Partilha de perspectivas... tanto quanto atualizadas.



segunda-feira, 14 de maio de 2018

A febre do jogo está a crescer…


Parece um dado incontornável: os portugueses estão a gastar mais dinheiro no jogo…num total, em 2017, de 3.519 milhões de euros…verificando-se um aumento de onze por cento em relação ao ano de 2016

Vejamos os números que são conhecidos.

Nos ditos ‘jogos sociais’ da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa houve apostas num valor de 3.028 milhões assim distribuídos: raspadinha – 1487 milhões; euromilhões – 851 milhões; placard – 502 milhões; totoloto – 100 milhões; lotaria clássica – 41 milhões; lotaria popular – 23 milhões; joker – 18 milhões; totobola – 8 milhões. Por seu turno, as apostas em casinos foram de 333,1 milhões; nos bingos – 57 milhões; no jogo online – 122.5 milhões. 

= Que significado pode ter esta febre de jogo, ao que parece, crescente? Isto quererá dizer que os portugueses desejam enriquecer sem trabalhar? Será, então, um investimento sem esforço e com resultados mais imediatos? Esta opção pelo jogo é resultado da abundância (o dinheiro já sobra para gastar sem conta) ou da crise (do pouco que há, se quer fazer mais rápido)? Será legítimo seduzir as pessoas para o jogo, pondo em causa a dignidade pessoal, familiar ou social? Mesmo que possam ser designados de ‘jogos sociais’, será correto recorrer ao jogo para ganhar a jogar, o que devia ser ganho a trabalhar? Não estaremos a cultivar mais a sociedade da preguiça e do lucro fácil do que a gerar uma sociedade alicerçada no trabalho e na justa recompensa do mesmo? Sendo algo de anónimo, o jogo não estará a seduzir gente sem rosto nem idade para a ele se submeter? 

= O que diz o Catecismo da Igreja Católica sobre este tema do jogo, sobretudo se tem a componente à designação de ‘sorte-e-do-azar’: «Os jogos de azar (jogos de cartas, etc.) ou as apostas em si não são contrários à justiça. Tomam-se moralmente inaceitáveis quando privam a pessoa daquilo que lhe é necessário para suprir suas necessidades e as dos outros. A paixão pelo jogo corre o risco de se transformar em uma dependência grave. Apostar injustamente ou fazer batota nos jogos constitui matéria grave, a menos que o dano infligido seja tão pequeno aquele que o sofre não possa razoavelmente considerá-lo significativo» (n.º 2413). 

= Tentemos encontrar neste texto da doutrina da Igreja algo que nos poderá exigir mais à formação da consciência de tantas pessoas que enchem as casas de apostas, os locais de jogatina e mesmo os espaços onde o fator dinheiro – é este que move, certamente, tantos dos jogadores – numa cultura bastante materialista e de dependência em ganhar mais e mais.

* Como qualquer vício, o jogo será sempre perigoso, se entrarmos nele com objetivos de apostar, de ganhar e voltar a apostar… Ninguém acredita que possa entrar neste corrupio do jogo para sair dele sem marcas ou mazelas. Pode começar por pouco, mas a sedução da riqueza falará mais alto e, quando se aperceber, estará tomado pelo vício, mesmo naquilo que cria dependência mais ou menos assumida.

* A divulgação dos números supra apresentados poderá ser ainda mais um aliciante para que os jogadores queiram mais, pois, se uns conseguiram ter sucesso, também me poderá tocar – ao menos uma vez – a minha sorte… Fazer fortuna a jogar não costuma ser algo que faz vencer quem assim aposta, pois o parco ganho será despendido em novas tentativas de ganhar outra vez e o ciclo continuará até à ruína mais ou menos próxima… Quanta miséria criada pelo vício do jogo!  

= Numa nota de índole pessoal: que me lembre talvez só tenha andado por esta área do jogo, apostando nalguns dos ditos ‘jogos sociais’, duas ou três vezes…e sem grande convicção. Num casino só entrei, a convite, uma vez, recentemente, e aquilo que vi – era uma tarde de semana – deixou-me apreensivo sobre as pessoas que por ali andavam a tentar a sua sorte: os rostos eram tristes – talvez pelas perdas já acontecidas – à mistura com uma certa apreensão, na ansia de vir a ganhar ou a perder tudo e o resto… A situação geral é preocupante! Os números não enganam, pois o vício parece entranhado na nossa cultura, em especial!

