Partilha de perspectivas... tanto quanto atualizadas.



terça-feira, 22 de maio de 2018

Tentáculos das apostas enredam o desporto


Segundo dados obtidos recentemente, em fontes fidedignas, o que se está a passar no ‘mundo do futebol’ tem tanto de preocupante, quanto de revelador de imensas teias de poderes entrecruzados e complexos. Com efeito, há casos em que, tentáculos de forças transnacionais, vão deambulando, de país em país e de continente em continente, à procura de clubes em frágeis condições económicas em ordem a tentarem impor as suas regras subterrâneas, onde se inclui a lavagem de dinheiro e outras subtilezas, por vezes não-vistas pelas autoridades…

- Se há, por hipótese (ou na realidade), um jogador com salários em atraso há mais de seis meses, como poderá ele reagir ao montante apontado para, com pequenos erros/faltas/transgressões, angariar meios para resolver problemas vários?

- Se, por entre tantas vicissitudes da vida e da curta carreira de atleta, surgem oportunidades de vencer barreiras de meses e de anos, não será suscetível de cair quem com tais aliciantes possa ser tentado?

- Se está a carreira ou a vida em jogo, não poderá fazer cair quem, subtilmente, possa ser ameaçado? 

= É impressionante o supermundo onde se pavoneiam tantos dos nossos jogadores. Dizia-se, por estes dias, a propósito dos conflitos numa das agremiações mais populares do nosso país: é percetível ver a presença dos jogadores, tal é a quantia de carros de alta cilindrada e topo de gama… Isso mesmo era confirmado no desfile de carrões em vários dos momentos noticiados. Não andarão aqueles cidadãos a viver acima das suas possibilidades? O controlo das finanças não vai investigar os tais sinais exteriores de riqueza? Com tais tratamentos de vedetas não estaremos – cada qual ao seu nível – a contribuir para que os jogadores se sintam seres superiores, senão nos dotes ao menos nos proveitos? O simpatizante, o adepto, o associado e toda a outra cadeia de investidores no negócio do desporto – e do futebol em particular – não terão culpa por terem contribuído para essa ‘bolha social’ em que foram colocados estes dotados e bem pagos?

Muita coisa está mal no reino da bola – tenha ela o formato que possa apresentar – na medida em que se vive num submundo com outras regras e outros tantos critérios que não são captados por todos. Quanta comunicação social gravita em volta do desporto. Quantos negócios se fazem e/ou desfazem sem se entenderem os quês nem os porquês. Quantos vivem como se a vida fosse só isso ou se os problemas do mundo se reduzissem à configuração do tratamento dado ao desporto e, sobretudo, às questões verificadas na área do futebol.  

= Talvez nunca como agora a nossa sociedade ocidental – e a portuguesa em especial – se tem deixado guiar e viver pelo lema ‘pão e jogos’ da época decadente do império romano do ocidente, em meados dos séculos quarto e quinto depois de Cristo. Ao tempo o imperador entretinha os seus súbditos dando-lhes pão e fornecendo-lhes divertimento. Isso mesmo temos vindo, progressivamente, a experimentar nas décadas mais recentes. Resolvidos muitos dos conflitos bélicos entre os povos, agora como que chafurdamos numa espécie de amoralidade sem lei nem regras, a não ser o de usufruir do bem-estar pessoal, nem que mais não seja à custa de serem atropelados os outros… E nem as propostas éticas/morais escapam à subtileza deste amorfismo crescente.

Aquilo que poderia ser um ambiente de atenção aos outros, pois muitas das necessidades primárias estão resolvidas e asseguradas, tem vindo a degenerar num fechamento aos outros, gerando mais e mais egoísmo e até egolatria. O ‘eu’ marca pontos sobre os ‘outros’ e estes como que podem ser considerados inimigos da conquista dos direitos individuais. Na cultura de Esparta – uma cidade grega onde a esfera do eu corporal tinha precedência sobre a dimensão cultural – saber roubar, desde que não fosse descoberto era como que uma regra de conduta. Assim hoje parece reinar o ditame: rouba desde que não te descubram…

Estamos num tempo pré-cristão, com a agravante de agora ter acontecido que outra versão: a mensagem cristã foi-se degenerando e perdendo o sabor para salgar o mundo e as pessoas. Há sinais de inquietação cultural e de eminente capitulação de algo que foi a matriz de conduta de séculos, mas em breves décadas, dá a impressão que deitamos tudo a perder…     

