Partilha de perspectivas... tanto quanto atualizadas.



segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Depois da geringonça…vem o zingarelho?


Desde o ano de 2016 que é recorrente ouvirmos falar de ‘geringonça’ – foi a ‘palavra do ano’ mais votada – resumindo uma solução política à portuguesa, que vem reinando… por entre sucessos bem propagandeados e vicissitudes nem sempre assumidas, desde que se vá fazendo a vontade aos que condicionam o apoio de governação. As forças constituintes da geringonça situam-se no espetro ideológico – intra e extra parlamentar – por entre o marxismo, o trotskismo e o socialismo quanto baste… desde que possa haver poder.

Qual o significado de zingarelho, que apensamos no título? Zingarelho é um objeto, geralmente complexo, desconhecido, bizarro ou que funciona mal… devido a ser desconhecido o seu modo de funcionamento.

Que será, então, na política, zingarelho?

Poderá surgir como uma outra solução – sobretudo com incidência após as recentes eleições autárquicas – onde as forças em coligação são tão díspares – por forma a conseguir as maiorias de entendimento – na origem, na composição e na esquisita ligação, que quase não se entende o resultado final…a não ser pela inexaurível ânsia do poder. 

= Agora que a maior parte dos executivos camarários e das juntas de freguesias tentam entrar em funções poderemos assistir a múltiplos zingarelhos espalhados por aí…atendendo aos intentos, às vontades ou mesmo às necessidades. Poderá ainda acontecer que as fações partidárias deem lugar a soluções de conveniência ou tendo em conta as pretensões mais esconsas…de governabilidade.

Parece que já foi ultrapassado o tempo em que, quem ganhava – com ou sem maioria – tentava executar o seu programa, assumindo as consequências de poder ser vetado pelo resto dos eleitos para os cargos. Agora, dado o exemplo bizarro saído das conveniências ao nível do governo central, poderemos assistir a múltiplas geringonças ou ter de aturar pactos de zingarelho mal entretecidos…

Perante tantas aspirações a estar ou a prolongar-se no poder como que sentimos necessidade de questionar as soluções encontradas, pois, em muitos casos, não foi para isso que se pronunciaram os eleitores. Se votaram para retirar a maioria aos que estavam no poder, é correto agora fazerem-se coligações para viabilizar a governação? Se tal se verificar, quem isso fizer não merece a confiança depositada, pois não foi para se aproveitar das circunstâncias de aceder às franjas do poder… 

= Em muitas situações da vida é preciso saber ganhar e aprender a perder, pois naquele se pode ser humilde e neste se deve erguer com dignidade. Ora, nem sempre é isso que temos visto. Alguns quando ganham tornam-se tão exuberantes que se esquecem das derrotas por onde já passaram para conseguirem os feitos atuais. Outros quando perdem como que descartam as razões pelas quais foram vencidos, em muitos dos casos por impreparação e até por incapacidade de aglutinar outros para o mesmo projeto.

Se há momentos em que possamos a conhecer melhor as pessoas é quando ganham, noutras circunstâncias é quando perdem. Quando se ganha será da mais elementar justiça não esquecer quem ajudou a conseguir tais façanhas, nunca apropriando a si a vitória, mas repartindo-a com outros tanto ou mais merecedores dela. Quando acontece a derrota será da mais elementar correção assumir os erros e fazer deles capacidade de novos momentos de vitória… ao menos moral, num futuro não muito longínquo.  

= O que temos podido observar – sejam quais forem as eleições em disputa ou os espaços de contenda – é com muita facilidade que se passa ao momento seguinte, isto é, ao de vangloriar-se ou ao de carpir as mágoas, sem ser feita a análise sensata e reflexiva dessas vivências, com as implicações que isso tem no amadurecimento de cada um de nós, tanto no campo dos vencedores, como na área dos vencidos.

O pior de tudo é quando as pessoas nunca são avaliadas, pois desertam do serviço aos outros e com isso pensam nada ter a aprender. Dos ‘treinadores de bancada’ não reza a história, a não ser um possível asterisco minúsculo no rodapé da insignificância tolerada.

Precisamos de colocar os nossos dons/talentos a render ou seremos apelidados de inúteis e maus servidores, seja qual for o campo de intervenção na vida…em geringonça ou pelo zingarelho!   

