Partilha de perspectivas... tanto quanto atualizadas.



segunda-feira, 9 de julho de 2018

Da longevidade à natalidade…como discernir?


Dá a impressão que estes fatores se tornaram arbitrários e vieram confundir-se mutuamente. Assim a longevidade atirou a causa da natalidade para um campo de ‘inverno demográfico’, pois viver mais tempo não tem vindo a significar maior opção pela vida, antes pelo contrário, parece que o prolongamento dos anos de vida tornaram as pessoas mais egoístas e centradas em si mesmas…

Diante desta espécie de paradoxo dos nossos dias será preciso cuidar dum discernimento onde sejamos capazes de saber entender as causas desta quase-conflitualidade de interesses e, por conseguinte, andando em busca das consequências agora e no futuro próximo.

= O que é o discernimento?

Diz o Papa Francisco na sua mais recente exortação apostólica – ‘Alegria e exultai’ – (n.º 166): «Como é possível saber se algo vem do Espírito Santo ou se deriva do espírito do mundo e do espírito maligno? A única forma é o discernimento. Este não requer apenas uma boa capacidade de raciocinar e sentido comum, é também um dom que é preciso pedir. Se o pedirmos com confiança ao Espírito Santo e, ao mesmo tempo, nos esforçarmos por cultivá-lo com a oração, a reflexão, a leitura e o bom conselho, poderemos certamente crescer nesta capacidade espiritual».

- Que lições podemos e devemos colher desta quase-definição de discernimento?

- Como seremos capazes de inserir, na nossa vida cristã (teórica ou na práxis), eixos de reflexão sobre longevidade e natalidade?

- Será que os cristãos/católicos destoam, positivamente, da normalidade da população pelo entendimento e vivência que têm da longevidade e da natalidade?

- Não andaremos a fazer zapping sobre vários assuntos, sem nos determos na solução dos problemas de forma mais correta e adequada?

- À boa maneira da mentalidade do nosso tempo não nos moveremos mais em campos virtuais do que em terrenos de compromisso e de solução das questões essenciais da vida?

- Não faremos do secundário (urgente) o essencial e deste o menos interessante? 

As pessoas passaram – quase sem nos darmos conta, cada um que o diga de si mesmo! – a viver mais tempo (anos, com relativa saúde, com condições de qualidade) e isso criou novas expetativas. À boa maneira duma frase dos salmos da Bíblia não morrer centenário tem vindo a ser normal. No mínimo não chegar à barreira dos oitenta anos parece uma exceção, coisa que há cinquenta anos era considerado o contrário. Fruto de muitas condicionantes, esta longevidade veio trazer outros problemas, desde o âmbito familiar até a dimensão do estado, sem esquecermos as implicações sociais, como as reformas, a assistência na saúde e tantas outras questões que ainda estão a ser enquadradas no comportamento geral.

Poder-se-á considerar que esta seleção dos mais capazes foi alicerçada numa longa e árdua colheita semeada no tempo da segunda guerra mundial e que talvez isso não signifique que os que daí nasceram possam dar os mesmos frutos. Gente provada na dificuldade sobreviveu à custa de muitos sacrifícios e provações. Ora, os nascidos da paz nestes setenta anos sem guerras na Europa poderão não ser da mesma jaez nem com resultados tão benéficos. Isso mesmo se pode, desde já detetar, nos filhos e netos desses ‘filhos da guerra’: a opção pela natalidade caiu abruptamente, logo a seleção não é feita pela qualidade de resistência, mas por acomodação à não-existência. Por seu turno, a difusão das vacinas, que fizeram com que muitos fossem furtados à morte precoce, agora fazem viver muitos dos contemporâneos numa quase-dependência da medicação, gerando assim frutos de laboratório e não pessoas crivadas – passadas pelo crivo – pelas dificuldades da vida, vencendo-as.

