Partilha de perspectivas... tanto quanto atualizadas.



segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

Que presépio para os nossos dias?


Para muitos dos cristãos, sobretudo introduzidos na vivência da fé desde crianças, a palavra ‘presépio’ poderá ser natural ao falarmos destas questões em tempo de Natal. Mas que significa ‘presépio’? Quem introduziu esta tradição na cultura religiosa cristã? Não será chocante para a nossa mentalidade aveludada a linguagem e figuração do presépio?
Etimologicamente ‘presépio’ quer dizer estábulo, estrebaria…onde estão os animais.
Embora esteja presente a sua discrição nos evangelhos (Lc 2,1-20) , só no século XIII (1223), São Francisco de Assis quis levar à letra aquelas palavras da Sagrada Escritura e reproduziu no espaço da sua cidade uma figuração com as principais personagens. São Francisco quis recriar, dentro da linha de espiritualidade da sua ordem, a significação para quem não entendia ou estava fora da lógica do evangelho...
Enquadrado num estábulo vejamos quem são as principais figuras do presépio:
* Menino Jesus - O filho de Deus, o Salvador,
* Maria - A mãe de Jesus,
* São José - Esposo de Maria e pai adotivo de Jesus,
* Animais (vaca, burro, ovelhas) - os animais aqueceram o menino que tinha nascido num estábulo,
* Anjo é o mensageiro de Deus. Foi ele quem anunciou o nascimento de Jesus aos pastores que tomavam conta dos seus rebanhos,
* Magos - Os três convencionados magos eram sábios que foram guiados por uma estrela e levaram ouro, incenso e mirra ao Menino Jesus.
= Por vezes encontramos pessoas, com maior ou menor cultura (humana e cristã), que se entretêm a fazer coleção de presépios. Será isto apropriado à mensagem evangélica da rudeza do presépio? Sabendo que em muitos dos ‘presépios’ comercializados se pode estar fora da linguagem e da pobreza real do dito sinal, não será um insulto que haja quem gasta dinheiro sem conta para manter essa espécie de bizantinice? Não andaremos a subverter o espírito do Natal/presépio com algumas fantochadas travestidas de religião… nitidamente não cristã? Ainda teremos coragem para fazer do Natal um acontecimento sem presépio e à margem da sua originalidade? 

= Estas e outras perguntas se nos podem colocar, até para nos confrontarmos com tantas subtilezas que obstaculizam a vivência do espírito do presépio, que é muito mais do que a mentalidade natalícia. Esta está hoje intoxicada de muito consumismo, mesmo que, nos intervalos, se vá dando a entender que se pensa – ao menos nesta época – nos mais desfavorecidos, marginalizados e empobrecidos…

Certamente as nossas celebrações religiosas de âmbito cristão/católico precisam de ser questionadas e renovadas, de serem revistas e não tradicionalizadas, de estarem numa continua descoberta da forma como devemos ser cristãos, neste tempo de linguagem e de comportamento light, onde a frieza do presépio é provocante e provocadora da nossa mentalidade de veludo a propósito de quase tudo e, neste caso, da rudeza do presépio. 

= Esperamos que as mais díspares transferências da linguagem do presépio do templo para a rua possam incomodar quem se comporta como ateu prático, mesmo sem a dialética materialista mais básica. Enquanto é tempo façamos do presépio o melhor evento do Natal, pois neste é Jesus quem nos interpela, pelo silêncio e pela forma de estar a nu…Que possa haver – em cada pessoa, nas famílias, na Igreja e na soceidade – advento rumo ao presépio de Jesus, hoje e sempre. 

 

António Sílvio Couto

terça-feira, 11 de dezembro de 2018

A trela do cão…em consumismo



Uma associação internacional – de seu nome, em sigla, peta – ‘povo pelo tratamento ético dos animais’ – veio a terreiro reclamar de expressões ofensivas para com os seus protegidos (animais) exigindo que seja corrigida a linguagem de muitos dos ditados populares, pois estariam a constranger os ditos…

Cá pela nossa área de influência logo surgiu uma agremiação partidária a reclamar idêntica projeção nas suas intenções e reclamações de tantos dos cantos infantis, das músicas quasi-ancestrais e mesmo do comportamento ofensivo e ofensor para com os animais, seus e nossos amigos, ou não tanto. 

