Partilha de perspectivas... tanto quanto atualizadas.



quarta-feira, 30 de agosto de 2017

30 de agosto: princípio dum pesadelo?



No dia 30 de agosto de 2017 a ‘autoeuropa’ esteve em greve... total ou com forte adesão, sejam quais forem as fontes noticiosas.

Custos desta greve: cinco de milhões de euros de prejuízo e a não-produção de 400 veículos. É a primeira vez que, nesta empresa internacional, se fez uma greve... para além das ‘greves gerais’ de ritual.

As causas para este ato de greve são diversas e resumem-se a ter mais um dia de trabalho ao sábado –com uma folga durante a semana...para além do descanso ao domingo – durante dois anos, sendo acrescido dum adiocional no salário de 175 euros mensais, com mais um dia de férias e um aumento salarial mínimo de 16%... Tudo isto tem a ver com a produção do novo veículo automóvel a sair daquela fábrica a partir de fevereiro próximo...

A administração já ameaçou para a deslocalização da produção do novo carro para fora de Portugal, podendo ir para a pátria-mãe da empresa... O número de veículos a sairem da ‘autoeuropa’, em 2018, seria de 240 mil carros, isto é, mais do dobro dos produzidos no ano passado...

É digno de registo que se diga que esta empresa multinacional contribui com 1% do produto interno bruto português, num valor de 1,500 milhões de euros. 

= Diante deste conflito há questões que se podem/devem colocar:

* Esta situação surge nas vésperas duma festa dum órgão partidário com grande participação popular. Será isto um bom mote de reivindicação para destoar da (pretensa) concórdia que reina na geringonça? Será coincidência ou articulação?

* Há vozes doutras colorações partidárias (de esquerda) que se insurgem contra o timing do assunto. Será que é uma guerra de protagonismos entre forças sindicalistas? Quem saiu não soube ou não foi capaz de deixar continuação na harmonia laboral?

* Atendendo às múltiplas pequenas empresas que estão dependentes da ‘autoeuropa’ – dizem que haverá mais 50 mil empregados adstritos – dá a impresão que, se algo acontecer de nefasto, a zona sul do Tejo viverá uma crise social e económica muito grave. Os reivindicadores estarão a pensar pela sua cabeça ou serão antes manipulados pelos mentores sindicais afetos à destruição dos meios de produção? Ainda não se aprendeu com outras situações ligadas ao setor de produção?  

* Neste como noutros casos do passado de quarenta anos de democracia, temos visto que, na hora da festa todos estão a fazer barulho, mas na hora da desgraça a maioria fugirá como baratas ou ratos de porão. A quem interessa desfazer o que custou tanto a construir? Não continuaremos a andar enganados por certas forças abutres, que se alimentam dos restos dos mortos e se comportam como necrófilos abjetos sem lei nem ética?  

= Fique claro: que se, no futuro próximo, se verificar o colapso deste empregador não venham solicitar ajuda às entidades socio-caritativas geridas pela Igreja católica: vão pedir ajuda àqueles que os enganaram e os usaram para fazerem o jogo da destruição do seu bem-estar. Não venham como argumentos melicosos de ‘ter tempo para a família’, pois uma parte desses empregados da ‘autoeuropa’ usam o tempo extra-trabalho para tudo menos para a família...

Por favor: não se deixem enganar, mas usem a cabeça com o mínimo de racionalidade e não o estômago com excesso de frivolidade!

O assunto é sério em excesso para ser tratado como diversão estival com implicações lá para a primavera. Temo que, quando acordarem, já seja tarde e estejamos todos a carpir as mágoas de quem só sobrevive sobre a miséria e a pobreza alheias.

Tantos anos depois, é hora de acordar, sabendo que é amigo ou inimigo do povo e dos trabalhadores... essas entidades que tantos evocam, mas tão pouco conhecem, de verdade!

 

António Sílvio Couto



terça-feira, 29 de agosto de 2017

‘Índex’ de género…à portuguesa


Por orientação do ministro-adjunto, que, por seu turno, recebeu recomendações duma tal ‘comissão para a igualdade de género’, uma editora foi forçada a retirar duas publicações dos postos de venda… onde já estavam desde o ano passado.

