Partilha de perspectivas... tanto quanto atualizadas.



segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Incêndios de outono precisam de interpretação


J
á vamos com quase um mês de outono e vemos, novamente, notícias – nalguns casos preocupantes e dramáticas – de incêndios, sobretudo, na região norte e centro do país: milhares de operacionais em combate, meios aéreos e terrestres às centenas, hectares e hectares ardidos, queixas e queixumes… até um autarca foi agredido em direto na televisão… tudo devido às temperaturas elevadamente anormais para a época, à mistura com negligências – ouviram-se acusações de criminoso fogo posto – e de falta de meios…porque já fora duma pretensa declarada etapa não-abrangida pela prevenção e o combate a esta ‘guerra civil’ disseminada por todo o país, desde que haja onde arder e algo para arder… 

= Com o ‘circo’ montado outra vez, os incêndios estão à disposição dos abutres noticiosos, criando a sensação de que estamos a saque, onde o país rural – que é real e que não se limita a ser olhado de forma complacente por quem vive na cidade – fica cada vez mais exposto ao abandono, tanto das populações como de quem dirige o resto do país.

Se tentarmos interpretar o significado dos resultados das recentes eleições autárquicas poderemos questionar por que é que a ‘onda rosa’ invadiu esse país rural, particularmente no interior – segundo dizem – despovoado e envelhecido. Os que ainda restam deixaram-se seduzir pelas promessas de vida melhorada, que nos têm vindo a vender nos últimos dois anos? No caso das autarquias onde quase tudo ardeu no verão, os dinheiros das campanhas de solidariedade – ainda não se apurou a totalidade! – não foram usados como arma para cativar votos e ganhar câmaras e juntas? Apesar de talvez não termos tantos dados como seria desejável – numa transparência que urge semear e cultivar – não deixa de ser mais do que coincidência a mudança e a colagem aos vencedores… 

= Com esta nova vaga de incêndios como que se avivam as tragédias que perpassaram o país no verão passado. Dá a impressão de que as pessoas estão confinadas à sua sorte: as perdas humanas e materiais, os prejuízos e as confusões, as desculpas e os erros, as falhas e as acusações… continuam como que a ser regra nesta área do nosso ‘eu coletivo’, onde se nota que somos um país a várias velocidades, onde os ‘citadinos’ olham com algum desdém os ‘rurais’  e estes se sentem preteridos por quem governa, pois não passam de material combustível seja qual for a época ou a localização.

Depois de tantos cenários de cobertura noticiosa, onde está o apuramento – cível, criminal, político e moral – das responsabilidades? Por onde param os inquéritos prometidos? Até quando teremos de aguentar tanta incompetência? Talvez não se possa apurar a verdade, se alguns dos possíveis culpados foram premiados com vitórias eleitorais! Talvez seja este o país que uns tantos querem que seja construído, com a conivência de certas forças (ditas) populares, mas que não passam de populistas, não-assumidos! 

= Embora já tenha abordado esta questão no pico dos incêndios estivais, não será totalmente desconexo voltar a uma das causas desta nova vaga de incêndios: a falta de água, isto é, de chuva, que tem vindo a agravar, de forma mais agressiva e impiedosa, as condições para estes incêndios de outono.

Precisamos de implementar uma mentalidade de súplica para que haja chuva, não só para atenuar este ambiente de seca, propício para os incêndios, como para termos os recursos hídricos suficientes para a vida normal das populações. Aos responsáveis das Igrejas se pode e deve solicitar que criem condições para que os outros fiéis supliquem a Deus que nos dê a tão desejada chuva. A quem conduz os espaços de celebração da fé se deve um imperativo moral de tentar interpretar a falta de chuva como uma provação de Deus… era deste modo que os israelitas viam a chuva (dada ou ausente)… e nós, cristãos, seguimos esta salutar tradição religiosa e de vida.