 

António Sílvio Couto



quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Duas visões do país…a partir das raízes de vida


 
Nota-se nos tempos mais recentes que presidente da república e primeiro-ministro têm visões (quase) diametralmente opostas sobre algumas das questões do país. A mais incisiva foi a da leitura dos incêndios em Portugal continental, tendo como base os dois cenários mais dramáticos de Pedrógão Grande, em junho, e de Oliveira do Hospital, em outubro… aceitando tais localidades como símbolos das perdas mais significativas em vida humanas, em casas ardidas e em prejuízos verificados.

Marcelo mergulhou no seu ser mais rural para se deixar comover pelos episódios e para levar à emoção o país, que o escutou. Costa ficou-se pela leitura mais urbana das não-respostas, sem captar o sentido mais marcante… parecendo dar a impressão que não se tinha deixado tocar pela dor alheia.

Daí vermos uma figura hierática a debitar desculpas…um tanto toscas e mal elaboradas, no caso do PM-Costa, enquanto o PR-Marcelo se desfez em explicações de fragilidades, sob a conjetura dos afetos e na proporção da comunhão com a dor dos seus concidadãos… Duas visões dum mesmo país!

Fique claro: votei em Marcelo, mas tenho tido uma apreciação pouco favorável ao seu desempenho (quase) populista. Certas colagens à governança considero que têm deixado algo a desejar…até na separação de poderes. Pela primeira vez apreciei a sua função pedagógica para com a fórmula encontrada para o país ser governado. Não concordo totalmente com quem manda, mas respeito quem tem a tarefa de assumir tal papel…

 = Vejamos, então, o que poderá condicionar a ação de interpretar a tragédia dos incêndios – sobretudo nas duas fases já vividas.

Não basta dizer os números, é preciso entender o significado das perdas, tendo em conta o âmbito rural – o do PR-Marcelo – e o do (pretenso) citadino – o do PM-Costa. Neste o anonimato como que ofusca a ligação afetivo-emocional do ruralista, que, por seu turno, vê-lhe ser amputado da vida e da memória alguém que fazia parte da sua convivência mais terna e próxima.

Quem tem mais razão? Talvez o PM-Costa, pois ele retrata o distanciamento entre as pessoas e revela a frieza com que os vizinhos se tratam…mesmo vivendo porta-com-porta. O PR-Marcelo deixa, no entanto, transparecer que as pessoas têm rosto e que contam as ‘suas’ histórias mais ou menos idênticas às que nós vivemos quando regressamos às origens… Ele é, no entanto, cidadão com visão abrangente.

Ora, o país da capital, que se esvazia na época natalícia para rever a sua ruralidade, com todos estes incêndios, como que é colocado em crise, gerando processos de psicanálise dum ‘eu coletivo’ que se entristece quando vê serem-lhe cerceadas as suas raízes mais profundas ou mesmo adventícias…
 

= As várias velocidades a que temos visto o nosso país caminhar como que denuncia que a litoralização do país fará com que os fenómenos de Pedrogão Grande e de Oliveira do Hospital – quais símbolos das tragédias recentes – se possam repetir mais vezes, pois com a desertificação do interior pouco mais resta do que a mancha florestal para ser consumida pelo fogo, tanto o de origem climatérica como o de marca um tanto criminosa, sem esquecer a componente de desleixo com que temos estado a tratar quem ainda resiste a deixar as suas origens.

É preciso que se comece de vez a programar como queremos viver, pelo menos, nos próximos cinquenta anos, lançando as bases para se possa construir um Portugal mais solidário entre as partes e as sensibilidades, entre os que usufruem da floresta e os que dela criam riqueza, os que se sentem ligados à terra e os que um tanto a abjuram, os que têm responsabilidade em criar laços com os antepassados e os que já se desligaram, os que esperam maior harmonia entre os elementos florestais e os que não se reveem em tais raízes…

Está na hora de se desideologizar a sustentabilidade deste setor do nosso valor patrimonial, pois ninguém pode pretender impor aos outros aquilo que não consegue praticar…no governo ou fora dele. Se tomarmos por paradigma o desastre que atingiu o ‘pinhal de Leiria’ podemos e devemos questionar: se esta pérola da nossa floresta ardeu em mais de dois terços, quem irá recuperar tal fortuna se não nos unirmos na ação? Basta de palavras, passemos às obras!      

