Partilha de perspectivas... tanto quanto atualizadas.



terça-feira, 6 de novembro de 2018

Da ilusão…à realidade


Dizem que, por estes dias, Lisboa vai estar nas bocas do mundo devido à realização da ‘web summit’. O acontecimento de alta tecnologia traz à capital cerca de setenta mil novas criaturas, gerando milhões de euros em serviços direta ou indiretamente ligados ao evento.

Falar em milhões parece ser a caraterística mais comum neste acontecimento de novos-ricos, desde os governantes até aos potenciais investidores…quase sempre numa lógica de fartura em exageros senão reais ao menos virtuais. Consta que, só uma noite de dormida, poderá andar muito perto de mil euros por pessoa, isto sem falar nas diversões noturnas e outros adereços à grande.

Por outro lado, surgiu, nos tempos mais recentes uma outra informação que contrasta com este clima efervescente de grande sucesso das massas populares e dos que mandam nos outros. Diz um estudo da União Europeia, feito entre os 28 estados-membros, que os portugueses estão entre os europeus que mais temem chegar à velhice sem rendimentos suficientes: apenas 25% da população portuguesa acredita ter dinheiro suficiente para viver quando chegar a altura de deixar de trabalhar e na fase do envelhecimento.
Por sexos as mulheres (75%) são as mais pessimistas, enquanto os homens se cifram em menos três pontos percentuais...nas preocupações quanto ao futuro, na velhice. Os gregos são os mais preocupados e logo a seguir aparecem Espanha e Portugal. Há também uma diferença de sexo no grau de receio em enfrentar a velhice sem rendimentos adequados. As mulheres são quem apresenta maiores níveis de preocupação na generalidade dos países. Pior do que nós só mesmo na Grécia e na Espanha. Do quadro dos 28 estados-membros da UE surgem com mais preocupados os países da Europa do sul - Grécia, Espanha, Portugal e Itália e alguns dos mais recentemente aderentes, como Letónia, Bulgária, Hungria, Polónia e Eslovénia...  

* Como se pode interpretar esta discrepância sobre factos neste mundo em que vivemos? Até onde haverá verdade: na riqueza a esbanjar ou na pobreza suportada em surdina e com vergonha? Qual é o país verdadeiro: o da ilusão tecnológica e estrangeira ou o da contenção das pessoas entre portas? Quem fala verdade: a prosápia de ricos sem limites de despesas ou aqueles que contam todos os cêntimos para que cheguem ao final do mês e para o resto da vida?  

* Perante a forma como muita gente se conduz na vida é – ou parece ser – cada vez menor o investimento na poupança. Uma parte significativa dos nossos contemporâneos vive a realidade do ‘chapa-ganha, chapa-gasta’, pois o incentivo ao consumo faz com que não se pense no amanhã, sobretudo na fase da velhice. Ora, nada há de mais enganoso do que este clima e tal mentalidade. Dá a impressão que consideramos que os descontos para uma (dita) segurança social irá suportar os incomportáveis gastos da etapa do envelhecimento. O recurso ao ‘pé-de-meia’ com que muitos dos mais velhos se iam revestindo ao longo da vida, deixou, ao que parece, de fazer sentido para muitos dos que hoje ainda têm emprego, gastando tudo ou mais do que ganham. Esta ilusão irá deixar muita gente na valeta da vida, pois sem meios ou recursos os (ditos) lares não darão espaço a quem não seja minimamente sustentável. Isto já para não falar da falência de meios da segurança social, pois sem haver quem desconte, porque não há quem trabalhe, também não será suportável o que nos espera…  

= Uma anedota, que nos poderá fazer refletir sobre o que é essencial, bem como nas respostas que podemos dar a quem não nos perguntou, falhando mesmo a resposta que era necessária e correta.

Um velho senhor foi a um banco para levantar cinquenta euros. Quem o atendeu respondeu-lhe que, ao balcão, só se podia levantar duzentos euros, os 50 euros podiam ser levantados no multibanco. O senhor retorquiu que não sabia funcionar com essa maquineta, tendo o senhor do balcão dito que poderia vir noutro dia e alguém lhe poderia ensinar a funcionar com o sistema. Pensando melhor o senhor freguês aceitou levantar os 200 euros e assim resolver o assunto. Após ter conferido o dinheiro o senhor do balcão inquiriu se havia algo mais a fazer, ao que o senhor mais velho retorquiu: quero, agora, depositar cento e cinquenta euros… Porque havemos de responder o que nós entendemos e não entramos na lógica dos outros? 

