Partilha de perspectivas... tanto quanto atualizadas.



quarta-feira, 7 de março de 2018

Conversão do pensamento


O Papa Francisco defendeu, numa homilia de missa semanal, em tempo de quaresma, que é necessário ‘converter o pensamento’ para além das obras e dos sentimentos. ‘O pensamento deve converter-se não só pelo modo como pensa, mas também pelo modo como se pensa. Também o estilo de pensamento deve converter-se’. Explicando-se o Papa diz: devemos converter-nos do que pensamos, mas também do modo como pensamos, ‘pedindo que cada um se questione se pensa com um estilo cristão ou com um estilo pagão’.

De facto, as inúmeras iniciativas, que vemos serem realizadas durante o tempo da quaresma, dão a impressão que pretendem atingir mais a dimensão emotiva do que tocar bem e a sério o que pensamos. Sobre este aspeto veja-se os ‘sermões’ das procissões de Passos, que percorrem tantos lugares…de forma tradicional regular ou esporádica. Atendendo às circunstâncias de presença e de participação, aquilo que se diz e o modo como é rececionado será de razoável dificuldade que atinja a dimensão intelectual, pois os comunicadores/ouvintes não têm recursos para acolher o que é dito para além do escutado, não questionando, o modo como se pensa, sobre a vida ou as várias questões do modo de estar neste mundo, mas antes aquilo que se sente…mais ou menos de forma humana ou até natural.

As propostas que possam mexer com a inteligência precisam de outras condições e até de outros comunicadores, que não só os ‘pregadores’ do alto dum palanque de circunstância. Se atendermos às propostas de catequeses ou às conferências quaresmais, às semanas de formação bíblica, às sessões sobre algum dos textos dos evangelhos ou mesmo as oportunidades de cursos, de fins-de-semana mais intensivos ou mesmo de retiros espirituais…aí poderemos ver algo mais consistente e sistematizado.

Até os momentos de celebração do sacramento da penitência e reconciliação precisa de ser levado mais a sério, tanto pelos penitentes como pelos confessores. Da rotina deste tempo e neste tempo da quaresma, estamos – sem pretender fazer qualquer juízo menos bem articulado – necessitados de dar-lhe mais conteúdo de formação bíblica, teológica e moral, coisa que não pode ser atafulhada quando as pessoas se aproximam da celebração do sacramento. Durante todo o ano pastoral é preciso que se proporcione aos fiéis – dizemos envolvendo todos, desde eclesiásticos até leigos, passando mesmo pelos religiosos – tempos de formação sistemática e progressiva. Se tal não acontecer corremos o risco de vermos esvaziarem-se os templos e de fecharem-se os confessionários por falta de interesse e de caminhada na fé, pela esperança e para a caridade. Não adiantará andarmos a tentar fazer coisas à pressa e sem nexo, pois a dispersão duns tantos – a começar pelos responsáveis – não pode nem consegue enganar o que é essencial: a mentalidade não muda por decreto, nem os critérios de pensamento se modificam com ritos vazios e esvaziados. Quantas vezes poderemos ser todos surpreendidos por um (o meu e o nosso) pensamento pagão envernizado de religião mais ou menos cristã…As ruturas e os solavancos são mais do que muitos!

Nos tempos que correm mais do que pregadores, escuta-se quem testemunha a fé, já dizia, o Papa Paulo VI, na ‘Evangelii nuntiandi’ (1975). A fé tem de estar ilustrada pela capacidade de formação contínua e nunca acabada. Ora, quando vemos serem repetidos rituais envolvidos em estereótipos quase medievais, temos de aceitar o desafio do Papa Francisco para que tenhamos a humildade suficiente para questionar e para aprendermos a traduzir, nos nossos tempos, com linguagem adequada, os problemas mais essenciais, respondendo às questões que nos colocam e não dando respostas àquilo que já ninguém pergunta…ao menos da forma como achamos que o fazem!

Se em todas as áreas da vida há uma acutilância para a atualização, porque será que na dimensão da fé – dizemo-lo do contexto católico – se nota alguma displicência em termos de estudar as questões e em sabermos responder aos problemas que o mundo hodierno nos coloca com tanta urgência e contundência? Não será por falta de prevenção do magistério da Igreja católica que as forças andarão distraídas, mas nem assim podemos tolerar que os mais responsáveis desanimem ou percam a capacidade de viver com a energia do Espírito de Deus, hoje.

