Partilha de perspectivas... tanto quanto atualizadas.



terça-feira, 5 de junho de 2018

Pecado sem perdão…


«’Quem disser blasfémias contra o Espírito Santo nunca mais será perdoado; é réu de eterno pecado’ (Mc 3,29). Não há limites à misericórdia de Deus, mas quem recusa deliberadamente receber a misericórdia de Deus, pelo arrependimento, rejeita o perdão dos seus pecados e a salvação oferecida pelo Espírito Santo. Tal endurecimento pode levar à impenitência final e à perdição eterna» – Catecismo da Igreja Católica, 1864.

Certamente que a todos nos faz impressão esta sentença de Jesus de condenação eterna, referida como ‘blasfémia contra o Espírito Santo’. Vamos tentar explicitar um pouco melhor esta condenação, servindo-nos de textos do magistério da Igreja católica, concretamente duma encíclica de João Paulo II sobre o Espírito Santo, ‘Donum et vivificantem’ (n.º 46) em que se faz a interpretação daquela passagem bíblica citada pelo Catecismo:

«Porquê a «blasfémia» contra o Espírito Santo é imperdoável? Em que sentido entender esta «blasfémia»? Santo Tomás de Aquino responde que se trata da um pecado «imperdoável por sua própria natureza, porque exclui aqueles elementos graças aos quais é concedida a remissão dos pecados».
Segundo uma tal exegese, a «blasfémia» não consiste propriamente em ofender o Espírito Santo com palavras; consiste, antes, na recusa de aceitar a salvação que Deus oferece ao homem, mediante o mesmo Espírito Santo agindo em virtude do sacrifício da Cruz. Se o homem rejeita o deixar-se «convencer quanto ao pecado», que provém do Espírito Santo e tem carácter salvífico, ele rejeita contemporaneamente a «vinda» do Consolador: aquela «vinda» que se efectuou no mistério da Páscoa, em união com o poder redentor do Sangue de Cristo: o Sangue que «purifica a consciência das obras mortas».
Sabemos que o fruto desta purificação é a remissão dos pecados. Por conseguinte, quem rejeita o Espírito e o Sangue permanece nas «obras mortas», no pecado. E a «blasfémia contra o Espírito Santo» consiste exactamente na recusa radical de aceitar esta remissão, de que Ele é o dispensador íntimo e que pressupõe a conversão verdadeira, por Ele operada na consciência. Se Jesus diz que o pecado contra o Espírito Santo não pode ser perdoado nem nesta vida nem na futura, é porque esta «não-remissão» está ligada, como à sua causa, à «não-penitência», isto é, à recusa radical a converter-se. (...) Ora a blasfémia contra o Espírito Santo é o pecado cometido pelo homem, que reivindica o seu pretenso «direito» de perseverar no mal — em qualquer pecado — e recusa por isso mesmo a Redenção. O homem fica fechado no pecado, tornando impossível da sua parte a própria conversão e também, consequentemente, a remissão dos pecados, que considera não essencial ou não importante para a sua vida». 

Quais podem ser as consequências para os nossos dias desta explicação? Onde se enraíza este ‘pecado contra o Espírito Santo’, hoje? Como poderemos discernir esta ‘blasfémia contra o Espírito Santo’ na condição e pela condução da nossa vida terrena?

