Partilha de perspectivas... tanto quanto atualizadas.



segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

Serão as pessoas (mesmo) o essencial?


Para quem não estava habituado a ter equilíbrio orçamental e financeiro, com a possibilidade de melhoras na economia, dá a impressão que alguns se têm deslumbrado com o desempenho dos ganhos e o controlo das perdas… repercutindo-se isso nalguma aceitação nas sondagens. E nem a desculpa de que houve desenquadramento das declarações sobre o adjetivo ‘saboroso’ dado ao ano de 2017 pode-se e deve-se exigir maior seriedade naquilo que se diz e, sobretudo, como se diz, seja lá onde for.

Dá a impressão que alguns dos que ocupam os lugares do poder – ao nível do governo central, nas autarquias, nas instâncias intermédias (como repartições por onde circula o dinheiro…finanças e bancos), onde se cuida (ou devia) a saúde, nos espaços de segurança (social ou policial), nos estabelecimentos de atendimento ao público…mesmo nas esferas do religioso) – na vida de índole social e quase nos contatos pessoais, ficando-se com a sensação de que as pessoas não passam de números, obnubilando as feições dos rostos ou fazendo esquecer o que de mais específico tem cada um de nós. Para uma imensa maioria dos intervenientes nestas instâncias referidas, os pretensos eleitores/votantes/clientes só contam enquanto são precisos como potenciais instrumentalizados para colocarem nesses lugares os que depois mandam… como executantes dos programas de governança, dando a impressão de que seriam bem escusados se tal não fosse proposto pelas regras da ‘democracia’…À boa maneira de ouvir, ainda ouvem, mas mandar é para quem quer e pode! 

= Os factos mais recentes da nossa história/memória coletiva como que nos fazem acentuar esta impressão de que as pessoas não contam para quem governa, pois a massa anónima é fácil de manipular e os mentores do poder exercem-nos com tal autoritarismo que não é muito complicado desmontar as pretensões, os objetivos e as metas das suas façanhas mais ou menos sórdidas. A criação e manutenção de certas maiorias – sociológicas, económicas e culturais – mais uma vez andam à volta dessa espécie de infantilização das pessoas, tornando-as ainda como que joguetes nos interesses ideológicos, partidários e até religiosos duns poucos mais espertos sobre outros menos (bem) informados ou atentos. 

= Esta época do Natal toca por natureza do mistério da encarnação de Jesus o que há de mais humano e elevado da nossa condição: divinizados pelo Menino-Deus somos como irmanados na grande família humana, onde todos têm os mesmos direitos e consubstanciam idênticos deveres. É aqui, neste nó desatado por Jesus, que cada um de nós adquire a sua autêntica carta de libertação: n’Ele, por Ele e com Ele estamos vinculados a sermos e a vivermos como pessoas iguais perante tudo – e não só diante da lei –, nivelando seja qual for ou que está em configuração inferior ou superior. Por isso, tudo quanto foi ou está fora destes princípios será ofensa à dignidade da pessoa humana, seja ela quem for, tenha a idade que tiver, apresente a cultura ou instrução mais simples ou elaborada, revestia-se de que roupagem (cor ou etnia) qualquer, exiba ou não riqueza ou falta dela…

Dir-se-á que no Natal mergulhamos no que há de mais simples da nossa fraternidade e com isso nos fazemos mais irmãos de todos os homens/mulheres. Deste modo o sofrimento ou as menos boas condições de habitação, de alimentação, de emprego, de educação, de saúde, de segurança…é algo que nos afeta a todos, pois há alguém que não está a ser tratado conforme merece. Num tempo de razoável egoísmo tudo isto nos deveria tornar mais solidários, muito para além do que é visível ou notório. As provações dalguns fazem com que todos nos sintamos em dor e sofrimento também. Não podemos fechar-nos nem no nosso mundo familiar para adiarmos a construção da sociedade mais justa porque mais fraterna, solidária e cristã. 