De facto, não bastará só a visão cientifista para explicar as mudanças de clima e as interferências humanas na natureza, mas quem seja crente precisa de ‘meter de Deus’ nestes aspetos aparentemente simples, embora não simplistas…Os incêndios de outono são mais do que somas de parcelas onde os humanos têm alguma culpa. Estes atuais incêndios podem e devem ser um chamamento à nossa conversão e correção de vida…  

 

António Sílvio Couto



sexta-feira, 6 de outubro de 2017

‘Coração, cabeça e estômago’… em versão autárquica


Este é o título dum romance de Camilo Castelo Branco, publicado em 1862 – há cento e cinquenta e cinco anos – no qual se referem etapas/épocas da vida do personagem principal até à morte... A fase do coração narra os amores enganadores e desfeitos de Silvestre Silva, vividos numa Lisboa libertina. A fase em que a cabeça se sobrepõe ao coração, retrata essa etapa em que o protagonista faz uma aproximação às herdeiras ricas do Porto. Por último, a vertente do estômago refere-se ao Silvestre cansado das solicitações citadinas e que procura refúgio em Soutelo, terra dos seus antepassados.

As mais de duas centenas de páginas do romance camiliano poderiam ser agora apropriadas às múltiplas leituras dos resultados eleitorais das recentes autárquicas...sobretudo se tivermos em conta as multiformes facetas dos vencedores: figurados que foram já pelo coração, depois aturdidos por alguma dor de cabeça – de que todos viemos a pagar as consequências! – e, nos tempos mais próximos (antes e depois), intencionados a darem conforto aos apetites mais ou menos insaciáveis do estômago...

A correta concatenação destas várias dimensões – coração, cabeça e estômago – ajudar-nos-iam a ter opções mais acertadas e bem discernidas não só para deixarmos emergir o que nos interessa, mas essencialmente para que se possa manifestar aquilo que nos deve guiar, incentivar e impulsionar nas escolhas e no desenvolvimento do bem comum. 

= Partamos, então, das palavras supra enunciadas...para tentarmos elucidar alguns aspetos mais subtis, que poderemos encontrar dissiminados nas eleições autárquicas, tendo em conta o antes de (tempos de campanha), o durante (votação) e o depois (duração do mandato):

* Coração – com que habilidade se podem manipular os diversos intentos emocionais/afetivos, podendo levar os mais incautos eleitores a darem voto de confiança a quem os possa ludibriar... desde que se coloque um pouco de emoção. Com efeito, as promessas de campanha são feitas mais ao jeito da emotividade do que da racionalidade...mesmo que haja uma razoável desconfiança, envolvida nas fímbrias mais ténues do coração... À boa maneira do Silvestre do romance de Camilo, assim muita leviandade da capital – lugar e posicionamento – pode fazer enganar os intuitos mais simples, tornando-os algo vulneráveis pela manipulação de arranjos e de desejos de ocasião!  

* Inteligência – esta fundamental faculdade da pessoa humana pode ser, com alguma subtileza, quase revertida da sua função de pensar, se for considerada no contexto de ser reduzida àquilo que queremos que seja feito: por mais vezes do que seria desejável vemos ser usada a inteligência confundida com esperteza, numa espécie de antecipação aos outros daquilo que eles irão descobrir se pensarem um pouco mais. Em quantas situações se deixa que a inteligência seja ofuscada pelo oportunismo e até a inconveniência. À semelhança do protagonista do romance camiliano, vemos uns tantos pretenderem suplantar os outros na habilidade em se acercarem das riquezas alheias...mesmo que à socapa!  

* Estômago – este simbolismo de sucesso – desejado, concretizado ou pretendido – conquista muitos votos e os ardilosos em os conseguirem exercer com habilidade. Talvez tenha sido pela satisfação das pretensões do estômago – ter que comer, que beber e uns cobres para passear – que foram ganhas as últimas eleições. Aconchegados os estômagos, cabeça e coração como que se desligam das reivindicações... mesmo as mais ideológicas e significativas. Com mais dinheiro agora, pode-se afrouxar a exigência, pois já se tem o necessário e suficiente para viver desafogado... Talvez se esteja a pensar com horizontes muito redutivos e quem governa sabe como isso conquista votos e faz ganhar eleições... Amanhã poderemos voltar à exigência, mas, desde que nos convençam que a austeridade já ‘acabou’ há que gozar sem atender ao futuro...mais incerto, rigoroso e sombrio.

 

As eleições autárquicas de 2017 foram ganhas pelo estômago. A cabeça precisa de voltar a pensar... o futuro. O coração tem pressa em sentir...as razões do passado. O presente é muito curto e breve!       

