Partilha de perspectivas... tanto quanto atualizadas.



terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Indícios de guerra…em termos de ‘desporto’



Quem tiver um pouco de tempo e/ou de paciência poderá ainda aguentar alguns dos programas de jogo-falado com que a maioria dos canais televisivos/noticiosos – gerais ou de clube – martirizam quem lhes der espaço. As posições clubísticas são do pior que se possa imaginar, tentando cada um ser ainda mais maldizente – talvez o termo devesse ser malcriado – do que o outro, inserindo argumentos e diatribes do mais baixo nível que se possa suspeitar. Alguns nem imaginam que só a sua presença afasta quem quer que esteja sintonizado no mínimo.

Mas será este assunto assim tão importante para fazer perder tempo quem possa estar a ler-nos? Os programas não são sobre futebol – outros desportos quase são esquecidos – e tendo em conta a táticas, as habilidades ou os resultados? Não se deveria dar algum desconto à coloração de cada interveniente e não tentar generalizar, de algum modo, as questões?

A cada uma destas perguntas dizemos: sim e não – ‘sim’ porque muito tem subjacente o dito futebol e ‘não’ porque este ambiente é já do foro político, pois se está a germinar um estilo de fazer, de discutir e de tomar posição como o daqueles ralhadores de serviço e, nalgumas situações, as discussões ali geradas servem de cortina de fumo para problemas sociais, económicos e até laborais mais fundos e não abordados corretamente. 

 

= A partidarite dos clubes – agremiações muitas delas centenárias e de ascendências sociais distintas – funciona como uma espécie de divisão entre os adeptos, os sócios e os simpatizantes, tentando cada qual tirar proveito para se dizer com mais expressão social, com melhor relação económica ou até para fomentar uma espécie de sublimação de inconscientes coletivos mais ou menos racionais. Com efeito, o teor de adesão a um determinado clube é mais do foro emocional do que da área da razão, por isso, é que com muita dificuldade se muda de clube nem que ele ande pelas ruas da amargura. Há na afinidade clubística uma espécie de mística que talvez nem certos aspetos de religião consigam explicar, quanto mais fazer perceber a quem não for dessa cor…

A cativação dos mais novos para a simpatia por um clube e a antipatia para com outro tem muito a ver com as épocas de vitória e de identificação com os sucessos, nessa vivência coletiva das falhas pessoais. Até mesmo a valorização dum determinado jogador e a sua posição no campo leva a que possa haver preferência por um e não por outro dos (pretensos) grandes clubes…nacionais ou estrangeiros.

Casos há, na atual circunstância, em que as lutas partidárias são colocadas em plano secundário e as convulsões clubísticas se sobrepõem a tudo o resto. Nalguns programas chegam a ser todos do mesmo partido (de fações diferentes ou não), mas bem distintos nas leituras dos futebóis em radical distinção…

 

= Ao contrário do que seria desejável os jogos fazem-se fora do campo e onde os que fabricam a ‘festa’, isto é, os jogadores são o elo mais fraco. Pelo contrário, os dirigentes, os árbitros, os treinadores – estes merecem mais respeito, se se derem a tal – e mesmo os responsáveis de comunicação fazem agora parte do descontentamento, atiçando guerras e conflitos, incendiando as massas, gerando e gerindo o mal-estar crescente e belicoso… antes, durante e, sobretudo, depois de cada jogo ou jogada…Este mundo aparte que é o futebol mobiliza paixão e milhões, podendo fomentar a concórdia, mas que também pode ser gerador de intrigas, de falcatruas, de corrupção e mesmo de sinais de guerra. Se nada se ganha num jogo, pelo contrário, tudo poder-se-á questionar se as pessoas perderem o respeito dumas pelas outras e, particularmente, quando, por entre pão-e-jogos, se vai alienando o povo…manipulado, ignorante e néscio!

 

= Está na hora de denunciar quem tenta fazer do desporto – e do futebol em especial – uma distração para que não se diga a verdade. Está na hora de haver quem assuma as suas responsabilidades nas tensões que vai introduzindo entre pessoas e regiões, entre autarquias e bairros, entre os mais fracos e os mais poderosos… Acabou, é certo, o amor à camisola, mas não se faça da luta pelo poder um subterfúgio para atingirem os seus intentos e sucessos económicos… Antes que seja tarde, acordemos, já!

