Partilha de perspectivas... tanto quanto atualizadas.



sábado, 11 de novembro de 2017

Habilidades na tecnologia


Nos tempos que decorrem vemos surgirem continuamente mais e melhores tecnologias, umas suplantando outras, algumas recriadas das já existentes e bastantes inovadoras… Foi isso e muito mais que esteve em destaque esta semana na ‘Web summit’, que decorreu, em Lisboa, para gaudio de milhares e milhares de expertos na matéria…

Não é, essencialmente, sobre este evento que desejamos refletir. Dele se disse o suficiente para o acharem comparável à façanha dos descobrimentos dos séculos XV e XVI. Em edição desde 2009 – as cinco primeiras edições em Dublin, Irlanda do Norte e as duas últimas em Lisboa, tendo passado ainda por Londres – esta conferência de tecnologia global serve para aferir dos progressos e das perspetivas nesta área de atividade…cada vez mais abrangente.

Desejamos falar sobretudo dessa evolução do ‘homo sapiens’ para o ‘homo tecnologicus’, cujas capacidades tão fortemente vem influenciando a nossa vida, desde os pormenores mais simples e bizarros até aos mais complexos e sofisticados.

O domínio crescente da tecnologia tem vindo a favorecer a nossa vida. Mesmo sem nos darmos conta disso, vivemos rodeados de tecnologias, qual delas a que menos somos capazes de dominar, mas antes como que nos dominam, tanto na utilidade, quanto nas subtilezas com que somos confrontados, sabe-se lá, quase dominados…   

= Atendendo à virulência desta intensa etapa tecnológica da nossa condição humana, há questões que se podem/devem colocar, em ordem a não sermos meramente manipulados pela galopante evolução deste sector no contexto cultural, económico e social.  

* Não será que o uso intensivo da tecnologia estará a fazer diminuir as nossas capacidades pessoais?

* O uso/abuso da tecnologia não estará a fazermos menos inteligentes e menos livres, embora mais práticos e talvez eficientes?

* Por entre tantos artefactos tecnológicos – apresentados, pressupostos e induzidos – não se encobrirão uns tantos habilidosos sob a capa de esperteza e ensombrando os mais inteligentes?

* A intensa dependência dos meios de tecnologia – telemóveis, tablets, internet, redes sociais e tantos outros pretensos adereços úteis e de autopromoção – não estará a criar novos ‘drogados’ e dependentes egocêntricos, egoístas e hipocondríacos?

* A submissão a tantos dos meios da tecnologia não estará a criar novas dependências psíquico-emocionais que poderão interferir na evolução da capacidade humana de relacionamento entre todos?

* A tecnologia não se terá tornado uma finalidade nela mesma, em vez de ser só uma ferramenta criada pelas pessoas e colocada ao serviço delas?  

= Neste, como em tantos outros campos da atividade humana, nada é bom nem é mau, tudo depende do uso que lhe dermos ou soubermos dar. Assim, a tecnologia mais recente ligada ao domínio da comunicação global tem vindo a ser uma ferramenta que tem sido usada – tanto quanto se percebe – de forma humanista, com alguns casos nem sempre corroborados com esta visão mais ou menos otimista. Com efeito, há casos em que as tecnologias – poderá ser abusivo ainda usar a designação de ‘novas’, pois para muitos (os mais novos) são as únicas que conhecem – de comunicação podem ser usadas por mentes menos bem-intencionadas.

Em certos setores – sobretudo nos ligados à comunicação social… nas suas diversas vertentes – dá a impressão que tem vindo a ser usado em excesso a expressão – ‘contar uma história’ (e esta nem sempre será escrita nesta grafia, mas antes como ‘estória’, isto é, narrativa nem sempre verídica ou verificável) – na aceção de querer dizer algo que não seja menos atrativo e se torne mais aceitável… Ora, a tecnologia não poderá tender a subverter a apresentação das notícias, dos factos, dos acontecimentos, das situações, dos casos… mesmo que se revistam de roupagem dramática e menos light…

As habilidades da tecnologia não poderão ser colocadas ao serviço de outra coisa que não seja a verdade, mesmo que nua e crua, mas sempre verosímil… A tecnologia há de um instrumento da Verdade, sempre!    

