Partilha de perspectivas... tanto quanto atualizadas.



segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Ondas de simpatia…volátil


Se quisermos encontrar alguém que simbolize esta onda de simpatia volátil poderemos servir-nos do cantautor português que venceu o festival da eurovisão deste ano: emissário nacional num processo que teve tanto de inédito quanto de esquisito; executante vitorioso numa campanha orquestrada em surdina; aclamado como ‘herói’ na receção de regresso ao país; exaltado por aduladores das mais diversas áreas e tendências; brejeiro num espetáculo sentimental após a vaga de incêndios; retira-se de cena para entregar o corpo aos cuidados da ciência…

O itinerário deste cantautor poderá ler-se como simbólico da vida do nosso país nos tempos mais recentes: quando menos se espera em sentido contrário, algo consegue encobrir a má execução com certos laivos de simpatia, que mais parece um fábula do que uma história de bom-sucesso.

* Têm vindo a vender-nos – ou será antes a impingir-nos? – uma prosperidade que tem alicerces de areia, levantada em construções de papel, onde os vários compartimentos funcionam como alçapões de interesses mais ou menos mal disfarçados, por entre suspeitas duns tantos sobre outros mais…

* Numa espécie de narcotização generalizada vemos proliferar um discurso de que quem está sem nunca ter cometido erros nem sem ter estado noutras situações de descalabro…até que se descubra a mentira ou a inoperância por incapacidade em saber gerir, governar e decidir de forma igual sem se tornar igualitária…

* Tal como no caso do estrondoso sucesso do cantautor, assim em certas autarquias e noutras formas de governação, até os falhanços – algo escabrosos e provocadores – funcionam para que haja aplausos de apaniguados (quase) acríticos num fideísmo atroz e nitidamente irracional… 

= Vejamos, mesmo que sucintamente, campos onde a capacitação económica tem servido de lenitivo ou está a ser engano geral e/ou generalizado:

- O turismo tem servido de tábua de salvação para a insuficiência do desempenho económico noutros setores. Essa ‘galinha dos ovos de ouro’ pode fechar-se a médio e curto prazo. Bastará que outros destinos retomem a segurança na oferta e facilmente ficaremos sem proventos. Se atendermos ainda à inconsistência do turismo – gasta produção, mas não dá produtividade sustentável – poderemos ver ruir muitos sonhos de exploradores e de clientes da matéria…

- O imobiliário, assente numa construção civil quase defunta, poderá ficar saturado e em sério perigo… bastará que sejam pagos os devidos impostos e a sua exploração e entraremos em colapso, com um desemprego acentuado e crescente… Sol e mar não serão suficientes para atrair visitantes e investidores sérios, capazes e com capital não-descartável…

- As tentativas de enriquecimento pelo recurso ao jogo são uma espécie de tentativa de ser rico sem grande esforço, denunciando quase um vício de se tornar milionário não pelo trabalho – este raramente faz tal ‘milagre’ – mas pela forma mais fácil e sem esforço. Há quem viva nessa expetativa quase desmedida e ao sabor da sorte…toda uma vida de ambição e de ansiedade. 

= Dado que não queremos viver na mentira – nem pessoal nem social – parece-me que seria bom que caísse a máscara com que nos queremos tantas vezes iludir e enganar. Não precisamos de mais projetos dos que querem viver ou prolongar-se no poder pelo engano ou a manipulação, pela desistência ou a abstenção e tão pouco pelas promessas e o favorecimento dos apoiantes e dos adeptos mais ou menos fiéis.

É preciso dizer basta aos que se deixam vender e aos que se expõem à compra, tanto a mais subtil como a mais capciosa e ardilosa. Parafraseando a sabedoria do nosso povo, diremos: quando a simpatia é muita, o pobre desconfia ou devia desconfiar!

Não podemos permitir que a dignidade seja vendida por um par de sorrisos nem que nos façam passar todos por papalvos, sem que sejam escrutinados na hora da decisão popular.

Etimologicamente ‘simpatia’ vem de ‘sunpatos’, isto é, ‘sofrer com’… Ora a evolução semântica do termo fez-nos olhar para esta palavra mais como ‘apresentação de sorrisos’, como se estes fossem um atropelo à capacidade de sofrer com os outros, partilhando com eles um sorriso sincero, honesto e leal! 

