Partilha de perspectivas... tanto quanto atualizadas.



segunda-feira, 17 de setembro de 2018

Civismo, a quanto obrigarias



Recordo que um dos quatro parâmetros das notas de comportamento – estávamos em finais da década de 60 do século passado – era o da ‘civilidade’. Para quem era quase criança essa palavra soava a esquisita. Com o tempo e as lições de educação recebidas fui-me percebendo que civilidade vinha de ‘civitas’, que tem a ver com o aprender a estar na cidade, refere-se à condição de cidadão – até por contraste com pagão, o que vivia no ‘pagus’, no campo – e a uma panóplia de requisitos para quem quer estar com os outros em relacionamento de respeito, de boa convivência, seja pela normalidade de trato, seja pelas regras que advêm de estarmos em sociedade.

Ora, o que vi nos últimos tempos no espaço físico-geográfico em que vivo é tudo e o seu contrário de civilidade, de civismo, de educação, de respeito pelos outros, pelo ambiente, pela limpeza ou mesmo pelo mobiliário público… Dá a impressão que muita gente faz da rua o espaço mais mal tratado da convivência consigo mesma e com os demais, tornando-a um esterqueiro a céu-aberto, lançando toda a forma de dejetos – a palavra é mesmo essa – para o espaço que é de todos e não só de alguns, mesmo que possa ter a sua forma de ver, de viver e de estar.

Diante deste ‘espetáculo’ de subdesenvolvimento – chamar-lhe terceiro-mundista seria uma ofensa a quem viva nessas condições em razão da extrema pobreza e da falta de condições de higiene – tentei aperceber-me das razões mais profundas e generalizadas com que vimos a confrontar-nos cada vez mais e num maior número de lugares, de situações e de condições.

Será que um pequeno aumento de folga económica faz-nos tornar os outros – sobretudo os que cuidam da nossa limpeza pública – limpadores daquilo que sujamos sem respeito nem vergonha? Será que os sinais de sujidade pública são o retrato duma negligência de higiene privada, tanto das pessoas, como das casas? Porque se vai generalizando essa impunidade de sujar ou mesmo destruir as coisas públicas, sem que as autoridades intervenham pela admoestação ou mesmo pela repressão?

Agora que se inicia um novo ano escolar não seria de introduzir mais claramente nas escolas sessões de civilidade, de civismo e de cidadania – as palavras podem ser parecidas mas contêm matérias diferentes – em ordem a educar, desde a mais tenra idade, os cidadãos de amanhã, ensinando-se as regras básicas da convivência, já que, parece, as famílias não o têm conseguido?

Não podemos continuar a gastar imensos recursos em assuntos que são da mais básica conduta de quem está com os outros. Urge, por isso, saber ler os sinais emitidos por ocasião de grandes festas – particularmente se se prolongam por vários dias – ou em ajuntamentos de pessoas. Nessas ocasiões como que sobe ao consciente duma boa parte desse anónimo a quem chamam ‘povo’, uma espécie de desculpa coletiva onde poucos se assumem como portadores dalguma civilidade e se confundem na massa do faz-de-conta que ninguém vê, mas cujos resquícios se percebem quando o tal anónimo se afasta do lugar onde esteve… Sinal disso e talvez revelador de algo ainda pior é aquilo que fica no recinto do santuário de Fátima, após dias de peregrinação: algo de imundo invade aquilo que se pensaria podia e devia ser um lugar de educação, de civismo e de educação…em função dos valores cristãos recebidos e dados! 

Em certos lugares de uso público é habitual vermos escrito: deixe como encontrou ou como gostaria de encontrar…colabore na limpeza deste lugar… Estas e outras recomendações certamente já vimos e fizemos como nos pediram. O problema é quando se abandalha o espaço público, tornando-o alvo de menos agradável, criando condições para que se agrave a sujidade e se revele que, quem por ali passou, não teve em consideração quem viria depois e se degrada o que podia ser aprazível e útil a todos.