* Se levássemos a sério as sugestões da ‘peta’ ou do partido nacional à sua expressão, teríamos de reescrever uma boa parte da nossa literatura, ter-se-ia de andar com um espírito inquisitorial para muito do nosso anedótico ou ainda teríamos de conviver com uma censura nunca antes vista, pois alguém poderia entender como ofensivo aquilo que não passou duma figura de estilo, literária ou não. Se tal correção fosse possível, qual seria a data de começo da sua vigência?   

* Deve-se reconhecer que está a emergir – sabe-se lá comandada por quem ou de onde – uma nova cultura, onde os humanos têm de se submeter à sensibilidade dos animais, fazendo aqueles servidores destes e não mais o seu contrário. Esta onda roça o fundamentalismo e insere-se numa espécie de aculturação urbana que não conhece nem nunca contactou com o mundo rural, mas para o qual dita leis e sentenças de laboratório… As crianças já não se sabem sujar e tão pouco defender de vírus, bactérias e fungos!   

* Este fenómeno tem vindo a difundir-se com grande rapidez, podendo ser uma das formas de populismo mais imediato a arregimentar simpatizantes, militantes e votantes. Há, no entanto, indícios de que algo vai mal no reino animal, pois se tem vindo a fazer dos animais entidades com direitos inatacáveis, mas se vai tolerando alguns mecanismos de subjugação aos humanos. Exemplo disso é a trela dos cãezinhos, passeados pelas ruas e nem sempre recolhidos os dejetos respetivos. Se é para que os animais sejam titulares de direitos inalienáveis, então deixem-nos andar livres na rua, não os prendam – seria ofensa dizer acorrentem? – mas também não os obriguem a estar em espaços nem sem adequados à sua condição e natureza. De facto, vemos certos ‘animais de companhia’ serem mais criaturas de estimação do que seres sensíveis num aprisionamento forçado.  

* Que sociedade é esta que tem mais espaços de venda, em supermercados e outras superfícies comerciais, dedicados a alimentação para os animais do que colocados nos escaparates artigos direcionados às crianças? Sim, algo vai mal e pela disposição na carruagem o futuro não se avizinha senão sombrio. Parece muito preocupante a dedicação substitutiva das crianças pelos animais. Repare-se mesmo nos nomes dados aos ditos ‘animais de companhia’, muitos deles têm mais marca humana do que os nomes dos humanos com nome. Não andará algo invertido nestes tempos mais recentes? Não andaremos a ser manipulados nas discussões sobre estas matérias, enquanto sociedades e culturas são aniquiladas pela insensibilidade de uns para com os outros?  

* «É contrário à dignidade humana fazer sofrer inutilmente os animais e desprezar as suas vidas. É igualmente indigno gastar com eles somas que deveriam, prioritariamente, aliviar a miséria dos homens. Pode-se amar os animais, mas não seria razoável desviar para eles o afeto só devido às pessoas» – Catecismo da Igreja Católica, n.º 2418.

Talvez nos falte equilíbrio e das inconstâncias dos humanos vemos que os animais também sofrem, se bem que estes tenham, nalguns casos, sensibilidade mais refinada do que muitos dos humanos, que se vão tornando mais materialistas à medida em que se consideram sabedores de algo que lhes escapa: a comunhão entre toda a natureza como rosto da beleza de Deus.

Não será o cãozinho pela trela um dos símbolos do consumismo desumanizado…mais recorrente?     

 

António Sílvio Couto



segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

Significado da ‘novena do Natal’


