Partilha de perspectivas... tanto quanto atualizadas.



quarta-feira, 21 de março de 2018

Para não ser como um mocho!


Ao final da manhã, o vizinho estava a sair de casa para levar a passear, mesmo em cadeira de rodas e por entre alguma chuva, a mulher um tanto entrevada desde há meses… Este ritual é, nas palavras do marido, uma forma de ter contato com as outras pessoas, não sendo, na sua visão, alguém como o mocho, que viveria taciturno consigo mesmo e sem ligar aos demais…

Num tempo em que as pessoas se vão fechando – ou talvez mais encerrando – em si mesmas, sem olharem aos outros, esta perspetiva de sair de casa e de levar alguém ao contato com os outros é – ou devia ser – uma boa dose de abertura para com os mais próximos, podendo ser os vizinhos muito mais do que a presença dos familiares diretos…tão ‘ocupados’ andam com as suas vidas! 

= Como ave notívaga, o mocho encerra alguma simbólica ambígua, tanto podendo significar algo que tenha a ver com a sabedoria, a vigilância e a contemplação – aparece, por vezes, associado à representação da matemática – como ainda pode ser interpretado numa vertente mais sombria, associado a episódios portadores de más notícias, onde a morte seria um deles, e mesmo com um sentido algo exotérico relacionado com a bruxaria e afins…

Em certos contextos socioculturais a alusão ao mocho é algo mais alusivo ao prenúncio malévolo do que como portador de boas notícias…

Porque vive e anda de noite, a sua visão é associada a uma capacidade invulgar de ultrapassar as dificuldades e mesmo entendido como uma expressão de sabedoria acima da média…sobretudo humana. 

= Quando o tal vizinho utilizou o recurso de ‘não ser como o mocho’ talvez tenha pretendido fazer sair da escuridão e da penumbra em que tantas pessoas – ele dizia-o por experiência familiar – se escondem e refugiam, evitando o contato com os outros e podendo fecharem-se numa espécie de ensimesmamento…

Há, no entanto, uma outra possibilidade de valorização de ‘não ser como o mocho’, na medida em que as pessoas saindo da circulação como que podem entrar num processo de pré-morte, sendo relegadas para um espaço onde (quase) perdem a sua identidade e marginalizadas, mesmo que inconscientemente, abdicam de incomodarem os mais próximos e até os familiares… Todo este processo pode deixar marcas irremediáveis, sobretudo, se as pessoas que assim vivem, têm tendências para o isolamento e a autoexclusão…

Hoje há uma larga fatia da nossa população que vive isolada, passando uma boa parte do seu dia votada a uma espécie de abandono… Não basta tentar fazer sair essas pessoas de casa, se não forem valorizadas e atendidas às suas necessidades e potencialidades mais básicas e essenciais.    

= Vivemos efetivamente numa encruzilhada, onde a egolatria tem mais espaço e oportunidade do que a capacidade de repararmos no Cristo de braços abertos e de coração trespassado na Cruz. Esta deverá polarizar a nossa atenção nos dias que se aproximam… de semana santa e de Páscoa. Com efeito, quando andamos tanto a olhar para baixo – até parece que perdemos algo e tentamos encontrá-lo avidamente – tornar-se num grande desafio essa atitude de olharmos para o Alto e de vermos no Crucificado quem responde às nossas aspirações mais subtis e audaciosas. Enquanto não soubermos colocar o olhar na meta, andaremos a titubear por entre as quedas nas etapas…

Quem melhor do que Jesus para nos ensinar a percorrer o nosso caminho – nem sempre tão sacro quanto seria desejável – de cada dia e de toda a vida: n’Ele, por Ele e com Ele aprendemos a não ficarmos tropeçados nas quedas, mas, com a ajuda dos outros e ajudando-os também, haveremos de ser capazes de vivermos em abertura àqueles/as que Deus coloca no nosso caminho, confiando neles e sendo amparo uns para os outros.    

