Partilha de perspectivas... tanto quanto atualizadas.



quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Números graves da sinistralidade rodoviária


Segundo os dados do último ano, os números da sinistralidade rodoviária, em Portugal, estão ao nível fatídico de há três anos atrás, verificando-se um retrocesso nesta ‘guerra civil’ que temos vindo a travar com maior ou menor sucesso nas nossas estradas e ruas.

Em 2017 houve 130.157 acidentes, com 509 mortos, 2.181 feridos graves e 41.591 feridos ligeiros…num agravamento de 14% (no que se refere às vítimas mortais), em relação ao ano anterior. Por distritos, o de Lisboa foi aquele onde houve mais acidentes (26.698), mas o do Porto foi onde se verificaram mais mortos, 68. Acima de dez mil ocorrências encontramos também os distritos do Porto, Braga, Faro, Aveiro e Setúbal.

Com melhores estradas (autoestradas, vias rápidas e mesmo ruas) quais são, então, as causas que dão tais consequências? Segundo a entidade responsável pela prevenção rodoviária, os motociclos são os culpados duma grande parte do aumento dos números de sinistralidade rodoviária, incluindo ainda nos fatores de pior desempenho o álcool e os atropelamentos…Só, no ano passado, deram-se quatro centenas de atropelamentos, seguidos de fuga, no nosso país. Muitas das ocorrências deram-se nos espaços das localidades.

O setor jovem da população (dos 18 aos 24 anos) também aparece como elemento agravante para a sinistralidade, dada a possível pouca experiência na condução e outros fatores de risco associados à velocidade e uso de elementos exteriores à condução, onde se podem incluir as drogas e o álcool… 

= Quando já se tinha atingido um número de menor dramaticidade, eis que este flagelo dos acidentes rodoviários volta a deixar vítimas, tanto diretas como indiretas. O que é que fez com que este fenómeno se tenha revertido com consequências tão tristes e trágicas? Há quem aponte um certo alívio económico para que os acidentes possam também ter disparado, pois as pessoas passaram a andar mais de carro e talvez a terem menos cuidado na condução. Outros referem que os preços mais baixos dos combustíveis se tornaram também promotores de haver mais carros na estrada e, com mais tráfego, a suscetibilidade de haver mais acidentes acrescentou-se.

Apesar de podermos encontrar estas ‘novas’ causas, há questões antigas que ainda não foram totalmente resolvidas. O excesso de velocidade – nalguns casos também a velocidade muito baixa – é um fator potenciador de acidente, pois a máquina domina o condutor e este não consegue impor-se ao veículo… Outros elementos perturbadores na estrada pode ser a desatenção aos perigos com mecanismos introduzidos no processo de condução, tais como o uso do telemóvel, o hábito de fumar ou até mesmo a distração ao volante…O clássico contributo de elementos perturbadores de quem conduz, como a introdução do álcool ou das drogas… Não podemos deixar de ter em conta – possivelmente bem mais do que aquilo a que se atende – a educação ao volante, pois o veículo não poderá tornar-se uma espécie de meio da afirmação pela negativa com gestos, comportamentos e atitudes menos respeitadoras dos demais…introduzindo a (dita) condução defensiva e irradiando a condução agressiva e/ou ofensiva! 

= Talvez se deva investir – dizemo-lo do contexto de formação moral cristã – mais na educação positiva em ordem a respeitarmos e sermos respeitados nas regras de trânsito, fazendo-nos ainda respeitadores dos valores da vida em contexto rodoviário. Em 2003, numa nota da Conferência episcopal portuguesa foram-nos apresentados os ‘pecados sociais’, entre os quais eram incluída ‘a irresponsabilidade na estrada, com as consequências dramáticas de mortes e de feridos, que são atentados ao direito à vida, à integridade física e psicológica, ao bem-estar dos cidadãos e à solidariedade’. De então para cá, já nos acusamos de não sermos devidamente respeitadores dos outros na estrada, quando fazemos manobras perigosas ou não cumprimos corretamente o código da estrada? Já entrou nos nossos hábitos de condução a capacidade de sermos bons cristãos pela defesa pessoal e dos outros? Já cumprimos as regras, mesmo sem a pressão dos fiscalizadores, tanto pessoais como das máquinas?

Não podemos nunca esquecer que, em cada veículo que circula na estrada, pode estar um potencial infrator ou até praticante duma infração mais ou menos grave ou até mortífera… e não são os outros, é cada um de nós. Temos de mudar de comportamento…enquanto vamos a tempo de salvar vidas!     