De algum modo longevidade e natalidade podiam e deviam ser dois polos do desenvolvimento do nosso tempo, no entanto, se não forem bem equilibrados poderão ser duas vertentes sociais, culturais e éticas que se podem anular, se não houver quem ajude a fazer a correta conjugação: não haverá longevidade se não acontecer natalidade. Esta será sempre o ponto de partida para aquela, tendo em conta os cuidados, as prevenções e mesmo as opções pela vida saudável, equilibrada e harmoniosa… seja qual for a etapa!     

 

António Sílvio Couto  


quinta-feira, 5 de julho de 2018

Requalificar estradas ou valorizar pessoas?


Ouvimos, por estes dias, ser afirmado pelo responsável máximo do governo que não é possível requalificar uma estrada de grande intensidade de trânsito e, ao mesmo tempo, pagar aos funcionários públicos – no caso os professores em protesto e em greves – o tempo de trabalho já realizado…

A requalificação do IP 3 vai custar 134 milhões de euros e estima-se que possa estar concluída em finais de 2022, isto é, daqui a quatro anos e, por isso, a fechar o ciclo da próxima legislatura.

Por seu turno, a reclamação do tempo de serviço, após a congelação dos ordenados significa, no caso dos professores – nove anos, quatro meses e dois dias – teria um custo ao Estado/governo de cerca de 500 milhões de euros por ano…

Ora, é diante desta discrepância de números e de gastos que ouvimos o chefe do executivo dizer que não há dinheiro para fazer as duas coisas, ou ainda tantas outras a que se fizeram criar expetativas de que já não estamos em austeridade e de que há dinheiro para satisfazer as (legítimas e razoáveis) pretensões de setores mais reivindicativos e mobilizados profissional, social e sindicalmente.

Como tem sido noticiado há grupos de classe que se sentem no direito de fazerem valer idêntica pretensão: a descongelação das carreiras – saúde, justiça, forças armadas e de segurança e tantos outros que acreditavam que o tempo do aperto nas contas estatais tinha sido ultrapassado. Agora temos vindo a saber que, afinal, isso não passou duma miragem: as contas estão mais ou menos equilibradas – para UE conhecer, aceitar e engolir – mas falta capacidade de cumprir a ‘palavra dada’ aos suportes da utopia. Sim, trata-se duma utopia – sem lugar, sem valor e sem credibilidade – que está prestes a sair do encanto das suposições. Se os garantes do sonho acordaram que dizer do resto do povo que pensou ser real o que lhe quiseram vender, impingir e ludibriar…   

Sempre temi que as contas que fabricaram andassem enganadas. Sempre me pareceu que não era duma forma tão rápida que saímos do fosso. Sempre me pareceu que não é atirando dinheiro para as mãos do povo que se está a governar bem. Sempre me quis parecer que não se pode distribuir o que não se tem e que mais cedo do que tarde teríamos de pagar a fatura duma certa ilusão, pois o desemprego não diminuiu por haver trabalho, mas por terem sido maquilhados os números com uma emigração mal disfarçada, mesmo que à custa da mentira, da falácia e até da manipulação…bem servida por uma comunicação social bem urdida nos antros da ideologia do faz-de-conta…até ver!

Atendendo às matizes deste assunto poderemos considerar: quanto maior é a ilusão, pior será a convulsão… De facto, tem faltado claramente capacidade de dizer a verdade – sem refúgio nem ancoradouro nas acusações para com os antecessores – e particularmente de viver na sua concretização de ‘palavra dada, é palavra honrada’… Noutros tempos já fomos vivendo em idênticos cenários e só conseguimos perceber o logro quando já era tarde, tendo de pagar a fatura com juros e apertos de cinto… senão todos pelo menos os mais vulneráveis e frágeis da nossa sociedade, que atingem um terço da população que se encontra no limiar ou abaixo da linha (in)aceitável da pobreza… 

= Por estes dias ouvimos ainda um antigo responsável de governo e da presidência invetivar a aposta no investimento nas autoestradas, nos pavilhões gimnodesportivos e nos campos de futebol, precisando, isso sim, de criar condições para que possa haver mais crianças…

Efetivamente, dá a impressão que os nossos governantes perdem um tanto a lucidez enquanto ocupam os lugares de mando, recuperando esse bom senso anos mais tarde, quando já tenham percebido alguns dos ridículos em que se entretiveram e outros afins, quase inúteis na hora da decisão com implicações sobre os demais.