 


António Sílvio Couto



quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Bátegas de chuva ácida…


 
O país parou estupefacto: nova vaga de incêndios – nas zonas centro e norte do continente – deixou mais vítimas mortais… No espaço de quatro meses – de junho a outubro deste ano – morreram vítimas dos incêndios mais de cem pessoas, muitas delas encurraladas em suas casas, outras tentando fugir dos fogos e bastantes em consequência da deficiente ajuda que não lhes foi dada.

Os meios utilizados no socorro nem sempre foram considerados adequados. As forças de combate, por vezes, sofreram de descoordenação. As chamas reinaram horas de mais, calcinando terras, corpos, almas e memórias.

De quem tinha a obrigação moral, cívica e política nem sempre vimos – sobretudo nesta fase de outubro – pessoas com sentido de responsabilidade adulta e assumida, escondendo-se, antes, por entre números estatísticos, numa apresentação sem emoção e quase fazendo um frete a quem lhes paga e que merecia mais respeito, educação e cidadania.

Dum chefe de governo vindo dalguma prova de surf – bem penteado e num estado quase zen – não entendemos se tinha algo a comunicar ou se já caiu em coma pelo fardo de ter vencido as últimas eleições autárquicas com a incapacidade de ser e de estar com os que sofrem… Falta-lhe nitidamente ter sido provado no cadinho da dor, porque embalado nas peias – também poderão ser até as teias – do poder… a médio prazo. Talvez saiba – foi aprendendo – algo de economês, mas não tem a sensibilidade em ser cortês em palavras e em gestos humanos… mínimos e suficientes. Destes robôs de política não precisamos nem apreciamos…

Por seu turno, o inquilino do palácio de Belém tem vindo a aprender com alguns dos (seus) erros: antes, em junho, foi a toda a pressa para se mostrar nas notícias, agora conteve-se e avaliou os factos, as causas e, sobretudo, as consequências. Falou, desta vez, a partir da sua autoridade de magistrado máximo da nação e não se deixou tão facilmente enredar nas tricas de governação…embora tenha sido muito contundente sobre esta. Irmanou-se com a fragilidade daqueles que sofreram as provações…embora tenha traçado, com suficiente clareza, as linhas de condução que espera que sejam respeitadas…mesmo sem as campanhas de solidariedade apressada e desconexa anterior. Lançou razoáveis bátegas de chuva ácida para que se perceba em que época histórica estamos, se vamos mudar mesmo de ciclo ou se quem ocupa as tarefas de Estado ainda será capaz de se autoreciclar…  

= Para contentamento de quem aspira a ser mais humano, a chuva voltou. Este dom da natureza não pode mais ser considerado causa de ‘mau tempo’, pois tão necessitados estávamos dela que não a termos quase poderia ser considerado uma espécie de maldição. Espera-se que a chuva venha moderada e seja recebida com agrado…mesmo pelos mais interessados em pensarem antes em si mesmos do que no bem comum.

A chuva, a fauna, a flora (floresta e muito mais) são modos de Deus se revelar para com a pessoa humana. Esta pode viver em equilíbrio ou em abuso para com tais dons da bondade de Deus, Pai Criador. Pelo que temos visto – os incêndios são um claro sinal – os humanos nem sempre têm sabido conviver com estes acenos do amor de Deus, por vezes, entrando em conflito, senão mesmo interferindo de forma abusiva e desequilibrando a correta relação entre homem e natureza. 

= O mais grave dos acontecimentos dos incêndios é a manifesta negligência em tratar com esses elementos da casa-comum, que é a natureza. Todos temos culpa. Todos precisamos de aprender a lidar com a natureza como rosto da beleza de Deus. Ofender ou maltratar este rosto é desfigurar a presença de Deus para connosco.

Precisamos com urgência de apostar na educação dos mais novos e dos mais velhos, lançando naqueles as bases duma ecologia cristã e nestes corrigindo hábitos nem sempre adquiridos no tempo devido.

Queira Deus que os dramas deste ano (verão e outono) possam ser oportunidade para reaprendermos a lidar com a natureza, desde as situações mais simples até às mais complexas… Como foi no passado mais recente, não, obrigado!

