Partilha de perspectivas... tanto quanto atualizadas.



quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Litania cívica e social


Daquilo que vamos observando. Por aquilo que temos percebido. Com aquilo que fomos aprendendo... seja de experiência própria, seja por contato com outros/as, surgiu-me uma sugestão de litania (numa linguagem um tanto religiosa, ladainha) das coisas sociais e cívicas... mais ou menos visíveis ou subtis.

Os paralelos não são de exclusão, mas somente são colocados em proximidade, tendo em conta alguma afinidade e conjugação de conceitos.

São apresentados trinta e um invocativos, o que poderá ser uma espécie de um para cada dia do mês... A ordem é, manifestamente, aleatória. 

Dos orgulhosos e presunçosos, livrai-nos,

Dos preguiçosos e falsários, livrai-nos,

Dos mal-intencionados e interesseiros, livrai-nos,

Dos arranjistas e cobradores de favores, livrai-nos,

Dos bem-falantes e muito elogiadores, livrai-nos,

Dos maldizentes dos outros e auto-presumidos, livrai-nos,

Dos pretensos espertos, mas pouco inteligentes, livrai-nos,

Dos muito palavrosos e pouco dados a escutar, livrai-nos,

Dos faciosos, ferrenhos e fanáticos (do partido, do clube, da sua terra, da sua religião), livrai-nos,

Dos que não sabem perder nem reconhecem a vitória alheia, livrai-nos. 

Dos que se consideram imprescindíveis, quando já escusados, defendei-nos,

Dos que falam mais alto que todos, quando não têm razão, defendei-nos,

Dos que não honram a palavra, quando pretendem fazer-se passar por melhores, defendei-nos,

Dos que não reconhecem as qualidades alheias, mas se apropriam das ideias deles, defendei-nos,

Dos que têm mente maliciosa, projetando nos outros a sua ruindade, defendei-nos,

Dos moralistas que atacam, antes que se perceba a sua falsidade, defendei-nos,

Dos vaidosos que se ostentam, mas não honram os seus compromissos, defendei-nos,

Dos estrategas em tentar subverter em seu favor as conclusões dos maus atos, defendei-nos,

Dos incompetentes e corruptos colocados a mandar e com poder, defendei-nos,

Dos imbecis colocados a governar e com autoridade, seja qual for a instância, defendei-nos. 

Com os humildes, sábios e honestos, queremos aprender,

Com os que colocam o servir antes do reinar, desejamos crescer,

Com os que antes de dizer, sabem fazer, queremos conviver,

Com os que reconhecem os seus erros e compreendem os dos outros, pretendemos estar,

Com os que só têm uma palavra e uma cara, queremos saber aprender,

Com os que são leais e que vivem na serenidade, desejamos ser instruídos,

Com os que são sobretudo exigentes consigo e tolerantes com os demais, vamos construir,

Com os que valorizam o ser muito para além do ter, queremos caminhar,

Com os que antes de acusar, sabem perdoar com verdade, desejamos crescer,

Com tantos heróis e santos do passado, queremos estar em comunhão,

Com quem acredita no futuro, pretendemos caminhar...de olhos postos em Deus. 

Desfiada esta litania, deixamos que cada um faça a sua, acrescentando ou suprimindo aspetos que foram apresentados... Deixamos o nosso contributo!

 

António Sílvio Couto


terça-feira, 8 de agosto de 2017

Quando a chuva não vem…


79% do território de Portugal continental estava, em final do mês de julho, em seca severa e extrema, segundo dados do instituto português do mar e da atmosfera. Explicitando: àquela data, 69,6% encontrava-se em seca severa e 9,2% em seca extrema… Relativamente a dados de junho passado notava-se um desagravamento na região interior norte e um agravamento no interior do alentejo.

