Partilha de perspectivas... tanto quanto atualizadas.



quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

30 mil cartolas para a ‘passagem d’ano’


O pelouro de animação da CM Lisboa comprou trinta mil cartolas (metade por metade de pretas e vermelhas) plásticas brilhantes, que irão ser oferecidas aos participantes na passagem d’ano na praça do comércio da capital. O custo destes adereços será de 57 mil euros… a que serão acrescentados mais 74 mil em fogo-de- artifício e ainda mais vinte e sete mil nas questões de exibição em vídeo… tudo a acrescer com IVA… e ainda os concertos musicais com artistas de circunstância, totalizando 650 mil euros os festejos!

Será isto gasto ou investimento? Será um assunto para entreter ou para ganhar turistas?

Se forem feitas as contas, ainda sem o imposto de valor acrescentado, cada cartola andará pelos dois euros. Será isto pouca coisa ou, pelo contrário, representa algo que faz ganhar outro motivo de festa? As apostas nos vários festejos de final-de-ano serão só gratuitas ou tenderão a tornar o país uma espécie de festança ingovernável? Não se vislumbra por aí algo de ‘dejà vu’ noutros tempos e noutras culturas? Não andarão a ludibriar o povo com artefactos de distração, enquanto se cozinham novos ataques a questões bem mais sérias do que os festejos populares? 

= Atendendo ao número de cartolas disponibilizadas para o réveillon lisboeta haverá, certamente, quem não consiga atingir tal adereço. Talvez a expressão do cinema português – ‘chapéus, há muitos, meu…’ possa ter, novamente, aqui uma aceção quase adequada… A possível conflitualidade provocada, senão explícita ao menos tácita, como que poderá fazer cair a máscara de oportunismo com que tantas vezes lidamos com as sugestões de afazeres gratuitos. Quais serão, então, os critérios de atribuição dessas tais cartolas? As cores serão só para dar colorido ou envolvem outros aspetos mais subtis? Como se vão distinguir os que têm cartola daqueles que desejavam recebê-la? E, se houver outros cartoleiros, poderão ser admitidos ou ser-lhes-á vedada a entrada? 

= Vinda de quem vem, a iniciativa das 30 mil cartolas para a passagem d’ano insere-se numa linha despesista tão ao gosto de certas autarquias e de setores conotados com a governança da geringonça, que se satisfaz em lançar dinheiro para criar consumo e com isso pretendem fazer crer que o país está melhor, embora não se vá ao fundo das questões… Nalguns casos confundem – propositadamente – despesas com investimento, por forma a dar a entender que se investe no (dito) turismo, quando se estão é a praticar atos que engrossam os gastos e pouco ou nada trazem à promoção da cidade, da região ou mesmo do país.

Por esta ocasião é fácil ver os milhares ‘investidos’ em fogo-de-artifício, em artistas-cantores, em luzes e iluminações, tentando criar a sensação de ilusão em quem vê e muito mais em quem ganha com tais festanças. A rivalidade entre povoações emerge como se fosse um bem, quando se tenta antes enganar os que não conheçam certos bairrismos menos corretos e saudáveis. Esta onda de fascínio com os dinheiros das autarquias – nalguns casos também andarão envolvidos dinheiros públicos – voltará quando forem as festividades de cada concelho ou freguesia, mas, por ocasião da passagem d’ano vê-se todo ao mesmo tempo e em rivalidade mais acutilante. 

= Que soluções poderemos apontar para esta vaga de novo-riquismo com que vamos sentindo que o país se entretém? Quem será capaz de não se deixar ir na moda, sem com isso não-prejudicar a terra onde vive ou onde exerce o poder? Haverá sentido de responsabilidade para inverter o caminho do atoleiro para onde nos dirigimos?

Em certos casos será quase impossível alterar o curso das coisas, pois uma máquina bem tecida move e faz mover interesses em jogo. Noutras situações seria como que dar a entender que se estaria a perder a capacidade de iniciativa ‘cultural’. Poderemos encontrar ainda razões mais ou menos justificáveis para esse despesismo, embora se deva, acima de tudo, viver na verdade e na aceitação dos meios que se possui.