 

António Sílvio Couto

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

Celebração ‘solene’ da derrota?


O imponentemente despudorado desfile militar feito para assinalar o armistício da primeira guerra mundial não deixa de ser um espetáculo digno do terceiro-mundo: Portugal sofre entre 1914 e 1918 a mais ignóbil humilhação das suas forças militares e, passados cem anos, fazem disso um desfile/manifestação com mais de quatro milhares de elementos das forças vestidas com farda e veículos alindados em maré de fim de validade… A ver pelo aspeto poucos estariam capazes de disparar a mais inútil munição, se fosse necessário!

Eis o que somos na Europa e no mundo: algo de risível com cara séria – pudera a derrota ainda não foi digerida – e com um tal ar circunspeto de figurantes na encenação…Mas não é isso que somos na pretensa Europa comunitária, em união ou em reunião!

Nem mesmo o recurso ao ‘herói milhões’ consegue atenuar a vergonha que devia percorrer o todo nacional, sendo, claramente, escusados alguns dos internacionalistas que se perfilavam na tribuna.

Mais de cem mil portugueses foram literalmente ‘carne para canhão’ nas trincheiras francesas nesse longínquo século decorrido. Por isso, recorrer a esses tempos de antanho para fundamentar uma certa luta contra fantasmas que povoam as mentes dalguns políticos é, acima de tudo, erro histórico à mistura com clichés dialético/marxistas a gosto e com subtil à vontade de quem deseja ser popular e se está a tornar mais um dos veículos de populismo barato e sem necessidade de fazer grande coisa para ser reeleito quando for a votos… 

= Não deixa de ser sintomático, para a aferição dos critérios europeístas, que muitos dos usufruidores das benesses da UE sejam antigos recauchutados das trincheiras da ‘guerra fria’, saídos das lides de contestação aos ditos valores capitalistas e que agora, envernizados na maquilhagem de Bruxelas ou de Estrasburgo querem vender-nos uma tal propaganda de cordel que nem os bufos do ‘estado novo’ tentavam impingir sob a batuta da censura ou essoutra moralidade bafienta que faziam crer no melhor dos mundos. De facto, há forças que ainda não fizeram o reset dos seus erros nem reconheceram que foram causadores de milhões de mortos por vingança ou por delito de opinião. Alguns deles – sobretudo no nosso contexto de brandos costumes – ainda se passeiam nos corredores do parlamento e até influenciam as decisões governamentais da geringonça… Querem que os fascistas se retratem – e muito bem – mas eles nunca assumiram nem reconheceram que foram causadores de malefícios a uma boa porção da Europa, que diziam dominar pelo medo, a coação e a repressão: milhões foram deportados para a Sibéria, exilados e retirados dos seus países, sem nunca fazerem a mais pequena amostra de que têm culpas provadas e as mãos sujas com sangue inocente ou ao menos sem culpa formada… 

= Haja moralidade para que queiram associar-se à vitória nalguma das duas guerras ‘mundiais’ do século XX. Não tentem limpar com o esquecimento as manchas dos crimes dos seus antepassados. Não venham com subtilezas quase infantis para surgirem como defensores da liberdade, quando foram os seus maiores detratores e usurpadores. De que adianta andarem de crachás de mérito ostensivos se não passam de ditadores encobertos ou mesmo enraivecidos.

Valerá a pena não esquecer a conexão entre a mensagem de Fátima e o regresso dos soldados da guerra, tal como prometeu a Senhora aos pastorinhos. Ela prometeu e cumpriu, mas os jacobinos, que atiraram os ‘nossos soldados’ sem preparação para a atoleiro das batalhas em França, nunca se assumiram na real consequência daquilo que os fez serem lacaios das forças que serviam e os condecoravam sem nada terem feito para isso. Urge, por isso, que seja feita justiça histórica a quem foi usado para dar cumprimento a tarefas de interesses transnacionais sem rosto nem identidade…

Numa palavra: o desfile militar comemorativo do armistício dá a impressão que tenta esconder mais do que mostra. Aquelas panóplia de forças mais parecia uma manifestação da praça vermelha, de Pequim ou de Pyongyang do que um espetáculo da era da internet. Merecemos melhores atores e material mais atualizado! Até na derrota tem de haver dignidade, ontem como hoje! 