   

António Sílvio Couto



sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Educar a generosidade e o altruísmo nas crianças


Por ocasião da ‘jornada da caridade’ – proposta para ser vivida no passado dia 5 de setembro – o jornal católico francês ‘La croix’ apresentou uma entrevista com uma psicanalista, na qual era questionada a capacidade de as crianças poderem manifestar, de forma espontânea, a generosidade e o altruísmo, isto é, de as crianças naturalmente poderem revelar tais qualidades…

Atendendo às etapas de desenvolvimento da criança podemos perceber que, antes de mais, a criança tem necessidade de ‘possuir’ para crescer e se ir construindo… Até aos três anos a criança vai tomando consciência da sua individualidade, descobrindo também os outros e que eles têm necessidades diferentes até das suas: ela recebe, mas também dá. Nas palavras da técnica ouvida, ‘será percebendo aquilo de que precisa que a criança desenvolverá uma verdadeira generosidade fundamentada sobre o desejo de dar’.

Será, sobretudo, no relacionamento com a injustiça que a criança fará tal aprendizagem. Segundo a leitura desta psicanalista, ‘a criança terá tendência a ser influenciada pelos modelos que ela tem à sua volta. Se a sua envolvência é generosa, ela terá tendência a viver isso’. O mesmo se diga – considera a técnica escutada pelo jornal ‘La croix’ – da forma como é educada na fé. A criança ‘pode também rezar por aqueles que vivem na rua. Colocando a oração no centro da vida, ela compreenderá que pode agir, rezando e partilhando. O essencial é que o seu [da criança] gesto ou a sua intenção continuem livres’. Como última recomendação sobre este assunto a referida psicanalista realça que ‘não devemos esquecer que uma criança tem necessidade de segurança para crescer, tendo o dever de enfrentar as misérias da vida’. 

= Quando vemos, no processo de educação, um excesso de protecionismo às crianças, deveremos questionar se aquilo que estamos a fazer fará crescer em maturidade as nossas crianças ou se, pelo contrário, não estaremos a infantilizá-las ainda mais? Não será – usando uma linguagem um tanto popular – com ‘paninhos quentes’ que iremos construir homens e mulheres com um futuro sadio e comprometido uns com os outros. E aqui entra a formação da fé, inserida numa pedagogia onde os valores são semeados, tendo em conta os critérios dos educadores. Estes não podem descartar a sua responsabilidade nem deixar à escola esta tarefa que tem o seu alicerce, incontornável e inconfundível, na família. Com efeito, aos pais – que são muito mais do que progenitores (a ou b, na teoria do género) – compete esta responsabilidade de educar, com tudo quanto isso implica de assunção do compromisso para com os seres que geraram. Não podem os pais pretender gerir o processo intelectual de aprendizagem, descurando a urgência educativa para os valores, segundo uma ética/moral decorrente da sua própria educação.

Os filhos/as serão egoístas ou generosos, se tal virem e receberem de seus pais. Os filhos/as terão atenção aos outros, se o receberem como que por osmose isso de quem os alimenta na dimensão biológica e psicológica. Os filhos/as são o retrato sem fotoshop, isto é, sem retoques e remendos, daquilo que absorvem de seus pais. 

= Mesmo sem deixarmos resvalar a nossa interpretação para questões de acusação, parece que as nossas crianças são muito pouco dadas a estar em atitude de generosidade… à exceção de certas épocas do ano, como no Natal ou por ocasião de tragédias mais relevantes. Talvez tenhamos vindo a construir um futuro mais egocêntrico, mesmo naquilo que se refere às crianças. Bastará ver a opção pelo ‘filho único’ com tudo quanto isso tem de complexo e quase perigoso. Ser o ‘centro’ de tudo e de todos poderá não ser boa influência para quem tem de estar em confronto com outros, desde a mais tenra idade… podendo inculcar na criança que, no ‘seu mundo’, tudo gravita à sua volta… Ora, isso é desmontado com alguma facilidade e até traumatismo, pois muitos outros ‘eus’ se digladiarão nas várias etapas da vida duma pessoa…

Na medida em que se vá fazendo a experiência da partilha, logo desde a família, tudo se torna mais simples e até educativo: aí aprendemos a ceder, a compartilhar, a cuidar e a amparar-nos uns aos outros. Por isso, ter mais do que um irmão é algo benéfico para a maturidade e sanidade de todos… até dos próprios pais.

