Partilha de perspectivas... tanto quanto atualizadas.



sábado, 18 de novembro de 2017

Rumos enviesados…contra a Igreja


Um tal autoapelidado grupo ou grupelho de ‘coordenação nacional de rumos novos – católicas e católicos lgbt (portugal)’ fez chegar ao princípio da noite de 16 de novembro passado uma inflamada «posição pública face ao comunicado da 193.ª assembleia plenária da conferência episcopal portuguesa».

Não reproduzimos qualquer designação da entidade citada em letras maiúsculas, pois a dita comunicação – recebi-a na forma de endereço pela paróquia onde tenho nomeação de funções – faz-nos fazer crer que representa alguém…embora não saibamos quais são os seus mentores, quem são os aderentes ou até onde se situam os apaniguados…dado que não assinam nem mostram o rosto, se é que o têm! 

= Se nos ativermos às ‘fontes’ citadas, quem redige esta comunicação teve acesso a documentos atualizados da formação dos seminaristas, pois cita o ‘Ratio fundamentalis institutionis sacerdotalis – o dom da vocação presbiteral’ com publicação a 8 de dezembro de 2016 e que apresenta diretrizes muito exigentes sobre o acesso ao seminário e, por conseguinte, à ordenação sacerdotal, colocando restrições, parâmetros e exclusões de quem manifeste tendências homossexuais, tanto para serem aceites nos seminários, como para o exercício do ministério sacerdotal… O Papa Francisco tem sido intransigente e, nalguns casos muito duro, sobre esta matéria e as diferentes ramificações que ela representa atualmente na Igreja católica. 

= Depois de aduzirem uma citação do catecismo da Igreja católica, de que não apresentam a localização – são os números 2357-2359 – sobre o acolhimento a quem apresente orientação homossexual, os tais autores do comunicado confundem a vivência celibatária com a sua ansiada afirmação lgbt (lésbicas, gays, bissexuais e transexuais), invetivando as palavras do presidente da Conferência Episcopal Portuguesa e dando a entender que certas bases científicas lhes dão razão. Quais serão elas, se não as referem cientificamente? Porque tentam ridicularizar as afirmações do presidente da CEP só por que não são de acordo com as suas pretensões? Porque tentam refugiar-se no desvio – conveniente, acintoso e provocador – de que os casos de pedofilia não têm nada a ver com questões de homossexualidade? 

= Citamos, por conter algo de inoportuno, aviltante e até de mesquinho, o tal comunciado: ‘Na rumos novos – católicas e católicos lgbt conhecemos muitos sacerdotes homossexuais, que se entregam seriamente ao seu ministério, mas também conhecemos muitos outros com afilhados, sobrinhos, governantas e afins, aos quais, muitas vezes, se olha para o outro lado. Qual é mais fiel a Cristo e ao ensinamento da Igreja?’.

Sejam lá quem forem esses/as da ‘rumos novos’ não têm direito algum de lançar qualquer labéu sobre quem sempre quis viver uma vida séria de entrega a Deus e ainda de querem misturar tendências com pecados ou que queram confundir interesses de lóbi com propostas de vida no sacerdócio celibatário e católico.

É verdade que temos de enfrentar os desafios com respostas que não sejam de ontem, mas não será com a passagem de esponjas envernizadas duma pretensa mentalidade light que iremos construir uma Igreja de Jesus Cristo atualizada ao ritmo dos sinais dos tempos, como dizem, citando o Concílio Vaticano II. Estes sinais não podem nunca servir para voltarmos à cultura pré-vetero-testamentária de sodoma e de gomorra (Gn 19,1-29), onde as tais tendências e manifestações homossexuais foram castigadas por Deus – entenda-se a linguagem mítica – com ‘fogo e enxofre’!                   

= O senhor presidente da CEP falou, respondendo a perguntas, mas a matéria continua um tanto difusa como se o silêncio possa significar concordância sobre assuntos fulcrais para a condução da Igreja neste tempo e nesta terra…lusitana. E nem os erros, os pecados, as falhas, as conveniências sejam lá de quem forem, podem fazer tresler quem tem a função de conduzir a Igreja por entre nuvens e trovoadas, através de tempestades ou de situações de seca (mais de índole espiritual do que a de âmbito climatérico)… reconhecendo cada qual a meta para onde caminha sem se deixar tropeçar nas etapas mais ou menos sinuosas do dia-a-dia…

Precisamos de saber, efetiva e afetivamente, o rumo… para não nos deixarmos distrair por cigarras de ocasião!