Desejamos para todos quantos nos possam ler que tenham um tempo de vivência do mistério pascal com serenidade e simplicidade, com ousadia e com harmonia, com fidelidade e espargindo a felicidade de acreditarmos em Cristo Jesus… O mocho foi entendido em certas épocas da cristandade como prefiguração de Cristo (Lc 1,79), como referência à capacidade de guiar as almas que estavam nas trevas…para a paz!

 

António Sílvio Couto  



quinta-feira, 15 de março de 2018

Pais helicóptero


‘Há uma sociedade do medo. São 'pais helicóptero', sempre a supervisionar a criança para que não coma terra, não tropece, não caia. O filho está sempre protegido, sobre mimado e há um momento em que se sente o rei e se equivoca. Ele é tão importante como os outros, mas não mais importante’.
Estas ideias são dum psicólogo espanhol, apresentadas num livro editado no nosso país, com um título sugestivo sobre a matéria: ‘O pequeno ditador cresceu’.
Na sua visão sobre os mais pequenos, esse psicólogo-terapeuta considera que, nos nossos países ocidentais/europeus, os pais querem ganhar o carinho dos filhos, mas deixam-se chantagear por eles.
Sobre critérios de educação o tal psicólogo acentua que os pais precisam de ter normas e hábitos básicos para com as crianças, aprendendo a serem contrariadas e a respeitar, não estragando, as coisas, nem deixando que maltratem ou desrespeitem outras crianças ou os adultos e tão pouco cedendo a caprichos impróprios de cada idade. Numa palavra: as crianças precisam de ouvir dizer ‘não’ e ser mantida essa decisão, pois dizer ‘sim’ a tudo poderá significar que não se ama devidamente.  

= Depois de tantas sugestões/críticas/opiniões pedagógicas, que andam por aí, sobre o modo como educar as crianças, a perspetiva deste psicólogo espanhol poderá e deverá fazer-nos refletir, tendo em conta tantos dos casos que envolvem crianças… Antes de mais será preciso assumir, perentoriamente, que a educação dos filhos está acometida como tarefa intransmissível aos pais, sendo preciso que estes se preparem (antes, durante e mesmo depois), cuidem e vivam a educação dos filhos como a sua principal missão e, nunca, por nunca, entregando essa função à escola e tão pouco ao abstrato do Estado… As exceções não podem continuar a criar a regra, como vemos nos nossos dias, onde as crianças e os adolescentes são como que nacionalizados pelas funções sociais do Estado e de quem o governa… A escola, prioritariamente, ministra conhecimentos, cultura e ensina, mas os pais devem ser sempre os educadores preferenciais…Inverter estes papéis será subverter a ordem natural e tudo quanto lhe está adstrito…tendo em conta a liberdade, a responsabilidade e todas as outras consequências humanas e sociais.

E nem as igrejas – tenham a proposta que tenham – podem substituir-se aos pais. O que podem e devem é dar-lhes princípios, adequar valores e criar sinergias com os pais para que tudo decorrera dentro do projeto da família como a célula da sociedade e a grande estruturadora da educação. Certas formas de educação religiosa enfermam de doenças de longo-prazo, ao quererem fazer aquilo que, em primeira mão, é tarefa dos pais: as (ditas) catequeses, na maior parte das vezes, não passam de tempos de entretenimento e de ocupação de tempos livres mais ou menos baratos, mas que desfocam a questão da educação na fé do essencial. Tem de ser proporcionado às várias famílias a educação na fé, mas sem nunca haver intromissão naquilo que é missão dos próprios pais, particularmente, se eles tiverem celebrado o matrimónio.  