Atendendo a estes dados, o governo decidiu acionar um plano de prevenção, de monotorização e de acompanhamento dos efeitos da seca. Pelas informações obtidas 16 das 60 albufeiras do continente estão com a sua capacidade a menos de 40%. De entre as medidas a implementar situa-se a hierarquização do uso da água: para consumo humano, para dar de beber aos animais, seguindo-se as regas agrícolas, as lavagens urbanas, fontenários e viaturas… De salientar ainda a contensão no uso da água nalguns concelhos do alentejo e da beira interior com o recurso às restrições ou à distribuição da água através de autotanques…

O inverno foi de pouca chuva e a primavera foi muito quente e com pouca chuva, tendo atingido dois terços do valor médio para esses meses do ano… Desde 1931 que não tínhamos uma primavera tão quente, sobretudo nas regiões norte e centro do continente. 

= Diante destes dados há questões que têm de ser colocadas, mesmo segundo a nossa capacidade cívica e o sentido do bem comum.

* Desde logo é do mais elementar sentido dos outros considerar que ter sol para ir para a praia é considerado ‘bom tempo’, como se a água que há de atenuar a sede seja um recurso inesgotável e se possa negligenciar o seu uso racional e atendendo a todos e não só aos interesses individuais…

* Corremos o perigoso risco de olhar para a tragédia dos fogos (florestais ou outros) como se fossem coisa que atinge os rurais e outros que não têm a sorte de irem de férias… Isso será lá longe e que não me fazem considerar que todos haveremos de sofrer com tais anomalias.

* Que me importa afligir-me com os problemas dos outros, se eu for gozando a minha vidinha, à margem daquilo que me não interessa… Também isto continua a revelar o grau de egoísmo com que nos vamos entretendo. Com efeito, as sirenes dos bombeiros já não nos fazem distrair da consulta, pelos meios de informações digitais, ao longe dos acontecimentos gerais, mas que me passam desapercebidos à minha porta ou até dentro da minha casa…  

= A água sempre foi um fator de desavenças. Vejam-se as guerras pela conquista de espaços onde havia água. Reparemos nos conflitos de vizinhos pela posse de água para o cultivo dos campos. Quantas vezes as civilizações vingaram em espaços com água, normalmente junto de rios ou à beira-mar.

Se há cem anos nos dissessem que a água corria risco de ser doseada ou mesmo de não ser inesgotável, consideraríamos que estavam a tentar enganar-nos, senão mesmo a tentar manipular-nos com dados não-corretos. Mas hoje sabemos e concordamos que a água é um bem precioso e que exige um bom uso e correto aproveitamento, tanto ao nível público (social) como privado (doméstico).  

= Talvez alguém possa considerar o aspeto que vamos referir de seguida como um tanto desprezível, anacrónico ou até demasiado fideísta para ser tido em conta… neste tempo em que achamos que somos uma tal sociedade racional/racionalista. Falamos das súplicas pela chuva, que, em tempos não muito distantes, eram usadas por ocasião dum prolongado tempo de seca.

O missal romano tem uma proposta de missa para ‘pedir a chuva’, inserida na seção ‘diversas circunstâncias da vida social’… Ora, quando tantos se acham capazes de se apropriarem das forças da natureza, o crente católico coloca-se na humildade em reconhecer que até a chuva – dom de bênção divina – está ao serviço dos humanos como algo benéfico concedido por Deus na sua magnanimidade para com todos, incluindo a natureza. Talvez valha a pena recordar o episódio de ter sido lançada a proposta de oração para pedir a chuva. Ao que, quem dirigia a oração, ripostou: vem pedir chuva a Deus e não trazem guarda-chuva… Assim saibamos ser humildes e sinceros!      

 

António Sílvio Couto


quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Futebol: escravatura de luxo…


Como de costume a época de transferência no mundo do futebol – por ocasião do verão e mais tarde no inverno – fervilha. Cada ano as verbas envolvidas crescem em quantidade e em escândalo. Se, no ano passado, pagar cem milhões de euros por um jogador deixou todos admirados, que dizer dos mais de duzentos milhões gastos com um futebolista que sai de Barcelona e vai para Paris?