Como já dizia São Paulo: ‘não vos acomodeis a este mundo. Pelo contrário, deixai-vos transformar, adquirindo uma nova mentalidade, para poderdes discernir qual é a vontade de Deus: o que é bom, o que lhe é agradável, o que é perfeito’ (Rm 12,2)!        

 

António Sílvio Couto



segunda-feira, 5 de março de 2018

Um festival algo fatela?


Já foi tempo em que o festival da canção – de apuramento para escolher um representante para a eurovisão – era um acontecimento relevante no panorama dos espetáculos no nosso país… Com os resultados miseráveis de mais de cinquenta anos lá fora, foi caindo o interesse cá dentro. Com a vitória inesperada, no contexto europeu, o ano passado do nosso concorrente, quiseram dar novo impulso a este festival, tanto na criação, como na visibilidade do dito…sem que isso tenha gerado grande entusiasmo…para além do círculo por onde se movem esses interesses e vivências musicais.

Por várias razões não vi nada das pré-seleções para aquilo que foi feito no domingo passado, apurando as catorze canções, de onde foi selecionada a nossa representante para o festival da eurovisão e realizar, em Lisboa, em meados de maio. O meu interesse foi muito pouco ou quase nulo, embora tenha assistido à declaração de vitória de quem se impôs ao resto da concorrência… Foi como não ter visto o desenrolar do ‘jogo’ e tenha colhido o resultado final, sem ter sabido como decorreu a ‘batalha’… tentando adivinhar os ‘meandros’ das conclusões derradeiras!

As palavras colocadas entre aspas – jogo, batalha e meandros – formam como que uma explicação para o uso do termo ‘fatela’ com que se titula este texto, sob a tónica da interrogação. Com efeito, na linguagem mais ou menos juvenil, fatela tem a ver com algo que não tem qualidade nem requinte ou bom gosto…andando a roçar o pimba, rasca, foleiro ou pindérico… Se acrescentarmos a este termo fatela as três palavras que referimos – jogo, batalha ou meandros – estaremos como que a fazer uma avaliação ao dito festival, onde parecia que se vivia um jogo do qual as regras estavam relativamente inquinadas – veja-se as tricas com uma das canções, acusando-a de plágio – numa batalha nem sempre lisa e sincera por todos os competidores, fazendo com que os diversos meandros se possam tornar suficientemente obscuros para a maioria do povo… 

= Porque será que as canções levadas aos festivais, mesmo as vencedoras, não fizeram grande sucesso entre o público consumidor de música, sobretudo daquele género, dito um tanto ligeira? Porque será que os maiores vendedores de música popular ou outra nem sempre concorreram ao dito festival da canção? Será coincidência ou foi um percurso assumido esse de os cantores/as mais populares fugirem da prestação de provas no festival da canção? Não haverá algo de ideológico – sabemos como a música é veículo de difusão – em muitos dos concursos de festival?

Apesar de ser uma cançãozinha de embalar – com o título ‘jardim’ – a vencedora deste ano terá estaleca para vingar nas lutas que tem de enfrentar? Será que a máquina posta à disposição do vencedor do euro-festival do ano passado vai estar disponível para este ano? Até que ponto seremos levados a sério pelo mundo do cançonetismo – tal como já aconteceu no futebol e noutros campos – por forma a não parecer que a vitória de 2017 foi mais do que uma confluência de bons desempenhos, mas sem continuação? 

= Há momentos da nossa história coletiva recente que nos fizeram quase acreditar que algo de bom se evidencia, quando tem a intervenção de portugueses. Não há dúvida, quando temos condições, estamos entre os melhores, tanto da Europa, como para com o resto do mundo. Temos vindo a aprender com muitos dos nossos falhanços, pois o sucesso precisa de programação, de trabalho, de execução, de avaliação e, sobretudo, de dedicação. Quando estes itens são percorridos vemos que ombreamos com os que ganham admiração pelo mundo além…

Nesta fase de competição de todos contra todos, podemos considerar que ‘amadorismo’ não pode ser contraposto a profissionalismo, mas o dito amadorismo pode e deve consubstanciar a capacidade de dedicação, de vivência em amar aquilo que se faz com convicção e de referência à suplantação das nossas limitações pela entrega às causas e, sobretudo, pela união de esforços em vencer…Assim se pode explicar que tantos/as portuguesas estejam entre os mais galardoados nas áreas científicas, tecnológicas, desportivas, de performance em campos que julgávamos inatingíveis…

Temos de nos nivelar pelos mais capazes, deixando de nos bastarmos com medalhas de consolação e, tantas vezes sem nexo, com essa doença coletiva nacional da resignação. Se nos unirmos havemos de vencer!...   