= Não será que podemos considerar que quem está doente são os mais velhos, tantos pais como avós? Será que não teremos muitos pais e avós a precisarem de adquirir conhecimentos e critérios para o seu mínimo desempenho educativo? Não andaremos a fazer apostas erradas sobre o modo de conduzir os mais novos? Não haverá por aí muitos adultos com traumas de infância e que nunca os assumiram, antes vão tolerando nos filhos e netos o que acharam ter sido errado no seu processo educativo? À semelhança do que se dizia: pai impertinente torna o filho desobediente, não será que pai (ou mãe) muito tolerante e compreensivo pode fazer do filho (a) alguém exigente e ofensivo?

De facto, a educação é uma ciência e uma arte, preparar-se para ser pai/mãe-educadores exige tempo, preparação e, sobretudo, tornar essa tarefa uma arte bem cuidada para com cada filho ou filha, adequando-se aos tempos e às situações… e a idade também conta.

Tendo em conta aquilo que vamos vendo no dia-a-dia, muitos pais e mães – sem esquecer ainda os avós – não podem continuar a tratar os filhos/netos como menos-válidos – esta palavra na língua castelhana usa-se para os deficientes – levando-lhes o saco da escola e evitando que façam esforços…isso não ajuda a crescer! Proteger, sim; tutelagem e protecionismo, não!

 

António Sílvio Couto



quarta-feira, 14 de março de 2018

Ser feito ou tornar-se ‘bode expiatório’


Quando algo corre menos bem ou mal, há quem tente encontrar outrem que possa ser acusado das culpas, desviando, por vezes, a atenção dos verdadeiros culpados… Nem que seja por breves momentos, por engano ou por manipulação, esse tal ‘bode expiatório’ vai ser colocado na crista da onda, levando com os embates e as críticas, servindo de desculpa para os insucessos ou erros alheios e tornando-se ainda uma espécie de cortina de fumo, por trás da qual outros não assumirão as suas culpas nem tão pouco a culpabilização.

Em vários campos e em diversos momentos vemos surgirem uns certos bodes expiatórios, que mais não passam de disfarces para quem não se assume nas suas más ou incorretas opções, sobretudo quando está em causa a (pretensa) imagem ou a imagem que os outros possam ter de si…  

= Valerá a pena irmos à ideia original do que é o ‘bode expiatório’, enquanto conceito religioso e com implicações bem mais elevadas do que aquelas que, por vezes, levam a usar esta expressão na linguagem habitual…

A expressão ‘bode expiatório’ tem a sua origem no ritual judeu do livro do Levítico (Lv 16,7-10.20-22.26) em que Aarão, impondo as mãos sobre a cabeça de um bode, transmite para este animal todos os pecados do povo de Israel... dando-se assim a expiação/purificação dos pecados de todo o povo. Era o dia da grande expiação ou do grande perdão (’Yom kippur’). O dito ‘bode expiatório’ era levado para o deserto onde morreria e com essa morte todos ficavam libertos do pecado... ele por todos e em vez de cada um!

Na linguagem religiosa cristã, o sacrifício de Jesus Cristo é entendido em que Ele é muito mais do que o ‘bode expiatório’, Ele assumiu a nossa condição humana e, pelo sacrifício da Cruz, venceu o pecado, fazendo-se ele mesmo pecado, e aceitou a morte, pela sua vitória na ressurreição. 

= Na correria da nossa vida e por entre tantas situações – desde o âmbito mais simples e pequeno até ao alcance mais complexo e alargado – poderemos identificar algumas criações de ‘bode expiatório’, como desculpas ou ainda como interpretações pessoais e/ou alheias:

* quando falha o plano dum jogo e se quer aduzir que a culpa é do árbitro ou dos que não deram cobertura às pretensões desejadas;

* quando a derrota diz mais da qualidade do que os sucessos sem contraditório;

* quando a incapacidade de fazer melhor tenta esconder-se para que não se descubra a incompetência e a vulgaridade;

* quando se notam tantos indícios de cansaço, onde deveria haver entusiasmo e força de comunicação;

* quando se ataca quem faz, escondendo quem se acobarda e prefere a maledicência;