= Está na hora de acordarmos dos nossos interesses e das nossas prendinhas em jeito de anzol, isto é, dando para receber em troca. Temos de estar presentes, fazendo dessa simples presença o melhor presente que não se compra nem se vende, mas que cuida, olha e acaricia quem precisa. O perfume que exala melhor odor é o que dá sem nada esperar em troca, pois se tem em conta que Jesus está naqueles que Ele coloca no nosso caminho para serem tratados com amor, compaixão e misericórdia. Assim haverá verdadeiro e sincero Natal!      

 

António Sílvio Couto  



sábado, 16 de dezembro de 2017

Palavra do ano/2017


São candidatas (por ordem alfabética) a ‘palavra do ano’ de 2017, em Portugal: afeto, cativação, crescimento, desertificação, floresta, gentrificação, incêndios, independentista, peregrino e vencedor.

Esta iniciativa da ‘palavra do ano’ tem por promotor a Porto Editora, sendo seu ‘principal objetivo sublinhar a riqueza lexical e o dinamismo criativo da língua portuguesa, património vivo e precioso de todos os que nela se expressam, acentuando, assim, a importância das palavras e dos seus significados na produção individual e social dos sentidos com que vamos interpretando e construindo a própria vida’.

Reportando-nos a um certo arquivo podemos encontrar como ‘palavra do ano’ de 2009 – esmiuçar; de 2010 – vuvuzela; de 2011 – austeridade; de 2012 – entroikado; de 2013 – bombeiro; de 2014 – corrupção; de 2015 – refugiado; de 2016 – geringonça.

Por mim, para 2017, votei em ‘incêndios’!

A votação teve início em meados de maio deste ano e estende-se, tal como no ano passado, também a Angola e Moçambique, devendo ser anunciada a ‘palavra do ano’ vencedora nos primeiros dias de janeiro.  

= Se tivermos em conta outras iniciativas sobre ‘a palavra do ano’ poderemos referir que segundo o dicionário americano Merriam-Webster a palavra escolhida é ‘feminismo’, tendo presente a luta do movimento em favor das mulheres. Por seu turno, para o dicionário britânico Oxford, a palavra do ano é ‘youthquake’ (terramoto jovem), significando uma mudança cultural, política ou social provocada pelas ações ou a influência dos jovens.

Vemos, deste modo, duas visões em inglês de um e do outro lado do Atlântico, mas reveladoras das culturas em estão inseridas ou como são interpretadas as movimentações sociais nos nossos dias…  

= Se nos ativermos, em Portugal, às escolhas da ‘palavra do ano’ mais recentes podemos ver que elas como que resumem as vivências pessoais e coletivas, tendo em conta a sensibilidade dos votantes e dando-nos ainda perspetivas daquilo que ficará para o futuro de quem quiser interpretar isso que fez alguma história nas estórias decorridas.

De facto, a nossa vida é, efetiva e afetivamente, feita de inúmeros episódios que podem ser lidos mais tarde pelo arco da existência que se escreve por entre situações significativas e de outras que poderemos considerar banais, mas que o não são, pois foi também aí que crescemos sem nos darmos conta… Com que subtileza os anos passam e não podemos deixar que nos façam entrar na rotina dos dias nem das coisas… 

= Quando vemos e ouvimos o responsável máximo do governo em funções resumir o ano de 2017 como ‘saboroso’, dá vontade perguntar: em que país andou? Terá pisado a mesma terra daqueles que sofreram ou morreram por causa dos incêndios? Será que o poder faz as pessoas ficarem sem discernimento para compreenderem quem governam? Por onde anda o bom senso? Não seria preferível deixar os epítetos àqueles que são governados e não se arvorarem em juízes da causa própria? Não seria, antes, de sentir a consciência chamuscada com mais de cem mortos nos incêndios? Este ‘saboroso’ cheira a esturro! 