Digamos que a única ‘novena’ oficial na liturgia da Igreja é a do Natal, decorrendo entre 17 e 24 de dezembro. Embora haja quem tente colocar o tempo entre a Ascensão e o Pentecostes como novena, a do Natal é a única que é assumida pelos textos e orações na liturgia oficial da Igreja católica.
Desde logo a palavra ‘novena’ comporta um certo significado: nove é três ao quadrado. Se três é um número simbólico para falar das Pessoas da SS.ma Trindade, e, por isso, com uma significação de plenitude, então três vezes três quererá envolver a plenitude da plenitude.
Nos dias da ‘novena’ do Natal temos por suporte as antífonas do magnificat das vésperas, que começam pela interjeição: ‘ó’, sendo expressões de admiração e de contemplação dos crentes perante o mistério de Deus, revelado em Jesus pelo Natal.
Eis as antífonas do ‘Ó’ (de 17 a 24 de dezembro):
* 17 - Ó Sabedoria do Altíssimo, que tudo governais com firmeza e suavidade: vinde ensinar-nos o caminho da salvação,
* 18 - Ó Chefe da casa de Israel, que no Sinai destes a Lei a Moisés: vinde resgatar-nos com o poder do vosso braço,
* 19 - Ó Rebento da raiz de Jessé, sinal erguido diante dos povos: vinde libertar-nos, não tardeis mais,
* 20 - Ó Chave da Casa de David, que abris e ninguém pode fechar, fechais e ninguém pode abrir: vinde libertar os que vivem nas trevas e nas sombras da morte,
* 21 - Ó Sol nascente, esplendor da luz eterna e sol de justiça: vinde iluminar os que vivem nas trevas e nas sombras da morte,
* 22 - Ó Rei das nações e Pedra angular da Igreja: vinde salvar o homem que formastes do pó da terra,
* 23 - Ó Emanuel, nosso rei e legislador, esperança das nações e salvador do mundo: vinde salvar-nos, Senhor nosso Deus.

Segundo o ‘Diretório sobre a piedade popular’ «a novena do Natal surgiu para comunicar aos fiéis as riquezas de uma liturgia à qual não tinham fácil acesso. O papel que a novena natalícia desempenhou foi realmente valioso e pode continuar a sê-lo. Todavia nos nossos dias, como se facilitou a participação do povo nas celebrações litúrgicas, seria  desejável que nos dias 17 a 23 de dezembro se solenizasse a celebração das vésperas com as antífonas maiores e se convidasse os fiéis a participar. Esta celebração, antes oudepois da qual poderiam ter lugar  alguns dos gests particularmente apreciados pela piedade popular, seria uma excelente ‘novena do Natal’, plenamente litúrgica e atenta às exigências da piedade popular. Na celebração das vésperas podem incluir-se alguns elementos previstos (homilia, uso de incenso, adaptação das preces)».

É ainda de referir que se pode acompanhar este tempo de ‘novena’ com a colocação no presépio das figuras mais próximas à simbologia de Jesus que há de ‘nascer’ em tempo de Natal…

De alguns aspetos temos uma advertência que se poderá incluir: não será conveniente ritualizar nem rotinar certas ações de preparação para o Natal, pois cada ano é uma vivência diferente e terá de ter a sua consonância com a vida das pessoas, das comunidades e da Igreja em geral…não se dispensando as tradições, que não poderão ser nem herméticas ou mesmo anacrónicas…e tão pouco saudosistas!

 

António Sílvio Couto

quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

‘O ninho’: 40 anos de memória, de vida e de história (*)


 
A seção de infância do Centro Paroquial de Acção Social da Moita, ‘O ninho’, sita na Rua Bartolomeu Dias, 11-13, celebrou, no dia 4 de dezembro, 40 anos de serviço à Moita, dentro ou fora do espaço da Igreja.

Esta seção de infância é composta por jardim-de-infância, centro de atividade de tempos livres, creche e berçário.

O programa incluiu eucaristia de ação de graças e de sufrágio, presidida pelo Bispo da Diocese, D. José Ornelas e uma sessão solene no espaço de atividade d’ O ninho. De salientar a presença, na missa, do presidente-fundador (pároco) d’O ninho.

A esta efeméride também se associaram as autoridades autárquicas, representantes da diocese de Setúbal, bem como membros dos corpos sociais, antigos e atuais funcionários, antigos alunos (em bom número) e muitos paroquianos da Moita.

Se tivermos em conta os passados quarenta anos d’ O ninho terão frequentado este projeto pedagógico/educativo mais de quatro mil crianças e adolescentes.

O Centro Paroquial de Acção Social da Moita, que foi fundado em 1952, tem respostas sociais ligadas à infância e aos mais velhos, envolvendo quase sete dezenas de funcionários. 

Diz uma passagem bíblica: um é o que semeia, outro o que cuida e outro o que colhe (cf. 1 Cor 3,6-9).

É isso mesmo o que poderá caraterizar esta obra nascida há 40 anos. ‘O ninho’ foi berço para muitos dos adultos desta terra. ‘O ninho’ foi cuidado para milhares de crianças e de adolescentes nesta terra. ‘O ninho’ foi e é espaço de educação para centenas e centenas de famílias que nele tiveram e têm uma forte ajuda no processo educativo de seus filhos e filhas.

