Partilha de perspectivas... tanto quanto atualizadas.



segunda-feira, 9 de abril de 2018

As ‘nossas’ guerras perdidas…


Ao longo da nossa história nacional – de quase novecentos anos – houve épocas de batalhas e de guerras que foram importantes e essenciais para a nossa identidade, mas também houve guerras onde, ao termos entrado nelas, quase marcamos a nossa condição de derrotados…

No século XX houve dois momentos de ‘guerra’ em que tal faceta foi assaz notória, senão mesmo cáustica para a nossa ‘personalidade coletiva’. Referimo-nos à presença lusitana na primeira guerra mundial (1914-1918) e à apelidada ‘guerra colonial’ (1961-1974) nas antigas províncias ultramarinas, sobretudo, em Angola, Guiné-Bissau e Moçambique… Em ambas as ‘guerras’, para além de bastantes mortos, deixamos um rasto de ‘soldado desconhecido’, essa entidade de quem não se sabe o nome, mas cuja perda se tornou, de muitos e variados modos, irreparável…e não será com monumentos ou com chamas a crepitar em maré de homenagem que narcotizaremos a nossa consciência coletiva.  

* A presença dos militares portugueses na I guerra mundial (1914-1918) é um dos atos mais fatídicos e irracionais do nosso ‘eu coletivo’. Segundo dados dos meios castrenses houve mais de cinquenta mil homens que integraram o designado ‘corpo expedicionário português’, em França, acrescentando-se ainda mais outros cinquenta mil para a frente de defesa dos ataques em África aos territórios coloniais.

Quais as razões para a participação ‘oferecida’ nesta beligerância, nós, um país periférico? Três breves razões: deveres para com a aliança britânica, defesa do território ultramarino e posicionamento internacional após o conflito…

Porque avançamos para a contenda? Numa tentativa da consolidação da república – desencadeada anos antes – e cujo principal apoio (ideológico) vinha, sobretudo, da França…

Qual a população portuguesa ao tempo da I guerra mundial? Éramos cerca de seis milhões, vivendo 80% nas zonas rurais, e, desses outros vinte por cento de citadinos, metade dessa população estava nas cidades (regiões) de Lisboa e do Porto. De referir que a mobilização para o conflito – europeu ou africano – trouxe grandes tribulações sociais, económicas e até culturais.

O momento mais fatídico da I guerra mundial para os militares portugueses deu-se, em La Lys (na Flandres – região ribeira e lamacenta), a 9 de abril de 1918: sob ordens dos britânicos, os lusos estimavam serem substituídos nas trincheiras – esse conceito marcante desta guerra, sobretudo, em França – por esses dias, mas quatro divisões alemãs atacam os quase ‘desmobilizados’, desmotivados e desgovernados portugueses…sendo mortos mais de seis centenas e feitos prisioneiros mais de seis mil…

Decorridos cem anos não sei se aprendemos a lição, pois continuamos a comportar-nos como se fossemos capazes de vencer tudo e todos, quando nem nos conseguimos dominar-nos a nós mesmos. Continuamos a sentir-nos senhores de grandes feitos, empolados aos nossos olhos, mas que ninguém leva a sério, pois fazemos figura de pretensiosos sem estofo de heróis…e nem a sublimação de certos dirigentes nos deveria enganar, ontem como hoje!  

* Da outra ‘guerra’ que perdemos, a ‘colonial’, ainda não foi feito o distanciamento capaz. Bastará olhar para alguma leitura enviesada com que certos programas televisivos – alguns pagos com dinheiros estatais – e colocados na boca de historiadores marxistas-trotskistas, que conseguem dar a sua leitura dialética da história, quando há muitas outras formas de fazer a história, que não só a deles…

Os números desta mais uma vez guerra perdida ou mesmo sem sentido: envolveu cento e cinquenta mil militares do lado português e mais de cinquenta mil operacionais nas ‘forças de libertação’. Os resultados foram: do lado português – cerca de nove mil mortos (à média de 630 por ano, o que dá cerca de dois mortos por dia…nos treze anos de conflito), mais de quinze mil deficientes físicos e psicológicos; do outro lado – os dados são complexos, pois envolvem operacionais e populações, podendo atingir mais de cem mil pessoas.

Que deixámos depois desta guerra inglória e traumatizante, até para as famílias? Deixámos países ingovernáveis, entregues a ditaduras – até hoje! – seguindo nexos de causalidade duvidosos, sustidos e sustendo ideologias ultrapassadas no tempo, na história e na memória!    

