Partilha de perspectivas... tanto quanto atualizadas.



terça-feira, 4 de dezembro de 2018

Porque é padroeira de Portugal, a Senhora da Conceição?


A celebração de Nossa Senhora da Conceição – ou melhor da Imaculada conceição de Nossa Senhora – é considerada uma das vivências mais essenciais, desde tempos muito recuados, da fé católica em Portugal. Nossa Senhora da Conceição é considerada mesmo a padroeira principal do nosso país.

Vejamos, então, etapas desta caminhada ao longo da nossa afirmação de nacionalidade.
Em vários momentos e com diversos intervenientes a devoção Nossa Senhora foi marcante dos nossos reis: desde D. Afonso Henriques, que teve por Santa Maria de Braga uma especial devoção; D. Nuno Álvares Pereira e D. João I manifestaram particular a Nossa Senhora pela vitória conseguida em Aljubarrota, mas foi efetiva e afetivamente com D. Nuno, Condestável do Reino, muito devoto da Virgem Santa Maria, que, segundo ele, respondeu às suas preces em Valverde, Atoleiros e Aljubarrota, deu-se algo que teve a ver com a incrementação da devoção a Nossa Senhora da Conceição, foi ele quem mandou construir a Igreja de N. ª Sr. ª da Conceição de Vila Viçosa e encomendou, para o efeito, em Inglaterra, a imagem de Nossa Senhora da Conceição. A S. Nuno se deve a renovação de uma antiga Confraria de Vila Viçosa, existente pelo menos desde 1349 e por si consagrada a Nossa Senhora da Conceição, que ainda hoje subsiste, a “Régia Confraria de Nossa Senhora da Conceição”.
Ora, nos séculos XVI e XVII, a doutrina da Imaculada Conceição obteve maravilhoso desenvolvimento, pois universidades, ordens religiosas, clero e outros fiéis lançaram-se ardorosamente na defesa desta prerrogativa mariana.
Foi, sobretudo, após a Restauração de 1640, com D. João IV, que se verifica um grande impulso na devoção à Senhora da Conceição, por todo o país. Por provisão de 25 de Março de 1646, D. João IV, “proclamou solenemente “tomar por padroeira de nossos Reinos e Senhorios a Santíssima Virgem Nossa Senhora da Conceição… confessando defender que Mãe de Deus foi concebida sem pecado original”. Por esta proclamação a Virgem Imaculada era constituída e declarada, por todos os poderes da Nação, Senhora e Rainha de Portugal, a verdadeira soberana do país…Desde que Nossa Senhora da Conceição é Padroeira de Portugal, os nossos monarcas, nunca mais colocaram a coroa na cabeça (pois isso equivaleria a usurpar um direito que pertence a Nossa Senhora) e apenas em ocasiões solenes, a coroa era posta sobre uma almofada, ao seu lado direito.
Desde o ano de 1654 o reitor, lentes, doutores e mestres da Universidade de Coimbra passaram a usar a fórmula do juramento, que começava pela declaração de «defender sempre e em toda a parte que a Bem-aventurada Virgem Maria, Mãe de Deus, [que] foi concebida sem a mancha do pecado original». E até 1910 o cumprimento de tal juramento era condição para se obter qualquer grau universitário… 

A doutrina católica sobre a Imaculada Conceição 

A 8 de dezembro de 1854 o Papa Pio IX declarava dogma de fé a doutrina que ensinava ter sido a Mãe de Deus concebida sem mancha por um especial privilégio divino. Na Bula “Ineffabilis Deus”, o Papa diz: «Nós declaramos, decretamos e definimos que a doutrina segundo a qual, por uma graça e um especial privilégio de Deus Todo Poderoso e em virtude dos méritos de Jesus Cristo, salvador do género humano, a bem-aventurada Virgem Maria foi preservada de toda a mancha do pecado original no primeiro instante de sua conceição, foi revelada por Deus e deve, por conseguinte, ser acreditada firme e constantemente por todos os fiéis».

Recordemos, em síntese, a oração coleta da solenidade da Imaculada Conceição:’Senhor nosso Deus, que, pela Imaculada Conceição da Virgem Maria, preparaste para o Vosso Filho uma digna morada e, em atenção aos méritos futuros da morte de Cristo, a preservastes da toda a mancha, concedei-nos, por sua intercessão, a graça de chegarmos purificados junto de Vós’.