 

António Sílvio Couto



terça-feira, 3 de outubro de 2017

Indefecáveis do sistema



Nos tempos pós-eleitorais surgem – sobretudo nas hostes vencidas – uns tantos salvadores das derrotas indesejadas: há os que surgem por conveniência dos dados; outros aparecem nessa atitude de abutre à portuguesa de regozijar-se com as derrotas alheias; alguns são atirados para fazerem (se soubessem!) melhor; mais uns tantos emergem das longas penumbras obscuras de pretensões não-aceites; numa razoável lista de candidatos poderemos ver muita parra e pouca uva…agora que estamos no lavar-dos-cestos das vindimas, isto é, de colher os frutos sem termos tratados das etapas necessárias anteriores…

Bem sei que o termo ‘indefecável’ não é reconhecido pelo dicionário. Mas, se fizermos a decomposição da palavra encontramos como termo central – ‘defecar’ – que qualquer mortal conhecerá duma certa terminologia um tanto erudita referente a uma necessidade fisiológica mínima e essencial…ao equilíbrio somático-psicológico. O prefixo ‘in’ como que nos leva a considerar uma espécie de movimento e de inclusão de quem participa na ação apresentada… Por seu turno, o sufixo ‘ável’ leva-nos a considerar algo/alguém que participa na ação suscitada e com a possibilidade de praticar ou de sofrer a dita ação… (perdoando a redundância) ativamente.

Numa palavra: ‘indefecável’ será alguém que faz parte da ação de expelir os resíduos do organismo, fazendo-o de forma regular e em consonância com os atributos do sistema onde se encontra inserido… talvez ele mesmo num enquadramento de matéria inorgânica dispensável. 

= Pela leitura que fazemos dos acontecimentos mais recentes da nossa vida social e política, fomos vendo muitos exemplares de indefecáveis, gerados, geridos e geradores do sistema partidário em cujo quadro nos inserimos, vemos e vivemos. Uns já saíram de circulação; outros esbracejam para flutuarem antes do afundamento previsível; uns quantos tentam posicionarem-se para sobreviver um pouco mais; diversos aspiram a entrar no sistema, que, mesmo podendo ser pouco recomendável, ainda será salvo-conduto para mais uns tempos de emprego às custas do dinheiro estatal…  

= Quem tenha um mínimo de memória saberá que dos derrotados não reza a história, exceto se estes se souberem reinterpretar nas horas menos afortunadas. Será, no entanto, nos momentos de vitória que se conhece o estofo de quem ganha, pois os eflúvios vitoriosos podem ofuscar a racionalidade, levando a cometer erros que mais tarde serão pagos com juros bastante altos.

Nalgumas situações vemos que as pessoas se tornam irrazoáveis sobre o modo como conseguiram conquistar os seus feitos…vencedores. Há casos onde o amesquinhamento alheio é, desde logo, uma espécie de certidão de óbito para novas batalhas. Se há coisa que a história nos ensina é, como diz o povo, ‘não há mal que sempre dure, nem bem que nunca acabe’! Pena é que que os atores se esqueçam do enredo do passado…

Disto e de muito mais – sobretudo no apadrinhamento de ‘falsas notícias’ – temos visto a serem entretecidos muitos dos episódios criados, explorados e noticiados por uma certa comunicação social, onde uns quantos ‘jornalistas/comentadores’ se vão tornando os maiores paladinos dos indefecáveis em vigor ou a serem promovidos a curto e a médio prazo. Alguns são os mesmos de serviço há décadas. Outros como que se tornam ventríloquos dum espetáculo de circo em maré de digressão. Outros ainda teremos de duvidar sobre quem lhes paga para fazerem o papel ora de entrevistador/a, ora de comentador/a… dependendo da hora e do programa…senão mesmo do local. Haja vergonha! 

= Quando tantos se vangloriam dos seus feitos e efeitos, torna-se urgente e essencial não nos esquecermos que tanto estamos (ou podemos estar) na vanguarda, como bem depressa poderemos encontrar-nos na retaguarda… Somos, enquanto humanos, muito mais vulneráveis do que julgamos. Assim o desempenho dos outros – sucessos e derrotas – nos possam servir de aprendizagem em cada circunstância da nossa ténue vida. Que não nos deixemos ludibriar com os elogios nem atemorizar com as críticas… tudo faz parte da vida. Assim o entendemos correta, inteligente e humildemente.        