Deste modo a tal cig quis dizer, pela voz altissonante do governante, que as tais publicações destinadas uma para rapazes e outra para raparigas – com idades entre os 4 e os 6 anos – podiam conter mensagens que seriam promotoras da diferenciação e desvalorização do papel dos masculinos e dos femininos nos espaços públicos e privados, conforme se entenda cada uma das funções, seja nos arquétipos, seja naquilo que a ‘igualdade’ (dita) ‘de género’ pretenda veicular, impor e doutrinar. 

= Fique desde já claro: não reconheço, de forma alguma, ao estado a faculdade de dizer o que se deve ou não publicar…seja em que setor for ou abrangendo os campos em que acha que deve atuar, patrocinar ou mesmo subsidiar. Talvez a editora tenha soçobrado àquela recomendação fascizante porque precisa daquele público-alvo para se manter na ribalta. Talvez no papel de mandante das políticas educativas, quem governa possa considerar que deva ‘exigir’ que os executores práticos se amedrontem quando está em causa o futuro da atividade editorial. Talvez os conluios entre as ideologias orientadoras e manipuladoras dos reinantes se tenham sobreposto à iniciativa privada, pois as forças componentes da geringonça – já sabemos por outras posições – abjuram-na como os islamitas ao toucinho… senão em privado ao menos em público. 

= Quem conhece as reações da maioria dos portugueses/as saberá que aquilo que é proibido, é bem mais apetecido. Ora, com aquela reação desproporcionada das autoridades – mais parecendo tiques de autoritarismo – as ditas publicações com exercícios para rapazes e para raparigas devem ter disparado nas compras, mesmo que as remessas tenham sido colocadas em armazém. Tanto quanto foi percetível os exemplos apresentados sofrem de manipulação e muitas das páginas não passam de interpretações de duas ilustradoras gráficas com visões diferentes, por sinal ambas no feminino… Haverá assim tanto mal em identificar os rapazes com o azul e as raparigas com o cor-de-rosa? Que cores serão mais adequadas: o espetro do arco-íris (símbolo do movimento lgbt) onde tudo se mistura e confunde ou o branco/preto, com o cinzento como recurso a gosto? 

= Temos vindo a viver, desde há alguns anos – e não é só nos dois últimos – a uma crescente tendência em colocar muitas das iniciativas culturais, sociais e solidárias sob a alçada dos poderes estabelecidos, condicionando a sua realização ou dependendo cada vez mais dos subsídios de quem controla a torneira dos dinheiros usados em favor do público. Quem destoar da ‘normalidade’ arrisca-se a ficar sem possibilidade de levar a efeito as causas em que possa estar empenhado. Contrariamente ao que seria desejável o que vem a público – mesmo nas publicações e outras atividades – nem sempre é o melhor, mas antes o que serve os interesses de quem manda ou aquilo se possa inserir na onda do mais aceitável…atendendo aos critérios previamente definidos por certos lóbis e ideologias…preferencialmente fora do quadro dos valores cristãos.

Assim, quem falar de homem e de mulher como pessoas sexuadas, complementares e personalizadas, poderá ser visto como ofendendo a ‘igualdade de género’, na medida em que este serve para dizer tudo e não falar de nada… Quem tiver a ousadia de referir-se aos meninos e às meninas poderá incorrer numa censura de discriminação, pois uns e outras ainda não ‘saberão’ bem a que género pertencem ou qual a roupa que poderão vestir tal o unissexo em que podem estar incluídos…   

= À boa maneira do índex medieval – onde as forças religiosas dominantes inseriam o que era proibido ler ou contactar – assim agora estamos a vivenciar um novo índex de género, onde se nota uma censura moral mais ríspida do que a do lápis azul do regime salazarista. De que cor será a escrita desta censura de género?

Já só falta que haja, nos livros publicados, um carimbo – sabe-se lá com que cor – onde se diga: visado pela cig, lgbt e governo!       

 

António Sílvio Couto



segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Contra as ‘touradas’, saboreando caracóis


Vivemos num tempo em que nem sempre a congruência é o melhor lema de vida. Uma boa parte das pessoas é, no mínimo, ilógica, pois combate umas coisas e logo, na curva mais próxima, desdiz-se, praticando o que antes contestava.