A solenidade da Imaculada Conceição é uma celebração das origens…assim a vivamos de forma única e original.

 

António Sílvio Couto

segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

Simbologia da cebola apodrecida…por dentro


Tem sido com alguma surpresa que, uma boa parte das cebolas compradas, sofram duma doença um tanto complexa: após alguns momentos para descascar vê-se que o miolo da cebola está podre…a começar do centro para fora. Coisas deste tempo e sinais da nossa cultura!  

Não tenho a ousadia de recorrer ao livro autobiográfico de Günter Grass, Descascando a cebola, de 2007, nem tão pouco a essoutro de Miguel Sousa Tavares de memórias da infância e juventude, Cebola crua com sal e broa, de 2018… para falar do assunto que aqui, por agora, me ocupa. Esta breve partilha/reflexão, em maré pré-natalícia, não é mais do que uma tentativa de concretizar um ensejo de recorrer à imagem da cebola apodrecida a partir de dentro para questionar alguns dos indícios do nosso mundo mais ou menos de cebolada…mesmo sem disso nos darmos conta.  

* As várias camadas que a cebola apresenta dão-nos a compreensão da complexidade da nossa vida, tanto pessoal como no trato com os outros, pois muitas das vezes precisamos de nos descobrir na medida em que crescemos, feitos pela vida ou situados nos vários âmbitos em que nos encontramos. As camadas das cebolas são etapas de crescimento e podem ser vertentes – no contexto humano – de amadurecimento. Isto será tanto mais complexo quanto nos confrontarmos com o apodrecimento da cebola a partir do seu núcleo. O que terá esta constatação a dizermos sobre a nossa vida e sobre o nosso tempo? Será uma parábola que deve ser lida e interpretada à luz da mensagem que se deseja comunicar? Até que ponto a cebola apodrecida, desde o seu interior, pode ou deve questionar a nossa cultura ocidental/europeia? Teremos algo a ver com esta situação ou será que a verificação deste fenómeno denuncia o que somos e aquilo que vivemos? Até que ponto estaremos conscientes desta situação de ‘cebola apodrecida’?

Vamos tentar responder a estas questões, nem sempre fáceis de enfrentar, pois, nalguns aspetos, estamos envolvidos e comprometidos não na denúncia e assunção daquilo que vivemos, mas antes na desculpa e nessa tendência tão lusitana de atirar as culpas para os outros senão mesmo nisso de confundir as consequências com as causas.

De facto, as várias camadas da cebola podem envolver muito do disfarce – neste tempo pré-natalício em especial configurado no papel de embrulho que usamos para enfeitar as prendas e os presentes – com que correremos o risco de viver a vida, dando-lhe um jeito colorido, mas que, bem lá no fundo, não corresponde àquilo que brilha e/ou engana. Com que facilidade podemos ficar tropeçados mais na forma do que no conteúdo, misturando as expetativas com as desilusões, reportando-nos mais à aparência do que ao real ou mesmo ficando mais na imagem que se dá do que aceitando a pessoa como ela é…de verdade.

Neste tempo do culto da boa aparência podemos ser ludibriados por figuras e figurões bem-falantes com perfis de facebook fabricados à medida daquilo que uns tantos gostam de exibir, mesmo que laborando na mentira e no oportunismo. Já devíamos ter apreendido a não nos deixarmos enganar, seduzir ou fascinar por palavras ocas, tagareladas ou excessivas… Descasquemos a cebola antes de darmos assentimento a tantos dos paleios conhecidos ou ocasionais.   

* A cebola apodrecida a partir de dentro é uma boa figura – parábola ou mesmo alegoria – da cultura desta sociedade ocidental: desde o mais íntimo estamos podres, sem valores nem critérios humanistas, mas antes com sementes de materialismo excessivo, onde o que devia salgar faz apodrecer. Fenómenos como pedofilia, homossexualidades/prostituições/pornografias, corrupção, nepotismo… são dessas podridões que se tornam fétidas quando se abre a cebola do comportamento e da ética de tanta gente, que, por fora parece sadia, mas que melhor percebida é isso mesmo: engano, fraude, escândalo e mentira.