 

António Sílvio Couto

sábado, 3 de março de 2018

De novo o esbanjamento?


O mercado de bens de grande consumo caiu cerca de 3% do seu volume, sendo que o setor da alimentação em casa é um dos mais afetados no último ano, com as compras em supermercado a terem uma queda bastante significativa…

Se o (apelidado) tempo de crise levou a que as pessoas deixassem tanto de comer fora, mais recentemente, sete em cada dez pessoas acreditavam que, se o poder de compra aumentar, comer fora poderá voltar a ser uma opção, notando-se, assim, que houve hábitos que não ficaram desse tempo de austeridade…

Não está em causa cercear qualquer direito das pessoas e das famílias, de modo mais abrangente, mas bastou um pequeno sinal de alívio – dizem que financeiro, mas não se sabe se é mesmo económico! – para que fossem retomadas práticas – no todo ou em parte – de per si reveladoras de que uma franja razoável da população não vive nem cultiva a poupança, antes prefere viver como se não haja amanhã… 

= Questões a colocar: comer fora é bom ou menos mal para a família? Comer fora fica mais barato ou mais caro à bolsa dos portugueses? As casas são lares de vida familiar ou espaços de circunstância para o resto da vida social? Haverá algum projeto ideológico para fazer com que a família não se reúna, em casa, à hora da refeição? Não estaremos a ser vítimas e réus de projetos arquitetónicos de casas pequenas e sem espaços de convívio suficientes? A cultura dalguma vida social não estará enferma de certos valores não-cristãos? Estarão os cristãos em geral e os católicos em particular preparados para refletirem sobre a importância/sacralidade da família e da casa em especial?

Não basta lamuriar-se sobre o estado da família. De facto, o leite derramado – sobre o qual dizem que não vale a pena chorar – é digno de ser atendido, pois do seu desperdício poderá ser colhido algo mais do que tristezas e resignações. Com efeito, fomos deixando correr como irremediável a situação da família, criando condições para que esse santuário da vida e da comunhão seja infetado de muitas bactérias e de bastantes vírus capazes de enganar os mais pretensos avisados… 

= Voltamos a uma estória com laivos de incidência moralista por entre tiques de algum humor e a possibilidade de ser oportuna. É, de novo, a visão de três coisas que têm sido suficientemente vulgarizadas e dadas como ‘naturais’ na nossa cultura e na vida da maior parte das famílias.

Quais são três objetos/situações – quais parábolas hodiernas – a que nos habituamos e quase não dispensamos no nosso dia-a-dia? As fraldas descartáveis, o micro-ondas e a aspirina. Explicando: 

* As fraldas descartáveis são uma espécie de símbolo do’ usa-e-deita-fora’, pois só têm utilidade uma vez… Mais do que um objeto, nas fraldas descartáveis vemos tantas outras situações de vulnerabilidade e de efémero com que nos debatemos cada dia…desde que nada atrapalhe a rapidez e velocidade do tempo!  

* O micro-ondas é uma espécie de modelo-do-sem-tempo, do fazer rápido e da falta de amadurecimento das coisas…mesmo da alimentação. Já não há paciência para cozinhar, com condimentos que dão sabor e que testemunham a dedicação aos outros. Comprar pré-cozinhado ou já feito como que resolve a pressa, mas nem sempre dá conteúdo e sabor àquilo com que, dizemos, nos alimentamos. Com que facilidade se transformam a mesa de família e mesmo a cozinha em espaços frios e sem calor humano ou de presença humana e humanizante… Nem a ida ao restaurante – sobretudo se se tem meios económicos ou financeiros – poderá suprir a necessidade de partilha em família e como família… Mal vai uma família se fizer da mesa de refeição um mero espaço de mostrar-se ou de frieza das relações…Isso mais ou mais cedo acabará!