 

António Sílvio Couto



quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Concelhos mais caros…


O valor médio por metro quadrado das casas situa-se, na maioria dos concelhos, em Portugal, neste momento, em 898 euros. Há, no entanto, quarenta e um municípios que registam valores de venda de habitação superiores a essa média. A parte mais significativa desses concelhos encontra-se na área metropolitana da capital – Lisboa, Cascais e Oeiras – e no Algarve – Loulé, Lagos, Albufeira, Lagoa, Tavira e Vila do Bispo. Em Lisboa concretamente o valor médio do custo das habitações situou-se em 2231 euros por metro quadro…

Se atendermos ao norte do país encontramos que Porto e Matosinhos, respetivamente com 1117 euros e 1035 euros por metro quadro, ultrapassam aquela barreira média nacional. Mas também noutros municípios tal fasquia é ultrapassada, como acontece na Nazaré, Coimbra, Esposende, Évora, Funchal, Ponta do Sol e Porto Santo… No interior – norte, centro e Alentejo – a maior parte dos preços nestes municípios não atinge claramente a média nacional… 

= A bolha do imobiliário está de volta e torna-se essencial perceber aonde vamos chegar, por forma a compreendermos que país somos e quais são as linhas com que nos cosemos…agora e no futuro.

Se tivermos em conta que todos merecem uma habitação condigna, teremos de questionar porque se tem vindo a verificar esta subida de mais de seis por cento em relação a período homólogo do ano passado e, segundo especialistas do sector, com tendência a manter a progressão especulativa em quatro ou cinco por cento nos próximos anos…  

= Será que o boom de turismo e do investimento estrangeiro poderão explicar esta nova vaga na área do imobiliário? Quem beneficia com este crescimento, serão os cidadãos ou os especuladores? Nas autarquias não se viverá muito desta ‘política’ de cimento – edificado ou a construir – em vez dos cuidados às populações? Quando vemos crescer esta tendência que tantos males já nos trouxe noutras épocas, onde se situa o bem-estar básico das populações? Com a prática de tais procedimentos não estaremos a promover um país ainda mais desequilibrado social e economicamente? 

= Por outro lado, foi noticiado recentemente, que, em média, por dia, cinco famílias são despejadas das suas casas, em grande parte por falta de pagamento das rendas. Este problema não pode ser ignorado, pois o direito à habitação é um dos mais básicos e essenciais da nossa condição humana.

Seria uma ofensa a quem estiver na situação de despejado que nada seja feito pela concretização desse direito na prática. Há por aí muita gente que fala da defesa deste direito, mas que depois não dá os passos necessários para que tal se concretize. Muitas das leis do arrendamento como que não deixam que os mais desfavorecidos possam ter a sua casa, antes dificultam esse objetivo que será o de cada um – pessoal e familiarmente – poder viver com dignidade numa habitação adequada. Só quem nunca tiver escutado os pedidos de ajuda para pagamento das rendas ou quem não tenha ajudado a atenuar essa contrariedade é que poderá não se deixar sensibilizar por tal problema humano e social…com grande atualidade. 

= A opção pelos bairros de habitação (dita) social foi um desastre na maior parte dos casos, criando mais problemas do que aqueles que pretendia resolver. Muitas pessoas foram como que amontoadas nesses ‘caixotes’ com gente lá dentro, juntando situações graves de relacionamento entre culturas e proveniências sociais, sem ter havido um processo pedagógico de inculturação e de mentalização mínima para a convivência. Não é por acaso que muitos dos conflitos até judiciais têm esses espaços como pano de fundo, pois muitas pessoas foram enjauladas depois de estarem à sua vontade em espaços rurais e de largueza em matéria de vizinhança. Por isso, ajuntadas um tanto à força e apregoando direitos sem deveres, foram como que as sementes para problemas entre pessoas que tiveram de aprender a estar próximas e desafiadas a condividir espaços e interesses… nem sempre reconhecidos e tolerados.

Todos merecem uma habitação onde se possam sentir bem… mas não será preciso ser tão cara!  

 

António Sílvio Couto



sábado, 4 de novembro de 2017

Questões de memória…ativa e agradecida


A vivência, por estes dias, da solenidade de Todos-os-Santos e a comemoração dos Fiéis Defuntos, traz-nos à memória momentos e situações, factos e pessoas, episódios e recordações para com aqueles que nos precederam na vida e na fé.