Muitos dos nossos contemporâneos deixaram Deus, mas fizeram-se deus de si mesmos, construindo os seus altares e engendrando as suas venerações até que se descubra a verdade sem encobrimento.

As cebolas, em tempos mais rudes, faziam chorar, quando descascadas. Agora de tão inofensivas nem chorar fazem, senão de incómodo ao menos de arrependimento, mas isso seria noutro quadro de valores e de valorizações. Por agora as cebolas estão a apodrecer a partir de dentro, de forma confusa e simbólica!    

 

António Sílvio Couto

quinta-feira, 29 de novembro de 2018

Esse ‘ferrero rocher’ da esquerda…à portuguesa


Passe a publicidade: ‘ferrero rocher’ é uma marca de bombom de chocolate fabricado e comercializado por um grupo italiano, tendo sido criado em 1946, com intuito de fazer um chocolate diferente dos outros, refinado. É constituído de uma avelã inteira recheada de chocolate, envolvida por wafers e coberta de chocolate com pitadas de avelã. Cada bombom possui cerca de 72 calorias e são embalados tradicionalmente um a um e colocados numa caixa dourada. Este bombom está tradicionalmente associado ao Natal e Ano-novo. Nalguns países, devido à rígida política de qualidade, o ‘ferrero rocher’ só é comercializado durante o inverno.
= Que pode ter isto a ver com algumas das práticas políticas? Onde e como se nota mais esta psicologia ‘ferrero rocher’? Qual, então, o sentido sobre a esquerda portuguesa (ou melhor à portuguesa)? Será que se podem captar certos tiques de novo-riquismo, quer na moda do ‘ferrero rocher’, quer dalguma esquerda à portuguesa? Não será que aquilo que reluz é engano e subtileza manipuladora? 

* Quem se recordar do enquadramento cénico da publicidade ao bombom ‘ferrero rocher’ lembrar-se-á do rico carro em que a senhora é levada a passear com o mordomo a satisfazer os desejos da senhora colocando-lhe à frente, numa bandeja dourada, uma pequena pirâmide de bombons ao que a dita senhora responde com satisfação: bravo, Ambrósio!

Ora foi diante deste take publicitário que me ocorreu trazer à liça certos trejeitos de alguns setores ideológicos, na medida em que se consolam com requintes burgueses e se satisfazem com arranjos de quem é servido na indumentária do protesto camuflado com a degustação dos bombons do capitalismo.

Com que facilidade vemos alguns dos eleitos pavonearem-se, por entre os que neles votaram, com ares de quem se sente superior, quando a sua legitimidade lhe advém da expressão eleitoral – nos votos e nas percentagens – com que foram escolhidos… Com que facilidade parece que uns tantos eleitos se consideram ganhadores dum ordenado quase principesco, tendo em conta os vencimentos da maioria da população, gerindo as suas pretensões ao sabor dos ganhos e não das responsabilidades adstritas à função de serem representantes do povo e das suas legítimas aspirações… Com que facilidade parecem viver nessa bolha de eleitos, como se fizessem parte duma elite, que olha os demais com a sobranceria de classe inferior, aferindo o seu nível de vida pelas benesses políticas e os arranjos de ocasião…

Em breve veremos saírem da lura do parlamento os diversos fazedores da legislação, das ideias políticas e dos ideais ideológicos, surgindo entre a massa popular para reclamarem, sobretudo junto dos seus seguidores (do facebook, da cartilha partidária ou da promoção de lugares), das conquistas conseguidas e mesmo dos arranjos orquestrados… Agora serão do povo. Agora fazem trabalho político. Agora mesclam os seus intuitos com os desejos dos enganados… Serão como a senhora dos bombons que vem oferecer ‘ferrero rocher’ ao povo eleitor, mesmo que se tenham esquecido de despir a indumentária de serviço lá nos assentos mais ou menos democraticamente controlados…  

* Agora que caminhamos a passos largos para a fruição das atividades natalinas não deixará de ser questionável vermos certas posições onde se quer fazer do Natal aquilo que ele não é nem pode ser, pois frases como: o natal és tu; o melhor do natal são as crianças… e outras mais referências ao natal como a festa da família ou de reunião desta… Eis como se foi desvirtuando o essencial do verdadeiro Natal e de Quem nele é celebrado.