 

António Sílvio Couto



terça-feira, 14 de novembro de 2017

Será uma certa necrofilia…social?


Os atos mais recentes dalguns setores sociais parecem denunciar que algo vai mal na vida duns tantos, pois parecem preferir a morte à vida, os mortos aos vivos, seja nos contactos mais sérios, seja nalguns momentos da vida…cultural, cívica e social.

Desde logo ‘necrofilia’ quer dizer ‘amor’ (filia) pelos ‘mortos’/cadáveres (nekros) e, embora lhe seja dado um certo teor de âmbito sexual, poderá ter um alcance etimológico de contacto com mortos, com os lugares onde eles possam estar, como cemitérios ou outros, tendo com isso e nisso algum prazer…

O episódio do jantar de gala de enceramento da ‘Web summit’ 2017, no átrio principal da igreja de Santa Engrácia – indevidamente reduzido a panteão – ‘pan’ (todo), ‘teon’ (deuses) – nacional, que se alarga a mais espaços, como os mosteiros dos Jerónimos, da Batalha e de Santa Cruz – trouxe à discussão algo que tem tanto de interessante, quanto de mais fundo do que a mera coincidência de reações e de discussões mais ou menos fundamentalistas.

Tirada a possível carga economicista que se quis dar ao episódio, teremos de ir um pouco mais adiante na descoberta de certos factos e do seu significado. Com efeito, se já os espaços de repouso dos restos mortais de alguém não merecem o mínimo de respeito, talvez estejamos a abrir uma nova caixa de pandora, onde nada nem ninguém estará a salvo. Sem qualquer laivo de humor negro, seria de questionar se não poderá haver um possível réveillon nalgum desses cemitérios espalhados por todo o país e que são dignos espaços museológicos dentro da arte e do estilo…

Ora, depois duma espécie de tanatofobia, dá a impressão que se prepara um novo ciclo em que a morte será como que desmistificada senão mesmo se andará mais na área da tanatolatria, isto é, em busca duma estética da morte e daquilo que a ela pode conduzir. Repare-se no incremento do apelidado ‘dia das bruxas’ e do folclore que à sua volta se tem vindo a desenvolver: mais do que uma brincadeira infantil, estamos a semear sinais de culto da morte, senão de forma clara ao menos de forma tácita. Os adereços do horrível – em meu entendimento – com que se faz essa quase ‘celebração’ apontam mais para uma cultura da morte do que da vida. Diga-se: parece que se vulgarizou a morte e não como referência para se conduzir na vida, mas como referencial de conduta social e cultural.

A ocupação do átrio da igreja de Santa Engrácia para eventos sociais e bem pagos tem feito reverter para o estado algumas somas económicas e nem as reações mais indignadas de certos intervenientes políticos salvaguardam a indignidade em serem usados estes espaços que ainda eram redutos de bom senso e não estavam expostos à voragem mais economicista. Com efeito, os episódios recentes e os mais antigos como que revelam que o fator dinheiro se sobrepõe aos valores humanos e éticos…seja qual for a governança – estatal ou camarária – que o permita, tolere ou incentive.

Torna-se, por isso, urgente reconsiderar sobre as causas que motivam tantos dos nossos governantes, pois, na maior parte dos casos, não olham a meios para atingirem os seus fins, sejam tácitos ou explicitados. Uns precisam de dinheiro, outros auspiciam fama e honrarias; uns tantos querem aparecer nem que seja à custa de vilipendiarem os valores pátrios, outros usufruem dos proventos e clamam por moralidade, quando se deixaram prostituir pelo vil metal; uns correm a verberar quem ousou mudar as regras, outros deixam que as mesmas regras possam estar no topo da venda de anúncios de empresas de catering…desde que sejam eles os beneficiários!