O povo precisa de festa, mas talvez dispense que lhe criem ilusões, que terá de pagar quando menos se der conta. Os responsáveis das autarquias, do governo e de todos os que têm de exercer autoridade não poderão ser os primeiros confundidos nos seus critérios e nas linhas por onde fazem os outros ir…

 

António Sílvio Couto  


terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Escuitar desigualdades no Natal


De entre muitas reportagens do tempo de Natal escuitei duas que me deixaram inquieto e preocupado: na sequência uma da outra viu-se a apresentação duma mesa natalícia num hotel e na outra a abordagem duma tenda onde foram servidas refeições a pessoas sem-abrigo… O número para quem se destinavam os serviços era idêntico: 300 pessoas. Os custos claramente diferentes. As razões para uns e para outros mais do que percetíveis. Os objetivos seriamente de qualidade de estatuto. As motivações da diferença talvez se possa colocar no âmbito de níveis de sociedade dispare…

Parando um pouco tentei escuitar o significado destas discrepâncias numa época – temporal e de significação mais estrita – em que se pretende apelar à igualdade, à fraternidade, à convivência entre todos, aos direitos sem diferenças, ao acesso de todos aos bens necessários e suficientes… e tudo o mais o que envolve, para um cristão, reconhecer que tudo isso advém do mistério de Jesus, Verbo de Deus encarnado, que fez de todos os homens uma só família.  

– Ao usar a palavra ‘escuitar’ quero incluir neste conceito algo mais do que escutar como se fosse um ruído ao qual não se presta a devida atenção, mas antes um cair na conta de que escuto algo que me impressiona e que me exige reflexão muito para além do superficial das franjas do ouvir sem reparar naquilo que me é dito e anunciado.

Assim escuitei aquelas desigualdades como algo que me trouxe à vontade a proposta de invasão do hotel com preços só atingíveis por uns tantos, abrindo as portas àqueles homens e mulheres que, metros ao lado, se satisfaziam com algo menos requintado na forma, mas possivelmente mais quente no conteúdo… Com efeito, não podemos ficar indiferentes a estes tiques de sociedade onde se agravam as diferenças entre iguais na cidadania e nas aspirações… Não podemos continuar a requentar a nossa fé com palavras de circunstância, quando ao lado – mais perto do que longe – outros são preteridos da mesa da fraternidade humana e social…Não podemos ignorar estes e tantos outros casos, que nos são servidos pela comunicação social – umas vezes em jeito de notícia e outras vezes à guisa de provocação – numa atenção às discrepâncias entre estratos sociais e até num escalonamento como se fossem classes…  

Nem que seja de forma breve deixamos aqui essa ‘estória’ colocada entre as piedades bracarenses. Um certo sapateiro, membro duma irmandade das que participam nas solenidades da semana santa, depois de ter feito o seu papel na procissão, já se encaminha para a saída da Sé, quando abriu, por acaso, uma porta, dando de caras com os responsáveis da irmandade em lauto banquete, tendo ele ripostado, no seu português meio atrapalhado: ‘ou haja moralidade ou comamos todos’! Interpretação: todos têm os mesmos direitos e não só os mais categorizados em hierarquia podem usufruir de benesses e prebendas…  

– Neste país em que vivemos há, gradualmente, uma propensão para que uns sejam mais beneficiados do que os outros: uns parecem ter pele mais sensível do que os demais. Uns julgam-se no direito de proteger os seus, mesmo que isso possa ofender as mínimas condições dos que não fazem parte do seu círculo de simpatia ou de categoria social, económica ou ideológica. Uns quantos nos têm pejo nem vergonha de exibirem as suas farpelas de etiqueta, enquanto vão sendo beneméritos com o desentulhar do guarda-roupa fora de moda. Há por aí muita gente que, mesmo escutando (sem escuitar) as pregações religiosas, ainda não entendeu que podem ostentar ofensas às menores possibilidades dos seus vizinhos ou parceiros de emprego.

Por mínima decência será sempre de cuidar em não permitirmos que os nossos gestos, palavras ou a mais singela apresentação possam criar desigualdades entre as pessoas, pois nem todos terão as nossas posses mais comparáveis, pois aquilo que temos deverá sempre enquadrar-se no projeto de Jesus, Ele que em tudo foi, viveu e se orientou pelos critérios da pobreza, onde o mais grave é o apego às coisas e àquilo que possa levar-nos ao egoísmo e à ostentação.

O Natal é, por isso, tempo propício para nos avaliarmos e questionarmos, pois em muito daquilo que vivemos há como que um perigo de ofuscarmos a nudez de Jesus e de não O deixarmos ocupar o lugar que merece na nossa vida pessoal, familiar, eclesial ou social. O Natal não pode ser só exterior, tem de gerar conversão!