Em certos lugares vão surgindo ‘festas e feiras de natal’, tentando estender à rua o chamariz consumista de outros espaços comerciais. O interesse é o mesmo, só que travestido de populismo à mistura com a exploração dos sentimentos infantilizados de boa parte da população…sobretudo se fidelizada pela votação autárquica. Os ingredientes não passam de imitação dos centros urbanos mais significativos, embora a qualidade deixe um tanto a desejar não só na forma como no conteúdo.

O natal não é isto e isto não tem nada de Natal… Haja verdade e honestidade e não propaganda barata…   

 

António Sílvio Couto  

terça-feira, 27 de novembro de 2018

Advento: preparar o Natal, como e com que meios?


A palavra ‘advento’ significa ela mesma ‘vinda’, ‘chegada’… o que exige alguma preparação e um criar de condições interiores e exteriores para que aquilo que se espera seja bem recebido.
O ‘advento’, em linguagem católica, significa a preparação da vinda – espiritual, pessoal, familiar e eclesial – da celebração do nascimento de Jesus no Natal.
Em jeito de preparação do Natal, durante o Advento, tem vindo a criar raízes na vivência católica, no sul da Europa – no norte já tem alguma incidência anteriormente – a ‘coroa do Advento’
O que é, como se faz e qual o significado que envolve a ‘coroa do Advento’?
A ‘coroa do advento’ é uma coroa de ramos de verdes (conforme as possibilidades de arbustos ou plantas), com quatro velas, que se acendem uma após a outra nos quatro domingos do advento. Este costume é relativamente recente, e parece remontar ao século XIX, difundindo-se a partir da primeira guerra mundial.
Esta ‘coroa’ tem algum simbolismo: a sua forma circular representa a eternidade e a sua cor remete para a esperança e a vida; nalguns casos aparece uma fita vermelha, que simboliza o amor de Deus pela humanidade e o amor das pessoas que esperam o nascimento de Jesus.
As quatro velas da ‘coroa’ representam cada uma das quatro semanas e são acesas em cada domingo do Advento…com o significado de caminhada e de abertura à luz de Jesus, o centro do Natal.

Há quem associe a cada semana uma vela de cor diferente – verde, vermelha, rosa e azul – ou quem coloque três velas de cor roxa e uma de cor rosa. Por nossa parte seguimos uma outra perspetiva: as velas são todas brancas, colocando uma fita de cor diferente (por exemplo as quatro atrás referidas) nas velas, tentando, deste modo tornear uma tendência mais ou menos exotérica da leitura das cores, que outras expressões religiosas usam nas suas linguagens e ritos.

Projeto de caminhada
É muito útil e benéfico que possa haver uma proposta, com base na liturgia diária do Advento, de caminhada familiar e pessoal, elaborada ao ritmo do programa diocesano e paroquial…