* quando se pretende ajustar a educação aos projetos ideológicos mais subterrâneos do que às pessoas ávidas de cultura;

* quando uns tantos apresentam as mãos limpas não de impunidade, mas de inoperância;

* quando se organizam sessões/celebrações rituais para camuflar a falta de compromisso com uma fé esclarecida e dinâmica;

* quando se pretende impor um ritmo de confronto em vez duma atitude de consolo;

* quando se faz dos outros objetos em vez de serem sujeitos com alma e com espírito dinamizador… 

= Ser feito ou fazer-se ‘bode expiatório’ poderá ser uma questão urgente, pois num ou noutro caso estão subjacentes atitudes de vida que podem torná-la com outro significado. Com efeito, ser feito bode expiatório é algo que poderá carregar uma pressão social nem sempre adequada ao contexto das questões em causa. Como referimos há bodes expiatórios que são feitos como substituição de erros duns tantos para com outros, particularmente mais frágeis ou mesmo fragilizados. Por seu turno, assumir ser bode expiatório reveste-se de outra complexidade, na medida em que alguém procura – à semelhança da pessoa de Jesus na sua paixão, morte e ressurreição – tornar-se capaz de, com os seus gestos, palavras e comportamento, dar maior significado até ao sofrimento pessoal e dos outros… Ora, isto implica uma vivência cristã assumida!        

 

António Sílvio Couto


sábado, 10 de março de 2018

Os famosos rejeitam Deus?


Há dias vi e anotei algo sobre o título em epígrafe: os famosos que negam a existência de Deus…Era uma razoável lista de três dezenas, na sua maioria americanos e anglo-saxónicos… Eis alguns e umas tantas: daniel radcliffe, julianne moore, joaquin phoenix, brad pitt, jodie foster, morgan freeman, woody alleen, angelina jolie, john lennon, uma thurman, ian mckellan, jack nicholson, sean penn… Cada um e cada qual apresentam as suas razões para se sentirem felizes sem Deus, para verberarem o (seu) ateísmo teórico/prático, para acharem que não têm razões em favor de Deus, considerando-O um ente morto… Uns tantos são (ditos) cómicos, outros carregam complexos a-religiosos ancestrais, numa mistura de espiritualidades à-medida e a gosto, nalguma autossuficiência, questionando até, com alguma arrogância, a inteligência de que n’Ele acredita…

= Ora, se alguém acha que outrem precisa de ser combatido, é porque esse tal não existe ou porque, na sua existência, incomoda? Se a tal espécie de cruzada anti-Deus é tão difundida será por dar ou não promoção a quem nela participa? Haverá interesse em dizer-se contra, só porque isso capta alguma atenção dalguns incautos? Para além do ‘sancho pança e de dom quixote’, quem ousa lutar contra figuras de vento – reais ou virtuais – se não lhes reconhece identidade, presença ou relação? 

Há questões que, por serem minimamente controversas, como que dão maior projeção aos intervenientes… mesmo que os argumentos aduzidos sejam mais ou menos falsos ou até ardilosamente mentirosos. Com efeito, das anotações apresentadas pelos citados famosos, perpassa um certo quê de orgulho e dalguma petulância de quem não é capaz de reconhecer, por momentos que seja, a sua fragilidade, pela possível razão de se encontrar no estrelato…sabe-se a que custo e usando que meios!

= Ora, será que a aura de sucesso desses tais famosos não consegue distinguir as suas qualidades, as possíveis carreiras ou mesmo os eflúvios momentâneos com o reconhecimento de Alguém que é superior e não é obstáculo, mas antes suporte da vida? Talvez seja mais conveniente não acreditar em Deus, mas antes andar de rédea-solta para esmagar os outros sem olhar a meios? Agora que veio à luz a promiscuidade do ‘me too’, ainda terão medo dum Deus que faz viver em respeito moral duns pelos outros/as ou escondem-se sob a penumbra do anonimato, iludindo-se sem Deus?  