    

António Sílvio Couto


sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Avaliação de certas dinastias partidárias…à luz do Natal



Para uns tantos e em certos tempos dá a impressão que se deve enterrar a cabeça na areia, como a avestruz, e fazer-de-conta que tudo corre bem, só porque a eles lhes corre – a vida, as façanhas, as tropelias, as conquistas, as vitórias, as mentiras, os subornos, as cativações, os subsídios, etc. – de feição. Dizemo-lo abrangendo vários campos da nossa condição coletiva e, nalgumas situações, mais de índole pessoal e/ou familiar.
– Quando tantos se insurgem contra a acentuada desmotivação pela política – votante ou participativa – dá-me a impressão de que, quem serve esta vertente humana e social, tem andado mais a pensar em si e nos seus do que a tentar perceber por onde devem caminhar as pretensões dos outros…
Os tentáculos familiares na vida pública não se reduzem à mera instância autárquica, mas estendem-se a muitos outros campos de intervenção, sem esquecer o âmbito do governo central – bastará observar a aglomeração de membros da mesma família (ou famílias) em parentesco executivo… Embora ainda se não possa aferir dalgum nepotismo – ‘favorecimento de parentes e amigos próximos em detrimento de pessoas mais qualificadas’, tendo em conta a nomeação ou elevação de cargos a exercer – explícito, não andará muito longe a curto e a médio prazo… tais são as ramificações entre participantes na área governativa!
Por vezes, as matizações desta doença congénita em muitos regimes autocráticos, democráticos ou com outro sistema de representatividade vão-se degradando com estas manifestações mais ou menos conhecidas, divulgadas ou consentidas… 
– Quando vemos surgirem notícias e declarações, que nos fazem pensar sobre quem influencia quem ou quem se deixa condicionar por quem, poderemos ser levados a refletir sobre a ‘longa manus’ com que certos senhores/senhoras e afins, quando ocupam o poder, fazem crer que têm mais do que autoridade, seja pelo exercício, seja pela bajulação com que se fazem rodear. Por vezes somos levados a acreditar que, por trás da cortina, se movem interesses nem sempre percetíveis por todos ou, pelo menos, com sensatez pelos mais desatentos ou crédulos.
Há casos e acontecimentos que são mais dignos de irrisório do que de complacência, na medida em que mexem com a honorabilidade da maioria do povo simples e trabalhador (não meramente operário), que não entra com facilidade nos meandros de tantas manigâncias, às quais só têm acesso uns tantos iluminados nas oportunidades, nas conveniências e mesmo nas tropelias… Mais uma vez tem-se a sensação de que tais ‘bafejados da sorte’ têm mais esperteza do que inteligência ou, à mistura, com bastante manha e algum poder de influência… até que tudo se descubra. 
– Que tem, então, o Natal a ver com tudo isto? Porque teremos de não deixar passar à margem estas coisas que nos podem aborrecer e não deixar ‘ter’ um Natal pacífico? Valerá a pena andarmos a aborrecer-nos com tais questões, se a maior parte nem atende minimamente a isso?
Antes de mais o Natal irmana-nos na fraternidade trazida por Jesus e o que é feito a um qualquer dos nossos concidadãos atinge-nos a todos. As ofensas à dignidade alheia também nos fere, nem que seja por fazermos parte desta mesma humanidade ferida e ofendida.
Pretender escalonar os diversos cidadãos segundo o seu poder económico – tido, retido ou desviado – é algo que não foi desejado por Jesus, pois pela sua Encarnação – ter-se feito homem connosco – temos iguais direitos e idênticos deveres, para além de que os que mandam ou dirigem não podem fazer-se juízes contra os outros…até porque um dia podem vir a ser apeados de tal poder e não quererão ser tratados como tratam os outros quando subalternos. Por vezes a memória é demasiado curta – senão mesmo seletiva – para com quem foi menosprezado e ofendido pelos executores do poder. Este é efémero e, quem hoje está por cima – assim pensa – amanhã estará em lugar secundário e não quererá ser maltratado como agora faz aos outros!
= O Natal fraterniza-nos, não nos distingue. O Natal faz-nos solidários, não nos separa. O Natal cria em nós sentido de pertença, não exclui. O Natal faz-nos filhos do mesmo Pai, não nos torna enteados nem enjeitados!    


