Partilha de perspectivas... tanto quanto atualizadas.



sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Confusão nas cores…partidárias e/ou clubísticas


Nos tempos iniciais da nossa democracia era um tanto fácil identificar as formações partidárias pelas cores com que se faziam reconhecer… Daí adveio a designação dalgumas agremiações e até a conotação de certas colorações: laranjas, vermelhos, rosas, azuis, etc.

Outro tanto se passava com as cores dos clubes desportivos mais representativos: encarnados, azuis, verdes… sendo como que tomados por antonomásia nas narrativas escritas ou orais, sabendo-se logo de quem se tratava, mesmo sem ser preciso dizer qual era o dito…

Se no campo desportivo a evolução do cromático tem sido mais denotativa, no espetro partidário tem-se vindo a gerar alguma confusão, sobretudo, por parte daqueles que foram tomando as rédeas das agremiações… desde os mais velhos até aos mais recentes

Assim aqueles que antes eram identificados com o vermelho foram passando a ostentar o azul; os que antes tinham uma tonalidade rosa, já tiveram o amarelo por referência; os que se apresentavam com a cor azul, vão flutuando por entre outros matizes mais disfarçados; outros ainda introduziram várias outras cores, tentando, ao que parece, destabilizar as referências ideológicas… 

= Naquilo que se pode entender – tendo em conta o passado histórico – a leitura das cores na política resumir-se-ia em três tonalidades: o vermelho com a esquerda, o branco com o centro e o azul com a direita… com todas as nuances que se possam colocar na leitura deste espetro, tanto para os próprios como para com os adversários.

Ora, se consultarmos uma interpretação das várias cores e seus significados poderemos entender um tanto melhor o caldo de leituras… ideológicas, clubísticas e até psicológicas e emocionais:

. Branco remete para a paz, sinceridade, pureza, inocência e calma;

. Verde simboliza esperança, perseverança, vigor e juventude;

. Vermelho envolve paixão, conquista, requinte e liderança;

. Amarelo tem referência à criatividade, juventude e alegria;

. Azul simboliza lealdade, confiança e tranquilidade;

. Laranja significa movimento, espontaneidade, tolerância e gentileza;

. Rosa aponta para romance, sensualidade e beleza;

. Violeta envolve sinceridade, dignidade, prosperidade e respeito;

. Castanho está associado à estabilidade, constância e maturidade;

. Preto pode significar dignidade, sendo ainda associado ao mistério…   

Atendendo a esta multiplicidade de interpretações e de envolvências, como poderemos, então, compreender certas mutações simbólicas de partidos e de agremiações na índole social e ideológica? Terá havido uma desconstrução dos ideais ou tem havido algum oportunismo nas mudanças? Que dizer, então, das formações que multiplicam as cores quase anarquicamente, serão retrato duma anarquia de valores ou da confusão de ideias? Até onde irá tamanha ambivalência? Cada qual saberá quem é e o que pretende…mesmo?

Se olharmos ainda para a mudança de certas forças partidárias como que poderíamos associar tal mutação com a dos equipamentos alternativos das equipas de futebol do principal campeonato português: cada alternativa é mais uma alteração na identidade, criando a quem vê para além de confusão, uma forte apreensão sobre diante de quem estamos. Em certas circunstâncias – tanto políticas como desportivas – poderemos ter de dedicar algum tempo à reflexão sobre a inconsistência dos projetos, que se refletem nas cores diluídas e sem nexo com que se apresentam…ao público iletrado.

E, se tivermos em conta os (pretensos) independentes às próximas eleições autárquicas estaremos ainda mais perante algo inaudito: se cada um não sabe quem é, como poderá lutar pelos seus ideais claros, sinceros e altruístas? Ou será que o individualismo e o culto da personalidade já não escondem mais as aspirações de acesso ao poder a todo o custo?

Precisamos de clareza de cores e de significados… Com tal confusão ninguém tem nada a ganhar!

   

António Sílvio Couto



terça-feira, 19 de setembro de 2017

Premiar quem cumpre o dever?