Pelas discussões públicas que vemos e ouvimos, o complexo de inferioridade com que os outros são tratados revelam que há muita gente tão egoísta que não aprendeu a crescer pelo saber dar atenção aos outros, mesmo aos mais desfavorecidos… que podemos vir a ser nós mesmos a muito curto prazo!  

 

António Sílvio Couto




segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Piercings, tatuagens e beleza


O recurso à decoração do corpo sempre foi uma forma de embelezamento. Efetivamente é, sobretudo, através do corpo que nós comunicamos uns com os outros. A nossa realidade corporal revela quem somos muito para além daquilo que até gostaríamos. Para a cultura cristã o corpo é santuário da presença de Deus, que deve ser cuidado, respeitado e (sem falsos conceitos) amado na correta proporção daquilo que é também a idêntica consciência para com os outros.

Como poderemos entender – ligando causas a efeitos – esta onda de ‘embelezamento’ do corpo através dos piercings, das tatuagens e de tantas outras formas recentemente introduzidas na comunicação dos nossos dias? Serão tais adereços sinais de respeito ou de desprezo pelo corpo humano? Que mensagem/linguagem está subjacente a tais aspetos, hoje, como que vulgarizados? Será por moda ou estará envolvida qualquer outra filosofia e/ou cultura?

Desde já fique claro que não quero entrar na depreciação de tais formas de tratar o corpo humano, antes pelo contrário: gostaria de entender o que se está a passar… mas sem pensar, de forma alguma, em recorrer a essa moda de piercings, tatuagens e outros artefactos quase que civilizacionais…

É digno de ser referido ainda que piercings, tatuagens e outras artes decorativas corporais vivem numa lógica de exibição, pois esta como que faz parte da comunicação entre grupos, de setores afins de relacionamento entre sexos (uns dizem antes de ‘género’) e até em agrupamentos socio-religiosos mais ou menos influentes. 

= Porque será que o Cristiano Ronaldo não tem qualquer tatuagem, enquanto outros jogadores de futebol ostentam dezenas de desenhos, grafitis, inscrições, palavras e frases… no corpo, naquilo que é mais ou menos visível? O não ter entrado nesta moda – já que da exibição dos piercings e brincos não escapou – das tatuagens teve algo a ver com condicionamentos da publicidade que faz? Será esta contenção por consciência ou por mero recurso da manipulação que dele, frequentemente, fazem? 

= Bastará uma breve consulta, na internet, sobre piercings e poderemos encontrar interpretações muito diversificadas, atendendo à sua colocação no corpo humano, tanto de homens como de mulheres: em qualquer dos locais do corpo humano, um piercing tem algum significado – no nariz, na orelha, no umbigo, na língua… e em tantas outras partes do corpo. Cada um poderá considerar algo que possa determinar o uso de piercings, na maior parte dos casos serão mais para se fazer notar e/ou para destoar dalguma normalidade a influenciar… Sem com isto querermos fazer qualquer juízo valorativo, em muitas das situações de recurso a esta ‘arte’ de provocação poderemos encontrar algo que possa fazer-nos recuar a estádios ancestrais de afirmação nas tribos e classes sociais… Embora seja aceitável esta ‘arte’ teremos de nos situar quase sempre na evolução da cultura humana. Certas linguagens mais parece que nos fazem involuir de forma acentuada…   

= Nem que de forma sucinta poderemos encontrar na consulta sobre tatuagens um longo historial mais ou menos exotérico e com necessidade de ser lido, interpretado e discernido no contexto atual da complexidade de formulações de tantas das tatuagens…exibidas. Efetivamente muitas das tatuagens são como que um retrocesso a práticas pagãs um tanto difundidas no entendimento de que poderemos usar o nosso corpo como bem desejarmos… Nem mesmo a colocação de imagens e símbolos religiosos (cristãos ou não) fazem com que a tatuagem possa ser vista com uma certa leviandade com que vemos tratar o assunto e gravá-lo na pele por mais ou menos tempo.