Muito do comportamento das pessoas do nosso tempo – mesmo em contexto de fé cristã e de Igreja católica – parece assemelhar-se à configuração de se manter acomodada à vida de pecado, senão na teoria, ao menos na prática…muito vivem mesmo num ateísmo prático sem controlo. Com efeito, nota-se um fechamento crescente nas pessoas em si mesmas, vivendo uma espécie de contentamento na sua autossuficiência e menosprezo (ou até desprezo) pelos outros e pelos seus problemas. Com facilidade poderemos perceber que muita gente vive mais em conceito de si autoidolatria do que numa atenção às exigências de conversão de acordo com a Palavra de Deus. Dá a impressão que uma larga maioria dos nossos praticantes é contumazmente não-convertida e sem abertura ao questionamento que a Palavra de Deus lhe possa fazer. Não será isto ‘blasfémia contra o Espírito Santo’, como diz a explicação do Papa? Há muita gente que se considera a seus próprios olhos como boa, mas que ainda está numa tendência de religião natural, sem ter aceitado a salvação de Jesus. A aceitação da salvação de Jesus é a marca do cristianismo e isso é realizado pelo Espírito Santo…em nós e pela Igreja.

Certos tiques de ‘new age’ palpitam no agir e no pensamento de muitos dos que frequentam a Igreja… Não será isto pecado contra o Espírito Santo? Como proceder para sermos perdoados?

 

António Sílvio Couto



segunda-feira, 4 de junho de 2018

Quando o livro reina, fazendo cultura


Na sua 88.ª edição, a ‘feira do livro de Lisboa’ é, durante cerca de três semanas, um grande espaço de apresentação de novidades editoriais, de lançamentos e autógrafos, de miscigenação de culturas, tendo por denominador comum o texto impresso, sobretudo, em papel.

Em razão da minha participação no lançamento e apresentação do último livro – ‘Nesta Igreja que amo e sirvo’ – bem como da sessão de autógrafos no dia seguinte, pude ver a grande afluência – num domingo e numa 2.ª feira – de visitantes, compradores e cultivadores da cultura através do livro. Nota-se a presença de muitas crianças, normalmente, acompanhas pelos pais, que as vão introduzindo ao gosto pela leitura, certamente, cultivada em casa e aprimorada na instrução e aprendizagem nas escolas. Nesta faceta da habituação ao texto escrito tem muita importância a cativação desde tenra idade, pois isso também se aprende a gostar como outros hábitos que fomos adquirindo desde novos.

Há, no entanto, dados e situações que podem favorecer ou desmotivar quem leia ou quem escreva. Desde o preço dos livros e a sua aquisição por necessidade, por gosto ou mesmo por educação. Aqui se poderá ver com mais acentuada conexão a distinção entre instrução e cultura, pois esta pressupõe aquela e a segunda se aprofunda usando os meios mais adequados para o seu enraizamento. Será sempre de questionar se os professores são instrutores da palavra e da novidade pela leitura. Quantas vezes se pode exigir que se saiba o mínimo, mas não se lançar as sementes para que se possa crescer pelos próprios meios. Isto consegue-se quando se for criando o gosto pelo estudo, tanto dos assuntos de escolarização, quanto de aprendizagens para que o pensamento se eduque e cresça com ferramentas de que cada um sente necessidade socorrer-se. 

= De entre a multiplicidade de propostas e sugestões que a ‘feira do livro’ coloca poderemos considerar que a especialização do livro precisa de ser assumida. Cultura e livros não podem ser dois binómios de uma campanha onde a literatura (dita) criativa e (mais ou menos) vendável seja uma espécie de efabulação veiculadora de ideias, de sensibilidades e de correntes a pedido. Com efeito, escrever é comunicar e todos sabemos que, se ao lermos seja o que for, a escrita não estiver clara, simples e apelativa, com facilidade abandonamos esse texto e procuraremos quem nos comunique algo que seja percetível à nossa cultura.

Não é tão grande quanto seria desejável o leque de autores que escrevem em português e dizemo-lo sobretudo atendendo às questões de fé, que não de mera religião. Se virmos os pavilhões específicos onde se podem encontrar abordagens à dimensão espiritual, à intelectualidade e à formulação de questões de âmbito religioso cristão poderemos perceber que, em Portugal, há muita religiosidade com cariz cristão/católico, mas que poucos, muito poucos, o exprimem em forma de escrita…correndo o risco de exporem-se e de serem criticados (no sentido positivo e/ou negativo) pelo que dizem ou pensam.