= Sem querer dar lições, parece que umas das maiores crises da sociedade ocidental, da Europa em particular e de Portugal em especial, é a de não termos líderes à altura dos acontecimentos nem das necessidades mais simples. Talvez estejamos a colher da deficiente sementeira das décadas mais recentes, onde se quis privilegiar o imediatismo e não tanto a visão com futuro, onde os responsáveis olharam mais para a sua sombra – promovendo os seus apaniguados – do que quiseram ter visão de futuro. Com efeito, temos andado, nas mais diferentes instâncias, a fazer o imediato e não a tratarmos do necessário. Ora, o investimento em bons (ou razoáveis) dirigentes não tem sido a prioritária opção dos que ocuparam as tarefas de autoridade, preferindo o poder…com as ilusões que lhe estão apensas.

Desgraçado país e/ou cultura que não consegue perceber para onde caminha. Pessoas com mais humildade, verdade e serviço, precisa-se!

 

António Sílvio Couto



quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Caríssimas IPSS’s


Tem sido notícia nos últimos dias um caso para investigação, envolvendo os responsáveis da ‘Raríssimas – associação nacional de deficiências mentais e raras’, que tem um dos edifícios emblemáticos – ‘a casa dos marcos’ – na Moita.

Dado que estive algumas vezes – em momentos festivos e noutros mais normais – neste espaço e me foi dado conhecer alguns dos responsáveis, sinto que há algo que não está bem em tudo quanto foi dito e tornado público. Deixo a mensagem que enviei à responsável, quando estava mais sob fogo da comunicação social e do público – «Ao cuidado da sr.a Dr.a Paula Brito e Costa. Saudações. Independentemente das causas e das consequências do que tem sido noticiado desejo exprimir a minha solidariedade pessoal pela obra que tem vindo a conduzir, tendo a Moita como lugar de referência. Espero e estimo que nesta hora de tribulação possa haver verdade e bom senso. Subscrevo-me atenciosamente, asc, pároco da Moita».

Nesta mensagem, enviada na manhã de 11 de dezembro, não quis nem pretendi fazer mais do que dar uma palavra a uma pessoa quando nem tudo corre bem ou quando, por vezes, se pode ser alvo daquilo que não foi o melhor… Quando se está por baixo, os ‘amigos’ rareiam! 

= Este caso fez como que fez emergir, na sociedade portuguesa, várias correntes e linhas de leitura, de pensamento, de posicionamento e mesmo de capacidade política… extrapolando duma situação factual para questões similares. 

- Quem trouxe a denúncia à luz do dia (ou da noite) foi uma estação televisiva, através daquilo que alguns reputam de ‘jornalismo de investigação’. Sim fez o seu papel, mas não se pode confundir informação com manipulação dos dados e tão pouco com discursos/reportagens encomendados.

- Houve quem não falou e devia tê-lo feito, criando com tal atitude um vazio de suspeita e alvo de suspeição.

- Vimos aparecerem movimentações nas redes sociais que mais não são do que invetivas de censura e linchamentos de personalidade. A pretensa ‘petição para a demissão da responsável da raríssimas’ chegou a atingir em poucas horas mais de quinze mil peticionários.

- Certos políticos profissionais denunciaram que deviam ter mais memória e coragem, pois uns caíram sem honra e outros não apresentaram honradez para saírem pelo seu próprio pé.