Fique claro e distinto: não sou a favor nem contra as corridas e largadas de toiros. Respeito quem tal cultiva, seja porque faz parte da sua cultura, seja porque se possa sentir necessitado de tal afirmação social.

É verdade que, nos tempos mais recentes, os dados apontam para uma diminuição do número geral das corridas de toiros, notando-se a sua realização, sobretudo, nas terras ribatejanas e nalgumas localidades alentejanas.

Recordo uma conversa de café em que alguém menos bem entrosado nestas coisas das lides tauromáquicas perguntou: aqui, quando são as touradas? Ao que o interlocutor ripostou: cá há corridas, touradas só se for na sua casa!

Esta subtileza de linguagem dá a entender que esta coisa de andarem a contestar as ‘corridas/touradas’ pode nem sempre ser tão límpido como se possa imaginar.

Que dizer de forças partidárias que se coligam para atos eleitorais, mas que defendem coisas tão díspares nas suas entranhas em assuntos como este? Será por conveniência ou por camuflagem em assumirem as suas posições contra as corridas de toiros? A quem interessa enganar com aglutinados ideológicos, que não passam de composições de circunstância e que não afetam realmente o mais pragmático da vida? 

= Tipificação de certas discussões sobre as touradas/corridas de toiros é poderem ser feitas à volta duma mesa, saboreando caracóis. Ora, se atendermos à forma de confeção destes ‘moluscos gastrópodes terrestres de concha espiralada calcária’, serão tudo menos bem tratados, pois são cozinhados vivos e em lume brando… assim dizem as receitas para quem desejar confecioná-los.

Não haverá algo que se torna um tanto risível perceber que as malfeitorias dadas aos caracóis são irreversíveis, mesmo que as infligidas aos toiros possam vir a ser fatais? Será que é devido ao tamanho dos intervenientes que as posições se tornam tão diversificadas? Não estaremos, mais uma vez, a tentar confundir incautos, pela simples motivação de que razões culturais se possam atropelar com os desejos dos defensores/detratores?

Tal como supra referi que nada me move a favor ou contra as touradas/corridas, assim fique anotado que nunca comi nem pretendo experimentar comer caracóis… Em ambos os casos considero-me fora de lutas ou de degustações, tomando estas posições, faço-o por respeito cultural e gastronómico mais básico.

Que dizer ainda dos que apreciam lagosta: esta é cozinhada também viva e sob fogo bem mais acutilante dos que as farpas das corridas de toiros. Também aqui poucos filosofam sobre a tortura perpetrada contra tais crustáceos, pois lhe apensam estatuto económico e social, ao menos na visão dos que a tais requintes não têm facilmente acesso… 

= Digamos: há, no contexto cultural, sociológico ou económico em que nos movemos, uma razoável diversidade de situações e de questões que não se resolvem com posições de estar a favor ou contra, desde que isso possa ser aproveitado por alguns mais inflamados para a luta ideológica mais primária.

É certo que temos vindo a evoluir sobre alguns problemas de natureza humana mais essencial. No entanto, pululam por aí algumas incongruências bastante subtis: vermos os mesmos defensores da abolição das touradas/corridas a considerar o aborto como algo aceitável e recomendável, tanto na teoria como na prática. Não estaremos em campos diferentes na cultura da vida? Não andaremos a tentar resolver problemas individuais com regras generalistas? Não haverá confusão de planos ou essa turbulência torna-se razoável desde que se misturem propositadamente os valores em causa ou em risco?

Defendo que os valores culturais são respeitáveis e que podem e devem ser cuidados, na medida da nossa capacidade de compreensão. No entanto, nunca poderemos perder de vista que o nuclear da nossa cultura é a pessoa humana, tudo o que a possa ofender deve ser rejeitado. Será que cada um se respeita a si mesmo?       

 

António Sílvio Couto



quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Seguros ou em segurança?


Desde 2010 já houve 66 atentados terroristas de grande alcance em diversas partes do Planeta, mas com alguma (2,5%) incidência em países de cultura ocidental.