 

António Sílvio Couto  



quarta-feira, 9 de maio de 2018

Tocar conforme os bailarinos ou dançar ao ritmo da música?


Por vezes dá a sensação que certos assuntos são noticiados para agradarem a determinado leque de interessados ou que outras vezes surgem questões para encaixarem nas temáticas de maior sensibilidade a quem as deseja tratar. Isto é, umas vezes toca-se a música tendo em conta quem a vai interpretar, enquanto noutras circunstâncias são os dançarinos que se adaptam ao reportório apresentado.

Vem isto a propósito do tema da eutanásia – como já aconteceu noutros assuntos de costumes e de valores – quem introduziu a questão na discussão pública atendeu mais ao seu ritmo e calendário do que ao que era mais importante tratar na vida pública e política… Se isto era razoável quando o tema surgiu pela primeira vez pela mão das forças trotskistas, é no ainda mais agora que veem fugir o espaço de reivindicação em matéria de assuntos sociais, laborais e anticapitalistas…

 * Nota-se que há forças que não medem a utilidade dos assuntos, antes se guiam pela necessidade de estarem na crista da onda, mesmo que essa vaga possa ser-lhes menos favorável. Talvez tenhamos de saber antecipar com mais antecedência os problemas, mesmo eles nos possam nem sempre ser os mais necessários. Neste campo da eutanásia – bem como de outras questões da ética/moral, da família/vida – a Igreja católica tem andado mais a reboque na tomada de posição e do esclarecimento público – em reação um tanto desajustada – com um desfasamento temporal nem sempre entendível para quem sabe da importância destas questões, devendo prevenir antes de remediar… Até porque não está garantido que uma boa parte da população portuguesa – a percentagem a favor pode ser quase arrasadora – não seja mais pela ‘morte doce’ do que pela valorização da vida ‘entre a conceção e a morte natural’… Há expressões e sentimentos que se ouvem – até por ocasião do falecimento dalgumas pessoas, sobretudo das mais sofridas e sofredoras – que leva a ir por esta posição mais materialista de matar antes de estar a sofrer…  

* Como muito bem sido dito, falta informação credível sobre o tema da eutanásia nos países – Holanda, Bélgica ou mesmo Suíça – onde já é legal. Em muitos casos temos sido informados/intoxicados com dados que são mais favoráveis ao incremento da eutanásia… quase como ‘falsas notícias’.

Depois de ter sido colocado o item do ‘sofrimento incomportável’ como razão plausível para o recurso à eutanásia foi-se deslocando – ou talvez se possa considerar resvalando – para o âmbito da dignidade como forma de tornar aceitável o pedido de eutanásia ou da solicitação até da família – sobretudo no caso de velhos e com demência – para que uma pessoa possa ser eutanasiada…De facto, colocar a discussão na barreira da dignidade torna este problema ainda mais acutilante, pois o critério de ‘dignidade’ é tão variável quanto a mentalidade que lhe pode estar subjacente.

Na Bélgica houve situações em que foi ministrada a eutanásia a alguém que se encontrava em depressão e solicitou aquele recurso de colocar termo à vida…  

* «De forma sintética, podemos dizer que subjacente à legalização da eutanásia e do suicídio assistido está a pretensão de redefinir tomadas de consciência éticas e jurídicas ancestrais relativas ao respeito e à sacralidade da vida humana. Pretende-se que o mandamento de que nunca é lícito matar uma pessoa humana inocente (“Não matarás”) seja substituído por um outro, que só torna ilícito o ato de matar quando o visado quer viver. Consequentemente, intenta-se que a norma segundo a qual a vida humana é sempre merecedora de proteção, porque um bem em si mesma e porque dotada de dignidade em qualquer circunstância, seja substituída por um outro critério, segundo o qual a dignidade e valor da vida humana podem variar e podem perder-se. Ora, na nossa conceção, isto é inaceitável» – Nota pastoral do conselho permanente da Conferência Episcopal Portuguesa, ‘Eutanásia: o que está em causa? Contributos para um diálogo sereno e humanizador’ (8 de março de 2016), n.º 3.