António Sílvio Couto  




segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

Serão as pessoas (mesmo) o essencial?


Para quem não estava habituado a ter equilíbrio orçamental e financeiro, com a possibilidade de melhoras na economia, dá a impressão que alguns se têm deslumbrado com o desempenho dos ganhos e o controlo das perdas… repercutindo-se isso nalguma aceitação nas sondagens. E nem a desculpa de que houve desenquadramento das declarações sobre o adjetivo ‘saboroso’ dado ao ano de 2017 pode-se e deve-se exigir maior seriedade naquilo que se diz e, sobretudo, como se diz, seja lá onde for.

Dá a impressão que alguns dos que ocupam os lugares do poder – ao nível do governo central, nas autarquias, nas instâncias intermédias (como repartições por onde circula o dinheiro…finanças e bancos), onde se cuida (ou devia) a saúde, nos espaços de segurança (social ou policial), nos estabelecimentos de atendimento ao público…mesmo nas esferas do religioso) – na vida de índole social e quase nos contatos pessoais, ficando-se com a sensação de que as pessoas não passam de números, obnubilando as feições dos rostos ou fazendo esquecer o que de mais específico tem cada um de nós. Para uma imensa maioria dos intervenientes nestas instâncias referidas, os pretensos eleitores/votantes/clientes só contam enquanto são precisos como potenciais instrumentalizados para colocarem nesses lugares os que depois mandam… como executantes dos programas de governança, dando a impressão de que seriam bem escusados se tal não fosse proposto pelas regras da ‘democracia’…À boa maneira de ouvir, ainda ouvem, mas mandar é para quem quer e pode! 

= Os factos mais recentes da nossa história/memória coletiva como que nos fazem acentuar esta impressão de que as pessoas não contam para quem governa, pois a massa anónima é fácil de manipular e os mentores do poder exercem-nos com tal autoritarismo que não é muito complicado desmontar as pretensões, os objetivos e as metas das suas façanhas mais ou menos sórdidas. A criação e manutenção de certas maiorias – sociológicas, económicas e culturais – mais uma vez andam à volta dessa espécie de infantilização das pessoas, tornando-as ainda como que joguetes nos interesses ideológicos, partidários e até religiosos duns poucos mais espertos sobre outros menos (bem) informados ou atentos. 

= Esta época do Natal toca por natureza do mistério da encarnação de Jesus o que há de mais humano e elevado da nossa condição: divinizados pelo Menino-Deus somos como irmanados na grande família humana, onde todos têm os mesmos direitos e consubstanciam idênticos deveres. É aqui, neste nó desatado por Jesus, que cada um de nós adquire a sua autêntica carta de libertação: n’Ele, por Ele e com Ele estamos vinculados a sermos e a vivermos como pessoas iguais perante tudo – e não só diante da lei –, nivelando seja qual for ou que está em configuração inferior ou superior. Por isso, tudo quanto foi ou está fora destes princípios será ofensa à dignidade da pessoa humana, seja ela quem for, tenha a idade que tiver, apresente a cultura ou instrução mais simples ou elaborada, revestia-se de que roupagem (cor ou etnia) qualquer, exiba ou não riqueza ou falta dela…

Dir-se-á que no Natal mergulhamos no que há de mais simples da nossa fraternidade e com isso nos fazemos mais irmãos de todos os homens/mulheres. Deste modo o sofrimento ou as menos boas condições de habitação, de alimentação, de emprego, de educação, de saúde, de segurança…é algo que nos afeta a todos, pois há alguém que não está a ser tratado conforme merece. Num tempo de razoável egoísmo tudo isto nos deveria tornar mais solidários, muito para além do que é visível ou notório. As provações dalguns fazem com que todos nos sintamos em dor e sofrimento também. Não podemos fechar-nos nem no nosso mundo familiar para adiarmos a construção da sociedade mais justa porque mais fraterna, solidária e cristã. 

= Está na hora de acordarmos dos nossos interesses e das nossas prendinhas em jeito de anzol, isto é, dando para receber em troca. Temos de estar presentes, fazendo dessa simples presença o melhor presente que não se compra nem se vende, mas que cuida, olha e acaricia quem precisa. O perfume que exala melhor odor é o que dá sem nada esperar em troca, pois se tem em conta que Jesus está naqueles que Ele coloca no nosso caminho para serem tratados com amor, compaixão e misericórdia. Assim haverá verdadeiro e sincero Natal!      