Para além de certos escritos devocionais – muitos deles de qualidade gráfica e doutrinal a roçar o sofrível – não tenho visto, na ‘feira do livro’, publicações mais ou menos desenvolvidas – a volumetria e as páginas nem sempre são o critério supremo para avaliação – segundo a capacidade dos nossos leitores. Há questões que devem ser levadas ao terreno da ‘feira do livro’, pois ninguém sabe se não andará por lá alguém à procura de Deus e do sentido para a sua vida. Não podemos embarcar na onda de certos critérios editoriais só porque nos foi proposto um tema – vindo de Roma ou de alguma diocese – e enquanto dura o ‘ano de qualquer coisa’ saem a propósito ou a despropósito muitas publicações. Há questões que precisam de ser aprofundadas, estudadas e esmiuçadas sempre. Eis algumas sugestões: o tema da Igreja será sempre útil e atual; as questões acerca da vida não pode ser abordadas por atacada só quando são introduzidas questões fraturantes; assuntos de âmbito moral e não só afunilada nas tribulações sexuais; os temas de compromisso social, como a economia e o trabalho, os direitos/deveres sociais, a vivência política, etc.

Com o devido respeito e a máxima compreensão, ouso sugerir que talvez fosse desejável que os ínclitos professores das nossas universidades com formação e compromisso católico se dessem mais a conhecer, publicando com regularidade e numa linha de reflexão/partilha com os seus irmãos na fé. Até mesmo os membros de congregações e institutos religiosos, bem como os padres diocesanos precisam de deixar escrito algo mais que façanhas ocasionais de obras materiais e de arranjos em monumentos…    

 

António Sílvio Couto  


sexta-feira, 1 de junho de 2018

Defender os animais e matar as pessoas?



As mais recentes discussões sobre a despenalização/legalização da eutanásia – eufemisticamente apelidada de ‘morte medicamente assistida’ – trouxe à liça a conjugação de trocadilhos não menos irónicos: a humanização dos animais versus a animalização dos humanos, onde se têm vindo a trocar os direitos dos animais pelos deveres dos humanos, tanto na conjugação de uns com os outros como no confronto entre os dois vetores…

Com alguma facilidade vemos grupos partidários e formações ideológicas transversais a defenderem com mais vigor os animais, colocando os humanos na linha da morte senão imediata ao menos pretendida. Não é um pouco isso o que se pretende fazer com o combate fundamentalista às corridas de toiros, enquanto se promove a divulgação da eutanásia? Que dizer ainda da exaltação dos animais – sobretudo os ditos de companhia – enquanto se desincentiva a natalidade – com leis, mentalidades e ações –, tornando aqueles os substitutos dos filhos e de entes queridos? Como é entendível que formações partidárias concorram coligadas, quando nas iniciativas próprias defendem o contraditório dos outros?

Não está em causa, nesta argumentação que pretendemos apresentar, de forma alguma que os animais sejam tratados de modo menos respeitável e com menor cuidado, mas antes que não se sobreponham estes aos humanos, pois pelo caminho que vamos, teremos, em breve, uma cultura demasiado holística para que as pessoas humanas não tenham de reivindicar os seus direitos tais são os atropelos no confronto com as regalias e benesses dadas aos animais… 

= Este fenómeno de hipervalorização dos animais relativamente aos humanos não será uma espécie de mudança cultural e quase fracionária da nossa condição de humanos? Que pensamento está subjacente a esta tão rápida mudança? Não andaremos iludidos com esta modificação na mentalidade de tantas pessoas e de muitas em simultâneo?

Por outro lado, como se poderá compreender que a desvalorização do ser humano tenha descido tão baixo e de forma tão rápida? Não foram os animais que pediriam nem que executaram esta modificação, mas alguns humanos ‘iluminados’ às ordens sabe lá de quem e com que finalidade. Os desenvolvimentos no final do século passado e parte deste têm feito um tal caminho que será de arrepiar sobre o futuro próximo… Humanidade e humanismo chegaram ao descalabro quase total!  