Diga-se desde já que esta escravatura – compra e venda de pessoas como se fossem coisas e, nalgumas situações, um tanto animais – se torna abjeta, incoerente e vergonhosa. Para quem considerava que os escravos eram mercadoria de quem os donos dispunham a bel-prazer, que dizer de tudo isto que envolve pessoas vendidas/compradas em razão duns certos malabarismos com a bola e na destreza dos pés? Esta mercadoria humana perdeu os direitos a que tem o resto dos que não jogam à bola? Até onde irá subir o descalabro ou cair a soberba?

De facto, a ‘indústria do futebol’ – ou será que se tornou mais comércio? – envolve muito dinheiro, faz carburar muitos interesses e catalisa intuitos de multidões manipuladas e manipuladoras. Quando o dinheiro se torna o motor da vida de tanta gente, quase se percebe que o jogador de futebol se tornou mesmo coisa à qual se presta atenção enquanto rende e que se torna descartável quando as faculdades artísticas enfraquecem… na maioria dos casos. 

= Tentemos ver os números, tendo em conta outros artistas não tão bem pagos, embora muito melhores. Diz-se que Neymar, pela venda anunciada, vale 47 vezes Maradona. Quem não se recorda do ‘espetáculo’ que foi de contestação a Figo, quando ele trocou Barcelona por Madrid e o apelidaram de ‘pesetero’, isto é, cultivador de pesetas, pessoa que deserta para o inimigo. Que dizer de tantos outros vendidos e renegados? O dinheiro e a (dita) profissão falam mais alto e mais fundo! Haverá honra e honestidade em tantos dos casos conhecidos?

Na lista dos jogadores mais caros encontramos: Neymar (222 milhões de euros), Pogba (105 m), Bale (100 m), Ronaldo (94 m) e Higuain (90 m)… e daí para baixo vemos um role de vedetas em continua ebulição, trocando-se, sendo transacionadas como se fossem mercadoria em feira de vaidades e com muita esperteza à mistura… por aqui deambulam empresários, presidentes de clubes, fornecedores de material desportivo, merchandising e claques, estádios e centros de treino, canais televisivos e jornais, sócios e adeptos… e tudo o resto que gravita em volta deste mundo que, por ser tão complexo, pode servir para lavar dinheiro, inventar e vencer eleições… e, sobretudo, entreter, manipular e enganar o povo, que, enquanto vive essas coisas, não vê nem está atento a quem o governa mais ou menos de forma ganhadora… 

= Nos últimos tempos temos vindo a ser confrontados com problemas de cariz tributário por parte dos jogadores e de seus agentes. Uns parece que têm fugido aos impostos, não do seu trabalho direto no campo desportivo, mas tendo em conta outras áreas por onde vão ganhando uns cobres, tanto ou maiores do que os auferidos na disputa da bola com os adversários… tais como: uso de imagem, serviços de publicidade… promoções, campanhas e adereços de comercialização.

Pelos valores envolvidos – dá a impressão que em certos países tentam captar sobretudo os estrangeiros mais famosos e rentáveis – podemos perceber que o pagamento das multas será um das formas de angariar fundos para as finanças e de dar a impressão que poucos escapam ao controlo…Não deixa de ser preocupante o circo montado para dar cobertura aos faltosos, pois uma simples inquirição transforma-se num espetáculo mediático sem pejo nem critério… Por aqui se vê a força do submundo do futebol, distraindo do essencial e concentrando as atenções na espuma doutros factos humanos e sociais. 

= Mesmo de forma despretensiosa questionamos: onde está em tudo isto o desporto? A quem interessa polarizar as atenções no luxo que gera e não no lixo que fomenta? Porque temos de ser intoxicados com este produto informativo, quando há tantas outras questões a necessitarem de reflexão?

Daqui a alguns anos seremos condenados – como fizeram outros para com a escravatura passada – pelo silêncio cúmplice com que temos tratado este assunto… tão rendoso economicamente!  