 

António Sílvio Couto  

quinta-feira, 17 de maio de 2018

Clima de violência…social, desportiva e cultural


Nos últimos dias, semanas e meses temos vindo a assistir a um crescendo progressivo de múltiplos sinais de violência – verbal, psicológica, emocional, física e até cultural – na sociedade ocidental no genérico e em particular em Portugal. As pessoas parecem mais irritadiças, por pouco ou quase nada entram de discussão. Já quase não se conversa, mas antes se grita e agride. Uma mera troca de opiniões gera uma convulsão tal, que se percebe mais ou menos como começa, mas não se prevê como poderá acabar.

Dá a impressão que um certo apaziguamento de conflitos bélicos – há mais de setenta anos que não uma guerra que envolva toda a Europa…à exceção de certas escaramuças nos Balcãs e países satélites saídos no bloco de leste – tem vindo a arrolhar nas pessoas sentimentos de violência capazes de serem despoletados – no sentido verdadeiro do termo de tirar a espoleta ou o detonador – em pequenas doses e sorvidas em tragos de intolerância…quanto baste.

Por muito que se pretenda disfarçar, há sinais preocupantes para o nosso futuro próximo, pois certos espaços de atividade humana e com alguma dose de pacificação, como era o desporto (nas várias modalidades), são, hoje, âmbitos de potencial conflitualidade e campos (ringues, pistas ou academias) de batalha, quase como rastilhos para uma sociedade em crise de identidade e sem objetivos comuns. Nalguns casos adeptos, simpatizantes ou associados da mesma agremiação agridem-se como se fossem inimigos figadais e alvos a abater na prossecução de planos mais elaborados…sabe-se lá de quem!

Houve tempos em que o espaço do desporto tentou viver à parte do resto da sociedade. Muitas das leis de âmbito civil nesta esfera não tinham intervenção. Contratos e negócios estavam fora do alcance até das leis de mercado… Como é que se falavam de milhões investidos e se pagavam tostões ao fisco? Como é que havia os contratos registados e fora de mão se ouvia enormidades sem controlo? Como é que certos autarcas eram, em simultâneo, ocupantes do poder e dirigentes do clube mais popular da região? Como é que responsáveis político/partidários se pavoneavam nas tribunas em dias de jogos e se tornavam mãos largas a partir das instâncias de governação? Por que razão tínhamos todos de saber qual a simpatia clubística do chefe do partido – ao nível nacional ou local – como se isso fosse campo de conquista de votos na hora de os angariar e contar?

Mais tarde ou mais cedo – talvez a hecatombe venha daqui a breves anos – o conluio entre política e desporto tinha de ser desmascarado. Não nos venham tentar ludibriar com a colaboração entre as várias forças, pois, quando está dinheiro e poder em jogo, logo se corre o perigo de algum deles vir a perder e, pelo desinteresse já verificado pela política, não faltará muito para que estádios, pavilhões e ruas fiquem vazios pelo desinteresse, a revolta e mesmo a desilusão…

Há urgência em fazer com que o desporto esteja inserido na normalidade da sociedade…dita democrática. Algum crime praticado no âmbito desportivo tem de ser regido pelas leis gerais do país, da União Europeia e da normalidade internacional. Corrupção, violência, fuga aos impostos, contratos de trabalho, fundos de publicidade, transmissões televisivas, ordenados e vencimentos, subsídios e comparticipações (estatais, autárquicas, pessoais e/ou coletivas)…e tantos outros temas… têm de estar sob a alçada da lei e não num mundo aparte e segundo regras sombrias, nebulosas ou quase criminosas.

Diz a sabedoria popular – não basta chorar sobre leite derramado. Ora, é precisamente sobre esse ‘leite derramado’ da incompetência em tratar estes assuntos, que temos todos, como cidadãos conscientes, de fazer cumprir as leis da república, exorcizando quem não queira, não saiba ou lhe interesse cumprir as regras da vida pública.

Enquanto é tempo tentemos atalhar e combater indícios preocupantes de fações subterrâneas que vão sobrevivendo sem serem apanhadas. Os tentáculos mostrados por estes dias não podem ser motivo de continuar neste ‘faz-de-conta’ que nos carateriza, como lhe chamou o presidente da república.