 

António Sílvio Couto  

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

Legislar em seu favor


Vivia-se a penumbra do Natal e eis que numa sessão hiper-rápida o parlamento fez jus àquilo que o devia envergonhar: aprovaram os deputados a mudança na ‘lei de financiamento dos partidos políticos’… Quase tudo esteve em banho-maria até que o presidente da república vetou o assunto nos primeiros dias deste ano…  

– Já não é pouco que o assunto seja de autoria dos beneficiários, mas parece que se torna ainda mais acintoso que o façam melhorando, substancialmente, as condições de acesso aos meios económicos que os possam suportar. Do espetro representado no parlamento só dois partidos destoaram deste unanimismo, chegando alguns – ditos de inspiração à esquerda – quase a considerarem uma espécie de traição que estes dois se venham agora arvorar em paladinos duma ética republicana, que, por ser tão concordante, quase se torna ofensiva desses valores igualitários propagandeados mas não seguidos…  

– Dá a impressão que ainda não se enfrentou a questão de fundo que este assunto, levado à socapa à votação, mas amadurecido em quase ano de reuniões secretas entre todos os intervenientes, que é o do financiamento dos partidos políticos: com fundos do estado, com subvenções privadas, gerando e gerindo meios próprios dos partidos ou aceitando contributos de particulares e até que montante…

A lei orgânica sobre o assunto é de 2003… com várias anotações e correções em anos subsequentes: 2008, 2010, 2013, 2015 e 2017…

Das receitas próprias para o financiamento dos partidos políticos se faz uma lista de sete situações, salvaguardando a obrigatoriedade de ser depositada em cheque ou noutro meio bancário de controlo que permita identificar a procedência do montante… Este montante, quando envolva donativos de pessoas singulares, nunca poderá ultrapassar, ao longo dum ano, vinte e cinco salários mínimos mensais.

Dos meios de subvenção estatal enumeram-se o pagamento de cada voto recebido pelo partido, tendo em conta o resultado eleitoral – cada voto vale, em média, 3,15 euros – mesmo que não tenha sido eleito nenhum deputado, mas possa ter angariado mais de cinquenta mil votos, desde que requeiram isso ao presidente da assembleia da república.

A angariação própria de fundos dos partidos políticos não pode exceder, anualmente, mil e quinhentas vezes o valor do IAS (indexante dos apoios sociais) – neste ano é de quatrocentos e vinte e oito euros e noventa cêntimos – salvaguardando que o produto da angariação de fundos resulta da diferença entre as receitas e as despesas em cada atividade de angariação de fundos…

A dita lei orgânica apresenta ainda (no artigo 10.º) os benefícios para os partidos: não estão sujeitos a IRC e estão isentos de imposto de selo, de sucessões e doações, de IMI, do imposto automóvel, do IVA (sobre aquisição de bens e serviços, que envolvam a transmissão da sua mensagem política), das taxas de justiça e de custas judiciais.  

– As ‘grandes mudanças’ desejadas pela nova lei pretendiam envolver a alteração dos montantes auferidos pelas iniciativas de angariação de fundos e o alargamento do benefício da isenção do IVA a todas as atividades partidárias.

Para fundamentar o veto presidencial foi aduzido que faltou ‘fundamentação publicamente escrutinável’ quanto ao assunto… Agora que já se discutiu a ‘coisa’ será que vai mudar a posição do Presidente ou a dos partidos tão ‘necessitados’ de novos fundos e recursos?

Seja qual for a solução encontrada, dá a impressão que ficou bastante mal o tema incluído um tanto à revelia na vida política, tão necessitada de credibilidade. Isto também não ajudou à sua credibilização. Seria como mudar as regras de jogo para que os contendores possam tirar benefício das jogadas que o público não conhece, não percebe e está desmotivado para querer entender…

A arte da política não precisa de espertos, que tentem ludibriar os mais incautos, antes tem de fazer-se creditar pelas atitudes de serviço aos outros e não servindo-se da ignorância dos outros. Não basta parecer sério, é preciso ser mesmo muito sério. Verdade a quanto obrigas!

 

António Sílvio Couto  



terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Saúde e paz


Se fizéssemos uma apreciação média global dos augúrios populares para este novo ano, acabado de iniciar, teríamos quase unanimidade em ‘saúde’ e ‘paz’, tanto em separado como no conjunto dos desejos.