Seria de bom-tom e salutar para o exercício de governação que os responsáveis – seja qual for a instância de exercício – não percam o contacto com a realidade, sabendo quanto custa a vida, quais são os preços dos bens que lhes são servidos à mesa, as contas que têm da fazer para colocar combustível no carro e até das dificuldades que a população normal tem de enfrentar quando vai aviar-se nas compras de semana ou para o mês… Sem esta normalidade corremos o risco de sermos governados por anormais sem-rei-nem-roque…

 

António Sílvio Couto  


quarta-feira, 4 de julho de 2018

Do Mediterrâneo fatal aos refugiados ‘invasores’


Parece que nunca como agora o ‘mare nostrum’ se tornou um espaço tão perigoso e tão fatal, mais um espaço de morte do que passagem para vida, sepultura para muitos anseios e fronteira para tantos que, saindo de África e do médio Oriente, tentam encontrar na Europa um lugar de vida menos aflitiva e com outra visão para o futuro…pessoal e familiar.

Várias operações foram tentadas para vigiar, acolher e encaminhar a vaga de refugiados que, desde 2013, têm procurado a Europa do sul na ânsia duma vida melhor, com paz e algum sossego para tanta gente marcada pelo sofrimento, a perseguição – ética, religiosa e política – e mesmo a fome.

‘Refugiado’ é hoje um termo usado centenas de vezes por dia, tanto para falar de situações de pessoas, como para caraterizar certas posições políticas que podem servir de arma de arremesso para fações extremistas, sem esquecer as causas dessa vivência nos tempos atuais.

Em 2015, refugiado foi a ‘palavra do ano’, em Portugal. Temos o ‘dia mundial do refugiado’ a 20 de junho. Há, ao nível da ONU, uma agência e um alto-comissário. Haverá, tanto quanto é possível aferir, cerca de 70 milhões de refugiados, neste momento. Ouvimos notícias sobre barcos que acolhem refugiados e não sabem onde os podem descarregar – a palavra é dura, mas, na maior parte das vezes, é talvez a mais adequada – à mistura com posições racistas, xenófobas, esclavagistas, securitárias, ofensivas…desumanas.

Não esquecerei, possivelmente, para sempre, uma observação que fiz, creio que no ano de 2015, no decorrer duma festa onde se gastam rios de dinheiro com fogo-de-artifício, quando sugeria que se podia poupar o custo duma caixa de fogo, socorrendo algum refugiado… logo uma voz ripostou: temos tantos cá, precisamos é de cuidar dos nossos… Claro que não fez nada pelos ‘nossos’ e os outros continuam a parecer invasores da nossa quietude de país egoísta, interesseiro e insensível aos que sofrem…para além das vagas de solidariedade e a pedido-e-gosto! 

= Que explica mais profundamente essa razoável acomodação da Europa para com os refugiados? Sendo a maior parte dos países europeus resultado de vagas de refugiados, haverá algum complexo de culpa (ou de desculpa) para que isso não nos incomode? Para além do recurso aos migrantes, os refugiados não têm sido no passado (recente ou longínquo) uma fonte de renovação – social, demográfica e ética – da sociedade europeia? Não nos estará a faltar um pouco de humildade para contribuirmos mais para a humanização da sociedade, se mudarmos a nossa posição para com os refugiados, migrantes e itinerantes?