 

António Sílvio Couto



segunda-feira, 2 de outubro de 2017

‘Falsas notícias’ e construção da paz pela verdade


O tema do 52.º dia mundial das comunicações é: ‘A verdade vos tornará livres (Jo 8,2). Notícias falas e jornalismo de paz.

Este tema tem algo de atual e deve merecer a nossa atenção – particularmente no rescaldo das eleições autárquicas – e exige-nos um esclarecimento muito preciso e precioso.

Desde logo o que são as ‘falsas notícias’ (‘fake news’) e como as poderemos detetar na conjuntura noticiosa em que nos encontramos? A quem interessa difundir as ‘falsas notícias’? Os difusores de ‘fake news’ poderão ser chamados à responsabilidade ou bastará a denúncia pela deteção dos factos? Por onde mais circulam as ‘fake news’? Poderemos – mesmo sem disso termos total consciência – ser difusores de ‘falsas notícias’?

Desde logo as ‘fake news’ situam-se, culturalmente, no âmbito social do boato, esse veículo de conversa com que tanta gente – mesmo nas nossas localidades mais simples e ruralistas – falava da vida alheia, bisbilhotando questões e situações, difundindo defeitos e misturando conjeturas, reportando-se a problemas dos outros e divulgando mais o que é negativo do que o que é correto e verdadeiro.

Numa abordagem de descrição de ‘fake news’ conseguimos encontrar esta espécie de ‘definição’: o termo [notícias falsas] diz respeito a sites e blogs que publicam intencionalmente notícias falsas, imprecisas ou simplesmente manipuladas, com a intenção de ajudar ou combater algum alvo, normalmente político. Eles também copiam notícias verdadeiras de outros veículos, mas mudam as manchetes, alterando o sentido ou colocando algo sensacionalista para atrair leitores… 

= Ao apresentar o tema do próximo dia mundial das comunicações sociais, a secretaria para a comunicação do Vaticano justificou a escolha do tema com as seguintes palavras: ‘num contexto em que as empresas de referência da social web e o mundo das instituições e da política começaram a enfrentar este fenómeno, também a Igreja quer oferecer um contributo, propondo uma reflexão sobre as causas, as lógicas e as consequências da desinformação nos media’.

Quando vivemos mais numa cultura da opinião e menos da notícia. Quando fazemos valer mais o poder dos gabinetes de comunicação das autarquias e menos o processo da feitura das notícias pelos órgãos de comunicação…’independentes’. Quando vemos crescer uma busca do sensacional e menos da objetividade. Quando vemos avançar o culto da personalidade e menos a difusão do conteúdo programático. Quando se nota que há agentes – políticos e económicos, sociais e ideológicos – que manipulam quem difunde as imagens, as declarações e os projetos… Não estaremos a cultivar mais as ‘falas notícias’ e menos uma comunicação social ao serviço da verdade e da paz? 

= Torna-se urgente detetar e denunciar o modo como vêm a ser servidos certos conteúdos noticiosos. Há quem se venha a afirmar pelas boas notícias, que, no fundo mais profundo, não passam de ‘falsas notícias’. Como o processo está nas mãos de quem vende tais ilusões, as ‘falsas notícias’ são servidas com habilidade esperta e sorvidas com avidez suficiente de quem, sendo envenenado a conta-gotas, não se adverte ainda dos perigos e falácias. Com os anos de democracia – se tal for real e não-virtual – que achamos que temos, seria já advertido que idênticas condições deram consequências muito nefastas para todos e não só para os proponentes e executores… Todos pagamos – e pagaremos – a fatura!

Há uns tantos que já provaram, nos resultados das autárquicas, do veneno que têm vindo a semear: da tentativa de vitória conseguiram amealhar derrotas muito amargas. Os parceiros da geringonça vão sendo tragados pela sofreguidão vencedora. Os palpites deixados noutras circunstâncias deviam ser lidos e refletidos com muita atenção e quase como estertor de sobrevivência…

Agora que podemos questionar as ‘falsas notícias’ haverá ousadia para afrontar quem se acha dono disto tudo? Atendendo à morbidez dos factos recentes temos muito a recear pelo nosso futuro coletivo… Aos fazedores vendidos e vendedores de tantas notícias falsas precisamos de lembrar o velho refrão: Roma não paga a traidores… Por isso, acordem e não se deixem manipular como tem estado a acontecer!    