Meia volta vemos surgirem notícias sobre distinções dadas a pessoas, instituições ou coletividades que se tenham destacado por algo mais relevante. Em tempos não muito recuados, ao nível nacional, víamos tais destaques por ocasião de datas significativas da nação e não a qualquer hora, como vem a acontecer nos tempos mais recentes. No quadro das localidades essas relevâncias estão mais ou menos ligadas aos momentos de efeméride… No entanto, já surgem exceções e andam os distinguidores à procura dos distinguidos, deambulando por entre interesses particulares…
Nalguns casos nota-se uma espécie de regabofe de comendas e prebendas (*) que quase será mais distinto dizer que rejeitou esta ou aquela do que estar no role dos distinguidos, podendo quase ter-se vergonha de ostentar tais medalhas, tais são os menosprezados que se incluem na listagem!
Há, no entanto, uma categoria de distinções que me faz muita confusão: a de premiar quem cumpre – como é sua obrigação – o seu dever, seja ele no exercício dalgum trabalho, seja na labuta para conseguir uma vitória ou ainda quando alguém atingiu uma meta que almejou com esforço, tendo mais ou menos condições para que tal acontecesse… Refiro-me às conquistas desportivas – seja qual for a modalidade – ou mesmo à obtenção dalgum grau académico ou título social. Quem cumpre o seu dever já está recompensado pela consciência do dever cumprido e não será preciso realçar de entre os demais quem mais não fez do que a sua obrigação moral ou profissional…com brio, competência e seriedade. 

= ‘Depois de terdes feito tudo quanto vos foi mandado, dizei: somos servos inúteis, só fizemos o que devíamos fazer’. É desta forma simples, clara e incisa que o Evangelho nos aponta o caminho do serviço e não o do reconhecimento pelos outros daquilo que podemos ter feito bem, melhor ou suficientemente.
Certamente não é coisa de bom-tom e talvez denote alguma falta de educação que uma pessoa bata palmas a si mesma, como tantas vezes de vê em programas televisivos e noutras sessões. Um pouco de humildade não fica mal ninguém e muito menos ao próprio. De facto, que haja pessoas que tenham um ego um tanto negativo, melindrado e ferido, não será de excluir, mas que isso tenha de ser tão manifesto como se vai vendo por aí, torna-se preocupante, perigoso e inquietante.

= Cada vez mais podemos interrogar-nos sobre o modo como as pessoas se veem a si mesmas e como tentam projetar essa imagem para com os outros. Isto será tanto mais importante quanto somos chamados a estar em espaços e lugares dalguma visibilidade. Saber quem se é, o que se vale e como se é chamado a estar ao serviço dos outros é fundamental para que não tenhamos conflitos tácitos ou explícitos. 
Muitas vezes as pessoas querem camuflar para com os outros as debilidades que não aceitam em si mesmas e isso coloca-as em atrito consigo e com os outros, gerando, quantas vezes, mau ambiente, seja pela maledicência, a intriga ou a bisbilhotice com que se entretêm. Dado que não têm vida própria, então gastam o seu tempo falando – normalmente mal – da vida dos outros. Esta doença social é infetocontagiosa, pois sem nos darmos conta já estamos nessa onda de murmuração e de desgaste psicológico em desfavor dos demais…

= O nível cultural dum povo poder-se-á medir pela capacidade de admirar as qualidades alheias, sabendo corrigir os defeitos pessoais. Na medida em que formos capazes de desenvolver as nossas qualidades, corrigindo os próprios defeitos, pela aceitação das qualidades dos outros e a compreensão para com os seus defeitos (ou até pecados), assim poderemos viver numa sociedade – incluindo a sua expressão em Igreja – mais harmoniosa, fraterna e saudável.
Há coisas que o dinheiro é capaz de comprar, mas a consciência do dever cumprido, com a serenidade de estar ao serviço, tal não tem preço nem se consegue com medalhas ou condecorações. Quem precisa de tais enfeites, respeite quem os dispensa e os abjura. Afinal, somos servos inúteis!

(*) A título de exemplo apresentamos as distinções – medalhas ou condecorações – dadas pelos últimos presidentes da república: Eanes – 2007; Soares – 2508; Sampaio – 2377; Cavaco – 1566; Marcelo (até um ano de exercício) – 145…

António Sílvio Couto

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Praxes: sinais deste tempo?


Com a publicação das colocações dos alunos nos vários estabelecimentos universitários e respetiva fase de matrícula, vemos surgirem notícias sobre praxes aos caloiros. Nalguns casos relatam-se momentos de atividade para com os outros, em certas circunstâncias dizem que há ‘manuais de sobrevivência’ e em tantas outras situações dá a impressão que o assunto se torna tabu, para acolhidos e para promotores das praxes. 