Na oração eucarística primeira (ou Cânone romano) do ordinário da missa rezamos: ‘lembrai-vos, Senhor, dos vossos servos e servas [N. N], que partiram antes de nós marcados com o sinal da fé e agora dormem o sono da paz’… e cada um recorda os nomes da sua lembrança, de quem faz memória ou sobre quem pede sufrágio.

Se há virtude que talvez ande mais arredada da conduta humana parece ser a da gratidão, pois, de muitas formas e por vários modos, vemos que o esquecimento é mais do que atroz, o não-reconhecimento dado a outrem (sobretudo não-vivo) é preocupante e a superficialidade para com quem temos pontos de dever são mais do que as ofensas todas juntas num ramalhete floral…barato e insignificante.

Há coisas que doem mais do que todos os outros achaques. Há esquecimentos que torturam mais do que qualquer outra forma de empobrecimento moral e cultural. Há resquícios de ruindade ética que perduram muito para além do tempo e das suas circunstâncias…  

Se já nem nesta época do ano lembramos quem nos ligam laços de sangue, de amizade ou mesmo de fé, estaremos a caminhar de forma perigosa para uma sociedade sem memória e sem história, sem capacidade de admiração e sem ligações afetivas mínimas, sem vivência dos factos grandiosos e sem que haja futuro dado que o passado foi renegado…

Se há quem viva excessivamente em volta do ‘culto dos cemitérios’, há, por seu turno, quem nunca deles de aproxime, como se com tal atitude conseguissem não terem de enfrentar tal realidade (ou alguma outra idêntica) de passagem da contingência embrionária para a declaração da mesma, através duma forma mais ou menos assumida… O equilíbrio – nisto como em tantas outras coisas da vida – é o melhor caminho e a forma mais salutar de ser normal e sobrenatural, isto é, de saber ver o que se vê com olhos, que ultrapassam as aparências, mesmo as mais funestas. 

= Desafios de santidade…contínua

Neste emaranhado de coisas da nossa vida, podemos e devemos perguntar sobre se há algum caminho simples (o que nem sempre quererá dizer fácil), exequível e progressivo desse grande desafio com que somos convidados a viver, esse de sermos santos. Antes de tudo será útil referir que não está vedado a ninguém e não há quem possa dele ser excluído só porque não pertence a uma determinada classe ou setor social, nível religioso ou etário, de instrução ou cultura.

O caminho da santidade – onde a questão da memória está presente e se torna essencial – passa pela santificação nas coisas simples do nosso dia-a-dia, isto é, nas tarefas mais ordinárias – no sentido de normais, vulgares, sem espalhafato – que compõem o nosso viver: aí onde tudo tem valor e é valorizado, onde cada pessoa é tida em conta e não é ultrapassada pelo telefonema de ocasião ou da urgência (quase) inútil, onde cada um se coloca com intensidade em tudo o que faz (como se possa ser a última vez que o realiza), onde cada aspeto diário ganha dimensão de eternidade, único e irrepetível…

Assim, qualquer que seja o esquecimento ou a não-memória torna-se algo de ofensivo, tanto para com quem não cuidamos, como para com quem não seja atendido pelas nossas ocupações mais ou menos importantes, mas, por vezes, são tão insignificantes e dispensáveis, que, um dia, haveremos de nos envergonhar por não termos dado a necessária atenção a quem precisava do nosso carinho, amizade e presença.

Pelo muito que recebemos daqueles que nos antecederam na vida, na história, na família e mesmo na fé, precisamos de ser gratos para com eles, não deixando esquecer a sua memória e tudo quanto nos faz ter neles reconhecimento, mérito e de lhes darmos continuidade…

Quando podemos viver isto de forma comunitária, os nossos antepassados têm mais significado e dão-nos força para sermos seus dignos continuadores… Temos heróis e santos, hoje como ontem!     

 

António Sílvio Couto



segunda-feira, 30 de outubro de 2017

‘Violência doméstica’: quando, como e porquê?