Há lições da mínima educação que podem modificar o estado de coisas a que chegamos, bastando que cada um de nós limpe, ao menos, um metro em volta da sua porta, seja de casa, seja do seu prédio ou mesmo do perímetro da sua estatura. Não podemos continuar a nada fazer, considerando que outros limparão o que sujamos ou aquilo que nos compete a nós assear. Se considerarmos que cada um de nós produz 1,2 Kg de lixo por dia, veremos a árdua tarefa de adquirirmos hábitos que ajudem a fazer da nossa convivência diária uma batalha que não pode ser dada por adquirida, mas dela cuidar todos os dias…                

 

António Sílvio Couto

quinta-feira, 13 de setembro de 2018

Será correto ‘dar’ os livros?


Com o regresso às aulas como que voltam certos temas e questões mais ou menos recorrentes à liça e talvez um tanto populistas, que deveriam levar-nos a refletir mais do que a aceitar de modo acrítico e sem exigir.

De entre as diversas iniciativas de âmbito escolar há uma que pode ser, pelo público, bem aceite, mas que talvez possa não ser tão correta como seria desejável: a dos livros gratuitos. Este projeto envolve a inscrição prévia para receber, posteriormente, vouchers; a distribuição dos ditos ‘manuais’… a todos os alunos/as do 1.º ao 6.º anos e, nalguns concelhos, até ao 12.º ano. Esta medida implica que os tais ‘manuais’ sejam devolvidos – pretende-se em bom estado de conservação – no final do ano letivo…

Atendendo a que todos os alunos matriculados e com as turmas publicadas podem ser sujeitos desta medida, será pedagógico dar, deste modo tão universal, os livros aos alunos, tenham ou não necessidade de os receber de forma gratuita? Não estarão os mentores desta medida – boa para uns, mas que poderá ser contraproducente para outros – a desresponsabilizar quem precisa e quem recebe a troco de nada? À boa maneira estalinista não estarão a comprar as pessoas com benesses não pedidas nem precisas?

- Para quem contesta – e nalgumas situações bem – uma certa mentalidade assistencialista, não deixa de ser revelador dum outro poder mais tentacular esta atitude paternalista estatal para com quem não pediu e se submete a tais a-preparos e condicionalismos… agora e no futuro. Algo se está a semear, mas poderá fazer vir a colher amargos frutos de vandalismo, mesmo para com o mobiliário público, que sendo de todos, não vincula ninguém. O princípio está lançado desde a mais tenra idade…

- Em meu entendimento a pior das consequências desta medida dos ‘manuais gratuitos’ poderá ser a negligência no cuidado para com os livros, que não custaram a comprar, porque dados e sem muito esforço ‘amados’. Com efeito, só quem teve de fazer sacrifício para comprar um determinado livro e depois ao tê-lo na mão, faz saborear o gosto da aquisição e a estima para com algo que tem muito de nós mesmos e do nosso esforço… Mesmo os livros escolares podem e devem ser tratados com carinho e estima, na medida em que através deles vamos descobrindo a vida, os seus mistérios e com eles caminhamos mesmo nas horas de aturado estudo… Como lembro, em recordação de leitor em princípio de caminhada, o sabor de ir cortando as folhas não aparadas de certos livros, na direta proporção da descoberta daquilo que estava escrito…Ainda hoje sinto o toque e o sabor dessa inesquecível vivência!

Por estas e outras razões considero uma espécie de atentado à boa gestão do processo educativo oferecer – ninguém dá nada a ninguém sem receber algo em troca – deste modo os livros, pois o que é dado nem sempre é tão gostoso nem amado.   

- Em contraponto não seria bem mais benéfico apostar na total gratuidade das refeições escolares, fazendo parte dum plano de alimentação que cuide da saúde infantil, juvenil e sénior? Porque muitas vezes vemos os mais novos a alimentarem-se com produtos de duvidosa qualidade, não seria preferível gastar proventos nesta matéria em vez do investimento nos livros gratuitos?

- É pena que certas figuras da cadeia de mando na área da educação não tenham vivido experiências de descoberta, impondo, em contrapartida, essa espécie de ‘fast-food’ cultural do mais fácil, mais rápido e, sobretudo, sem aprendizagem de estudar com esforço, por dedicação e com amor pelos livros e de quem os vai cozinhando com estima, verdade e vocação.

Livros dados, não, obrigado…nem por prémio dalgum concurso ou ‘jogos-florais’ baratos!    