O tema de caminhada da Paróquia da Moita para o Advento deste ano é: ‘Conhecer, amar e anunciar Jesus...hoje’, que será desenvolvido ao longo dos quatro domingos: 1.ª semana: na família (pais/filhos, marido/esposa, irmãos/avós); 2.ª semana: nas escolas (crianças, adolescentes e jovens); 3.ª semana: no trabalho; 4.ª semana: na vizinhança.
Na 1.ª semana sugere-se começar pela própria casa para conhecer, amar e anunciar Jesus, hoje. Com efeito, se a casa de habitação é o reduto mais sagrado de cada um de nós, então, temos de cuidar deste espaço de intimidade para conhecer Jesus, aprender a amá-l’O e fazer desse mesmo lugar uma oportunidade de anúncio de Jesus, com gestos, palavras, sinais e atitudes de uns para com os outros que vivem em comum... que é muito mais do que estar no mesmo espaço de convivência e de aprendizagem da boa educação e de sã confraternização... envolvendo os vários setores da família: pais e filhos, marido e esposa, irmãos e os mais velhos…
Na 2.ª semana é proposto como espaço e oportunidade de conhecer, amar e anunciar Jesus na escola, seja qual for a sua expressão, desde a do pré-ensino escolar até à dimensão universitária...se for possível.
Efetivamente não é fácil levar Jesus ao meio escolar, pois muitas vezes o ambiente é de rejeição ou até mesmo de indiferença, tanto de professores como de estudantes. Será partindo da nossa celebração da fé em Jesus, que haveremos de ganhar força e coragem para levar o anúncio de Jesus a esses espaços por vezes frios e opositores à mensagem do Evangelho.
Na 3.ª semana são propostos como espaços e oportunidades de conhecer, amar e anunciar Jesus os lugares de trabalho, aí onde as pessoas têm o seu ganha-pão e onde passam um tempo significativo do seu dia-a-dia. Nem sempre é fácil testemunhar Jesus no local de trabalho, pois nem todos estão sintonizados na mesma direção. Por isso, tornar-se testemunha cristã no lugar de trabalho é importante e pode ser significativo. A proposta de mensagem a levar aos ‘colegas’ de trabalho é: O Natal está a chegar. Queres ajudar mais pessoas a terem um ‘natal’ menos difícil e mais solidário? Propomos: partilha de roupa, comida...simpatia, fraternidade e sinceridade...Vamos acender uma luz no coração de quem encontrarmos... no nosso caminho. Oferece, dá, partilha…
Na 4.ª semana é proposto como espaço e oportunidade de conhecer, amar e anunciar Jesus aos nossos vizinhos, isto é, aqueles/as que moram mais perto de nós... mais ou menos conhecidos, com maior ou menor proximidade... Como forma de podermos levar a mensagem de Jesus aos nossos vizinhos, voltamos, este ano, a editar os postais de Natal por forma a ser feita a entrega, tanto quanto possível, em mão àqueles que nos estão mais próximos na vizinhança...

 

António Sílvio Couto

segunda-feira, 26 de novembro de 2018

Quem melhor mente, mais vinga


Vivemos num país muito ‘sui generis’: com grande facilidade vemos vingar (vencer, enganar, sobreviver, ser popular) quem melhor sabe mentir, surfando por entre as ondas (mais ou menos alterosas, de mar chão ou na força da tempestade) e sair penteadinho do outro lado da dificuldade…como se nada tenha sido consigo nem com as responsabilidades que deveria assumir.

Que dizer dos fogos fatais (junho e outubro) em 2017? Como explicar o folhetim das armas (o antes e o depois) de Tancos? Será que se percebeu alguma coisa das greves na saúde, na educação, na justiça ou nos transportes? Como enquadrar certos acidentes e incidentes com vítimas mortais, há ou não culpados?

Por entre os pingos duma certa chuva ácida se vai percebendo que nada nem ninguém tem responsabilidade, tem culpa e tão pouco é acusado. Os números – tenho para comigo que se há de descobrir, em breve, que são nitidamente forjados, escondidos e camuflados – da economia entretêm os mais incautos, pois mais uns cêntimos no bolso e logo se amordaça a contestação, tanto sobre o que se ganha agora como aquilo que virão a ser os reais proventos no futuro. Que são dez euros de aumento para os reformados? Isso dá para alguma coisa, que não seja um engano, fazendo com que se perca em preços o que se ganhou em aumentos…

Agora se pode compreender um tanto melhor que há forças que não olham a meios para atingirem os seus maquiavélicos fins: calam-se agora, quando antes fariam protesto; concordam agora, porque em breve colherão os pretensos frutos em votos ou lugares no poder; silenciam em surdina o que antes era motivo mais do que suficiente para criar ambientes de crispação e de conflito… Diria o povo na sua sabedoria: coloquem-lhes um osso na boca e com dificuldade falarão, pois estarão entretidos com os restos ou as migalhas que caem da mesa do poder…da mesma coloração.

Pior do que tudo isto é a censura ardilosa duma boa parte da comunicação social: muitos dos jornaleiros de antanho ferozes e ríspidos para com quem governava, agora constroem discursos adjetivados – essa doença costuma ser a compra dos ditadores ou dos vendidos – que passam por desconstruir falhanços, por tolerar erros e gafes, à mistura com encómios saídos do devocionário de lojas (e não são comerciais), dos sítios (e não são lugares) da moda e até dos lóbis (e não são os da superfície) mais ou menos desconhecidos.