Tentemos interpretar esta obra d’O ninho pela perspetiva mais dos substantivos e menos pelos adjetivos, usando três palavras de referência:  

* Memória

A efeméride deste dia quer tão-somente olhar para o trabalho desenvolvido por dezenas de equipas – de direção, pedagógicas, de voluntários, de funcionários, de empresas e de serviços – que foram fazendo d’O ninho um espaço de trabalho, de iniciativa, de educação, de evangelização, numa palavra: de cultura. Não haverá dúvida, na Moita e fora dela, de que ‘O ninho’ foi fomentador, à sua medida, de cultura com matiz cristã… Talvez devesse sê-lo mais, mas no contexto foi fazendo o seu melhor…em cada tempo.

Aquilo entram os intérpretes – responsáveis da paróquia: P.e Fernando de 1978 a 1999, Dr. João Carlos de 1999 a 2010 e Sílvio desde 2010… os que serviram, por inerência de serem párocos, nas direções, os que educaram e os que foram educados, as famílias e tantos outros colaboradores – e muitos outros que viveram, sentiram e se entregaram pela causa deste serviço às crianças e aos adolescentes na Moita…e não só.

Nestes 40 anos, certamente, houve alegrias e tristezas, dúvidas e certezas, dívidas e saldos positivos. Só quem nunca esteve no barco e que não conhecerá as tormentas que nele são sentidas.  

* Vida

Não há melhor termo para definir esta instituição do que a palavra que dá sentido ao nosso existir: vida. Somos discípulos e servos do Senhor da vida e por esta podemos jogar os nossos ideais e concretizar as nossas mais ou menos belas ou ténues ideias.

O ninho’ é fruto da conjugação da palavra vida em todos os tempos e formas verbais, nas mais diversas aceções da palavra, desde que viva e faça viver com sentido e compromisso.

Como é sublime e encantador ver as crianças a deixarem singelos contributos para outros viverem a sua vida de forma mais digna, mais humana e mais fraterna… Há gestos que valem milhões de palavras!  

* História

Queira Deus que sejamos capazes de dar continuidade àquilo que, nas quatro décadas de história, aqui foi vivido, concretizado e servido. O melhor galardão que nos podem atribuir é que somos continuadores duma vivência que honra os seus antepassados e que sabe defender a prossecução dos seus objetivos no futuro. Desejamos, no entanto, chamar a atenção para quem pode e deve ajudar-nos nessa tarefa nem sempre compreendida pelas entidades públicas – do Estado e das autarquias, sem esquecer até a diocese – pois se todos soubermos colaborar os nossos filhos e netos terão futuro com sabedoria, com dignidade e com graça…

- Não podemos continuar a permitir que os pais, que aqui colocam os seus filhos, sejam duplamente tributados nos seus impostos, pois pagam para os serviços estatais e têm de pagar também para a escolha educativa de seus filhos. Esta injustiça tem de ser exorcizada.

- Não podemos, enquanto instituição que presta serviços educativos, que sejamos vítimas de maiores exigências do que outros e tão pouco menosprezados por sermos da Igreja católica. Isto não é nada sério!

- Não poderemos ser – por surreal que possa parecer – obstaculizados nos projetos apresentados à apreciação das entidades decisórias por manifestarmos o que pensamos e aquilo que queremos ser. Isto tem tiques de ditadura, mesmo que com alguma capa de formalmente…democrático.

 

A quem fez esta história de vida e por quem fazemos, hoje, memória: obrigado. Que Deus a todos abençoe por fazermos o melhor que sabíamos fazer…mesmo com erros, falhas e pecados.

Viva ‘O ninho’ e quem o tem servido. Votos de continuação e de fidelidade a Deus no serviço a todos.

 

(*) Texto da sessão solene dos 40 anos d’O Ninho, no dia 4 de dezembro de 2018.

 

António Sílvio Couto

terça-feira, 4 de dezembro de 2018

Porque é padroeira de Portugal, a Senhora da Conceição?


A celebração de Nossa Senhora da Conceição – ou melhor da Imaculada conceição de Nossa Senhora – é considerada uma das vivências mais essenciais, desde tempos muito recuados, da fé católica em Portugal. Nossa Senhora da Conceição é considerada mesmo a padroeira principal do nosso país.