    

António Sílvio Couto  

terça-feira, 30 de outubro de 2018

Equipas de (futebol) mercenários…


Numa das últimas partidas de futebol, nas competições europeias, uma equipa portuguesa tinha, no seu onze titular, apenas um jogador de nacionalidade lusa…por sinal com estatuto de internacional pela seleção. Ora isto como que nos pode e deve fazer refletir sobre a composição da maioria das equipas que praticam futebol, a sua representatividade do país ou mesmo sobre um certo mercantilismo em que se move a (dita) ‘indústria do futebol’…ou será antes comércio?

De facto, muito daquilo que se vive no mundo do futebol – com código de conduta próprio, regras e leis à medida, gestão e financiamento à sua maneira, critérios e valores adequados aos seus objetivos – faz dele uma sociedade à parte do resto das ocupações sociais, cívicas e quase morais. Ai de quem tente entrar nesse mundo, correrá o risco de vida ou ao menos de integridade física e psicológica!

Se soubéssemos ler os sinais que o futebol emite diríamos, no mínimo, que estamos umas décadas ou séculos atrasados, pois aí se vendem homens por preços exorbitantes, quais escravos da Idade antiga ou negreiros (não tem o sentido da cor da pele, mas tão só da atitude laboral) dos nossos tempos. Se naquelas épocas houve vozes que se ergueram para contestar e combater a escravatura, hoje estamos calados e cúmplices duma afronta à dignidade humana, pela simples razão de serem mais bem pagos e, portanto, escravos de qualidade extra… pelo trabalho que faz encher estádios e polariza discussões de clubes.

Estes mercenários circulam de país em país, ao sabor da melhor execução futebolística, sem nos apercebermos do curto tempo de validade que têm e da exploração física e moral a que estão submetidos pelas mafias não detetáveis pela fuga aos impostos e à promoção duns tantos mais habilidosos… sejam magnatas do petróleo, autarcas em ascensão ou dirigentes com tiques de caciquismo.

Em tempos dizia-se que jogavam por ‘amor à camisola’, agora dizem-se ‘profissionais’, desde que melhor pagos ou trocados por idênticos executores mais novos e artísticos. Há situações em que um jogador pode jogar e marcar por uma equipa/clube e, num curto espaço de tempo, estar do outro lado da barricada contra quem antes lhe pagava ou de cuja camisola se dizia defensor… Não será isto uma atitude de mercenário? Não faltará nisto ética e sentido de responsabilidade? Não se difundirá mais a propensão para a mentira do que a valorização da verdade…humana, ética e desportiva? 

= Eis breves questões sobre o tal ‘mundo’ do futebol:

- Quando se fará uma investigação despida de preconceitos para averiguar se o futebol não é um espaço de lavagem de dinheiro de outras atividades ilícitas, ilegais e quase imorais?

- Quando se fará uma purga de tantos interesses que se vão encobrindo no âmbito do futebol e com armas pouco claras e minimamente verdadeiras?

- Quando se vê alguma luta pela dignificação da exposição/venda dos animais, não se estarão a esquecer os campos do futebol, sem medos nem ressentimentos, vendendo os executantes (jogadores, treinadores, dirigentes, etc.) como artigos sem marca nem qualidade?

- Quando se dá mais importância ao jogo feito fora do campo, não se estará a desdignificar quem o pratica em favor de quem o cozinha?

- Quando se passa mais tempo a discutir o jogo e menos a disputá-lo com verdade e honestidade, não se estará a dar importância aos abutres em vez de olharmos para as aves que, de facto, voam?  

Ora, enquanto o futebol for mais indústria e/ou comércio e menos desporto, estaremos a confundir as funções dos praticantes, dos dirigentes e dos que gostam dele como ação humana digna e dignificadora… Tudo o resto poderá cheirar a mentira, a confusão e a corrupção… com mais ou menos mercenários e menos para mais desportistas!