 

António Sílvio Couto





terça-feira, 1 de agosto de 2017

O homem da camisa vermelha


O ainda presidente da Venezuela, na linha do seu antecessor, apresenta-se normalmente vestido com roupa de cor vermelha/encarnada, numa simbologia ideológica marcante…tal como noutras paragens e com intérpretes diferentes.

Nota-se no estertor dum regime em grave crise, que algo corre mal num país que já foi rico e que atraiu milhares de portugueses, que, por estes dias, vão fugindo em regresso à mãe pátria, alguns sem nem falarem a língua de seus antepassados. Os que conseguem escapar dizem que falta de tudo – desde a alimentação até aos cuidados de saúde, passando pelo emprego e a paz social – lá onde o petróleo criou riqueza…até ao tempo em que foi nacionalizado e colocado ao serviço do poder popular… onde os apaniguados se vestem também com roupas de cor idêntica à do chefe.

Caído o sistema marxista nas paragens da Europa, simbolizado com a queda do ‘muro em Berlim’, em 1989, muito do que se propagandeava foi posto a nu dos critérios culturais e humanos de tal regime. Como se possa entender que agora ainda haja quem se sirva de tal ideologia para conduzir povos e nações, sabendo os resultados verificados? Não se viu, vezes sem conta, que a igualdade pretendida só serve uns tantos – nalguns casos chamam-lhe de ‘nomenclatura’ ou dão outra designação mais fascinante – deixando o verdadeiro povo – esse que não pensa como eles – à míngua do essencial?

Não deixa de ser sintomático e provocante que ainda haja propostas de querer fazer nas autarquias e em espaços de maior proximidade aquilo que – ideológica e politicamente – se viu que faliu pela raiz, deixando traumas em pessoas e em sociedades… O silêncio cúmplice – e nalguns casos a assunção pública de defesa – de certos dirigentes é questionante para com a seriedade das suas propostas e até os meios usados para atingirem seus fins… Como já se viu, quando são colocadas certas premissas, as conclusões serão idênticas às já tiradas. Por isso, é muito pouco recomendável à inteligência alheia quem assim trata os seus apoiantes… tenham a instrução que tiverem.  

= De facto, o que está a acontecer na Venezuela deverá ser para todos os que acreditam na expressão da vontade popular pelo voto democrático, um sério momento de reflexão sobre a consonância entre aquilo que se diz e o que se faz, pois não podemos servir-nos do voto para atingirmos os nossos fins e depois manipularmos os resultados até que consigamos reduzir os adversários à condição de amesquinhamento.

Por cá, nota-se de vez em quando, alguns que têm tiques desta ‘democracia de partido único’, desde que seja o seu, o vencedor. As tentativas – tácitas, subtis, claras ou subterrâneas – duns tantos sentem-se à distância, pois nem sempre aceitam a concorrência nem a diversidade de pensamento. Veja-se a (pretensa) força do coletivo, que mais não é do que aniquilar os diferentes, seja qual for o método… Onde estão os que não pensam como a maioria? Onde estão os que discordam, mesmo de forma livre? Onde está a liberdade para poder exprimir a discordância? `

À medida do que é suscetível de perceber há por aí muitas purgas e limpezas, por forma a que se dê a imagem da tal força do coletivo nem sempre democrático, por não-respeitador dos que não alinham na mesma corrente… 

= Num tempo tão propagandeante da democracia, vemos imensos sinais de ditadura, desde os mais capciosos até aos mais rocambolescos. Muitos dos ‘democratas’ são-no por trituração dos adversários. Muitos dos que falam de liberdade para si nem sempre a conjugam para com os outros. Muitos dos que defendem o direito de pensamento livre nem sempre dão tal oportunidade aos que pensam diferentemente.

Fique claro: não acredito em qualquer regime ou forma de governo que tente coartar a dimensão espiritual da pessoa nem que faça reduzir a condição humana só ao bem-estar materialista. Este é uma etapa e nunca pode ser um fim, pois seria condicionar a pessoa à sua fase meramente animal, mesmo que bem instalada e regalada sem atender, normalmente, aos outros.