Se aquilo que se exprime dá significado ao que se diz, então como que poderemos ser levados a crer que saúde e paz são realidades que já vivemos e que desejamos que continuem ou que não as tendo já almejamo-las que aconteçam em 2018… 

= Em quase todas a as sedes de distrito – nalguns casos também de concelho – houve festejos de novo ano, uns mais vistosos e noticiados, outros com maior investimento musical, uns tantos com toneladas de fogo-de- artifício, rivalizando num bairrismo quase doentio… A organização da capital parecia de algo perigoso, se virmos certos tiques securitários, as medidas de prevenção adstritas como que trataram os milhares de participantes como potenciais criminosos e ninguém falou, contestando (ao menos que fosse visto, ouvido ou mostrado)…tal era a nebulosa racional e o manto de inconsciência que cobria os foliões!

Quando tantos ecologistas andam – e bem! – preocupados com o aquecimento global do Planeta, quando não deixam escapar uma incorreção, por mínima que seja, sobre a matéria por parte do presidente americano, quando emergem como fundamentalistas a propósito de algo que não condiga com o endeusamento da mãe-terra… fez-se um longo e atroz silêncio sobre os festejos com o recurso aos disparos e à poluição gerada pelos ‘celebrações’ da passagem d’ano. Não será preciso inventar outra forma de fogo – ou de algo que ilumine em festa – que não deixe esse rasto poluente, tanto sonoro como atmosférico? Os milhões de disparos ao nível global não trazem algo de desacerto no alcance globalizado? Andarão todos narcotizados ou a dormir pela simples razão de que alguns setores – comerciais, económicos, autárquicos ou conjunturais – precisam destes momentos para prestarem serviço ou justificarem a sua existência?

Onde agora habito não houve qualquer estralejar de foguetes – nem um sequer! – por iniciativa autárquica e tão pouco participei em qualquer local de réveillon, mas só estive a ver o espetáculo daquilo que os vários canais noticiosos davam em competição e nem sequer uma gota de festejo auferi, por opção! Com efeito, há coisas que, se vistas com algum distanciamento, não parecem essenciais, mas antes adventícias ou razoavelmente escusadas… 

= Que augúrios poderemos, então, desejar para este novo ano? Serão os dois supra citados – saúde e paz – suficientes para resumir os bons desejos para todo este ano civil de 2018? Se trouxermos à colação que ‘saúde’ pode resumir a vivência do nosso estado físico e tudo quanto lhe está ligado e ‘paz’ aquilo que se pode encontrar resumido da dimensão psicológico-espiritual, então estas duas palavras aglutinam bem a conciliação entre aspetos fundamentais do nosso ser, corpo, alma e espírito.

Embora possa parecer um tanto simplista esta visão, nela podemos ainda encontrar que não será por muito pretendermos que se cumpra aquilo que ansiamos, que tal se tornará efetivo. Com efeito, há rituais de passagem d’ano que revelam um pouco (ou bastante) de paganismo, senão mesmo de superstição. Ora esta é um campo propício para ir crescendo a ignorância, em vez de a combater pela instrução e a iluminação da luz divina.

Infelizmente a presença dos conceitos e valores cristãos estão a ser relegados para fora dos comportamentos pessoais, familiares e coletivos/sociais. Nota-se uma crescente neo-paganização, senão no pensamento ao menos no comportamento e como muitas pessoas vão passando a pensar como vivem, podendo perceber-se com relativa facilidade que as pessoas justificam aquilo que fazem e não vivem já segundo o modo que pensam (ou pensavam)… Com efeito, neste tempo ávido de novidades, o que vemos é retoma dalguns critérios e condutas que têm mais a marca do anticristão do que mesmo do sinal pagão nunca evangelizado. Isso mesmo aconteceria se questionássemos muitas das pessoas que estiveram em festejos de passagem d’ano, pois muito daquilo que é dito, feito ou desejado está fora duma tal fé que dizem ter ou tacitamente praticar.   

Como exclamava Cícero: O tempora, o mores…Ó tempos, ó costumes! Em que tempos e costumes vivemos!