 

António Sílvio Couto  

segunda-feira, 29 de outubro de 2018

João 8, 32


«Conhecereis a verdade e a verdade vos tornará livres».

Foi com esta frase bíblica que o candidato vencedor nas eleições presidenciais no Brasil se apresentou diante das câmaras de comunicação.

Jair Messias Bolsonaro conseguiu 55,1% dos votos (57.797456 votos), enquanto Fernando Haddad recolheu 44,9% da votação (47.040 820 votos). A diferença foi de dez pontos percentuais e de mais de dez milhões de votos expressos.

De entre os vários momentos na hora da vitória foi significativo o tempo de oração em direto, para além do slogan com que terminaram: Brasil acima de tudo; Deus acima de todos.

Atendendo ao ambiente crispado com estas eleições no Brasil decorreram, há pequenos (ou grandes sinais) que nos devem fazer refletir, tenhamos – quanto aos candidatos votados – a preferência que quisermos.

Desde logo pareceu que, nalguma da comunicação social portuguesa, não havia total independência, antes se notou sempre – até depois dos votos contados – uma tendência anti-Bolsonaro apelidando-o de ‘extrema direita’, de ser antidemocrata, homofóbico, misógino, de colocar em risco o futuro do seu país… Mas haverá cerca de 58 milhões de enganados e os outros 47 milhões, que votaram no candidato vencido, foram sempre e só democratas?

Houve temas e assuntos que foram introduzidos na contenda que podem incomodar alguns dos políticos mais materialistas e marxistas, ateus e agnósticos, fazedores duma moral anti-vida e, sobretudo, contra a família. Deus apareceu nestas eleições duma forma quase só comparável à dos jogos de futebol, na linguagem dos jogadores brasileiros. Referências a Deus foram normais. Colocar o que se estava a passar sob os desígnios de Deus foi habitual, bastando referir a vida – após o atentado a Bolsonaro – do candidato…agora eleito presidente.

Assuntos que eram considerados quase tabu foram trazidos para o espaço público, tais como a questão da família, levando, por vezes, certos lóbis lgbt a fazerem razoável barulho, com acusações, ameaças e convulsões. Por aqui se pode ver que há muita gente – lá como cá – que só conhece uma forma de democracia, a sua e sem tolerância para com os outros, sobretudo se pensam, agem e vivem de modo diferente do deles: temos de os aceitar e eles/elas não nos compreendem…minimamente!  

= Neste mundo globalizado pode-se perceber um tanto melhor que precisamos de ter ideias claras e simples para estarmos neste mundo, tantas vezes adverso para com os que têm fé e que a tentam exprimir de forma livre, respeitada e respeitadora. Agora já não se trava uma luta entre católicos e protestantes, como em séculos passados, mas antes entre crentes e não-crentes (podendo manifestarem-se como descrentes, agnósticos ou ateus confessos), seja qual for a expressão religiosa que se possa professar. Isso mesmo se viu nas eleições brasileiras, evangélicos e católicos foram-se revendo nas propostas do presidente eleito, tal como outros se assemelharam ao que era defendido pelo candidato vencido. Talvez seja exagerado aquilo que foi dito na noite eleitoral sobre os evangélicos poderem ser os responsáveis pela vitória de Bolsonaro. Dever-se-á dizer que colocar a presença de Deus na política deveria ser mais normal do que tem sido sobretudo por cá na velha e anquilosada Europa…

Para alguns saudosistas da dialética marxista, dá a impressão que lhes está a escapar o controlo particularmente da comunicação social. Hoje nota-se uma vaga de fundo que perpassa muito para além do que a comunicação tradicional dizia, escrevia ou mostrava. Hoje as ditas redes sociais não estão mais sob a alçada dos critérios duvidosos dos senhores jornalistas… encartados. Hoje informar e ser informado é mais democrático e por isso (segundo eles) perigoso para a ‘sua’ democracia.

Está na hora de sacudir as peias da ditadura do politicamente correto! A democracia assim permite e tal facilita…até quando? E Deus velará por nós.

 

António Sílvio Couto


terça-feira, 23 de outubro de 2018

Brincar aos casamentos, não!