Muitas destas coisas podem ser revelação de que há muita gente – alguns bem novos – que vive sem trabalhar e com proventos capazes de os manter no mundo da marginalidade, senão mesmo da criminalidade. Iremos pagar, com valor acrescentado, estes sinais de violência social e cultural…manifestada no desporto!

 

António Sílvio Couto

quarta-feira, 16 de maio de 2018

Desfile de lerdices…na eurovisão


Nos tempos que correm cheira a ranço o desfile das canções do (dito) festival da eurovisão, não só pela manifesta falta de qualidade das mesmas, mas também pela incongruência dos meios usados que não se repercute na inovação musical desejável… Custa a crer que ainda haja quem aposte numa coisa tão lerda – vagarosa, apática, de raciocínio lento, acomodada, sem iniciativa – e faça disso um acontecimento de grande alcance…televisivamente com um grande share/audiência…à falta de melhor noutros canais.

Houve quem tenha criticado o evento recente, passado em Portugal, mas pareça excluir-se de que foi a sua prestação – tão badalada quão manipulada – que trouxe esta miséria – musical e artística – cá para dentro…

Olhando para a prestação das votações, já lá vai o tempo em que as afinidades políticas e geográficas se exprimiam nessas votações pelos concorrentes em vizinhança… Até isso deixou de ser benéfico para tantos, sobretudo para as nossas cançonetistas, classificadas em último lugar com uma prestação, nitidamente, sem glória nem honra…

Quem tenha somente lido o que foi dito – como é o meu caso – e não tenha seguido as longuíssimas horas de emissão da televisão estatal, terá ficado a saber que foram gastos, na organização do festival, 20 milhões de euros…à mistura com os suficientes proveitos hoteleiros e turísticos, sem esquecer a publicidade ao país e tantos outros ‘benefícios’ ao menos por alguns dias.

A vitória duma canção israelita já começou a fazer fervilhar contendas políticas, colocando alguns países a hipótese de boicote por ser onde se espera que possa acontecer. Muita coisa decorrerá, por certo, até à data do novo festival da eurovisão, mas será de aprender com os erros praticados, este ano, sem deixarmos de questionar a confluência imprevista da vitória do ano transato… A qualidade continua excessivamente fraca para que não se pretenda considerar que a classificação portuguesa deste ano é, de verdade, o retrato da nossa mediocridade artística e cultural…Basta de tentar disfarçar! 

= Algumas questões nos pode levantar a polarização em volta dum acontecimento que bem espremido pouco deixa de substancial e do adjetivado são parcos os qualificativos.

* Os meios usados têm correspondência nos resultados – muito mais do que meramente económicos – obtidos?

* As apreciações intentadas antes, durante e depois do evento não sofrem dalguma moldura preconcebida e onde alguns estereótipos se não encaixam podem ser matéria para exclusão da qualidade e não da promoção? * Como dizia um concorrente vencido – depois da mulher de barba, veio a galinha cantante – não andaremos a fazer de coisas como esta um estendal de mau gosto e de insuficiente valor no espetro europeu e mundial?

* Não será este o critério para que haja um produto desta qualidade: não andaremos a endeusar a música, fazendo desse culto uma religião transnacional e uma obsessão onde se nota a categoria de novo ópio do povo?

Os artefactos em uso em tantos festivais de música – são às dezenas em cada verão – podem-nos fazer crer que a música se tem vindo a tornar em algo mais do que uma arte, mas antes uma produção muito especial para consubstanciar naquilo que arrasta multidões, gera e gere milhões, com muitos outros campos de atividade que lhe estão adstritos…uns legais e tantos outros subterrâneos. Tudo isto com uma difusão à medida das comunicações atuais e com os meios cada vez mais sofisticados para aliciarem novos adeptos e consumidores. Talvez nem tudo sejam tão limpo como se pretende fazer acreditar. Talvez nem sempre se vejam todos os contornos do mundo da música. Talvez ainda andemos, uma boa maioria, a ser embalados por ritmos que nos querem adormecer e iludir com melodias de enganar.

Quando tanta coisa se estuda e esmiúça, parece-me que seria muito útil estudar mais a fundo o que faz a música tão especial neste tempo eivado de futilidades, de modas e de tendências. Assim haja coragem e vontade de aprender com tudo isto que se vê e tanta outra coisa que não se consegue ver em primeira olhada. Com efeito, depois da canção-mensagem, precisamos de discernir qual a mensagem da canção…e da música que a suporta!   