 

António Sílvio Couto  



sábado, 16 de dezembro de 2017

Palavra do ano/2017


São candidatas (por ordem alfabética) a ‘palavra do ano’ de 2017, em Portugal: afeto, cativação, crescimento, desertificação, floresta, gentrificação, incêndios, independentista, peregrino e vencedor.

Esta iniciativa da ‘palavra do ano’ tem por promotor a Porto Editora, sendo seu ‘principal objetivo sublinhar a riqueza lexical e o dinamismo criativo da língua portuguesa, património vivo e precioso de todos os que nela se expressam, acentuando, assim, a importância das palavras e dos seus significados na produção individual e social dos sentidos com que vamos interpretando e construindo a própria vida’.

Reportando-nos a um certo arquivo podemos encontrar como ‘palavra do ano’ de 2009 – esmiuçar; de 2010 – vuvuzela; de 2011 – austeridade; de 2012 – entroikado; de 2013 – bombeiro; de 2014 – corrupção; de 2015 – refugiado; de 2016 – geringonça.

Por mim, para 2017, votei em ‘incêndios’!

A votação teve início em meados de maio deste ano e estende-se, tal como no ano passado, também a Angola e Moçambique, devendo ser anunciada a ‘palavra do ano’ vencedora nos primeiros dias de janeiro.  

= Se tivermos em conta outras iniciativas sobre ‘a palavra do ano’ poderemos referir que segundo o dicionário americano Merriam-Webster a palavra escolhida é ‘feminismo’, tendo presente a luta do movimento em favor das mulheres. Por seu turno, para o dicionário britânico Oxford, a palavra do ano é ‘youthquake’ (terramoto jovem), significando uma mudança cultural, política ou social provocada pelas ações ou a influência dos jovens.

Vemos, deste modo, duas visões em inglês de um e do outro lado do Atlântico, mas reveladoras das culturas em estão inseridas ou como são interpretadas as movimentações sociais nos nossos dias…  

= Se nos ativermos, em Portugal, às escolhas da ‘palavra do ano’ mais recentes podemos ver que elas como que resumem as vivências pessoais e coletivas, tendo em conta a sensibilidade dos votantes e dando-nos ainda perspetivas daquilo que ficará para o futuro de quem quiser interpretar isso que fez alguma história nas estórias decorridas.

De facto, a nossa vida é, efetiva e afetivamente, feita de inúmeros episódios que podem ser lidos mais tarde pelo arco da existência que se escreve por entre situações significativas e de outras que poderemos considerar banais, mas que o não são, pois foi também aí que crescemos sem nos darmos conta… Com que subtileza os anos passam e não podemos deixar que nos façam entrar na rotina dos dias nem das coisas… 

= Quando vemos e ouvimos o responsável máximo do governo em funções resumir o ano de 2017 como ‘saboroso’, dá vontade perguntar: em que país andou? Terá pisado a mesma terra daqueles que sofreram ou morreram por causa dos incêndios? Será que o poder faz as pessoas ficarem sem discernimento para compreenderem quem governam? Por onde anda o bom senso? Não seria preferível deixar os epítetos àqueles que são governados e não se arvorarem em juízes da causa própria? Não seria, antes, de sentir a consciência chamuscada com mais de cem mortos nos incêndios? Este ‘saboroso’ cheira a esturro! 

= Sem querer dar lições, parece que umas das maiores crises da sociedade ocidental, da Europa em particular e de Portugal em especial, é a de não termos líderes à altura dos acontecimentos nem das necessidades mais simples. Talvez estejamos a colher da deficiente sementeira das décadas mais recentes, onde se quis privilegiar o imediatismo e não tanto a visão com futuro, onde os responsáveis olharam mais para a sua sombra – promovendo os seus apaniguados – do que quiseram ter visão de futuro. Com efeito, temos andado, nas mais diferentes instâncias, a fazer o imediato e não a tratarmos do necessário. Ora, o investimento em bons (ou razoáveis) dirigentes não tem sido a prioritária opção dos que ocuparam as tarefas de autoridade, preferindo o poder…com as ilusões que lhe estão apensas.

Desgraçado país e/ou cultura que não consegue perceber para onde caminha. Pessoas com mais humildade, verdade e serviço, precisa-se!