    

António Sílvio Couto



quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

30 mil cartolas para a ‘passagem d’ano’


O pelouro de animação da CM Lisboa comprou trinta mil cartolas (metade por metade de pretas e vermelhas) plásticas brilhantes, que irão ser oferecidas aos participantes na passagem d’ano na praça do comércio da capital. O custo destes adereços será de 57 mil euros… a que serão acrescentados mais 74 mil em fogo-de- artifício e ainda mais vinte e sete mil nas questões de exibição em vídeo… tudo a acrescer com IVA… e ainda os concertos musicais com artistas de circunstância, totalizando 650 mil euros os festejos!

Será isto gasto ou investimento? Será um assunto para entreter ou para ganhar turistas?

Se forem feitas as contas, ainda sem o imposto de valor acrescentado, cada cartola andará pelos dois euros. Será isto pouca coisa ou, pelo contrário, representa algo que faz ganhar outro motivo de festa? As apostas nos vários festejos de final-de-ano serão só gratuitas ou tenderão a tornar o país uma espécie de festança ingovernável? Não se vislumbra por aí algo de ‘dejà vu’ noutros tempos e noutras culturas? Não andarão a ludibriar o povo com artefactos de distração, enquanto se cozinham novos ataques a questões bem mais sérias do que os festejos populares? 

= Atendendo ao número de cartolas disponibilizadas para o réveillon lisboeta haverá, certamente, quem não consiga atingir tal adereço. Talvez a expressão do cinema português – ‘chapéus, há muitos, meu…’ possa ter, novamente, aqui uma aceção quase adequada… A possível conflitualidade provocada, senão explícita ao menos tácita, como que poderá fazer cair a máscara de oportunismo com que tantas vezes lidamos com as sugestões de afazeres gratuitos. Quais serão, então, os critérios de atribuição dessas tais cartolas? As cores serão só para dar colorido ou envolvem outros aspetos mais subtis? Como se vão distinguir os que têm cartola daqueles que desejavam recebê-la? E, se houver outros cartoleiros, poderão ser admitidos ou ser-lhes-á vedada a entrada? 

= Vinda de quem vem, a iniciativa das 30 mil cartolas para a passagem d’ano insere-se numa linha despesista tão ao gosto de certas autarquias e de setores conotados com a governança da geringonça, que se satisfaz em lançar dinheiro para criar consumo e com isso pretendem fazer crer que o país está melhor, embora não se vá ao fundo das questões… Nalguns casos confundem – propositadamente – despesas com investimento, por forma a dar a entender que se investe no (dito) turismo, quando se estão é a praticar atos que engrossam os gastos e pouco ou nada trazem à promoção da cidade, da região ou mesmo do país.

Por esta ocasião é fácil ver os milhares ‘investidos’ em fogo-de-artifício, em artistas-cantores, em luzes e iluminações, tentando criar a sensação de ilusão em quem vê e muito mais em quem ganha com tais festanças. A rivalidade entre povoações emerge como se fosse um bem, quando se tenta antes enganar os que não conheçam certos bairrismos menos corretos e saudáveis. Esta onda de fascínio com os dinheiros das autarquias – nalguns casos também andarão envolvidos dinheiros públicos – voltará quando forem as festividades de cada concelho ou freguesia, mas, por ocasião da passagem d’ano vê-se todo ao mesmo tempo e em rivalidade mais acutilante. 

= Que soluções poderemos apontar para esta vaga de novo-riquismo com que vamos sentindo que o país se entretém? Quem será capaz de não se deixar ir na moda, sem com isso não-prejudicar a terra onde vive ou onde exerce o poder? Haverá sentido de responsabilidade para inverter o caminho do atoleiro para onde nos dirigimos?

Em certos casos será quase impossível alterar o curso das coisas, pois uma máquina bem tecida move e faz mover interesses em jogo. Noutras situações seria como que dar a entender que se estaria a perder a capacidade de iniciativa ‘cultural’. Poderemos encontrar ainda razões mais ou menos justificáveis para esse despesismo, embora se deva, acima de tudo, viver na verdade e na aceitação dos meios que se possui.