A vergonha maior é que se vai brincando com aquilo que nos devia fazer refletir: a morte e as condições de vida em que nos desenvolvemos. Há por aí muita gente que precisa duma terapia de humildade/humilhação, dado que, vivendo na superficialidade, vão-se entretendo a discutir fait-divers, que farão corar de pasmo quem ainda tenha algo que faça refletir sobre o essencial da existência…

Assim com tanta vulgaridade em tratar estes assuntos, quem não temerá pelo futuro deste país de brandos costumes e de canções de escárnio-e-de- maldizer? Esta é a nossa especialidade coletiva…escarnecer e ousar brincar com coisas muito sérias. Assim não a deixemos adormecer com conluios e jogadas de oportunismo!

 

António Sílvio Couto



sábado, 11 de novembro de 2017

Habilidades na tecnologia


Nos tempos que decorrem vemos surgirem continuamente mais e melhores tecnologias, umas suplantando outras, algumas recriadas das já existentes e bastantes inovadoras… Foi isso e muito mais que esteve em destaque esta semana na ‘Web summit’, que decorreu, em Lisboa, para gaudio de milhares e milhares de expertos na matéria…

Não é, essencialmente, sobre este evento que desejamos refletir. Dele se disse o suficiente para o acharem comparável à façanha dos descobrimentos dos séculos XV e XVI. Em edição desde 2009 – as cinco primeiras edições em Dublin, Irlanda do Norte e as duas últimas em Lisboa, tendo passado ainda por Londres – esta conferência de tecnologia global serve para aferir dos progressos e das perspetivas nesta área de atividade…cada vez mais abrangente.

Desejamos falar sobretudo dessa evolução do ‘homo sapiens’ para o ‘homo tecnologicus’, cujas capacidades tão fortemente vem influenciando a nossa vida, desde os pormenores mais simples e bizarros até aos mais complexos e sofisticados.

O domínio crescente da tecnologia tem vindo a favorecer a nossa vida. Mesmo sem nos darmos conta disso, vivemos rodeados de tecnologias, qual delas a que menos somos capazes de dominar, mas antes como que nos dominam, tanto na utilidade, quanto nas subtilezas com que somos confrontados, sabe-se lá, quase dominados…   

= Atendendo à virulência desta intensa etapa tecnológica da nossa condição humana, há questões que se podem/devem colocar, em ordem a não sermos meramente manipulados pela galopante evolução deste sector no contexto cultural, económico e social.  

* Não será que o uso intensivo da tecnologia estará a fazer diminuir as nossas capacidades pessoais?

* O uso/abuso da tecnologia não estará a fazermos menos inteligentes e menos livres, embora mais práticos e talvez eficientes?

* Por entre tantos artefactos tecnológicos – apresentados, pressupostos e induzidos – não se encobrirão uns tantos habilidosos sob a capa de esperteza e ensombrando os mais inteligentes?

* A intensa dependência dos meios de tecnologia – telemóveis, tablets, internet, redes sociais e tantos outros pretensos adereços úteis e de autopromoção – não estará a criar novos ‘drogados’ e dependentes egocêntricos, egoístas e hipocondríacos?

* A submissão a tantos dos meios da tecnologia não estará a criar novas dependências psíquico-emocionais que poderão interferir na evolução da capacidade humana de relacionamento entre todos?

* A tecnologia não se terá tornado uma finalidade nela mesma, em vez de ser só uma ferramenta criada pelas pessoas e colocada ao serviço delas?  

= Neste, como em tantos outros campos da atividade humana, nada é bom nem é mau, tudo depende do uso que lhe dermos ou soubermos dar. Assim, a tecnologia mais recente ligada ao domínio da comunicação global tem vindo a ser uma ferramenta que tem sido usada – tanto quanto se percebe – de forma humanista, com alguns casos nem sempre corroborados com esta visão mais ou menos otimista. Com efeito, há casos em que as tecnologias – poderá ser abusivo ainda usar a designação de ‘novas’, pois para muitos (os mais novos) são as únicas que conhecem – de comunicação podem ser usadas por mentes menos bem-intencionadas.

Em certos setores – sobretudo nos ligados à comunicação social… nas suas diversas vertentes – dá a impressão que tem vindo a ser usado em excesso a expressão – ‘contar uma história’ (e esta nem sempre será escrita nesta grafia, mas antes como ‘estória’, isto é, narrativa nem sempre verídica ou verificável) – na aceção de querer dizer algo que não seja menos atrativo e se torne mais aceitável… Ora, a tecnologia não poderá tender a subverter a apresentação das notícias, dos factos, dos acontecimentos, das situações, dos casos… mesmo que se revistam de roupagem dramática e menos light…

As habilidades da tecnologia não poderão ser colocadas ao serviço de outra coisa que não seja a verdade, mesmo que nua e crua, mas sempre verosímil… A tecnologia há de um instrumento da Verdade, sempre!    