 

António Sílvio Couto  


sábado, 7 de abril de 2018

Pagamento estatal das ‘artes’


Eis que, de repente, aquilo que era designado de ‘cultura’ foi revertido em ‘artes’, tornando-se a discussão em volta do modo como o Estado/governo deve pagar a uns tantos/as ‘artistas’ com dinheiros públicos…à luz, sabe-se lá, se do mérito, se do compadrio ou se sob a influência duma certa ideologia que se acha no direito de viver dependurada nos serviços estatais… 

= Uma nota ‘artística’ explicativa.

Somos um país relativamente pequeno, mas cujos termos não têm a mesma significação se usados a norte, se na capital e arredores.

Assim um trabalhador das obras da construção civil, na sua categoria com estatuto, é chamado de ‘pedreiro’, na zona de Lisboa e de ‘trolha’, na região norte. Com efeito, pedreiro nesta zona do país é quem trabalha a pedra, normalmente cortando-a da pedreira e até assentando-a no terreno. Por seu turno, chamar de ‘pintor’ no norte corresponde ao estucador da região lisboeta, que pode englobar várias etapas e categorias… E, se for de grande especialidade toma a designação de artista, na região norte, denotando que não é um pintor qualquer, antes se distingue pelas obras já realizadas…em paredes, casas e tetos, com a subtileza de artista. Ora, na capital e arredores, ‘artista’ lida com outras matérias e faz da sua ‘arte’ um desempenho bem mais subtil e ‘cultural’…

A riqueza conotativa da nossa língua coloca-nos perante a necessidade de sabermos onde nos encontramos ao falar e a quem nos dirigimos como recetores da nossa comunicação…

Assim, ‘artista’ tem tantos significados e poderá acontecer que os sinónimos não nos interessem todos! 

= A mudança – agora é mais comum dizer ‘reversão’ – da aplicação de ‘artes’ em vez de ‘cultura’ é, certamente, mais do que uma subtileza de linguagem. Talvez, assim, sejam incluídas companhias e estruturas teatrais, figuras e atores, áreas e vetores duma sociedade que precisa de se alimentada com os dinheiros do Estado/governo, seja qual for a sua qualidade de intervenção cultural.

Não há dúvida de que temos pessoas que se prepararam para atuar em palco, só que este nem sempre está disponível para tantos/as artistas. A lista de artistas é longa e prolixa, mas nem todos/as têm a mesma qualidade, antes se vão desenrolando muitos outros aspetos de sucesso, por vezes, ancorado no espaço televisivo e como que vivendo em circuito fechado outras reivindicações artísticas em maré de crise…

A mais grave emergência dos protestos e com os artistas protestantes organizados, foi a consonância partidária/ideológica de formas marxistas, trotskistas e idealistas sociais… Quatro décadas depois da revolução de abril ainda se nota um proeminente complexo de esquerda que tenta promover os seus e os faz ganhar visibilidade, pela simples razão que querem mais dinheiro, embora sem olhar a meios, criando à sua volta um ambiente de artistas que se fazem ouvir e exigem mais umas centenas/milhares de euros despejados sobre quem os queria poupar antes, mas agora faz o discurso reivindicativo e quer colher boa fatia do bolo dos dinheiros públicos…  

= Cultura ou artistas, qual dos vetores é mais importante? Ao nível estatal vai-se tentando ludibriar os mais desatentos, pois com tanto sucesso de execução orçamental que são uns míseros vinte e cinco milhões de euros para pacificar as hostes? Mais uma vez o aforismo latino – ‘pão e jogos’ – tem lugar na vida e no trato com as questões essenciais da vida. Porque haveríamos de não satisfazer quem deseja mais dinheiro? Porque teríamos de fazer contas de mercearia, se as tabelas de excel fazem a distribuição das pretensões mais ou menos bem-sucedidas nas contas agora e por mais quatro anos?

Enquanto os artistas e os fazedores de cultura continuarem a ser a voz do dono e, sobretudo, do patrocinador, quem duvidará que outros setores vão sair à rua para reclamar os seus intentos. Assim o país voltará a afundar-se…não é preciso ser adivinho, bastará não querer enganar-se nem voltar a ser enganado…   

 

António Sílvio Couto



sexta-feira, 6 de abril de 2018

Cultura sob alçada do Estado?