 

António Sílvio Couto  


quarta-feira, 12 de setembro de 2018

O povo precisa de festa…


Desde tempos imemoriais que o ritmo da festa foi essencial para a vida dos povos. Estes muitas vezes contam o seu ‘tempo’ pela data da ‘sua’ festa – religiosa ou não – valendo, nalguns casos, muito para além das outras grandes (páscoa e natal) comuns, mas essas são de todos…

De facto, a festa de cada localidade, região ou país é como que catártica de toda a vida dessa região (ou religião) ou povoado… Num tempo de cristandade era comum colocar essa festa sob a tutela dalgum santo/a, de invocação/evocação de Nossa Senhora ou mesmo dalguma faceta do mistério de Cristo… Agora que estamos a viver um processo crescente de descristianização – nalguns casos já se verifica uma espécie de neo-paganização – há quem pretenda servir-se da ‘tradição’ religiosa para a fazer subverter numa outra componente mais social, um tanto ou quanto politizada e/ou num aspeto cultural a gosto… do que se pretenda atingir a curto ou a médio prazo.

Os ingredientes das festas vão-se como que generalizando para a dimensão mais lúdica do que espiritual, vão-se tornando oportunidades para distrair o povo, usando-o como complemento e não como sujeito. Em certas ocasiões vamos vendo crescer uma apetência para propor elementos quase espúrios à cultural local para ir impondo gostos e modas de duvidoso conteúdo humano e cultural mais consentâneo com esse povo que pode e deve fazer festa sem se alienar nem sem ser usado para objetivos subterrâneos nem sempre percetíveis a olho nu…  

Da religiosidade natural

Muito daquilo que vivemos, mais ou menos inconscientemente, por ocasião das festas – religiosas e/ou populares – está eivado dum quê de religiosidade natural, na medida em que se reflete alguma ligação à terra e àquilo que é o ritmo da vida em consonância com o ciclo da natureza, que nos faz viver e conviver. De facto ´, muitas das nossas festas – por vezes apelidando isso de tradição – fazem-nos estar numa referência às raízes ancestrais em que muito daquilo que vivemos se situa na linha de tantas outras correntes em muitos outros lugares tão distantes quão diversos…O problema é uma certa ignorância em que se pretende fazer da ‘sua’ festa um bairrismo quase atrevido porque atuando por desconhecimento, que não nos une, como devia, a tantas outras partes do país e até do mundo…mesmo que com matizes mais ou menos aceitáveis e com conteúdo…cultural específico.

Será aceitável gastar rios de dinheiro em coisas perfeitamente escusadas como foguetes e arranjos de gosto duvidoso, tentando justificar isso com alguma ‘tradição’ menos bem fundamentada e razoável? Não será um tanto questionável manter certos ‘ritos’ se estiverem esgotadas as razões que os fizeram surgir?  

... À evangelização renovada

«A religiosidade popular não tem uma relação, necessariamente, com a revelação cristã. Porém, em muitas regiões, exprimindo-se numa sociedade impregnada de diversas formas de elementos cristãos, dá lugar a uma espécie de ‘catolicismo popular’, no qual coexistem, mais ou menos harmoniosamente, elementos provenientes do sentido religioso da vida, da cultura própria de determinado povo e da revelação cristã».

Este excerto do ‘Diretório sobre piedade popular e liturgia’, n.º 10, faz-nos considerar que há sementes de cristianismo disseminadas por muitas manifestações de índole popular – sobretudo tem em conta o background cristão de outros tempos na Europa em geral e no nosso país em particular – embora se tenha de estar, cada vez mais atento, para que isso não seja infetado de paganismo em muito daquilo que já teve expressão de fé cristã.

Os elementos da designada ‘piedade/religiosidade popular’ precisam de ter presente a dimensão bíblica, a inspiração antropológica, a referência litúrgica, sem esquecer a sensibilidade ecuménica.

Não teremos de aproveitar muito mais as nossas festas, com algum sabor a religião, para lhes dar dimensão querigmática atualizada? Não andaremos a suportar ‘festas’ onde se exibe mais a vaidade do que consciência cívica de pertença e de solidariedade? Não teremos de desembrulhar muito mais Cristo nas nossas festas, feitas ao sabor de gostos um tanto suspeitos e com objetivos pouco claros?      

 

António Sílvio Couto



quarta-feira, 5 de setembro de 2018

Felizmente padre neste tempo


Decorreu por estes dias, em Fátima, o nono simpósio do clero de Portugal, sob o tema – ‘o padre, ministro e testemunha da alegria do Evangelho’.