 

António Sílvio Couto



quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Concelhos mais caros…


O valor médio por metro quadrado das casas situa-se, na maioria dos concelhos, em Portugal, neste momento, em 898 euros. Há, no entanto, quarenta e um municípios que registam valores de venda de habitação superiores a essa média. A parte mais significativa desses concelhos encontra-se na área metropolitana da capital – Lisboa, Cascais e Oeiras – e no Algarve – Loulé, Lagos, Albufeira, Lagoa, Tavira e Vila do Bispo. Em Lisboa concretamente o valor médio do custo das habitações situou-se em 2231 euros por metro quadro…

Se atendermos ao norte do país encontramos que Porto e Matosinhos, respetivamente com 1117 euros e 1035 euros por metro quadro, ultrapassam aquela barreira média nacional. Mas também noutros municípios tal fasquia é ultrapassada, como acontece na Nazaré, Coimbra, Esposende, Évora, Funchal, Ponta do Sol e Porto Santo… No interior – norte, centro e Alentejo – a maior parte dos preços nestes municípios não atinge claramente a média nacional… 

= A bolha do imobiliário está de volta e torna-se essencial perceber aonde vamos chegar, por forma a compreendermos que país somos e quais são as linhas com que nos cosemos…agora e no futuro.

Se tivermos em conta que todos merecem uma habitação condigna, teremos de questionar porque se tem vindo a verificar esta subida de mais de seis por cento em relação a período homólogo do ano passado e, segundo especialistas do sector, com tendência a manter a progressão especulativa em quatro ou cinco por cento nos próximos anos…  

= Será que o boom de turismo e do investimento estrangeiro poderão explicar esta nova vaga na área do imobiliário? Quem beneficia com este crescimento, serão os cidadãos ou os especuladores? Nas autarquias não se viverá muito desta ‘política’ de cimento – edificado ou a construir – em vez dos cuidados às populações? Quando vemos crescer esta tendência que tantos males já nos trouxe noutras épocas, onde se situa o bem-estar básico das populações? Com a prática de tais procedimentos não estaremos a promover um país ainda mais desequilibrado social e economicamente? 

= Por outro lado, foi noticiado recentemente, que, em média, por dia, cinco famílias são despejadas das suas casas, em grande parte por falta de pagamento das rendas. Este problema não pode ser ignorado, pois o direito à habitação é um dos mais básicos e essenciais da nossa condição humana.

Seria uma ofensa a quem estiver na situação de despejado que nada seja feito pela concretização desse direito na prática. Há por aí muita gente que fala da defesa deste direito, mas que depois não dá os passos necessários para que tal se concretize. Muitas das leis do arrendamento como que não deixam que os mais desfavorecidos possam ter a sua casa, antes dificultam esse objetivo que será o de cada um – pessoal e familiarmente – poder viver com dignidade numa habitação adequada. Só quem nunca tiver escutado os pedidos de ajuda para pagamento das rendas ou quem não tenha ajudado a atenuar essa contrariedade é que poderá não se deixar sensibilizar por tal problema humano e social…com grande atualidade. 

= A opção pelos bairros de habitação (dita) social foi um desastre na maior parte dos casos, criando mais problemas do que aqueles que pretendia resolver. Muitas pessoas foram como que amontoadas nesses ‘caixotes’ com gente lá dentro, juntando situações graves de relacionamento entre culturas e proveniências sociais, sem ter havido um processo pedagógico de inculturação e de mentalização mínima para a convivência. Não é por acaso que muitos dos conflitos até judiciais têm esses espaços como pano de fundo, pois muitas pessoas foram enjauladas depois de estarem à sua vontade em espaços rurais e de largueza em matéria de vizinhança. Por isso, ajuntadas um tanto à força e apregoando direitos sem deveres, foram como que as sementes para problemas entre pessoas que tiveram de aprender a estar próximas e desafiadas a condividir espaços e interesses… nem sempre reconhecidos e tolerados.