 

António Sílvio Couto



segunda-feira, 16 de outubro de 2017

‘Pai-nosso’ muda...em França


A partir do próximo primeiro domingo do Advento, 3 de dezembro, as palavras do Pai-nosso mudam em França. Assim em vez de «Ne nous soumets pas à la tentation» (não nos submetais à tentação) passará a rezar-se: «Ne nous laisse pas entrer en tentation» (não nos deixeis entrar/cair em tentação).
Esta decisão da conferência dos bispos franceses foi tomada em março passado, após aturado processo de diálogo – mais de dezassete anos de trabalho – com a Congregação para o culto divino em Roma.
Será uma questão de palavras ou estará subjacente outra leitura teológica e religiosa nesta mudança das palavras da 6.ª petição do ‘Pai-nosso’ em francês?
Ora, na tradução litúrgica portuguesa já seguimos a linha de pensamento e de oração agora avalizada para França, colocando o acento em ‘não cairmos na tentação’ e rejeitando a leitura de sermos submetidos, por Deus, à tentação.
Em latim a sexta-feira petição do Pai-nosso, extraído do texto de Mt 6,9-13 diz: «et ne nos inducas in tentationem». Se atendermos ao verbo grego que está em causa nesta etapa da oração - ‘eisphèrô’ (levar a, fazer entrar) poderíamos traduzir por: ‘não nos induzas ou leves à tentação’ ou ainda ‘não nos faças entrar em tentação’... Ora a tradução usada, em França desde 1966, - ‘não nos submetas à tentação’, parecia-nos fazer supor uma certa responsabilidade de Deus na tentação que levaria ao pecado, como se Ele pudesse ser o autor do mal... Os protestantes franceses (luteranos e reformadores) já tinham modificado, em 2016, a sua tradução sobre esta petição do Pai-nosso.
= Atendendo a todo o processo que levou a Igreja católica em França a fazer esta mudança na 6.ª petição do Pai-nosso, podemos e devemos sugerir que se faça uma reflexão sobre este assunto: a quem compete atribuir a vivência/experiência da tentação? Como podemos incluir Deus nesta atribuição, se é Ele quem, pela força do seu Espírito em nós, desde o batismo, nos concede as graças necessárias e suficientes para resistirmos e vencermos a tentação?
Mesmo sem ainda fazermos ligação à 7.ª petição - ‘mas livrai-nos do mal’ - poderemos já questionar quem é essa ‘força’ que nos cria enredos, em nós e à nossa volta, para cairmos na tentação. O próprio termo ‘satanás’ – cujo significado etimológico quer dizer: adversário, opositor, tentador – pode e deve ser incluído nesta experiência de tentação em que somos, tantas vezes, colocados pelas forças do mal… de forma explícita ou camuflada.
Ao pedirmos para ‘não cairmos na tentação’ estamos a reconhecer que há alguém mais forte do que as forças humanas que nos faz reconhecer que precisamos de ajuda para vencer a tentação...essa contínua condição em que vivemos enquanto estivermos na contingência terrena de fragilidade e até mesmo de fragilização.
= Talvez o percurso que fez a Igreja francesa nos possa servir de alerta em ordem a adequarmos as fórmulas litúrgicas e de oração comunitária às condições de vida, sabendo que a oração emerge da vida e a vida se repercute na oração.
Passados mais de cinquenta anos sobre  Concílio Vaticano II continuamos a precisar de ir à fontes que nos fizeram rever, aprofundar e acertar o nosso modelo de Igreja – ‘santa dos pecadores’ – onde cada um faz a descoberta da riqueza que nos une, nessa adequação a cada tempo da mensagem do Evangelho.
Do muito já feito, precisamos de mergulhar na graça, em ordem a sermos, verdadeiramente, um povo messiânico e com critérios de renovação em que cada circunstância. Parar será andar para traz e, desgraçadamente, temos muito a recuperar em tantos dos fiéis, sejam clérigos ou leigos e até religiosos! 

= Aprender a rezar, consciente e atentamente, o Pai-nosso faz com que vivamos numa atitude de humildade para connosco mesmos e para com os outros, pois estes ajudam-nos a estarmos sempre mais abertos aos outros, deixando-nos ajudar a rezar o Pai-nosso como oração da família de Deus, sendo todos filhos do mesmo Pai e irmãos uns para com os outros…

 

António Sílvio Couto

sábado, 14 de outubro de 2017

Orçamento ‘amigo’ de que famílias?