Atendendo ao ‘espetáculo’ de certas figuras que exibem tatuagens – muitas delas em claro exagero e prolixa apresentação – dá a impressão que muitas pessoas aderiram a este movimento de forma acrítica e sem pensarem nas consequências. Já nem falamos dos locais onde as tatuagens são feitas e tão pouco o gosto que levou a recorrer a tal adereço de beleza. Parece que muitas das tatuagens pecam pelo mau gosto e até mesmo pela insensatez na sua colocação. Tal como outras modas ou modos de estar, respeitamos quem disso se socorre, mas como o pequeno neto dizia à avó, ao vê-la maquilhar-se: se é para ficares bonita, porque é que não ficas?    

 

António Sílvio Couto



quarta-feira, 30 de agosto de 2017

30 de agosto: princípio dum pesadelo?



No dia 30 de agosto de 2017 a ‘autoeuropa’ esteve em greve... total ou com forte adesão, sejam quais forem as fontes noticiosas.

Custos desta greve: cinco de milhões de euros de prejuízo e a não-produção de 400 veículos. É a primeira vez que, nesta empresa internacional, se fez uma greve... para além das ‘greves gerais’ de ritual.

As causas para este ato de greve são diversas e resumem-se a ter mais um dia de trabalho ao sábado –com uma folga durante a semana...para além do descanso ao domingo – durante dois anos, sendo acrescido dum adiocional no salário de 175 euros mensais, com mais um dia de férias e um aumento salarial mínimo de 16%... Tudo isto tem a ver com a produção do novo veículo automóvel a sair daquela fábrica a partir de fevereiro próximo...

A administração já ameaçou para a deslocalização da produção do novo carro para fora de Portugal, podendo ir para a pátria-mãe da empresa... O número de veículos a sairem da ‘autoeuropa’, em 2018, seria de 240 mil carros, isto é, mais do dobro dos produzidos no ano passado...

É digno de registo que se diga que esta empresa multinacional contribui com 1% do produto interno bruto português, num valor de 1,500 milhões de euros. 

= Diante deste conflito há questões que se podem/devem colocar:

* Esta situação surge nas vésperas duma festa dum órgão partidário com grande participação popular. Será isto um bom mote de reivindicação para destoar da (pretensa) concórdia que reina na geringonça? Será coincidência ou articulação?

* Há vozes doutras colorações partidárias (de esquerda) que se insurgem contra o timing do assunto. Será que é uma guerra de protagonismos entre forças sindicalistas? Quem saiu não soube ou não foi capaz de deixar continuação na harmonia laboral?

* Atendendo às múltiplas pequenas empresas que estão dependentes da ‘autoeuropa’ – dizem que haverá mais 50 mil empregados adstritos – dá a impresão que, se algo acontecer de nefasto, a zona sul do Tejo viverá uma crise social e económica muito grave. Os reivindicadores estarão a pensar pela sua cabeça ou serão antes manipulados pelos mentores sindicais afetos à destruição dos meios de produção? Ainda não se aprendeu com outras situações ligadas ao setor de produção?  

* Neste como noutros casos do passado de quarenta anos de democracia, temos visto que, na hora da festa todos estão a fazer barulho, mas na hora da desgraça a maioria fugirá como baratas ou ratos de porão. A quem interessa desfazer o que custou tanto a construir? Não continuaremos a andar enganados por certas forças abutres, que se alimentam dos restos dos mortos e se comportam como necrófilos abjetos sem lei nem ética?  

= Fique claro: que se, no futuro próximo, se verificar o colapso deste empregador não venham solicitar ajuda às entidades socio-caritativas geridas pela Igreja católica: vão pedir ajuda àqueles que os enganaram e os usaram para fazerem o jogo da destruição do seu bem-estar. Não venham como argumentos melicosos de ‘ter tempo para a família’, pois uma parte desses empregados da ‘autoeuropa’ usam o tempo extra-trabalho para tudo menos para a família...

Por favor: não se deixem enganar, mas usem a cabeça com o mínimo de racionalidade e não o estômago com excesso de frivolidade!

O assunto é sério em excesso para ser tratado como diversão estival com implicações lá para a primavera. Temo que, quando acordarem, já seja tarde e estejamos todos a carpir as mágoas de quem só sobrevive sobre a miséria e a pobreza alheias.

Tantos anos depois, é hora de acordar, sabendo que é amigo ou inimigo do povo e dos trabalhadores... essas entidades que tantos evocam, mas tão pouco conhecem, de verdade!