O povo precisa de festa, mas talvez dispense que lhe criem ilusões, que terá de pagar quando menos se der conta. Os responsáveis das autarquias, do governo e de todos os que têm de exercer autoridade não poderão ser os primeiros confundidos nos seus critérios e nas linhas por onde fazem os outros ir…

 

António Sílvio Couto  


terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Escuitar desigualdades no Natal


De entre muitas reportagens do tempo de Natal escuitei duas que me deixaram inquieto e preocupado: na sequência uma da outra viu-se a apresentação duma mesa natalícia num hotel e na outra a abordagem duma tenda onde foram servidas refeições a pessoas sem-abrigo… O número para quem se destinavam os serviços era idêntico: 300 pessoas. Os custos claramente diferentes. As razões para uns e para outros mais do que percetíveis. Os objetivos seriamente de qualidade de estatuto. As motivações da diferença talvez se possa colocar no âmbito de níveis de sociedade dispare…

Parando um pouco tentei escuitar o significado destas discrepâncias numa época – temporal e de significação mais estrita – em que se pretende apelar à igualdade, à fraternidade, à convivência entre todos, aos direitos sem diferenças, ao acesso de todos aos bens necessários e suficientes… e tudo o mais o que envolve, para um cristão, reconhecer que tudo isso advém do mistério de Jesus, Verbo de Deus encarnado, que fez de todos os homens uma só família.  

– Ao usar a palavra ‘escuitar’ quero incluir neste conceito algo mais do que escutar como se fosse um ruído ao qual não se presta a devida atenção, mas antes um cair na conta de que escuto algo que me impressiona e que me exige reflexão muito para além do superficial das franjas do ouvir sem reparar naquilo que me é dito e anunciado.

Assim escuitei aquelas desigualdades como algo que me trouxe à vontade a proposta de invasão do hotel com preços só atingíveis por uns tantos, abrindo as portas àqueles homens e mulheres que, metros ao lado, se satisfaziam com algo menos requintado na forma, mas possivelmente mais quente no conteúdo… Com efeito, não podemos ficar indiferentes a estes tiques de sociedade onde se agravam as diferenças entre iguais na cidadania e nas aspirações… Não podemos continuar a requentar a nossa fé com palavras de circunstância, quando ao lado – mais perto do que longe – outros são preteridos da mesa da fraternidade humana e social…Não podemos ignorar estes e tantos outros casos, que nos são servidos pela comunicação social – umas vezes em jeito de notícia e outras vezes à guisa de provocação – numa atenção às discrepâncias entre estratos sociais e até num escalonamento como se fossem classes…  

Nem que seja de forma breve deixamos aqui essa ‘estória’ colocada entre as piedades bracarenses. Um certo sapateiro, membro duma irmandade das que participam nas solenidades da semana santa, depois de ter feito o seu papel na procissão, já se encaminha para a saída da Sé, quando abriu, por acaso, uma porta, dando de caras com os responsáveis da irmandade em lauto banquete, tendo ele ripostado, no seu português meio atrapalhado: ‘ou haja moralidade ou comamos todos’! Interpretação: todos têm os mesmos direitos e não só os mais categorizados em hierarquia podem usufruir de benesses e prebendas…  

– Neste país em que vivemos há, gradualmente, uma propensão para que uns sejam mais beneficiados do que os outros: uns parecem ter pele mais sensível do que os demais. Uns julgam-se no direito de proteger os seus, mesmo que isso possa ofender as mínimas condições dos que não fazem parte do seu círculo de simpatia ou de categoria social, económica ou ideológica. Uns quantos nos têm pejo nem vergonha de exibirem as suas farpelas de etiqueta, enquanto vão sendo beneméritos com o desentulhar do guarda-roupa fora de moda. Há por aí muita gente que, mesmo escutando (sem escuitar) as pregações religiosas, ainda não entendeu que podem ostentar ofensas às menores possibilidades dos seus vizinhos ou parceiros de emprego.

Por mínima decência será sempre de cuidar em não permitirmos que os nossos gestos, palavras ou a mais singela apresentação possam criar desigualdades entre as pessoas, pois nem todos terão as nossas posses mais comparáveis, pois aquilo que temos deverá sempre enquadrar-se no projeto de Jesus, Ele que em tudo foi, viveu e se orientou pelos critérios da pobreza, onde o mais grave é o apego às coisas e àquilo que possa levar-nos ao egoísmo e à ostentação.

O Natal é, por isso, tempo propício para nos avaliarmos e questionarmos, pois em muito daquilo que vivemos há como que um perigo de ofuscarmos a nudez de Jesus e de não O deixarmos ocupar o lugar que merece na nossa vida pessoal, familiar, eclesial ou social. O Natal não pode ser só exterior, tem de gerar conversão!