Um clima tendencialmente favorável – talvez seja mais favorecido – de quem está no poder continua a ser uma das formas mais capciosas de manipulação: saber enganar sem nunca se enganar é uma arte bem antiga, que tem dado frutos com muitos daqueles que, desde o poder controlam, quem os bajula. É isso que está acontecer no nosso país – e não é só na área política, autárquica ou social – assumindo formas culturais preocupantes. Já aconteceu no passado recente e não soubemos aprender as lições… Será que levará muito tempo a aprender para o futuro próximo?

Muitos do que agora reinam terão de ser vencidos para aprenderem a lição da humildade pela humilhação. Esta sempre foi a melhor escola para ser verdadeiro e sincero…     

 

António Sílvio Couto

sexta-feira, 23 de novembro de 2018

‘Sexta-feira negra’…do consumismo


‘Black Friday’ (‘sexta-feira negra’) é o dia que inaugura a temporada de compras para o Natal, verificando-se significativas promoções em muitas lojas retalhistas e em grandes armazéns. É o dia seguinte ao ‘dia de ação de graças’ nos Estados Unidos, que, por seu turno, se celebra na quarta quinta-feira do mês de novembro. Esta festividade da ‘6.ª feira negra’ começou nos Estados Unidos e com a ajuda das novas tecnologias e a promoção deste dia por parte das diversas empresas tem-se estendendo pelo resto dos países do mundo… tal como outras datas americanizadas pela sociedade de consume.
Com várias explicações da sua origem e a data em que terá começado a ser mais divulgada, a ‘sexta-feira negra’ tem ainda a ver com a forma como os retalhistas, no início da década de 80 do século passado, assinalavam os seus produtos: a cor vermelha para referir o valor negativo das suas finanças e a cor preta para assinalar os valores positivos...sobretudo após o ‘dia de ação de graças’ dos americanos... Deste modo os descontos favoreciam quem desejava comprar, particularmente com mais benefícios na hora de pagar! 

Atendendo a estas caraterísticas da ‘6.ª feira negra’ poderemos associá-la a um razoável incremento do consumismo, podendo e devendo fazer-nos refletir sobre esta nova religião a quem tanto e de tantas formas prestamos culto nos nossos dias.

Vejamos uma advertência do Papa Francisco sobre este tema do consumismo:

«O consumismo hedonista pode-nos enganar, porque, na obsessão de divertir-nos, acabamos por estar excessivamente concentrados em nós mesmos, nos nossos direitos e na exacerbação de ter tempo livre para gozar a vida. Será difícil que nos comprometamos e dediquemos energias a dar uma mão a quem está mal, se não cultivarmos uma certa austeridade, se não lutarmos contra esta febre que a sociedade de consumo nos impõe para nos vender coisas, acabando por nos transformar em pobres insatisfeitos que tudo querem ter e provar. O próprio consumo de informação superficial e as formas de comunicação rápida e virtual podem ser um fator de estonteamento que ocupa todo o nosso tempo e nos afasta da carne sofredora dos irmãos. No meio deste turbilhão atual, volta a ressoar o Evangelho para nos oferecer uma vida diferente, mais saudável e mais feliz» (Alegrai-vos e exultai, n.º 108). 

Não será que esta coisa da ‘6.ª feira negra’ não passa de mais uma artimanha do consumismo para nos entreter e iludir? Como andamos tão enganados e seduzidos! Como conseguimos deixar-nos manipular por tão pouco! Como as coisas materialistas nos convencem muito mais facilmente do que as coisas espirituais! Como nós celebramos com tanta pompa o que bem depressa será expelido para o lixo!

Será preciso experimentar outros prazeres muito para além do meramente sensitivo no âmbito do corpo para poderemos não nos deixarmos aprisionar só por aquilo que conhecemos…de forma materialista. Com efeito, falta a muitos dos nossos contemporâneos a vivência dos designados ‘prazeres espirituais’, esses que motivam, dinamizam e preenchem a vida, dando-lhe sentido, força e significado.