É uma graça bem significativa ter o dom de acreditar em Deus, tenha-se ou não formação religiosa/cristã. Quanta gente gostaria de ter fé para resolver os seus problemas mais básicos, desde as questões existenciais mais simples até aos problemas mais complexos… Quanta gente gostaria de ter luz para entender os seus problemas, deixando Deus iluminá-los com verdade e simplicidade… Quanta gente gasta tanto do seu tempo em dar solução a questões e problemas que a ignorância humana continua a reproduzir, pela simples razão de querer ser dono daquilo que é, na maior parte das vezes, mero administrador…

= Conta-se dum grande cientista o episódio seguinte.

Viaja-se de comboio um já venerável senhor, de barbas brancas e ar recolhido, que ia passando por entre os dedos as contas do Rosário. À sua frente ia um jovem com ar rebelde, que, a dado momento, meteu conversa com o tal senhor. Eis que desancou no velho senhor por ele ainda acreditar nessas coisas de religião, quando devia era acreditar na ciência e na resposta que ela dá para a solução dos problemas do mundo e não nessas crendices de religião… e desfiou todas as suas razões de intelectual em fase de fabrico… Quase chegados ao termo da viagem, o jovem sábio solicitou ao tal senhor de barbas e cabelos brancos que lhe desse o seu endereço para que ele pudesse enviar as referências de alguns livros que o podiam ilustrar sobre a solução científica dos problemas do mundo… O senhor tirou, então, do bolso, um pequeno cartão onde estava escrito: ‘Louis Pasteur, academia francesa de ciências’… Claro que o jovem intelectual terá engolido muitas das suas teorias, quando quis dar lições ao velho, que reza o terço no comboio…  

Mutatis mutandis: assim os famosos do mundo do espetáculo poderiam ser convidados a terem um pouco mais de humildade, pois dos arrogantes não reza a história, antes os sepulta no esquecimento rápido e atroz!       

 

António Sílvio Couto  

quarta-feira, 7 de março de 2018

Conversão do pensamento


O Papa Francisco defendeu, numa homilia de missa semanal, em tempo de quaresma, que é necessário ‘converter o pensamento’ para além das obras e dos sentimentos. ‘O pensamento deve converter-se não só pelo modo como pensa, mas também pelo modo como se pensa. Também o estilo de pensamento deve converter-se’. Explicando-se o Papa diz: devemos converter-nos do que pensamos, mas também do modo como pensamos, ‘pedindo que cada um se questione se pensa com um estilo cristão ou com um estilo pagão’.

De facto, as inúmeras iniciativas, que vemos serem realizadas durante o tempo da quaresma, dão a impressão que pretendem atingir mais a dimensão emotiva do que tocar bem e a sério o que pensamos. Sobre este aspeto veja-se os ‘sermões’ das procissões de Passos, que percorrem tantos lugares…de forma tradicional regular ou esporádica. Atendendo às circunstâncias de presença e de participação, aquilo que se diz e o modo como é rececionado será de razoável dificuldade que atinja a dimensão intelectual, pois os comunicadores/ouvintes não têm recursos para acolher o que é dito para além do escutado, não questionando, o modo como se pensa, sobre a vida ou as várias questões do modo de estar neste mundo, mas antes aquilo que se sente…mais ou menos de forma humana ou até natural.

As propostas que possam mexer com a inteligência precisam de outras condições e até de outros comunicadores, que não só os ‘pregadores’ do alto dum palanque de circunstância. Se atendermos às propostas de catequeses ou às conferências quaresmais, às semanas de formação bíblica, às sessões sobre algum dos textos dos evangelhos ou mesmo as oportunidades de cursos, de fins-de-semana mais intensivos ou mesmo de retiros espirituais…aí poderemos ver algo mais consistente e sistematizado.