- Em tudo isto vimos que há, na nossa sociedade, algo que faz com que o dinheiro mova as pretensões das pessoas, umas de forma honesta e séria, outras vão enrolando a teia até que se descubra pelas piores razões…   

= Mais o mais grave – digo enquanto colocado, por inerência de funções, também à frente duma IPSS – é que se nota que estamos perante uma espécie de campanha mais ou menos bem urdida com outros objetivos nem sempre claros e ainda sob a efervescência da emotividade. Com efeito, uns tantos mais ortodoxos da teoria do Estado-patrão foram deixando sair pelas entrelinhas que o setor terciário pode estar envolvido em conjeturas tecidas à sombra dum estado menos atento e rigoroso na avaliação das ajudas que dá a milhares de IPSS’s. Uns tantos à pressa foram consultar dados para terem opinião, mas o que captaram foram algumas informações nem sempre credíveis e tão pouco atualizadas. Certos opinadores tentaram meter no mesmo saco – por ignorância ou por nesciência – algo que não é comparável, lançando com isso um manto de suspeição sobre tudo e contra todos, isto é, as instituições cumpridoras ou faltosas, bem como sobre os órgãos de gestão voluntários e os incompetentes…

Tenho ainda no ouvido a intervenção verrinosa dum elemento do setor mais trotskista, que apoia o governo em funções, logo no início da presente legislatura, a invetivar as IPSS’s como uma espécie de antro de lavagem de dinheiro menos claro na nossa sociedade. Quem assim se dirigiu e classificou milhares de pessoas que se dedicam aos outros de forma voluntária e solidária, não deixará escapar esta ou outras situações/casos para fazer alarde social e político, pois, para muitos destes estatizantes, os particulares – isto é, os que não comem, por opção, do prato do Estado-providência – são considerados inimigos e, por isso, a serem combatidos, esmagados ou inutilizados…embora sejam os que pagam os impostos que os sustentam nos lugares de comando. Haja coerência e bom senso!   

 

António Sílvio Couto  



terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Do ‘cristianismo sociológico’ ao ‘cristianismo da escolha’


Há poucos dias foi nomeado o novo arcebispo de Paris, Mons. Michel Aupetit, em substituição do cardeal André Vingt-Trois, que esteve à testa da igreja parisiense nos últimos doze anos. A terminar o seu múnus episcopal, este apresentou ao recém-nomeado os grandes desafios que terá de enfrentar – ele que já foi bispo auxiliar da capital francesa e agora regressa de Auxerre – a saber: a passagem dum cristianismo sociológico para um cristianismo de escolha, arriscando ‘consagrar o essencial das forças da Igreja a fortalecer aqueles que escolheram’ deixar de esquecer os outros… assegurando a transmissão da fé num contexto de secularização generalizada.

Segundo dados do jornal católico francês, Paris tem quinhentos padres para cento e seis paróquias, com mais de oitenta seminaristas, num modo de formação muito específico: em pequenas casas…

Filho da grande diocese parisiense, tal como os seus dois predecessores, Mons. Michel Aupetit conhece a diocese com mais de dois milhões e duzentos mil de habitantes, num quadro de um milhão e meio de praticantes, isto é, de 70% de frequentadores habituais, mas onde os problemas de perda da fé tem vindo a marcar distância num mundo crescentemente secularizado e bastante laicizado. 

= Lucidez para ‘ver-julgar-agir’?

Quem conheça, minimamente, o pensamento francês saberá que eles pensam razoavelmente bem, isto é, com lógica progressiva e com tendência clara, mas nem sempre são capazes de serem bons executantes daquilo que engendram, fazendo com que outros o levem à prática simples, normal e exequível.

Parece ser razoável perceber ainda que a cultura francófona tem vindo a perder estatuto e visibilidade no contexto mundial e europeu. Hoje falar francês é menos fluente do que há décadas (senão séculos) atrás. Com efeito, a cultura anglo-saxónica têm-se imposto com maior agressividade e referência, isto é, a língua de comunicação entre os povos é sobretudo o inglês, mesmo que tenha algum acento americanizado.

Também no pensamento eclesial, o francês tem passado a um campo secundário, onde até a literatura escrita é um tanto residual, seja na quantidade, seja mesmo na qualidade. A outrora ‘França católica’ tem dado espaço a manifestações mais de índole muçulmana do que com incidência cristã. Lembro-me de ter lido, em tempos não muito recuados, que para se falar da ‘quaresma’ naquele país como tempo religioso de expressão católica de jejum e de oração, alguém teve de se socorrer da comparação com o ramadão islâmico ou os ouvintes não captariam o que se pretendia dizer…  

= Cristianismo de rotina ou de rutura?