Nota-se claramente uma mudança de atitude, sobretudo dos europeus, para com os refugiados e os prófugos. Anteriormente esses fenómenos aconteciam em África, quando a instabilidade sócio/política fazia com que os derrotados tivessem de procurar outro lugar para viver e as lutas tribais faziam vítimas sem conta, isto é, sem se saber quantos nem como. Muitas vezes eram os europeus os criadores dessa instabilidade, mas que nem sempre eram responsabilizados, devidamente, pelos seus atos e guerras.

Agora são os perseguidos, os esfomeados, as vítimas das guerras, os que aspiram a uma vida melhor, que invadem a pacatez da Europa apodrecida no seu bem-estar mais ou menos de preguiça, de pouco trabalho (35 horas semanais é muito) e de passatempo. Eis que os migrantes/refugiados/prófugos – não é tudo o mesmo, mas quase vai dar tudo ao mesmo – chegam e são colocados em redutos de espera, avaliando as quotas de aceitação ou colocando barreiras e dificuldades aos residentes e habitantes…se bem que possam ser descendentes de outros como os que agora pedem ajuda.

Os mesmos que contestam as posições de Donald Trump na política migratória dos EUA, comportam-se como populistas anti-refugiados na Europa. Parece muito simpático receber os migrantes e refugiados, desde que seja na casa dos outros e não venham eles fazer perigar as nossas comodidades não-conquistadas, mas geridas a bel-prazer... Há cada vez mais um confronto civilizacional nesta questão da mobilidade humana, pois os direitos de viajar, de procurar melhores condições de vida, de circular por entre países, nações, povos e culturas é para todos e não se pode reduzir a um pequeno leque de beneficiários…

Talvez tenhamos de nos colocar na pele dos migrantes e dos refugiados e, assim, possamos sentir e ver quão injustos temos sido para com outros, que têm tantos direitos/deveres quanto nós!    

 

António Sílvio Couto


segunda-feira, 2 de julho de 2018

Ai de vós, quando todos disserem bem de vós


No enunciado do sermão da montanha, Jesus exclamou a terminar: ‘felizes sereis, quando vos insultarem e perseguirem e, mentindo disserem todo o género de calúnias contra vós, por minha causa. Exultai e alegrai-vos, porque será grande a vossa recompensa no Céu; pois também assim perseguiram os profetas que vos precederam’ (Mt 5,11-12).

Nesta 9.ª bem-aventurança encontramos um grande desafio: ter dignidade e qualidade para ser perseguido por causa de Jesus. Com efeito, se Ele por aquilo que disse e pelo que viveu foi perseguido, que outra condição desejará ter quem pretenda ser seu discípulo, senão esta de viver a perseguição por sua causa…não em razão daquilo que somos, dizemos ou pensamos.

De facto, nos tempos mais recentes parece que vai conquistando adeptos e seguidores um novo ‘ismo’: o unanimismo, isto é, ser capaz de não destoar de nada nem de ninguém, pois é tão unânime que todos aplaudem, uma grande maioria aprecia e uma confortável aceitação está de acordo com o que diz, pensa, escreve, intervém ou mesmo se situa entre muitos e tão díspares opiniões, propostas ou até ideologias.

Algo muito semelhante a este tão prolixo unanimismo percorreu, recentemente, a nomeação dum eclesiástico para uma tarefa, que foi vista como de grande promoção pessoal e quase institucional/nacional. Houve louvores unânimes até entre os diversos grupos parlamentares…onde as várias ideologias se digladiam, onde os mais controversos pontos de vistas são expostos e onde mesmo a luta pela conquista do poder se faz por entre artimanhas e, por vezes, golpes. Como pode, então, alguém ser tão unânime? Que elo liga todos para que ninguém se incomode? Que força aglutina tantos/as que por tão pouco se costumam separar?

Fique claro, desde já, que nada me induz a discordar do valor humano, intelectual ou mesmo social do visado, pelo contrário. Não me deixa em nada acomodado ver que um discípulo de Jesus seja alvo de tanto unanimismo nem sempre salutar ou talvez possa ser questionável…sobretudo se tivermos em conta aquelas palavras extraídas do ‘sermão da montanha’! 