Até os momentos de celebração do sacramento da penitência e reconciliação precisa de ser levado mais a sério, tanto pelos penitentes como pelos confessores. Da rotina deste tempo e neste tempo da quaresma, estamos – sem pretender fazer qualquer juízo menos bem articulado – necessitados de dar-lhe mais conteúdo de formação bíblica, teológica e moral, coisa que não pode ser atafulhada quando as pessoas se aproximam da celebração do sacramento. Durante todo o ano pastoral é preciso que se proporcione aos fiéis – dizemos envolvendo todos, desde eclesiásticos até leigos, passando mesmo pelos religiosos – tempos de formação sistemática e progressiva. Se tal não acontecer corremos o risco de vermos esvaziarem-se os templos e de fecharem-se os confessionários por falta de interesse e de caminhada na fé, pela esperança e para a caridade. Não adiantará andarmos a tentar fazer coisas à pressa e sem nexo, pois a dispersão duns tantos – a começar pelos responsáveis – não pode nem consegue enganar o que é essencial: a mentalidade não muda por decreto, nem os critérios de pensamento se modificam com ritos vazios e esvaziados. Quantas vezes poderemos ser todos surpreendidos por um (o meu e o nosso) pensamento pagão envernizado de religião mais ou menos cristã…As ruturas e os solavancos são mais do que muitos!

Nos tempos que correm mais do que pregadores, escuta-se quem testemunha a fé, já dizia, o Papa Paulo VI, na ‘Evangelii nuntiandi’ (1975). A fé tem de estar ilustrada pela capacidade de formação contínua e nunca acabada. Ora, quando vemos serem repetidos rituais envolvidos em estereótipos quase medievais, temos de aceitar o desafio do Papa Francisco para que tenhamos a humildade suficiente para questionar e para aprendermos a traduzir, nos nossos tempos, com linguagem adequada, os problemas mais essenciais, respondendo às questões que nos colocam e não dando respostas àquilo que já ninguém pergunta…ao menos da forma como achamos que o fazem!

Se em todas as áreas da vida há uma acutilância para a atualização, porque será que na dimensão da fé – dizemo-lo do contexto católico – se nota alguma displicência em termos de estudar as questões e em sabermos responder aos problemas que o mundo hodierno nos coloca com tanta urgência e contundência? Não será por falta de prevenção do magistério da Igreja católica que as forças andarão distraídas, mas nem assim podemos tolerar que os mais responsáveis desanimem ou percam a capacidade de viver com a energia do Espírito de Deus, hoje.

Como já dizia São Paulo: ‘não vos acomodeis a este mundo. Pelo contrário, deixai-vos transformar, adquirindo uma nova mentalidade, para poderdes discernir qual é a vontade de Deus: o que é bom, o que lhe é agradável, o que é perfeito’ (Rm 12,2)!        

 

António Sílvio Couto



segunda-feira, 5 de março de 2018

Um festival algo fatela?


Já foi tempo em que o festival da canção – de apuramento para escolher um representante para a eurovisão – era um acontecimento relevante no panorama dos espetáculos no nosso país… Com os resultados miseráveis de mais de cinquenta anos lá fora, foi caindo o interesse cá dentro. Com a vitória inesperada, no contexto europeu, o ano passado do nosso concorrente, quiseram dar novo impulso a este festival, tanto na criação, como na visibilidade do dito…sem que isso tenha gerado grande entusiasmo…para além do círculo por onde se movem esses interesses e vivências musicais.

Por várias razões não vi nada das pré-seleções para aquilo que foi feito no domingo passado, apurando as catorze canções, de onde foi selecionada a nossa representante para o festival da eurovisão e realizar, em Lisboa, em meados de maio. O meu interesse foi muito pouco ou quase nulo, embora tenha assistido à declaração de vitória de quem se impôs ao resto da concorrência… Foi como não ter visto o desenrolar do ‘jogo’ e tenha colhido o resultado final, sem ter sabido como decorreu a ‘batalha’… tentando adivinhar os ‘meandros’ das conclusões derradeiras!