O tema da ‘violência doméstica’ – escrevemos entre aspas porque o assunto nem sempre é linear, objetivo ou claro – volta a estar na ordem do dia. As razões podem ser muitas. As causas as mais diversas. As consequências bastante nefastas. O tema é complexo e suficientemente mobilizador da sociedade.

Deve-se tornar, desde logo, claro que a ‘violência doméstica’ atinge os diferentes quadros de sexualidade: de homens sobre mulheres, destas quanto àqueles, de homens contra homens e de mulheres para com mulheres… se tivermos em conta a apelidada condição de género e as possíveis conjugações de possibilidades.

Também é digno de registo que uma parte significativa dos casos noticiados de ‘violência doméstica’ fazem-na incidir dos homens sobre as mulheres e raramente se faz notícia sobre casos da tal ‘violência doméstica’ nas aceções de homossexualidades, mesmo que tais casos possam ser registados, mas que não são tão expostos por uns tantos lóbis de comunicação… Neste campo específico, dizem os entendidos, que a violência é suficientemente agressiva, podendo, numa razoável maioria das situações, serem reportados de fatais e com manifestações preocupantes de virulência atroz.  

* Violência doméstica – quantos são?

Os casos tornados (mais ou menos) públicos são duma dramaticidade quase de pandemia social. Os números não enganam. A média de vítimas, em 2016, foi de cerca de mil casos com pessoas com mais de 65 anos; mais de 800 situações com crianças e jovens (até aos 17 anos); cerca de 5300 de mulheres com mais de dezoito anos e cerca de oitocentos casos com homens maiores de 18 anos. Na tipificação dos crimes: 93% foram contra pessoas, num total de quase 20 mil situações, onde se incluem, sobretudo, maus tratos físicos e psicológicos com 16.461 ocorrências.

O perfil da vítima é, na sua maioria, do sexo feminino (82 %), com cerca de cinquenta anos de idade, casada, com filhos, estando empregada, com algum nível de escolarização e tendo relação habitual com o cônjuge…  

* Violência doméstica – como interpretar?

Talvez venha evoluindo a consciencialização sobre a violência doméstica, a sua expressão na vida familiar e mesmo como devem ser cuidados vítima e autor. A passagem duma certa tolerância sobre o assunto para a denúncia tem vindo a fazer o seu caminho na nossa sociedade. Muitas vezes os autores da violência não aceitam que são pessoas doentes, que precisam, antes de tudo, de serem tratadas, por forma a saberem conviver – de forma regular e regulada ou no quadro familiar – com os outros sem lhe infligirem maus-tratos, coações, agressividade (física, psicológica ou outra), antes devendo cultivar a convivência com os demais num espaço de relação saudável e libertadora.

Muitas vezes, os agressores não passam de já agredidos, seja no contexto familiar, seja no âmbito social, profissional ou relacional. Em certas situações há feridas não-resolvidas nem curadas pela maturidade humana, cultural ou psicológica. Isso como que explica que, em certas classes sociais, se verifiquem casos de violência doméstica, que alimentam algumas das revistas cor-de-rosa!

Encontrar o porquê da violência doméstica é tanto ou mais importante do que criminalizar a sua prática, pois, da descoberta das razões para tais comportamentos poderá vir a luz para saber como tratar com pessoas que praticam a violência ou como devem ser encaminhadas para resolverem as suas causas, que se exprimem muito para além das consequências nos outros…

Seja qual for a parte agredida ou agressora – homem ou mulher, uma das partes do par homossexual, criança ou velho – temos de atender às pessoas envolvidas, tendo em conta o seu historial de vida, as condições atuais e as perspetivas futuras. Para já temos andado à caça dos transgressores, castigando-os. Mas o trabalho completo será melhor sucedido se procurarmos a recuperação de todos: as vítimas, ajudando-as a libertarem-se das agressões e dos seus causadores; os réus, dando-lhes condições para não se tornarem mais agressivos depois de castigados pelos seus atos, criando-lhes oportunidades de serem inseridos na sociedade em condições de inclusão, lançando sementes de recuperação e sem rótulos de irrecuperabilidade…    

 

António Sílvio Couto



terça-feira, 24 de outubro de 2017

Cem euros em compras por dia



Segundo dados recentemente revelados, entre janeiro e setembro deste ano, os portugueses gastaram, em compras, via multibanco, nos estabelecimentos comerciais cerca de 97 milhões de euros por dia… Ora, se atendermos à possibilidade de sermos mais ou menos dez milhões de habitantes como se que se poderá dar uma média de cem euros de gastos diários… tendo em conta crianças, velhos, desempregados e quantos não ganham aquela quantia para disporem, em conjunto, de três mil euros por mês… Uma enormidade de aquisições em restaurantes, supermercados e lojas, na capacidade de ‘poder-de-compra’!