Deste modo a observação que motiva esta reflexão/partilha sobre a passagem do ‘cristianismo sociológico’ para um ‘cristianismo de escolha’ atinge alguns dos fundamentos da nossa condição de cristãos neste tempo, nesta cultura e mesmo nesta condicionante da história. Efetivamente há sinais que nos devem fazer refletir sobre o modo como chegamos à progressiva laicização da sociedade, senão mesmo da Igreja – não reduzimos a sua expressão à dimensão católica – sobretudo na cultura ocidental, mais de consumo do que de compromisso. Com efeito, os valores e critérios deste tempo andam mais pela área da satisfação material do que da exigência moral/ética. As questões de âmbito espiritual como que têm sido reduzidas ao foro intimista, relegando as expressões de fé para a conduta do privado. Ora, isto faz parte dum plano de amorfismo mais ou menos consentâneo com uma espécie de sacralização do Estado e da sua ética (na maior parte dos casos) republicana, laica e tendencialmente agnóstica. Nesta caminhada parece que convém que se exaltem certos ritos tradicionais, com outras vivências exotéricas à mistura, desde que não entrem em confronto com ‘tradições’ ocas e de verniz social. Como não ver ainda em certos momentos de ‘sacramentos (pretensamente) sociais’, onde se dá atenção mais à forma do que ao conteúdo? Como não sentir ainda que certos batizados e casamentos – tendo por cenário a igreja – não passam de momentos sociológicos sem implicações na vida e na conduta social cristã?

É urgente, também no nosso país, que se faça essa passagem do cristianismo sociológico e de verniz carunchoso para a opção de fé esclarecida, celebrativa e comprometedora da vida no espaço do mundo!     

 

António Sílvio Couto


sábado, 9 de dezembro de 2017

Ao estado (deplorável) a que chegamos…


Por entre os mais recentes assuntos da ‘nossa’ vida política, económica, social e até religiosa, veio-me à lembrança uma observação que ouvi a um dos escolhidos para uma tarefa de âmbito comunitário/coletivo: vejam lá a que estado chegou a minha… (encubro a entidade) para me escolherem a mim! Parece que não tinham melhor!

De facto, ao vermos a eleição do ministro das finanças de cá como o escolhido para mandar – será que o presente não é um engulho encapotado? – na Europa…fica-nos a sensação que teve o lugar, sobretudo, tendo em conta a coloração ideológica e pouco menos.

– Ao vermos surgirem como solução pessoas que, noutras épocas não seriam tidas nem achadas para qualquer caso, mais parecem ser problema, dada a sua complexidade e falta de qualificação…podendo, muito em breve, passarem a ser, de facto, complicações sérias.  

– Quando vemos serem entregues tarefas de responsabilidade mais a quem se insinua do que a quem reúne as condições para o exercício das missões em perspetiva e/ou em execução… dizemos isto envolvendo mesmo serviços de âmbito religioso/católico.

– Quando vemos ser nivelado pelos pés aquilo que deveria ser apreciado pela melhor e mais alta prossecução de objetivos e de desafios… incluindo movimentações no setor desportivo/clubístico mais assanhado.

– Quando vemos que quem defende a atual tendências da economia da geringonça, mas já adverte de que ‘vamo-nos aproximando de um novo colapso financeiro’…por que não havemos de acreditar nesta prevenção e não nas ilusões que, diariamente, nos vendem.