= Eis, por isso, breves questões, que tentaremos, subsequentemente, responder:

* Poderá alguém dizer e viver num certo sentido e no seu contrário?

* Poderá ser possível estar de acordo com todos e querer fazer ponte com o máximo sem atingir o mínimo?

* Como se pode caraterizar alguém que não destoa, nem para com a sua sombra?

* Não fará questão a ninguém ou a muito poucos, que se possa conglomerar tantas forças sem se comprometer, tanto quanto é possível saber, com nenhuma?

Por muito que possa custar a tantos dos mentores e dos difusores de beneplácito tão abrangente, há questões que não podem ser meramente sublimadas pela conjuntura artística, poética e mesmo literária. Com efeito, há campos de intervenção que se tornam incompatíveis com tantos elogios e manifestações de boas vontades, pois não se pode afirmar tudo e quase o seu contrário sem com isso incorrermos no risco de contradição e até mesmo de possível escândalo.

Sabemos de forma teórica e pela vida que não podemos agradar a tudo e a todos. Dizemos isto do quadro dos princípios e não socorrendo-nos do âmbito prático de tantos/as com quem nos temos de relacionar. A expressão por estes dias usada – ‘temos de fazer pontes’ – não pode servir para negligenciarmos o quadro de valores e de intentos éticos. A ponte constrói-se tendo em conta as margens e o rio sobre o qual está construída. A qualidade pontifícia é, antes de tudo, uma condição para perceber os lados que se quer colocar em diálogo, sem nunca fazer da perspetiva de unificação, a subjugação a qualquer das vertentes esperadas para a construção… Saber ‘fazer pontes’ há de ser uma das tarefas primordiais dos cristãos, estejam onde estiverem, desde que se sintam em missão evangelizadora de paz, de bem e de justiça.

Para muitos dos nossos coevos, ser bem conceituado na esfera da sua intervenção parece um bom elogio mais do que um tema de acusação. Com que facilidade se mede a ação dum padre/bispo/leigo pelo não-fazer ondas, desde que isso possa significar não ter problemas de acomodação e até de serviço de conluio com tantos dos manipuladores das mentes e das vontades… assumidos ou presumidos.

Será que dizem bem de nós por não incomodarmos ou por sermos pessoas que se guiam pelo Evangelho?       

 

António Sílvio Couto


quinta-feira, 28 de junho de 2018

Encanar a perna à rã


A frase idiomática – ‘encanar a perna à rã’ – quer significar: não fazer nada, atrasar, não resolver, demorar, empatar, isto é, fingir que faz e não faz, não dar andamento, ser mandrião…demorar muito tempo, ser lento ou moroso.

Será um tanto útil explicar os termos usados na expressão…até para podermos encontrar as consequências do dito. ‘Encanar’ é colocar entre canas ou talas os ossos fraturados, mantendo-os em forma adequada para o seu processo de recuperação. ‘Encanar a perna’ será como que uma operação de imobilização do dito membro, a perna, em ordem a mais facilmente adequar as condições à melhor conjugação para vir a melhorar. Com a perna encanada, a (dita) rã não consegue movimentar-se, estando nalguma passividade sem reação, isto é, sem poder saltar ou mesmo saltitar… 

= Ora, quando se usa esta expressão na linguagem mais comum como que se pretende falar de alguém – real ou virtual – ou dalguma situação – vivida ou sonhada – onde se fala muito sem consequências ou onde uns tantos dizem algo sem que com isso participem na solução dos problemas, entretanto, surgidos, manifestados ou não-resolvidos…O mais desagradável de tudo isto é que há quem considere que o palavreado ouvido/sentido não é solução de nada nem de coisa alguma. Há até quem recorra a esta expressão para caraterizar uns tantos ‘oradores’ sem conteúdo bem como outros ‘anunciadores’ sem rede nem forma de sobrevivência daquilo que dizem e mesmo fazem…