Vejamos os números por anos: 2010 – cinco; 2011 – seis; 2012 – dois; 2013 – cinco; 2014 – dois; 2015 – quinze; 2016 – catorze; 2017 (até meados de agosto) – dezassete. A longa e pormenorizada lista está disponível em consultas da internet, dedicando dados e situações em cada um dos que podem ser úteis e convenientes ler e reler, não por curiosidade mórbida mas que nos dará um enquadramento de vários aspetos atinentes em cada caso…

Segundo dados disponíveis, os atentados terroristas verificaram-se, em dois terços (75% dos casos) nos seguintes países: Iraque, Afeganistão, Índia, Paquistão, Filipinas, Somália, Turquia, Nigéria, Iémen e Síria. Seis dos dez ataques mais letais foram reivindicados pelo grupo autodenominado ‘estado islâmico’… embora outros grupos – islamitas ou não – se assumam como praticantes desta atividade inumana! 

= Quando é noticiado um desses ataques vivemos, imediata e socialmente, uma espécie de pandemia securitária (quase) sem racionalidade, gerando desconfiança sobre tudo e para com todos, particularmente para com pessoas que possam assemelhar-se aos autores de tais barbaridades. Uns dizem que aquilo que temos e muito do que está a acontecer é resultado da abertura à miscigenação de culturas e de povos, entrando nos países pessoas que nem sempre estão bem-intencionadas… Outros consideram que tais atentados são fruto dalguma confusão do mundo ocidental, tão aberto nas suas opções laicistas, que os ‘religiosos’ muçulmanos não entendem e combatem a ferro-e-fogo os arreligiosos infiéis... Outros ainda parece que não compreenderam que a globalização trouxe riscos e desafios, muitos deles semeados de maior ou menor turbulência social e ideológica…embora venha sacudir o materialismo de vida de muitos que lançaram pétalas de nenúfar onde o elefante agora pisa sem dó nem piedade…  

= Apesar de tudo há perguntas que podem e devem de ser colocadas: será que nós, portugueses, estamos seguros ou em segurança, mesmo que estejamos neste canto da Europa? Será que continuaremos mais ou menos imunes a esta vaga de atentados? As medidas (já) tomadas serão capazes de dissuadir quem deseje praticar algum atentado? Será com pilaretes em ferro ou cubos em betão que estaremos mais seguros?

A nossa mentalidade um tanto laxista poderá ser paga com façanhas pouco abonatórias da capacidade preventiva, pois não estamos a lutar contra forças devidamente identificadas – embora possam parece mais ou menos conotadas – e que se escondem sob a capa de convivência e da bonomia à portuguesa.

Nota-se uma razoável e crescente islamização tácita da nossa sociedade, com aberturas nem sempre calculadas e com corifeus de boa vontade, que na hora da desgraça se encolherão sob a capa do anonimato. Não basta receber os dinheiros de certos investidores, é preciso saber donde são provenientes e quais as consequências de lhes abrirmos a porta com tão à vontade que mais parecemos passarinhos enfeitiçados por serpentes enleadoras… Cuidemos da segurança com atitudes de vigilância e não como remendadores de fazenda em pano-cru… Embora sejamos um povo pluralista temos de ir aprendendo com os erros de tantos outros que não souberam nem quiseram tomar medidas adequadas à gravidade da situação…  

= Não deixa de ser preocupante e sintomático, que, neste país, quem previna contra erros de abertura e contenção na liberdade de expressão, logo possa ser rotulado de racista, xenófobo ou com outros epítetos que têm tanto de vulgares quantos de insidiosos. E nem os (pretensos) defensores das minorias – muitas das vezes não respeitadores dos outros que não se reveem nas suas atitudes – se julguem acima de qualquer insuspeita, pois poderão estar a fazer o jogo daqueles que pretendem infetar a cultura ocidental, tentando impor aos outros o que agora lhes permite defender quem tal não desejam. Há minorias que de democráticas não têm a ponta de nada, dado que na sua ânsia duma dita liberdade condicionam a liberdade alheia e no desejo de serem diferentes se tornam pequenos ditadores…dentro ou fora do parlamento e por entre jogos de poder.

Segurança, sim; seguros sem condições, não!     

 

António Sílvio Couto



segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Aprender a benzer-se!


Dizia-me um padre já bastante idoso – morreu nonagenário e foi pároco até depois dos oitenta anos numa das paróquias mais extensas da diocese de Setúbal – que se queria saber diante de quem estava, numa assembleia reunida em razão dalgum sacramento ou sacramental, bastava-lhe estar atento à forma como as pessoas se benziam, logo no início… aquilo era o termómetro.