Vejamos, então, etapas desta caminhada ao longo da nossa afirmação de nacionalidade.
Em vários momentos e com diversos intervenientes a devoção Nossa Senhora foi marcante dos nossos reis: desde D. Afonso Henriques, que teve por Santa Maria de Braga uma especial devoção; D. Nuno Álvares Pereira e D. João I manifestaram particular a Nossa Senhora pela vitória conseguida em Aljubarrota, mas foi efetiva e afetivamente com D. Nuno, Condestável do Reino, muito devoto da Virgem Santa Maria, que, segundo ele, respondeu às suas preces em Valverde, Atoleiros e Aljubarrota, deu-se algo que teve a ver com a incrementação da devoção a Nossa Senhora da Conceição, foi ele quem mandou construir a Igreja de N. ª Sr. ª da Conceição de Vila Viçosa e encomendou, para o efeito, em Inglaterra, a imagem de Nossa Senhora da Conceição. A S. Nuno se deve a renovação de uma antiga Confraria de Vila Viçosa, existente pelo menos desde 1349 e por si consagrada a Nossa Senhora da Conceição, que ainda hoje subsiste, a “Régia Confraria de Nossa Senhora da Conceição”.
Ora, nos séculos XVI e XVII, a doutrina da Imaculada Conceição obteve maravilhoso desenvolvimento, pois universidades, ordens religiosas, clero e outros fiéis lançaram-se ardorosamente na defesa desta prerrogativa mariana.
Foi, sobretudo, após a Restauração de 1640, com D. João IV, que se verifica um grande impulso na devoção à Senhora da Conceição, por todo o país. Por provisão de 25 de Março de 1646, D. João IV, “proclamou solenemente “tomar por padroeira de nossos Reinos e Senhorios a Santíssima Virgem Nossa Senhora da Conceição… confessando defender que Mãe de Deus foi concebida sem pecado original”. Por esta proclamação a Virgem Imaculada era constituída e declarada, por todos os poderes da Nação, Senhora e Rainha de Portugal, a verdadeira soberana do país…Desde que Nossa Senhora da Conceição é Padroeira de Portugal, os nossos monarcas, nunca mais colocaram a coroa na cabeça (pois isso equivaleria a usurpar um direito que pertence a Nossa Senhora) e apenas em ocasiões solenes, a coroa era posta sobre uma almofada, ao seu lado direito.
Desde o ano de 1654 o reitor, lentes, doutores e mestres da Universidade de Coimbra passaram a usar a fórmula do juramento, que começava pela declaração de «defender sempre e em toda a parte que a Bem-aventurada Virgem Maria, Mãe de Deus, [que] foi concebida sem a mancha do pecado original». E até 1910 o cumprimento de tal juramento era condição para se obter qualquer grau universitário… 

A doutrina católica sobre a Imaculada Conceição 

A 8 de dezembro de 1854 o Papa Pio IX declarava dogma de fé a doutrina que ensinava ter sido a Mãe de Deus concebida sem mancha por um especial privilégio divino. Na Bula “Ineffabilis Deus”, o Papa diz: «Nós declaramos, decretamos e definimos que a doutrina segundo a qual, por uma graça e um especial privilégio de Deus Todo Poderoso e em virtude dos méritos de Jesus Cristo, salvador do género humano, a bem-aventurada Virgem Maria foi preservada de toda a mancha do pecado original no primeiro instante de sua conceição, foi revelada por Deus e deve, por conseguinte, ser acreditada firme e constantemente por todos os fiéis».

Recordemos, em síntese, a oração coleta da solenidade da Imaculada Conceição:’Senhor nosso Deus, que, pela Imaculada Conceição da Virgem Maria, preparaste para o Vosso Filho uma digna morada e, em atenção aos méritos futuros da morte de Cristo, a preservastes da toda a mancha, concedei-nos, por sua intercessão, a graça de chegarmos purificados junto de Vós’.

A solenidade da Imaculada Conceição é uma celebração das origens…assim a vivamos de forma única e original.

 

António Sílvio Couto

segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

Simbologia da cebola apodrecida…por dentro


Tem sido com alguma surpresa que, uma boa parte das cebolas compradas, sofram duma doença um tanto complexa: após alguns momentos para descascar vê-se que o miolo da cebola está podre…a começar do centro para fora. Coisas deste tempo e sinais da nossa cultura!  