Por estes dias saíram a terreiro algumas das associações que não foram contempladas pelo bolo dos subsídios do Estado, através da ‘longa manus’ do governo…à cultura. Umas foram atendidas e outras preteridas; umas foram bafejadas pela sorte do poder e outras excluídas da fatia de sobrevivência; umas sentiam-se agora mais próximas da fornalha onde se cozinha a ideologia, outras não tiveram a maquia que tanta falta faz para manter o sistema a funcionar; umas dizem que poderão desaparecer, outras intentarão encontrar outros parceiros, adiando essa eutanásia…social e cultural.

 

= Desde logo será um tanto útil tentarmos encontrar uma definição de cultura: ‘todo aquele complexo que inclui o conhecimento, as crenças, a arte, a moral, a lei, os costumes e todos os outros hábitos e capacidades adquiridos pelo homem como membro da sociedade’. Eis uma citação descritiva dum autor brasileiro, Edward B. Tylor, referido na wikipédia… Segundo esta mesma fonte ‘cultura’ é também associada normalmente às formas de manifestação artística e/ou técnica da humanidade… Por ser fortemente associada ao conceito de civilização, no século XVIII, a cultura, muitas vezes, se confundiu com noções de desenvolvimento, de educação, de bons costumes, de etiqueta e de comportamentos de elite…

Atendendo a esta diversidade de interpretações de ‘cultura’ talvez seja um tanto ousado e redutor entender cultura como certos fenómenos de índole elitista, contrapondo ‘cultura erudita’ a ‘cultura popular’, fazendo valer aquela em detrimento desta, só porque aqueles se acham no direito de serem cultos (instruídos e em nível pretensamente superior) e os outros conotados com incultos…e consumidores dessa tal cultura! 

= Se tivermos em conta o organigrama do atual governo veremos que o setor da (dita) cultura tem estatuto de ministério. Embora tenha andado um pouco aos solavancos – desde a sua primeira criação em 1983, no nono governo constitucional – entre secretaria de estado ou ministério, sendo ainda incluído tanto na área da educação como sob a tutela da presidência do conselho de ministros…Sob o longo manto de tutelagem, a ‘cultura’ abrange desde pessoas e instituições até edifícios e arquivos, passando pelo teatro, a música, o audiovisual, a comunicação social (clássica ou mais atual), os direitos de autor, a dança, a literatura e múltiplas artes…

Por entre tantas e tão díspares dimensões culturais sobram as necessidades para que uns outros possam ganhar a vida fazendo disso cultura, ou pior, dando a entender que a cultura parece que se faz de mão estendida e ao sabor de quem tem a possibilidade de atribuir subsídios e/ou de criar pendurados nos dinheiros do Estado, desde que possam apresentar algo apelidado de cultural…

É neste item que algo se complica: não podemos continuar a alimentar subsídio-dependentes, mesmo que possuidores duma instrução superior – conservatório, escola de artes, no cinema, na comunicação social, etc. – mas que vivem dependurados no Estado, qual patrão de ‘artistas’ e como que aprisionador da criatividade, quando tantos outros campos procuram desenvolver as suas atividades sem estarem em contínua dependência dos dinheiros públicos sem retorno no investimento…O mérito vale muito mais do que tantos espetáculos de fraca qualidade, como temos visto, ouvido e lido! 

= Em jeito de questionamento deixamos breves inquietações:

* Quando vemos serem atores de cultura os que são, preferencialmente, anticristãos como que sentimos um misto de revolta e de comiseração: como é possível promover quem está contra quem foi (e é) um dos fautores da cultura...sobretudo europeia e de cariz ocidental?  

* Efetivamente, os maiores paladinos da (pretensa) cultura foram (ou têm sido) os que vão denegrindo, de forma tácita ou mais ostensiva, os valores culturais de incidência cristã. Seja qual for o campo de expressão cultural/artística – musical, literária, cinéfila, etc. – parece que só será bem-sucedido se combater, preferencialmente, os valores de matriz cristã…

* Até onde irá a propaganda anticristã para excluir os crentes e favorecer os tendencialmente descrentes, agnósticos e ateus?

 

António Sílvio Couto


quinta-feira, 5 de abril de 2018

Celebrar a Páscoa ou viver em Páscoa?