 

António Sílvio Couto

segunda-feira, 14 de maio de 2018

A febre do jogo está a crescer…


Parece um dado incontornável: os portugueses estão a gastar mais dinheiro no jogo…num total, em 2017, de 3.519 milhões de euros…verificando-se um aumento de onze por cento em relação ao ano de 2016

Vejamos os números que são conhecidos.

Nos ditos ‘jogos sociais’ da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa houve apostas num valor de 3.028 milhões assim distribuídos: raspadinha – 1487 milhões; euromilhões – 851 milhões; placard – 502 milhões; totoloto – 100 milhões; lotaria clássica – 41 milhões; lotaria popular – 23 milhões; joker – 18 milhões; totobola – 8 milhões. Por seu turno, as apostas em casinos foram de 333,1 milhões; nos bingos – 57 milhões; no jogo online – 122.5 milhões. 

= Que significado pode ter esta febre de jogo, ao que parece, crescente? Isto quererá dizer que os portugueses desejam enriquecer sem trabalhar? Será, então, um investimento sem esforço e com resultados mais imediatos? Esta opção pelo jogo é resultado da abundância (o dinheiro já sobra para gastar sem conta) ou da crise (do pouco que há, se quer fazer mais rápido)? Será legítimo seduzir as pessoas para o jogo, pondo em causa a dignidade pessoal, familiar ou social? Mesmo que possam ser designados de ‘jogos sociais’, será correto recorrer ao jogo para ganhar a jogar, o que devia ser ganho a trabalhar? Não estaremos a cultivar mais a sociedade da preguiça e do lucro fácil do que a gerar uma sociedade alicerçada no trabalho e na justa recompensa do mesmo? Sendo algo de anónimo, o jogo não estará a seduzir gente sem rosto nem idade para a ele se submeter? 

= O que diz o Catecismo da Igreja Católica sobre este tema do jogo, sobretudo se tem a componente à designação de ‘sorte-e-do-azar’: «Os jogos de azar (jogos de cartas, etc.) ou as apostas em si não são contrários à justiça. Tomam-se moralmente inaceitáveis quando privam a pessoa daquilo que lhe é necessário para suprir suas necessidades e as dos outros. A paixão pelo jogo corre o risco de se transformar em uma dependência grave. Apostar injustamente ou fazer batota nos jogos constitui matéria grave, a menos que o dano infligido seja tão pequeno aquele que o sofre não possa razoavelmente considerá-lo significativo» (n.º 2413). 

= Tentemos encontrar neste texto da doutrina da Igreja algo que nos poderá exigir mais à formação da consciência de tantas pessoas que enchem as casas de apostas, os locais de jogatina e mesmo os espaços onde o fator dinheiro – é este que move, certamente, tantos dos jogadores – numa cultura bastante materialista e de dependência em ganhar mais e mais.

* Como qualquer vício, o jogo será sempre perigoso, se entrarmos nele com objetivos de apostar, de ganhar e voltar a apostar… Ninguém acredita que possa entrar neste corrupio do jogo para sair dele sem marcas ou mazelas. Pode começar por pouco, mas a sedução da riqueza falará mais alto e, quando se aperceber, estará tomado pelo vício, mesmo naquilo que cria dependência mais ou menos assumida.

* A divulgação dos números supra apresentados poderá ser ainda mais um aliciante para que os jogadores queiram mais, pois, se uns conseguiram ter sucesso, também me poderá tocar – ao menos uma vez – a minha sorte… Fazer fortuna a jogar não costuma ser algo que faz vencer quem assim aposta, pois o parco ganho será despendido em novas tentativas de ganhar outra vez e o ciclo continuará até à ruína mais ou menos próxima… Quanta miséria criada pelo vício do jogo!  

= Numa nota de índole pessoal: que me lembre talvez só tenha andado por esta área do jogo, apostando nalguns dos ditos ‘jogos sociais’, duas ou três vezes…e sem grande convicção. Num casino só entrei, a convite, uma vez, recentemente, e aquilo que vi – era uma tarde de semana – deixou-me apreensivo sobre as pessoas que por ali andavam a tentar a sua sorte: os rostos eram tristes – talvez pelas perdas já acontecidas – à mistura com uma certa apreensão, na ansia de vir a ganhar ou a perder tudo e o resto… A situação geral é preocupante! Os números não enganam, pois o vício parece entranhado na nossa cultura, em especial!