Não deixemos que nos façam dançar com uma música que não queremos interpretar nem que nos queiram tornar executantes duma outra música que abjuramos…em razão dos nossos valores, que exigimos que sejam respeitados como eles querem pensar e agir, à sua maneira!    

 

António Sílvio Couto  


segunda-feira, 7 de maio de 2018

Varrer para debaixo do tapete…


Às vezes certas ‘cenas’ da vida pública – política, social, económica, desportiva, cultural ou mesmo religiosa – fazem-nos lembrar essa imagem de quem, estando em tempo de limpezas e querendo atalhar no tempo e nas ações, como que varre para debaixo do tapete algum do lixo e com isso, tirando-o da vista, faz parecer que a coisa desapareceu…quando, no mínimo, foi escondida ou encoberta.

Eis algumas questões e ‘campos’ de intervenção:

* Foi porque um tal senhor acusado num complexo processo de corrupção, que, tendo-se desfiliado do partido e entregado o cartão de militante, o problema dele e da agremiação a que pertencia resolveu alguma das questões?

* Foi porque se deitou mais dinheiro para cima dos incêndios – com discursos e planos de intenção à mistura com acusações, erros e incompetências – que deixou de haver fogos, mesmo a destempo e em locais menos apropriados?

* Foi porque surgiram outras vitórias – em modalidades diversas e com expressão diferente – que se fez obnubilar o mau ambiente em certos clubes desportivos não-vencedores quase há duas décadas no âmbito do futebol?

* Foi porque, após protestos e diatribes ideológicas, se abriram os cordões para dar dinheiros às artes que isso levou mais gente aos teatros e às (ditas) manifestações culturais subsidio dependentes?

* Foi porque o Papa atual passou a ter um discurso mais entendível e apelativo, que se resolveram os problemas de evangelização, de compromisso na Igreja ou se verifica um maior e melhor testemunho de vida e não de escândalo dos que se dizem cristãos/católicos?

* Foi porque se passou a usar a internet e as (ditas) redes sociais que as pessoas mal-intencionadas se tornaram aceitáveis ou que a solidão foi atenuada com ‘gostos’ e ‘amigos virtuais’?

Estes e outros campos bem como aspetos de intervenção poderão ser ou não espaços onde o ‘varrer para debaixo do tapete’ possa parecer uma solução sem nada resolver ou que continuemos a viver num engano prolongado e sem enfrentar as causas, mas antes tentando debelar as consequências. Com efeito, a maturidade humana, psicológica e espiritual revela-se pela capacidade de enfrentar os problemas e não em pretender viver iludidos, adiando-os ou fazendo-os esquecer com distrações mais ou menos corretas ou mesmo toleradas.

Atribuiu-se a um político da nossa praça lusitana – de grande longevidade governativa à sua maneira – o seguinte critério, quando tinha de enfrentar os assuntos: ‘se quero resolver, eu decido; se é para adiar, nomeio uma comissão’…Decorridas mais de quatro décadas de (pretensa) democracia o que temos visto é pontificar a segunda parte do critério de tal governação e do modo de adiar os problemas e de subverter as questões…

- Somos um país/nação muito típico no contexto europeu e até internacional: com facilidade entronizamos com quem simpatizamos e quase diabolizamos quem nos pareça não estar muito na linha da nossa conveniência. Quantas vezes nos deixamos guiar mais pelo que se ouve dizer – normalmente mal – do que por aquilo que se conhece, de facto. Quantas vezes uma pessoa se torna muito popular porque caiu nas boas graças de quem manipula os outros ou com que dificuldade alguém sai da proscrição se aí foi colocada por interesses quase subterrâneos.