De entre tantas questões que nos podem ser colocadas esta poderá não ser tão displicente quanto se possa considerar: celebramos a Páscoa (como uma data) ou vivemos a Páscoa (como atitude consciente, esclarecida e comprometida) na vida?

* Sobre o primeiro aspeto bastará consultar o calendário e ficaremos a saber que a ‘Páscoa’ se celebra no domingo seguinte à primeira lua cheia do equinócio da primavera (no hemisfério norte), podendo ocorrer entre 22 de março e 25 de abril…como datas extremas. Logo a data da Páscoa está ligada, no hemisfério norte, ao ressurgir da vida na natureza e, possivelmente, na dimensão espiritual – no nosso contexto – de índole cristã. Dada a centralidade desta data, assim, se calculam outros momentos celebrativos e até de natureza ou incidência mais mundana e social, como o carnaval (antes) e o Pentecostes (depois) da data da Páscoa…

* Sobre o segundo aspeto – viver a Páscoa – isso coloca-nos outros ingredientes que nos interessam tocar, refletir e aprofundar. Com efeito, nós vivemos tudo – os tempos litúrgicos e a sua preparação, as festas humanas, sociais e culturais – inseridos num tempo pascal, isto é, estamos em Páscoa desde que ela aconteceu com a Ressurreição de Jesus. Nada escapa a este fundo de vivência e tudo o que possa fazer-nos parecer que não é assim soará a confusão e/ou a falta de verdadeiro sentido pascal cristão.  

= Mesmo que, de forma breve, deixamos algumas questões atinentes à celebração da Páscoa mais na vertente social e cultural, bem como outras inquietações sobre certos ‘modos e ritos’ da época da Páscoa, mas que de pascais têm (ou parecem ter) muito pouco e, então, de cristãos quase nem resquícios daquilo que lhes deu origem. Será que a Páscoa se reduz a certos ritmos gastronómicos, mesmo sem lhes sabermos a sua origem e qual o conteúdo? Não será que alguns dos atos celebrativos (procissões e outros momentos extra-templos) revelam mais um certo verniz cristão, mas pouco conhecimento da razão de ser dos mesmos? Mesmo que já tenha terminados o tempo da cristandade, não continuámos com certos tiques de religião social, senão na teoria, ao menos na prática? Nalgumas regiões a dita ‘visita pascal’ ou o ‘compasso’ não refletirá mais uma festa nem sempre preenchida de sentido cristão e de alegria verdadeira? Não haverá muita alegria sem miolo? Não se andará a fazer festa, ignorando ou esquecendo O festejado? 

= Atendendo ao que motiva esta reflexão é de grande relevância ter em conta que tudo quanto a Igreja católica festeja o faz em contexto de tempo da Páscoa. Embora haja um designado ‘tempo pascal’, que decorre entre o domingo de Páscoa e o Pentecostes, isso acontece em tempo de Páscoa que não mais acaba. Todos os outros momentos religiosos, como Natal e a sua preparação pelo Advento, a Páscoa e a preparação na Quaresma, bem como o resto dos domingos do Tempo Comum, solenidades e festas de Nossa Senhora e de Santos/as, são vividos numa Páscoa de contínua vivência.

Dá a impressão que a celebração de certos rituais religiosos estão ser vividos como se fossem historicamente reproduzíveis no tempo e no espaço. Não mais há nem haverá tempo de Natal nem da Páscoa, esses já aconteceram na história – com tempos e espaços definidos – e são irrepetíveis. Agora temos de saber vivê-los com espírito de Páscoa, perscrutando o sentido de cada um deles na época do ano civil, religioso, cultural ou emocional. Se assim for muitos dos sinais e das caraterizações com que vivemos cada um desses tempos, sobretudo tendo em conta a pressão económica e de consumo, poderão ganhar um sentido relativo – isto é, relativizando-o e não se deixando absorver pela sua materialização – àquilo que deve despertar em nós cada uma dessas etapas do nosso tempo de caminhada terrena. Também haverá sempre novidade em cada um desses tempos, pois não estamos a repetir o que foi já vivido em anos transatos, mas cada momento terá uma graça especial e far-nos-á estar em contínua aferição à sua vivência: nenhum momento será igual aos anteriores, até porque temos idade e experiência humana entretanto adquiridas…

A Páscoa deste ano é irrepetível e está inserida na única Páscoa que dá sentido a todas as outras, a de Jesus Cristo que quer se acolhido como Ressuscitado na minha vida pessoal, na família e na Igreja!      