Subjacente a estes considerandos estão como que aspetos duma mentalidade mais ou menos hipócrita onde se tenta dar a entender que se tem algum desempenho razoável, quando o que se nota são laivos de incompetência e de ignorância, fazendo com que esta pareça mais oportuna do que aquela e a tal se vá disfarçando até que se descubra que a cara não condiz com o reverso… Quem não encontrou nos momentos da sua vida uns tantos/as espertos/as que vão adiando o que deviam apresentar como resultado do seu trabalho/desempenho, sacudindo do resguardo os pingos daquilo que se esperava que fosse a conclusão do ainda não-feito… A isto se pode chamar na nossa linguagem popular: chico-espertismo nacional e à boa maneira lusa. 
= Quanta gente andar por aí a ‘encanar a perna à rã’, mesmo não se dando conta de que isso é mais o seu modo de vida do que outro ofício… Isso de ‘encanar a perna à rã’ não pode ser desculpa para tanta da incompetência e muito menos da incongruência duma parte significativa de tantos nossos concidadãos. Nem todos vivem de expedientes, mas muitos/as fazem disso o seu trabalho cotidiano, com teor razoável e subtilmente remunerado. Quanta gente, que vive num certo funcionalismo público, parece estar, nas horas de serviço, mais a encanar a perna à rã do que a servir quem solicita ser atendido. O que há de mais confrangedor é que muita desta gente que passa o tempo a ‘encana a perna à rã’ ainda não se tenha apercebido disso, apesar dos outros já se terem dado conta dos resultados! 

= Porque ‘encanar a perna à rã’ é como que um malefício nacional precisamos de detetar as situações, de denunciar as razões, de enfrentar as condições, de corrigir as causas, sabendo perceber por onde passa a melhor forma de emendar as consequências. Seja qual for o setor em que vejamos esta atitude de negligência será preciso que os responsáveis – podendo ser eles mesmos os mentores e/ou executores dessa conduta – tenham discernimento sério e objetivo para que não andemos a enganar nem a enganar-nos.

«Hoje em dia, tornou-se particularmente necessária a capacidade de discernimento, porque a vida atual oferece enormes possibilidades de ação e distração, sendo-nos apresentadas pelo mundo como se fossem todas válidas e boas. Todos, mas especialmente os jovens, estão sujeitos a um zapping constante. É possível navegar simultaneamente em dois ou três visores e interagir ao mesmo tempo em diferentes cenários virtuais. Sem a sapiência do discernimento, podemos facilmente transformar-nos em marionetes à mercê das tendências da ocasião» - Papa Francisco, ‘Alegrai-vos e exultai’, n.º 167.

Assim sejamos capazes de entender e de viver…neste discernimento permanente e atuante!

 
António Sílvio Couto



segunda-feira, 25 de junho de 2018

Instabilidade emocional…dos dirigentes e não só


O que temos visto, ouvido, sentido e captado em vários factos, acontecimentos e episódios da nossa vida coletiva – na dimensão desportiva/associativa por excelência – é uma fortíssima instabilidade emocional duma grande parte dos dirigentes e não menos expressivamente dos que são por eles conduzidos…O que ontem era considerado posição irreversível, hoje não passa duma nota de rodapé, num texto em branco, pois a escritura nunca teve redação. O que era considerado acerto de posição contra os opositores, hoje parece ser motivo de diálogo, mesmo sem interlocutor. O que há dias parecia ser uma atitude de luta inquebrantável, hoje não passa dum afago no ego dos responsáveis sem linha nem direção…

Estamos, de verdade, numa fase complexa da humanidade, seja qual for o âmbito de intervenção e/ou de decisão. De entre os mais urgentes problemas de alcance geral, o dos refugiados é um dos mais gravosos e quase desumanos. Há países que foram erguidos pela intervenção dos refugiados – nos tempos de antanho eram antes considerados como emigrantes – como os EUA e tantos outros no quadro da cultura (dita) ocidental, que agora se acham no direito de criar obstáculos a que outros povos, menos favorecidos pelos recursos económicos e dos fatores de produção, possam melhorar as suas condições pessoais, familiares e sociais…emigrando com armas, bagagens e filhos.