 

António Sílvio Couto



quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Caríssimas IPSS’s


Tem sido notícia nos últimos dias um caso para investigação, envolvendo os responsáveis da ‘Raríssimas – associação nacional de deficiências mentais e raras’, que tem um dos edifícios emblemáticos – ‘a casa dos marcos’ – na Moita.

Dado que estive algumas vezes – em momentos festivos e noutros mais normais – neste espaço e me foi dado conhecer alguns dos responsáveis, sinto que há algo que não está bem em tudo quanto foi dito e tornado público. Deixo a mensagem que enviei à responsável, quando estava mais sob fogo da comunicação social e do público – «Ao cuidado da sr.a Dr.a Paula Brito e Costa. Saudações. Independentemente das causas e das consequências do que tem sido noticiado desejo exprimir a minha solidariedade pessoal pela obra que tem vindo a conduzir, tendo a Moita como lugar de referência. Espero e estimo que nesta hora de tribulação possa haver verdade e bom senso. Subscrevo-me atenciosamente, asc, pároco da Moita».

Nesta mensagem, enviada na manhã de 11 de dezembro, não quis nem pretendi fazer mais do que dar uma palavra a uma pessoa quando nem tudo corre bem ou quando, por vezes, se pode ser alvo daquilo que não foi o melhor… Quando se está por baixo, os ‘amigos’ rareiam! 

= Este caso fez como que fez emergir, na sociedade portuguesa, várias correntes e linhas de leitura, de pensamento, de posicionamento e mesmo de capacidade política… extrapolando duma situação factual para questões similares. 

- Quem trouxe a denúncia à luz do dia (ou da noite) foi uma estação televisiva, através daquilo que alguns reputam de ‘jornalismo de investigação’. Sim fez o seu papel, mas não se pode confundir informação com manipulação dos dados e tão pouco com discursos/reportagens encomendados.

- Houve quem não falou e devia tê-lo feito, criando com tal atitude um vazio de suspeita e alvo de suspeição.

- Vimos aparecerem movimentações nas redes sociais que mais não são do que invetivas de censura e linchamentos de personalidade. A pretensa ‘petição para a demissão da responsável da raríssimas’ chegou a atingir em poucas horas mais de quinze mil peticionários.

- Certos políticos profissionais denunciaram que deviam ter mais memória e coragem, pois uns caíram sem honra e outros não apresentaram honradez para saírem pelo seu próprio pé.

- Em tudo isto vimos que há, na nossa sociedade, algo que faz com que o dinheiro mova as pretensões das pessoas, umas de forma honesta e séria, outras vão enrolando a teia até que se descubra pelas piores razões…   

= Mais o mais grave – digo enquanto colocado, por inerência de funções, também à frente duma IPSS – é que se nota que estamos perante uma espécie de campanha mais ou menos bem urdida com outros objetivos nem sempre claros e ainda sob a efervescência da emotividade. Com efeito, uns tantos mais ortodoxos da teoria do Estado-patrão foram deixando sair pelas entrelinhas que o setor terciário pode estar envolvido em conjeturas tecidas à sombra dum estado menos atento e rigoroso na avaliação das ajudas que dá a milhares de IPSS’s. Uns tantos à pressa foram consultar dados para terem opinião, mas o que captaram foram algumas informações nem sempre credíveis e tão pouco atualizadas. Certos opinadores tentaram meter no mesmo saco – por ignorância ou por nesciência – algo que não é comparável, lançando com isso um manto de suspeição sobre tudo e contra todos, isto é, as instituições cumpridoras ou faltosas, bem como sobre os órgãos de gestão voluntários e os incompetentes…

Tenho ainda no ouvido a intervenção verrinosa dum elemento do setor mais trotskista, que apoia o governo em funções, logo no início da presente legislatura, a invetivar as IPSS’s como uma espécie de antro de lavagem de dinheiro menos claro na nossa sociedade. Quem assim se dirigiu e classificou milhares de pessoas que se dedicam aos outros de forma voluntária e solidária, não deixará escapar esta ou outras situações/casos para fazer alarde social e político, pois, para muitos destes estatizantes, os particulares – isto é, os que não comem, por opção, do prato do Estado-providência – são considerados inimigos e, por isso, a serem combatidos, esmagados ou inutilizados…embora sejam os que pagam os impostos que os sustentam nos lugares de comando. Haja coerência e bom senso!   