 

António Sílvio Couto  



terça-feira, 27 de março de 2018

Entregue por nós…


A atitude dum polícia francês, que se ofereceu em troca por uma refém num assalto terrorista, fez dele um herói nacional…até porque pagou com a própria vida tal façanha no dia seguinte.

Este episódio aconteceu ao início da Semana Santa em que contemplamos, meditamos e rezamos o processo da paixão-morte-ressurreição de Jesus, isto é, o seu mistério pascal.

Neste contexto sócio-religioso tentemos refletir sobre a ação admirada e louvável do polícia francês e o que isso pode/deve colocar-nos em máxima gratidão, em imenso louvor, em intensa intercessão e em humilde petição.  

* O polícia francês fez o que fez porque foi treinado para estar ao serviço das populações e no combate ao terrorismo… Ainda há cerca de dois meses tinha feito com seus outros companheiros um exercício de simulação. Talvez bem mais depressa do que seria expetável teve de passar da teoria à prática: agora enfrentando um ato terrorista bastante mortífero, onde a maior parte das vítimas não tinham nada a ver com as pretensões do autor. O polícia entrou em cena para tentar minorar os efeitos, mas pagou as consequências com a vida… Admirar é, possivelmente, o menos que podemos considerar, sentir e viver.

Certamente que a refém substituída ficará eternamente grata para com aquele polícia. Também a família dela viverá para sempre reconhecida pelo gesto tão altruísta do polícia. Todos quantos tenham tomado conhecimento desta façanha admirarão quem tal protagonizou e até os menos sensíveis à autoridade ficarão com algum sabor de confusão, pois nem todos os polícias são rudes e autoritários…  

* Estamos em contexto da Semana Santa em vias da celebração da Páscoa. Ora, é, neste tempo litúrgico-eclesial, que somos chamados a viver a máxima entrega de Jesus por nós: escutamos os relatos da Sua Paixão, somos confrontados com a dádiva da Sua vida – iniciada mais proximamente com a ‘última ceia’ e levada ao extremo na sua morte na cruz – e em cada palavra, em cada gesto e em cada vivência se perpassa isso que no policial francês foi circunstancial, mas que, para os cristãos, é universal, intenso e pessoal.

– Jesus não só pagou por nós a dívida que tínhamos para com Deus por causa do nosso pecado, mas viveu em amor e por amor a sua total e absoluta entrega para que todos tenhamos a vida nova da graça e da misericórdia divinas. Isto nos leva a viver em gratidão pelo modo como Jesus se fez pecado por nós e, sobretudo, como nos amou quando ainda éramos pecadores. Cada um de nós valeu o sangue de Jesus e não só uma gota – tal bastaria – mas todo o seu sangue derramado por cada um de nós e por nós todos. Isso nos coloca a todos e não só de forma individual em ação de graças: é na eucaristia que vivemos esta vertente de gratidão por excelência. Enquanto não formos capazes de estar nesta atitude, a própria missa poderá ser tudo menos o essencial.

– Ao polícia francês vão conceder um louvor e uma condecoração pelos feitos prestados. Ora, nós, católicos, louvamos a Deus por tudo quanto Ele nos concede – aqui é o presente que está em ato – cada vez que celebramos a dádiva do amor de Jesus entregue, na fórmula da consagração do pão e do vinho como corpo e sangue de Cristo…entregue/derramado por nós… Será preciso maior outro feito para vivermos em louvor permanente por Jesus, com Jesus e em Jesus?

– Deu para perceber que o polícia francês pensou mais na refém do que nele mesmo: intercedeu para que fosse poupada a vida duma cidadã pela imolação da vida dum polícia. Por excelência Jesus fez isto na sua paixão-morte: deu-se de forma gratuita pelos pecadores para tivessem (tenhamos) a vida…em plenitude. Ter em conta os outros sempre foi marca do ser cristão. Será que o vivemos com um mínimo de consciência?

– Ao avançar para aquele ato de bravura, o polícia francês deixou de pensar em si, embora tenha sido treinado para estar ao serviço dos outros. A disponibilidade para se colocar no final da lista de preferência talvez não seja o que hoje caraterize a maior parte das pessoas. Pedir por si mesmo foi aspeto que não ocupou muito a vida de Jesus, no entanto, Ele sentiu, como ninguém, a atrocidade da sua paixão, clamando a Deus-Pai que não O abandonasse. Nas horas de dificuldade confiamos, mesmo, em Deus e na Sua vontade?