 

António Sílvio


sábado, 30 de setembro de 2017

Ter algo a comunicar!


Por estes dias (28 e 29 de setembro) realizaram-se, em Lisboa, no espaço da Rádio Renascença, as já habituais jornadas da comunicação. Este ano o tema andou à volta da ‘comunicação: criatividade e partilha’.

Vindos de várias partes do país umas dezenas de jornalistas – ligados à comunicação social da Igreja católica ou não – escutaram intervenções sobre o modo de informar no ambiente das redes sociais; conteúdos – linguagens multimédia; conteúdos – escrita criativa; partilha nas redes sociais – facebook, instagram, twiter e youtube…

Das diversas experiências dos comunicadores e dos participantes pode-se escutar a necessidade de saber comunicar a mensagem, adequando os meios aos ambientes e fazendo destes espaços de compreensão da linguagem criada pela internet, sobretudo nas redes sociais.

Por entre tantos e tão proveitosos meios para nos comunicarmos, hoje, será sempre preciso que a comunicação social saiba apreender os desafios que os novos meios trazem aos meios já presentes nesta área da comunicação. Se o aparecimento da rádio fez, dalgum modo, perigar a comunicação de imprensa, a televisão colocou novos desafios aos anteriores meios usados e agora a internet está a desafiar as outras formas de comunicação social, sabendo corrigir-se e renovar-se nas formas e nos conteúdos. 

= Desde há alguns anos que temos – nestas jornadas da comunicação social ao nível nacional – vindo a recorrer a esta temática da comunicação social, tendo em conta as tecnologias mais atualizadas, com a internet em grande destaque, umas vezes como objeto das questões, outras vezes como sujeito de referência e muitas vezes ainda como ferramenta de comunicação. Os artífices deste empreendimento têm sido os que no meio estão mais atentos, se apresentam mais audazes e se manifestam mesmo pioneiros sobre a matéria. Os apetrechos das jornadas vão andando entre os computadores, os tablets…os velhos cadernos e esferográficas… à mistura com o ‘último grito técnico’ usado ou a utilizar na comunicação social. De facto, este vetor mais atualizado de comunicação, que se revela a internet, polariza as energias de quantos a utilizam como ferramenta para o seu trabalho, o lazer e até para a ocupação de muito do tempo duma larga maioria da população.

O mundo está bastante diferente desde a erupção da internet. A convivência entre as pessoas modificou-se radicalmente com a introdução das (ditas) redes sociais, desde as mais vulgares (isto é, mais difundidas ou vulgarizadas) até às mais específicas. Dá a impressão que, cada segmento da população, procura ter na grande autoestrada da internet o seu atalho de recurso ou mesmo de presença. O não-uso da internet é, hoje, uma forma de exclusão – quase um neo-analfabetismo – porque se está fora dos espaços por onde a imensa maioria navega… 

= De entre tantos meios colocados à nossa disposição – seja qual for a rede social com os vários epítetos que se lhe possam referir – não podemos esquecer que é preciso ter algo a comunicar para que não vivamos nessa espécie de pântano cultural e de civilização, onde o que importa é estar, mesmo que disso tiremos – nós e os outros – pouco proveito. De entre tanta tagarelice em comunicação teremos de incluir uma preocupação: o que é que queremos dizer? Qual o objetivo para estamos nessa rede social?

A nós, que somos cristãos, deve-nos fazer refletir se estamos a introduzir a mensagem cristã na matéria da nossa comunicação. Não podemos correr o risco de estarmos sem que não tenhamos uma mensagem a veicular.

Dado o segmentarismo de tanta da comunicação na internet, teremos de atender aos meios usados, mas, sem nunca, desperdiçar os objetivos finais. O produto de comunicação dum cristão deverá ser sempre a mensagem da pessoa de Jesus Cristo. Ora, é neste ponto algo sensível – até no substrato das jornadas da comunicação social da Igreja católica – que temos de cuidar da criação multimédia, da arte da escrita, da partilha dos conteúdos, da formação dos comunicadores, da mensagem a levar aos destinatários…

Numa palavra: a internet poderá ser anódina na sua origem, mas não poderá deixar de ser cristã na sua finalidade… ou andaremos a espalhar notícias que não são sementes da Boa Notícia do Evangelho!       