 

António Sílvio Couto



terça-feira, 29 de agosto de 2017

‘Índex’ de género…à portuguesa


Por orientação do ministro-adjunto, que, por seu turno, recebeu recomendações duma tal ‘comissão para a igualdade de género’, uma editora foi forçada a retirar duas publicações dos postos de venda… onde já estavam desde o ano passado.

Deste modo a tal cig quis dizer, pela voz altissonante do governante, que as tais publicações destinadas uma para rapazes e outra para raparigas – com idades entre os 4 e os 6 anos – podiam conter mensagens que seriam promotoras da diferenciação e desvalorização do papel dos masculinos e dos femininos nos espaços públicos e privados, conforme se entenda cada uma das funções, seja nos arquétipos, seja naquilo que a ‘igualdade’ (dita) ‘de género’ pretenda veicular, impor e doutrinar. 

= Fique desde já claro: não reconheço, de forma alguma, ao estado a faculdade de dizer o que se deve ou não publicar…seja em que setor for ou abrangendo os campos em que acha que deve atuar, patrocinar ou mesmo subsidiar. Talvez a editora tenha soçobrado àquela recomendação fascizante porque precisa daquele público-alvo para se manter na ribalta. Talvez no papel de mandante das políticas educativas, quem governa possa considerar que deva ‘exigir’ que os executores práticos se amedrontem quando está em causa o futuro da atividade editorial. Talvez os conluios entre as ideologias orientadoras e manipuladoras dos reinantes se tenham sobreposto à iniciativa privada, pois as forças componentes da geringonça – já sabemos por outras posições – abjuram-na como os islamitas ao toucinho… senão em privado ao menos em público. 

= Quem conhece as reações da maioria dos portugueses/as saberá que aquilo que é proibido, é bem mais apetecido. Ora, com aquela reação desproporcionada das autoridades – mais parecendo tiques de autoritarismo – as ditas publicações com exercícios para rapazes e para raparigas devem ter disparado nas compras, mesmo que as remessas tenham sido colocadas em armazém. Tanto quanto foi percetível os exemplos apresentados sofrem de manipulação e muitas das páginas não passam de interpretações de duas ilustradoras gráficas com visões diferentes, por sinal ambas no feminino… Haverá assim tanto mal em identificar os rapazes com o azul e as raparigas com o cor-de-rosa? Que cores serão mais adequadas: o espetro do arco-íris (símbolo do movimento lgbt) onde tudo se mistura e confunde ou o branco/preto, com o cinzento como recurso a gosto? 

= Temos vindo a viver, desde há alguns anos – e não é só nos dois últimos – a uma crescente tendência em colocar muitas das iniciativas culturais, sociais e solidárias sob a alçada dos poderes estabelecidos, condicionando a sua realização ou dependendo cada vez mais dos subsídios de quem controla a torneira dos dinheiros usados em favor do público. Quem destoar da ‘normalidade’ arrisca-se a ficar sem possibilidade de levar a efeito as causas em que possa estar empenhado. Contrariamente ao que seria desejável o que vem a público – mesmo nas publicações e outras atividades – nem sempre é o melhor, mas antes o que serve os interesses de quem manda ou aquilo se possa inserir na onda do mais aceitável…atendendo aos critérios previamente definidos por certos lóbis e ideologias…preferencialmente fora do quadro dos valores cristãos.

Assim, quem falar de homem e de mulher como pessoas sexuadas, complementares e personalizadas, poderá ser visto como ofendendo a ‘igualdade de género’, na medida em que este serve para dizer tudo e não falar de nada… Quem tiver a ousadia de referir-se aos meninos e às meninas poderá incorrer numa censura de discriminação, pois uns e outras ainda não ‘saberão’ bem a que género pertencem ou qual a roupa que poderão vestir tal o unissexo em que podem estar incluídos…   

= À boa maneira do índex medieval – onde as forças religiosas dominantes inseriam o que era proibido ler ou contactar – assim agora estamos a vivenciar um novo índex de género, onde se nota uma censura moral mais ríspida do que a do lápis azul do regime salazarista. De que cor será a escrita desta censura de género?

Já só falta que haja, nos livros publicados, um carimbo – sabe-se lá com que cor – onde se diga: visado pela cig, lgbt e governo!       