Mais de quatro centenas de clérigos (bispos, padres e diáconos) de todas as dioceses portuguesas viveram em ambiente de partilha, de comunhão e de convivência entre as várias gerações de padres, sem ser tida em conta a sua procedência, formação ou mesmo sensibilidade eclesial. Num clima de formação (teológica, espiritual e humana) permanente estiveram presentes, entre outros, o perfeito e o secretário da Congregação do Clero, bem como especialistas da área eclesiástica sobre diversas matérias.

Atendendo à intoxicação (informativa e opinativa), que tem sido servida por parte dalguns órgãos de comunicação, na sessão de abertura do simpósio foi publicitada uma carta-mensagem do episcopado português, que foi endereçada ao Papa Francisco. Nesta mensagem, agradece-se a ‘carta ao Povo de Deus’, de 20 de agosto último, do sumo pontífice sobre o “drama do abuso de menores por parte de membros responsáveis da Igreja”. Numa atitude de comunhão com o Papa Francisco diz-se na mensagem: “também nós partilhamos o sofrimento do Santo Padre e de toda a Igreja e propomo-nos seguir as orientações para erradicar as causas desta chaga. Empenhar-nos-emos em incrementar uma cultura de prevenção e proteção dos menores e vulneráveis em todas as nossas comunidades”. 

= Ora, diante da vivência deste simpósio e das circunstâncias exteriores, desejamos exprimir alguns aspetos de índole pessoal, vocacional e eclesial.

- Quando tantos colocam sob suspeita muitos dos ministros da Igreja, extrapolando os erros, falhas, crimes ou pecados duns tantos, fazendo-os espargirem-se sobre todos indistintamente, parece que não podemos confundir a árvore com a floresta nem podemos obrigar todos a serem culpados daquilo de que só uma minoria é acusada.

- Quando se tenta lançar o labéu sobre a comunidade dos crentes, pela simples razão duns quantos ofenderem e envergonharem o resto, torna-se urgente ser um pouco mais sério e não confundir quem nada tem a ver com o assunto, embora os pecados pessoais empobreçam a comunhão de todos e de cada um…

- Quando se nota algum aproveitamento – dentro e fora do âmbito eclesial – de certas forças para tentarem atingir a pessoa, o ministério e a dimensão do Papa, é da mais elementar justiça saber distinguir o que tem sido o esforço de renovação, de profetismo e mesmo de desafios que Francisco tem trazido no parco tempo do seu pontificado – cinco anos – e as mudanças que com ele se deram na Igreja católica e no mundo… Talvez ele possa incomodar e não há como atingir o pastor e as ovelhas poderão dispersar-se! 

= É uma graça e um sinal divino ser padre neste tempo, pois muito daquilo que nos faz corresponder ao chamamento de Deus na Igreja católica é hoje mais do que nunca uma oportunidade de afirmar com a vida – nem sempre isenta de erros, falhas ou pecados – como Deus continua a precisar de nós para se fazer presente neste mundo. Não é por honrarias que aceitamos ser ordenados padres. Quem pensar – ou pior julgar – de forma diferente pode fazê-lo, mas não está a respeitar o que há de mais sagrado numa vocação sacerdotal ministerial: deixar-se ser instrumento divino e com isso caminhar com aqueles que Deus coloca no nosso caminho…mesmo que nem sempre nos compreendam ou até aceitem, como seria desejável.

Hoje, mais do que no passado da cristandade, aceitar ser padre de Jesus é despojar-se de regalias sociais e mesmo culturais. Hoje, mais do que num passado de religião social, torna-se desafiante prescindir de muitos dos proventos do clericalismo para ser tornar irmão com os irmãos, embora padre (pastor, guia e servidor) para eles. Hoje, mais do que num passado já longínquo, ser padre já não é promoção pessoal nem familiar, mas antes faz acreditar na necessidade de crescer na humildade pela competência, na verdade pela honestidade e na confiança pela autenticidade.