= Será que é legítimo este ambiente em volta da entrada de novos estudantes nas faculdades e escolas de ensino superior? Que tem isto de pedagógico e de salutar para quem entra numa nova etapa da sua vida de estudante? Quem são os executantes deste tipo de praxes? Não serão muitos ressabiados energúmenos sem qualidade de nível superior? Será preciso aviltar os mais novos para que, uns tantos ‘iluminados’, tenham o direito de ofender a dignidade alheia? Não estarão, esses tais praxistas, a reproduzir o que lhes fizeram em tempos idos e agora amesquinham os demais com práticas pouco humanas? Será assim que se evolui ou, antes, se continua a viver na sequência de gente traumatizada que se vinga nos mais novos e (ou pouco) indefesos?

Os responsáveis das faculdades e escolas, os diretores e reitores, os que têm esta área do saber/cultura sob a sua tutela, não podem desculpar-se com que tais práticas não acontecem nos espaços que lhes estão atribuídos e confiados, têm precisamente de velar pela integridade física e psicológicas daqueles/as que lhe são entregues pelas famílias e pela sociedade para aprenderem as matérias e crescerem no civismo… Mal vai uma instituição universitária se dela saírem homens e mulheres marcados pela violência, o alcoolismo, as drogas e os vícios…em vez de terem aprendido a serem melhores cidadãos, porque pagos – até e não só –pelos dinheiros dos contribuintes… 

= As praxes são uma espécie de rito iniciático do ‘modus procendi’ e do ‘modus operandi’ do estudante no tempo da sua vida académica. Em muitos casos deveria ser uma introdução dos estudantes naquela importante etapa da sua valorização intelectual, cultural e humana…

Mas, a vermos pela forma como são tratados, os iniciados talvez não consigam perceber que estão num desenvolvimento da sua capacitação marcante para toda a vida. Com efeito, as praxes não podem reduzir-se a uns trejeitos infantis dos que começam a sua vida universitária… humilhados pelos mais velhos… alguns deles com dezenas de matrículas nas reprovações! Também não se pode colocar o nível humano tão baixo como nalgumas situações por que fazem passar os mais novos.

Não podemos deixar que continue uma certa impunidade na prática de certas praxes, desde que ofendam a dignidade do estudante caloiro. Mas, a vermos pelas imagens que nos são fornecidas, torna-se aviltante que se tratem as pessoas – literalmente – de cão para baixo, pois, se ousassem, fazer tais coisas aos animais, logo teríamos certas forças sociais e ideológicas a reclamarem de tais façanhas… Já que se quis favorecer os animais, não se tratem os caloiros de forma tão rudimentar na forma e pelo conteúdo. 

= As praxes, com certos abusos que vão sendo denunciados, inserem-se, afinal, num contexto mais amplo de aviltamento da ética/moral, pois a vaga de alcoolismo, que vemos crescer na nossa sociedade, trará irremediavelmente, no futuro, consequências gravosas para mais novos e mais velhos. Doenças que estavam quase erradicadas do espetro de saúde pública emergirão em breve, tendo em conta o âmbito do fígado, coração, memória, lesões no pâncreas, no estômago, etc.

De facto, vivemos num tempo onde os exageros não são mais reprimidos, mas são tolerados, incentivados e exaltados. A convivência social tem vindo a degradar-se e aquilo que se passa, nas entradas nas universidades mais não é do que o retrato da nossa vida pública e social. Por isso, se esperava dos que recebem formação superior, comportamentos condizentes com esse investimento. Ora, se o que vemos é o contrário, algo vai mal agora e a curto prazo. Nem tudo vale e muito menos poderemos silenciar as ofensas, por mínimas que sejam, às pessoas, sobretudo mais desfavorecidas… e os caloiros estão neste role! Sem paternalismos, mas com responsabilidade, já!          

   

António Sílvio Couto



sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Eleições sem futebol?


Mais uma vez – já aconteceu noutros casos recentes – vão realizar-se jogos de futebol na data das próximas eleições autárquicas, a 1 de outubro. A comissão nacional de eleições ainda recomendou que tal coincidência fosse evitada, mas os calendários futebolísticos intra e extra a isso obrigam, dado que não haveria os tais tempos de descanso entre os diferentes jogos a disputar.