Tendo em conta ainda os dados publicitados, o mês de julho foi o mais gastador com 3,35 mil milhões de euros através de multibanco e o de menores gastos foi o de fevereiro com 2,47 mil milhões… Desde 2013, o aumento do volume de compras através do ‘dinheiro em cartão’ aumentou em trinta e cinco por cento…   

= Será suportável este ‘nível de vida’? Com tantos gastos como poderemos dizer que não estamos a crescer? Mas será este crescimento suportável com a produção real e não a ficcionada?

Tendo sido despejado – tanto, algum, muito – dinheiro sobre o povo, este saberá geri-lo sem excessos? Esta opção pelo consumo não nos trará razoáveis dissabores a curto prazo?

Atendendo a momentos anteriores da nossa cultura despesista, não estaremos a ser ludibriados com estes (pretensos) sucessos sem olhar a meios? Na medida em que vivemos numa bolha circunstancial de gastos, quem irá pagar a fatura de tanta ousadia? Será ainda possível fazer crer que não é pelo muito querer que se faz um país avançar de forma sustentável? 

= Porque não acredito em tudo isto que estamos – dizem os governantes – a viver, julgo ser razoável sugerir para mudarmos de carril, antes que as composições saiam dos trilhos. Não será pelo consumo que cresceremos, mas pela poupança e esta tornou-se algo abjurável para uma grande maioria dos portugueses. Já foi assim na era da abundância pré-socrática e, depois, tivemos que pagar com juros e austeridade nos anos subsequentes àquela governação. Não é, por isso, expetável que não venhamos – talvez dentro de quatro a cinco anos – a reviver momentos de aperto do cinto… mas aí os que agora semeiam pétalas de sucesso terão fugido ou terão sido derrotados como o foram os anteriores!

Não é preciso saber muito de economia e tão pouco dominar as artimanhas do orçamento para percebermos que, idênticas causas, dão resultados semelhantes… O problema é serem sempre os mesmos os causadores e os vendedores de ilusões, quais magos em feira de enganos…baratos  

= Goste-se ou não: nós, portugueses, não sabemos gerir os meios económicos que nos são dados e, pior ainda, quem governa não está interessado em dizer a verdade ao povo, pois isso fá-los-ia cair em desgraça à primeira curva em que tentassem enganar os (mais) incautos.

Não é possível viver gastando cem euros, em compras, por dia. Não é razoável que se pretenda fazer acreditar que todos estão a dormir e que, quem não se deixa levar na onda, é pessimista e não permite que o povo seja feliz. De que adianta dizer que se vive feliz, se isso é engano, falácia e pura invenção…real?  

Muitos dos que exigem (agora) aumentos de salários – sobretudo na fasquia do mínimo – não sabem nem querem saber as dificuldades que muitas instituições enfrentam para equilibrar as suas contas. Alguns – sobretudo na área dos sindicatos – são os mesmos que, com as suas reivindicações, levaram à falência imensas empresas e que agora se arvoram em defensores dos trabalhadores, quando foram eles quem mais os prejudicaram. Ainda há quem tenha memória! 

= Não basta despejar dinheiro sobre as massas trabalhadoras, se não lhes forem dados critérios para sobreviver para além desta vaga de sucesso…virtual. O futuro dirá quem tem razão, pois as leis da história não enganam, antes nos ajudam a prever consequências, debelando as causas!

Saiam dos gabinetes com ar acondicionado (não é erro ortográfico) e venham ver o povo real e sofredor… esse, sim, sabe o que custa a mentira, ontem como hoje e amanhã. 

 

António Sílvio Couto



segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Depois da geringonça…vem o zingarelho?