 

António Sílvio Couto  



quarta-feira, 9 de maio de 2018

Tocar conforme os bailarinos ou dançar ao ritmo da música?


Por vezes dá a sensação que certos assuntos são noticiados para agradarem a determinado leque de interessados ou que outras vezes surgem questões para encaixarem nas temáticas de maior sensibilidade a quem as deseja tratar. Isto é, umas vezes toca-se a música tendo em conta quem a vai interpretar, enquanto noutras circunstâncias são os dançarinos que se adaptam ao reportório apresentado.

Vem isto a propósito do tema da eutanásia – como já aconteceu noutros assuntos de costumes e de valores – quem introduziu a questão na discussão pública atendeu mais ao seu ritmo e calendário do que ao que era mais importante tratar na vida pública e política… Se isto era razoável quando o tema surgiu pela primeira vez pela mão das forças trotskistas, é no ainda mais agora que veem fugir o espaço de reivindicação em matéria de assuntos sociais, laborais e anticapitalistas…

 * Nota-se que há forças que não medem a utilidade dos assuntos, antes se guiam pela necessidade de estarem na crista da onda, mesmo que essa vaga possa ser-lhes menos favorável. Talvez tenhamos de saber antecipar com mais antecedência os problemas, mesmo eles nos possam nem sempre ser os mais necessários. Neste campo da eutanásia – bem como de outras questões da ética/moral, da família/vida – a Igreja católica tem andado mais a reboque na tomada de posição e do esclarecimento público – em reação um tanto desajustada – com um desfasamento temporal nem sempre entendível para quem sabe da importância destas questões, devendo prevenir antes de remediar… Até porque não está garantido que uma boa parte da população portuguesa – a percentagem a favor pode ser quase arrasadora – não seja mais pela ‘morte doce’ do que pela valorização da vida ‘entre a conceção e a morte natural’… Há expressões e sentimentos que se ouvem – até por ocasião do falecimento dalgumas pessoas, sobretudo das mais sofridas e sofredoras – que leva a ir por esta posição mais materialista de matar antes de estar a sofrer…  

* Como muito bem sido dito, falta informação credível sobre o tema da eutanásia nos países – Holanda, Bélgica ou mesmo Suíça – onde já é legal. Em muitos casos temos sido informados/intoxicados com dados que são mais favoráveis ao incremento da eutanásia… quase como ‘falsas notícias’.

Depois de ter sido colocado o item do ‘sofrimento incomportável’ como razão plausível para o recurso à eutanásia foi-se deslocando – ou talvez se possa considerar resvalando – para o âmbito da dignidade como forma de tornar aceitável o pedido de eutanásia ou da solicitação até da família – sobretudo no caso de velhos e com demência – para que uma pessoa possa ser eutanasiada…De facto, colocar a discussão na barreira da dignidade torna este problema ainda mais acutilante, pois o critério de ‘dignidade’ é tão variável quanto a mentalidade que lhe pode estar subjacente.

Na Bélgica houve situações em que foi ministrada a eutanásia a alguém que se encontrava em depressão e solicitou aquele recurso de colocar termo à vida…  

* «De forma sintética, podemos dizer que subjacente à legalização da eutanásia e do suicídio assistido está a pretensão de redefinir tomadas de consciência éticas e jurídicas ancestrais relativas ao respeito e à sacralidade da vida humana. Pretende-se que o mandamento de que nunca é lícito matar uma pessoa humana inocente (“Não matarás”) seja substituído por um outro, que só torna ilícito o ato de matar quando o visado quer viver. Consequentemente, intenta-se que a norma segundo a qual a vida humana é sempre merecedora de proteção, porque um bem em si mesma e porque dotada de dignidade em qualquer circunstância, seja substituída por um outro critério, segundo o qual a dignidade e valor da vida humana podem variar e podem perder-se. Ora, na nossa conceção, isto é inaceitável» – Nota pastoral do conselho permanente da Conferência Episcopal Portuguesa, ‘Eutanásia: o que está em causa? Contributos para um diálogo sereno e humanizador’ (8 de março de 2016), n.º 3.

Não deixemos que nos façam dançar com uma música que não queremos interpretar nem que nos queiram tornar executantes duma outra música que abjuramos…em razão dos nossos valores, que exigimos que sejam respeitados como eles querem pensar e agir, à sua maneira!    