- É público e notório – sobretudo para os que não estão a recibo da governança geral ou local – que uma parte significativa da comunicação social está ao serviço de quem a comprou ou a quem ela se vendeu, particularmente iludindo os auscultados nas sondagens, sendo desta forma mais fácil fazer crer que, mesmo escondendo o cotão que tresanda a mofo e bafio, sob o leito de tantos enfermos e muitos outros já defuntos, tudo vai aparecendo como sucesso à custa da ignorância de tantos outros. Quantas vezes se vão começando a vislumbrar indícios de que uns certos ratos já estão a querer-se esgueirar do porão. Quantas vezes vemos as mesmas figuras – só mudando de indumentária – a desempenharem papéis nem sempre compatíveis com as patentes desejadas… Estar sobre a onda faz viver algum ridículo!

- Em breve perceberemos se o ninho de vespas vai continuar a fazer de conta que tudo corre bem porque se faz sucesso e se ganha…pois os tentáculos das ideologias começarão a cobrar as quotas do suportado…    

 

António Sílvio Couto


terça-feira, 1 de maio de 2018

Somos todos, de verdade, trabalhadores


A velha, anacrónica e ideológica dialética entre ‘trabalhadores’ (operários, empregados ou funcionários) e outros (patrões, empresários/empregadores) como que sai das catacumbas do comportamento social/económico para a luz do dia por ocasião do ‘1.º de maio’, enquanto pretenso ‘dia do trabalhador’.

Há quem continue – sabe-se lá porque razões pessoais, culturais ou sociais – a estribar-se naqueles conceitos dialéticos que, quase dois séculos decorridos, estão em mutação acelerada, deixando alguns dos intervenientes a usarem uma linguagem ultrapassada e quase sem nexo de causalidade…entre o que se diz e como as coisas são, de verdade.  

* Ante de tudo é preciso considerar que o trabalho é uma atividade humana que não se pode medir exclusivamente pela remuneração – através do dito salário – e tão pouco se pode reduzir à contraposição entre quem gasta a força de trabalho e pelo qual é pago e esse outro que lhe paga – na maior parte das vezes, usando uma linguagem marxista, se refere que o explora – colhendo as mais-valias e o usufruto daquilo que não produziu… Não há maior engano ou manipulação do que este engulho de pretender pôr em confronto quem faz o esforço – dizem até que ‘vende a sua força de trabalho’ – e quem o administra.

Desde logo e sem qualquer rebuço temos de afirmar: somos todos trabalhadores, na medida em que participamos na obra concriadora de Deus através do nosso trabalho seja ele braçal, com maquinaria, seja de forma intelectual ou mesmo pelo pensamento na forma de novos investimentos para mais e melhor trabalho. No entanto, há tanto outro trabalho que é feito e não é pago nem tem preço, tal é a dedicação e a entrega a isso que move e motiva tantas pessoas a fazê-lo… vejamos, por exemplo, as tarefas das mães e dos pais para com os seus filhos… 

= Ao nível da doutrina da Igreja católica para as questões sociais sempre houve uma posição de valorização, engrandecimento e dignificação do trabalho. Com efeito, é pelo trabalho que o ser humano se realiza como pessoa. A Igreja Católica desde cedo teve a noção do valor do trabalho como tendo um caráter positivo, educativo e meritório (Laborem Exercens, n.os 5 e 6). Desde 1891, com a encíclica Rerum novarum de Leão XIII, que se encontramos um corpo referente à leitura da sociedade e às questões laborais. De facto, esta encíclica é tida como a magna carta da atividade cristã no campo social, nomeadamente sobre a questão operária e a doutrina católica acerca do trabalho tendo em vista a promoção de uma ordem social justa. Esta precisão foi usada por Pio XI na Quadragesimo Anno, de 1931. Se de início os papas se ocupavam sobretudo com a questão operária e outros aspetos da situação social, a forma de pensar e de viver esta vertente no trato com as questões sociais e laborais passou a ser designada de Doutrina Social da Igreja. Os acontecimentos históricos e os novos problemas sociais impeliram a Igreja a uma urgente mas duradoura reflexão, que acabou por exprimir um desenvolvimento orgânico do seu ensino, bem como os vetores de inspiração para um programa de ação… atualizado.  