– É notório que a maior parte da comunicação social tem um (quase) ódio de estimação pelo atual presidente americano, bastando um leve aceno contra uma tal corrente instalada e logo surgem atos e factos que deixam o homem num estado deplorável… Será que a mais recente luta – contra a simples e significativa mudança de embaixada para Jerusalém – merece tal tratamento noticioso e opinativo? Não andaremos a servir outros interesses bem mais perigosos e mortíferos? Temo quase sempre essa leitura de carneirada sobre certos assuntos e para com determinadas pessoas… pois a tendência dialética formatou muita gente! 

Esta meia dúzia de ‘episódios’ aduzidos – a lista poderia estender-se por dezenas – traz-me à memória a necessidade que temos de saber quem somos, qual a nossa missão ou tarefa a desenvolver e, sobretudo, essa questão simbólica: depois da minha passagem pelo espaço disto a que chamamos Terra, qual o rasto que vou deixar: será meramente de lixo ou desejo, posso e quero semear algo que deixe o mundo mais humano e, por isso, mais cristão?

Porque somos todos muito mais do que um amontoado de átomos ou um conglomerado de células. Porque temos todos a marca divina, mesmo quem nem sempre a assumamos ou cultivemos. Porque não há ninguém que não tenha nada a dar e muito menos a receber. Porque vivemos numa interdependência contínua e crescente. Porque só poderemos crescer – humana, intelectual/emocional e culturalmente – quando nos abrimos aos outros, pela diferença e a complementaridade.

Será preciso que não nos deixemos adormecer pelos embalos subtis de quem nos comanda, seja lá a ‘autoridade’ que for, pois nunca poderão matar em nós a dimensão mais humana da nossa condição vivente: a da espiritualidade, particularmente tendo em conta a nossa memória pessoal, familiar e comunitária. Ora é isso que celebramos no Natal: a fundamentação da nossa fraternidade universal, pois um Deus fez-se homem e pela sua encarnação nos veio divinizar. Tudo o resto que se possa apensar ao Natal não acrescenta nada de significativo. Este mistério dum Deus-humanado deve fazer-nos mais humildes e verdadeiros, mais simples e sinceros, mais capazes de olharmos os outros de frente, pois neles nos revemos e aprofundamos, colhendo as lições de sabermos aprender com os nossos erros e com os sucessos alheios…  

Vinte e um séculos depois do nascimento de Cristo parece que estamos ainda a começar. Agora a caminhada tem outras dificuldades, na medida em que alguns, que vivem como se Deus não-existisse, nem sempre respeitam com idêntica atitude tal como gostam de ser respeitados. Nesta cultura ocidental, particularmente europeia, há quem usufrua dum certo espírito de cristandade, mas satirize o que lhe dá origem… Assim, não!

 

António Sílvio Couto  



segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Bisbilhotice – terrorismo em marcha


‘Alguns podem criticar-me, porque sou repetitivo nisto, mas para mim é fundamental: o inimigo da harmonia numa comunidade religiosa é o espírito de maledicência’ – disse o Papa Francisco numa das suas últimas intervenções por ocasião da visita apostólica ao Bangladesh.

O Papa considerou mesmo que bisbilhotar e falar mal dos outros é como fazer terrorismo, exemplificando: aquele que ‘vai falar mal dos outros não o diz publicamente, tal como o terrorista não o diz publicamente. Aquele que vai falar dos outros fá-lo às escondidas. Atira a bomba e vai-se embora e a bomba destrói tudo e ele vai tranquilamente colocar outras’.

Quem assim fala conhece muito de perto a realidade das nossas ‘comunidades’ (grupos, movimentos, paróquias, dioceses… espaços de convívio social, lugares de trabalho…situações da política ou da comunicação social) e, certamente, sentiu-o no contacto com os outros, senão mesmo terá participado nesse ‘terrorismo’, que é muito mais do que verbal, mas denota essa praga social da má-língua, maledicência, murmuração, calhandrice e tudo o resto que faz com que nos ‘entretenhamos’ substancialmente a falar dos outros…de preferência mal!