 

António Sílvio Couto  


segunda-feira, 7 de maio de 2018

Varrer para debaixo do tapete…


Às vezes certas ‘cenas’ da vida pública – política, social, económica, desportiva, cultural ou mesmo religiosa – fazem-nos lembrar essa imagem de quem, estando em tempo de limpezas e querendo atalhar no tempo e nas ações, como que varre para debaixo do tapete algum do lixo e com isso, tirando-o da vista, faz parecer que a coisa desapareceu…quando, no mínimo, foi escondida ou encoberta.

Eis algumas questões e ‘campos’ de intervenção:

* Foi porque um tal senhor acusado num complexo processo de corrupção, que, tendo-se desfiliado do partido e entregado o cartão de militante, o problema dele e da agremiação a que pertencia resolveu alguma das questões?

* Foi porque se deitou mais dinheiro para cima dos incêndios – com discursos e planos de intenção à mistura com acusações, erros e incompetências – que deixou de haver fogos, mesmo a destempo e em locais menos apropriados?

* Foi porque surgiram outras vitórias – em modalidades diversas e com expressão diferente – que se fez obnubilar o mau ambiente em certos clubes desportivos não-vencedores quase há duas décadas no âmbito do futebol?

* Foi porque, após protestos e diatribes ideológicas, se abriram os cordões para dar dinheiros às artes que isso levou mais gente aos teatros e às (ditas) manifestações culturais subsidio dependentes?

* Foi porque o Papa atual passou a ter um discurso mais entendível e apelativo, que se resolveram os problemas de evangelização, de compromisso na Igreja ou se verifica um maior e melhor testemunho de vida e não de escândalo dos que se dizem cristãos/católicos?

* Foi porque se passou a usar a internet e as (ditas) redes sociais que as pessoas mal-intencionadas se tornaram aceitáveis ou que a solidão foi atenuada com ‘gostos’ e ‘amigos virtuais’?

Estes e outros campos bem como aspetos de intervenção poderão ser ou não espaços onde o ‘varrer para debaixo do tapete’ possa parecer uma solução sem nada resolver ou que continuemos a viver num engano prolongado e sem enfrentar as causas, mas antes tentando debelar as consequências. Com efeito, a maturidade humana, psicológica e espiritual revela-se pela capacidade de enfrentar os problemas e não em pretender viver iludidos, adiando-os ou fazendo-os esquecer com distrações mais ou menos corretas ou mesmo toleradas.

Atribuiu-se a um político da nossa praça lusitana – de grande longevidade governativa à sua maneira – o seguinte critério, quando tinha de enfrentar os assuntos: ‘se quero resolver, eu decido; se é para adiar, nomeio uma comissão’…Decorridas mais de quatro décadas de (pretensa) democracia o que temos visto é pontificar a segunda parte do critério de tal governação e do modo de adiar os problemas e de subverter as questões…

- Somos um país/nação muito típico no contexto europeu e até internacional: com facilidade entronizamos com quem simpatizamos e quase diabolizamos quem nos pareça não estar muito na linha da nossa conveniência. Quantas vezes nos deixamos guiar mais pelo que se ouve dizer – normalmente mal – do que por aquilo que se conhece, de facto. Quantas vezes uma pessoa se torna muito popular porque caiu nas boas graças de quem manipula os outros ou com que dificuldade alguém sai da proscrição se aí foi colocada por interesses quase subterrâneos.

- É público e notório – sobretudo para os que não estão a recibo da governança geral ou local – que uma parte significativa da comunicação social está ao serviço de quem a comprou ou a quem ela se vendeu, particularmente iludindo os auscultados nas sondagens, sendo desta forma mais fácil fazer crer que, mesmo escondendo o cotão que tresanda a mofo e bafio, sob o leito de tantos enfermos e muitos outros já defuntos, tudo vai aparecendo como sucesso à custa da ignorância de tantos outros. Quantas vezes se vão começando a vislumbrar indícios de que uns certos ratos já estão a querer-se esgueirar do porão. Quantas vezes vemos as mesmas figuras – só mudando de indumentária – a desempenharem papéis nem sempre compatíveis com as patentes desejadas… Estar sobre a onda faz viver algum ridículo!