Tem vindo a tornar-se uma espécie de chavão, entre o vazio e o quase nada, a frase: este é um orçamento ‘amigo das famílias’. Ora, um comentador replicava: será das famílias ou dos eleitores?

Num contexto social, cultural e político que tanto tem combatido a noção de família – alicerçada no conceito judaico-cristão da união entre um homem e uma mulher…o mais possível de forma comprometida e estável – será essencial responder a que famílias é que o orçamento da geringonça quer satisfazer?

Sim, é de satisfazer que se trata, pois ‘satisfazer’ significa, antes de tudo, ‘fazer o suficiente’… e esse ‘suficiente’ tem tanto de subjetivo, quanto de irmos apurando o que se quer fazer de bastante e suficiente… para com quem se quer contentar ou agradar…seja ele grupo, lóbi ou simpatizante.

Diante ainda da complexa virtualidade que a igualdade de género tem vindo a propor será como que obrigatório definir qual o tipo de família que se pretende atingir e se, ao ser usado o termo ‘família’, não estaremos a confundir os narizes com outros apetrechos…num relativismo de termos, de intenções e de provocações. 

= Se há componente que o dito Orçamento de Estado (OE) pode relevar é a de ser elaborado a dar contento a quem se destina, neste caso em particular aos eleitores – quem governa tenta apelidá-los de ‘famílias’ – a quem pretende satisfazer, incluindo exigências e reclamações, anseios e pretensões daqueles que votaram em quem agora governa…mesmo que isso implique desgovernar, isto é, não fazer o que é preciso, mas distribuir por agora benesses e prebendas a gosto, sem atender à possível hipoteca do futuro a curto e a médio prazo.

As tais ‘famílias’ de quem o OE é amigo são as designadas pelo incremento do consumo, lançando as bases para um endividamento crescente e que trará consequências nefastas brevemente. 

= Coincidência ou não, a elaboração deste tal OE ‘amigo das famílias’ é conhecido quando um outro governante – com tudo quanto ele e a sua ‘entourage’ representam na nossa história sofrida – da mesma área ideológica é acusado de uma trintena de crimes… particularmente os de tráfico de influências e corrupção!

O processo é moroso e complexo… mas, pessoalmente, deixou-me arrepiado uma nota dessa acusação: uma empresa ganhou cerca de duzentos milhões de euros sem ter gasto um cêntimo… na questão comboio de alta velocidade.

E, se dentro de breves anos, viermos a descobrir que o foguetório deste OE ‘amigo das famílias’ não passa duma ilusão travestida de sucesso e num descalabro sem retorno? Quem pagará a fatura, a sério?  

= Quem tanto combate o conceito de família e a sua estabilidade, como pode vir arrogar-se defensor daquilo em que não acredita? Quem despreza o que as famílias fazem de bem pela vida e pela natalidade, como pode, agora, apresentar-se como sua defesa, quando já programou o seu enterro?

Naquele saco de gatos – ou será, antes, de ratos, na hora da verdade – que é a governação em ato, como há ainda quem se pretenda defensor da família, quando lançou as bases para a sua estatização/estalinização? Quando tudo fizeram para nacionalizar os filhos, querem agora aliciar ainda mais os pais? Enquanto vão tolerando os velhos, como pretendem manipular os mais novos?  

= Dá a impressão que é próprio de quem não conhece o povo português: quando lhe pretendem vender ilusões e depois todos colhemos tempestades. Pode-se enganar – mesmo usando a máscara da mentira – durante algum tempo, mas isso não durará todo o tempo. Assim foi no passado, assim será no futuro. Dinheiro barato sempre nos saiu muito caro, senão de forma direta, ao menos nos vindouros.

Quando não se incentiva a poupar, mas a gastar sem olhar às posses, bem depressa se cairá no fosso, donde só se sairá com muito sacrifício, rigor e boa economia…

Se não sabem governar a própria casa – muitos vivem de aluguer em aluguer até irem para a rua, quando despejados da governança – como saberão governar o país? A sanha contra o bom senso é atroz… em muitos daqueles/as que barafustam no parlamento e nas ruas. Basta o ‘chapa-ganha’ e o ‘chapa-gasta’!