Em tempos recuados ouvi, aduzido dum padre numa localidade rural, que dizia nas suas homilias, quando se estava a referir a algum assunto mais delicado (ou não): ‘e eu estou a vê-los’… Isso mesmo se pode agora reportar ao que o Papa Francisco – em vésperas de começarmos o Advento – disse lá no longínquo Oriente. Com efeito, quando se vai conhecendo um lugar onde vivemos e onde podemos ir conhecendo as pessoas e o seu modo de ser, poderemos referir, sem medo de errar, que estamos a ver quem, falando mal dos outros, pratica terrorismo e que não é nem mais ou menos só verbal, pois de muito do que se diz vemos o mau ambiente que cria e como que se difunde, qual veneno infernal em tantos dos nossos espaços… De pouco adianta andarmos a colocar cataplasmas sobre feridas mal curadas, pois a bisbilhotice emerge de pessoas mal resolvidas na sua personalidade e que infetam o ambiente em que se encontram, pois, se estou de mal comigo mesmo, terei a tendência em criar mal-estar à minha volta, espargindo críticas a tudo e a todos, do alto desse meu pedestal julgador e não-julgado.

Quantas vezes se apanha mais depressa uma conversa de maledicência do que uma oportunidade em nos edificarmos falando de algo positivo dos outros, pois de nós mesmos estamos (quase) sempre a fazer verificar que temos razão, mesmo que sejamos os culpados desse terrorismo tão comum e não disfarçado. Será muito útil e benéfico que, neste tempo de preparação para o Natal, sejamos daqueles que estão vigilantes sobre as suas palavras, cuidando em não entramos na má-língua e tão pouco em sermos os iniciadores das conversas que irão dar tais frutos.

Temos de fazer o nosso diagnóstico sincero e exigente, considerando-nos potenciais terroristas, senão no ativo, ao menos na cobardia em contribuirmos para o mau-ambiente de tantos dos nossos espaços de vida, a começar pela família. Com efeito, talvez seja aqui que aprendemos as lições mais básicas, pois, se, na nossa casa, se ‘enterram vivos e desenterram mortos, como não seremos bons aprendizes de maledicência e da confusão de valores sobre a idoneidade alheia… e nem será preciso afirmar, bastará insinuar. Não será preciso ser-se grande especialista em educação para percebermos que as crianças são quem melhor denuncia o ambiente familiar. Com relativa facilidade poderemos penetrar nos meandros da vida familiar se virmos uma criança negativa, distorcendo as palavras que são ditas ou mesmo dando sentido diverso àquilo que foi falado… Isto é muito mais percetível do que parece!

Inverter este clima de terrorismo – como o Papa denunciou – é tarefa de todos, a começar pelos educadores, pais/avós e todos quantos têm a missão de contribuir para que seja criado um mundo mais leal e sincero, mais verdadeiro e honesto, mais respeitador dos outros e de si mesmo…

A fabricação das bombas deste terrorismo pode ser atalhada com atitudes e gestos, palavras e sinais mais simples do que o complexo combate ao terrorismo fundamentalista com que nos temos vindo a entreter. Bastará colocar uma vigia na boca de cada um de nós, numa nova ética onde ‘quando se fale dos outros seja para dizer bem’ ou, então, estar calado…Vamos começar, já?   

 

António Sílvio Couto


sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Para uma ‘carta de motivação’


Já passou o tempo em que alguém conseguia um trabalho de forma tão direta – sem intermediários nem artifícios e tão pouco influências diretas ou indiretas – que bastaria a palavra do candidato e o acordo com o empregador para que o tão desejado lugar lhe fosse dado rapidamente. Na concorrência aos mais disputados lugares tem vindo a ser preciso submeter os pretendentes a alguma triagem, sob a apresentação do curriculum (há milhentas sugestões na internet), a uma possível entrevista mais personalizada e ainda esperar pela seleção definitiva…fazendo este percurso em tantas quantas as tentativas para arranjar/conseguir emprego!