Para o imediato nada ou com pouco efeito. Mas no futuro há quem sugira – sobretudo na área de quem governa – que tais ‘diversões’ podem prejudicar a participação dos eleitores, dando azo a que a abstenção cresça. Mas, quando têm marcado as datas em tempos de veraneio, quem ousou sugerir que se fechassem as praias para que os cidadãos tenham a obrigação de ir votar? Também alguém irá proibir as pessoas de irem às compras e de passearem pelos centros comerciais, canalizando os votantes para as mesas eleitorais vazias? Quem iria sugerir que fossem fechados os cinemas – e porque não, teoricamente, as igrejas! – ou teatros que assim distraíssem de ir votar?

Sim, este condicionamento reduzido aos jogos de futebol sofre duma visão bastante míope e um tanto controladora da população, senão mesmo uma espécie de infantilização dos milhões de eleitores que têm de ser encarreirados para votar, mesmo que possam estar mal esclarecidos ou pouco motivados para se pronunciarem sobre assuntos – embora importantes – secundarizados para uma imensa maioria dos cidadãos.

Fique claro: defendo – já há bastante tempo por escrito e de forma oral – o voto obrigatório, dado que não podemos continuar a permitir que haja pessoas que não se pronunciem nas urnas de voto e depois se armem em reclamantes sem decisão. No entanto, a vida continua como noutros dias e só uns tantos arregimentados para a causa dos seus favores se aprontam para quererem manipular quem com eles não concorda. Basta de vermos eleitos a ocuparem lugares com mais de dois terços dos inscritos não-votantes e com isso prolongarem-se no poder de forma legítima, mas um tanto ilícita! 

= Mesmo que este escrito possa entrar pela época da (dita) campanha eleitoral, sugerimos alguns aspetos que exigem reflexão urgente, séria e amadurecida…até mesmo depois dessa etapa:

* Quem nos governa – ou vai governar – são (mesmo) os melhores? Dado que os diretórios partidários e os gabinetes de promoção dos (pretensos) independentes são quem escortina os lançados à eleição, não seria de incrementar a escolha dos mais capazes e não só dos mais fiéis ao sistema e à ideologia? Porque se vai esfumando da vida pública quem tem mais qualidade e capacidades de servir e não de servir-se?

* Como poderemos acreditar em quem não se credita a si mesmo? Certas atitudes de candidatos aos postos de mando levam-nos a questionar essa espécie de malmandados, isto é, de quem quer que os outros façam aquilo que eles não sabem como fazer nem têm a mínima preparação para mandar fazer. 

* Perante o que já vimos nas lideranças passadas fica-nos uma amarga sensação sobre um presente e até alguma apreensão sobre o futuro, dada a incapacidade de haver uma substituição adequada e com visão mais abrangente do que o perímetro da sua própria imagem. Estamos como que órfãos de líderes e reféns da inutilidade dos que se aprestam para exercerem tais funções…   

= Não será com distrações de desencontro entre eleições e jogos de futebol que iremos recuperar a verdadeira cidadania e o interesse pela vida política na sua expressão mais digna, elevada e correta. É urgente dignificar quem está na vida política. Os primeiros a fazê-lo devem ser os próprios atores dessa mesma política. Ora, se vemos que nem eles mesmos se fazem creditar, como poderemos levar quem os julga – desde a votação até à ação – a acreditarem que são, acima de tudo, pessoas de bem?

De facto, como portugueses temos a propensão em julgarmos os outros por nós mesmos, mas nem assim será menos sério que se exija aos fazedores da ação política – seja qual for a instância em que se coloquem – uma conduta ética/moral o menos má possível.

Talvez seja o que merecemos, nesta fase social em que nos encontramos, mas devemos pugnar para que sejam os melhores aqueles/as que estão no exercício das tarefas sociais e públicas. Só, deste modo, estaremos salvaguardados no presente e para o futuro!