Todos merecem uma habitação onde se possam sentir bem… mas não será preciso ser tão cara!  

 

António Sílvio Couto



sábado, 4 de novembro de 2017

Questões de memória…ativa e agradecida


A vivência, por estes dias, da solenidade de Todos-os-Santos e a comemoração dos Fiéis Defuntos, traz-nos à memória momentos e situações, factos e pessoas, episódios e recordações para com aqueles que nos precederam na vida e na fé.

Na oração eucarística primeira (ou Cânone romano) do ordinário da missa rezamos: ‘lembrai-vos, Senhor, dos vossos servos e servas [N. N], que partiram antes de nós marcados com o sinal da fé e agora dormem o sono da paz’… e cada um recorda os nomes da sua lembrança, de quem faz memória ou sobre quem pede sufrágio.

Se há virtude que talvez ande mais arredada da conduta humana parece ser a da gratidão, pois, de muitas formas e por vários modos, vemos que o esquecimento é mais do que atroz, o não-reconhecimento dado a outrem (sobretudo não-vivo) é preocupante e a superficialidade para com quem temos pontos de dever são mais do que as ofensas todas juntas num ramalhete floral…barato e insignificante.

Há coisas que doem mais do que todos os outros achaques. Há esquecimentos que torturam mais do que qualquer outra forma de empobrecimento moral e cultural. Há resquícios de ruindade ética que perduram muito para além do tempo e das suas circunstâncias…  

Se já nem nesta época do ano lembramos quem nos ligam laços de sangue, de amizade ou mesmo de fé, estaremos a caminhar de forma perigosa para uma sociedade sem memória e sem história, sem capacidade de admiração e sem ligações afetivas mínimas, sem vivência dos factos grandiosos e sem que haja futuro dado que o passado foi renegado…

Se há quem viva excessivamente em volta do ‘culto dos cemitérios’, há, por seu turno, quem nunca deles de aproxime, como se com tal atitude conseguissem não terem de enfrentar tal realidade (ou alguma outra idêntica) de passagem da contingência embrionária para a declaração da mesma, através duma forma mais ou menos assumida… O equilíbrio – nisto como em tantas outras coisas da vida – é o melhor caminho e a forma mais salutar de ser normal e sobrenatural, isto é, de saber ver o que se vê com olhos, que ultrapassam as aparências, mesmo as mais funestas. 

= Desafios de santidade…contínua

Neste emaranhado de coisas da nossa vida, podemos e devemos perguntar sobre se há algum caminho simples (o que nem sempre quererá dizer fácil), exequível e progressivo desse grande desafio com que somos convidados a viver, esse de sermos santos. Antes de tudo será útil referir que não está vedado a ninguém e não há quem possa dele ser excluído só porque não pertence a uma determinada classe ou setor social, nível religioso ou etário, de instrução ou cultura.

O caminho da santidade – onde a questão da memória está presente e se torna essencial – passa pela santificação nas coisas simples do nosso dia-a-dia, isto é, nas tarefas mais ordinárias – no sentido de normais, vulgares, sem espalhafato – que compõem o nosso viver: aí onde tudo tem valor e é valorizado, onde cada pessoa é tida em conta e não é ultrapassada pelo telefonema de ocasião ou da urgência (quase) inútil, onde cada um se coloca com intensidade em tudo o que faz (como se possa ser a última vez que o realiza), onde cada aspeto diário ganha dimensão de eternidade, único e irrepetível…

Assim, qualquer que seja o esquecimento ou a não-memória torna-se algo de ofensivo, tanto para com quem não cuidamos, como para com quem não seja atendido pelas nossas ocupações mais ou menos importantes, mas, por vezes, são tão insignificantes e dispensáveis, que, um dia, haveremos de nos envergonhar por não termos dado a necessária atenção a quem precisava do nosso carinho, amizade e presença.

Pelo muito que recebemos daqueles que nos antecederam na vida, na história, na família e mesmo na fé, precisamos de ser gratos para com eles, não deixando esquecer a sua memória e tudo quanto nos faz ter neles reconhecimento, mérito e de lhes darmos continuidade…

Quando podemos viver isto de forma comunitária, os nossos antepassados têm mais significado e dão-nos força para sermos seus dignos continuadores… Temos heróis e santos, hoje como ontem!     