Recorro com alguma subtileza a este critério ‘pastoral’, sobretudo quando estou na presença de pessoas que vem celebrar o batismo e isso me leva a perceber, desde logo, que o melhor a fazer é explicar – com gestos e observações simples – o significado do benzer-se e qual a relação com o batismo.

Disso passarei a deixar por escrito esta breve condução de algo tão básico quanto essencial… Dar-me-ei por satisfeito se mais aqueles aprenderem correta e significativamente a correlação do benzer-se assumido com o batismo comprometido, num verdadeiro ato de fé pessoal e comunitário. 

= Desde logo reparemos no gesto que faz uso do sinal em forma de cruz, enquanto traçado desde a cabeça até aos ombros, passando por sobre o tronco: a cruz – o cruzamento entre o que vem do alto e a condição horizontal, isto é, o mistério da encarnação, Jesus o Verbo encarnado e redentor, e a nossa condição fraterna e em caridade, que nos leva uns aos outros a estarmos em sintonia de vivências. Quantas vezes vemos serem feitas tais garatujas que ficamos sem saber em que é que cada um acredita ou qual o objetivo de tais (quase) simulações! Ao vermos certos jogadores de futebol a fazerem tais gestos fico com a sensação de que algo lhes vai na alma, mas que não se exprime lá muito bem na representação! Por vezes a assunção duma certa fé cristã pode tornar-se boa oportunidade de evangelização, mas devia ser bem feita e com sentido apropriado! 

= Usamos, ao benzer-nos, as mesmas palavras que são proferidas no ato de batizar. Por isso, sempre que dizemos, rezando: ‘em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo’, estamos a ir à fonte batismal, naquilo que isto tem de essencial e refontalizador, tanto da nossa fé quanto da nossa condição de vida cristã. Algumas vezes, quando as crianças já são um tanto capazes de entender, perguntamos-lhes se já sabem comer com os utensílios adequados (faca, garfo, colher, etc.) e quem foi que lhes ensinou a manusear tais instrumentos… ao que respondem, normalmente, que foram os pais… assim, lhes dizemos que estes devem ensiná-los a benzer-se, ao menos, de manhã e à noite… 

Devemos atender que na invocação das Pessoas da Santíssima Trindade não as estamos a enumerar, colocando a vírgula entre a primeira e a segunda, mas a coordenar, isto é, dizemos entre as três pessoas divinas ‘e’, numa conjugação de singularidade entre ‘o Pai e o Filho e o Espírito Santo’, fazendo-o numa atitude de invocação e de evocação, isto é, de invocação sobre nós mesmos das Pessoas trinitárias e de evocação desse momento do batismo em que tais palavras foram proferidas especificamente pela primeira vez sobre cada um de nós. 

= Vejamos os gestos e a sua coordenação com as Pessoas divinas, envolvendo três das grandes componentes (faculdades) da pessoa humana – pensar, querer e amar:

* ‘em nome do Pai’ e tocamos com a mão direita sobre a cabeça – com isso estamos a entregar e a submeter a nossa inteligência a Deus que é Pai: n’Ele, por Ele e com Ele queremos que tudo quanto pensamos – agora, no passado ou no futuro – possa ser de Deus e para Deus. Quantos pensamentos, memórias e desejos podem e devem ser entregues a Deus de cuja paternidade somos e vivemos como filhos…

* ‘e do Filho’ e fazemos descer a mão por sobre o tronco até à altura do umbigo, envolvendo exteriormente todo o aparelho digestivo, com os órgãos que lhe estão adstritos, numa ligação ao sistema volitivo mais alargado e com incidência nalguns dos reguladores do nosso corpo, como fígado, rins… Tal como Jesus, o Filho, fez sempre a vontade do Pai, assim cada um de nós quer fazer a vontade de Deus, hoje.

* ‘e do Espírito Santo’, traçando dum para outro dos ombros o sinal horizontal da cruz, passando por sobre o coração, colocamo-nos na entrega ao Deus de amor, manifestado no e pelo Espírito Santo, para vivermos o amor de Deus… de forma simples e comprometida.  