 

António Sílvio Couto



segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Contra as ‘touradas’, saboreando caracóis


Vivemos num tempo em que nem sempre a congruência é o melhor lema de vida. Uma boa parte das pessoas é, no mínimo, ilógica, pois combate umas coisas e logo, na curva mais próxima, desdiz-se, praticando o que antes contestava.

Fique claro e distinto: não sou a favor nem contra as corridas e largadas de toiros. Respeito quem tal cultiva, seja porque faz parte da sua cultura, seja porque se possa sentir necessitado de tal afirmação social.

É verdade que, nos tempos mais recentes, os dados apontam para uma diminuição do número geral das corridas de toiros, notando-se a sua realização, sobretudo, nas terras ribatejanas e nalgumas localidades alentejanas.

Recordo uma conversa de café em que alguém menos bem entrosado nestas coisas das lides tauromáquicas perguntou: aqui, quando são as touradas? Ao que o interlocutor ripostou: cá há corridas, touradas só se for na sua casa!

Esta subtileza de linguagem dá a entender que esta coisa de andarem a contestar as ‘corridas/touradas’ pode nem sempre ser tão límpido como se possa imaginar.

Que dizer de forças partidárias que se coligam para atos eleitorais, mas que defendem coisas tão díspares nas suas entranhas em assuntos como este? Será por conveniência ou por camuflagem em assumirem as suas posições contra as corridas de toiros? A quem interessa enganar com aglutinados ideológicos, que não passam de composições de circunstância e que não afetam realmente o mais pragmático da vida? 

= Tipificação de certas discussões sobre as touradas/corridas de toiros é poderem ser feitas à volta duma mesa, saboreando caracóis. Ora, se atendermos à forma de confeção destes ‘moluscos gastrópodes terrestres de concha espiralada calcária’, serão tudo menos bem tratados, pois são cozinhados vivos e em lume brando… assim dizem as receitas para quem desejar confecioná-los.

Não haverá algo que se torna um tanto risível perceber que as malfeitorias dadas aos caracóis são irreversíveis, mesmo que as infligidas aos toiros possam vir a ser fatais? Será que é devido ao tamanho dos intervenientes que as posições se tornam tão diversificadas? Não estaremos, mais uma vez, a tentar confundir incautos, pela simples motivação de que razões culturais se possam atropelar com os desejos dos defensores/detratores?

Tal como supra referi que nada me move a favor ou contra as touradas/corridas, assim fique anotado que nunca comi nem pretendo experimentar comer caracóis… Em ambos os casos considero-me fora de lutas ou de degustações, tomando estas posições, faço-o por respeito cultural e gastronómico mais básico.

Que dizer ainda dos que apreciam lagosta: esta é cozinhada também viva e sob fogo bem mais acutilante dos que as farpas das corridas de toiros. Também aqui poucos filosofam sobre a tortura perpetrada contra tais crustáceos, pois lhe apensam estatuto económico e social, ao menos na visão dos que a tais requintes não têm facilmente acesso… 

= Digamos: há, no contexto cultural, sociológico ou económico em que nos movemos, uma razoável diversidade de situações e de questões que não se resolvem com posições de estar a favor ou contra, desde que isso possa ser aproveitado por alguns mais inflamados para a luta ideológica mais primária.

É certo que temos vindo a evoluir sobre alguns problemas de natureza humana mais essencial. No entanto, pululam por aí algumas incongruências bastante subtis: vermos os mesmos defensores da abolição das touradas/corridas a considerar o aborto como algo aceitável e recomendável, tanto na teoria como na prática. Não estaremos em campos diferentes na cultura da vida? Não andaremos a tentar resolver problemas individuais com regras generalistas? Não haverá confusão de planos ou essa turbulência torna-se razoável desde que se misturem propositadamente os valores em causa ou em risco?

Defendo que os valores culturais são respeitáveis e que podem e devem ser cuidados, na medida da nossa capacidade de compreensão. No entanto, nunca poderemos perder de vista que o nuclear da nossa cultura é a pessoa humana, tudo o que a possa ofender deve ser rejeitado. Será que cada um se respeita a si mesmo?       

 

António Sílvio Couto



quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Seguros ou em segurança?


Desde 2010 já houve 66 atentados terroristas de grande alcance em diversas partes do Planeta, mas com alguma (2,5%) incidência em países de cultura ocidental.