As palavras colocadas entre aspas – jogo, batalha e meandros – formam como que uma explicação para o uso do termo ‘fatela’ com que se titula este texto, sob a tónica da interrogação. Com efeito, na linguagem mais ou menos juvenil, fatela tem a ver com algo que não tem qualidade nem requinte ou bom gosto…andando a roçar o pimba, rasca, foleiro ou pindérico… Se acrescentarmos a este termo fatela as três palavras que referimos – jogo, batalha ou meandros – estaremos como que a fazer uma avaliação ao dito festival, onde parecia que se vivia um jogo do qual as regras estavam relativamente inquinadas – veja-se as tricas com uma das canções, acusando-a de plágio – numa batalha nem sempre lisa e sincera por todos os competidores, fazendo com que os diversos meandros se possam tornar suficientemente obscuros para a maioria do povo… 

= Porque será que as canções levadas aos festivais, mesmo as vencedoras, não fizeram grande sucesso entre o público consumidor de música, sobretudo daquele género, dito um tanto ligeira? Porque será que os maiores vendedores de música popular ou outra nem sempre concorreram ao dito festival da canção? Será coincidência ou foi um percurso assumido esse de os cantores/as mais populares fugirem da prestação de provas no festival da canção? Não haverá algo de ideológico – sabemos como a música é veículo de difusão – em muitos dos concursos de festival?

Apesar de ser uma cançãozinha de embalar – com o título ‘jardim’ – a vencedora deste ano terá estaleca para vingar nas lutas que tem de enfrentar? Será que a máquina posta à disposição do vencedor do euro-festival do ano passado vai estar disponível para este ano? Até que ponto seremos levados a sério pelo mundo do cançonetismo – tal como já aconteceu no futebol e noutros campos – por forma a não parecer que a vitória de 2017 foi mais do que uma confluência de bons desempenhos, mas sem continuação? 

= Há momentos da nossa história coletiva recente que nos fizeram quase acreditar que algo de bom se evidencia, quando tem a intervenção de portugueses. Não há dúvida, quando temos condições, estamos entre os melhores, tanto da Europa, como para com o resto do mundo. Temos vindo a aprender com muitos dos nossos falhanços, pois o sucesso precisa de programação, de trabalho, de execução, de avaliação e, sobretudo, de dedicação. Quando estes itens são percorridos vemos que ombreamos com os que ganham admiração pelo mundo além…

Nesta fase de competição de todos contra todos, podemos considerar que ‘amadorismo’ não pode ser contraposto a profissionalismo, mas o dito amadorismo pode e deve consubstanciar a capacidade de dedicação, de vivência em amar aquilo que se faz com convicção e de referência à suplantação das nossas limitações pela entrega às causas e, sobretudo, pela união de esforços em vencer…Assim se pode explicar que tantos/as portuguesas estejam entre os mais galardoados nas áreas científicas, tecnológicas, desportivas, de performance em campos que julgávamos inatingíveis…

Temos de nos nivelar pelos mais capazes, deixando de nos bastarmos com medalhas de consolação e, tantas vezes sem nexo, com essa doença coletiva nacional da resignação. Se nos unirmos havemos de vencer!...   

 

António Sílvio Couto

sábado, 3 de março de 2018

De novo o esbanjamento?