= Perante certos guardiães duma tal moralidade social, vemos emergir uma tendência trotskista e afins a censurarem tudo e o resto daquilo que não são os seus objetivos mais ou menos dissimulados. Se uma campanha antitabágica não lhes agrada – sabe-se lá se a atriz na alinha nos seus ideais! – logo pedem a suspensão da mesma com rótulos de misoginia e adjetivos quejandos. Quando pretendem impor a sua orientação sexual, logo fazem o resto de tudo para que pareça que a maior parte os secundariza. Quando acham que os mais novos precisam de drogas a pataco, logo insinuam os benefícios da canábis, primeiro medicamentosa e em breve aduzida como terapêutica contra os problemas da sua claque, mas estendidos à possibilidade para todos.

Foram estes guardiães da tal moralidade que quiseram trazer para a discussão – a que lhes interessava e não a da população em geral – a temática da eutanásia, mesmo que julgando ganhar antes de irem a jogo. Talvez nesta área da saúde devêssemos fazer uma mutação na designação do titular, passando a chamar-lhe ‘ministro da doença’, tal é a complexidade de problemas a enfrentar, mas que ele – quem o acompanha e os outros elos da cadeia – vai chutando para o lado, numa espécie de não-resolução despachada a contento…  

= A leitura e interpretação do personalismo quase capitulou, mesmo nos partidos que disso se reclamavam. Pé-ante-pé a dialética marxista tem vindo a querer sobrepor-se na vida pública e privada. Os tentáculos leninistas e trotskistas estão novamente a enredar muita gente, senão ao nível do pensamento, ao menos na vida prática. Temos de estudar mais as razões e os comportamentos, não nos deixando ludibriar com a ética republicana, que tem servido para uns tantos irem flutuando sobre a nuvem de esterco… É preciso acordar!     

 

António Sílvio Couto






quarta-feira, 30 de maio de 2018

Lições de vida na discussão/rejeição da eutanásia



Os quatro projetos de aprovação – despenalização, descriminalização ou legalização – da eutanásia – eufemisticamente designada de ‘morte medicamente assistida’ – foram rejeitados no dia 29 de maio, ao final da tarde…embora os votos vencedores tenham sido, nos diferentes casos, muitos escassos…tendo as abstenções dado quase uma vitória pírrica, ganhar sem convencer!

De entre os diversos projetos submetidos à apreciação foi o dos socialistas que teve uma aparente maior aceitação, mesmo que rejeitado… Atendendo à proclamação do último congresso dos socialistas, estes foram os vencidos a quem se pedirá maior apreciação nesta aposta a destempo e num longo fait-divers para que outras medidas governativas pudessem passar pelas pingas da indiferença…dos cidadãos.

Que tem a dizer agora o chefe que altissonantemente se fez proclamador do direito a matar pela eutanásia? Encolheu-se e foi digerir a derrota com os mentores da moção vencedora…no congresso? Esfrega a mãos de contente por não ter de gastar dinheiros do SNS com máquinas de morte? Estudou o assunto a fundo ou fez de conta que, fosse qual fosse o resultado, lhe iriam perdoar pelo (dito) desempenho económico?

Por outro lado, como vai gerir o líder social-democrata o não-seguidismo do chefe – era declarada e acintosamente a favor da eutanásia – na hora da votação? Só seis deputados não votaram contra…embora tomando posições diversas segundo os quatro projetos escortinados… A líder dos jovens do partido não andará a colocar-se demasiado nas franjas dos socialistas e não do que não os querem a governar? 