De facto, nos documentos da DSI (doutrina social da Igreja) encontramos uma visão deste tema do trabalho muito mais avançado do que aquilo que dizem – e sobretudo naquilo que (não) fazem – certas forças sindicais e político/ideológicas, tendo em conta conceitos como bem comum, relação entre trabalho e capital, solidariedade e subsidiariedade… e tantas outras questões que fazem com que muitos cristãos/ãs se empenhem num sindicalismo respeitador dos outros e mesmo da propriedade privada, sem criarem clivagens com tonalidade marxista/trotskista e outros conflitos que só servem para abespinhar as pessoas e os grupos que intervêm no processo de trabalho. 

= Quando tantos ainda não têm um ordenado justo – o ‘mínimo’ nunca pode ser uma meta, mas tão só um ponto de arranque – será aceitável pugnar por mais direitos ou pela recuperação dalguns que fizeram tantas empresas capitular? Como se pode justificar que certas forças se arvorem em senhoras dos trabalhadores, quando estes não são posse de ninguém nem estão à venda em leilão? Urge dizer basta aos ‘donos’ dos trabalhadores, quando deles só têm recebido agressividade e conflitualidade…ao desbarato!           

 

António Sílvio Couto


segunda-feira, 30 de abril de 2018

Do ‘proibido proibir’… ao ‘fazer o que apetece’


Ocorre este ano o cinquentenário do ‘maio de 68’. O que foi ou o que é o ‘maio de 68’ e quais as suas consequências na história? Como se pode enquadrar o ‘maio de 68’, decorridos cinquenta anos, e com novos desafios à sociedade atual’? Ainda haveria condições – neste egoísmo crescente – para envolver todos numa ação em favor dos outros?

Estas e outras questões surgirão por certo nos próximos dias, dado que estaremos no mesmo mês e com perguntas ainda não-respondidas ou até mal resolvidas…

* A expressão ‘maio 68’ costuma ser usada para referir-se às greves, manifestações e ocupações de fábricas e universidades que ocorreram na França, em maio de 1968. Uma greve geral se desencadeou na França, mas que rapidamente, adquiriu significado e proporções revolucionárias, mas foi desencorajada pelo PCF e finalmente suprimida pelo governo, que acusou os comunistas de atentarem contra a Quinta República Francesa... A situação foi de tal forma grave que o chefe do governo gaulista teve de refugiar-se numa base aérea na Alemanha... Da mesma forma como surgiu de modo efervescente e rápido também se dissipou a revolução com o regresso dos operários ao trabalho, seguindo as orientações da CGT e do PCF... Após as eleições no mês de junho seguinte o partido do governo emergiu ainda mais poderoso do que antes.
* Dizem as análises ao ‘maio de 68’ que os saudosistas desta revolução veem nele um momento memorável na história da liberdade e dos direitos humanos. O símbolo unificador dos protestos foi ‘O Livro Vermelho’ de Mao Tsé-Tung e sua inspiração imediata a ‘revolução cultural chinesa’, iniciada dois anos.

* Alguns filósofos e historiadores afirmaram que o evento do ‘maio de 68’ foi um dos mais importantes e significativos do século XX, porque não se deveu a uma camada restrita da população, como trabalhadores e camponeses – que eram maioria – mas a uma insurreição popular que superou barreiras étnicas, culturais, de idade e de classe.

* A maioria dos apelidados de insurretos era adepta de ideias esquerdistas, comunistas ou anarquistas. Muitos viam os eventos como uma oportunidade para sacudir os valores da “velha sociedade”, contrapondo ideias diferentes sobre a educação, a sexualidade e o prazer. Entre eles, uma pequena minoria, professava ideias de direita... 