Que o episódio do polícia francês possa motivarmos a vivermos melhor a Semana Santa deste ano!   

 

António Sílvio Couto



segunda-feira, 26 de março de 2018

‘Encenação’ da limpeza das matas & afins


As imagens eram quase ridículas: o PR e o PM andavam a fazer-de-conta que limpavam terrenos em volta das casas… as roupas/indumentária não condizia com o terreno que pisavam e esqueceram-se de colocar no guião que era para tirar a gravata e nem calçado não condizia com o terreno que pisavam… pareciam dois ‘patos bravos’ (com os respetivos acompanhantes) a tentar chafurdar em águas fora-de-pé…

Dos desafiados a entrarem na dança só uns poucos, que nem tinham a categoria de tantos…embora o cenário tenha sido aprimorado para as televisões, excluindo os que não eram da mesma cor ou sem simpatia pela façanha. Com efeito, onde estiveram os deputados da maioria da geringonça? Não quiseram fazer parte do espetáculo ou não concordaram com mais este número quase-circense? Para além dalguns ténues e parcos ministros, por onde andaram os secretários de estado: isso é tarefa menos válida para as suas funções?

Este ato foi, de facto e de verdade, uma ação de propaganda para algum citadino menos ruralizado engolir, mesmo que sob reserva. Por artes do quê tinham de ser mostrados (tantos) militares nesta ação? Foi para limpar as trapalhadas de Tancos e afins? Se isto era uma ação cívica, porque tiveram esses tais militares e outros intervenientes, dois dias de folga após o tempo de encenação? A quem pretendem enganar? Com tanta manipulação torna-se quase natural – se ainda tivermos tempo de reflexão – que se gere uma certa repulsa e veemente condenação pelo uso de bens do erário público em favor dos interesses privados/ideológicos/partidários… 

= Não deixa de ser sintomático que nos derradeiros fogos – já no mês de fevereiro – tenha sido notícia um concelho, que menos de duas semanas antes tinha sido apresentado como modelo do combate a incêndios. O autarca é da cor do governo e tem pretensões a ser alguém no espetro nacional, mas esta incongruência ainda lhe deixará espaço às suas pretensões? As imagens mostravam fogo em redor da autoestrada, enquanto a chuva que caía não conseguia suster o incêndio. O que falhou: as palavras ou os atos? Aquele espetáculo no Alto Minho revela muito daquilo a que temos vindo a assistir no nosso país: palavras um tanto sedutoras, mas contraditas na prática…boas intenções propagandeadas até à exaustão, mas desmentidas quando são avaliados a sério os acontecimentos! 

= E, de repente, o país começou a olhar para a floresta, a limpar os terrenos em volta das casas e, sobretudo, a dar consciência a uma imensa maioria de que o tema dos incêndios é mais sério do que se julga, trazendo para a praça pública o que antes não passava duma ruralidade mal-assumida! Isso será um tema essencial para a política de todos e não só dos que labutam no campo, dos que têm fortunas em árvores, mas que não passam dum património esquecido e envelhecido…

Como se costuma dizer na linguagem popular: mais vale uma mão inchada do que uma enxada na mão! Efetivamente muitos dos nossos responsáveis viveram, por ocasião do tal dia de limpeza das florestas, um tanto a preceito este trocadilho, na medida em que foram mais figurantes duma representação cénica do que participantes numa ação coletiva de bem-fazer…

Este episódio da limpeza das matas pode ser tomado como algo simbólico duma certa forma de fazer política à portuguesa: monta-se o espetáculo e depois tenta-se ver como resulta. Se não houver vozes discordantes, tal resultou em favor de quem se fez assim usar. Se se verificar alguma discordância encolhe-se o cantar de vitória, esperando outro tempo e talvez outra oportunidade – aproveitando as distrações com outros factos mais populares – para lançar novo recurso de propaganda e de intoxicação dos mais incautos ou crédulos…do sucesso em curso!