O que vi e gostei de observar no recente simpósio do clero foram padres e bispos com ar sereno e espírito de partilha. Numa palavra: não será tal comportamento indício de felicidade? Talvez haja óculos que precisam de ser limpos e olhos que necessitam de ser lavados…    

 

António Sílvio Couto 


 

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

Tentáculos mundanos…sobre a Igreja


Sempre foi uma tentação, mas nos tempos mais recentes parece que está mais aferrado o problema: uma leitura demasiado mundana das questões que ocorrem na Igreja católica, atingindo duma forma especial o Papa Francisco naquilo que ele diz, faz e profetiza…em linguagem cristã/católica.

Há questões que alguns pretendem ler, interpretar e, por vezes, discernir numa perspetiva de tonalidades extremas: a preto ou a branco, sem incluir a imensa paleta de cores…não a cingindo à tutela do arco-íris, símbolo duma outra movimentação social, cívica e cultural transnacional…

Nesta época de grande crise, a Igreja católica está submetida a uma espécie de inquisição popular – dinamizada por uma rede de meios de comunicação social e secundada por outras forças mais subtis de índole amoral – em que os seus membros e ministros, fiéis e simpatizantes, regulares ou seculares como que têm de provar a não-falta – quando na justiça é o contrário – que lhes possam imputar há mais ou menos tempo… Ao contrário daquilo que diz a Bíblia Sagrada para muitos dos acusadores – sabe-se lá com que fundamento ou com que interesse – a culpa ultrapassa miríades de gerações que antecederam quem agora é julgado…mesmo sem possibilidade de defesa.

Um tanto de forma ténue têm começado alguns prelados, em Portugal, a virem a terreiro defender as posições do Papa Francisco, considerando uns que há uma campanha orquestrada contra ele, dentro e fora do espaço eclesial e outros solicitando que se reze pelo Sumo Pontífice, pois as atrocidades que lhe são apresentadas pelo encobrimento de outros purpurados são mais do que coincidências, antes revestindo a capa de atingirem o pastor e as ovelhas serem dispersas…

Naquilo que é o conceito de Igreja e a forma de nela participar e intervir podemos considerar que muitos dos nossos ‘praticantes’ são mais conduzidos pelo que se diz (ou pode dizer) de mal daqueles que têm o cuidado pastoral para com eles do que de terem consideração e estima por quem lhes dá o máximo que tem e, mesmo que não seja bem entendido, ainda continuam a dedicar-se a eles…sem gratidão nem reconhecimento. Talvez estejamos mais numa visão dos padres/bispos/papa ‘funcionários’ das coisas sagradas e enquanto delas possam necessitar do que em sermos entendidos como irmãos com eles e pastores para eles. Que ninguém se iluda, não estamos a salvo de qualquer atoarda de maledicência ou de difamação, pois, para que tal possa acontecer, bastará que não se faça o que os ‘paroquianos’ desejem na sua visão de democracia e estaremos sob a alçada da malquerença e mesmo da acusação sem nexo ou mesmo sem rosto…

* Como poderemos criar condições para que aqueles/as para quem celebramos as coisas sagradas nos entendam como mistério em Cristo na Igreja?

* Como poderemos dizer o que somos sem nos afirmarmos em excesso nem num plano de superioridade mais ou menos tolerado, mas não-aceite?

* Como poderemos ser cristãos com eles e ministros para eles, à boa maneira com que S. Agostinho se defina e viveu?

* Como poderemos viver ensinando e ensinar vivendo, tendo em conta a discrepância de conceitos e de critérios mais mundanos do que cristãos em muitos dos espaços de celebração da fé? 

Notas

- Esta dorida partilha/reflexão escrevo-a horas antes de ter início o nono simpósio do clero de Portugal, que se realiza de 3 a 6 de setembro, em Fátima, subordinado ao tema: o padre – ministro e testemunha da alegria do Evangelho. É habitual participar um décimo dos padres do nosso país, nalguns casos manifestando que os ‘repetentes’ são quase sempre os mesmos, isto é, os que costumam ir voltam, os que nem sempre vão, primam pela ausência…

- Num tempo em que se torna fundamental manifestar humildade, espírito de comunhão e capacidade de concertação de linguagens, de métodos e de aprendizagens talvez este tempo de simpósio possa (ou devesse poder) ser um tempo de refontalização e de testemunho para com os outros fiéis…

- Deste simpósio português deveria sair um voto e um sinal de compromisso para com o Papa Francisco nesta hora de tão dura provação à frente da condução da Igreja católica.