 

António Sílvio Couto




terça-feira, 26 de setembro de 2017

Da estrupícia discriminação… ao book rosa


Pasme-se: na campanha eleitoral autárquica, em Lisboa, uma candidata ‘iluminada’ sugeriu que, na capital, os transportes públicos devem incluir uma divisória para uso exclusivo das mulheres, por forma a defendê-las do assédio dos homens… Levou à liça algumas mulheres doutros paridos e nada foi dito de que isso era discriminatório da liberdade das pessoas nem tal proposta foi considerada como ofensiva das mulheres… todas e não só das (pseudo) queixosas…

Se tal ideia fosse lançada por outra qualquer força que não do quadro da (dita) esquerda o que teria sido dito e reportado…como retrógrado, fomentador do racismo, sexista e xenófobo…onde as mulheres estariam a ser subalternizadas. Mas como foi atirado para o ar – literalmente como se fosse uma boca, um gracejo ou um piropo, agora já sob a alçada da lei – por uma ‘intelectual de esquerda’ ninguém fala nem ousa contestar… Assim podemos ver – como diz o filósofo ‘de forma bem vista’ – a tal ‘independência’ e os trejeitos da nossa comunicação social: uns são engraçados e outros caem em desgraça…mesmo que tenham razão!

A sugestão tão revolucionária recebeu – apesar de tudo – o rótulo da recuperação do apartheid, de carruagem cor-de-rosa ou de medida segregadora… E a transferência para Portugal de tiques brasileiros pouco mais deu do que uma nota de rodapé… estrupícia.

É preocupante e confrangedor que, nos tempos mais recentes, se esteja a viver numa assanhada luta ideológica de reversão de questões já resolvidas e culturalmente ultrapassadas pela moderação dos valores concordantes no nosso país. Com algum azedume vemos surgirem ideias de conflitualidade entre setores da sociedade, quando tanto se tinha já percorrido para que a igualdade – sem igualitarismo – entre homens e mulheres continue o seu caminho. Quiseram introduzir a baralhação do ‘género’ e as coisas começaram a tornar-se acintosas para quem nunca tinha, antes, qualquer problema. Certas mentes andam entretidas em escarafunchar pontos de divergência, quando, antes, tudo estava pacífico e pacificado…até pela consciencialização de séculos de cultura cristã latente ou tácita.   

= Uns/umas tantos/as parecem, pelo contrário, revestir a figuração de ‘book rosa’ ou ‘book azul’, senão na prática, ao menos nas ideias. Nesse grande palco da simulação e na assunção de papéis de faz-de-conta, dá a impressão que se vislumbra uma espécie de ‘boa vida’ sem olhar a meios, desde que possa haver proveito mais ou menos imediato. Em quantos dos casos de exibição na comédia – ou será, antes, drama e tragédia? – da nossa vida pública/política parece que há gente que não olha a meios para atingir os (seus) fins.

Por certo que, quem tenha já percebido o guião, tenderá a fugir das fraldas do palco, de modo a que não seja confundido com os atores que entram e os que saem, embora possam ser os mesmos só trocando de roupagem nos bastidores…Em certas ocasiões – como as de campanha eleitoral – as funções confundem-se e as falas de representação podem deixar de ter nexo, tal é a atrapalhação em querer dizer tanto com tão pouco critério… ajuizado e sensato. 

= Há coisas que não têm solução, porque não se aprendem dumas vezes para as outras. Pior: como a qualidade dos intervenientes vai decaindo, até as graçolas dos inteligentes se tornam ridículas, quando referidas pelos incompetentes de serviço… e são tantos/as!

Como dizia, recentemente, o Papa Francisco: é pecado não rezar pelos que nos governam. Sim, para que sejam retos e honestos, verdadeiros e leais, altruístas e inteligentes.

Quando vemos certas reações ‘democráticas’, se não condizem com as nossas, então estamos condenados à ditadura. Esta tanto pode ser da privação de liberdade como pelo fomento de libertinagem. Ora, desta – a libertinagem – estamos cada vez mais atulhados e quase incapazes de reagir com bom senso e ousadia. O bom senso há-de-nos fazer aceitar os valores dos outros, respeitando-os. A ousadia dar-nos-á capacidade de não nos acomodarmos ao já feito, mas tentando recriar novas formas de compromisso uns com os outros…sempre em abertura à dimensão divina e sagrada da pessoa humana.        