 

António Sílvio Couto




segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Ondas de simpatia…volátil


Se quisermos encontrar alguém que simbolize esta onda de simpatia volátil poderemos servir-nos do cantautor português que venceu o festival da eurovisão deste ano: emissário nacional num processo que teve tanto de inédito quanto de esquisito; executante vitorioso numa campanha orquestrada em surdina; aclamado como ‘herói’ na receção de regresso ao país; exaltado por aduladores das mais diversas áreas e tendências; brejeiro num espetáculo sentimental após a vaga de incêndios; retira-se de cena para entregar o corpo aos cuidados da ciência…

O itinerário deste cantautor poderá ler-se como simbólico da vida do nosso país nos tempos mais recentes: quando menos se espera em sentido contrário, algo consegue encobrir a má execução com certos laivos de simpatia, que mais parece um fábula do que uma história de bom-sucesso.

* Têm vindo a vender-nos – ou será antes a impingir-nos? – uma prosperidade que tem alicerces de areia, levantada em construções de papel, onde os vários compartimentos funcionam como alçapões de interesses mais ou menos mal disfarçados, por entre suspeitas duns tantos sobre outros mais…

* Numa espécie de narcotização generalizada vemos proliferar um discurso de que quem está sem nunca ter cometido erros nem sem ter estado noutras situações de descalabro…até que se descubra a mentira ou a inoperância por incapacidade em saber gerir, governar e decidir de forma igual sem se tornar igualitária…

* Tal como no caso do estrondoso sucesso do cantautor, assim em certas autarquias e noutras formas de governação, até os falhanços – algo escabrosos e provocadores – funcionam para que haja aplausos de apaniguados (quase) acríticos num fideísmo atroz e nitidamente irracional… 

= Vejamos, mesmo que sucintamente, campos onde a capacitação económica tem servido de lenitivo ou está a ser engano geral e/ou generalizado:

- O turismo tem servido de tábua de salvação para a insuficiência do desempenho económico noutros setores. Essa ‘galinha dos ovos de ouro’ pode fechar-se a médio e curto prazo. Bastará que outros destinos retomem a segurança na oferta e facilmente ficaremos sem proventos. Se atendermos ainda à inconsistência do turismo – gasta produção, mas não dá produtividade sustentável – poderemos ver ruir muitos sonhos de exploradores e de clientes da matéria…

- O imobiliário, assente numa construção civil quase defunta, poderá ficar saturado e em sério perigo… bastará que sejam pagos os devidos impostos e a sua exploração e entraremos em colapso, com um desemprego acentuado e crescente… Sol e mar não serão suficientes para atrair visitantes e investidores sérios, capazes e com capital não-descartável…

- As tentativas de enriquecimento pelo recurso ao jogo são uma espécie de tentativa de ser rico sem grande esforço, denunciando quase um vício de se tornar milionário não pelo trabalho – este raramente faz tal ‘milagre’ – mas pela forma mais fácil e sem esforço. Há quem viva nessa expetativa quase desmedida e ao sabor da sorte…toda uma vida de ambição e de ansiedade. 

= Dado que não queremos viver na mentira – nem pessoal nem social – parece-me que seria bom que caísse a máscara com que nos queremos tantas vezes iludir e enganar. Não precisamos de mais projetos dos que querem viver ou prolongar-se no poder pelo engano ou a manipulação, pela desistência ou a abstenção e tão pouco pelas promessas e o favorecimento dos apoiantes e dos adeptos mais ou menos fiéis.

É preciso dizer basta aos que se deixam vender e aos que se expõem à compra, tanto a mais subtil como a mais capciosa e ardilosa. Parafraseando a sabedoria do nosso povo, diremos: quando a simpatia é muita, o pobre desconfia ou devia desconfiar!

Não podemos permitir que a dignidade seja vendida por um par de sorrisos nem que nos façam passar todos por papalvos, sem que sejam escrutinados na hora da decisão popular.

Etimologicamente ‘simpatia’ vem de ‘sunpatos’, isto é, ‘sofrer com’… Ora a evolução semântica do termo fez-nos olhar para esta palavra mais como ‘apresentação de sorrisos’, como se estes fossem um atropelo à capacidade de sofrer com os outros, partilhando com eles um sorriso sincero, honesto e leal! 