 

António Sílvio Couto


quarta-feira, 29 de agosto de 2018

Aliciar emigrantes…hoje como ontem

Foi altissonantemente proferido por um dirigente partidário em maré de ‘rentrée’: os emigrantes que queiram regressar terão desconto em cinquenta por cento no IRS…
A sugestão é como que uma tentativa de fazer regressar, aliciando, os milhares de portugueses que foram saindo do nosso país por ocasião da (rotulada) crise. Muitos deles/as eram possuidores de boas formações universitárias, mas não conseguiam, aqui, emprego compatível com as suas aspirações nem aos investimentos feitos em formação. Outros/as aspiravam receber reconhecimentos e vencimentos mais compatíveis com o seu (pretenso) estatuto…social, profissional ou ascensional. Uma boa parte foi tentar ganhar depressa o que iria auferir em mais tempo por cá…
Diga-se o que se quiser mas um número significativo dos emigrantes saídos por ocasião da crise posterior a 2008 comportou-se como uma espécie de mercenário: aqui deram-lhes as armas e lá fora conquistaram as vitórias…quase sempre de mãos voltadas para dentro, isto é, de forma egoísta, ardilosa e interesseira!


= Será justo que agora pretendam dar-lhes benesses contributivas, sem ofenderem os que por cá aguentaram a crise e a conjuntura de aperto e de contenção? Não estaremos a prolongaram uma certa exploração dos oportunistas e aventureiros, que agora podem voltar como heróis sem honra nem mérito?
Os que correspondam ao desafio não estarão a revelarem-se mais uma vez como beneficiários de todas as regalias e nunca contribuintes, pelo seu trabalho na dureza e pela participação ativa, mas antes saltimbancos em feira de vaidades e como malabaristas de torna-viagem? Quem conheça, minimamente, a mentalidade duma boa parte dos emigrantes saberá que são explorados na saída, esmifrados no local de receção e usados como descartáveis na hora de regressarem…desenraizados, apátridas e sem eira nem beira que os aceite, acolha ou mesmo tolere, à exceção do seu dinheiro!
Infelizmente este percurso não se modificou só porque já não moram no ‘bidonville’ ou que não recolham o sustento e o agasalho na ‘poubelle’ das grandes cidades…seja qual for o país. Os tempos são outros, mas a ostracização não se modificou tanto assim…ao menos culturalmente. Vi-o, por vezes, lá fora! 

= A mentalidade que propôs aos emigrantes voltarem com IRS reduzido é a mesma que fez alguns dos seus fundadores fugirem para o exílio e voltarem como heróis cobardes. A cultura subjacente a esta proposta nunca teve de sujeitar-se às agruras no estrangeiro, pois aqui tinham quem lhes pagasse as propinas e as contestações, normalmente a coberto da noite, de meninos-rabinos-pinta-paredes. Será que algum dos pensantes desta proposta viveu com os emigrados no duro ou antes deambularam pelos halls de hotéis de categoria superior?
Parece não haver dúvida que, uma boa parte dos nossos políticos profissionais, ouviu cantar (ou pensa) numa certa capoeira, mas não conseguem distinguir entre o som dum galo ou dum garnisé, dando mesmo a impressão de que para eles desde que ponha ovo – o produto com retorno económico imediato – poderá ser galinha ou outra ave…Só que o produto de retribuição nem sempre é o mesmo, antes poderá confundir certos pensadores de má memória e/ou de menos boa conduta…

= Embora um tanto tenuemente vimos surgir alguma contestação ao projeto iluminado de reduzir o IRS em metade para os emigrantes que queiram regressar. Antes de tudo será sempre fundamental saber as motivações que levaram milhares de pessoas a saírem. Não será certamente com acenos destes que muitos voltarão, até porque – já o referimos várias vezes, por conhecimento de causa – a possibilidade de alargar horizontes e de experimentar outras realidades culturais vale muito mais que todos os incentivos para a descida de impostos. Quem assim pensou e propôs talvez tenha considerado que os emigrantes ainda são assim tão cretinos como a sugestão manifestada…
Pensem melhor as coisas e não ofendam a inteligência dos que podem ter saído na linha dos navegantes das descobertas, a quem os ‘velhos do Restelo’ não intimidam, antes incorrem em ridículo, ontem como hoje!              


 


António Sílvio Couto

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

Fazer de surdo…sem ser mudo!