Desde o ano de 2016 que é recorrente ouvirmos falar de ‘geringonça’ – foi a ‘palavra do ano’ mais votada – resumindo uma solução política à portuguesa, que vem reinando… por entre sucessos bem propagandeados e vicissitudes nem sempre assumidas, desde que se vá fazendo a vontade aos que condicionam o apoio de governação. As forças constituintes da geringonça situam-se no espetro ideológico – intra e extra parlamentar – por entre o marxismo, o trotskismo e o socialismo quanto baste… desde que possa haver poder.

Qual o significado de zingarelho, que apensamos no título? Zingarelho é um objeto, geralmente complexo, desconhecido, bizarro ou que funciona mal… devido a ser desconhecido o seu modo de funcionamento.

Que será, então, na política, zingarelho?

Poderá surgir como uma outra solução – sobretudo com incidência após as recentes eleições autárquicas – onde as forças em coligação são tão díspares – por forma a conseguir as maiorias de entendimento – na origem, na composição e na esquisita ligação, que quase não se entende o resultado final…a não ser pela inexaurível ânsia do poder. 

= Agora que a maior parte dos executivos camarários e das juntas de freguesias tentam entrar em funções poderemos assistir a múltiplos zingarelhos espalhados por aí…atendendo aos intentos, às vontades ou mesmo às necessidades. Poderá ainda acontecer que as fações partidárias deem lugar a soluções de conveniência ou tendo em conta as pretensões mais esconsas…de governabilidade.

Parece que já foi ultrapassado o tempo em que, quem ganhava – com ou sem maioria – tentava executar o seu programa, assumindo as consequências de poder ser vetado pelo resto dos eleitos para os cargos. Agora, dado o exemplo bizarro saído das conveniências ao nível do governo central, poderemos assistir a múltiplas geringonças ou ter de aturar pactos de zingarelho mal entretecidos…

Perante tantas aspirações a estar ou a prolongar-se no poder como que sentimos necessidade de questionar as soluções encontradas, pois, em muitos casos, não foi para isso que se pronunciaram os eleitores. Se votaram para retirar a maioria aos que estavam no poder, é correto agora fazerem-se coligações para viabilizar a governação? Se tal se verificar, quem isso fizer não merece a confiança depositada, pois não foi para se aproveitar das circunstâncias de aceder às franjas do poder… 

= Em muitas situações da vida é preciso saber ganhar e aprender a perder, pois naquele se pode ser humilde e neste se deve erguer com dignidade. Ora, nem sempre é isso que temos visto. Alguns quando ganham tornam-se tão exuberantes que se esquecem das derrotas por onde já passaram para conseguirem os feitos atuais. Outros quando perdem como que descartam as razões pelas quais foram vencidos, em muitos dos casos por impreparação e até por incapacidade de aglutinar outros para o mesmo projeto.

Se há momentos em que possamos a conhecer melhor as pessoas é quando ganham, noutras circunstâncias é quando perdem. Quando se ganha será da mais elementar justiça não esquecer quem ajudou a conseguir tais façanhas, nunca apropriando a si a vitória, mas repartindo-a com outros tanto ou mais merecedores dela. Quando acontece a derrota será da mais elementar correção assumir os erros e fazer deles capacidade de novos momentos de vitória… ao menos moral, num futuro não muito longínquo.  

= O que temos podido observar – sejam quais forem as eleições em disputa ou os espaços de contenda – é com muita facilidade que se passa ao momento seguinte, isto é, ao de vangloriar-se ou ao de carpir as mágoas, sem ser feita a análise sensata e reflexiva dessas vivências, com as implicações que isso tem no amadurecimento de cada um de nós, tanto no campo dos vencedores, como na área dos vencidos.

O pior de tudo é quando as pessoas nunca são avaliadas, pois desertam do serviço aos outros e com isso pensam nada ter a aprender. Dos ‘treinadores de bancada’ não reza a história, a não ser um possível asterisco minúsculo no rodapé da insignificância tolerada.

Precisamos de colocar os nossos dons/talentos a render ou seremos apelidados de inúteis e maus servidores, seja qual for o campo de intervenção na vida…em geringonça ou pelo zingarelho!   