   

António Sílvio Couto



sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Educar a generosidade e o altruísmo nas crianças


Por ocasião da ‘jornada da caridade’ – proposta para ser vivida no passado dia 5 de setembro – o jornal católico francês ‘La croix’ apresentou uma entrevista com uma psicanalista, na qual era questionada a capacidade de as crianças poderem manifestar, de forma espontânea, a generosidade e o altruísmo, isto é, de as crianças naturalmente poderem revelar tais qualidades…

Atendendo às etapas de desenvolvimento da criança podemos perceber que, antes de mais, a criança tem necessidade de ‘possuir’ para crescer e se ir construindo… Até aos três anos a criança vai tomando consciência da sua individualidade, descobrindo também os outros e que eles têm necessidades diferentes até das suas: ela recebe, mas também dá. Nas palavras da técnica ouvida, ‘será percebendo aquilo de que precisa que a criança desenvolverá uma verdadeira generosidade fundamentada sobre o desejo de dar’.

Será, sobretudo, no relacionamento com a injustiça que a criança fará tal aprendizagem. Segundo a leitura desta psicanalista, ‘a criança terá tendência a ser influenciada pelos modelos que ela tem à sua volta. Se a sua envolvência é generosa, ela terá tendência a viver isso’. O mesmo se diga – considera a técnica escutada pelo jornal ‘La croix’ – da forma como é educada na fé. A criança ‘pode também rezar por aqueles que vivem na rua. Colocando a oração no centro da vida, ela compreenderá que pode agir, rezando e partilhando. O essencial é que o seu [da criança] gesto ou a sua intenção continuem livres’. Como última recomendação sobre este assunto a referida psicanalista realça que ‘não devemos esquecer que uma criança tem necessidade de segurança para crescer, tendo o dever de enfrentar as misérias da vida’. 

= Quando vemos, no processo de educação, um excesso de protecionismo às crianças, deveremos questionar se aquilo que estamos a fazer fará crescer em maturidade as nossas crianças ou se, pelo contrário, não estaremos a infantilizá-las ainda mais? Não será – usando uma linguagem um tanto popular – com ‘paninhos quentes’ que iremos construir homens e mulheres com um futuro sadio e comprometido uns com os outros. E aqui entra a formação da fé, inserida numa pedagogia onde os valores são semeados, tendo em conta os critérios dos educadores. Estes não podem descartar a sua responsabilidade nem deixar à escola esta tarefa que tem o seu alicerce, incontornável e inconfundível, na família. Com efeito, aos pais – que são muito mais do que progenitores (a ou b, na teoria do género) – compete esta responsabilidade de educar, com tudo quanto isso implica de assunção do compromisso para com os seres que geraram. Não podem os pais pretender gerir o processo intelectual de aprendizagem, descurando a urgência educativa para os valores, segundo uma ética/moral decorrente da sua própria educação.

Os filhos/as serão egoístas ou generosos, se tal virem e receberem de seus pais. Os filhos/as terão atenção aos outros, se o receberem como que por osmose isso de quem os alimenta na dimensão biológica e psicológica. Os filhos/as são o retrato sem fotoshop, isto é, sem retoques e remendos, daquilo que absorvem de seus pais. 

= Mesmo sem deixarmos resvalar a nossa interpretação para questões de acusação, parece que as nossas crianças são muito pouco dadas a estar em atitude de generosidade… à exceção de certas épocas do ano, como no Natal ou por ocasião de tragédias mais relevantes. Talvez tenhamos vindo a construir um futuro mais egocêntrico, mesmo naquilo que se refere às crianças. Bastará ver a opção pelo ‘filho único’ com tudo quanto isso tem de complexo e quase perigoso. Ser o ‘centro’ de tudo e de todos poderá não ser boa influência para quem tem de estar em confronto com outros, desde a mais tenra idade… podendo inculcar na criança que, no ‘seu mundo’, tudo gravita à sua volta… Ora, isso é desmontado com alguma facilidade e até traumatismo, pois muitos outros ‘eus’ se digladiarão nas várias etapas da vida duma pessoa…

Na medida em que se vá fazendo a experiência da partilha, logo desde a família, tudo se torna mais simples e até educativo: aí aprendemos a ceder, a compartilhar, a cuidar e a amparar-nos uns aos outros. Por isso, ter mais do que um irmão é algo benéfico para a maturidade e sanidade de todos… até dos próprios pais.

Pelas discussões públicas que vemos e ouvimos, o complexo de inferioridade com que os outros são tratados revelam que há muita gente tão egoísta que não aprendeu a crescer pelo saber dar atenção aos outros, mesmo aos mais desfavorecidos… que podemos vir a ser nós mesmos a muito curto prazo!  