 

António Sílvio Couto



quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Quando ter opinião cria problemas


Das caraterísticas mais usuais dos nossos dias é a do não ter opinião (clara, assumida e fundamentada) e ainda de não se comprometer com aquilo que se pensa e o que se diz. Para muita gente é mais fácil não ser a favor nem contra, antes pelo contrário… Vemos por aí a pulular uns (pretensos) independentes – alguns dizem deles que são mais dissidentes – para os quais tudo vale, tudo serve, tudo é aproveitável, desde que sejam eles, à partida, os possíveis vencedores…

Ora ter opinião exige que se seja, desde logo, capaz, de estar minimamente informado; de ter tempo e capacidade de reflexão dos prós e dos contras; de partir duma linha de princípios e não de meras conjeturas e suposições; de viver enquadrado neste tempo e não como saudosista do passado ou instável sobre o futuro; de não partir de preconceitos seja contra quem for, mesmo que possa pensar e de agir de forma diferente; de fazer crescer com o possa exprimir na sua opinião e não a atirando sugestões para que outros possam executar… Numa palavra: ter opinião pode criar problemas porque quem o faz se expõe e se revela, podendo criar problemas senão mesmo adversários ou talvez inimigos…  

= Desiluda-se quem pense que o assunto agora aqui trazido seja resultado da obnubilação estival de temas para refletir. Bem pelo contrário: como indicarei infra, esta questão decorre da necessidade em explicitar a orgânica mais subtil do tratamento de várias das vertentes em que tento colocar a perspetiva cristã na abordagem, leitura e interpretação de assuntos onde a fé cristã tem de ser colocada… em compromisso.

Talvez nem todos/as aceitem a forma como vemos e lemos os assuntos trazidos à liça do nosso dia-a-dia. Talvez haja quem nem leia o que é escrito por ver quem assina tais reflexões. Talvez julguem que é quase sempre do mesmo o que se pretende veicular. Talvez possa até parecer que o exercício em escrever como que adquire a função terapêutica de verter em letra o que ocupa a mente… Sim tudo isso e muito mais está subjacente à necessidade que tenho em refletir, por escrito, sobre muitos assuntos da vida e que espero que sejam para a vida…              

= Quem se pronuncia sobre o tema da vida e da família, desde logo, pode incorrer em censura por parte de muitos dos interesses que tais questões colocam. Com efeito, os assuntos de natureza ética/moral andam hoje tão maltratados que será preciso conhecer os autores para acreditar nos conteúdos difundidos. Nem que seja de forma simulada dá a impressão que muitos dos mentores – cognominados de ‘opinion makers’ (fazedores de opinião) – de tais questões são comparáveis a assaltantes que têm a propriedade de legislar sobre os assuntos em que depois podem vir a ser julgados e, com isso, criarem condições para legitimar o seu comportamento e até para atenuar as penas a que podiam e deviam ser condenados…

Repare-se nas tentativas de mudança de terminologia sobre os temas da vida e da família: género em vez de sexo; progenitor substituindo pai e mãe; união de facto (tácita ou declarada) como equiparado a casamento e isto ainda que tentando atingir o âmbito do matrimónio; casal num equívoco com parelha; família como expressão de caraterísticas a gosto…

Quem tiver ideias claras e distintas, segundo os valores do cristianismo, não pode deixar-se ludibriar com tais ‘conceitos’ feitos à custa/medida de interesses de lóbis mais ou menos assumidos, embora muito barulhentos e capazes de fazer passar a ideia de que tudo está diferente, embora continuem a faiscar conflitos entre os beneficiados com tais folclores luzidios quanto baste! Porque são censurados, na maioria da comunicação social, os conflitos entre acasalados do mesmo género/sexo e se difundem com estrondo os que atingem os heterossexuais? Viverão todos num conforto de entendimento ou nada se passa porque não se noticia? 

= Não deixa de ser minimamente preocupante que, por estes dias, se continuem a cunhar clichés – racista, xenófobo, homofóbico, discriminação, etc. – quando alguém pensa de forma diferente do ambiente amoral em que nos vamos entretendo. Não deixa de ser perigoso que uns certos ideológicos tenham cobertura para dizerem o que lhes apetece e sejam marginalizados os que não se deixam guiar pela bitola do amoralmente aceitável. De facto, o sal perdeu o sabor e só serve para estrumar o que resta… de imundície!