O mercado de bens de grande consumo caiu cerca de 3% do seu volume, sendo que o setor da alimentação em casa é um dos mais afetados no último ano, com as compras em supermercado a terem uma queda bastante significativa…

Se o (apelidado) tempo de crise levou a que as pessoas deixassem tanto de comer fora, mais recentemente, sete em cada dez pessoas acreditavam que, se o poder de compra aumentar, comer fora poderá voltar a ser uma opção, notando-se, assim, que houve hábitos que não ficaram desse tempo de austeridade…

Não está em causa cercear qualquer direito das pessoas e das famílias, de modo mais abrangente, mas bastou um pequeno sinal de alívio – dizem que financeiro, mas não se sabe se é mesmo económico! – para que fossem retomadas práticas – no todo ou em parte – de per si reveladoras de que uma franja razoável da população não vive nem cultiva a poupança, antes prefere viver como se não haja amanhã… 

= Questões a colocar: comer fora é bom ou menos mal para a família? Comer fora fica mais barato ou mais caro à bolsa dos portugueses? As casas são lares de vida familiar ou espaços de circunstância para o resto da vida social? Haverá algum projeto ideológico para fazer com que a família não se reúna, em casa, à hora da refeição? Não estaremos a ser vítimas e réus de projetos arquitetónicos de casas pequenas e sem espaços de convívio suficientes? A cultura dalguma vida social não estará enferma de certos valores não-cristãos? Estarão os cristãos em geral e os católicos em particular preparados para refletirem sobre a importância/sacralidade da família e da casa em especial?

Não basta lamuriar-se sobre o estado da família. De facto, o leite derramado – sobre o qual dizem que não vale a pena chorar – é digno de ser atendido, pois do seu desperdício poderá ser colhido algo mais do que tristezas e resignações. Com efeito, fomos deixando correr como irremediável a situação da família, criando condições para que esse santuário da vida e da comunhão seja infetado de muitas bactérias e de bastantes vírus capazes de enganar os mais pretensos avisados… 

= Voltamos a uma estória com laivos de incidência moralista por entre tiques de algum humor e a possibilidade de ser oportuna. É, de novo, a visão de três coisas que têm sido suficientemente vulgarizadas e dadas como ‘naturais’ na nossa cultura e na vida da maior parte das famílias.

Quais são três objetos/situações – quais parábolas hodiernas – a que nos habituamos e quase não dispensamos no nosso dia-a-dia? As fraldas descartáveis, o micro-ondas e a aspirina. Explicando: 

* As fraldas descartáveis são uma espécie de símbolo do’ usa-e-deita-fora’, pois só têm utilidade uma vez… Mais do que um objeto, nas fraldas descartáveis vemos tantas outras situações de vulnerabilidade e de efémero com que nos debatemos cada dia…desde que nada atrapalhe a rapidez e velocidade do tempo!  

* O micro-ondas é uma espécie de modelo-do-sem-tempo, do fazer rápido e da falta de amadurecimento das coisas…mesmo da alimentação. Já não há paciência para cozinhar, com condimentos que dão sabor e que testemunham a dedicação aos outros. Comprar pré-cozinhado ou já feito como que resolve a pressa, mas nem sempre dá conteúdo e sabor àquilo com que, dizemos, nos alimentamos. Com que facilidade se transformam a mesa de família e mesmo a cozinha em espaços frios e sem calor humano ou de presença humana e humanizante… Nem a ida ao restaurante – sobretudo se se tem meios económicos ou financeiros – poderá suprir a necessidade de partilha em família e como família… Mal vai uma família se fizer da mesa de refeição um mero espaço de mostrar-se ou de frieza das relações…Isso mais ou mais cedo acabará!

* A aspirina e os seus parceiros analgésicos de luta contra a dor como que nos dão a aferição ao modo como enquadramos a dor e o sofrimento na nossa vida e como isso mesmo é visto e vivido pelos outros e com os outros. A maleta dos analgésicos é hoje quase um adereço como outros o foram no passado – espelho, pente/escova, lenço de assoar ou qualquer outro – em ordem a combater a mais pequena maleita, desde que isso não nos faça ficar achacado e limitado na vida pessoal e social…

Podemos andar com pressa – dizem que é stress! – mas não podemos confundir os factos com a história e esta escreve-se com pessoas, através de gestos e com amor, feito de presença, com ternura e em amizade!

 

António Sílvio Couto