 

António Sílvio Couto  



terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Do ‘cristianismo sociológico’ ao ‘cristianismo da escolha’


Há poucos dias foi nomeado o novo arcebispo de Paris, Mons. Michel Aupetit, em substituição do cardeal André Vingt-Trois, que esteve à testa da igreja parisiense nos últimos doze anos. A terminar o seu múnus episcopal, este apresentou ao recém-nomeado os grandes desafios que terá de enfrentar – ele que já foi bispo auxiliar da capital francesa e agora regressa de Auxerre – a saber: a passagem dum cristianismo sociológico para um cristianismo de escolha, arriscando ‘consagrar o essencial das forças da Igreja a fortalecer aqueles que escolheram’ deixar de esquecer os outros… assegurando a transmissão da fé num contexto de secularização generalizada.

Segundo dados do jornal católico francês, Paris tem quinhentos padres para cento e seis paróquias, com mais de oitenta seminaristas, num modo de formação muito específico: em pequenas casas…

Filho da grande diocese parisiense, tal como os seus dois predecessores, Mons. Michel Aupetit conhece a diocese com mais de dois milhões e duzentos mil de habitantes, num quadro de um milhão e meio de praticantes, isto é, de 70% de frequentadores habituais, mas onde os problemas de perda da fé tem vindo a marcar distância num mundo crescentemente secularizado e bastante laicizado. 

= Lucidez para ‘ver-julgar-agir’?

Quem conheça, minimamente, o pensamento francês saberá que eles pensam razoavelmente bem, isto é, com lógica progressiva e com tendência clara, mas nem sempre são capazes de serem bons executantes daquilo que engendram, fazendo com que outros o levem à prática simples, normal e exequível.

Parece ser razoável perceber ainda que a cultura francófona tem vindo a perder estatuto e visibilidade no contexto mundial e europeu. Hoje falar francês é menos fluente do que há décadas (senão séculos) atrás. Com efeito, a cultura anglo-saxónica têm-se imposto com maior agressividade e referência, isto é, a língua de comunicação entre os povos é sobretudo o inglês, mesmo que tenha algum acento americanizado.

Também no pensamento eclesial, o francês tem passado a um campo secundário, onde até a literatura escrita é um tanto residual, seja na quantidade, seja mesmo na qualidade. A outrora ‘França católica’ tem dado espaço a manifestações mais de índole muçulmana do que com incidência cristã. Lembro-me de ter lido, em tempos não muito recuados, que para se falar da ‘quaresma’ naquele país como tempo religioso de expressão católica de jejum e de oração, alguém teve de se socorrer da comparação com o ramadão islâmico ou os ouvintes não captariam o que se pretendia dizer…  

= Cristianismo de rotina ou de rutura?

Deste modo a observação que motiva esta reflexão/partilha sobre a passagem do ‘cristianismo sociológico’ para um ‘cristianismo de escolha’ atinge alguns dos fundamentos da nossa condição de cristãos neste tempo, nesta cultura e mesmo nesta condicionante da história. Efetivamente há sinais que nos devem fazer refletir sobre o modo como chegamos à progressiva laicização da sociedade, senão mesmo da Igreja – não reduzimos a sua expressão à dimensão católica – sobretudo na cultura ocidental, mais de consumo do que de compromisso. Com efeito, os valores e critérios deste tempo andam mais pela área da satisfação material do que da exigência moral/ética. As questões de âmbito espiritual como que têm sido reduzidas ao foro intimista, relegando as expressões de fé para a conduta do privado. Ora, isto faz parte dum plano de amorfismo mais ou menos consentâneo com uma espécie de sacralização do Estado e da sua ética (na maior parte dos casos) republicana, laica e tendencialmente agnóstica. Nesta caminhada parece que convém que se exaltem certos ritos tradicionais, com outras vivências exotéricas à mistura, desde que não entrem em confronto com ‘tradições’ ocas e de verniz social. Como não ver ainda em certos momentos de ‘sacramentos (pretensamente) sociais’, onde se dá atenção mais à forma do que ao conteúdo? Como não sentir ainda que certos batizados e casamentos – tendo por cenário a igreja – não passam de momentos sociológicos sem implicações na vida e na conduta social cristã?

É urgente, também no nosso país, que se faça essa passagem do cristianismo sociológico e de verniz carunchoso para a opção de fé esclarecida, celebrativa e comprometedora da vida no espaço do mundo!     

 

António Sílvio Couto