Vejamos os números por anos: 2010 – cinco; 2011 – seis; 2012 – dois; 2013 – cinco; 2014 – dois; 2015 – quinze; 2016 – catorze; 2017 (até meados de agosto) – dezassete. A longa e pormenorizada lista está disponível em consultas da internet, dedicando dados e situações em cada um dos que podem ser úteis e convenientes ler e reler, não por curiosidade mórbida mas que nos dará um enquadramento de vários aspetos atinentes em cada caso…

Segundo dados disponíveis, os atentados terroristas verificaram-se, em dois terços (75% dos casos) nos seguintes países: Iraque, Afeganistão, Índia, Paquistão, Filipinas, Somália, Turquia, Nigéria, Iémen e Síria. Seis dos dez ataques mais letais foram reivindicados pelo grupo autodenominado ‘estado islâmico’… embora outros grupos – islamitas ou não – se assumam como praticantes desta atividade inumana! 

= Quando é noticiado um desses ataques vivemos, imediata e socialmente, uma espécie de pandemia securitária (quase) sem racionalidade, gerando desconfiança sobre tudo e para com todos, particularmente para com pessoas que possam assemelhar-se aos autores de tais barbaridades. Uns dizem que aquilo que temos e muito do que está a acontecer é resultado da abertura à miscigenação de culturas e de povos, entrando nos países pessoas que nem sempre estão bem-intencionadas… Outros consideram que tais atentados são fruto dalguma confusão do mundo ocidental, tão aberto nas suas opções laicistas, que os ‘religiosos’ muçulmanos não entendem e combatem a ferro-e-fogo os arreligiosos infiéis... Outros ainda parece que não compreenderam que a globalização trouxe riscos e desafios, muitos deles semeados de maior ou menor turbulência social e ideológica…embora venha sacudir o materialismo de vida de muitos que lançaram pétalas de nenúfar onde o elefante agora pisa sem dó nem piedade…  

= Apesar de tudo há perguntas que podem e devem de ser colocadas: será que nós, portugueses, estamos seguros ou em segurança, mesmo que estejamos neste canto da Europa? Será que continuaremos mais ou menos imunes a esta vaga de atentados? As medidas (já) tomadas serão capazes de dissuadir quem deseje praticar algum atentado? Será com pilaretes em ferro ou cubos em betão que estaremos mais seguros?

A nossa mentalidade um tanto laxista poderá ser paga com façanhas pouco abonatórias da capacidade preventiva, pois não estamos a lutar contra forças devidamente identificadas – embora possam parece mais ou menos conotadas – e que se escondem sob a capa de convivência e da bonomia à portuguesa.

Nota-se uma razoável e crescente islamização tácita da nossa sociedade, com aberturas nem sempre calculadas e com corifeus de boa vontade, que na hora da desgraça se encolherão sob a capa do anonimato. Não basta receber os dinheiros de certos investidores, é preciso saber donde são provenientes e quais as consequências de lhes abrirmos a porta com tão à vontade que mais parecemos passarinhos enfeitiçados por serpentes enleadoras… Cuidemos da segurança com atitudes de vigilância e não como remendadores de fazenda em pano-cru… Embora sejamos um povo pluralista temos de ir aprendendo com os erros de tantos outros que não souberam nem quiseram tomar medidas adequadas à gravidade da situação…  

= Não deixa de ser preocupante e sintomático, que, neste país, quem previna contra erros de abertura e contenção na liberdade de expressão, logo possa ser rotulado de racista, xenófobo ou com outros epítetos que têm tanto de vulgares quantos de insidiosos. E nem os (pretensos) defensores das minorias – muitas das vezes não respeitadores dos outros que não se reveem nas suas atitudes – se julguem acima de qualquer insuspeita, pois poderão estar a fazer o jogo daqueles que pretendem infetar a cultura ocidental, tentando impor aos outros o que agora lhes permite defender quem tal não desejam. Há minorias que de democráticas não têm a ponta de nada, dado que na sua ânsia duma dita liberdade condicionam a liberdade alheia e no desejo de serem diferentes se tornam pequenos ditadores…dentro ou fora do parlamento e por entre jogos de poder.

Segurança, sim; seguros sem condições, não!     

 

António Sílvio Couto