A ‘6.ª feira negra’ continuará a ter os seus seguidores, enquanto não descobrirmos as tentações que nos vão fascinando, seduzindo e cegando. Na medida em que outros ideais forem descobertos o consumismo poderá não ter grande futuro nesta sociedade que nos tornou cativos do mais imediato, ao sabor daquilo que satisfaz mas não convence. Queira Deus que o saibamos entender o mais depressa possível…

 

António Sílvio Couto  

terça-feira, 20 de novembro de 2018

Celebrar ‘Cristo-Rei’


Porque celebra a Igreja católica (e não só) a solenidade de Cristo Rei? Que significado tem este Cristo apelidado de ‘rei’? Desde quando se vem a celebrar esta solenidade? Ainda haverá conteúdo para esta celebração?
Embora tenha clara fundamentação nos textos bíblicos, a proclamação solene de que Cristo é Rei foi feita, em 1925, pelo Papa Pio XI, na encíclica ‘Quas primas’, relevando, perante certas correntes laicistas, que Cristo é rei não duma forma política nem social, mas do foro espiritual e dos valores cristãos…devendo estes torná-Lo vivo e presente nas coisas do mundo, como testemunho e sinal do seu reinado sobre as pessoas, as instituições e a sociedade em geral, respeitando quem pense de forma diferente, mas se envergonhando de O fazer presente através de nós.
Eis as razões explicitadas na encíclica do Papa Pio XI, após a celebração do ‘ano santo de 1900’:
«Não é necessário passar em silêncio que, a fim de confirmar solenemente esta soberania de Cristo sobre a sociedade humana, os congressos eucarísticos mais frequentes que são celebrados em nossos tempos, e cujo propósito é convocar os fiéis de cada um dos dioceses, regiões, nações e até do mundo inteiro, para venerar e adorar a Cristo Rei, escondido sob os véus eucarísticos; e através de discursos nas assembleias e nos templos, da adoração, em comum, do augusto sacramento publicamente exposto e das procissões solenes, para proclamar Cristo como o Rei que nos foi dado pelo céu. Bem e com razão, pode-se dizer que o povo cristão, movido como que por inspiração divina, tirou do silêncio e como esconderijo dos templos aquele mesmo Jesus que o ímpio, quando veio ao mundo, não quis receber, e o tomou como triunfante nas vias públicas, quer restaurá-lo em todos os seus direitos reais» (n.º 27).
Sobre a envolvência ecclesial da celebração da solenidade de Cristo-Rei diz a encíclica ‘Quas primas’: «Não é necessário, irmãos veneráveis, que lhe expliquemos detalhadamente as razões pelas quais decretamos que a festa de Cristo Rei seja celebrada separadamente daquelas em que essa mesma dignidade parece já indicada e implicitamente solenizada. É suficiente dizer que, embora em todas as festas de nosso Senhor o objeto material deles seja Cristo, mas seu objeto formal é inteiramente diferente do título e poder real de Jesus Cristo. A razão pela qual quisemos estabelecer este feriado no domingo é para que não apenas o clero honre a Cristo Rei com a celebração da Missa e a oração do ofício divino, mas para que o povo, livre de preocupações e com espírito de santa alegria, presta a Cristo um claro testemunho de sua obediência e devoção» (n.º 31).
Liturgicamente a solenidade Cristo Rei celebra-se no último domingo do ano litúrgico e como em conclusão – sem pretender ser encerramento de nada – da vivência dos mistérios de Deus em Igreja.
De algum modo, em Portugal, a celebração da solenidade de Cristo Rei era a ‘festa’ da Ação Católica, no nosso país, pois, ela mesma fundada em 1933, pretendia concretizar por cá os ideais que o Papa traçara ao instituir esta solenidade na Igreja: instaurar tudo em Cristo para Quem convergia toda a vida pessoal, familiar e social, fosse qual fosse a sua expressão profissional ou mesmo etária.
Sobre o futuro desta celebração de Cristo Rei tudo depende do interesse, da dinamização e da vivência em cada paróquia ou diocese…Nalgumas está em quase estado de letargia!

Não podemos esquecer a força da aclamação de Cristo-Rei ocorrida durante as perseguições religiosas no México (1926-1929) e por ocasião da Guerra civil espanhola (1936-1939). Com que ímpeto, força e ousadia tantos católicos morreram proclamando de forma altissonante: ‘viva, Cristo-Rei’… e tombaram sobre o fogo perseguidor! Será que merecemos tais mártires do século passado?

Proclamemos com o cântico vigoroso da fé de antanho: Cristo vence, Cristo reina, Cristo impera!

 

António Sílvio Couto