    

António Sílvio Couto


sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Avaliação de certas dinastias partidárias…à luz do Natal



Para uns tantos e em certos tempos dá a impressão que se deve enterrar a cabeça na areia, como a avestruz, e fazer-de-conta que tudo corre bem, só porque a eles lhes corre – a vida, as façanhas, as tropelias, as conquistas, as vitórias, as mentiras, os subornos, as cativações, os subsídios, etc. – de feição. Dizemo-lo abrangendo vários campos da nossa condição coletiva e, nalgumas situações, mais de índole pessoal e/ou familiar.
– Quando tantos se insurgem contra a acentuada desmotivação pela política – votante ou participativa – dá-me a impressão de que, quem serve esta vertente humana e social, tem andado mais a pensar em si e nos seus do que a tentar perceber por onde devem caminhar as pretensões dos outros…
Os tentáculos familiares na vida pública não se reduzem à mera instância autárquica, mas estendem-se a muitos outros campos de intervenção, sem esquecer o âmbito do governo central – bastará observar a aglomeração de membros da mesma família (ou famílias) em parentesco executivo… Embora ainda se não possa aferir dalgum nepotismo – ‘favorecimento de parentes e amigos próximos em detrimento de pessoas mais qualificadas’, tendo em conta a nomeação ou elevação de cargos a exercer – explícito, não andará muito longe a curto e a médio prazo… tais são as ramificações entre participantes na área governativa!
Por vezes, as matizações desta doença congénita em muitos regimes autocráticos, democráticos ou com outro sistema de representatividade vão-se degradando com estas manifestações mais ou menos conhecidas, divulgadas ou consentidas… 
– Quando vemos surgirem notícias e declarações, que nos fazem pensar sobre quem influencia quem ou quem se deixa condicionar por quem, poderemos ser levados a refletir sobre a ‘longa manus’ com que certos senhores/senhoras e afins, quando ocupam o poder, fazem crer que têm mais do que autoridade, seja pelo exercício, seja pela bajulação com que se fazem rodear. Por vezes somos levados a acreditar que, por trás da cortina, se movem interesses nem sempre percetíveis por todos ou, pelo menos, com sensatez pelos mais desatentos ou crédulos.
Há casos e acontecimentos que são mais dignos de irrisório do que de complacência, na medida em que mexem com a honorabilidade da maioria do povo simples e trabalhador (não meramente operário), que não entra com facilidade nos meandros de tantas manigâncias, às quais só têm acesso uns tantos iluminados nas oportunidades, nas conveniências e mesmo nas tropelias… Mais uma vez tem-se a sensação de que tais ‘bafejados da sorte’ têm mais esperteza do que inteligência ou, à mistura, com bastante manha e algum poder de influência… até que tudo se descubra. 
– Que tem, então, o Natal a ver com tudo isto? Porque teremos de não deixar passar à margem estas coisas que nos podem aborrecer e não deixar ‘ter’ um Natal pacífico? Valerá a pena andarmos a aborrecer-nos com tais questões, se a maior parte nem atende minimamente a isso?
Antes de mais o Natal irmana-nos na fraternidade trazida por Jesus e o que é feito a um qualquer dos nossos concidadãos atinge-nos a todos. As ofensas à dignidade alheia também nos fere, nem que seja por fazermos parte desta mesma humanidade ferida e ofendida.
Pretender escalonar os diversos cidadãos segundo o seu poder económico – tido, retido ou desviado – é algo que não foi desejado por Jesus, pois pela sua Encarnação – ter-se feito homem connosco – temos iguais direitos e idênticos deveres, para além de que os que mandam ou dirigem não podem fazer-se juízes contra os outros…até porque um dia podem vir a ser apeados de tal poder e não quererão ser tratados como tratam os outros quando subalternos. Por vezes a memória é demasiado curta – senão mesmo seletiva – para com quem foi menosprezado e ofendido pelos executores do poder. Este é efémero e, quem hoje está por cima – assim pensa – amanhã estará em lugar secundário e não quererá ser maltratado como agora faz aos outros!
= O Natal fraterniza-nos, não nos distingue. O Natal faz-nos solidários, não nos separa. O Natal cria em nós sentido de pertença, não exclui. O Natal faz-nos filhos do mesmo Pai, não nos torna enteados nem enjeitados!    


António Sílvio Couto