* A aspirina e os seus parceiros analgésicos de luta contra a dor como que nos dão a aferição ao modo como enquadramos a dor e o sofrimento na nossa vida e como isso mesmo é visto e vivido pelos outros e com os outros. A maleta dos analgésicos é hoje quase um adereço como outros o foram no passado – espelho, pente/escova, lenço de assoar ou qualquer outro – em ordem a combater a mais pequena maleita, desde que isso não nos faça ficar achacado e limitado na vida pessoal e social…

Podemos andar com pressa – dizem que é stress! – mas não podemos confundir os factos com a história e esta escreve-se com pessoas, através de gestos e com amor, feito de presença, com ternura e em amizade!

 

António Sílvio Couto  


quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

Lealdade, precisa-se!


‘Lealdade’ significa a qualidade de alguém que é leal. ‘Leal’ tem origem no termo latino ‘legalis’, estando, por isso, relacionado com o conceito de lei. Assim leal seria alguém em quem era possível confiar e que cumpria as suas obrigações legais, não faltando aos seus compromissos, demonstrando responsabilidade, honestidade, retidão, honra e decência… Podem ainda tomar-se como sinónimos de lealdade termos como fidelidade, dedicação e sinceridade.

Ora, diante de certos acontecimentos e situações; perante várias circunstâncias e casos; tendo em conta inúmeros comportamentos e atitudes…poderemos questionar se a lealdade será virtude/qualidade que norteie tanta gente, desde os aspetos mais simples e privados até aos mais complexos e públicos…

Talvez hoje se viva mais num clima de desconfiança, onde os outros se tornam, com relativa facilidade, mais adversários – e, nalguns casos, até inimigos – do que parceiros duma caminhada, onde todos teremos a aprender uns com os outros, desde as facetas mais normais e quase impercetíveis até às mais complexas e necessitadas de desmontagem para serem, suficientemente, compreendidas. 

= Comportar-se de forma leal será, em grande medida, integrar-se num projeto comum, onde cada qual não reivindica para si os resultados, mas antes quer fazer parte duma ação mais ampla e significativa. Dado que vivemos num tempo onde a ponderação nem sempre é a forma mais comum e o bom senso dá a impressão de estar em maré contínua de saldos, torna-se importante detetar por onde anda a lealdade, fazendo dela uma atitude de vida e, sobretudo, um modo de estar no relacionamento com os outros.

* Ser leal é dizer o que se pensa e pensar o que se diz. De facto, muita gente reclama que diz o que pensa, mas nem sempre pensa o que diz. Quantas vezes é preciso dizer pouco, sabendo muito mais do que aquilo que é referido…

* Ser leal é saber calar, quando se não tem a certeza daquilo sobre o qual se é chamado a pronunciar-se. Quantas vezes o silêncio é a forma mais sábia de falar, mesmo que possa parecer um tanto atribulado pelo constrangimento em dizer só o que se sabe e nada mais…

* Ser leal é saber tomar posição, mesmo discordando, sem com isso ofender o oponente nem tão pouco faltar à verdade. Quantas vezes se pretende impor uma posição menos bem amadurecida e com isso pode-se arriscar a ser menos ponderado e sensato…

* Ser leal é ter por grande desejo a valorização dos outros, sem que com isso se viva na adulação nem tão pouco em fazer-se passar por ‘amigo’, quando se anda a levar-e-a-trazer. Quantas vezes deveríamos conjugar o verbo escutar nas suas formas mais variadas, nos tempos mais diversos e nas proposições mais reflexivas…Como pode alguém ser digno de crédito se passa o tempo a maldizer e a difundir maledicência? 

= A palavra ‘leal’ aparece no brasão de armas de, pelo menos, três cidades em Portugal: Porto, Évora e Lisboa…como que a realçar o vínculo de tais cidades e outras, como Macau, onde o espírito português se foi desenvolvendo sob o signo da lealdade, tanto das gentes como do vínculo histórico a momentos significativos do seu passado…

Será que a lealdade continua a ser critério pelo qual se pautam os governantes dessas cidades apelidadas de ‘mui nobre e sempre leal’? Poderemos contar com a exaltação dos valores da lealdade, quando isso implica liberdade e respeito pelos outros? Até que ponto não será de cultivar estes valores da lealdade, da responsabilidade e da honestidade…sem ser em conotação ideológica, mas como valores éticos, muito para além dos meramente republicanos e laicos?