Não tenho a ousadia de recorrer ao livro autobiográfico de Günter Grass, Descascando a cebola, de 2007, nem tão pouco a essoutro de Miguel Sousa Tavares de memórias da infância e juventude, Cebola crua com sal e broa, de 2018… para falar do assunto que aqui, por agora, me ocupa. Esta breve partilha/reflexão, em maré pré-natalícia, não é mais do que uma tentativa de concretizar um ensejo de recorrer à imagem da cebola apodrecida a partir de dentro para questionar alguns dos indícios do nosso mundo mais ou menos de cebolada…mesmo sem disso nos darmos conta.  

* As várias camadas que a cebola apresenta dão-nos a compreensão da complexidade da nossa vida, tanto pessoal como no trato com os outros, pois muitas das vezes precisamos de nos descobrir na medida em que crescemos, feitos pela vida ou situados nos vários âmbitos em que nos encontramos. As camadas das cebolas são etapas de crescimento e podem ser vertentes – no contexto humano – de amadurecimento. Isto será tanto mais complexo quanto nos confrontarmos com o apodrecimento da cebola a partir do seu núcleo. O que terá esta constatação a dizermos sobre a nossa vida e sobre o nosso tempo? Será uma parábola que deve ser lida e interpretada à luz da mensagem que se deseja comunicar? Até que ponto a cebola apodrecida, desde o seu interior, pode ou deve questionar a nossa cultura ocidental/europeia? Teremos algo a ver com esta situação ou será que a verificação deste fenómeno denuncia o que somos e aquilo que vivemos? Até que ponto estaremos conscientes desta situação de ‘cebola apodrecida’?

Vamos tentar responder a estas questões, nem sempre fáceis de enfrentar, pois, nalguns aspetos, estamos envolvidos e comprometidos não na denúncia e assunção daquilo que vivemos, mas antes na desculpa e nessa tendência tão lusitana de atirar as culpas para os outros senão mesmo nisso de confundir as consequências com as causas.

De facto, as várias camadas da cebola podem envolver muito do disfarce – neste tempo pré-natalício em especial configurado no papel de embrulho que usamos para enfeitar as prendas e os presentes – com que correremos o risco de viver a vida, dando-lhe um jeito colorido, mas que, bem lá no fundo, não corresponde àquilo que brilha e/ou engana. Com que facilidade podemos ficar tropeçados mais na forma do que no conteúdo, misturando as expetativas com as desilusões, reportando-nos mais à aparência do que ao real ou mesmo ficando mais na imagem que se dá do que aceitando a pessoa como ela é…de verdade.

Neste tempo do culto da boa aparência podemos ser ludibriados por figuras e figurões bem-falantes com perfis de facebook fabricados à medida daquilo que uns tantos gostam de exibir, mesmo que laborando na mentira e no oportunismo. Já devíamos ter apreendido a não nos deixarmos enganar, seduzir ou fascinar por palavras ocas, tagareladas ou excessivas… Descasquemos a cebola antes de darmos assentimento a tantos dos paleios conhecidos ou ocasionais.   

* A cebola apodrecida a partir de dentro é uma boa figura – parábola ou mesmo alegoria – da cultura desta sociedade ocidental: desde o mais íntimo estamos podres, sem valores nem critérios humanistas, mas antes com sementes de materialismo excessivo, onde o que devia salgar faz apodrecer. Fenómenos como pedofilia, homossexualidades/prostituições/pornografias, corrupção, nepotismo… são dessas podridões que se tornam fétidas quando se abre a cebola do comportamento e da ética de tanta gente, que, por fora parece sadia, mas que melhor percebida é isso mesmo: engano, fraude, escândalo e mentira.

Muitos dos nossos contemporâneos deixaram Deus, mas fizeram-se deus de si mesmos, construindo os seus altares e engendrando as suas venerações até que se descubra a verdade sem encobrimento.

As cebolas, em tempos mais rudes, faziam chorar, quando descascadas. Agora de tão inofensivas nem chorar fazem, senão de incómodo ao menos de arrependimento, mas isso seria noutro quadro de valores e de valorizações. Por agora as cebolas estão a apodrecer a partir de dentro, de forma confusa e simbólica!    