 

António Sílvio Couto



segunda-feira, 30 de outubro de 2017

‘Violência doméstica’: quando, como e porquê?


O tema da ‘violência doméstica’ – escrevemos entre aspas porque o assunto nem sempre é linear, objetivo ou claro – volta a estar na ordem do dia. As razões podem ser muitas. As causas as mais diversas. As consequências bastante nefastas. O tema é complexo e suficientemente mobilizador da sociedade.

Deve-se tornar, desde logo, claro que a ‘violência doméstica’ atinge os diferentes quadros de sexualidade: de homens sobre mulheres, destas quanto àqueles, de homens contra homens e de mulheres para com mulheres… se tivermos em conta a apelidada condição de género e as possíveis conjugações de possibilidades.

Também é digno de registo que uma parte significativa dos casos noticiados de ‘violência doméstica’ fazem-na incidir dos homens sobre as mulheres e raramente se faz notícia sobre casos da tal ‘violência doméstica’ nas aceções de homossexualidades, mesmo que tais casos possam ser registados, mas que não são tão expostos por uns tantos lóbis de comunicação… Neste campo específico, dizem os entendidos, que a violência é suficientemente agressiva, podendo, numa razoável maioria das situações, serem reportados de fatais e com manifestações preocupantes de virulência atroz.  

* Violência doméstica – quantos são?

Os casos tornados (mais ou menos) públicos são duma dramaticidade quase de pandemia social. Os números não enganam. A média de vítimas, em 2016, foi de cerca de mil casos com pessoas com mais de 65 anos; mais de 800 situações com crianças e jovens (até aos 17 anos); cerca de 5300 de mulheres com mais de dezoito anos e cerca de oitocentos casos com homens maiores de 18 anos. Na tipificação dos crimes: 93% foram contra pessoas, num total de quase 20 mil situações, onde se incluem, sobretudo, maus tratos físicos e psicológicos com 16.461 ocorrências.

O perfil da vítima é, na sua maioria, do sexo feminino (82 %), com cerca de cinquenta anos de idade, casada, com filhos, estando empregada, com algum nível de escolarização e tendo relação habitual com o cônjuge…  

* Violência doméstica – como interpretar?

Talvez venha evoluindo a consciencialização sobre a violência doméstica, a sua expressão na vida familiar e mesmo como devem ser cuidados vítima e autor. A passagem duma certa tolerância sobre o assunto para a denúncia tem vindo a fazer o seu caminho na nossa sociedade. Muitas vezes os autores da violência não aceitam que são pessoas doentes, que precisam, antes de tudo, de serem tratadas, por forma a saberem conviver – de forma regular e regulada ou no quadro familiar – com os outros sem lhe infligirem maus-tratos, coações, agressividade (física, psicológica ou outra), antes devendo cultivar a convivência com os demais num espaço de relação saudável e libertadora.

Muitas vezes, os agressores não passam de já agredidos, seja no contexto familiar, seja no âmbito social, profissional ou relacional. Em certas situações há feridas não-resolvidas nem curadas pela maturidade humana, cultural ou psicológica. Isso como que explica que, em certas classes sociais, se verifiquem casos de violência doméstica, que alimentam algumas das revistas cor-de-rosa!

Encontrar o porquê da violência doméstica é tanto ou mais importante do que criminalizar a sua prática, pois, da descoberta das razões para tais comportamentos poderá vir a luz para saber como tratar com pessoas que praticam a violência ou como devem ser encaminhadas para resolverem as suas causas, que se exprimem muito para além das consequências nos outros…

Seja qual for a parte agredida ou agressora – homem ou mulher, uma das partes do par homossexual, criança ou velho – temos de atender às pessoas envolvidas, tendo em conta o seu historial de vida, as condições atuais e as perspetivas futuras. Para já temos andado à caça dos transgressores, castigando-os. Mas o trabalho completo será melhor sucedido se procurarmos a recuperação de todos: as vítimas, ajudando-as a libertarem-se das agressões e dos seus causadores; os réus, dando-lhes condições para não se tornarem mais agressivos depois de castigados pelos seus atos, criando-lhes oportunidades de serem inseridos na sociedade em condições de inclusão, lançando sementes de recuperação e sem rótulos de irrecuperabilidade…    

 