= Tal como noutras ocasiões – lembremos as declarações após os resultados do aborto em 1998 – os vencidos prometem voltar à carga até que possam vencer os opositores…nem que seja pela teimosia e insistência a propósito ou a despropósito. Certos vencidos fazem aquele papel dos mais novos que foram derrotados, mas pedem a desforra até à desistência dos que não pensam como eles.

Repare-se na cultura de imponência na hora da votação em que os que eram favoráveis à eutanásia nem se deram ao cuidado de conglomerarem os seus defensores, pois talvez lhes parecesse que a vitória estava garantida ou, então, sentiram que sair à rua podia ser capitulação sem jogar, preferindo ganhar no sofá…

As várias associações contra a eutanásia foram-se agrupando e tomando iniciativas com alguma visibilidade, mas muitos outros terão feito correntes de oração para que a vida não fosse vencida pelos projetos de morte. Creio, muito sinceramente, que muitas congregações religiosas, paróquias e movimentos estiveram a rezar na tarde de 29 de maio para que houve algum sinal de que Deus não nos tinha abandonado… Dá a impressão que fizemos a nossa parte e que Deus se encarregou de fazer a sua! 

= Do pouco que vi nas transmissões televisivas deixou-me uma impressão de desrespeito por quem não entra na lógica materialista da vida as declarações sobranceiras duma deputada trotskista – a tal que ficou contente por não ver a estátua de Cristo Rei, quando atravessava, num dia de nevoeiro, o tejo – sobre quem acredita na ‘vida eterna’… Talvez agora possa aprender a juntar as letras que compõem a palavra ‘derrota’, tal como o progenitor ajuntou as armas dos assaltos de antanho… Esta gente ainda não aprendeu a viver em democracia, pois ao aplausos de hoje podem ser os apupos de amanhã, já para não falar das cinzas em que se irão converter sem glória nem memória…

De tudo o que foi dito e insinuado o que mais me desagradou foi a prosápia de humanismo com que certos defensores se autoapelidavam, considerando os adversários de menos humanistas do que eles, pois tinham respeito pela dignidade da pessoa e até lhe dava a morte por considerarem que isso era o melhor para quem sofria. É triste que uns tantos/as se considerem de primeira qualidade e vejam os defensores da vida como antiquados, retrógrados e conservadores.

Basta de arrogância e de oportunismo. O populismo não é bom por ser de esquerda e mau se não tiver aquela coloração. Esta iniciativa sobre a eutanásia é um dos exemplos mais sublimares do populismo travestido de democracia… Pela vida – entre a conceção e a morte natural – sempre!        

 

António Sílvio Couto

terça-feira, 29 de maio de 2018

Quem ousa regressar…aonde não é desejado?


Foi uma das mais altissonantes promessas no congresso socialista do último fim-de-semana: fazer regressar (ou criar condições) aos milhares de jovens que saíram do país nos tempos mais recentes…

Os dados desta diáspora estão em permanente atualização. Os referidos no conclave partidário diziam respeito à vaga dos ‘anos da crise’, mas de imediato foram apresentados outros elementos que reportavam à emigração de mais de dezassete mil médicos e enfermeiros desde 2014…com vencimentos muito superiores aos auferidos por cá.

Só quem nunca sacudir as cadeias da tacanhez nacional, não saberá comparar os benefícios de sair para outras paragens – de forma esporádica ou mais continuada – onde se alargam horizontes e se potenciam capacidades pessoais, profissionais ou culturais.

Não tenho a menor dúvida de que, se muitos dos emigrados pudessem tomar a rédeas da condução do país, estaríamos a falar de coisas bem diferentes da tentativa seduzir os mais incautos para que regressem à sua terrinha com as consequências em voltarem à submissão aos poderes que capturam os horizontes que os fizeram arriscar.