 

António Sílvio Couto


quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Tropelias dos perdedores…


Numa atitude que vem sendo recorrente, vemos surgirem, mais uma vez, na discussão política temas fraturantes, eivados de inovação, mas que não passam de manobras de diversão, quais tropelias infantis dos perdedores das últimas eleições autárquicas…

As ideologias mais esquerdistas do nosso espetro eleitoral ainda não engoliram a perda de lugares ou a não-eleição a que tanto aspiravam, por isso, agora trazem para a liça temas que nitidamente dividem e manifestações que azedam... Não conseguiram conquistar câmaras municipais, juntas de freguesia ou vereadores…Também não perceberam que a sua expressão votada ficou muito aquém do que julgavam valer… E, agora, tentam ganhar na rua e na contestação – nem que seja pela destabilização social e moral – o que não valem pelos votos. Se são tão democratas – como se dizem – aceitem as lições que o povo lhes deu. 

= Sobre uma das matérias trazidas à discussão por algumas fações da (dita) esquerda – agora mais acirrada pela desventura eleitoral recente – é a da mudança de sexo… de menores de idade mesmo contra a opinião dos pais. ‘O conselho permanente [da Conferência episcopal portuguesa] mostrou preocupação em relação à proposta legislativa sobre mudança de sexo a partir dos 16 anos, sem autorização dos pais’.

Os bispos portugueses lamentam o ‘modo como se está a tratar assunto tão importante sem debate sério na sociedade’. Com efeito, o tema foi levado ao parlamento em setembro passado, mas desceu a uma comissão sem votação… e, sabe-se lá quando, voltará a emergir do crematório populista.

Já em novembro de 2013, a Conferência episcopal portuguesa fez publicar uma carta pastoral, intitulada: ‘A propósito da ideologia do género’, onde são apresentados os principais aspetos cristãos sobre a matéria.

Diz-se na abertura desse documento:

«Difunde-se cada vez mais a chamada ideologia do género ou gender. Porém, nem todas as pessoas disso se apercebem e muitos desconhecem o seu alcance social e cultural, que já foi qualificado como verdadeira revolução antropológica. Não se trata apenas de uma simples moda intelectual. Diz respeito antes a um movimento cultural com reflexos na compreensão da família, na esfera política e legislativa, no ensino, na comunicação social e na própria linguagem corrente.

Mas a ideologia do género contrasta frontalmente com o acervo civilizacional já adquirido. Como tal, opõe-se radicalmente à visão bíblica e cristã da pessoa e da sexualidade humanas. Com o intuito de esclarecer as diferenças entre estas duas visões surge este documento. Move-nos o desejo de apresentar a visão mais sólida e mais fundante da pessoa, milenarmente descoberta, valorizada e seguida, e para a qual o humanismo cristão muito contribuiu. Acreditamos que este mesmo humanismo, atualmente, é chamado a dar contributo válido na redescoberta da profundidade e beleza de uma sexualidade humana corretamente entendida.

Trata-se da defesa de um modelo de sexualidade e de família que a sabedoria e a história, não obstante as mutações culturais, nos diferentes contextos sociais e geográficos, consideram apto para exprimir a natureza humana». 

= Deixo breves questões sobre o assunto, que devem fazer-nos refletir não só sobre a matéria, mas também sobre a sua (in)oportunidade:

* Será preciso colocar neste folclore noticioso algo que, sendo sério, merece respeito e serenidade?

* Será mesmo sério querer confundir tendências com orientações ou ainda fazer crer que tudo tem o mesmo valor e igual sensatez?  

* Porque desejam fazer descer a idade de tomada de posição sobre matéria tão importante e fulcral que não meramente de moda ideológica transversal ou de flutuação cultural hedonista?

* Não revelará a discussão sobre este assunto da ‘ideologia de género’ uma vacuidade mental e até uma falsidade cultural, mesmo que haja intelectuais (não-independentes) envolvidos?

* Diante deste, como de outros assuntos, não se tratará mais duma falácia civilizacional e dum vazio que se entretém com coisas que revelam que estamos no fim da linha dum tempo e duma visão da pessoa humana?     