Confesso a minha ignorância, que nunca tinha ouvido – até à apresentação de candidatura pública do ministro das finanças ao cargo de chefe do euro-grupo – numa tal ‘carta de motivação’. Socorrido da consulta internetana sobre o assunto encontrei os seguintes elementos:

* O que é? Uma ‘carta de motivação’ é considerado um documento que é enviado em conjunto com o curriculum, quando alguém se candidata a um emprego, apresentando a motivação do requerente a quem vai analisar o pretendido…

* Regras para escrever uma carta de motivação:

– quanto à forma não deve ter mais do que quinhentas palavras (cerca duma folha A4), com três curtos parágrafos, redigida em computador e não manualmente, sem erros ortográficos;

– sobre o conteúdo deve usar uma linguagem simples e direta, com os dados pessoais do candidato colocados no topo da página do lado direito, dirigida a uma pessoa e não ao geral da empresa, explicitando qual a vaga a que se candidata com os motivos convincentes para esse lugar, colocando os seus motivos positivos para corresponder ao anúncio de emprego…

* Elementos recomendáveis a apresentar – terá de saber apresentar os seus pontos positivos de candidato, seja a experiência profissional, se a tiver, ou percurso académico, se é recém-formado. Dever-se-á valorizar o candidato naquilo que o destaca do resto doutros possíveis candidatos, tais como o seu perfil de voluntariado, de pai ou mãe bem realizado ou de caraterísticas mais pessoais. Deverá saber o candidato dar razões para que possa ser uma mais-valia para quem o contrate…

Ficamo-nos por elencar alguns elementos da dita ‘carta de motivação’. Há erros a evitar. Há modelos sugeridos. Há dicas para tentar convencer… e tudo o mais que se pode encontrar em consulta na internet.

Por breves momentos vamos tentar fixar-nos no objeto da ‘carta de motivação’, pois dá a impressão que andamos muito distraídos destas coisas mínimas e nem sempre nos centramos no essencial.

– Além do valor da pessoa, apresentada no curriculum vitae, temos de saber quais as suas motivações. Pretender revelar-se aos outros é uma tarefa de assaz complexidade, dado que pode tentar fazer passar-se por alguém que ainda não prestou provas daquilo que diz ser ou ter, sobretudo se estivermos diante duma pessoa acabada de formar ou sem experiência de emprego, ou, pior ainda, se vem saltitando de emprego em emprego sem conseguir estabilidade… Fazer crer que é o mais competente para o cargo será tarefa nem sempre fácil de desempenhar, se for demasiado novo ou o historial de empregos ultrapassar a competência de trabalho… Quantos querem emprego e não trabalho!

– Atendendo ao emaranhado de relações em que vivemos e nos confrontamos cada dia, será sempre importante sabermos mais da personalidade de cada pessoa do que até dos conhecimentos adquiridos – tendo em conta a escola/faculdade onde foi formada mais do que o grau conseguido – na medida em que também os outros são pessoas que devem ser respeitadas no seu percurso humano, cultural e social. Não vale tudo para atingir os seus fins, pois os meios não são todos aceitáveis nem toleráveis.

 

= Numa nota final gostaria de deixar uma sugestão para aqueles que têm a responsabilidade de colocar, no contexto da Igreja católica, os padres nos seus lugares de serviço: seria muito útil que cada padre escrevesse a sua ‘carta de motivação’, dando as razões do seu préstimo pastoral. Talvez isso facilitasse a tarefa aos responsáveis e ajudasse a conhecer quem presta serviços. Não seria ainda de descuidar a necessidade de incluir na tal ‘carta de motivação’ a capacidade de saber integrar-se no dito presbitério, isto é, o conjunto dos outros e com outros padres da mesma diocese…Talvez tivéssemos muitas novidades e surpresas!       

 

António Sílvio Couto