= Aquilo que começou por ser uma revolta estudantil, mas que se estendeu a toda a sociedade francesa, teve outras ramificações culturais em muitos outros países e quadrantes sociais… Guerra do Vietname, primavera de Praga, clima de ‘guerra fria’ entre blocos de leste e do ocidente, movimentos independentistas sobretudo na África pós-colonial, convulsões (de direita ou de esquerda) na América Latina, lutas pelos direitos dos negros na América (com o assassinato de Luther King em abril de 68), atentados e grupos terroristas na Europa e fora dela… à mistura com algum crescimento da economia e um certo bem-estar social que despontava com os primeiros passos daquilo que haveria de ser a União Europeia…

Não podemos esquecer que a expressão – ‘é proibido proibir’ – foi cunhada pelo primeiro-ministro do tempo até para justificar a reversão de medidas que tinham sido decretadas e reabrir a universidade…

Neste contexto social e histórico vemos e vivemos sinais de mudança até mesmo na Igreja católica, que estava a viver o rescaldo do Concílio Vaticano II com todas as consequências que advirão da reflexão feita por bispos, teólogos e outros intervenientes na vida mais eclesiástica do que pública.  

= E agora, meio século depois da revolução de ‘maio de 68’, que ficou daqueles que foram paladinos duma certa liberdade, por vezes, tornada libertinagem? Os filhos deles, que nada fizeram – mesmo no Portugal anterior à revolução de 74 – para não terem guerra, não andarão a entreterem-se com minudências e tricas de Alecrim e manjerona? Os descendentes dos assaltantes a navios são agora os fazedores duma certa justiça na legislação habitacional? Há genes que não enganam nem tendências que não são recauchutáveis!

Agora vivemos na era do ‘faço o que me apetece’ e quando me apetecer. Os ideais têm vindo a nivelar-se mais pelos pés do que pela cabeça, seja na estatura, seja na inteligência…Quem quer aprender?

Proibir já não resulta, mas deixar correr sem nada dizer, será ainda pior. Quem ousa pensar…no facebook?    

 

António Sílvio Couto  



quarta-feira, 25 de abril de 2018

8 galinhas e dois galos…


Na complexidade de informações que vamos recebendo, atendendo às diversas fontes e tentando digeri-las, ouvi, por estes dias, uma ‘promessa eleitoral’ de alguém, que não posso nem devo revelar quem é, sobre uma questão, de per si quase tão inócua e que mais parece um episódio anedótico doutras latitudes e noutras circunstâncias: dar aos cidadãos/eleitores oito galinhas e dois galos como forma de viverem a autopromoção rural e numa espécie de ‘política’ de sustentabilidade familiar…para uns de imediato ou para outros a mais longo prazo…

Desde longa data que se quis que as famílias pudessem sobreviver o mais possível com os seus meios, criados por elas mesmas ou sendo-lhes dadas condições de afirmação com meios próprios ou auxiliadas por outros. Quem não conhece verdadeiros heróis da sobrevivência por entre fragas e penedios. Quem não seria capaz de desfiar uma razoável lista de famílias que se destacaram pela combatividade de vida e de projetos. Quem não admirará famílias que dos parcos recursos fizeram medalhas de vitória… tantos em si mesmas como nos descendentes.

Quando o povo pode ser considerado ‘pequeno’ há quem se deseje substituir a esse mesmo povo, em muitos casos, usando-o como patrocinador das suas intenções. Quem não terá reparado nas artimanhas de tantas e tão diversificadas campanhas eleitorais, onde se pretende seduzir o povo menos bem esclarecido para que arrisque concordar e votar nos (mais) manipuladores programas, que só valem até ascenderem ao poder…pois, este tudo faz esquecer e parece tornar mais verdadeiros os candidatos…mesmo na mentira. 

= Se a promoção-campanha das ‘8 galinhas e dois galos’ pode soar a algo primário, outras iniciativas e declarações podem ser entendidas como mais rebuscadas, mas não menos atentatórias da inteligência, compreensão e sanidade dos visados… que somos todos nós. Vejamos alguns factos e as suas possíveis implicações:

 * É preciso aumentar a natalidade com o apoio da imigração – disse um responsável partidário na sua moção para a reunião magna do partido, a decorrer em breve. Mas não foram estes mesmos que andaram a criar condições para o aborto – até como tática de controle da natalidade – desde há vinte anos (o primeiro referendo ao tema foi em 1998)…e que agora querem que haja mais crianças para equilibrar o fosso demográfico? Quem só pensa depois do mal feito, talvez não seja digno da confiança que nele os eleitores depositam… Saber governar é, antes de tudo, intuir ainda antes de acontecer. De remendos esfarrapados estamos todos cheios, pois alguns deles são muito piores do que o original…  