 

António Sílvio Couto



segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Incêndios de outono precisam de interpretação


J
á vamos com quase um mês de outono e vemos, novamente, notícias – nalguns casos preocupantes e dramáticas – de incêndios, sobretudo, na região norte e centro do país: milhares de operacionais em combate, meios aéreos e terrestres às centenas, hectares e hectares ardidos, queixas e queixumes… até um autarca foi agredido em direto na televisão… tudo devido às temperaturas elevadamente anormais para a época, à mistura com negligências – ouviram-se acusações de criminoso fogo posto – e de falta de meios…porque já fora duma pretensa declarada etapa não-abrangida pela prevenção e o combate a esta ‘guerra civil’ disseminada por todo o país, desde que haja onde arder e algo para arder… 

= Com o ‘circo’ montado outra vez, os incêndios estão à disposição dos abutres noticiosos, criando a sensação de que estamos a saque, onde o país rural – que é real e que não se limita a ser olhado de forma complacente por quem vive na cidade – fica cada vez mais exposto ao abandono, tanto das populações como de quem dirige o resto do país.

Se tentarmos interpretar o significado dos resultados das recentes eleições autárquicas poderemos questionar por que é que a ‘onda rosa’ invadiu esse país rural, particularmente no interior – segundo dizem – despovoado e envelhecido. Os que ainda restam deixaram-se seduzir pelas promessas de vida melhorada, que nos têm vindo a vender nos últimos dois anos? No caso das autarquias onde quase tudo ardeu no verão, os dinheiros das campanhas de solidariedade – ainda não se apurou a totalidade! – não foram usados como arma para cativar votos e ganhar câmaras e juntas? Apesar de talvez não termos tantos dados como seria desejável – numa transparência que urge semear e cultivar – não deixa de ser mais do que coincidência a mudança e a colagem aos vencedores… 

= Com esta nova vaga de incêndios como que se avivam as tragédias que perpassaram o país no verão passado. Dá a impressão de que as pessoas estão confinadas à sua sorte: as perdas humanas e materiais, os prejuízos e as confusões, as desculpas e os erros, as falhas e as acusações… continuam como que a ser regra nesta área do nosso ‘eu coletivo’, onde se nota que somos um país a várias velocidades, onde os ‘citadinos’ olham com algum desdém os ‘rurais’  e estes se sentem preteridos por quem governa, pois não passam de material combustível seja qual for a época ou a localização.

Depois de tantos cenários de cobertura noticiosa, onde está o apuramento – cível, criminal, político e moral – das responsabilidades? Por onde param os inquéritos prometidos? Até quando teremos de aguentar tanta incompetência? Talvez não se possa apurar a verdade, se alguns dos possíveis culpados foram premiados com vitórias eleitorais! Talvez seja este o país que uns tantos querem que seja construído, com a conivência de certas forças (ditas) populares, mas que não passam de populistas, não-assumidos! 

= Embora já tenha abordado esta questão no pico dos incêndios estivais, não será totalmente desconexo voltar a uma das causas desta nova vaga de incêndios: a falta de água, isto é, de chuva, que tem vindo a agravar, de forma mais agressiva e impiedosa, as condições para estes incêndios de outono.

Precisamos de implementar uma mentalidade de súplica para que haja chuva, não só para atenuar este ambiente de seca, propício para os incêndios, como para termos os recursos hídricos suficientes para a vida normal das populações. Aos responsáveis das Igrejas se pode e deve solicitar que criem condições para que os outros fiéis supliquem a Deus que nos dê a tão desejada chuva. A quem conduz os espaços de celebração da fé se deve um imperativo moral de tentar interpretar a falta de chuva como uma provação de Deus… era deste modo que os israelitas viam a chuva (dada ou ausente)… e nós, cristãos, seguimos esta salutar tradição religiosa e de vida.

De facto, não bastará só a visão cientifista para explicar as mudanças de clima e as interferências humanas na natureza, mas quem seja crente precisa de ‘meter de Deus’ nestes aspetos aparentemente simples, embora não simplistas…Os incêndios de outono são mais do que somas de parcelas onde os humanos têm alguma culpa. Estes atuais incêndios podem e devem ser um chamamento à nossa conversão e correção de vida…  

 

António Sílvio Couto