Foi emitido, por estes dias, um programa televisivo em canal aberto, que tem tanto de patético, quanto de risível: numa espécie de faz-de-conta uns pretensos ‘noivos’ são levados a casar sem se conhecerem…antes tendo o primeiro contato na hora do (hipotético) enlace.

Desde logo vale a pena situar-se nos aparentes factos: nenhum processo, mesmo civil, é feito sem o conhecimento dos intervenientes, pela simples razão de ser preciso averiguar se os tais ‘nubentes’ estão ou não casados…ou o dito ‘casamento’ é nulo. Outro aspeto não menos significativo: é preciso que os dados fornecidos e recolhidos sejam verificados por documentos autênticos e apresentados…logo a surpresa é de manifesto faz-de-conta.  

Como seria, então, possível submeter os ‘réus’ àquela fantochada sem o seu consentimento, mesmo pela preparação da documentação prevista? Como poderiam aparecer aquelas múmias – nada há contra as autênticas – um diante do outro sem se conhecerem…numa conquista de casamento à primeira vista?

Acima de tudo será de questionar a seleção dos candidatos, pois a festa decorre como se fosse duma coisa séria se tratasse, mas que não passa duma reles representação de ‘classe c’. As declarações dos figurantes – por vezes assumindo o papel de convidados – deixam um tanto a desejar, não só pela medíocre arte representativa como ainda pelas roupagens usadas… patrocinadas, ao que se pode depreender, por marcas de roupa, que dão a entender que ou estão em crise de vendas ou a precisar de publicidade com desconto…

Valerá a pena ainda questionar quem era a tal ‘figura’ que, pretensamente, aceitou a expressão de consentimento dos (pretensos) noivos. Se era alguém ligada à estrutura do registo civil, talvez tenha exorbitado o espaço e as funções…não vimos a ser assinada a ata do episódio. Se era um elemento da produção do programa, então, a farsa reveste a configuração de logro, de diversão e de mentira, tanto diante dos ‘réus’ como dos assistentes ao caso. A brincar deste modo não somos nem honestos e muito menos credíveis… Ainda se queixam de tantas outras situações de mentira!  

= Com o devido respeito, já sabíamos – por experiência de vários anos e em diversas situações – que há um leque de pessoas que não leva minimamente a sério esta questão do casamento e tão pouco do matrimónio, mas ter a ousada de ridicularizar esta instituição básica da sociedade humana, é, sobremaneira, uma ofensa e um ultraje a quem celebrou com respeito o casamento e, especialmente, o matrimónio. Como não acredito que possa haver coisas inocentes nesta ocupação dos espaços de comunicação social, parece-me que programas como este e o leque do ramalhete que comporá a proposta nesta linha, poderá desejar antes de tudo ridicularizar o que se refere à componente familiar, criando, desse logo, descrédito e menosprezo, para que viva neste ‘casa-e-descasa’ com que nos temos vindo a confrontar cada vez mais…normalmente!

Até agora, a partir do programa emitido, há duas notas a referir: as experiências falhadas em circunstâncias anteriores dos pretensos ‘nubentes’ e uma certa idade dos candidatos…onde o desejo de casar se foi diluindo… embora necessitando.   

Porque considero que o ato de casamento é algo muito sério e envolvente de toda a vida, acho que programas – de ilusão, de entretenimento ou de confusão – não fazem qualquer serviço de utilidade pública e muito menos de dignificação dos participantes. Por isso, será de atender à sua não-difusão para que não se faça de algo comprometedor da vida das pessoas, uma espécie de farsa com maior ou menor qualidade…ou audiência.

Não brinquemos aos casamentos nem façamos do casamento um mero ato de brincadeira aceite, tolerada ou provocada… Estão vidas e sentimentos de pessoas em jogo, respeitem-nas!

 

António Sílvio Couto  

segunda-feira, 22 de outubro de 2018

Paranoia à volta da ‘proteção de dados’


Depois da insensatez do facebook algo tinha de ser feito para colocar bom senso na cabeça e no comportamento do povo. Não se podia continuar a dizer e mostrar tudo e o resto, da forma mais abjeta e desabrida com que se vinha a crescer na banalização das pessoas, a começar por cada um dos intervenientes. Quase tudo e todos estavam sob a alçada duma certa promiscuidade sem critérios, pois se foi descendo tão abaixo que já quase nada estava sob reserva ou condição…nem de si mesmo.