Neste século XXI, que foi proclamado como dos ‘valores éticos’ por teólogos e ávido de sinais de bom senso, bem como de convivência entre os povos, torna-se, cada vez mais claro, que temos de encontrar mais aquilo que nos une e menos aquilo que nos separa, tentando discernir o essencial e depreciando o secundário. Ora, a lealdade é e deve ser algo que nos faça encontrar na luta, mas também na fraternidade; algo que exige de nós compromisso em criar uma corrente de sabedoria, descobrindo tanto daquilo que nos humaniza e abjurando muito daquilo que nos bestializa…a começar em nós mesmos!

 

António Sílvio Couto


quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Não sufoquem a ‘chama da solidariedade’


Ao final da manhã do dia 20 de fevereiro, foi rececionada a ‘chama da solidariedade’ em frente à câmara municipal da Moita, vinda do município do Barreiro.

Estavam presentes algumas das instituições de solidariedade – misericórdia e IPSS – com maior o menor expressão, mas que subiu ao palco foram os autarcas – câmara e juntas de freguesia – como se fossem eles os autores, promotores e executantes da dita solidariedade… O resto eram uns figurantes duma cena onde os do palco talvez não devessem ocupar tal espaço… Eles estão lá por visibilidade política, enquanto muitos outros/as fazem-no por opção de vida, por imperativo moral e mesmo por vocação/missão cristã de anúncio de Cristo, presente nos mais pobres, desvalidos, necessitados e marginalizados…

Não acredito, minimamente, na solidariedade que não seja decorrente da vivência de Mt 25,31-46, isto é, quando Jesus se identifica com os mais frágeis da sociedade…’O que fizestes a um dos meus irmãos mais pequeninos a Mim o fizestes’! 

Explicando certos conceitos e contestando práticas:

* A ‘chama da solidariedade’ é uma iniciativa da CNIS (confederação nacional das instituições de solidariedade) lançada, em 2007, para desafiar ao bem-comum e ao compromisso social.

No distrito de Setúbal, através da união distrital, a ‘chama da solidariedade’ foi recebida em setembro de 2017 e percorrerá o território dos treze concelhos até junho deste ano.

* Os destinatários desta (pretensa) ‘chama da solidariedade’ podem e devem ser as instituições e as pessoas que praticam a solidariedade…Não podemos esquecer que muitas das associações surgiram exatamente para suprir o mau funcionamento das repartições oficiais. Não se pode dizer coisas como estas em público e depois atuar como tentáculos do poder nas proporções de cada município, freguesia, bairro ou vizinhança!  

* Sobre os intervenientes consideramos que não vale tudo para aparecer na foto de boa/mediana atuação. De facto, sendo uma ação da sociedade não-política – há quem pretenda chamar-lhe ‘sociedade civil’ – a solidariedade não a vemos, claramente, que tenha de ser uma função desempenhada pelas autarquias, pois elas são, na sua maioria, veiculadoras dos processos de governo – seja qual for a coloração – e, porque ligadas a formações partidárias, sem vínculo não-independente. Como poderão ser enquadradas para estarem presentes em certos atos como da receção, coordenação e difusão da ‘chama da solidariedade’? Além de escusadas parece que são inoportunas! 

= Fique claro: as ações de obras da Igreja – católica ou não – são muito mais objetivas na solidariedade que praticam, até porque decorrem da caridade posta em ato e não como uma espécie de ‘moda’ de fazer por solidariedade o que deve ser feito por justiça.

Quantas vezes as conferências vicentinas cuidam de centenas de famílias e não fazem alarido…nem nas paróquias. Quantas vezes os serviços socio-caritativos paroquiais pagam rendas, água, eletricidade, gás, medicamentos e fazem avios para quem não está fixado – isto é, que tenha fixa nos serviços oficiais e da segurança social – mas que precisa agora e logo já poderá ser tarde. Quantas vezes se atende aos pedidos para baixar as mensalidades de jardins-de-infância, centros de atividades de tempos livres ou de lares, porque algum dos membros da família ficou desempregado! Quantas vezes o horário não termina às dezassete horas, mas se prolonga com as lágrimas sorvidas por entre soluços de vergonha! 

= Enquanto a solidariedade for uma mera palavra para enganar com subsídios e prolongar a preguiça com estímulos ao não-emprego, a ‘chama da solidariedade’ ir-se-á apagar mais depressa do que as palmas de cerimónia e/ou as críticas de mau funcionamento dos serviços de assistência social das autarquias e de tantos outros meandros do atendimento.