Repare-se que a maioria dos políticos profissionais nunca estiveram no estrangeiro ou se o fizeram foi em condomínios de luxo com tudo pago e sem riscos ou ousadias mais ou menos atribuladas. Muitos deles e delas se partiram fizeram-no com as mordomias próprias de quem não tem outra condição do que ser uma bolha protegida e, portanto, com rede estendida para que não se magoem nas lides encomendadas…

Sobre a aprendizagem no confronto com outros modos de ser e de estar, valerá a pena escutar as experiências de muitos que fizeram o Erasmus: mesmo que enquadrados pelo âmbito escolar tiveram de soltar as amarras das famílias para voarem do ninho da pasmaceira do protecionismo paternalista e maternalista… Outras experiências de voluntariado – com ligações a associações e igrejas, com traços de aventura – têm permitido encontrar novos objetivos, valorizando os dos outros e relativizando os seus. 

= Já passou o tempo em que uma pessoa nascia, crescia e reproduzia-se (com ou sem descendência) sempre no mesmo espaço. A mobilidade humana é hoje uma das maiores caraterísticas dos tempos hodiernos e isto faz-nos viver numa pobreza e humildade contínuas, vivendo na sensação de que algo vai ser diferente e uns com os outros vamos aprendendo novos e constantes desafios à nossa própria aprendizagem e exigência de adaptação…

Diante da crescente uniformização de condutas – humanas, culturais e mesmo morais – em resultado da globalização e não só, podemos interpretar um tanto melhor a miscigenação da Europa com todos os riscos e riqueza que daí advêm. Deste modo poderá soar a controlo das mentalidades – outros diriam ditadura da condição – o que foi dito na reunião do partido no governo…E nem os acenos de melhores condições salariais bastarão para atrair uns tantos mais ou menos seguidistas para tentarem fazer carreira sem mecha nem lume…

Quem tenha vivido noutras culturas e experimentado outros voos não virá capitular diante dos seus anseios de uma vida mais desafogada senão na economia ao menos na mentalidade. Seremos, de facto, muito rasteiros na prossecução de sermos mais e melhores cidadãos duma Europa onde os cidadãos valham pelo que são e não pelos resultados económicos que conseguem.

Quem avaliar os resultados dos estudos de muitos dos nossos estudantes poderá ficar estarrecido pela não-cultura que manifestam. Quantos deles se valorizam estudando, mas depois se acomodam às suas contingências de pequeno mundo das suas tradições ancestrais e quase ignorantes…na forma e no conteúdo.  

= Neste mundo pluralista e diverso torna-se essencial educar para os valores, subjugando as conquistas materiais – na maior parte das vezes nitidamente materialistas – ao derrubar de barreiras e de muros, que as sugestões supra citadas não passam de quimeras de quem não tem mais nada a propor do que penachos e aliciantes na mesa do poder estabelecido ou a conquistar. Os mais novos não podem deixar-se vender por enganos e promessas sem valor… Se assim for, então, estamos muitíssimo mal!    

 

António Sílvio Couto 


 

sábado, 26 de maio de 2018

Não votar em quem aprova (na AR) a eutanásia?


Porquê a pressa em querer legislar – despenalizando/legalizando – a eutanásia? Se não constava no programa dos partidos, qual a causa desta mudança? A quem interessa trazer o assunto – fraturante quanto baste, antes, durante e depois da discussão/votação – para o areópago dos temas políticos? Não será este ‘assunto de consciência’ – como alguns lhe chamam – um tema de civilização e não de mera conjuntura?

Eis algumas das questões escutadas e discutidas sobre a eutanásia, agora designada de ‘morte medicamente assistida’. Nesta, como em ocasiões em que esteve em debate e em causa o tema da vida, os defensores do ‘sim’ – ao aborto, à eutanásia e a temas relacionados com sexo não-reprodutivo – surgem como culturalmente mais avançados e mais humanistas do que os que se reclamam do ‘não’ mudar a legislação ou da concretização da pretensa despenalização/legalização. Será que temos de engolir todos os argumentos e afrontas daqueles que se julgam senhores da verdade, que não seja a sua? 