- Em breve perceberemos se o ninho de vespas vai continuar a fazer de conta que tudo corre bem porque se faz sucesso e se ganha…pois os tentáculos das ideologias começarão a cobrar as quotas do suportado…    

 

António Sílvio Couto


terça-feira, 1 de maio de 2018

Somos todos, de verdade, trabalhadores


A velha, anacrónica e ideológica dialética entre ‘trabalhadores’ (operários, empregados ou funcionários) e outros (patrões, empresários/empregadores) como que sai das catacumbas do comportamento social/económico para a luz do dia por ocasião do ‘1.º de maio’, enquanto pretenso ‘dia do trabalhador’.

Há quem continue – sabe-se lá porque razões pessoais, culturais ou sociais – a estribar-se naqueles conceitos dialéticos que, quase dois séculos decorridos, estão em mutação acelerada, deixando alguns dos intervenientes a usarem uma linguagem ultrapassada e quase sem nexo de causalidade…entre o que se diz e como as coisas são, de verdade.  

* Ante de tudo é preciso considerar que o trabalho é uma atividade humana que não se pode medir exclusivamente pela remuneração – através do dito salário – e tão pouco se pode reduzir à contraposição entre quem gasta a força de trabalho e pelo qual é pago e esse outro que lhe paga – na maior parte das vezes, usando uma linguagem marxista, se refere que o explora – colhendo as mais-valias e o usufruto daquilo que não produziu… Não há maior engano ou manipulação do que este engulho de pretender pôr em confronto quem faz o esforço – dizem até que ‘vende a sua força de trabalho’ – e quem o administra.

Desde logo e sem qualquer rebuço temos de afirmar: somos todos trabalhadores, na medida em que participamos na obra concriadora de Deus através do nosso trabalho seja ele braçal, com maquinaria, seja de forma intelectual ou mesmo pelo pensamento na forma de novos investimentos para mais e melhor trabalho. No entanto, há tanto outro trabalho que é feito e não é pago nem tem preço, tal é a dedicação e a entrega a isso que move e motiva tantas pessoas a fazê-lo… vejamos, por exemplo, as tarefas das mães e dos pais para com os seus filhos… 

= Ao nível da doutrina da Igreja católica para as questões sociais sempre houve uma posição de valorização, engrandecimento e dignificação do trabalho. Com efeito, é pelo trabalho que o ser humano se realiza como pessoa. A Igreja Católica desde cedo teve a noção do valor do trabalho como tendo um caráter positivo, educativo e meritório (Laborem Exercens, n.os 5 e 6). Desde 1891, com a encíclica Rerum novarum de Leão XIII, que se encontramos um corpo referente à leitura da sociedade e às questões laborais. De facto, esta encíclica é tida como a magna carta da atividade cristã no campo social, nomeadamente sobre a questão operária e a doutrina católica acerca do trabalho tendo em vista a promoção de uma ordem social justa. Esta precisão foi usada por Pio XI na Quadragesimo Anno, de 1931. Se de início os papas se ocupavam sobretudo com a questão operária e outros aspetos da situação social, a forma de pensar e de viver esta vertente no trato com as questões sociais e laborais passou a ser designada de Doutrina Social da Igreja. Os acontecimentos históricos e os novos problemas sociais impeliram a Igreja a uma urgente mas duradoura reflexão, que acabou por exprimir um desenvolvimento orgânico do seu ensino, bem como os vetores de inspiração para um programa de ação… atualizado.  

De facto, nos documentos da DSI (doutrina social da Igreja) encontramos uma visão deste tema do trabalho muito mais avançado do que aquilo que dizem – e sobretudo naquilo que (não) fazem – certas forças sindicais e político/ideológicas, tendo em conta conceitos como bem comum, relação entre trabalho e capital, solidariedade e subsidiariedade… e tantas outras questões que fazem com que muitos cristãos/ãs se empenhem num sindicalismo respeitador dos outros e mesmo da propriedade privada, sem criarem clivagens com tonalidade marxista/trotskista e outros conflitos que só servem para abespinhar as pessoas e os grupos que intervêm no processo de trabalho. 

= Quando tantos ainda não têm um ordenado justo – o ‘mínimo’ nunca pode ser uma meta, mas tão só um ponto de arranque – será aceitável pugnar por mais direitos ou pela recuperação dalguns que fizeram tantas empresas capitular? Como se pode justificar que certas forças se arvorem em senhoras dos trabalhadores, quando estes não são posse de ninguém nem estão à venda em leilão? Urge dizer basta aos ‘donos’ dos trabalhadores, quando deles só têm recebido agressividade e conflitualidade…ao desbarato!           

 

António Sílvio Couto