Perante tão aberrante espetáculo a que vínhamos a assistir, tinha de ser feito algo que pudesse continuar a fazer de cada pessoa alguém com dignidade e com reserva de mistério – seja no sentido cristão do termo, seja no conceito de defesa do que cada um é e precisa de ser cuidado. Mesmo que, uma boa parte das pessoas, não tenha tento nem discernimento daquilo que pode ou deve mostrar no estendal faceboquiano, será preciso criar condições para que não haja conflitos de interesses nem possam ficar impunes as prevaricações duns tantos sobre outros…

Neste sentido parece ganhar importância e nova significação o tal novo ‘regulamento geral de proteção de dados’, que entrou em vigor a 25 de maio passado. Embora possa parecer, num primeiro momento, quase um emaranhado de condicionantes, deverá ser interpretado, salutarmente, como uma salvaguarda legislativa europeia para os abusos e deformações de comportamento a que vínhamos a assistir… Dirá nosso povo na sua sabedoria: para grandes males, grandes remédios!

Há, no entanto, no processo de difusão, de explicação e de implementação deste regulamento algo que deixa um pouco a desejar sobre a capacidade, a inteligência e até a perspicácia dos nosso concidadãos, pois, em certa medida, parece que nos consideram quase mentecaptos quando está em causa muito da nossa identidade, da nossa salvaguarda de presença com os outros e até de defesa para com certos intrusos na nossa vida pessoal, familiar, associativa, cultural e social. Com efeito, certas regras agora propostas não passam de chamadas de atenção ao bom senso, em ordem a defender-nos dos abusos sobre a exposição da nossa vida privada com que estávamos a ser assediados pelas façanhas e tropelias do facebook: o cuidado para que não haja intromissões na captação, difusão ou exposição de assuntos que podem fragilizar ainda mais as pessoas, como são os assuntos de saúde, de opções religiosas ou de condicionantes para com cada pessoa naquilo que ela é e para com quem não tem nada a saber para além do estritamente necessário e na relação de funções ou solicitação de algum serviço específico, sobretudo se isso obriga a sigilo e/ou confidencialidade…

Nestes aspetos aduzidos nada há que possa ser mais importante do que a pessoa, pois, como referimos acima, o mistério de cada pessoa tem de ser salvaguardado sempre e, duma forma especial, quando estão em causa as crianças, os mais fragilizados ou vulneráveis da sociedade. Também ninguém pode tirar proveito dos conhecimentos que teve (ou tem) em razão do tipo de trabalho/profissão que exerce, pois isso poderia constituir abuso de confiança, senão mesmo de violação (clara ou presumida) da intimidade da pessoa.

Parece não subsistir qualquer dúvida de que, cada vez mais, temos de ser defendidos e nem a (dita) liberdade de informação poderá sobrepor-se a qualquer interesse dos meios policiais, fiscais, estatais ou mesmo de investigação. Com efeito, teremos de saber conjugar bem os modos de segurança e de liberdade, bem como as tentativas de pretender escarafunchar a vida alheia, sem regras nem critérios… À era do facebook tem de se impor a de proteção de dados com regras e limites…claros e assinalados na lei, igual para todos os cidadãos.

Breves questões:

- Com tantos cartões e informações dadas a torto-e-a-direito, que pretendíamos, descontos ou estarmos a facultar ingerência na vida das pessoas?

- Com tantos sinais de vulgarização da pessoa sobre si mesma e para com os outros, não tinha de chegar a hora da normalização das relações interpessoais e não na exploração do sensacionalismo?

- Com a criação duma certa impunidade em dizer tudo o que apetecia, não tínhamos de ser mais ponderados, rigorosos e sensatos naquilo que dizemos e mostramos, de nós e dos outros?

- Não estará a faltar a todos os intervenientes na ‘proteção de dados’, um certo rigor sem rigorismo à mistura com boa-fé e uma razoável dose de apreciação da nossa inteligência pessoal e coletiva?

 

António Sílvio Couto

sexta-feira, 19 de outubro de 2018

Violência ‘em beijar os avós’?


