austeridade; de 2012 – entroikado; de 2013 – bombeiro; de 2014 – corrupção; de 2015 – refugiado; de 2016 – geringonça; 2017 – incêndios!

Ora, diante deste projeto de escolha da ‘palavra do ano’, podemos como que fazer uma sucinta aferição ao que foi a principal preocupação dos anos transatos. Esta iniciativa que já vai na sua 10.ª edição em Portugal pode-nos ajudar a captar o que de mais importante vivemos nos anos mais recentes, fazendo com isso memória e, possivelmente, criando história. 

= Há, de facto, ao longo de todo um ano uma multiplicidade de acontecimentos, de figuras, de ocasiões ou mesmo de oportunidades que nos fazem viver numa espécie de ritmo mais ou menos frenético, que, só ao final do ano, nos apercebemos que muita coisa aconteceu e que foi marcante na vida das pessoas, das instituições e da sociedade.

Segundo dados tornados públicos estão como mais votadas para ‘palavra do ano’ de 2018: professor, enfermeiro e toupeira… revelando-se, desde logo, os contextos sociais, profissionais ou desportivos em que cada um destes termos estão inseridos. Os mais de cento e quarenta mil votos validados revelam, deste modo, que os cidadãos participam neste processo de escolha, que tem tanto de indicativo, quanto de simbólico. 

= Numa sociedade que devia ser mais de cidadãos do que de números – sejam os da nossa identificação, sejam os da matemática economicista – este processo da escolha da ‘palavra do ano’ reveste-se de alguma configuração cívica, pois precisamos, urgentemente, de sair do nosso casulo de conforto para sentirmos os outros com quem vivemos e as formas de interligação necessárias, mais do que meramente toleradas.

Muitos dos nossos coevos vivem mais colhendo do fruto do que fazem os outros do que participando nas sinergias e nas múltiplas interdependências. Ora é neste aspeto tão simples que conflitua muito do nosso presente e do futuro. Na medida em que podemos compreender que não nos é permitido viver nessa atitude sanguessuga de nada fazer e de tentar usufruir dos benefícios sem se sujar no combate. Intolerância e radicalismo podem ser alguns dos inimigos mais imediatos que devemos combater e exorcizar do nosso ambiente… Outra tendência manifesta mais recentemente é a forma anónima com que se pretende revelar o protesto – os ditos ‘coletes amarelos’ são a ponta dum tal icebergue – mais pela destruição do que pela apresentação objetiva de razões e motivos para a mudança.

Não deixa de ser inquietante que a indumentária do capuz sobre a cabeça permite, hoje, criar alguma desconfiança entre as pessoas e abrigar quem não dá a cara pelo que diz e/ou pelo que faz. Com relativa vulgaridade há quem se esconda sob a capa de perfil falso ou pela denúncia anónima para lançar a suspeita sobre muitos ou quase todos. Ninguém está a salvo de ser difamado só porque alguém lança um comentário sem rosto…Não pode a justiça ir por esse caminho, pois, em breve, estaremos a lutar contra a própria sombra, sem nos darmos conta de que algo vai mal em nós e à nossa volta… 

= Precisamos de acreditar mais uns nos outros, sem entrarmos na bonomia do tendencialmente bom, mas procurando acreditar que o espírito que nos foi infundido no Natal de Jesus possa ser vivido para além das parcas horas da nostalgia ou das memórias infantis. No entanto, se continuarmos a mergulhar no crescente consumismo materialista bem depressa nos tornaremos inimigos de estimação em maré de saldos ou em feira de produtos (ditos) biológicos sem rótulo.

Será que a nossa vida está ao serviço da paz? À luz da mensagem do Papa para o 52.º dia mundial da paz que sejamos dignos de participarmos na sua construção com humildade e confiança…uns nos outros! 

 

António Sílvio Couto