 

António Sílvio Couto

quinta-feira, 29 de novembro de 2018

Esse ‘ferrero rocher’ da esquerda…à portuguesa


Passe a publicidade: ‘ferrero rocher’ é uma marca de bombom de chocolate fabricado e comercializado por um grupo italiano, tendo sido criado em 1946, com intuito de fazer um chocolate diferente dos outros, refinado. É constituído de uma avelã inteira recheada de chocolate, envolvida por wafers e coberta de chocolate com pitadas de avelã. Cada bombom possui cerca de 72 calorias e são embalados tradicionalmente um a um e colocados numa caixa dourada. Este bombom está tradicionalmente associado ao Natal e Ano-novo. Nalguns países, devido à rígida política de qualidade, o ‘ferrero rocher’ só é comercializado durante o inverno.
= Que pode ter isto a ver com algumas das práticas políticas? Onde e como se nota mais esta psicologia ‘ferrero rocher’? Qual, então, o sentido sobre a esquerda portuguesa (ou melhor à portuguesa)? Será que se podem captar certos tiques de novo-riquismo, quer na moda do ‘ferrero rocher’, quer dalguma esquerda à portuguesa? Não será que aquilo que reluz é engano e subtileza manipuladora? 

* Quem se recordar do enquadramento cénico da publicidade ao bombom ‘ferrero rocher’ lembrar-se-á do rico carro em que a senhora é levada a passear com o mordomo a satisfazer os desejos da senhora colocando-lhe à frente, numa bandeja dourada, uma pequena pirâmide de bombons ao que a dita senhora responde com satisfação: bravo, Ambrósio!

Ora foi diante deste take publicitário que me ocorreu trazer à liça certos trejeitos de alguns setores ideológicos, na medida em que se consolam com requintes burgueses e se satisfazem com arranjos de quem é servido na indumentária do protesto camuflado com a degustação dos bombons do capitalismo.

Com que facilidade vemos alguns dos eleitos pavonearem-se, por entre os que neles votaram, com ares de quem se sente superior, quando a sua legitimidade lhe advém da expressão eleitoral – nos votos e nas percentagens – com que foram escolhidos… Com que facilidade parece que uns tantos eleitos se consideram ganhadores dum ordenado quase principesco, tendo em conta os vencimentos da maioria da população, gerindo as suas pretensões ao sabor dos ganhos e não das responsabilidades adstritas à função de serem representantes do povo e das suas legítimas aspirações… Com que facilidade parecem viver nessa bolha de eleitos, como se fizessem parte duma elite, que olha os demais com a sobranceria de classe inferior, aferindo o seu nível de vida pelas benesses políticas e os arranjos de ocasião…

Em breve veremos saírem da lura do parlamento os diversos fazedores da legislação, das ideias políticas e dos ideais ideológicos, surgindo entre a massa popular para reclamarem, sobretudo junto dos seus seguidores (do facebook, da cartilha partidária ou da promoção de lugares), das conquistas conseguidas e mesmo dos arranjos orquestrados… Agora serão do povo. Agora fazem trabalho político. Agora mesclam os seus intuitos com os desejos dos enganados… Serão como a senhora dos bombons que vem oferecer ‘ferrero rocher’ ao povo eleitor, mesmo que se tenham esquecido de despir a indumentária de serviço lá nos assentos mais ou menos democraticamente controlados…  

* Agora que caminhamos a passos largos para a fruição das atividades natalinas não deixará de ser questionável vermos certas posições onde se quer fazer do Natal aquilo que ele não é nem pode ser, pois frases como: o natal és tu; o melhor do natal são as crianças… e outras mais referências ao natal como a festa da família ou de reunião desta… Eis como se foi desvirtuando o essencial do verdadeiro Natal e de Quem nele é celebrado.

Em certos lugares vão surgindo ‘festas e feiras de natal’, tentando estender à rua o chamariz consumista de outros espaços comerciais. O interesse é o mesmo, só que travestido de populismo à mistura com a exploração dos sentimentos infantilizados de boa parte da população…sobretudo se fidelizada pela votação autárquica. Os ingredientes não passam de imitação dos centros urbanos mais significativos, embora a qualidade deixe um tanto a desejar não só na forma como no conteúdo.

O natal não é isto e isto não tem nada de Natal… Haja verdade e honestidade e não propaganda barata…   

 

António Sílvio Couto