    

António Sílvio Couto



terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Indícios de guerra…em termos de ‘desporto’



Quem tiver um pouco de tempo e/ou de paciência poderá ainda aguentar alguns dos programas de jogo-falado com que a maioria dos canais televisivos/noticiosos – gerais ou de clube – martirizam quem lhes der espaço. As posições clubísticas são do pior que se possa imaginar, tentando cada um ser ainda mais maldizente – talvez o termo devesse ser malcriado – do que o outro, inserindo argumentos e diatribes do mais baixo nível que se possa suspeitar. Alguns nem imaginam que só a sua presença afasta quem quer que esteja sintonizado no mínimo.

Mas será este assunto assim tão importante para fazer perder tempo quem possa estar a ler-nos? Os programas não são sobre futebol – outros desportos quase são esquecidos – e tendo em conta a táticas, as habilidades ou os resultados? Não se deveria dar algum desconto à coloração de cada interveniente e não tentar generalizar, de algum modo, as questões?

A cada uma destas perguntas dizemos: sim e não – ‘sim’ porque muito tem subjacente o dito futebol e ‘não’ porque este ambiente é já do foro político, pois se está a germinar um estilo de fazer, de discutir e de tomar posição como o daqueles ralhadores de serviço e, nalgumas situações, as discussões ali geradas servem de cortina de fumo para problemas sociais, económicos e até laborais mais fundos e não abordados corretamente. 

 

= A partidarite dos clubes – agremiações muitas delas centenárias e de ascendências sociais distintas – funciona como uma espécie de divisão entre os adeptos, os sócios e os simpatizantes, tentando cada qual tirar proveito para se dizer com mais expressão social, com melhor relação económica ou até para fomentar uma espécie de sublimação de inconscientes coletivos mais ou menos racionais. Com efeito, o teor de adesão a um determinado clube é mais do foro emocional do que da área da razão, por isso, é que com muita dificuldade se muda de clube nem que ele ande pelas ruas da amargura. Há na afinidade clubística uma espécie de mística que talvez nem certos aspetos de religião consigam explicar, quanto mais fazer perceber a quem não for dessa cor…

A cativação dos mais novos para a simpatia por um clube e a antipatia para com outro tem muito a ver com as épocas de vitória e de identificação com os sucessos, nessa vivência coletiva das falhas pessoais. Até mesmo a valorização dum determinado jogador e a sua posição no campo leva a que possa haver preferência por um e não por outro dos (pretensos) grandes clubes…nacionais ou estrangeiros.

Casos há, na atual circunstância, em que as lutas partidárias são colocadas em plano secundário e as convulsões clubísticas se sobrepõem a tudo o resto. Nalguns programas chegam a ser todos do mesmo partido (de fações diferentes ou não), mas bem distintos nas leituras dos futebóis em radical distinção…

 

= Ao contrário do que seria desejável os jogos fazem-se fora do campo e onde os que fabricam a ‘festa’, isto é, os jogadores são o elo mais fraco. Pelo contrário, os dirigentes, os árbitros, os treinadores – estes merecem mais respeito, se se derem a tal – e mesmo os responsáveis de comunicação fazem agora parte do descontentamento, atiçando guerras e conflitos, incendiando as massas, gerando e gerindo o mal-estar crescente e belicoso… antes, durante e, sobretudo, depois de cada jogo ou jogada…Este mundo aparte que é o futebol mobiliza paixão e milhões, podendo fomentar a concórdia, mas que também pode ser gerador de intrigas, de falcatruas, de corrupção e mesmo de sinais de guerra. Se nada se ganha num jogo, pelo contrário, tudo poder-se-á questionar se as pessoas perderem o respeito dumas pelas outras e, particularmente, quando, por entre pão-e-jogos, se vai alienando o povo…manipulado, ignorante e néscio!

 

= Está na hora de denunciar quem tenta fazer do desporto – e do futebol em especial – uma distração para que não se diga a verdade. Está na hora de haver quem assuma as suas responsabilidades nas tensões que vai introduzindo entre pessoas e regiões, entre autarquias e bairros, entre os mais fracos e os mais poderosos… Acabou, é certo, o amor à camisola, mas não se faça da luta pelo poder um subterfúgio para atingirem os seus intentos e sucessos económicos… Antes que seja tarde, acordemos, já!

 

António Sílvio Couto