Se Venezuela está em crise tão profunda não foi por falta de meios económicos, pois era um dos maiores produtores de petróleo. A crise é, sobretudo, cultural e humana, de respeito e de sensibilidade aos outros…        

 

António Sílvio Couto



 

sábado, 29 de julho de 2017

Saber a verdade (não) gerará confiança!


Nos mais diversos campos de atividade podemos constatar que a melhor forma de servir a confiança passa por falar e por viver a verdade, seja no modo verbal, seja na forma mais comprometedora que é a de ser verdadeiro, tanto na forma como no conteúdo.

Ora o que temos visto nos tempos mais recentes pode ser interpretado como o antagónico de tudo isso: imensos sinais nos levam a suspeitar que não nos dizem a verdade, ou que, antes, nos escondem factos e situações, numa espécie de simbiose entre a mentira e a manipulação… nos incêndios, nas notícias, etc.

Enquanto quem ocupa os postos de poder pretender sentir-se dono da verdade, poderemos viver na ingrata consideração de que alguém usa os lugares em que se encontra para ganhar ascendente sobre quem está fora desse âmbito privilegiado e, por isso, suscetível de ter benefícios sobre os outros…

Enquanto formos vendo que os afastados da cátedra do mando invetivam quem tal posto ocupa como se fosse um intento de sobreposição em vez de ser uma oportunidade de serviço… veremos que, mudados os ocupantes, a manjedoura continuará a atrair quem dela se aproxima mais ou menos ávido de tratar os demais como por agora são considerados…  

= No contexto social nacional temos vindo a viver episódios diversos onde quem está acima negligencia quem está em baixo…embora ainda recentemente tenha estado por cima. Decorrido o tempo de nojo da passagem pelo poder foi-se gerando nova apetência para voltar a ser dominante. Pena é que os tiques agora acusados não tenham sido vistos anteriormente, pois isso serviria de lição para entender quem subtrai informação ou quem apresenta laivos de ver de soslaio quem reclama com maior ou menor ruído…

Parece que se paga com idêntica moeda – embora se esteja em diferente lugar do espaço de negócio – o que antes foi feito e por agora se reverte sem nexo ou qualquer pejo de contradição.

Efetivamente a muitos dos atores destas ações – políticas, sociais, económicas e afins – falta memória e até alguma vergonha, pois, o que agora se pretende exigir, antes não foi atendido e o que agora é feito já foi contestado mesmo sem resultado… 

= No complexo espetro do nosso mapa psicológico nacional vemos, recorrentemente, surgirem uns tantos ‘salvadores’ duma pátria ensimesmada sobre o seu passado. Mesmo quando nos apresentam leituras otimistas do nosso presente coletivo, há como que, em cada um de nós, um ‘velho do restelo’ mais profundo que desconfia de tudo e de todos e que lança suficientes anátemas sobre algum sucesso realizado… Isto é ainda mais acicatado pelo clima de crispação recente e recorrente em que vamos vivendo. Deste modo a pretensa verdade não conseguirá manifestar-se em confiança, mas talvez em ceticismo tácito ou mesmo pírrico. Em boa parte das situações vivemos como que em desconfiança para com os outros, senão mesmo para com a própria sombra… Somos, por natureza, bastante pessimistas e acreditamos pouco nas nossas potencialidades… 

= Agora que dizem que o desemprego desceu a menos de dez por cento. Agora que dizem que a credibilidade económica subiu a níveis de há dezassete anos. Agora que tudo parece mais pacífico em matéria de contestação social e sindical. Agora que o sucesso parece que se antepôs, temporária e artificialmente, a trabalho, vamos tentar dizer a verdade uns aos outros para que se possa gerar a confiança uns nos outros e todos em que manda e em que contesta, mas pouco.

Antes que o país vá para saldos, alegremo-nos! Até breve, se ainda não pagarmos impostos por pensar e para podermos dizer o que queremos!   