 

António Sílvio Couto



segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Campeonato ‘play station’…à portuguesa?


A ver pelos primeiros jogos – incidências, reações, efeitos e projeções – a introdução do dito vídeo-árbitro no campeonato principal de futebol, em Portugal, poderá ser uma espécie de versão de play station com jogos a sério, com resultados a gosto e até com defensores e detratores com razões de queixa sem grande dificuldade.

Se atendermos, desde logo, a quem faz a transmissão televisiva – nem sempre é o mesmo operador – difundida, poderemos colocar o tal juízo dos que controlam diante do écran sob suspeita ou mesmo sujeita a erro…desde que possa prejudicar com quem não simpatizo e talvez beneficiar quem move a minha paixão clubística… 

= Esta vaga dum tal ‘cientismo’, que deseja não errar, poderá tornar-se um obstáculo a que se continue a laborar na certeza das decisões. Mas se são humanos os que ajuízam a partir do que veem na transmissão televisiva, o tal erro de arbitragem está sempre subjacente… mesmo que possa ser atenuado/corrigido segundos depois.

Será ainda de nunca esquecer que os jogadores são pessoas e não bonecos numa figuração articulada com os desejos dos mentores das vitórias tenham o custo que possam apresentar. Como humanos os jogadores não podem se colocados como autómatos duma play station feita em série e a contento dos fabricantes/donos… 

= Uns tantos reclamam a ‘verdade desportiva’ e querem-na como fator de atuação a régua e esquadro feita nos estúdio sem a envolvência do barulho do estádio – trocar estúdio por estádio tornaria o jogo mais certinho, mas sem o rigor da intervenção dos jogadores e até dos cheiros próprios de quem não teme sujar-se em vez do fato de comentador irrepreensível, mas inócuo, incolor e indolor… isso não seria futebol!

Quem assiste ao ‘jogo-falado’ de certos comentadores, que se pronunciam após o resultado já feito, torna muito daquilo que se diz quase vergonhoso senão mesmo imoral… Vimos isso por parte dum desses comentadores, que na hora do jogo estava na conversa à mesa com adeptos seus, mas quem o ouviu – no dia seguinte – a pronunciar-se sobre a tática, as jogadas e mesmo o resultado, dava lições de bom futebolês… dentro do seu assumido clubismo!  

= Para além do fervor/paixão com que tantos adeptos vivem o futebol, há uma grande indústria em volta deste (dito) desporto-rei – porque muito popular, bastante praticado e mesmo discutido – no nosso país. Sem nos darmos na devida conta quem ocupa o poder serve-se do futebol para entreter – há quem diga: manipular – o povo, que, assim distraído vai tolerando que se faça pelo futebol mais do que lhe é acometido. Quantos autarcas se revem do futebol para ganhar votos. Quantos industriais se fazem passar por beneméritos pelo dinheiro que dão ao futebol. Quantas tropelias se inventam para colocar o futebol como bode expiatório social.

Para certas pessoas – tanto homens como mulheres, mais novos e mais velhos, sem classes sociais nem níveis de instrução – o futebol tornou-se uma espécie de religião, desde os princípios até ao comportamento, passando pelos rituais e indumentárias… num colorido vistoso e, nalguns casos, a roçar o bizarro. 

= É digno de estudo o imenso tempo e espaço que o futebol – o resto dos outros desportos são quase mera nota de rodapé – na comunicação social, tanto escrita, como falada, televisionada ou radiofónica e mais recentemente nos espaços cibernéticos… Os lugares de discussão têm horas e locais, intervenientes e assistentes, num grande investimento económico e publicitário que gera, movimenta e catalisa milhões de euros diariamente. Por isso, introduzir com o vídeo-árbitro mais um ingrediente neste circo de feras – muito mais perigosas do que as que foram excluídas da exibição circense – é como que um tema que fará correr rios de tinta, gastar horas de emissão e gerar discussões e dissensões… quase até à exaustão.

Bem razão tinham os responsáveis romanos: demos ao povo e jogos e poderemos governar à vontade. Ontem como hoje pouco mudou, a não ser alguns figurantes!     

 

António Sílvio Couto