Tem causado alguma celeuma uma opinião dum tal professor (ao que parece) universitário que, na sua perspetiva, considera uma ‘uma violência’ obrigar as crianças a beijarem os avós, pois se estaria, desde então, a condicionar as crianças, acarretando consequências pedagógicas para o futuro…

De quem exprimiu tal opinião logo foram escarafunchar o ‘perfil’ e as notas recolhidas talvez possam explicar, um tanto melhor, tal tomada de posição, se bem que, no nosso caso, nem interesse muito a vida do tal ‘intelectual’, pois, antes de tudo, teremos é de tentar saber, se a ousadia expressa, tem algo a ver com a realidade em geral e não tendo em conta as experiências do particular… 

= Será o beijo – na sua expressão mais simples e natural – uma expressão de afetividade ou uma caraterística cultural? Não teremos subvertido o recurso ao beijo como manifestação banal e banalizada? Atendendo às experiências pessoais, seja quem for ou de que sexo seja, será o beijo uma manifestação de proximidade ou uma vulgarização inconsequente? Não haverá outras formas de cumprimento, entre pessoas adultas, mais afetivas e sinceras do que as que tenta aduzir o gesto do beijo? Até onde poderá ir a boa ou má vivência da afetividade, manifestada através do beijo, nos comportamentos atuais de tantas e tão variadas pessoas?

Outras questões se poderão colocar, por forma a tentarmos interpretar as mui díspares posições sobre alguns gestos e comportamentos, desde que não se ouse fazer crer que a minha posição é a mais correta, sem deixar aos demais a possibilidade de serem pessoas livres e sem acusações para com ninguém… 

= A propósito do posicionamento do dito professor, foram-se ouvindo outras opiniões, que podem ajudar-nos a entender a complexidade da questão ou a simplicidade dos comportamentos humanos, equilibrados e adultos…psicológica e afetivamente.

Uma boa parte de técnicos ouvidos sobre o assunto consideram que a forma de cumprimentar os avós com um beijo não é, na maioria dos casos, um problema social, mas tão-somente de educação, tanto cultural como familiar. Alguns consideram que, se uma criança reage a não querer cumprimentar os avós com um beijo, não se deve forçar, antes se deverá encontrar as razões, dialogando com as crianças, pois elas podem ter as suas razões…para tal atitude. Outros ainda consideram que o cumprimento por parte das crianças com um beijo, onde se podem (ou devem) incluir os avós, é algo normal numa sociedade onde como que se vulgarizou esta forma de saudação e de cumprimento entre as pessoas mais velhas ou mais novas…sendo sempre de respeitar e de encontrar as razões para algo que possa sair deste quadro de normalidade…

Embora sob reserva alguns dos técnicos cujas opiniões foram escutadas por meios de comunicação social consideraram abusiva a extrapolação do tal professor em generalizar para casos de violência na adolescência aduzindo raízes nas menos boas experiências das crianças em relação aos avós… Será de dizer que ninguém poderá ser considerado sério nas suas posições extremas (ou mesmo extremistas) se se coloca como modelo das vivências dos outros… 

= Atendendo a que uma boa parte dos que hoje começam a ser avós são filhos da revolução de abril de 74, teremos de saber fazer a leitura adequada de muito daquilo que foi alguma liberdade má entendida e, possivelmente, menos bem vivida. Numa linguagem comum poder-se-á considerar que ser avó/avô é ser mãe/pai duas vezes, podendo corrigir nos netos o que não foi bem feito nos filhos. Em situações muito habituais é possível ver os avós a cuidarem dos netos pela razão da ocupação profissional dos filhos. Muitos destes quase nem estão com os filhos e a relação afetiva e efetiva é muito cimentada com os mais velhos. Por isso, será de desconfiar dalguma aversão que o tal professor manifestou para com os avós, traumatizando os mais novos… Para certas mentes já só falta condicionar o relacionamento entre as gerações, se os mentores tiverem más experiências para os que eram (são) seus avós…

 Uma referência pessoal: tenho pena de só ter conhecido, muito tarde, a avó materna, mas isso não me fez descrer da boa e necessária relação entre avós e netos… onde um beijo nunca seria um ato de violência, antes de ternura, de aconchego e mesmo de perdão!

 

António Sílvio Couto