= É verdade que desta vez o assunto só tem andado no quadro do parlamento. O referendo talvez não mudasse nada nos resultados. Mas diga-se em leitura menos apaixonada do assunto: a maioria que possa aprovar a mudança, poderá, mais tarde ou mais cedo, mudar e fazer reverter o assunto, coisa que a vinculação do referendo – os que tivemos até agora não foram não-vinculativos, dado que não atingiram a percentagem de votantes exigida – traria com mais incidência, mesmo que pudesse haver uma vitória pírrica.

Nos últimos tempos surgiu, vindas de vários quadrantes, uma posição nova: quem aprovar a eutanásia não merece o voto em futuras eleições…até porque foi subvertido o quadro ideológico e mesmo o do programa sufragado em eleições anteriores.

Em grande parte concordo com esta posição: pela minha parte, que sempre votei no mesmo partido e confiava na boa-fé dos seus dirigentes – mesmo quando a qualidade não era tão merecedora do benefício da dúvida – que agora querem fazer crer que são muito humanistas, só porque não lhes repugna matar a pedido ou em aliviar a dor mais ou menos circunstancial…No mínimo isto não é sério nem merece que se confie neles depois, quem agora nos engana, sobrepondo aos outros o seu esquema para sobreviver nas lutas de triângulos e aventais. 

= Os meus valores dizem: a vida una e inviolável, é dom de Deus, que tenho de velar para se desenvolva entre a conceção e a morte natural. Tudo o resto – o intervalo entre aqueles dois momentos – deve ser para que vivamos com a melhor das dignidades e não aos solavancos e segundo os interesses de cada etapa. Com efeito, o tema da dignidade é hoje um conceito que tem tanto de interessante, quanto de casuístico, pois o que para uma pessoa – grupo, setor, associação ou mesmo igreja – é ou não digno pode ser considerado por outros como sem dignidade e vice-versa. Por isso, trazer para a discussão da eutanásia a dignidade de vida duma determinada pessoa, poderá ser visto como muito diferente por outra. Bastaria incluir aqui a discussão a componente do ‘sofrimento’ para podermos estar a falar de coisas diametralmente opostas, dependendo da perspetiva que se pode dar ao assunto, desde a mais simples até à mais espiritualizada. Será que alguém cresceu na sua personalização sem sofrimento, dificuldade ou dor? E isso foi razão para desistir de viver, como se propõe na dita ‘morte medicamente assistida’?

Nesta como noutras circunstâncias de discussão sobre temas atinentes à dinâmica da vida, falta serenidade e seriedade em muitos/as dos intervenientes e nem a comparação com outros países onde o assunto foi introduzido na vida social e cultural tem servido para que haja ponderação e amadurecimento sem ataques a quem pensa e age de modo diferente daquele que se julga maioritário… 

= O futuro dirá se esta iniciativa em querer impor a eutanásia não se voltará contra os mentores, defensores e legisladores. Não esqueço a nota já referida noutra ocasião em que uma das maiores paladinas da eutanásia, quando caiu doente, o que pedia era que não a deixassem só e tanto quanto consta não recorreu à estratégia da ‘morte doce’…tendo inclusive tido ritos religiosos, que não apreciava tanto assim em público. Dá a impressão que há gente que diz uma coisa, mas na sua hora da verdade tem outro comportamento…    

 

António Sílvio Couto

quinta-feira, 24 de maio de 2018

Cantilenas desafinadas…lá como cá


 
Na voragem das notícias, por entre as que mais chamuscam e que fazem correr tinta, gastar palavras e demorar horas, vemos umas outras que, mesmo sendo significativas e de interesse geral, são ofuscadas por aquelas mais sonantes ou exploradas para encobrir estas.