A ‘chama da solidariedade’ poderá ser alimentada com fé e com fervor cristão, mas estiolará com aproveitamentos habilidosos de políticos, de autarcas ou de funcionários de balcão, mas desconhecedores do terreno e do compromisso. Sujem as mãos e não se limitem a colher os frutos daquilo que não semearam!

 

António Sílvio Couto




 

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

‘Espetáculo’ do futebol



É bom que as pessoas saibam as dificuldades em garantir a segurança antes, durante e depois dum espetáculo de futebol.

Estas declarações foram proferidas em avaliação aos conflitos/confrontos, recentemente verificados, entre adeptos de dois emblemas rivais…tendo em conta a localização de proximidade territorial e as velhas histórias de antagonismo nos mais diferentes campos de atividade humana…onde o ‘desporto’ não passa de mais um dos palcos de controvérsia.  

= Antes de mais é questionador considerar o futebol como espetáculo, pois, na maior parte dos casos, é visto mais como um jogo, onde só a vitória conta, o empate atrasa e a derrota afunda. Com efeito, para ser considerado espetáculo o futebol deveria apresentar mais envolvência cultural, desde o nível de instrução até à capacidade de assimilação dos conteúdos de aprendizagem, passando pelo desenvolvimento da massa crítica sobre a vida e a sua envolvência. Será que é isto que os jogadores – seriam, então, atores – apresentam ao exibirem os seus malabarismos com a bola, sem esquecer as inquebrantáveis cabeçadas? 

= Ora, sabendo como o fascínio do dinheiro cativou tantos dos atores/jogadores, será de questionar o nível de instrução da maioria. Nem mesmo, quando alguns clubes se diziam protetores dos estudantes, uma boa parte quedou-se pelo nível com que chutam a bola… Por isso, não deixa de ser confrangedor ouvir alguns, quando solicitados, a dizerem alguma coisa: refugiam-se em clichés do futebolês, enquanto não conseguem falar mais do que frases idiomáticas e quase em circuito fechado…É pena que jovens tão ‘promissores’ sejam quase tratados como debilitados de mente e de raciocínio!  

= O pior de tudo isso é o cenário – e não são os estádios…na sua maioria vazios – em que o tal ‘espetáculo’ do futebol se desenvolve: muitos dos dirigentes parecem mais caudilhos do terceiro mundo do que responsáveis de coletividades do mundo ocidental. A avaliar pela linguagem e pelos trocadilhos usados quase temos de engendrar um dicionário para descodificarmos o que nos querem comunicar… Até alguns, que tinham algum nível acima da vulgaridade, desciam e descem ao nível do relvado onde se disputam as partidas…No entanto, é clamorosa a importância que adquirem – ou pensam – quando colocados à frente das maiores agremiações nacionais e internacionais.

Mal vai um país, quando os dirigentes das coletividades desportivas, são mais importantes do que os dirigentes dos partidos, que decidem das condições de vida das pessoas. Pior ainda é, quando os chefes partidários, autarcas em particular, se servem do fervor clubístico para se promoverem ou tentarem veicular as suas ideias… reduzindo-as ao rolar da bola e dependendo dos resultados que esta consegue! 

= A grande questão coloca-se nos associados, adeptos e simpatizantes dos clubes desportivos. Muitos fazem de filhos e netos sócios ainda antes de eles terem os primeiros dentes. Em certas ocasiões fico estarrecido com a convicção de certos pais e avós: não admitem forçar o batismo das crianças, porque elas terão o seu tempo para decidirem o que querem e, só, quando forem grandes. Mas, quando se trata de fazer associado dum clube da sua afeição/simpatia ninguém pergunta e talvez nem se respeite a opção da criança: ainda na maternidade já está registada como sócio do clube que lhe impingem…

Talvez seja aqui que esta religião do futebol tem mais fervorosos seguidores, que, na maior parte dos casos, se tornam fanáticos e acríticos seguidistas daquilo que o chefe faz ou manda…

O caciquismo do futebol é, hoje, um dos maiores ingredientes de crispação na sociedade portuguesa, criando e alimentando guerras, conflitos e provocações das mais incríveis. Dá a impressão que o subdesenvolvimento humano tem nesta área um dos campos mais simbólicos e significativos. É com estupor que tenho visto pessoas com instrução altamente qualificada – médicos e cirurgiões, literatos e pessoas da palavra universitária – que se transfiguram nos arruaceiros mais intratáveis, quando falam de futebol e discutem sobre o seu clube… É verdade: o espetáculo é inqualificável pela asneira e pela falta de senso. Até quando?