 

= Dá a impressão que precisamos de gente mais séria e leal na arte de estar ao serviço dos outros. Precisamos duma comunicação social mais exigente e crítica das manhas do poder. Precisamos de pessoas que pensem pela sua cabeça e não se deixem levar na onda do mais fácil e aparentemente convincente. Precisamos de não ter medo de incentivar que apareçam jovens mais atuantes segundo critérios duma ética do interesse dos outros em preferência aos seus egoísmos e facilidades…

 
António Sílvio Couto  



sexta-feira, 23 de março de 2018

Voando sobre um antro de morcegos


Ao ouvirmos e ao vermos as reações ‘oficiais’ e/ou oficiosas ao mais recente relatório sobre os fogos de outubro do ano passado parece que estamos perante um largo setor (político) que ainda não se apercebeu da sua responsabilidade naquela como na anterior tragédia de junho… Com efeito, não basta enrolar as palavras sem dizer nada de substantivo, antes quedando-se pelos adjetivos incoerentes, ignorantes e abusivos…Varrer para debaixo do tapete o que possa incomodar é, antes de tudo, uma espécie de negligência e de má conduta…ética (dita republicana), social e cultural.

Que importa dizer que se aceita as propostas do relatório para o pseudo-futuro, se não se assumem as culpas do passado? Será isto revelador dalguma esperteza de quem manda ou manifesta a cobertura dalguma comunicação social ao serviço do poder estabelecido, tolerado e desculpado?

Como se pode entender – com razoabilidade e um mínimo de sensatez – que se pretenda fazer-de-conta que nada se passou, quando morreram vítimas de incúria centenas de pessoas em fogos não devidamente combatidos e, ao que dizem os técnicos, sem meios adequados? Foi a cristalização de quatro anos de política florestal – do governo anterior – que conquistou tão altas façanhas de terror? Não haverá quem não pense sobre o que diz antes de dizer sem pensar ou devia saber dizer? Para quem ‘limpou’ das fotos os adversários, noutros regimes totalitários não são, afinal, esses que agora suportam a governação? A história não se repete, mas saber um pouco da sua filosofia faria bem a quem quer fazer crer na recriação abusiva dos factos e dos episódios… Se quem governa não tem culpa, porque aceita, então, pagar indemnizações tão chorudas a quem se apresentou como vítima e a seus familiares? 

= Muitos dos nossos ‘políticos’ – a colocação entre aspas quer tão-somente significar que esta designação é, por vezes, abusivamente dada a figuras que não têm o interesse comum, mas antes quase só o seu! – podem ser figurados pela simbologia dos morcegos…sem que quase nenhum tenha as caraterísticas do ‘batman’… defensor dos outros em aflição sob a forma de filantropia.

‘Morcego’ vem das palavras ‘mur’ (rato) e ‘cego’, isto é, rato-cego… Por isso, incluir certas figuras e figurões na classe dos morcegos será como que vê-los como ratos cegos, que, para além de voarem de noite, se alimentam à socapa, empestando os ambientes e dando-lhes um ar lúgubre e malcheiroso… 

= Ao observarmos a nossa vida coletiva – nas suas mais diversificadas expressões – dá a impressão que uma razoável maioria se comporta como os morcegos: veem por andarem no escuro e o seu olhar é de tal forma turvo que, colocando os óculos do interesse ideológico, religioso ou setorial, pouco mais conseguem enxergar do que aquilo onde se reveem em contentamento. De facto, falta inteligência para conseguir, ao menos de forma intelectual, compreender as coisas, as pessoas e os acontecimentos… Mas falta ainda discernimento capaz de saber medir, avaliar e ponderar o que é mais conveniente para todos e não só para os que lhe são próximos, correligionários e adeptos.

Não será com dirigentes-morcego que seremos capazes de descobrir novos líderes para os tempos futuros, pois se se vão adulando uns aos outros para terem lugar no pedestal, como encontraremos novas visões com alcance para além do perímetro do próprio corpo ou só com o alcance do seu quintal mal-amanhado? É urgente fomentar escolas de liderança onde seja premiado o mérito e não a mera confiança naqueles que dizem sim ao chefe…seja um autarca, um governante, um dirigente desportivo ou até um responsável dalguma estrutura eclesial… Dar responsabilidade, seja a quem for, implica riscos e não serão os meninos/as de corte que poderão gerar renovação, antes tentarão gerir a continuidade pela contenção… do ‘status quo’!

Os morcegos voam, mas nem sempre atingem grandes distâncias. Dizem que se se envencilharem nos cabelos será difícil de os tirar… Há por aí muitas cabeças onde os morcegos estão a fazer criação. Até quando? 

    
António Sílvio Couto