Foi noticiado no país vizinho que um alto dirigente duma agremiação política, maila sua companheira, ambos responsáveis na estrutura, estava prestes a adquirir uma moradia pelo módico valor de meio milhão de euros… Ele que tinha feito cavalo-de-batalha para com outro político em tempos não muito recuados por idêntica façanha, estava agora a ser apanhado na voragem da incongruência… O posto de mando parece que está em risco e a lógica de ‘olha para o que eu digo e não para o que eu faço’ não parece surtir efeito lá…

Por cá um governante foi caçado a ter vendido uma casa pelo dobro do preço pela qual a tinha adquirido…só no espaço de dez meses. Até aí seria de contentar-nos com a habilidade/esperteza no negócio… Só que esse mesmo senhor tem vindo a fazer da sua conduta pela habitação uma cruzada tal – pela não especulação imobiliária, sobretudo envolvendo pessoas idosas. Ora foi exatamente o que aconteceu: o senhor governante comprou o apartamento a um casal de idosos, que agora se sente ludibriado e de alguma forma explorado pelos ganhos do defensor da não-exploração imobiliária. 

= Postos os factos, talvez tenhamos de fazer uma certa análise à luz da lógica de quem diz e não faz ou, então, que faz o contrário daquilo que diz…sobretudo sob a complacência de certos ‘fazedores de opinião’ e por entre as pingas das discussões à volta da (pretensa) violência (só) no fenómeno desportivo.  

– Antes de mais é de prevenir que outros – ainda em fase de irem a julgamento – tanto quanto é possível saber, foi deste modo displicente e disfarçado que começaram a constituir o seu património e as confusões que daí advieram. Dá a impressão que os casos do passado não têm servido de lição para ninguém… nem para os jornaleiros nem para os intervenientes!

– Não pode haver uma visão e leitura para a tropelias cometidas por uns – os da direita – e uma desculpa mais ou menos tácita para outros – os da (dita) esquerda – ou andaremos a viver numa sociedade enviesada na sua conduta…onde os preconceitos reinam e fazem com que não haja justiça nem democracia e tão pouco igualdade para todos.

– Nota-se que para uns tantos não há freio para os seus intentos, desde que sejam cometidos pelos da sua simpatia, até se poderá dar um certo desconto – bem mais alto do que as taxas de impostos – pois talvez, um dia, possam precisar de cobertura para os seus lapsos, erros ou enganos…Já estamos escaldados de leituras ideológicas quanto baste, pois mal vai um país/nação se uns forem tratados de forma mais benemerente atendendo à coloração do cartão, seja de militante, seja de sócio da agremiação do fiscal…  

= Cada vez mais é preciso que haja moralidade na vida pública, tenha ela a nota da ‘ética republicana’, tenha a da visão e da vivência da moral cristã ou ainda segundo uma proposta muçulmana, budista, hinduísta… até na linguagem humanista sem referência religiosa. Não basta clamar contra, é preciso fazer algo de construção. De que adianta ter legislação contra a corrupção, se ficam brechas na lei que permitem aos gabinetes de advogados – alguns são os mesmos, legisladores e intérpretes – livrar da condenação quem possa estar sob a alçada da condenação? Não será ilusório querer ajustar contas com quem sabe como pode escapar? Não terá algo de manipulação que nos façam crer que se está a combater a corrupção, mas, na hora da sentença, não haja mais do que pequenos indícios apanhados na teia e não o grosso dos prevaricadores? 

= Os casos que nos fizeram ocupar neste texto são como que a ponta do icebergue da política visível. Muitas outras situações andam por aí camufladas e tentaculares. É preciso cercear a hidra para que as ramificações não proliferem à vontade e de forma impune. Mais do que pequenos e inofensivos caracóis, que fazem a delícia de tantos em tardes de canícula, importa capturar a multidão de escorpiões, que deambulam pela vida política, procurando a quem infetar com o veneno da imunidade de executores das tarefas nem sempre descobertas e tão pouco castigadas…  

 

António Sílvio Couto