* ‘Quando daqui a seis anos ao comemorarmos os 50 anos do 25 de abril poderemos dizer que eliminámos todas as situações de carência habitacional’…Talvez soe a mais uma meta audaciosa, mas inquinada no conteúdo e na forma, pois, são os mesmos que fazem tais declarações que querem ‘nacionalizar’ os edifícios de particulares degradados, mas não cuidam dos que lhes estão sob a sua responsabilidade nem dos afins seus correligionários…autarquias e propriedades estatais! Quem já viu tantos enunciados de intenções noutros campos, situações e desejos bem depressa verá tais objetivos caírem por terra, não dando crédito a mais esta intenção com sabor estatizante e quase leninista… 

* ‘Um país só pode avançar se a corrupção for banida’ – disse um dos militares da revolução de abril de 74, quando fazia o balanço dos tempos desde então até hoje decorridos – e continuou: os culpados da corrupção devem ser punidos não só judicialmente mas também nas urnas. Porque será que certas figuras só aparecem por ocasião das festas e dizem coisas tão óbvias, mas desde que os atingidos não sejam da sua coloração… Com tantos e tão variados casos de corrupção – na economia, na política, nas finanças e quase na dimensão cultural – será de levar a sério tão auspicioso prognóstico? 

= Verdadeiramente faltam homens e mulheres com capacidade de liderança, que saibam pensar nos outros e não nos seus meros interesses e ganhos. Se não formos capazes de mudar, iremos em breve cair no fosso…

 

António Sílvio Couto  


terça-feira, 24 de abril de 2018

‘Romaria a cavalo’: devoção, convívio e promoção (*)…


Como vem sendo habitual, na última semana de abril, uma ‘romaria a cavalo’ – este ano na sua décima oitava edição – liga a igreja paroquial da Moita, sob a invocação de Nossa Senhora da Boa Viagem ao santuário de Nossa Senhora de Aires, em Viana do Alentejo: durante quatro dias são percorridos cerca de cento e cinquenta quilómetros por entre campos e povoações, cavalgando ao ritmo do tempo e segundo a condição dos montadores…

Dezenas de cavalos perfilam-se à hora da bênção, não faltando as autoridades autárquicas e os promotores do evento, de um e do outro lado, da partida e da chegada… Como acontecimento inserido no âmbito religioso, também os responsáveis eclesiais se aprontam a dar uma espécie de bênção à cerimónia…

Resultado dalgum empenho mais especial, por vezes, os órgãos de comunicação social fazem diretos e tentam escolher um ângulo que lhes seja favorável na intenção e nos resultados.

- Este ano parece que há mais montadas – dizia Juvenal, um velho cavaleiro, que tomou parte nas primeiras edições da ‘romaria’, mas por agora se sente desmotivado com certas coisas que foi vendo e vivendo…

- É verdade vem muita gente de fora e a ‘romaria’ está a crescer – ripostou Maria, também ela foi de ‘romaria’ algumas vezes, mas agora já não se sente com forças para tantos dias de trajeto… vai, quando pode à chegada ao santuário de Aires…Pena é que haja excesso dalguns…Não era preciso tanta coisa fora do convívio…

- Talvez seja necessário parar um pouco para ver se estamos a fazer tudo de forma correta e sem nos desviarmos do essencial…

- Pois, nisto que envolve muitas pessoas pode acontecer de haver desvios ou até aproveitamentos de quem não tem nada a ver com a iniciativa…

De facto, charretes, cavalos mais ou menos alindados, cavaleiros e amazonas, muitos deles vestidos com fatos de gala, crianças e mais velhos fazem desta ‘romaria a cavalo’ uma pequena festa duma das vertentes mais típicas das gentes da Moita: a arte de cavalgar e a riqueza dum povo que tem orgulho das suas raízes e faz deste acontecimento como que um dos seus estandartes de afirmação social, cultural e económica…

 

(*) Extraído da folha dominical da Paróquia da Moita, ‘No dia do Senhor’ n.º 399 de 22 de abril de 2018

 

António Sílvio Couto