Por esta ocasião lembro-me dum certo diálogo entre um neto e um avô, em que o mais novo inquiria:

- Avô, porque somos considerados, enquanto portugueses, como um povo que saiu, em tempos recuados, a dar novos mundos ao mundo e agora estamos tão pobres ou mais do que os outros?

Ao que o avô respondeu:

- Sabes, neto, nós somos descendentes daqueles que ficaram…

Sim, uma longa e incontrolável lista de cidadãos deste país vive (ou vai sobrevivendo) dos proventos antes trabalhados e agora pouco ou nada acrescentam ao já feito e até sem interesse pelo que outros possam conquistar…e fazer melhor. 

= É notório que nos faltam líderes capazes de nos conduzirem com serenidade e prudente ousadia, isto é, sabendo quando podem propor caminhos que fazem andar sem ser preciso desviar-se dos obstáculos e dentro duma dinâmica que possa empenhar o maior número possível de concidadãos. Tais responsáveis/dirigentes teriam horizontes alargados e não pequenas metas para a sua autopromoção.

Ao desnorte de tantos dos que estão investidos em poder – seja em razão das votações, seja pelas artimanhas mais ou menos subtis – falta-lhes nitidamente autoridade, essa qualidade que se adquire em função daquilo que se é e muito para além do que se diz. De facto, a incongruência entre a palavra e a ação é uma espécie de erro muito comum naqueles/as que exercem funções de governança…seja qual for a instância em que se possam encontrar. Pior será ainda se tais pessoas forem desequilibradas emocionalmente, na medida em que possam confundir os seus gostos mesquinhos com os objetivos da corporação à qual dirigem ou presidem… Isto temos visto nos últimos tempos de forma abundante em que certas agremiações desportivas, culturais e sociopolíticas…dentro e fora de portas.  

= A crise do dirigismo tem servido para emergirem pequenos ditadores, que até conseguem cativar para o seu projeto pessoas mais ou menos credíveis. No entanto, quando lhe sobe a importância ao testo facilmente deixam transparecer quem são e o que pretendem, apesar de já terem feito estragos quase irremediáveis. Não estamos infelizmente livres de sermos conduzidos por alguns desses ‘democratas’ de laboratório ou de feira. Será preciso estarmos muito atentos para que não se apeguem ao poder, destronando-os logo que seja possível e não deixando que lancem tentáculos quase invisíveis. A desmotivação e o deixar andar podem ser as armas mais comuns para que tais ditadores se considerem imprescindíveis e armadilhem os espaços em que se movem. Já temos exemplos mais do que suficientes para que estejamos em alerta permanente.

No quadro nos nossos relacionamentos precisamos de estar em contínua avaliação emocional – mais do que intelectual – dos nossos dirigentes, responsáveis e chefes, colocando-os e colocando-nos em apreciação para que não se tornem nem nos tornemos isso que contestamos nos outros… Equilíbrio, precisa-se sempre!     

 

António Sílvio Couto  


sexta-feira, 22 de junho de 2018

Caça ao voto…começou ou nunca termina?


Numa expressão algo lapalissiana um deputado do partido que suporta o atual governo disse duma iniciativa de outro grupo parlamentar: isso que estão a fazer denota que começou a época de caça ao voto!

Mas será que esta ilustre mente (mais ou menos) pensante acha que a sua tarefa ‘política’ não é essa mesma de estar em contínua, atenta e audaz caça ao voto, seja lá o tempo que possa ser, não confinando a tal ‘caça ao voto’ à época de eleições e/ou de campanha eleitoral.