 

António Sílvio Couto




segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Piercings, tatuagens e beleza


O recurso à decoração do corpo sempre foi uma forma de embelezamento. Efetivamente é, sobretudo, através do corpo que nós comunicamos uns com os outros. A nossa realidade corporal revela quem somos muito para além daquilo que até gostaríamos. Para a cultura cristã o corpo é santuário da presença de Deus, que deve ser cuidado, respeitado e (sem falsos conceitos) amado na correta proporção daquilo que é também a idêntica consciência para com os outros.

Como poderemos entender – ligando causas a efeitos – esta onda de ‘embelezamento’ do corpo através dos piercings, das tatuagens e de tantas outras formas recentemente introduzidas na comunicação dos nossos dias? Serão tais adereços sinais de respeito ou de desprezo pelo corpo humano? Que mensagem/linguagem está subjacente a tais aspetos, hoje, como que vulgarizados? Será por moda ou estará envolvida qualquer outra filosofia e/ou cultura?

Desde já fique claro que não quero entrar na depreciação de tais formas de tratar o corpo humano, antes pelo contrário: gostaria de entender o que se está a passar… mas sem pensar, de forma alguma, em recorrer a essa moda de piercings, tatuagens e outros artefactos quase que civilizacionais…

É digno de ser referido ainda que piercings, tatuagens e outras artes decorativas corporais vivem numa lógica de exibição, pois esta como que faz parte da comunicação entre grupos, de setores afins de relacionamento entre sexos (uns dizem antes de ‘género’) e até em agrupamentos socio-religiosos mais ou menos influentes. 

= Porque será que o Cristiano Ronaldo não tem qualquer tatuagem, enquanto outros jogadores de futebol ostentam dezenas de desenhos, grafitis, inscrições, palavras e frases… no corpo, naquilo que é mais ou menos visível? O não ter entrado nesta moda – já que da exibição dos piercings e brincos não escapou – das tatuagens teve algo a ver com condicionamentos da publicidade que faz? Será esta contenção por consciência ou por mero recurso da manipulação que dele, frequentemente, fazem? 

= Bastará uma breve consulta, na internet, sobre piercings e poderemos encontrar interpretações muito diversificadas, atendendo à sua colocação no corpo humano, tanto de homens como de mulheres: em qualquer dos locais do corpo humano, um piercing tem algum significado – no nariz, na orelha, no umbigo, na língua… e em tantas outras partes do corpo. Cada um poderá considerar algo que possa determinar o uso de piercings, na maior parte dos casos serão mais para se fazer notar e/ou para destoar dalguma normalidade a influenciar… Sem com isto querermos fazer qualquer juízo valorativo, em muitas das situações de recurso a esta ‘arte’ de provocação poderemos encontrar algo que possa fazer-nos recuar a estádios ancestrais de afirmação nas tribos e classes sociais… Embora seja aceitável esta ‘arte’ teremos de nos situar quase sempre na evolução da cultura humana. Certas linguagens mais parece que nos fazem involuir de forma acentuada…   

= Nem que de forma sucinta poderemos encontrar na consulta sobre tatuagens um longo historial mais ou menos exotérico e com necessidade de ser lido, interpretado e discernido no contexto atual da complexidade de formulações de tantas das tatuagens…exibidas. Efetivamente muitas das tatuagens são como que um retrocesso a práticas pagãs um tanto difundidas no entendimento de que poderemos usar o nosso corpo como bem desejarmos… Nem mesmo a colocação de imagens e símbolos religiosos (cristãos ou não) fazem com que a tatuagem possa ser vista com uma certa leviandade com que vemos tratar o assunto e gravá-lo na pele por mais ou menos tempo.

Atendendo ao ‘espetáculo’ de certas figuras que exibem tatuagens – muitas delas em claro exagero e prolixa apresentação – dá a impressão que muitas pessoas aderiram a este movimento de forma acrítica e sem pensarem nas consequências. Já nem falamos dos locais onde as tatuagens são feitas e tão pouco o gosto que levou a recorrer a tal adereço de beleza. Parece que muitas das tatuagens pecam pelo mau gosto e até mesmo pela insensatez na sua colocação. Tal como outras modas ou modos de estar, respeitamos quem disso se socorre, mas como o pequeno neto dizia à avó, ao vê-la maquilhar-se: se é para ficares bonita, porque é que não ficas?    

 

António Sílvio Couto