António Sílvio Couto



terça-feira, 24 de outubro de 2017

Cem euros em compras por dia



Segundo dados recentemente revelados, entre janeiro e setembro deste ano, os portugueses gastaram, em compras, via multibanco, nos estabelecimentos comerciais cerca de 97 milhões de euros por dia… Ora, se atendermos à possibilidade de sermos mais ou menos dez milhões de habitantes como se que se poderá dar uma média de cem euros de gastos diários… tendo em conta crianças, velhos, desempregados e quantos não ganham aquela quantia para disporem, em conjunto, de três mil euros por mês… Uma enormidade de aquisições em restaurantes, supermercados e lojas, na capacidade de ‘poder-de-compra’!

Tendo em conta ainda os dados publicitados, o mês de julho foi o mais gastador com 3,35 mil milhões de euros através de multibanco e o de menores gastos foi o de fevereiro com 2,47 mil milhões… Desde 2013, o aumento do volume de compras através do ‘dinheiro em cartão’ aumentou em trinta e cinco por cento…   

= Será suportável este ‘nível de vida’? Com tantos gastos como poderemos dizer que não estamos a crescer? Mas será este crescimento suportável com a produção real e não a ficcionada?

Tendo sido despejado – tanto, algum, muito – dinheiro sobre o povo, este saberá geri-lo sem excessos? Esta opção pelo consumo não nos trará razoáveis dissabores a curto prazo?

Atendendo a momentos anteriores da nossa cultura despesista, não estaremos a ser ludibriados com estes (pretensos) sucessos sem olhar a meios? Na medida em que vivemos numa bolha circunstancial de gastos, quem irá pagar a fatura de tanta ousadia? Será ainda possível fazer crer que não é pelo muito querer que se faz um país avançar de forma sustentável? 

= Porque não acredito em tudo isto que estamos – dizem os governantes – a viver, julgo ser razoável sugerir para mudarmos de carril, antes que as composições saiam dos trilhos. Não será pelo consumo que cresceremos, mas pela poupança e esta tornou-se algo abjurável para uma grande maioria dos portugueses. Já foi assim na era da abundância pré-socrática e, depois, tivemos que pagar com juros e austeridade nos anos subsequentes àquela governação. Não é, por isso, expetável que não venhamos – talvez dentro de quatro a cinco anos – a reviver momentos de aperto do cinto… mas aí os que agora semeiam pétalas de sucesso terão fugido ou terão sido derrotados como o foram os anteriores!

Não é preciso saber muito de economia e tão pouco dominar as artimanhas do orçamento para percebermos que, idênticas causas, dão resultados semelhantes… O problema é serem sempre os mesmos os causadores e os vendedores de ilusões, quais magos em feira de enganos…baratos  

= Goste-se ou não: nós, portugueses, não sabemos gerir os meios económicos que nos são dados e, pior ainda, quem governa não está interessado em dizer a verdade ao povo, pois isso fá-los-ia cair em desgraça à primeira curva em que tentassem enganar os (mais) incautos.

Não é possível viver gastando cem euros, em compras, por dia. Não é razoável que se pretenda fazer acreditar que todos estão a dormir e que, quem não se deixa levar na onda, é pessimista e não permite que o povo seja feliz. De que adianta dizer que se vive feliz, se isso é engano, falácia e pura invenção…real?  

Muitos dos que exigem (agora) aumentos de salários – sobretudo na fasquia do mínimo – não sabem nem querem saber as dificuldades que muitas instituições enfrentam para equilibrar as suas contas. Alguns – sobretudo na área dos sindicatos – são os mesmos que, com as suas reivindicações, levaram à falência imensas empresas e que agora se arvoram em defensores dos trabalhadores, quando foram eles quem mais os prejudicaram. Ainda há quem tenha memória! 

= Não basta despejar dinheiro sobre as massas trabalhadoras, se não lhes forem dados critérios para sobreviver para além desta vaga de sucesso…virtual. O futuro dirá quem tem razão, pois as leis da história não enganam, antes nos ajudam a prever consequências, debelando as causas!

Saiam dos gabinetes com ar acondicionado (não é erro ortográfico) e venham ver o povo real e sofredor… esse, sim, sabe o que custa a mentira, ontem como hoje e amanhã. 

 

António Sílvio Couto