 

António Sílvio Couto



segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Ei-los que partem…


 
No escasso espaço de três semanas faleceram dois bispos, ambos na região do Porto: D. António Francisco dos Santos a 11 de setembro e D. Manuel Martins a 24 de setembro… um era titular da diocese portuense e tinha 69 anos, o outro era bispo emérito de Setúbal e tinha 90 anos… Cada um a seu modo deixou marcas entre o povo que serviram e, na hora do falecimento, emergiram muitas das raízes que os conduziram realmente na vida…

Com personalidades distintas e com quase vinte anos de diferença, D. António e D. Manuel foram – e continuarão a ser – luzeiros que podem ritmar a vivência da fé cristã, na sua expressão católica, pois ambos fizeram da atenção aos outros, sobretudo aos mais fragilizados, o centro das suas tarefas pastorais e de intervenção na vida política…

Desengane-se quem pense rotular um e outro com colorações do arco-íris, pois não precisarão de tais colagens e alguns dos elogios de forças partidárias e ideológicas soam a oportunismo e talvez com interesses que ambos souberam sacudir durante a vida e aos quais não gostaríamos que fossem associados depois da morte. Para uns tantos as ações no âmbito do social destes dois bispos parecem caraterizar o que deles se possa dizer de forma redutiva. Eles foram muito mais do que intervenções de cariz social, pois isso decorria da sua fé, que via nos mais pobres, desprotegidos e marginalizados o rosto sofredor de Cristo… Este sim, era – notava-se nas palavras e nos gestos de ambos – quem os obrigava a intervir e não a mera conjuntura social e política, com que alguns pretendem interpretar as suas vivências pastorais. 

= De D. António muito se disse nos dias subsequentes ao seu falecimento, mas ficou na memória essa frase do atual arcebispo de Braga, com que o falecido trabalhou na diocese: era alguém que deixou o povo a cheirar a bispo… Isto diz muito daquilo que foi designado como a bondade de D. António nas várias dioceses que serviu como padre e como bispo. Duriense de nascimento fez-se por entre vicissitudes na emigração e caldeou o seu saber humano com a sabedoria divina, até ao tempo em que foi chamado a estar na responsabilidade das dioceses por onde passou: Braga, Aveiro e Porto…

D. António era, de facto, um homem que a todos cativava pela capacidade de ter uma palavra para com cada interlocutor, normalmente, elogiosa, oportuna e sábia… 

= Por seu turno, D. Manuel ‘nasceu bispo em Setúbal’ – foi na Sé que foi ordenado e como ele costumava dizer – e sempre levou esse amor episcopal setubalense por onde passou… dentro e fora das fronteiras. Marcou o ritmo da Igreja nesta diocese e fez de cada palavra sua um grito profético: audaz, ousado e perspicaz… tanto para crentes como para não-crentes.

D. Manuel foi o cabouqueiro desta diocese de Setúbal, pois, além das bases que lançou, deu-lhe o ritmo de vivência da fé encarnada e simbolicamente vivida com as mãos sujas do fazer pelos outros o que a fé o impelia a traduzir… mesmo fora dos holofotes da comunicação social.

Dos parcos meses que o tive como bispo – cheguei a esta diocese em outubro de 1997 e ele saiu em junho de 1998 – e reconhecendo o modo como me acolheu – talvez se lembrasse do modo como foi aceite em 1975 – pude ver que era um homem simples e arguto, capaz de dizer com uma interjeição o que um discurso inteiro de outros não conseguia. Notava-se que D. Manuel tinha sempre um objetivo naquilo que fazia pela arte de levar-nos a descobrir o significado das coisas e com capacidade para além do pretensamente sabido… Construiu um estilo que dificilmente será imitado!

Agora, com o seu passamento, se cumpriu o pedido que encimava os seus escritos anos a fio no jornal diocesano: ‘Posso entrar’. Com efeito, pedia licença para entrar, mas já estava cá dentro… Talvez tenha dito o mesmo a São Pedro e esperamos que o ‘porteiro do Céu’ lhe tenha respondido com aquela mesma arte com que D. Manuel nos comunicava as suas preocupações de renovação e de autenticidade, traduzindo inquietação serena, quando o líamos semanalmente…

 

= Dois bispos que foram à nossa frente. Assim consigamos imitá-los seguindo e vivendo, hoje, o Evangelho!  

 

António Sílvio Couto