 

António Sílvio Couto  



domingo, 18 de fevereiro de 2018

Irracionalidades


A partir de hoje não comprem jornais, não vejam televisão portuguesa e os comentadores devem sair dos programas onde participam….Foi desta forma rápida e incisiva que um dirigente desportivo se consagrou após mais uma vitória entre os seus apoiantes…Claro que isto teve efeitos imediatos quando os apaixonados seguidores se confrontaram com os fazedores da comunicação social anatematizada…gerando-se atitudes agressivas e dignas dum país de terceiro-mundo.

Este episódio pode enquadrar-se numa leitura mais alargada do modo como muitos responsáveis – desde políticos até sindicalistas, de mentores religiosos até programadores televisivos, de dirigentes clubísticos até vendedores de produtos… não se julgue que as parelhas são desconexas ou despretensiosas – tratam aqueles que conduzem, mentalizam ou manipulam…Assim aquilo que deveria ser liderança torna-se alvo de outros interesses, onde nem sempre a racionalidade está atuante, mas antes se quedam – os condutores e os guiados – pela emotividade… 

= Entrados na segunda década do século XXI julgava que já não seria possível ver cenas daquele jaez. Doutros tempos vimos registos de ditadores a usarem argumentos muito idênticos…coartando às pessoas acesso aos meios de informação, que os pudessem intoxicar. Noutras situações os resultados foram muito parecidos, dado que as massas reagem de forma apaixonada…e os primeiros a serem atingidos são os que foram tornados alvo das críticas e das censuras.

Parece que falta a muita gente conhecimento histórico para não cometerem os mesmos erros que desencadearam processos de intenção, guerras de opinião ou mesmo batalhas sem vencedores.

Na maioria destes combates encontramos – ora de imediato, ora posteriormente – um razoável culto da personalidade, que julgando-se melhor do que os outros tenta impor-se enquanto não lhe descobrem as fragilidades, pois mais tarde ou mais cedo, essas lacunas surgirão e os apaniguados perceberão como foram usados e manipulados, voltando-se a obra contra o obreiro!

Porque não aprendem com as lições do passado e daquilo que outros viverão? Porque não se dá um tempo de pausa para ver a figura (ridícula) que, por vezes, se faz?

Talvez não se queira usar a faculdade humana que nos leva a pensar, a inteligência. É que, enquanto dura a ilusão, o reinante sente-se senhor e os outros como que lacaios dos seus veneráveis objetivos. Não faltará a muitos responsáveis/dirigentes o tino suficiente para preverem a queda e o estrondo que ela provocará? Não faltará, a muitos que se deixam ir na onda duma certa vitória, o mínimo de racionalidade para perceberem a figura que fazem ao embarcarem em tudo quanto quem dirige quer ou pretende fazer? 

= Numa época hiper-noticiosa, esta censura daquele dirigente desportivo é como um cavar a própria sepultura desde dentro da cova, pois não terá capacidade de fazer ouvir o que pretende, se não for escutado ou lido por aqueles a quem deseja comunicar – no caso em apreço – e comunicar-se. E não será num canalzito feito por entre soluços e rebuscos de autossuficiência que se criará ambiente vencedor e catalisador dos grandes interesses económicos, que movem e se promovem no desporto atualmente.

Este episódio, que temos estado a analisar é bem revelador dum certo mundo por onde vão sendo cultivadas figuras a prazo, que tanto andam na crista da onda, como se afundarão quando a prancha não for capaz de suster o peso da irresponsabilidade em estar exposto em excesso. Outro fator de desgaste é o de não ser fácil ser o ‘palhaço de serviço’ por tempo indeterminado. Com efeito, o prazo de validade de alguns assuntos tem a duração de outros acontecimentos igualmente funestos, mas que se podem sobrepor no tempo e no espaço. A arte de gerir tais situações nem sempre está na mão de quem pretende fazer-se durar, mas antes se perpassa pela voragem de novos acontecimentos e outras figuras…Tudo ficará ainda mais agravado se estiver à margem do consumo noticioso… Neste caso parece que faltou tato e saber na forma e no conteúdo! 

= Num país de apaixonados pelo futebol, teremos de saber desconfiar de posições irracionais, colocando uma pitada de bom senso em cabeças que nem sempre pensam as consequências de seus atos!

 

António Sílvio Couto