Novamente trazemos à liça a estória da corrida de sapos.

Fez-se, um dia, uma corrida cujos intervenientes eram sapos. O objetivo era atingir o ponto mais alto de uma torre. No local havia uma grande multidão a assistir. Havia quem aplaudisse e incentivasse os sapos na subida ao alto da torre. No entanto, o que mais se ouvia era: ‘Que pena! Os sapinhos não vão conseguir... não vão conseguir’! E os sapos começaram a desistir um a um... Só se manteve na competição um, que continuava na subida, cada vez mais cansado, mas tentando chegar mais alto. No final da corrida todos tinham desistido menos ele.

Ora a curiosidade tomou conta da assistência. Qual tinha sido o segredo de ele não ter desistido e de ter chegado ao alto da torre. Quando foram ver, perceberam como o sapo vitorioso tinha conseguido terminar a prova, descobrindo que aquele sapo era surdo! 

Não podemos confundir ser surdo com a possibilidade – normalmente ligada – de também ser mudo, pois nós repetimos o que ouvimos e, se não ouvimos minimamente, não será fácil sequer aprender a falar…corretamente.

Há, no entanto, pequenas nuances que poderão fazer com que ‘ser surdo’ não implique viver como mudo, isto é, podemos fazer-nos de surdos e não nos confinarmos a viver meramente em estado de mudez. Com efeito, em certas circunstâncias é útil e conveniente fazer-se de surdo, dando a entender que não se ouviu, embora se possa sentir vontade de ripostar. Noutros casos a melhor resposta é essa de se fazer de desentendido, deixando que o que é dito entre a 100 e saia a 200 sem nexo nem propriedade…neste setor se podem inserir muitas das ofensas e malquerenças com ou sem animosidade. Há situações em que é preferível fazer-se de surdo do que ouvir as insídias e animosidades de quem se entretém na maledicência, enterrando vivos e desenterrando mortos, pois, na maior parte dos casos vemos mais pundonores agravados do que observações com significado e conteúdo…

Estas considerações sobre a condição de surdez ou de mudez não têm, em nada, qualquer menosprezo sobre as pessoas que possam sofrer dessas limitações humanas e comunicacionais. Pelo contrário, estamos irmanados com quem sofre dessas condicionantes, dando atenção mais psicológica e emocional de quem se comporta como se fosse surdo sem sê-lo e toma atitudes de mudo sem tal ser a sua condição…real.

Efetivamente é atroz, por parte de certas pessoas que deviam intervir, o silêncio e o silenciamento a que são votadas por uma boa parte da comunicação social. Falamos da maioria dos nossos responsáveis eclesiais: vemo-los e ouvimo-los muito pouco a pronunciarem-se sobre temas de índole social, política e cultural. Dá a impressão que são mudos duma mudez ensurdecedora e inquietante. Muitas vezes os que falam deviam mais estar calados e os que tomam esta atitude podem confundir quem precisa duma palavra de estímulo, de orientação ou mesmo de compromisso. Alguns nem se fazem eco das posições do Papa, criando confusão, se estão verdadeiramente sintonizados com o Romano Pontífice. Os que são ouvidos – ou a quem dão espaço de intervenção ao sabor do mundo – parecem já estar fora de validade, pois recuam tanto no tempo que quase parecem mais arqueólogos de estilo do que profetas inquietados e inquietantes…para hoje. 

= Numa asserção que precisa de creditar a mensagem atualizada do cristianismo necessitamos, com urgência, de fomentar uma opinião pública mais clara e clarificada das posições dos que intervêm na vida pública, pois em muitos casos corremos o risco de promover mais a mediocridade do que a ousadia, de concordar mais com quem não diz nada do que com quem procura fazer pensar e ter posição bem fundamentada, de beneficiar quem anda a bajular o poder do que quem procura corrigir os erros e as anormalidades que derivam dos valores e critérios do Evangelho.

Não deixa de ser sintomático que, na maior parte dos milagres de cura de surdos, nos evangelhos, estes passem a falar mais corretamente e que a sua palavra seja para louvar Deus e a sua glória. Muitos dos mudos são-no por influência das coisas do mal. Assim sejamos livres de tanta surdez e libertados de muita da mudez… assumida ou tácita.    

 

António Sílvio Couto