 

António Sílvio Couto



segunda-feira, 24 de julho de 2017

Controlo da informação: porquê, para quê ou por quem?


Um dos tiques mais comuns das chamadas forças totalitárias é o do controlo da informação, condicionando, deste modo, o direito a ser livremente informado, a ver/escutar a versão que não somente a oficial, a antes de mais dar critérios de escolha e não somente uma visão única, a criar a componente de pluralidade e, sobretudo, a que não haja uma leitura uniforme da diversidade de perspetivas…dos acontecimentos.

De facto, no estertor da capitulação dalgum regime ou na composição dalgum sistema que faça com que a maioria pense o que quem manda desejar, o controlo da informação é um dos adjetivos que mais recorrentemente favorece quem manda, seja lá a instância que for… em que, quanto mais elevada possa parece, mais se podem ver tais fenómenos, por muito subtis ou mais disfarçados que nos apareçam ou sejam servidos.  

* Portugal apresenta um longo historial sobre esta matéria, desde o ‘lápis azul’ do regime anterior até às comissões sindicais mais ou menos zeladoras das publicações…em democracia, passando pelos condicionamentos com que tantas vezes a comunicação social – anteriormente a escrita, mas também a radiofónica e a televisiva – tem precisado de lutar para possa ser o mais livre e independente possível…  

* Poder-se-á dizer que quanto mais controlador for o regime ou o sistema de governação mais se tornará plausível entender que os tiques de ditador emergem nas opiniões formuladas ou encomendadas, nas fugas a prestar esclarecimentos, nas declarações sem direito a perguntas, nos comunicados de certos gabinetes de informação, no centralismo informativo, nos espaços publicitários ou nas demandas ao abrigo do direito de resposta…sem resposta.  

* Mais uma vez dizemos que ser a voz-do-dono pode trazer regalias, mas, por certo, não nos trará (maior e melhor) qualidade informativa e esta tem de ser procurada e não meramente limitar-se a reproduzir as frases exaltadas (e exaltadoras) dos gabinetes que cozinham as notícias, não podendo (ou devendo) fazer dos profissionais da área meros tambores de ressonância de quem manda…  

* Nos tempos mais recentes temos visto e sentido que muito daquilo que é a (dita) informação positiva sobre o país sofre deste complexo de branquear as dificuldades e fazer crer que tudo corre bem quando se encomenda tal promoção…E não aceito que chamem epítetos de sabor antinacionalista a quem não alinha nesta feira de vaidades e de mentiras… A prova de que algo não é sério nem credível é a de concentrar nas mãos duns poucos aquilo que pode interessar a todos, mesmo que isso possa ser a contragosto…de quem exerce o poder, hoje como ontem.  

* Não será por se estender um manto colorido por sobre todos os cidadãos deste país que viveremos muito mais do que uma paz que não seja podre e que teremos uma convivência mais ou menos tolhida pelo medo de destoar da maioria, mesmo que esta possa estar intoxicada pela informação que lhe servem… O nivelamento social tem caído mais e mais até à vulgaridade dos intervenientes e intérpretes anónimos ou mais relevantes.  

* Agora que vivemos uma espécie de jornalismo popular – onde cada cidadão se acha no direito de filmar, de gravar, de reproduzir ou de difundir – o que vê, assiste ou ouve…mesmo que possa atingir o foro particular mais pessoal de outrem…torna-se ainda mais importante que os profissionais da comunicação não se convertam em utilizadores acríticos dessa espécie de face-book mais ou menos tolerado e sem rede…desde que bajuladora do poder. 

= Quem tem tanto medo de que não falem de si senão for só bem? Quem tem andado a semear ventos, fazendo de conta que apazigua tempestades? Porquê, para quê ou por quem somos, afinal, controlados?

 

António Sílvio Couto



sexta-feira, 21 de julho de 2017

Ter apreço ou estar sob apreciação?


Do contacto que vou vendo com várias pessoas, em diversos lugares e até sob a designação de profissões diferentes nota-se que, em certos casos, as pessoas estão mais sob apreciação do que são, correta, honesta e sinceramente, apreciadas.