 

António Sílvio Couto



quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Duas visões do país…a partir das raízes de vida


 
Nota-se nos tempos mais recentes que presidente da república e primeiro-ministro têm visões (quase) diametralmente opostas sobre algumas das questões do país. A mais incisiva foi a da leitura dos incêndios em Portugal continental, tendo como base os dois cenários mais dramáticos de Pedrógão Grande, em junho, e de Oliveira do Hospital, em outubro… aceitando tais localidades como símbolos das perdas mais significativas em vida humanas, em casas ardidas e em prejuízos verificados.

Marcelo mergulhou no seu ser mais rural para se deixar comover pelos episódios e para levar à emoção o país, que o escutou. Costa ficou-se pela leitura mais urbana das não-respostas, sem captar o sentido mais marcante… parecendo dar a impressão que não se tinha deixado tocar pela dor alheia.

Daí vermos uma figura hierática a debitar desculpas…um tanto toscas e mal elaboradas, no caso do PM-Costa, enquanto o PR-Marcelo se desfez em explicações de fragilidades, sob a conjetura dos afetos e na proporção da comunhão com a dor dos seus concidadãos… Duas visões dum mesmo país!

Fique claro: votei em Marcelo, mas tenho tido uma apreciação pouco favorável ao seu desempenho (quase) populista. Certas colagens à governança considero que têm deixado algo a desejar…até na separação de poderes. Pela primeira vez apreciei a sua função pedagógica para com a fórmula encontrada para o país ser governado. Não concordo totalmente com quem manda, mas respeito quem tem a tarefa de assumir tal papel…

 = Vejamos, então, o que poderá condicionar a ação de interpretar a tragédia dos incêndios – sobretudo nas duas fases já vividas.

Não basta dizer os números, é preciso entender o significado das perdas, tendo em conta o âmbito rural – o do PR-Marcelo – e o do (pretenso) citadino – o do PM-Costa. Neste o anonimato como que ofusca a ligação afetivo-emocional do ruralista, que, por seu turno, vê-lhe ser amputado da vida e da memória alguém que fazia parte da sua convivência mais terna e próxima.

Quem tem mais razão? Talvez o PM-Costa, pois ele retrata o distanciamento entre as pessoas e revela a frieza com que os vizinhos se tratam…mesmo vivendo porta-com-porta. O PR-Marcelo deixa, no entanto, transparecer que as pessoas têm rosto e que contam as ‘suas’ histórias mais ou menos idênticas às que nós vivemos quando regressamos às origens… Ele é, no entanto, cidadão com visão abrangente.

Ora, o país da capital, que se esvazia na época natalícia para rever a sua ruralidade, com todos estes incêndios, como que é colocado em crise, gerando processos de psicanálise dum ‘eu coletivo’ que se entristece quando vê serem-lhe cerceadas as suas raízes mais profundas ou mesmo adventícias…
 

= As várias velocidades a que temos visto o nosso país caminhar como que denuncia que a litoralização do país fará com que os fenómenos de Pedrogão Grande e de Oliveira do Hospital – quais símbolos das tragédias recentes – se possam repetir mais vezes, pois com a desertificação do interior pouco mais resta do que a mancha florestal para ser consumida pelo fogo, tanto o de origem climatérica como o de marca um tanto criminosa, sem esquecer a componente de desleixo com que temos estado a tratar quem ainda resiste a deixar as suas origens.

É preciso que se comece de vez a programar como queremos viver, pelo menos, nos próximos cinquenta anos, lançando as bases para se possa construir um Portugal mais solidário entre as partes e as sensibilidades, entre os que usufruem da floresta e os que dela criam riqueza, os que se sentem ligados à terra e os que um tanto a abjuram, os que têm responsabilidade em criar laços com os antepassados e os que já se desligaram, os que esperam maior harmonia entre os elementos florestais e os que não se reveem em tais raízes…

Está na hora de se desideologizar a sustentabilidade deste setor do nosso valor patrimonial, pois ninguém pode pretender impor aos outros aquilo que não consegue praticar…no governo ou fora dele. Se tomarmos por paradigma o desastre que atingiu o ‘pinhal de Leiria’ podemos e devemos questionar: se esta pérola da nossa floresta ardeu em mais de dois terços, quem irá recuperar tal fortuna se não nos unirmos na ação? Basta de palavras, passemos às obras!      

 


António Sílvio Couto