O tema em discussão anda em volta da carga fiscal – tecnicamente chamada de ‘imposto sobre produtos petrolíferos’ – que é aduzida sobre os combustíveis, no caso da gasolina estará na ordem de dois terços do custo por litro, enquanto no gasóleo se situa em cerca de metade no ato de pagamento…

Ora, havia sido prometido que a variação do preço do petróleo nos mercados se repercutiria no custo final do produto. À boa maneira duma frase-chavão: ‘se bem o prometeram, melhor o esqueceram’ e foi de ver um aumento crescente – muito para além do proporcional – dos impostos indiretos, no caso dos combustíveis que permitem circular as mercadorias, as pessoas, os bens…tanto em trabalho como em lazer, duma forma cega, pois ricos ou pobres todos pagam de forma indistinta, mesmo que isso possa tornar-se desigual e com mais impacto nos mais vulneráveis e com piores recurso… 

= Voltemos à frase-lamento a propósito da ‘caça ao voto’. Não será que muitos dos empregados de luxo, que são os deputados, se esquecem que só têm emprego por quatro anos? Nesses ditos tempos de exercício do poder, não será que se alheiam daqueles que neles votaram, servindo antes as tricas partidárias e menos os valores de cidadania? Sabendo que o emprego está com prazo delimitado, não seria expetável que o combate pelo voto se devesse alicerçar mais na valorização da qualidade e menos pela quantidade? A introdução – sobretudo nesta legislatura – de temas fraturantes é merecedora de aplauso ou de repúdio? Não andarão os deputados/as mais entretidos com assuntos de ‘pequena política’ – por vezes apelidada de politiquice – do que com os assuntos essenciais da vida dos seus concidadãos?

Ter trazido para a liça de conjetura a ‘caça ao voto’ só porque o assunto não lhe é favorável, será, no mínimo, ter perdido o controlo da gestão dos interesses partidários, subjugando os assuntos do país à mercê da volatilidade dos acordos e colocando sob suspeita a mentira repetida de que não há aumento de impostos ou de que a austeridade já teria terminado… 

= Todos sabemos que a qualidade das pessoas se pode medir na hora das vitórias, senão forem amesquinhados os vencidos, mas, sobretudo, nos momentos de derrota, pois, nesta se há de encontrar forças para recomeçar a tarefa de saber cativar para a luta quem possa estar mais desanimado. Tudo isto seria normal, se os vencedores governassem e se os vencidos aceitassem os resultados. Ora, em Portugal – a peste desta coligação negativa vencedora já se estendeu a Espanha – sabemos, desde há quase três anos, que perder pode significar vencer, se houver artimanha suficiente para fazer reverter a derrota em vitória aglutinadora dos vencidos… chegando ao poder por artifícios de conveniência… à boa maneira da insinuação: ‘inimigo do meu inimigo, meu amigo é’ ou pode tornar-se…

Dizem que o dinheiro volta a encher os cofres do estado, que quase tudo se pode pagar, desde que seja aos que suportam a nova fórmula governativa, amansando protestos e iludindo os resultados. Eis senão quando surgiram vozes a reclamar dos louros da pretensa paz social. Quase sempre pela mesma ordem vemos a cadeia de protestantes: transportes, saúde, educação e segurança (policial e social)… esses inegáveis vetores do pretenso ‘estado social’, onde todos usufruem e poucos pagam…o mínimo.

O castelo de sucesso começou a abrir brechas. Os aglutinados desejam colher resultados. Os de cima estrebucham sem meios para satisfazer as reivindicações. Os de baixo mobilizam-se para exigir o que dizem ter direito. Aquilo que parecia vitória garantida e pujante, começa a encolher e a trazer à memória medos recentes. Não fosse a máquina de certa comunicação social arregimentada e os engulhos seriam maiores e mais visíveis. Nem a distração do futebol consegue apaziguar os mais dececionados.

A ‘caça ao voto’ está na rua mais do que nunca. Assim estejamos despertos para as consequências…  

 

António Sílvio Couto