Talvez deva, desde já, fazer uma declaração de interesse – o mais desinteressadamente possível – sob quem vou centrar a atenção: os padres. Outrora muito apreciados e, nalgumas situações, mais ou menos adulados, parece que hoje se lhes não dá tão grande apreço como em antanho. Aquilo que era considerado como motivo de honraria – repare-se no destaque social do próprio e por vezes da família – talvez muitas coisas tenham sido revertidas em desfavor, senão explícito ao menos tácito. Em certos momentos isso como que fez criar um certo ambiente anticlerical…até por algum excesso de protagonismo e de posição dominante dos clérigos…ao menos no círculo mais próximo, aproximado ou em aproximação.

Relegados para uma certa penumbra social, os padres, atualmente, têm de ter uma vocação forte e fortalecida em questões muito para além do meramente natural. Hoje as sombras que pairam sobre as cabeças de tantos dos ministros da Igreja como que levam uma razoável maioria a tentar vulgarizá-los como se eles fossem homens do culto – preferencialmente no espaço do templo ou em tarefas adstritas ao social – e não tanto de cultura.  

* Nota-se, por parte duma razoável porção dos leigos, que andam pela Igreja, algum afastamento na apreciação que fazem dos padres que têm a responsabilidade mais direta do seu cuidado. Em muitas circunstâncias só notam a sua falta quando não têm os serviços pretendidos. Temos visto, nalgumas terras, que quem mais exige é quem menos dá, isto é, pretende-se receber e quase nunca se dá…nem o mínimo.

Quantas vezes quem mais parece estar na onda de quem é chamado a conduzir a comunidade dos irmãos como que se vai distanciando no entendimento das questões e mesmo na prossecução dos objetivos comunitários mais elementares… Pequenas divergências podem originar suficientes atritos e desentendimentos a roçar um certo neopaganismo de ideias e de práxis.   

* Acredito numa Igreja que viva a marca dos ministérios, tanto dos laicais mais simples como dos eclesiásticos mais elaborados. Não há que temer a complementaridade de todos e de cada um, pois será quando nos sentirmos e vivermos em sintonia de ideais que poderemos crescer e ajudar-nos a progredir na fé em comunhão e pelo perdão para a paz. Nunca por nunca um leigo deverá eclesiasticar-se nem um padre laicizar-se (no sentido pejorativo do termo), pois se tal acontecer corremos o risco de andarmos em funções trocadas senão mesmo concorrenciais…dentro ou fora do espaço eclesial.

Na medida em que formos refletindo sobre a Igreja que somos e qual é aquela que precisamos de ser…neste tempo e nesta terra, assim seremos capazes de viver no esforço de compreensão mútua, sem nos deixarmos ficar tropeçados nos erros pessoais e alheios. Na medida em que cada um saiba ocupar o seu espaço único e singular, assim teremos capacidade de fazer os outros crescer na maturidade espiritual cristã. 

* Deixamos agora algumas questões que poderão servir-nos para que possamos ser os cristãos – seja qual for a vocação, a missão ou o ministério – que vivem com vontade de construir uma Igreja que seja imagem e sinal da presença de Deus no mundo:

- Como nos aceitamos na diferença complementar e na complementaridade diferenciada?

- Teremos padres que o são por (total) vocação de serviço ou como chefia à maneira do mundo?

- A capacidade de evangelização dos leigos assenta na integração ousada ou na fuga medrosa do mundo?  

- A família sente-se como ‘escola de fé’ ou arrasta-se como refúgio descomprometido e sem sal?

- Pelo aconchego que se possa conceder aos padres, temos sabido ampará-los ou estamos mais em atitude de escorraçá-los pela indiferença?

- Somos bons na crítica ou vivemos na conversão à dimensão comunitária?

Do apreço à apreciação haveremos de crescer em Igreja, como Igreja e para a Igreja.

 

António Sílvio Couto